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22.6.14

O poema do oceano

Poema de Walt Whitman em "Folhas de Relva" (Ed. Martin Claret). Tradução de Luciano Alves Meira. O comentário ao final é meu.


Na cabine dos navios em pleno mar,
o azul sem limites em toda a direção se expande
com o assobio dos ventos e a música das ondas, as ondas grandes e imperiais,
ou alguma nau solitária que baliza a densa marina,
onde jovial, cheia de fé, abrindo suas velas brancas,
ela atravessa ao meio o espaço celeste, no brilho e na espuma do dia, ou sob o céu estrelado da noite,
entre marinheiros jovens e velhos serei eu, uma reminiscência da terra, lido,
em plena harmonia, afinal.

"Aqui estão nossos pensamentos, pensamentos de viajantes,
aqui não é a terra, a terra firme que aparece sozinha", possam eles dizer então.
"O arco do céu alcança aqui, sentimos o convés ondular debaixo dos pés,
sentimos a longa pulsação, o refluir e o afluir de um movimento sem fim,
os tons de um mistério nunca visto, as sugestões vagas e vastas do mundo salgado, as sílabas do líquido gracioso,
o perfume, o débil ranger da cordoalha, o ritmo de melancolia,
o panorama infinito e o horizonte longínquo e opaco estão todos aqui,
e este é o poema do oceano."

Então, ó livro, não hesites! Antes, realiza teu destino.
Não és a reminiscência da terra solitária,
tu também, como uma nau atravessando o éter – propósito mais claro do que o teu desconheço – repleto sempre de fé,
casa-te a todo navio que navega, navega tu!
Dá a eles o meu amor que vai depositado (queridos marinheiros, por vós eu deposito aqui o meu amor em cada folha);
Corre, meu livro! Espalha tuas velas brancas, minha ínfima nau, através das ondas imperiais.
Prossegue cantando, navega adiante, desentranha o azul infinito de mim e lança, em cada mar,
esta canção por todos os marinheiros e suas naus.

***

Por sugestão de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), acabei chegando a este outro grande poeta da alma, que me era desconhecido até pouco tempos atrás. Digo, apenas o nome dele me era desconhecido, pois os seus versos se parecem mais com a lembrança de alguma coisa muito antiga, ou quem sabe, eterna...

***

Crédito da imagem: wallope.com

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2.5.14

Reflexões místicas - uma entrevista com Joseph Campbell (parte final)

Uma entrevista com Joseph Campbell, por Tom Collins
Originalmente publicada na revista The New Story (1985)
Tradução de Gabriel Fernandes Bonfim; Revisão de Rafael Arrais

« continuando da parte 3


4. A modernidade e a carência de mitos

[Tom] Eu entendo que houve uma série de conflitos entre os conceitos religiosos ocidentais e orientais na igreja primitiva. Acho Pelágio [da Bretanha] uma figura fascinante, por exemplo.

[Joseph] O Pelágio do século IV era ou um galês ou um irlandês, eu acho. Ele manteve a tradição ocidental individualista contra o que eu chamaria o tribalismo do Oriente, e foi considerado um herege. Ele expos os principais argumentos contra as doutrinas nas quais Santo Agostinho, seu contemporâneo, era o campeão. Uma delas foi a doutrina do pecado original. Pelágio disse, “Você não pode herdar o pecado de outro. Portanto, o pecado de Adão não é herança de ninguém.”

[Tom] Os pecados do pai não recaem sobre o filho?

[Joseph] Isso é tudo filosofia oriental, não europeia. Outra coisa que Pelágio disse é que você não pode ser salvo pelo ato de um outro. Isto diz respeito a Jesus na cruz, e derruba toda a crença [de que ele veio “pagar nossos pecados”]. Claro que [sua ideia] foi rejeitada. Pelágio estava defendendo a doutrina da responsabilidade individual. Eu não sei de onde vem, mas certamente era típico, eu diria, dos europeus, em oposição aos pontos de vista orientais. Você era um indivíduo, e não apenas o membro de um grupo.

[Tom] Isso soa como aquele trecho na lenda do Rei Arthur...

[Joseph] “Cada cavaleiro adentrou na floresta num ponto que ele havia escolhido, onde ela era mais escura e não se via caminho algum.” – Isto vem de A jornada do Santo Graal [The Quest of the Sangral], de 1215, aproximadamente, na França.

[Tom] Como é que eles esperam encontrar o seu caminho, então?

[Joseph] Se aventurando.

[Tom] E é isso que todos nós fazemos na vida?

[Joseph] Sim. Caso contrário, você iria seguir o caminho de outra pessoa, seguindo por vias já desgastadas com as pegadas de tantos andarilhos. Ninguém no mundo jamais foi você antes, com os seus dons, habilidades e potencialidades. É uma pena desperdiça-los fazendo o que alguém já realizou anteriormente.

[Tom] Você disse certa vez que nenhuma sociedade humana foi encontrada onde os temas mitológicos não eram celebrados – “magnificados em canções e experienciados em êxtases de luz e visões”. O que dizer sobre a nossa sociedade?

[Joseph] O que aconteceu na nossa é que, a nível oficial a tônica recai sobre a economia e as práticas políticas, e tem havido uma eliminação sistemática da dimensão espiritual. Mas ela existe em nossas poesias e artes. Ela existe. Você pode encontrá-la aqui. Está em uma condição recessiva, mas do contrário as pessoas não teriam vida espiritual de maneira alguma.

[Tom] Ela não estaria viva também em algumas fases do movimento ecológico?

[Joseph] Sim. E esse interesse agora no folclore indígena americano, isso não é interessante? O povo brutalizado e rejeitado – e são eles quem trazem a mensagem pela qual este país tem esperado.

Há um provérbio terrível de Spengler, que eu li num de seus livros, “Jahre der Entscheidung”, “ano da decisão”, que são os anos em que vivemos agora. Ele disse, “Quanto a América, é um amontoado de caçadores de dólares, sem passado, sem futuro”. Quando eu li isso na década de 30 eu levei a mal. Eu pensei que era um insulto. Mas no que as pessoas estão interessadas? E então Lenin diz: “Quando estivermos a ponto de enforcar os capitalistas, eles irão competir para nos vender a corda”. E é isso que estamos fazendo. Ninguém está se importando com o que sua cultura representa. Eles estão se perguntando se o agricultor no Centro-Oeste vai votar ou não em você, por você ter vendido o trigo dele para os russos. É uma terrível falta de qualquer outra coisa que não preocupações econômicas, é isto o que estamos enfrentando. Esta é a velhice e a morte; o fim. Esta é a maneira como eu enxergo este assunto. Eu não tenho nada que não julgamentos negativos sobre ele.

Olhe para o que as pessoas estão lendo nos jornais. Você entra no metrô e as pessoas estão lendo todas sobre a mesma coisa – este assassinato, aquele assassinato. Este estupro, este divórcio. Observem os tópicos que não nos saem da cabeça! O foco jornalístico em nossas vidas é o assassinato. Assassinato!

[Tom] Você não vê tal conflito acabar? Não há nenhum tipo de ordem mundial que poderia nos trazer isso?

[Joseph] Ela teria que ser uma ordem mundial, mas então ainda haveria luta dentro dela, assim como há luta dentro de nossa ordem nos Estados Unidos. Nunca me apeguei a nenhuma ideia de revolução, pois já conheci revolucionários demais.

Nota do revisor: Eu penso que Campbell, em sua sabedoria, acreditava que a verdadeira revolução é a que ocorre dentro da alma humana, e não em seu exterior.

[Tom] Se os únicos mitos que existem então são aqueles em que todo o mundo acredita – Cristianismo, Judaísmo, Hinduísmo, Budismo – as pessoas não poderiam criar um novo mito, que atendesse as necessidades de hoje?

[Joseph] Não, porque mitos não vêm a existência dessa forma. Você tem que esperar para que eles apareçam. Mas eu não acredito que nada desse tipo vá acontecer, porque existem muitos pontos de vista dispersos ao redor do mundo. Todos os mitos têm estado até agora dentro de horizontes limitados, e as pessoas têm de estar de acordo com suas dinâmicas de vida, suas experiências de vida.

[Tom] Os gregos antigos foram cercados pela presença de deuses – pelas estátuas e as lembranças desses deuses.

[Joseph] Mas isso não funciona mais. O cristianismo não está movendo a vida das pessoas hoje em dia. O que está movendo a vida das pessoas é o mercado de ações e as pontuações do beisebol. O que tem interessado às pessoas? Há um nível de pensamento totalmente materialista que tomou conta do mundo. Não há mais nem mesmo um ideal pelo qual alguém esteja lutando.

***

Nota de Tom Collins (o entrevistador): Minha vez. Eu gostaria de adicionar meus comentários aos de Joseph Campbell que diz respeito à Bíblia [ver parte 3]. Minha intenção em incluir seus comentários não foi para desmerecer as tradições baseadas na Bíblia em relação a outras tradições importantes, como o hinduísmo ou budismo. Do meu ponto de vista, a literatura sagrada de todas estas tradições foi escrita em uma linguagem da era dos impérios, e está profundamente envolvida com a consciência dos senhores da guerra. Se quisermos avançar, precisamos olhar para estes textos com olhos claros, capazes de ver o chauvinismo tribal, o machismo, o militarismo, etc., pelo que eles são. Só então seremos capazes de traduzir a sabedoria que eles de fato têm, em uma linguagem renovada, adequada para a Era Planetária.

***

Nota do revisor: É sempre reconfortante e esclarecedor tomar contato com a sabedoria de Joseph Campbell, mas penso que o fim desta entrevista ressoou particularmente sombrio. Ocorre que, já nos idos da década de 80, o olhar atento de Campbell sobre a sociedade “sem mitos” já antecipava, ainda que intuitivamente, uma crise de sentido da modernidade (ou pós-modernidade, ou seja lá como queiram chamar) que só se revela em todas as suas nuances e conflitos no século XXI.

Creio que este trecho de uma breve entrevista de Eduardo Galeano aos jovens espanhóis que se manifestavam “contra o sistema que aí está”, na Praça Catalunya, há alguns anos, seja ao menos uma espécie de sinalização para alguma luz que chegará, espero, senão com a Primavera, ao menos com a Alvorada:

“Aqui vejo reencontro, energia de dignidade e entusiasmo. O entusiasmo vem de uma palavra grega que significa “ter os deuses dentro”. E toda vez que vejo que os deuses estão dentro de uma pessoa, ou de muitas, ou de coisas, ou da Natureza, eu digo para mim mesmo: “Isto é o que faltava para me convencer de que viver vale a pena”.

Então estou muito contente de estar aqui, porque é o testemunho de que viver vale a pena. E que viver está muito, muito mais além das mesquinharias da realidade política e da realidade individual, onde só se pode "ganhar ou perder" na vida! E isso importa pouco em relação com esse outro mundo que te aguarda. Esse outro mundo possível.

Este mundo de merda está grávido de um outro!

O mundo a espera de nascer é diferente, e de parto complicado. Mas com certeza pulsa no mundo em que estamos. O mundo que "pode ser" pulsando no mundo que "é". Eu o reconheço nessas manifestações espontâneas, como as desta praça.

Alguns me perguntam “o que vai acontecer?”; “e depois, o que vai ser?”. Pela minha experiência, eu respondo: “Não sei o que vai acontecer... Não me importa o que vai acontecer, mas o que está acontecendo!”. Me importa o tempo que “é”.”

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Crédito da imagem: Android Jones

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30.4.14

Reflexões místicas - uma entrevista com Joseph Campbell (parte 3)

Arte de Android Jones

Uma entrevista com Joseph Campbell, por Tom Collins
Originalmente publicada na revista The New Story (1985)
Tradução de Gabriel Fernandes Bonfim; Revisão de Rafael Arrais

« continuando da parte 2


3. A transcendência dos mitos

[Tom] O que o termo “transcendente” significa, na frase de Durkheim, “transparência para o transcendente”?

[Joseph] O significado simples do termo é aquilo que vai além de todos os conceitos e conceituações, ou aquilo que está além de toda conceituação.

[Tom] De onde vem esta experiência?

[Joseph] A sua vida é a sua experiência de energias transcendentes, porque você não sabe de onde sua vida vem, mas você pode experimentá-la. Estamos experimentando estas energias bem aqui, apenas por estarmos sentados nelas, sentindo-as borbulhar.

[Tom] Você está usando o “transcendente” como um outro termo para Deus?

[Joseph] Se você quiser personificar o termo. Brahman é a maneira sânscrita de falar sobre isso. Manitou é a forma dos Algonquin, Orinda a dos Iroquois, Owacan é a dos Sioux.

[Tom] Javé?

[Joseph] Javé é a personificação. Ele é isto que está além da conceituação.

[Tom] Não podemos falar o nome, no entanto...

[Joseph] Bem, assim deveria ser, mas sabemos tudo sobre ele, ou ele nos contou tudo sobre si mesmo e como devemos nos comportar. O conceito básico da mitologia é a transcendência da personificação. A personificação é uma concessão à consciência humana, de modo que possamos falar sobre essas coisas.

[Tom] Você quer dizer que, se o infinito se revela para você, sua pequena mente responde dizendo, “Deus falou comigo”, porque ela só pode entender o que aconteceu em seus termos limitados?

[Joseph] Isso mesmo.

[Tom] Eu percebo que você não é um grande amante da Bíblia.

[Joseph] Nem um pouco! É o livro mais excessivamente anunciado do mundo. É muito pretensioso para ser reivindicado como a palavra de Deus, ou ser aceito como tal e perpetuar essa mitologia tribal, justificando todos os tipos de violência a pessoas que não são membros da tribo.

O que eu vejo de mais lamentável no uso que fazem da Bíblia é que, apesar dela tratar de uma mitologia tribal circunscrita a um determinado local do mundo, e de lidar com um determinado povo em um determinado momento, os cristãos ampliaram isto para serem incluídos. Em seguida, tal interpretação coloca esta sociedade contra todas as outras, ao passo que a condição do mundo de hoje é que esta sociedade em particular, que é apresentada na Bíblia, não é nem mesmo a mais importante. Essa coisa é como um peso morto. Ela está nos puxando de volta, porque ela pertence a um período antigo. Não conseguimos nos soltar e nos mover para uma teologia moderna.

Uma das grandes promessas da mitologia é a que o leva a se perguntar: Com qual grupo social eu me identifico? E quanto ao planeta? Agora, afirmar que os membros deste grupo social em particular são a elite do mundo de Deus é uma boa maneira de manter tal grupo unido, mas olhe para as consequências! Acho que o que poderia ser chamado de chauvinismo santificado da Bíblia é uma das maldições do planeta nos dias atuais.

Nota do tradutor: “chauvinismo” é o termo dado a todo tipo de opinião exacerbada, tendenciosa ou agressiva em favor de um país, grupo ou ideia.

[Tom] Há muito material interessante no Antigo Testamento, não é? Por exemplo, ele diz que Deus criou tudo, exceto a água.

[Joseph] Você colocou o dedo na ferida. A água é a deusa, consegue ver? O que acontece no Antigo Testamento é que o princípio masculino permanece personificado e o princípio feminino é reduzido a um elemento. O primeiro verso diz que quando Deus criou, o sopro de Deus pairava sobre as águas. E a água é a deusa.

[Tom] Eu suponho que você não acredite em um real e literal “sete dias da criação”.

[Joseph] Claro que não. Isso não tem nada a ver com a história evolutiva real como agora a entendo.

[Tom] Como você reconcilia esses dois relatos?

[Joseph] Por que alguém deveria se preocupar com isso? Mais do que, por exemplo, em procurar reconciliar a história dos índios Navajos?

[Tom] Eu me lembro de ouvir uma palestra maravilhosa do falecido Louis Leakey em que ele insistiu que não havia conflito entre o relato de Gênesis sobre a criação e o que ele havia descoberto.

[Joseph] Bem, ele pode não ter lido com o cuidado devido. Há dois relatos bíblicos sobre a criação no mesmo Gênesis, um no primeiro capítulo e um no segundo, e eles são muito contrários um ao outro.

Já era tempo de havermos parado com esta ideia de, “Ó, nós temos de acreditar na Bíblia”. Eu teria ido logo trabalhar com a questão dos Navajo, onde eles se elevam através de quatro mundos. Um é vermelho, outro amarelo...

[Tom] Mas se você jogar fora a Bíblia como historia, não é também jogá-la fora como um imperativo moral?

[Joseph] Sim. Eu não acho que a Bíblia seja o imperativo moral de ninguém, a não ser que você queira ser um judeu tradicional. Isso é o que a Bíblia lhe diz.

[Tom] Ela não lhe diz como ser uma boa pessoa?

[Joseph] Não.

[Tom] Muitas pessoas pensam assim.

[Joseph] Basta lê-la. Talvez ela lhe dê algumas dicas, mas a Bíblia também lhe diz para matar todos na terra de Canaã, até mesmo os ratos.

[Tom] Como foi a passagem que você citou para justificar as ideias de exclusividade [dos judeus]?

[Joseph] “Não há Deus em todo o mundo senão em Israel”. Isso deixa todos de fora, exceto os judeus. Esta é uma das interpretações mais chauvinistas da moralidade.

Um dos grandes textos está em Êxodo, quando os judeus são instruídos a matar os cordeiros e colocar o sangue em sua porta para que o anjo da morte não mate nenhum dos seus filhos, e em seu lugar ele deve matar os filhos dos egípcios. E na noite anterior eles saem para pedir aos seus amigos egípcios que lhe emprestem as suas joias, e assim por diante. Então, na noite seguinte, eles fogem com as joias, e o texto diz que assim eles espoliaram os egípcios. Você chama a isto de boa ética?

[Tom] Qual é o enredo de algo como Caim e Abel?

[Joseph] Há um diálogo sumério muito interessante que apareceu cerca de 1.500 anos antes da história de Caim e Abel. Trata-se de um pastor e um agricultor competindo pelo favor da deusa. A deusa escolhe dar preferencia ao agricultor e a sua oferta. Bem, os judeus chegam nesta região, e eles não são agricultores, eles são pastores. E eles não têm uma deusa, eles têm um deus. Então, eles viraram a coisa toda de cabeça para baixo, e fazem Deus favorecer o pastor contra o agricultor.

O interessante é que por todo o Antigo Testamento, é o irmão mais novo que derruba o irmão mais velho em favor de Deus. Acontece diversas vezes. Isto é simplesmente em função do fato de que os judeus chegam aquela região como “o irmão mais novo”. Eles vêm como bárbaros beduínos do deserto, e chegam em áreas agrícolas altamente sofisticadas; e eles estão declarando que, embora os outros sejam os mais velhos – como Caim o era, o fundador das cidades e todas estas coisas –, eles são os preferidos de Deus. É apenas uma outra forma de chauvinismo santificado.

Você consegue entender o ponto de vista das religiões exclusivistas, não consegue? – “Você adora a Deus da sua maneira, eu vou adorar a Deus na maneira dele.”


» Em seguida, na parte final da entrevista, a modernidade e a carência de mitos...

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Crédito da imagem: Android Jones

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29.4.14

Reflexões místicas - uma entrevista com Joseph Campbell (parte 2)

Arte de Android Jones

Uma entrevista com Joseph Campbell, por Tom Collins
Originalmente publicada na revista The New Story (1985)
Tradução de Gabriel Fernandes Bonfim; Revisão de Rafael Arrais

« continuando da parte 1


2. O mito como a dinâmica da vida

[Tom] Para citar suas próprias palavras novamente, “Um mito é a dinâmica da vida. Você pode ou não conhecê-lo, e o mito que você pode estar respeitosamente adorando no domingo pode não ser aquele que realmente está trabalhando em seu coração, e nem aquele que está lá fora, de acordo com a visão dos eclesiásticos.”

[Joseph] Sim. Eu diria que é uma afirmação correta, então eu ainda diria isso hoje.

[Tom] Como você une essas duas dinâmicas?

[Joseph] Colocando a ênfase em sua própria dinâmica interna, e em seguida, filtrando e extraindo da sua herança de tradições aqueles aspectos que lhe dão suporte em sua própria vida interior. Isto significa não estar preso a esta, aquela, ou a qualquer outra tradição, mas estar aberto a uma comparação geral entre todas elas... Veja, eu me dedico bastante a estudos comparativos de mitologia. Eu acho que um dos problemas de hoje é que a sociedade se encaminhou para um relacionamento multicultural, que torna arcaico esses sistemas mitológicos presos a cultura – como a cristã, a judaica e a hinduísta.

Ou seja, ao conhecer o seu próprio sistema, que lhe impulsiona por dentro em suas vivências espirituais, e reconhecer estas imagens simbólicas que realmente lhe tocam a alma, você pode buscar ajuda para – poderíamos dizer – universalizar e solidificar esta mitologia pessoal em si mesmo; e então, você passa a estar apto a buscar mais ajuda nas outras mitologias da cultura humana.

Nota do revisor: este trecho é particularmente complexo, mas passa a ser mais compreensível ao estudarmos a teoria do Monomito de Campbell, segundo a qual todos os mitos da cultura humana são, em sua essência mais íntima, parte de uma mesma mitologia. Por isso ele crê que, não importa qual o sistema simbólico ou mitologia pessoal que adotemos, ele deve funcionar se for capaz de lhe tocar a alma – e, da mesma forma, se não lhe tocar a alma, provavelmente a sua vivência espiritual será comprometida. Por “buscar ajuda”, penso que ele queira se referir a algo como “buscar o aconselhamento dos que já estão mais avançados no caminho” (alguns chamam a estes de “mestres” ou “gurus espirituais”); mas também pode estar se referindo, simplesmente, ao estudo (intelectual) dos mitos.

[Tom] Quais são os propósitos do mito?

[Joseph] Há quatro deles. Um místico. Um cosmológico: o universo inteiro como agora o entendemos se torna, como era no início da criação, uma revelação da dimensão do mistério. O terceiro é sociológico: tomar conta da sociedade que nos cerca. Mas nós não sabemos o que esta sociedade é, ela mudou tão rapidamente. Meu Deus! Nos últimos 40 anos tem havido tal transformação nos costumes, que é impossível falar sobre eles. Finalmente, há o pedagógico, que é orientar um indivíduo através das inevitabilidades de uma vida. Mas, mesmo isto se tornou impossível, porque não sabemos mais o que é inevitável no decorrer de uma vida. Estas coisas estão mudando a todo momento.

Antigamente, havia apenas um número limitado de carreiras disponíveis para o homem. E para a mulher, o normal era ser uma dona de casa ou uma freira ou algo parecido. Agora, o panorama de possibilidades e possíveis vidas e como elas mudam de década para década tornou-se impossível de mitificar. O indivíduo segue sua vida sem preparação alguma. É como correr com a bola numa brecha aberta num campo de futebol americano – não há regras, e muitos podem vir lhe derrubar. Você precisa estar muito atento a sua volta até o final da corrida. Tudo o que você pode aprender é o que a sua essência íntima é, e tentar permanecer fiel a ela.

[Tom] Como você aprendeu isso?

[Joseph] Eu não sei. Algumas pessoas aprendem cedo; alguns nunca aprendem.

[Tom] Que tipo de mitologia nós temos hoje? Que tipo deveríamos ter?

[Joseph] Eu não vou dizer que tipo de mitologia nós temos, porque eu não acho que tenhamos uma mitologia funcionando de forma geral. Eu diria que nos termos dos aspectos sociológicos da mitologia (e talvez isto esteja além de nossa capacidade sentimental) deveríamos ver o todo – a sociedade global como a comunidade a ser estudada.

[Tom] Eu pensei que os mitos sempre fossem vinculados a um grupo ou lugar específico.

[Joseph] Isso mesmo. Mas quando você pode voar de Nova York a Tóquio em um dia, você não pode mais ficar limitado a um pequeno grupo de pessoas e se referir a elas como uma unidade, pois hoje os pensamentos e crenças também viajam rapidamente através do globo. O planeta é a sociedade. E, de fato, economicamente já funcionamos assim.

[Tom] Eu acho interessante que algumas pessoas começaram a combinar a sabedoria antiga com ideias modernas – pessoas como Jean Houston, Michael Harner, Joan Halifax e Elizabeth Cogburn.

[Joseph] Se faz sentido, o que isto me parece sugerir é que necessitamos harmonizar nossas vidas com a ordem da natureza.

[Tom] Muitas dessas pessoas também estão interessadas ​​na criação de rituais. Qual é o papel que os rituais desempenham na mitologia?

[Joseph] Um ritual é a encenação de um mito. E através dessa encenação o ritual traz à mente as implicações do ato da vida que você atualmente vivencia. Agora, as pessoas me perguntam, quais rituais nós temos atualmente? A minha resposta é: o que você tem feito? O que é importante em sua vida? O que é importante, eles dizem, é ter um jantar com seus amigos. Isto é um ritual.

Este é o sentido da peça A festa dos coquetéis de Thomas Stearns Eliot. A festa é um ritual. Dessa forma, tem uma função religiosa, e aquelas pessoas estão engajadas em um relacionamento humano. Essa é a ideia chinesa, a ideia de Confúcio, de que as relações humanas são a maneira de você experienciar o Tao. Perceba o que você está fazendo quando está dando uma festa. Você está realizando um ritual social. Você o está conduzindo quando se senta para comer uma refeição, você está consumando um ato da vida.

Quando você está comendo alguma coisa, isto é algo muito especial de se fazer. E você deveria ter esse pensamento tanto ao comer uma cenoura, como ao comer um animal, assim eu penso. Mas você não sabe o que está fazendo, a menos que você pense sobre isso. Isso é o que um ritual faz. Ele lhe dá uma oportunidade de perceber o que você está fazendo, para que possa compreender a sua relação com essa inevitável energia da vida em seus momentos de interação. Para isso que os rituais servem; você faz as coisas com intenção, e não apenas de maneira animalesca, vorazmente, sem ter consciência alguma do que está realizando.

Isso também é verdade para o sexo. As pessoas que apenas praticam sexo como um jogo divertido, ou algo emocionante como isto, não entendem o que estão fazendo. Então você não tem a sacramentalização. E a grande razão de o casamento ser sagrado, é que ele permite que você saiba o que diabos é correto e o que não é, e o que está acontecendo ali. Um macho e uma fêmea que se juntam, com a possibilidade de que uma outra vida surja desta interação – este é um grande ato.


» Na próxima parte da entrevista, a transcendência dos mitos...

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Crédito da imagem: Android Jones

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28.4.14

Reflexões místicas - uma entrevista com Joseph Campbell (parte 1)

Joseph Campbell

Uma entrevista com Joseph Campbell, por Tom Collins
Originalmente publicada na revista The New Story (1985)
Tradução de Rafael Arrais

Joseph Campbell talvez seja o acadêmico mais proeminente no estudo da mitologia. Entre os seus diversos livros podemos destacar O herói de mil faces, As máscaras de Deus (série) e o célebre O poder do mito. O entrevistador, Tom Collins, é um escritor e editor de Los Angeles, que já trabalhou com Steven Spielberg.


1. A importância dos mitos

[Tom] O que os mitos fazem por nós? Por que a mitologia é tão importante?

[Joseph] Ela lhe põe em contato com um plano de referência que vai além da sua mente e adentra profundamente o seu próprio ser, até as vísceras. O mistério definitivo do ser e do não ser transcende todas as categorias de pensamento e conhecimento. Ainda assim, isto que transcende toda a linguagem é a própria essência do seu ser; então você está descansando sobre ela, e sabe disso.

A função dos símbolos da mitologia é nos levar a uma espécie de insight, “Aha! Sim, eu sei o que é isto, isto sou eu mesmo”. É disto que se trata a mitologia, e através dessa vivência você se sente em contato com o centro do seu próprio ser, cada vez mais, e todo o tempo. E tudo o que você faz dali em diante pode ser relacionado com tal grau de verdade. No entanto, falar sobre isso como “a verdade” por ser um pouco enganoso, pois quando pensamos na “verdade”, pensamos em algo que pode ser conceitualizado. E tal vivência vai além disso.

[Tom] Heinrich Zimmer disse, “As melhores verdades não podem ser ditas...”

[Joseph] “E as segundas melhores são mal interpretadas.”

[Tom] E então você adicionou alguma coisa ali...

[Joseph] As terceiras melhores fazem parte da conversação usual – ciência, história, sociologia.

[Tom] Por que nos confundimos com estas verdades?

[Joseph] Porque as imagens que precisam ser usadas para falar sobre o que não pode ser dito, as imagens simbólicas, são compreendidas e interpretadas não de forma simbólica, mas de forma empírica, como fatos concretos. É algo natural, mas é também todo o problema com as religiões do Ocidente. Todos os símbolos mitológicos são interpretados como se fossem referências históricas. Eles não são. E acaso fossem, e daí, o que viria a seguir?

[Tom] Vamos tomar cuidado aqui. O que você está chamando de símbolo?

[Joseph] Eu estou chamando de símbolo um signo que aponta para algo além dele mesmo, para um campo de significado e vivência que se encontra unificado com a consciência do observador. O que você está aprendendo na mitologia diz respeito ao sentido de você ser uma parte do ser que preenche o mundo.

Se um mito não lhe toca e não fala sobre você, mas sobre algo lá fora, então ele é um mito superficial; ou que foi interpretado superficialmente. Há esta frase maravilhosa que eu anotei de Karlfried Graf Durkheim, “transparência para o transcendente”. Se uma doutrina bloqueia a transcendência, e lhe corta o acesso à divindade para lhe manter preso ao seu eu mundano, ela lhe transforma num devoto, num adorador, e não lhe encaminha a abrir o mistério que há dentro do seu próprio ser.

[Tom] Você já chamou a isto de “a patologia da teologia”.

[Joseph] É como ainda chamaria hoje.

[Tom] Walter Huston Clark diz que a igreja é como uma vacinação contra a coisa real.

[Joseph] C. G. Jung diz que a religião é uma defesa contra a experiência de Deus. Eu digo que as nossas religiões [igrejas] o são.

[Tom] O que fazer então, se a experiência não é encontrada na religião [igreja]?

[Joseph] Você a encontra no misticismo, e entra em contato com místicos que leem tais formas simbólicas simbolicamente. Místicos são pessoas que não são teólogos; teólogos são pessoas que interpretam o vocabulário das escrituras como se elas se referissem a fatos sobrenaturais.

Há uma pletora de místicos na tradição cristã, mas nós não ouvimos muito sobre eles. Ainda assim, de vez em quando alguns esbarram no misticismo. Mestre Eckhart foi uma pessoa assim. Thomas Merton também experienciou o misticismo, assim como Dante Alighieri e Dionísio, o Aeropagita. João da Cruz alternou momentos de contato com o misticismo com momentos de recaída mundana.

Eu penso que James Joyce é pleno de misticismo, e Thomas Mann também o alcançou na escrita, embora não tão profundamente quanto Joyce. É estranho como, desde a morte de Mann, o misticismo tenha desaparecido da literatura.


» Na próxima parte da entrevista, o mito como a dinâmica da vida...

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Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação (Joseph Campbell)

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29.1.14

A iniciação de Avicena

Texto de Rosalie Helena de Souza Pereira em "Avicena – A Viagem da Alma” (Ed. Perspectiva) – trechos das págs. 321 a 330. As notas ao final são minhas.


Hayy ibn Yaqzân, ou Epístola do Vivente filho do Vigiante, faz parte do ciclo “visionário” de Avicena [1], o que significa tratar-se de um texto sobre a sua própria iniciação [espiritual].

A iniciação remete ao tempo presente do iniciado. Como vimos [2], o processo envolve a conquista de um mundo vivenciado no interior da própria alma. Não se trata de um mundo no qual a alma é jogada porque adquiriu consciência. Segundo Henry Corbin [3], há uma inversão do sentido de interioridade: o cosmos passa a viver no interior da consciência, ou melhor, ao integrar um mundo e fazê-lo seu, a consciência sai de si mesma para fazer o mundo entrar em si [4].

[...] Assim, o “Oriente” [5] vive no relato aviceniano, pois é uma experiência da alma do próprio Avicena que conhece a si própria e com isso pode conhecer o anjo [6]. O relato expõe a vivência do processo de tomada de consciência mediante a aquisição de conhecimento, que, na língua árabe, se diz ta’wil e significa, nas palavras de Corbin, “fazer retornar a, reconduzir, reenviar à origem e ao lugar onde se entra e, por conseguinte, retornar ao sentido verdadeiro e primitivo de um texto”. O ta’wil opõe-se ao tanzil, que “designa a religião positiva, a letra da Revelação ditada por um anjo ao profeta. Ta’wil é fazer descer essa revelação do mundo superior”. [...] A iniciação é o ensinamento da orientação necessária e fundamental para o conhecimento do anjo e para a reconquista do mundo superior [7].

[...] O edifício cósmico é descrito para denunciar ao ser humano seu cativeiro e nele fazer despertar a consciência de sua origem. A esplêndida cúpula, o limite cósmico, nada mais é do que uma prisão da qual é preciso escapar, pois seu peso gera um sentimento que domina todo gnóstico: a angústia de ser um estrangeiro.

O limite das esferas não é experimentado como algo longínquo a ser apreendido, do interior para o exterior. Ao contrário, o obstáculo a ser superado é do exterior para o interior. Despertada na sua consciência a angústia de ser um estrangeiro, um exilado, o gnóstico descobre onde está e simultaneamente intui de onde veio e para onde retornará. A ideia de retorno pressupõe a preexistência na pátria de origem e apresenta duas implicações: um sentimento de parentesco com a divindade, com os seres celestiais, com as formas de luz e de beleza que, para o gnóstico, formam sua família; nostálgica, a alma sente-se perdida, deslocada, desorientada, entre regras de um mundo que lhe é hostil e estranho [8].

Afirma-se o sentimento de sua condição de estrangeira, e a consciência de seu parentesco celeste torna insuportável sua existência no mundo terrestre, conduzido por normas comuns [9]. A alma sabe-se pertencente à ordem cósmica e única, e almeja encontrar a via de retorno ao núcleo primordial.

[...] O que Hayy ibn Yaqzân relata é a iniciação ao conhecimento, à gnose, em sentido amplo. Avicena, possuidor de um vasto conhecimento filosófico herdado dos gregos [10], ao qual se somaram as crenças e as tradições iranianas, procurou, nesses textos “visionários”, realizar a síntese que caracterizou a Idade Média: da fé com a razão. O universo medieval não era regido por noções “racionalistas” que iriam mais tarde caracterizar o mundo moderno; o numinoso ocupava nele um lugar de destaque, permeava as vidas dos seres humanos, fazia parte de seu cotidiano, de sua visão de mundo. Como vimos, o próprio Avicena era profundamente religioso: algumas passagens de seus escritos afirmam que recorria a Deus sempre que não encontrava respostas às suas indagações, e alguns de seus opúsculos ocupam-se plenamente da religião corânica.

[...] No mundo antigo e medieval, as tradições [espirituais] estão presentes no cotidiano. Cada indivíduo almeja sua própria salvação, devendo o aspirante preparar-se para a sua busca visionária pessoal. Esta tem início com a purificação dos resquícios da matéria no corpo, em outras palavras, dos vícios e das paixões. Já purificado, o discípulo passa a trabalhar para ascender aos domínios celestes e ver a Deus [11]. A visão do divino é a experiência transformadora que servirá para imortalizá-lo, sem a qual a sua vida não tem sentido [12].

A experiência está associada ao autoconhecimento, este desafiando os séculos desde o oráculo de Delfos com a máxima GNÔTHI SAUTÓN – Conhece-te a ti mesmo. Conhecida a sua parte divina, reconhecida a nulidade do corpo e do mundo material, o iniciado transpõe sua própria mortalidade e passa a participar da eternidade divina. A posse desse conhecimento assegura ao gnóstico a passagem de sua condição humana ao domínio divino.

A participação na natureza divina é uma experiência no presente e não uma escatologia futura. O homem pode, assim, tornar-se divino ainda em vida: sua experiência, transformadora e deificadora, é presentificada. Quando vê a Luz, sua própria imagem refletida no divino, o Oriente torna-se visível; no conhecimento de seu verdadeiro si como divino, abrem-se as portas do Reino e ele garante a sua participação na divindade eterna.

***

[1] Avicena ou Ibn Sina (c.980 – 1037) foi um grande pensador da Pérsia que escreveu tratados sobre diversos assuntos, dos quais aproximadamente 240 chegaram aos nossos dias. Em particular, 150 destes tratados se concentram em filosofia e 40 em medicina. Suas obras mais famosas são o Livro da Cura, uma vasta enciclopédia filosófica e científica, e o Cânone da Medicina, que era o texto padrão para o ensino da medicina em muitas universidades medievais. Suas demais obras incluem ainda escritos sobre filosofia, astronomia, alquimia, geografia, psicologia, teologia islâmica, lógica, matemática, física, além de poesia.

[2] No livro onde Rosalie nos traz a sua tradução de Hayy ibn Yaqzân, há ainda uma extensa introdução que abrange um resumo da vida e da obra de Avicena, com foco no gnosticismo e no hermetismo presentes em alguns dos seus tratados filosóficos e iniciáticos. O trecho que trouxe aqui faz parte do final do livro.

[3] Henry Corbin (1903 – 1978) foi um filósofo, teólogo e professor de Estudos Islâmicos da Universidade de Sorbonne em Paris, França.

[4] Há muita coisa profunda sendo dita aqui, mas penso que podemos resumir a iniciação em dois tópicos: (a) O ego “se deixa morrer” (a consciência sai de si mesma) para permitir que o Eu, o próprio cosmos, habite em seu lugar; (b) Não há um Paraíso erguido nalgum canto do universo para onde a alma é levada, mas, pelo contrário, é a própria alma quem alcança ou, talvez fosse melhor dizer, constrói este Paraíso dentro de si mesma (o cosmos passa a viver no interior da consciência).

[5] No contexto da gnose aviceniana, o termo “Oriente” se refere ao destino da alma que busca a iniciação (enquanto o termo “Ocidente” se refere ao mundo “dos que ainda não despertaram”).

[6] Ou “o Eu”. Embora muitos ocultistas o chamem de S.A.G. (o Sagrado Anjo Guardião).

[7] Tal processo se reproduz em todas as práticas religiosas da história humana. Ora, enquanto há muitos que esperam passivamente pela Revelação ditada, há outros que, quem sabe, por já conseguirem interpretar esta Revelação dentro de suas próprias almas, se arremessam ativamente ao Caminho, isto é: mergulham em si mesmos, e já não precisam mais de sacerdotes lhes ditando profecias. No entanto, há que se considerar que os dois estágios são necessários: não haveria o mergulho sem que antes houvesse um manual de natação. E quem mergulha sem haver conhecido o manual, corre o risco de se afogar ainda na beira da praia.

[8] Os deuses e outros seres celestiais certamente existem no interior da mente, da alma humana. Mais cedo ou mais tarde todo místico genuíno cessa com as interpretações literais, com as tentativas vãs de transformar chumbo de fora em ouro de fora, e passa a compreender; e em compreendendo, buscará dali em diante transformar o chumbo de dentro em ouro de dentro. Esta é a divina alquimia dos místicos: é em seu interior que mergulham e encontram o Paraíso. E este Paraíso nada mais é do que o mesmo mundo em que sempre viveram como estrangeiros, só que agora interpretado da maneira certa, com a alma. Agora, vivenciado de olhos bem abertos, e não mais na sonolência de outrora.

[9] Novamente, não custa lembrar: não se trata de dois mundos fisicamente diversos, mas de um mesmo mundo físico, interpretado de maneiras diversas. Num se vive, sobretudo, sem sentido e sem Amor; noutro, pelo contrário, tudo é preenchido por sentido, e o Amor arde sem queimar, gerando cada vez mais de si mesmo, ad infinitum.

[10] Sem os árabes, a cultura grega provavelmente jamais teria sobrevivido a “Era das Trevas” na Europa, quando a maior parte dos textos “não cristãos” foi perdida. O que nos restou foi o que alguns filósofos e colecionadores conseguiram salvar e levar para a Arábia e o Egito.

[11] E, pela última vez: os “domínios celestes” estão dentro, e não fora, de nós mesmos.

[12] Talvez um dia descubram que ser imortal não é “viver para sempre”, mas antes alcançar a Eternidade deste momento. Na Eternidade, tudo é preenchido de sentido. Fora dela, nada faz realmente muito sentido.

Crédito das imagens: Steven DaLuz

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28.11.13

Banksy!

Banksy é o pseudônimo de um dos maiores grafiteiros da história, provavelmente nascido na Inglaterra. Sua arte de rua é uma crítica inteligente e, por vezes, bastante ácida, da moderna sociedade de consumo e do atual sistema financeiro mundial. É um autoproclamado vândalo que nunca atirou uma pedra sequer em vidraça alguma. Há uma pequena chance de que Banksy seja somente uma única pessoa...

Nós criamos uma galeria em nossa página do Facebook com algumas de suas obras mais interessantes e sugestivas:

Veja a galeria com a arte de Banksy

***

Abaixo traremos algumas citações atribuídas a Banksy [1]:


Eu vou falar o que penso, então isto não vai ser nada demorado.

Ao contrário do que dizem por aí, o grafite não é a mais baixa forma de arte. Embora seja necessário se esgueirar pela noite e mentir para a mãe, grafitar é, na verdade, uma das mais honestas formas de arte disponíveis. Não existe elitismo ou badalação, o grafite fica exposto nos melhores muros e paredes que a cidade tem a oferecer e ninguém fica de fora por causa do preço do ingresso.

Um muro sempre foi o melhor lugar para divulgar o seu trabalho.

As pessoas que mandam nas cidades não entendem o grafite porque acham que nada tem o direito de existir se não gerar lucro, o que torna a opinião delas desprezível.

Essas pessoas dizem que o grafite assusta o público e é um símbolo do declínio da sociedade. O perigo, porém, só existe na cabeça de três tipos de indivíduos: políticos, publicitários e grafiteiros.

Quem realmente desfigura nossos bairros são as empresas que rabiscam slogans gigantes em prédios e ônibus tentando fazer com que nos sintamos inadequados se não comprarmos seus produtos. Elas acreditam ter o direito de gritar sua mensagem na cara de todo mundo em qualquer superfície disponível, sem que ninguém tenha o direito de resposta. Bem, elas começaram a briga e a parede é a arma escolhida para revidar.

Algumas pessoas se tornam policiais porque querem fazer do mundo um lugar melhor. Algumas pessoas se tornam vândalos porque querem fazer do mundo um lugar visualmente melhor.

***

Imagine uma cidade em que o grafite não é ilegal, uma cidade em que qualquer um pode desenhar onde quiser. Onde cada rua seja inundada de milhões de cores e frases curtas. Onde esperar no ponto de ônibus não seja uma coisa chata. Uma cidade que pareça uma festa para a qual todos foram convidados, não apenas as autoridades e os figurões dos grandes empreendimentos.

Imagine uma cidade como esta e não encoste na parede – a tinta está fresca.

***

A raça humana promove o tipo mais estúpido e injusto de corrida. Muitos dos corredores não calçam um tênis decente nem têm acesso a água potável.

Alguns já nascem largando muito na frente, recebem toda a ajuda possível ao longo do trajeto e ainda assim os fiscais de prova parecem estar ao lado deles.

Não surpreende que muitos desistam de competir, preferindo se sentar na arquibancada, comer porcarias e gritar que foi tudo marmelada.

O que a corrida humana precisa é de muito mais nudistas invadindo a pista.

***

Apenas quando a última árvore
Tiver sido cortada
E o último rio
Tiver secado até o fio
O homem finalmente entenderá
Que não se pode comer dinheiro
E que recitar velhos provérbios
Faz vocês parecer um babaca

***

Uma carta recebida pelo site do Banksy:

Não sei quem é você ou quantos de você existem, mas estou escrevendo para pedir que pare de pintar no lugar onde moramos. Especialmente na rua xxxxxx, em Hackney (Grande Londres). Eu e meu irmão nascemos aqui e moramos aqui nossas vidas inteiras, mas nos últimos tempos tantos yuppies e estudantes estão se mudando para cá que não temos mais dinheiro para comprar uma casa no lugar em que crescemos.

Seus grafites são sem dúvida parte do que faz esses babacas acharem que nosso bairro é descolado. Você obviamente não é daqui e, depois que os preços dos imóveis subirem, é possível que você vá para outro lugar. Faça um favor para todos nós e vá pintar suas coisas em algum outro lugar, como Brixton.

Daniel (sobrenome não informado)

***

As pessoas ou me amam, ou me odeiam ou realmente não dão a mínima (Banksy).

***

[1] Todas retiradas de Banksy: Guerra e Spray (Intrínseca). Tradução de Rogério Durst.

Crédito da imagem: Banksy

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11.10.13

Moávia e Iblis

Texto de Jalal ud-Din Rumi em "Masnavi” (Ed. Dervish) – trechos das págs. 112 e 113. Tradução de Monica Ulder Cromberg e Ana Maria Sarda. O comentário ao final é meu.


Moávia, o primeiro dos Califas Omaidas, estava certo dia dormindo em seu palácio, quando foi despertado por um estranho. Moávia perguntou-lhe quem era, e ele respondeu que era Iblis [1]. Moávia perguntou-lhe então por que ele o havia despertado, e Iblis respondeu que chegara a hora da oração, e ele temia que Moávia se atrasasse.

Moávia respondeu: “Não! Jamais poderia ter sido tua intenção guiar-me no caminho reto. Como posso confiar num ladrão como tu para cuidar de meus interesses?”

Iblis respondeu: “Lembra-te de que fui criado como anjo de luz, e que não posso abandonar totalmente minha ocupação original. Ainda que viajes para Roma ou Catai, continuarás amando tua terra natal.

Eu ainda conservo meu amor por Deus, que me alimentou em minha juventude; não, mesmo que eu me tenha rebelado contra Ele, isso foi só por ciúme (de Adão) e o ciúme provém do amor, não da negação de Deus. Joguei uma partida de xadrez com Deus, por vontade d'Ele, e, embora tenha levado um xeque-mate e me arruinado totalmente, em minha ruína ainda experimento as bênçãos de Deus”.

Moávia respondeu: “O que dizes não é digno de crédito. Tuas palavras são como os pios de um passarinheiro, que se assemelham às vozes dos pássaros, atraindo-os assim para a destruição. Causaste a destruição de centenas de mortais, como o povo de Noé, a tribo de Aad, a família de Lot, Nemrod, o Faraó, Abu Jahl, e assim por diante” [2].

Iblis retrucou: “Estás enganado se supões que sou eu a causa de todo o mal que mencionaste. Eu não sou Deus, para ser capaz de fazer do bem, mal, e do belo, feio. A misericórdia e a vingança são ambos atributos divinos, e geram o bem e o mal que se vê em todas as coisas terrenas. Não devo, portanto, ser culpado pela existência do mal, já que sou apenas um espelho que reflete o bem e o mal existentes nos objetos apresentados diante dele”.

Moávia então rezou a Deus para protegê-lo contra os sofismas de Iblis, e novamente pediu a Iblis para cessar sua argumentação e dizer claramente a razão pela qual o havia despertado. Iblis, em vez de responder, continuou a justificar-se, dizendo como era injusto que homens e mulheres o culpassem quando faziam algo errado, ao invés de culparem a seus próprios maus desejos.

Moávia, em resposta, recriminou-o por esconder a verdade, e finalmente o levou a confessar que a verdadeira razão pela qual o despertara era que, se ele tivesse dormido demais, e assim perdido a hora da oração, teria sentido grande remorso e dado muitos suspiros, e cada um desses suspiros, aos olhos de Deus, teria sido equivalente a mais de duzentas preces comuns.

***

Comentário
Como de costume, Rumi inunda alguns pequenos parágrafos com uma água rica em metáforas e camadas e camadas de interpretação filosófica.

Neste diálogo imaginário entre um religioso e o próprio Satã, o grande poeta da alma deixa muito claro, a quem tem olhos para ver, que Iblis não é somente um personagem da própria mente humana, mas um personagem extremamente necessário para o caminho de evolução espiritual, ou seja, de autoconhecimento.

Iblis “não é Deus, o único capaz de do bem, mal, e do belo, feio”, mas tão somente um espelho que reflete aos elementos postos diante dele. Ora, há muitos deuses que preferem manter tal espelho embrulhado e escondido no sótão de suas almas, atribuindo todos os infortúnios da existência a uma causa externa.

Porém, se é que existe um ser sobrenatural condenado a ser mal pela eternidade, sem jamais poder se arrepender, este seria antes um fantoche nas mãos do Criador, que afinal, também o criou.

Muito simples colocar todas as culpas do mundo num bode expiatório imaginário. Mais simples ainda afirmar que existem adoradores de tal ser por todos os cantos e, geralmente, em cargos de poder.

Difícil, complexo, angustiante, isto sim, é admitir que tal ser, longe de ser um fantoche divino, é antes um dos maiores presentes que Deus nos conferiu. Um espelho para a consciência; um espelho, também, para o inconsciente. Uma forma de avaliarmos, a cada passo deste caminho eterno, exatamente onde nos encontramos em relação ao animal do qual desejamos nos libertar, e ao ser angelical, o nosso “eu futuro”, que nos aguarda onde quer que seja o Céu.

Até que chegamos, e percebemos que o Céu era tudo, e o que mudou foi somente nossa visão. Tudo já é Deus, mas nossa joia interior ainda carece de uma limpeza, até que, polida e tornada cristalina, seja ela mesma o espelho para a luz do Alto.

Somente então o outro espelho, para a luz de Baixo, se tornará obsoleto. Somente então não necessitaremos mais de Iblis. Somente então saberemos: “eu também sou da raça dos deuses”.

***

[1] Iblis é um dos nomes de Satã (Shaitan) entre os islâmicos.

[2] Corão. XI, 63.

Crédito da imagem: Google Image Search

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22.9.13

A surpreendente resposta de Papa Franciso a um ateu

Segue abaixo a transcrição da Carta Aberta de Papa Franciso ao Jornalista Eugenio Scalfari. A carta do Papa pretende ser uma resposta a duas cartas abertas que Scalfari escreveu a Francisco e publicou nos dias 7 de Julho e 7 de Agosto de 2013 no editorial do La Repubblica, jornal italiano do qual é fundador e colunista. Em ambas, Scalfari formula - como alguém que tem uma cultura iluminista e não procura a Deus - “perguntas de um não crente ao papa jesuíta chamado Francisco”. Pois “aqui e hoje não sou um jornalista - escreve Scalfari - sou um não crente que há anos está interessado e apaixonado pela pregação de Jesus de Nazaré, filho de Maria e de José [...]. Tenho uma cultura iluminista e não procuro a Deus. Acho que Deus seja uma invenção consoladora e ilusória da mente dos homens”.

A resposta de Francisco é surpreendente e praticamente inaugura um diálogo direto e profundo, até recentemente impensável, entre a Santa Sé e os ateus humanistas e moderados. A forma com que Francisco consegue acolher e responder as questões de Scalfari, sem pretender impor sua fé e muito menos condenar o ceticismo do jornalista, é certamente uma aula de embate de ideias, onde as pedras, longe de se chocarem e arrancarem lascas uma das outras, produzem faíscas luminosas e, quem sabe até, um fogo até então desconhecido...

Não irei comentar ao final do texto, como costumo fazer com textos de autores selecionados que trago a este blog, mas no entanto gostaria muito que lessem este trecho abaixo, de autoria do grande estudioso de mitologia do século passado, Joseph Campbell, que foi retirado do monumental O Poder do Mito. Após lerem o trecho, terão plenas condições de analisar o que diz o Papa Francisco de forma ainda mais profunda, até onde as palavras podem chegar:

Deus é um pensamento. Deus é uma idéia. Mas a sua referência é algo que transcende o pensamento. Ele existe além da existência... Além da categoria de ser ou não ser. Ele existe ou não? Nem existe, nem não existe. Qualquer deus, qualquer mitologia ou qualquer religião são verdadeiros nesse sentido... Assim como uma metáfora do mistério humano e cósmico. Quem pensa que sabe, não sabe. Quem sabe que não sabe, este sim, sabe.

Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana? Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental.

* * *

E finalmente, a carta de Francisco, na íntegra (retirada do vatican.va):

Vaticano, 4 de Setembro de 2013

Prezado Dr. Scalfari,

Com viva cordialidade queria, através desta, procurar, ainda que apenas em linhas gerais, responder à carta que houve por bem dirigir-me, nas páginas do jornal La Repubblica de 7 de Julho, com uma série de reflexões pessoais, que haveria de desenvolver nas páginas do mesmo jornal do dia 7 de Agosto.

Começo por lhe agradecer a solicitude que teve em ler a Encíclica Lumen fidei. De facto, esta – na intenção do meu amado Predecessor, Bento XVI, que a idealizou e em grande parte redigiu e de quem a herdei com imensa gratidão – tem em vista não só confirmar na fé em Jesus Cristo aqueles que nela já que se reconhecem, mas também suscitar um diálogo sincero e rigoroso com quem, como o senhor, se define «um não-crente há muitos anos interessado e fascinado pela pregação de Jesus de Nazaré».

Parece-me, pois, muito positivo, tanto para nós individualmente como para a sociedade em que vivemos, determo-nos a dialogar sobre uma realidade tão importante como é a fé, que faz apelo à pregação e à figura de Jesus.

Em particular, penso que há hoje duas circunstâncias que tornam obrigatório e precioso este diálogo. Aliás o mesmo constitui – como se sabe – um dos objectivos principais do Concílio Vaticano II, querido por João XXIII, e do ministério dos Papas, que desde então até aos nossos dias – cada um com a própria sensibilidade e contribuição – têm caminhado pelo sulco traçado pelo referido Concílio.

A primeira circunstância – como lembram as páginas iniciais da Encíclica – decorre do facto de, ao longo dos séculos da modernidade, se ter assistido a um paradoxo: a fé cristã, cuja novidade e incidência na vida do homem foram expressas, desde o início, precisamente através do símbolo da luz, tem sido muitas vezes rotulada como a obscuridade da superstição, que se opõe à luz da razão. E assim se chegou à incomunicabilidade entre a Igreja e a cultura de inspiração cristã, por um lado, e a cultura moderna de traça iluminista, por outro. Chegou o tempo – o próprio Vaticano II inaugurou a estação – de um diálogo aberto e sem preconceitos, que reabra as portas para um encontro sério e fecundo.

A segunda circunstância, para quem procura ser fiel ao dom de seguir Jesus na luz da fé, decorre do facto de este diálogo não constituir um acessório secundário da existência do crente; antes, pelo contrário, é sua expressão íntima e indispensável. A este respeito, deixe-me citar-lhe uma declaração, na minha opinião muito importante, da Encíclica: dado que a verdade testemunhada pela fé é a do amor – como lá se sublinha – «resulta claramente que a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro. O crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui. Longe de nos endurecer, a segurança da fé põe-nos a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos» (n. 34). Este é o espírito que me anima nas palavras que lhe escrevo.

A fé, para mim, nasceu do encontro com Jesus: um encontro pessoal, que tocou o meu coração e deu uma direcção e um sentido novo à minha existência; mas, ao mesmo tempo, um encontro que se tornou possível pela comunidade de fé em que vivi e graças à qual encontrei o acesso ao entendimento da Sagrada Escritura, à vida nova que flui, como jorros de água, de Jesus através dos sacramentos, à fraternidade com todos e ao serviço dos pobres, verdadeira imagem do Senhor. Sem a Igreja – creia-me! –, eu não teria podido encontrar Jesus, embora ciente de que este dom imenso da fé está guardado em frágeis vasos de barro que é a nossa humanidade.

Ora, é precisamente a partir desta experiência pessoal de fé vivida na Igreja que me sinto à vontade para perscrutar as suas perguntas e procurar, juntamente com o senhor, as estradas ao longo das quais possamos talvez começar a fazer um pedaço de caminho juntos.

Desculpe, se não sigo passo a passo as argumentações que propôs no editorial de 7 de Julho. Parece-me mais frutuoso – ou pelo menos está mais de acordo com o meu génio – ir de certo modo ao coração das suas considerações. Não entro sequer na modalidade de exposição que segue a Encíclica e na qual o senhor entrevê a falta duma secção dedicada especificamente à experiência histórica de Jesus de Nazaré.

Para começar, limito-me a observar que uma tal análise não é secundária. Trata-se efectivamente – seguindo aliás a lógica que guia o desenrolar da Encíclica – de deter a atenção sobre o significado daquilo que Jesus disse e fez e assim, em última instância, sobre aquilo que Jesus foi e é para nós. De facto, as Cartas de Paulo e o Evangelho de João, especialmente referidos na Encíclica, estão construídos sobre o sólido fundamento do ministério messiânico de Jesus de Nazaré, cuja resolução chega ao seu auge na páscoa de morte e ressurreição.

Por isso, é preciso confrontar-se com Jesus – diria – na dimensão concreta e tosca da sua história, tal como nos é narrada sobretudo pelo mais antigo dos Evangelhos, o de Marcos. Aí se constata que o «escândalo», que as palavras e a actividade de Jesus provocam ao seu redor, deriva da sua extraordinária «autoridade» – termo este, atestado já desde o Evangelho de Marcos mas que não é fácil de traduzir em italiano. A palavra grega é exousia, que literalmente se refere àquilo que «provém do ser» que se é. Trata-se portanto, não de algo exterior ou forçado, mas de algo que brota de dentro e se impõe por si mesmo. Realmente Jesus impressiona, desinstala, reforma a partir – Ele mesmo o disse – da sua relação com Deus, que trata familiarmente por Abbá, o qual Lhe confere esta «autoridade» para que Ele a aplique a favor dos homens.

Assim, Jesus prega «como alguém que tem autoridade», cura, chama os discípulos para O seguirem, perdoa... Todas estas coisas, no Antigo Testamento, são prerrogativa de Deus, e só Deus. A pergunta, que mais vezes reaparece no Evangelho de Marcos – «Quem é este que... ?» – e que diz respeito à identidade de Jesus, nasce da constatação de uma autoridade diferente da do mundo, uma autoridade que não tem como finalidade exercer um poder sobre os outros mas servi-los, dar-lhes liberdade e plenitude de vida. E isto até ao ponto de arriscar a sua própria vida, até experimentar a incompreensão, a traição, a rejeição, até ser condenado à morte, até cair no estado de abandono na cruz. Mas Jesus permanece fiel a Deus até ao fim.

E é precisamente então – como exclama o centurião romano ao pé da cruz, no Evangelho de Marcos – que, paradoxalmente, Jesus Se mostra como o Filho de Deus! Filho de um Deus que é amor e que quer, com todo o seu ser, que o homem, todo o homem, se descubra e viva, também ele, como seu verdadeiro filho. Para a fé cristã, isto é certificado pelo facto de que Jesus ressuscitou: não para triunfar sobre aqueles que O rejeitaram, mas para atestar que o amor de Deus é mais forte do que a morte, o perdão de Deus é mais forte do que todo o pecado, e que vale a pena gastar a própria vida, até ao fim, para testemunhar este dom imenso.

A fé cristã acredita nisto: Jesus é o Filho de Deus que veio dar a sua vida para abrir a todos o caminho do amor. Por isso, ilustre Dr. Scalfari, tem razão quando vê, na encarnação do Filho de Deus, o perno da fé cristã. Já Tertuliano escrevia: «caro cardo salutis – a carne [de Cristo] é o perno da salvação». É que a encarnação, ou seja, o facto de o Filho de Deus ter tomado a nossa carne e compartilhado alegrias e sofrimentos, vitórias e derrotas da nossa existência até ao grito da cruz, vivendo tudo no amor e na fidelidade ao Abbá, testemunha o amor incrível que Deus tem por cada homem, o valor inestimável que lhe reconhece. Por isso, cada um de nós é chamado a assumir o olhar e a opção de amor de Jesus, a entrar no seu modo de ser, pensar e agir. Esta é a fé, com todas as suas expressões que são descritas concretamente na Encíclica.

* * *

Além disso, no mesmo editorial de 7 de Julho, o senhor pergunta-me como entender esta originalidade da fé cristã, assente precisamente na encarnação do Filho de Deus, face a outras crenças que por sua vez gravitam em torno da transcendência absoluta de Deus.

Eu diria que a sua originalidade está precisamente no facto de que a fé nos faz participar, em Jesus, na relação que Ele mesmo tem com Deus que é Abbá e, nesta luz, participar na relação que Ele tem com todos os outros homens, incluindo os inimigos, sob o signo do amor. Por outras palavras, a filiação de Jesus, como no-la apresenta a fé cristã, não é revelada para marcar uma separação intransponível entre Jesus e todos os outros, mas para nos dizer que, n’Ele, todos somos chamados a ser filhos do único Pai e irmãos entre nós. A singularidade de Jesus visa a comunicação, não a exclusão.

Claro, daqui segue-se também – e não é pouco – a distinção entre a esfera religiosa e a esfera política, que está sancionada no «dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César", afirmada com nitidez por Jesus e sobre a qual, laboriosamente, se construiu a história do Ocidente. De facto, a Igreja é chamada a semear o fermento e o sal do Evangelho, ou seja, o amor e a misericórdia de Deus que envolvem todos os homens, apontando para a meta escatológica e definitiva do nosso destino, enquanto à sociedade civil e política cabe a árdua tarefa de articular e encarnar na justiça e na solidariedade, no direito e na paz, uma vida cada vez mais humana. Para quem vive a fé cristã, isto não significa fuga do mundo nem vontade de qualquer hegemonia, mas serviço ao homem, ao homem todo e a todos os homens, a partir das periferias da história e mantendo desperto o sentido da esperança que impele a realizar o bem em todas as circunstâncias e com o olhar sempre fixo no além.

Na conclusão de seu primeiro artigo, o senhor pergunta-me ainda o que dizer aos irmãos judeus sobre a promessa que Deus lhes fez: terá ela caído completamente no vazio? Trata-se de uma questão – pode crer – que nos interpela radicalmente como cristãos, porque, com a ajuda de Deus, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II redescobrimos que o povo judeu continua a ser, para nós, a raiz santa donde germinou Jesus. Na amizade que cultivei durante todos estes anos com os irmãos judeus, na Argentina, também eu muitas vezes questionei a Deus na oração, especialmente quando a mente se detinha na recordação da experiência terrível do Holocausto. O que lhe posso dizer – com palavras do apóstolo Paulo – é que nunca esmoreceu a fidelidade de Deus à aliança estabelecida com Israel e que, através das terríveis provações destes séculos, os judeus conservaram a sua fé em Deus. E nunca lhes agradeceremos suficientemente por isso, não só como Igreja, mas também como humanidade. Além disso, perseverando eles precisamente na sua fé no Deus da aliança, lembram a todos, inclusive a nós cristãos, o facto de que permanecemos, como peregrinos, à espera do regresso do Senhor e, por conseguinte, devemos manter-nos sempre abertos a Ele, sem nos fecharmos jamais no que já conseguimos.

E assim chego às três perguntas que me coloca no artigo de 7 de Agosto.

Parece-me que, nas duas primeiras, aquilo que lhe está a peito é entender a atitude da Igreja com quem não partilha a fé em Jesus. Antes de mais nada, pergunta-me se o Deus dos cristãos perdoa a quem não acredita nem procura acreditar. Admitido como dado fundamental que a misericórdia de Deus não tem limites quando alguém se Lhe dirige com coração sincero e contrito, para quem não crê em Deus a questão está em obedecer à própria consciência: acontece o pecado, mesmo para aqueles que não têm fé, quando se vai contra a consciência. De fato, ouvir e obedecer a esta significa decidir-se diante do que é percebido como bem ou como mal; e é sobre esta decisão que se joga a bondade ou a maldade das nossas acções.

Em segundo lugar, o senhor pergunta-me se é um erro ou um pecado pensar que não existe nada absoluto e, consequentemente, também não há uma verdade absoluta mas apenas uma série de verdades relativas e subjectivas. Para começar, eu não falaria – nem mesmo para aqueles que acreditam – de verdade «absoluta» dando ao termo absoluto o sentido daquilo que está desligado, que carece de qualquer relação, porque a verdade, segundo a fé cristã, é o amor de Deus por nós em Jesus Cristo. Portanto, a verdade é uma relação! E tanto é assim, que cada um de nós capta a verdade e exprime-a a partir de si mesmo: da sua história e cultura, da situação em que vive, etc. Isto não quer dizer que a verdade seja variável e subjectiva. Longe disso! Significa, sim, que ela se nos dá sempre e só como um caminho e uma vida. Porventura não disse o próprio Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida»? Por outras palavras, sendo a verdade, em última análise, uma só coisa com o amor, requer a humildade e a abertura para ser buscada, acolhida e expressa. Concluindo, é preciso entendermo-nos bem sobre os termos e, para sair dos estrangulamentos duma contraposição... absoluta, talvez seja necessário reformular em profundidade a questão. Penso que isto seja hoje absolutamente necessário para se estabelecer aquele diálogo sereno e construtivo que eu almejava ao início deste meu texto.

Na última questão, pergunta-me se, com o desaparecimento do homem da terra, desaparecerá também o pensamento capaz de pensar Deus. É certo que a grandeza do homem está em ser capaz de pensar Deus, isto é, em poder viver uma relação consciente e responsável com Ele. Mas, a relação é entre duas realidades. Deus – tal é o meu pensamento e a minha experiência, mas são muitos os que, ontem e hoje, os compartilham! - não é uma ideia, ainda que muito elevada, fruto do pensamento do homem; Deus é realidade com o «R» maiúsculo. Jesus no-Lo revela – e vive em relação com Ele – como um Pai de bondade e misericórdia infinitas. Por isso, Deus não depende do nosso pensamento. Aliás, mesmo quando acabar a vida do homem sobre a terra – e, segundo a fé cristã, este mundo tal como o conhecemos está destinado em todo o caso a perecer –, não deixará de existir o homem; e com ele, de um modo que ignoramos, o próprio universo também não. A Escritura fala de «um novo céu e uma nova terra» e afirma que, no final – num onde e quando que nos ultrapassam mas para os quais, na fé, tendemos com desejo e expectativa – Deus será «tudo em todos».

E assim concluo, ilustre Dr. Scalfari, estas minhas reflexões, suscitadas por tudo o que me quis comunicar e perguntar. Receba-as como uma tentativa de resposta, provisória mas sincera e confiante, ao convite que vislumbrei para fazermos um pedaço de estrada juntos. A Igreja – creia-me! – apesar de todas as lentidões, infidelidades, erros e pecados que possa ter cometido e pode ainda cometer nos que a compõem, não tem outro sentido e finalidade que não seja viver e testemunhar Jesus: Ele, que foi enviado pelo Abbá para «anunciar a Boa-Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista, mandar em liberdade os oprimidos, proclamar um ano favorável da parte do Senhor» (Lc 4,18-19 ).

Com fraterna amizade,

Franciscus PP.

 

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Crédito da imagem: Google Image Search

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15.8.13

Interesses impessoais

Texto de Bertrand Russell em "A conquista de felicidade” (Ed. Saraiva/Nova Fronteira) – trechos das págs. 166 a 170. Tradução de Luiz Guerra. O comentário ao final é meu.


Os interesses impessoais, além de sua importância como fator de relaxamento, têm outras vantagens. Para começar, ajudam a manter o senso de proporção. É fácil deixarmo-nos absorver por nossos próprios projetos, nosso círculo de amizades, nosso tipo de trabalho, até o ponto de esquecermos que tudo isso constitui uma parte mínima da atividade humana total – e também pensarmos que a maior parte do mundo em nada afeta o que fizemos.

O leitor pode perguntar: por que devo me lembrar disso? Tenho várias respostas. Em primeiro lugar, é bom ter uma imagem do mundo tão completa quanto nos permitam nossas atividades necessárias. Nenhum de nós vai ficar muito tempo neste mundo, e cada qual, durante os poucos anos de sua vida, precisa aprender o máximo que puder sobre este estranho planeta e sua posição no universo. Não aproveitar as oportunidades de conhecimento, por mais imperfeitas que sejam, é como ir ao teatro e não prestar atenção na peça.

O mundo está cheio de fatos trágicos ou cômicos, heroicos, extravagantes ou surpreendentes, e aqueles que não encontram interesse no espetáculo estão renunciando a um dos privilégios que a vida nos oferece.

Por outro lado, o senso de proporção torna-se muito útil, e às vezes bastante consolador. Todos somos propensos à excitação exagerada, à preocupação exagerada, à impressão exagerada da importância do pequeno pedacinho de terra em que vivemos, e do pequeno espaço de tempo compreendido entre nosso nascimento e nossa morte.

Toda essa excitação e essa supervalorização de nossa própria importância nada têm de bom. É certo que nos fazem trabalhar mais, mas não nos farão trabalhar melhor. É preferível pouco trabalho com bom resultado a muito trabalho com mau resultado, embora não seja esse o pensamento dos partidários da vida superativa.

Os que se preocupam muito com seu trabalho se acham em constante perigo de cair no fanatismo, que consiste basicamente em recordar uma ou duas coisas desejáveis, esquecendo-se de todas as demais, e supor que qualquer dano incidental que causemos, tratando de conseguir essas coisas, não tem importância.

Não existe melhor precaução contra esse temperamento fanático que uma concepção ampla da vida humana e de sua posição no universo. Pode parecer que estamos invocando uma concepção demasiadamente grande para a ocasião, mas, fora desta aplicação particular, é algo que tem um grande valor por si só.

Um dos defeitos da moderna educação superior é que ela se transformou num puro treinamento para adquirir certas habilidades e cada vez se preocupa menos em ampliar a mente e o coração por meio do exame imparcial do mundo.

Vamos imaginar que estejamos empenhados em uma campanha política e que trabalhemos com todas as nossas forças pela vitória de nosso partido. Até aí, tudo bem. Mas ao longo da campanha pode perfeitamente acontecer que se apresente alguma oportunidade de vitória que implique o uso de métodos calculados para fomentar o ódio, a violência e a desconfiança. Por exemplo, podemos ter a ideia de que a melhor tática para ganhar uma disputa seja insultando uma nação estrangeira. Se nosso alcance mental só abrange o presente, ou se assimilamos a doutrina de que importa apenas o que chamamos de eficiência, adotaremos esses métodos tão equívocos. Pode ser que graças a eles consigamos atingir nossos propósitos imediatos, mas a longo prazo as consequências mostram-se desastrosas.

Em contrapartida, se nossa bagagem mental inclui as épocas passadas da humanidade, sua lenta e parcial saída do estado de barbárie e a brevidade de toda a sua história em comparação com os períodos astronômicos, se essas ideias modelaram nossos sentimentos habituais, nos daremos conta de que a batalha momentânea em que estamos empenhados não pode ser tão importante a ponto de nos arriscarmos a dar um passo atrás, retrocedendo às trevas de onde tão lentamente saímos.

Além disso, se somos derrotados em nosso objetivo imediato, nos servirá de sustento esse mesmo sentido do momentâneo que nos levou a rechaçar o uso de métodos degradantes. Mais além de nossas atividades imediatas, teremos objetivos a longo prazo – que pouco a pouco irão tomando forma –, nos quais uma pessoa não será um indivíduo isolado, mas sim parte do grande exército daqueles que têm guiado a humanidade para uma existência civilizada.

Quem haja adotado essa maneira de pensar nunca se verá abandonado por uma certa felicidade de fundo, seja qual for sua sorte pessoal. A vida se transformará em uma comunhão com os grandes de todas as épocas e a morte pessoal não será mais que um incidente sem importância.

Se me coubesse organizar a educação superior, [...] tentaria fazer com que os jovens adquirissem uma viva consciência do passado, que se tornassem plenamente conscientes de que o futuro da humanidade será, quase com toda a segurança, incomparavelmente mais longo que seu passado e que, também, adquirissem plena consciência de o quanto é pequeno o planeta sobre o qual vivemos, tanto quanto de que a vida neste planeta não passa de um incidente passageiro.

Juntamente a tais fatos, [...] apresentaria a esses jovens outro conjunto de fatos, esboçados para gravar em suas mentes a grandeza de que é capaz o indivíduo e convencê-los de que em toda a profundidade do espaço estrelar nada que tenha tanto valor é conhecido.

Há muito Spinoza escreveu sobre a servidão e a liberdade. Devido ao seu estilo e a sua linguagem, suas ideias são de difícil acesso, exceto para os estudantes de filosofia, mas o que pretendo dizer aqui distingue-se muito pouco do que ele disse.

Uma pessoa que tenha percebido o que seja a grandeza da alma, ainda que temporária e brevemente, já não poderá ser feliz, caso se deixe transformar em um ser mesquinho, egoísta, atormentado por males triviais, com medo do que lhe haja reservado o destino. A pessoa capaz de grandeza de alma abrirá de par em par as janelas de sua mente, deixando que penetrem livremente através delas os ventos de todas as partes do universo.

Ela se verá a si própria, verá a vida e verá o mundo com toda a verdade que nossas limitações humanas permitam; dando-se conta da brevidade e da insignificância da vida humana, e compreenderá, também, que nas mentes individuais se acha concentrado tudo o que de valor existe no universo conhecido.

Comprovará que o homem, cuja mente espelha o mundo, chega a ser, em certo sentido, tão grande quanto o mundo. E experimentará, inclusive, uma profunda alegria ao emancipar-se dos medos que assombram o escravo das circunstâncias – e, no fundo, continuará sendo feliz, malgrado todas as vicissitudes de sua vida exterior.

***

Comentário
Do alto de todo o seu ateísmo pleno de espiritualidade, Bertrand Russell consegue nos trazer uma mistura rara de conhecimento científico, político e espiritual. O que ele aconselha sobre levarmos sempre em consideração, na vida, o quanto somos pequenos em relação a totalidade do Cosmos e, o quanto somos, ainda assim, grandes em nosso amor pelo Cosmos e pelos seres que o habitam, é uma espécie de ensinamento que permeia tanto a filosofia epicurista e estoica quanto as belas “preposições geométricas” de Benedito Espinosa. Agindo assim, colocamos nosso interesse, nosso pensamento e, principalmente, nosso amor, além das fronteiras ilusórias de nosso eu – transbordamos o casulo e voamos, como borboletas, por toda a imensidão que nos abarca.

Perto da imensidão da natureza, nossas angústias e desejos soam como poeira e folhas espalhadas pelo vento no jardim. Quaisquer que sejam as diferenças entre as pessoas e seus desejos e angústias, elas não são nada perto das diferenças entre os seres humanos mais poderosos e os grandes desertos, as altas montanhas, geleiras e oceanos, a luz das estrelas. Existem fenômenos naturais tão grandes que tornam as variações entre duas pessoas quaisquer ridiculamente pequenas. Ao passar um tempo em amplos espaços, a consciência de nossa própria insignificância na hierarquia social pode se transformar na consciência reconfortante da insignificância de todos os seres humanos no Cosmos.

Podemos superar o sentimento de que somos insignificantes não nos tornando mais importantes ou desejando fama, poder ou status, mas reconhecendo a insignificância relativa de todos. Nossa preocupação com quem é alguns milímetros mais alto do que nós pode dar lugar a uma reverência a coisas infinitamente maiores que nós, uma força que podemos ser levados a chamar de natureza, vida, infinito, eternidade – ou simplesmente Deus.

Mas, sobretudo, quem mantém os pés no chão florido das amizades duradouras e a mente na imensidão estrelar do Cosmos, este não poderá jamais ser seduzido pelas efêmeras promessas dos chamados “bens materiais”. Pois que terá ao seu lado o amor ao saber, as reflexões diárias, a liberdade de pensamento, e a possibilidade permanente de se dirigir a janela do ser, escancaradamente aberta, e observar a paisagem – toda esta deliciosa impermanência que o cerca, sem jamais se apegar de fato a coisa alguma além do amor em si mesmo.

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Crédito das imagens: Joel "Boy Wonder" Robinson

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