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2.2.17

As despedidas

As despedidas são momentos da vida com os quais ainda não aprendi a lidar. É que, mesmo quando partimos rumo a um destino aspirado, as despedidas põem a nu, com a clareza do sol e a crueza da verdade mais verdadeira, o insuperável paradoxo da vivência humana; ela tem, lado a lado, como irmãos siameses, a coluna dos ganhos e a coluna das perdas.

A cada nova etapa da vida, deixamos de ser o que fomos e o que somos, deixamos para traz um pouco de nós mesmos. Por isso é que se diz: quando nos despedimos, despedimo-nos também um pouco de nós mesmos.

Para mim essa ocasião tem necessariamente qualquer coisa de mãos acenando; qualquer coisa de palavra reprimida, que se converte em lágrima furtiva; qualquer coisa úmida no olhar. É nela que eu experimento uma verdade ingênua, mas incrivelmente feliz:

Não é a primeira vez que me digo adeus, ergo o braço e aceno para quem parte e quem parte sou eu. Sou eu quem tem os olhos umedecidos no porto e, ao mesmo tempo, sou eu quem tem os olhos umedecidos na nave.

Perdoe-me a humilde vaidade, eu sei que eu sei ser assim, como os poetas me acenando adeus, e parto comigo mesmo acenando-lhes adeus.

Meu irmão, é verdade, se você deixa de ser juiz ou se deixa de ser qualquer coisa, você não deixa os juízes nem deixa os companheiros, você se deixa a si mesmo em algum baú assombrado, tal como se deixou o menino no baú da infância, tal como se deixou o moço no baú do amor, tal como se deixou o homem no baú do trabalho.

Nós, os homens, somos diversos, múltiplos, porque somos sobretudo semeadores de fantasmas. Agora que somos maduros, compreendemos: viver não é fazer outra coisa senão deixar nossas assombrações pelas esquinas do tempo. Ser maduro é ser um monte de fantasmas conservados à naftalina no baú dos nossos guardados mais queridos.

Eu sou quem está guardando o juiz que fui, no meu baú. O juiz é meu penúltimo fantasma, tenho certeza disso, o juiz é minha penúltima aventura exaurida. O juiz que estou guardando, entre as naftalinas do meu baú de guardados, esse juiz é meu penúltimo cântaro vertido.

Mas quero lhes deixar bem claro: não há tristeza na minha despedida; há apenas emoção, que me toca profundamente. Passam-se, na memória, vivências felizes que aqui tive com colegas eminentes, confraternais companheiros, com servidores dedicados e leais – a quem não canso de reiterar profundos agradecimentos.

Como se percebe, meus caros, são muitos os fantasmas que estou guardando no baú do peito e do tempo. Sei que nesta minha passagem também cometi erros, nem poderia ser diferente, mas tenho a consciência tranquilizada, porque sei também que trabalhei para não errar.

Aqui, fiz muitos amigos e penso que não fiz inimigos. Se existe algum, não o conheço; dele nunca tive notícia.

Posso, portanto, afirmar com toda a segurança: a assombração que fica, o fantasma que deixo nesta Casa não é assustador, nem triste, nem sombrio. Não tenho receio, ele quer ser apenas, para sempre, um "fantasminha camarada".

E, agora, é seguir caminho, porque, como diz a canção pantaneira de Almir Sater, “cumprir a vida é compreender a marcha e ir tocando em frente. Cada um de nós compõe a sua história. Cada ser carrega em si o dom de ser capaz de ser feliz”.

O olhar para trás me deixa emocionado, porque o que vejo e o que levarei na lembrança são somente coisas boas. E o olhar que lanço para frente está cheio de esperança; por isso é que estimo, ao me despedir e partir, que, na contabilidade futura, contra os percalços da vida, não há de me faltar um superávit de ventura no balanço dos dias.

Muito obrigado!


Acerca da autoria
Este texto não é meu. Ao contrário dos demais textos selecionados de outros autores que trouxe aqui para o blog, resolvi falar da autoria ao final, e não logo de início. Isto porque, se dissesse lá no alto que se trata de um texto do saudoso ministro do STF, Teori Zavascki, ele certamente seria lido de outra forma. Mas, de fato, apesar de contar com algumas citações ao poeta José Paulo Bisol, se trata de trechos selecionados de um discurso de Teori, proclamado quando este foi chamado para o STF, no final de 2012. Era uma despedida, portanto, direcionada aos seus colegas do STJ, onde foi ministro desde 2003 até a data.

Como sabemos, Teori faleceu recentemente num trágico acidente de avião em Paraty. Nos deixou não somente a relatoria inicial, e extremamente corajosa, da Lava Jato (o maior caso de corrupção de nossa história), como muitos amigos por onde passou. Este texto nos dá uma dimensão do motivo por ter sido tão querido, talvez na mesma medida em que foi tão discreto.

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Crédito da foto: Google Image Search

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30.1.17

É preciso cair para levantar

O texto abaixo foi retirado de uma das respostas de minha amiga Wanju Duli (Juliana Duarte) dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas do qual também participo. Os comentários ao final são meus.

Podemos falar um pouco sobre o significado de evolução ou progresso espiritual. Acredito que o termo "evolução" ficou muito conectado a Darwin, com um sentido de que se passa de um estágio mais baixo para outro mais alto de forma linear. No entanto, o próprio Darwin considerava o termo "evolução" inadequado. Afinal, segundo ele, cada espécie é bem-sucedida caso se adapte melhor ao ambiente em que vive. Isso não significa que um ser humano é necessariamente mais evoluído que um pássaro ou um tubarão, apesar de possuir razão. Caso a espécie humana fosse extinta, os seres mais bem-sucedidos seriam simplesmente os sobreviventes, do ponto de vista biológico. Através da razão, o homem criou tecnologia para voar ou respirar embaixo d'água, mas não necessariamente para tornar-se um ser moralmente bom, espiritualmente elevado ou feliz.

De acordo com Erasmo em Elogio da Loucura, "O homem não foi feito para ser perfeitamente feliz na terra". O próprio termo "progresso" nos lembra o positivismo, que não por acaso está na bandeira do Brasil. Ou seja, tanto "evolução" quanto "progresso" nos remetem à necessidade de avanços científicos para darmos um passo adiante, mas a experiência nos mostra que em alguns casos avanços da ciência podem até nos ser negativos. Nem preciso citar bombas e outras armas de guerra. Em vez disso, irei citar elementos ainda mais fundamentais. É evidente que descobertas que contribuam para saúde e conforto, e que economizem tempo e dinheiro, são boas, desde que bem utilizadas. Por outro lado, conforto e facilidades demais podem nos deixar mal acostumados e nos fazer perder alegrias simples. Deixar de plantar e cozinhar os próprios alimentos de certa forma nos desconectaram da natureza e nos fizeram esquecer um pouco do sentido natural da existência.

Uma coisa que consumimos muito ultimamente são comidas prontas, em nome do maior conforto e da economia de tempo. No entanto muitas comidas industrializadas são pobres em nutrientes, fazem mal para a saúde e baixam nossa imunidade. Consequentemente nossa saúde mental fica prejudicada pelo reflexo do que comemos.

[...] É óbvio que comer bem não é a receita mágica para a felicidade, mas é um fator importante que muitos livros de espiritualidade podem não levar em consideração. A "falta de tempo" é um dos fatores levantados para que as pessoas cozinhem menos e caminhem menos. Evolutivamente, nosso corpo e mente estão adaptados a funcionar gastando tempo caçando, colhendo e cozinhando. No momento em que deixamos de exercitar o corpo e comemos de forma inadequada, não somente a saúde do corpo é prejudicada, mas também a saúde mental. Isso interfere diretamente em nossa espiritualidade, pois podemos nos sentir deprimidos e sem energia.

Meu primeiro ponto é bem simples: para tratar do tópico "evolução" num sentido mental ou espiritual, devemos levar em consideração que não somos somente mente-alma-espírito, mas também corpo. É o corpo que fica doente, envelhece e morre. Foi por causa dessas condições do corpo que Buda iniciou sua busca espiritual. Um dia todos iremos passar pela morte corporal, e todos conhecemos a doença e a dor corporal. É também em nome delas, e não somente do sofrimento mental, que buscamos respostas na espiritualidade. As nossas perguntas começam na mente, mas também tiveram origem no corpo. As nossas respostas terminam na mente, mas também terminarão no corpo, já que todo bom caminho espiritual também deve gerar modificações físicas em nosso estilo de vida.

E agora vamos ao próximo ponto: "aperfeiçoamento mediante a ação lúcida e continuada da consciência". Anteriormente tratamos da natureza dos pensamentos e agora devemos pensar em que sentido esses pensamentos podem ser trabalhados visando uma evolução moral e espiritual. Para introduzir esse tópico tratarei do conceito de busca do aperfeiçoamento e da verdade citando um livro que admiro: O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse. Nesse livro se trata de um conceito que já existia desde a Grécia Antiga: a ideia de que todas as áreas do conhecimento estão, de alguma forma, conectadas umas com as outras. O cristianismo também adotou esse conceito, baseando-se na ideia de que Deus criou "o melhor dos mundos possíveis", e que tal universo é harmonioso e racional.

Hoje em dia temos dificuldade de entender como as diferentes áreas do conhecimento se conectam, pois somos incentivados a ter um conhecimento mais especialista do que generalista. Perdemos muito a ideia do polímata, homem universal ou renascentista, que sabia transitar em diferentes saberes. Por isso é dito no livro de Hesse que vivemos na "Idade Folhetinesca" e isso fica ainda mais evidente hoje com a internet: o conhecimento está tão fragmentado e reduzido em posts curtos de blogs ou frases de redes sociais para "não perdermos tempo" que ficamos com a impressão que sabemos muito de várias coisas, mas não sabemos conectar ou aprender a fundo nenhum desses saberes. Uma invenção medieval chamada "universidade" tenta resgatar isso, mas como ela não é mais baseada nas Sete Artes Liberais e sim em conhecimentos pragmáticos visando apenas o mercado de trabalho, ainda está longe dessa realização. 

No paradigma secularista e materialista do século XXI, vivemos num universo sem sentido, em que muitos eventos ocorrem de forma aleatória, incluindo nossa própria vida e morte. No meio desse caos, nossa única esperança para esquecer a dor e a morte é ter o máximo de prazer e conforto possível, obtidos principalmente através do dinheiro. Talvez alguns problemas das filosofias espiritualistas do século XX e XXI sejam fruto da tentativa de construir uma solução moral e espiritual dentro desse paradigma. Nele o objetivo máximo é ser feliz através do "prazer" e do "sentir-se bem" seja com êxtase e emoções fortes ou paz.

Para buscarmos uma evolução consciente, seria bom lembrarmos do que nos diziam os gregos e romanos da Antiguidade, a exemplo dos estoicos. Diz Sêneca em Aprendendo a Viver:

Por que olhas para o cofre? A liberdade não pode ser comprada [...] Primeiro, livra-te do medo da morte, pois ela nos impõe o seu jugo, e, depois, deves perder o medo da pobreza.

Nós vivemos numa sociedade em que o maior objetivo da vida é não ser pobre, sendo que Jesus disse que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus. Isso significa que não podemos servir a dois deuses: a Deus e ao Dinheiro. É óbvio que tantas pessoas hoje se sentem depressivas e desconectadas do divino: porque estão adorando ao Deus errado. Eu respeito muitos Deuses de várias culturas e religiões, mas algo me diz que adorar ao Deus Mamon, conforme a história mostra, não tem gerado nem mesmo uma felicidade temporária nesse mundo.

Buda e Jesus nos deram outra resposta: a filosofia do sofrimento. Buda nos diz que a vida é sofrimento e Jesus nos convida a imitá-lo sofrendo com ele e carregando sua Cruz. O sofrimento pode não ser o problema, mas a resposta. Quem sabe o problema da humanidade seja achar que a dor e a morte sejam um erro, fugindo deles desesperadamente e se agarrando num sonho de felicidade. A solução é ver a morte como a chave para a vida, para o renascimento: o mártir que morre para o "eu" e renasce no "outro" e em "Deus" encontra a verdadeira vida. É preciso cair e morrer para levantar e nascer. A vida e o mundo não são erros a serem corrigidos pela ciência.

Comentários
A última vez em que falei da Wanju Duli aqui no blog foi trazendo a melhor resenha que já recebi para um livro, quando ela destrinchou o meu Ad Infinitum. Deveria ter trazido mais coisa dela para cá, visto que se trata de uma das maiores conhecedoras (no sentindo abrangente do termo) de magia e ocultismo da web e do meio literário nacional. Espero ter me redimido com este belo trecho que pesquei de nosso debate sobre espiritualidade em geral (também temos outros participantes, provavelmente esse “debate” ainda renderá um livro no futuro). Você também pode encontrar a Wanju na coluna sobre Magia do Caos do portal Teoria da Conspiração.

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Crédito da foto: David Uzochukwu

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19.10.16

As cartas de Rilke

Introdução
Para um poeta que dedicou boa parte da vida a escrita, Rainer Maria Rilke nos deixou uma obra poética relativamente curta. Apesar de haver capturado a imaginação de músicos, filósofos, artistas, escritores, e até mesmo de membros das castas mais nobres de sua época, ao ponto de ser considerado o maior poeta da língua alemã do século XX, tudo levava a crer que, tal qual Fernando Pessoa, Rilke deixou vasta obra por publicar após sua morte. Foi isso que Ulrich Baer, especialista em sua obra, foi investigar – e desta investigação surgiram milhares de cartas que Rilke trocou durante toda a vida com correspondentes de toda a parte da Europa, e até mesmo fora dela. A seleção das melhores passagens destas cartas, traduzida do alemão por Milton Camargo Mota, é o que compõe o excelente e intrigante Cartas do poeta sobre a vida, da Marins Fontes, livro do qual trago alguns trechos abaixo:

Não pense que quem procura consolá-lo vive sem esforço em meio às palavras simples e serenas que às vezes confortam você. A vida dele tem muita tribulação e tristeza e permanece muito aquém da sua. Mas, se fosse diferente, ele jamais poderia ter encontrado tais palavras...

Da vida
Nós, seres do aqui e agora, não estamos satisfeitos por um só momento no mundo do tempo, nem presos a ele; nós sempre vamos além e além, até os de outrora, até nossa origem e àqueles que parecem vir depois de nós. Nesse mundo “aberto” ao máximo, não se pode dizer que todos são “contemporâneos”, pois juto a revogação do tempo acarreta que todos são. A transitoriedade cai em toda parte num profundo ser.

E, assim, todas as formas do aqui não devem ser usadas apenas dentro de limites temporais, mas, tanto quanto possível, devem ser postas naqueles significados superiores de que participamos. Mas não no sentido cristão; ao contrário, numa consciência puramente terrena, profundamente terrena, jubilosamente terrena, é nossa tarefa introduzir o [que foi] visto e tocado aqui no círculo mais vasto, o mais vasto de todos. Não em um além, cuja sombra escurece a Terra, mas em um todo, no Todo.

A natureza e as coisas de nosso entorno e uso são preliminares e transitórias, mas são, enquanto estamos aqui, nossa posse e nossa amizade, cúmplices de nosso sofrimento e alegria, tal como elas já foram os confidentes de nossos antepassados. É essencial, portanto, não apenas não caluniar e rebaixar as coisas do aqui, mas também pelo caráter provisório que elas compartilham conosco, compreender e transformar esses fenômenos e coisas com o mais íntimo entendimento.

Transformar? Sim, pois é nossa tarefa gravar em nós essa terra provisória, efêmera, de forma tão profunda, tão sofrida e tão apaixonada que sua essência de novo ressuscita “invisível” dentro de nós. Somos as abelhas do invisível. Apaixonados colhemos o mel do visível, para acumulá-lo no grande favo de ouro do Invisível.

Da convivência
Sou da opinião de que o “casamento” como tal não merece tanta ênfase quanto acumulou pelo desenvolvimento convencional de sua natureza. A ninguém ocorre a ideia de exigir de um indivíduo que seja “feliz” – mas, quando alguém se casa, todos ficam muito espantados por ele não ser feliz! (E, além do mais, não é nem um pouco importante ser feliz, seja como solteiro ou casado). Em vários aspectos, o casamento é uma simplificação das condições de vida, e a união decerto soma as forças e vontades de dois jovens, de modo que, em conjunto, eles parecem alcançar mais longe no futuro do que antes. Só que isso são meras impressões, das quais não se pode viver.

Antes de tudo, o casamento é uma nova tarefa e uma nova seriedade – uma nova demanda e um desafio à força e à bondade de cada participante, e um novo grande perigo para ambos. Pelo que sinto, não se trata de no casamento criar uma rápida união pela demolição de todas as fronteiras. Ao contrário, o bom casamento é aquele em que um designa o outro como guardião de sua solidão e lhe demonstra a maior confiança que ele tem a conceder.

Uma vida conjunta de duas pessoas é uma impossibilidade e, quando ela todavia parece existir, é uma limitação, um acordo mútuo, que priva uma parte ou ambas de sua mais plena liberdade e desenvolvimento. Mas, contanto que se reconheça que mesmo entre as pessoas mais próximas subsistem distâncias infinitas, pode se estabelecer entre elas uma coabitação maravilhosa, tão logo consigam amar a vastidão entre elas que lhes dá a possibilidade de se verem um ao outro em sua forma total e diante de um céu imenso!

Por tal motivo, isto também deve servir como critério para a rejeição ou a escolha: a possibilidade de desejar velar pela solidão de outra pessoa e de estar inclinado a colocar essa mesma pessoa nos portões de nossa própria profundidade, da qual ela só tomará conhecimento graças àquilo que emerge da grande escuridão, festivamente trajado.

Do trabalho (ou missão)
Antes que tivessem conhecimento autêntico do trabalho, as pessoas inventaram a distração como um desprendimento e um oposto do falso trabalho. Ah, se tivessem esperado, se tivessem tido um pouco mais de paciência, então o verdadeiro trabalho teria estado um pouco mais ao seu alcance, e elas teriam percebido que o trabalho não pode ter um oposto, assim como o mundo não pode ter, nem deus, nem viva alma. Pois ele é tudo, e o que ele não é – é nada e lugar nenhum.

Da infância
A infância – o que ela realmente foi? O que foi ela, a infância? Não se pode indagar sobre ela senão com essa atônita pergunta – o que foi ela? Aquele arder, aquele espantar-se, aquele contínuo não-poder-fazer-de-outro-modo, aquele doce, profundo, irradiante sentir-as-lágrimas-aflorarem? O que foi isso?

A maioria das pessoas absolutamente não sabe como o mundo é belo e quanto esplendor se revela nas menores coisas, em alguma flor, uma pedra, uma casca de árvore ou uma folha de bétula. Os adultos, que têm negócios e preocupações e se atormentam com puras mesquinharias, aos poucos perdem totalmente o olhar para essas riquezas, que as crianças, se boas e atentas, logo notam e amam de todo o coração. E, contudo, seria a coisa mais sublime se quanto a isso todo mundo permanecesse sempre como crianças boas e atentas, ingênuas e pias no sentimento, e não perdesse a capacidade de se alegrar de modo tão intenso com uma folha de bétula ou uma pena de pavão ou a asa gralha-cinzenta como com uma cordilheira ou um palácio suntuoso.

O pequeno não é pequeno, tal como o grande não é grande. Uma beleza grande e eterna atravessa o mundo todo e se distribui de modo justo sobre as coisas pequenas e grandes, pois, no que é importante e essencial, não há injustiça em lugar algum sobre a Terra.

Da escola
Todo saber que a escola precisa oferecer deve ser dado com afeto e generosidade, sem restrição e reservas, sem intenção e por um indivíduo apaixonado. Nela, todas as disciplinas deveriam tratar da vida, como o único tema que está por trás de todos os outros. Então, todas elas, em seus limites mais externos, nunca cessariam de tocar os grandes contextos que geram religião inesgotavelmente.

Das profundezas de nosso interior
De fato é assim: cada um, nas profundezas de seu interior, é como uma igreja, e as paredes estão adornadas com solenes afrescos. Na primeira infância, em que o esplendor ainda está exposto, é muito escuro lá dentro para se ver as imagens, e, quando o salão aos poucos vai ganhando luz, vêm as loucuras adolescentes, os falsos anseios e a vergonha sedenta e cobrem de cal parede após parede. E algumas pessoas avançam longe vida adentro e a atravessam sem suspeitar do antigo esplendor sob a sóbria pobreza.

Mas bem-aventurado aquele que o sente, encontra-o e secretamente o desvela. Ele se dá um presente. E volta ao lar de si mesmo.

Da arte
Arte significa não saber que o mundo já é, e fazer um. Não destruir nada que se encontra, mas simplesmente não achar nada pronto. Nada mais que possibilidades. Nada mais que desejos. E, de repente, ser realização, ser verão, ter sol. Sem que se fale disso, involuntariamente. Nunca ter terminado. Nunca ter o sétimo dia. Nunca ver que tudo é bom.

Insatisfação é juventude.

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Crédito da foto: Google Image Search/Leonid Pasternak (o poeta)

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14.9.16

Os domingos precisam de feriados

Texto por Nilton Bonder, rabino e escritor. Os comentários ao final são meus.

Toda sexta-feira à noite começa o shabat para a tradição judaica. Shabat é o conceito que propõe descanso ao final do ciclo semanal de produção, inspirado no descanso divino, no sétimo dia da Criação. Muito além de uma proposta trabalhista, entendemos a pausa como fundamental para a saúde de tudo o que é vivo. A noite é pausa, o inverno é pausa, mesmo a morte é pausa. Onde não há pausa, a vida lentamente se extingue.

Para um mundo no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser suficiente, onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo, descansar se torna uma necessidade do planeta. Hoje, o tempo de ‘pausa’ é preenchido por diversão e alienação. Lazer não é feito de descanso, mas de ocupações ‘para não nos ocuparmos’. A própria palavra entretenimento indica o desejo de não parar. E a incapacidade de parar é uma forma de depressão. O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento cresce nessas condições. Nossas cidades se parecem cada vez mais com a Disneylândia. Longas filas para aproveitar experiências pouco interativas. Fim de dia com gosto de vazio. Um divertido que não é nem bom nem ruim. Dia pronto para ser esquecido, não fossem as fotos e a memória de uma expectativa frustrada que ninguém revela para não dar o gostinho ao próximo.

Entramos no milênio num mundo que é um grande shopping. A Internet e a televisão não dormem. Não há mais insônia solitária; solitário é quem dorme. As bolsas do Ocidente e do Oriente se revezam fazendo do ganhar e perder, das informações e dos rumores, atividade incessante. A CNN inventou um tempo linear que só pode parar no fim. Mas as paradas estão por toda a caminhada e por todo o processo. Sem acostamento, a vida parece fluir mais rápida e eficiente, mas ao custo fóbico de uma paisagem que passa. O futuro é tão rápido que se confunde com o presente. As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um feriado.

Nossos namorados querem ‘ficar’, trocando o ‘ser’ pelo ‘estar’. Saímos da escravidão do século XIX para o leasing do século XXI – um dia seremos nossos? Quem tem tempo não é sério, quem não tem tempo é importante. Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco. Nunca tantos fizeram tanto por tão poucos.

Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma interrupção. O dia de não trabalhar não é o dia de se distrair – literalmente, ficar desatento. É um dia de atenção, de ser atencioso consigo e com sua vida. A pergunta que as pessoas se fazem no descanso é ‘o que vamos fazer hoje?’ – já marcada pela ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos, quando não sabemos o que fazer numa tarde de domingo.

Quem ganha tempo, por definição, perde. Quem mata tempo, fere-se mortalmente. É este o grande ‘radical livre’ que envelhece nossa alegria – o sonho de fazer do tempo uma mercadoria. Em tempos de novo milênio, vamos resgatar coisas que são milenares. A pausa é que traz a surpresa e não o que vem depois. A pausa é que dá sentido à caminhada. A prática espiritual deste milênio será viver as pausas. Não haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar. Afinal, por que o Criador descansou? Talvez porque, mais difícil do que iniciar um processo do nada, seja dá-lo como concluído.


Comentários
Quando o tempo é compreendido como dinheiro, todo o tempo, a própria vida se torna um trabalho sem fim, isto é, um trabalho escravo. E o pior de tudo é que, quando estamos profundamente seduzidos por tal ideia, somos o escravo ideal: aquele que se apraz com sua escravidão, e até mesmo a glorifica.

Isso nada tem a ver com falta de disciplina. É perfeitamente possível ser disciplinado no trabalho e no lazer. É perfeitamente possível organizar o dia a dia ao ponto de valorizar mais o lazer que o trabalho, de modo a ser o mais produtivo possível no menor número de horas. Na Escandinávia já estão se voltando para uma jornada de 6h diárias de trabalho, com aumento de produtividade. Não à toa, eles são o primeiro mundo do primeiro mundo.

E faz todo sentido: o que valoriza o seu trabalho, para além de se amar o que faz (o que nem sempre é possível, ao menos não 100% do tempo), é exatamente o que ele lhe proporciona de lazer. E lazer não é gastar o tempo com entretenimento ou consumismo desenfreado. Lazer, de verdade, é poder contemplar a imensidão do mundo, é poder usar um dia todo para não fazer absolutamente nada. Nada além de estar aqui, vivo, existindo. Lazer, enfim, é viver o tempo, e não gastá-lo.

Os índios já sabiam disso, talvez por isso eles falem que o mal do homem moderno é o seu grande esquecimento. Para a alma, afinal, só existe o agora. E, para quem acha que tempo é dinheiro, esse agora se torna uma mercadoria além de qualquer possibilidade de aquisição.

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Crédito da foto: Steve McCurry (Rio de Janeiro visto de Niterói)

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10.8.16

A flor e a náusea nos Jogos Olímpicos Rio 2016

Para os poetas, daqui e de fora, um dos grandes momentos da bela cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016 foi este em que duas grandes atrizes, Fernanda Montenegro e Judi Dench, recitam em suas respectivas línguas, português e inglês, o trecho final do poema A flor e a náusea, do imortal Carlos Drummond de Andrade.

Abaixo, segue o áudio desta parte da cerimônia, já que não encontrei online o trecho em vídeo:

O poema inteiro, no entanto, causa bem mais impacto, conforme recitado por Carlos Vereza no Programa do Jô:

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


Carlos Drummond de Andrade

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Crédito da imagem: Google Image Search

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1.6.16

A cultura do acolhimento

Introdução
Quando fiquei sabendo da grande repercussão do estupro coletivo de uma jovem de 16 anos no Rio de Janeiro, seja nas redes sociais ou mesmo na grande mídia, logo me veio uma necessidade de falar alguma coisa sobre o assunto – isto é, sobre a repercussão em si, o que foi de fato a novidade (para o alívio de muita gente, principalmente das mulheres em geral), visto que o estupro em si, tanto aqui como no resto do mundo, infelizmente está longe de ser novidade.

De fato, seja no Brasil, na Índia ou nos EUA, em bailes funk e favelas ou em universidades luxuosas, entre gente pobre ou bem criada, na rua ou no seio das famílias mais bem reputadas, o estupro está mais para epidemia do que para novidade. Uma epidemia de violência que surge da ignorância sobre o que nós homens somos realmente.

Porém, uma vez que eu já disse quase tudo o que tinha para dizer sobre o assunto num conto que escrevei há alguns anos, A educação de Casanova, e conforme hoje em dia muita gente ainda confunde feminismo com femismo, e machismo com “defesa da masculinidade”, confesso que optei por abdicar de voltar uma vez mais a um tema tão espinhoso (não por culpa do tema em si, mas sobretudo por culpa da ignorância geral acerca dele).

Foi por isso que resolvi trazer a vocês não um artigo meu, mas sim o resumo de um excelente artigo de Nora Samaran, uma blogueira canadense que analisa grandes questões da cultura moderna. Ela, como excelente escritora, e sobretudo como mulher, pode nos esclarecer melhor o assunto do que eu creio que seria capaz de fazer. O artigo se encontra resumido por ser excessivamente extenso, mas podem encontrá-lo na íntegra em seu blog. A tradução do inglês original é de Marcelo Dakí:


O oposto da cultura de estupro é a cultura de acolhimento
O oposto da cultura masculina de estupro é a cultura masculina de acolhimento: homens aumentando sua capacidade de acolher, tornando-se plenos.

O julgamento Ghomeshi [1] volta aos noticiários, trazendo o tópico da agressão sexual violenta de volta às mentes das pessoas e às conversas cotidianas. Certamente a violência é errada, mesmo quando o sistema jurídico que lida com a mesma é um desastre. Essa parte parece evidente. Alarmante, mas evidente.

Mas aqui há algo maior em cena. Estou lutando para vislumbrar a forma completa que emerge do desenhar do lápis, quando apenas partes são visíveis no momento.

Um meme que circula por aí diz “Estupro é violência, não sexo. Se alguém te batesse com uma pá, você não chamaria isso de jardinagem”. E isso é verdade. Mas apenas a superfície da verdade. As profundezas dizem algo além, algo sobre a violência.

A violência é o acolhimento virado do avesso.

Essas coisas estão conectadas, elas têm de estar conectadas. Violência e acolhimento são dois lados da mesma moeda. Eu luto para entender isso mesmo enquanto escrevo.

Autocompaixão e compaixão pelos outros crescem juntas e estão conectadas; isso significa que homens buscando e recuperando partes perdidas de si mesmo vão curar a todos. Se muitos homens crescerem aprendendo a não amar seus eus verdadeiros, aprendendo que suas demandas de apego emocional (segurança emocional, acolhimento, conexão, amor, confiança) são fracas e erradas – que o a demanda por apego de qualquer pessoa, ou sua segurança emocional, são fracas e erradas – isso pode levar a duas coisas:

(1) Eles podem se tornar menos aptos a experienciar mulheres enquanto pessoas plenas, com demandas e sentimentos inteligíveis (por autonomia, por segurança emocional, por sintonia, por confiança).
(2) Eles podem se tornar menos aptos a compreender suas próprias demandas por conexão, transmutando-as em vez disso em formas distorcidas, mais espelhadas no social.

Então, para curar a cultura de estupro, homens constroem habilidades masculinas de acolhimento: acolhimento e recuperação de seus eus verdadeiros, e acolhimento de pessoas de todos os gêneros ao seu redor.

Eu estou lentamente descobrindo um segredo: os homens que conheço que são excepcionalmente acolhedores, amantes, pais, colegas de trabalho, amigos íntimos de seus amigos, que sabem como fazer as pessoas se sentirem seguras, esses homens não tem quase nenhum canal através do qual possam aprender ou compartilhar com outros homens essa habilidade arduamente conquistada. Se tiverem sorte, podem ter um modelo de comportamento em casa, na forma de um pai excepcionalmente acolhedor, mas sem ter esse modelo eles têm de descobrir tudo através de tentativa e erro, ou aprender com mulheres ao invés de homens. Esse conhecimento molda tudo: premissas sobre a significação de demandas, sobre como alguém pode responder a elas, como é sentida a proximidade, como amar sua própria alma, e qual tipo de acolhimento deve de fato acontecer num espaço íntimo.

Enquanto isso, os homens que conheço que são pessoas boas, de bom coração, mas que estão só começando a alimentar seus próprios modelos de amor-próprio e aprendendo a confortar e acolher os outros, esses homens não têm outros homens como referências. Crescimento acarreta dores de crescimento, certamente, mas o caminho pode ser suavizado quando alguém não precisa aprender tudo sozinho.

Homens não conversam uns com os outros sobre habilidades de acolhimento: fazer isso soa muito íntimo, ou os códigos da masculinidade tornam muito apavorante fazê-lo. Se eles não podem perguntar e ensinar uns aos outros – se eles não podem nem mesmo descobrir quais outros homens em suas vidas seriam receptivos a tais conversas – como eles aprendem?

Homens têm capacidade de cura que são particularmente masculinas e particularmente curadoras. Eles frequentemente não estão totalmente cientes desse profundo dom e do quanto ele pode ser de ajuda àqueles próximos a eles, sejam familiares ou amigos íntimos.

Para uma transformação completa dessa cultura de misoginia, homens devem fazer mais do que “não agredir”. Nós devemos fazer um apelo à masculinidade para que se torne plena e acolhedora de si mesma e dos outros, para que reconheça que demandas por apego são saudáveis e normais e não “femininas”, e então esperar que os homens curem a si mesmos e aos outros da mesma forma que esperamos que as mulheres sejam “acolhedoras”. É a hora dos homens reconhecerem e nutrirem seus próprios dons de cura.

[...] Homens precisam fazer esse trabalho com outros homens – não sozinhos, não em vez de fazê-lo com mulheres, mas para além disso, em relações responsáveis com e para com mulheres. Em outras palavras, continuar aprendendo das maneiras que o aprendizado está ocorrendo agora – e então dividir esse aprendizado uns com os outros. [...] [Os] homens precisam fazer esse trabalho de cura todos os dias, por detrás das cortinas, colhendo as recompensas de terem mulheres e pessoas de todos os gêneros se sentindo seguras com eles, e cultivando seu amor-próprio e o amor de uns pelos outros.

A maravilhosa recompensa de se criar laços seguros é que, nesses lugares de confiança, um brilho quente de significado e propósito emerge. Um círculo interior de confiança e vulnerabilidade permite movimento e descanso: ele permite que as abelhas se aproximem e se afastem da colmeia. Cria abrigos feitos de familiares escolhidos e uma comunidade amada da qual a ação, confrontos ao racismo, sexismo, à violência institucional podem surgir, uma rede de segurança para que sejam amparados os corpos e as almas de cada um, a fundação que permite o risco.

O oposto da cultura masculina de estupro é a cultura masculina de acolhimento. Isso é um trabalho para ser feito por homens, e ainda assim é uma necessidade de pessoas de todos os gêneros ter homens em suas vidas. As recompensas estão esperando.

Você é um homem acolhedor? As mulheres na sua vida – parceira, filha, irmã, amiga, colega de trabalho, mãe – te dizem ou demonstram que você as faz se sentirem excepcionalmente próximas, seguras e que importam? Em caso positivo, como você aprendeu isso? Como você abre espaços para que homens que querem ter tais conversas comecem a tê-las?

Cada homem que eu perguntei a respeito disso respondeu, “ambos os homens teriam de querer isso.” Medo de proximidade, códigos masculinos de interação, os sinais de nível baixo de um cérebro-reptiliano que os homens enviam uns aos outros, são reais e parte do quadro maior. Mas muitos homens estão se debatendo com tais questões, trancados sozinhos em suas pequenas caixinhas.

Homens têm de fazer isso acompanhados de outros homens, apesar das dificuldades de fazê-lo, por três razões. Primeiro, homens entendem o que é ser um homem muito mais do que as mulheres o entendem, e podem ensinar um ao outro enquanto compreendem como é sentir isso e ter compaixão uns pelos outros. Homens devem fazer isso com outros homens porque, francamente, mulheres não podem se responsabilizar por curar homens enquanto se protegem de violência e negligência masculinas, que ainda são endêmicas e partes da vida cotidiana das mulheres. Finalmente, uma das grandes distorções do espírito humano em nossa cultura é que cada homem vive em confinamento solitário, pensando que pode e deve resolver problemas sozinho, que não pode precisar de mais alguém. Saltar as barreiras que impedem homens de falar sobre emoções com outros homens é em si uma mudança fundamental, que reduz a vergonha e a confusão.

Como você sabe quando homens ao seu redor – o amigo que você acabou de encontrar para um drink, o colega com quem você colaborou em projetos por anos, o parceiro de futebol – podem na verdade estar quietamente confusos e sedentos por esse tipo de aprendizado?

Como você pode sinalizar sua disponibilidade, para deixar os homens na sua vida saberem que você mesmo está fazendo isso, para que então aqueles homens que queiram saber sobre acolhimento possam encontrar-se uns aos outros? É tão simples quanto começar um grupo masculino de discussão baseado neste artigo.

Pode ser tão simples quanto compartilhar esse artigo, e perguntar “Isso alguma vez já te ocorreu?”

Pode ser tão simples quanto enviar esse artigo para alguém que você conhece e dizer “Estou disponível”.

Pode ser tão simples quanto postar esse artigo e dizer “Estou aqui”.

***

[1] Jian Ghomeshi é um músico canadense que foi acusado de assédio sexual por várias mulheres, mas aparentemente acabou sendo inocentado de todas as acusações em seu julgamento, o que não foi muito bem aceito pela opinião pública das bandas de lá.

Crédito da imagem: Oleg Oprisco

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13.5.16

Anjos Fósseis, por Alan Moore (parte final)

« continuando da parte 5 (ler do início)

Por Alan Moore. Tradução de Luciano Prado e Rafael Arrais.

O poder da arte é imediato e irrefutável, imenso. Ela altera a consciência, consideravelmente, tanto do artista quanto da sua audiência. Ela pode mudar a vida dos homens e, dessa forma, mudar a história e a própria sociedade. Ela pode nos inspirar a maravilhas ou horrores. Ela pode oferecer as mentes jovens, maleáveis e expansíveis, novos espaços de habitação, ou oferecer conforto aqueles que se encontram perto da morte. Ela pode lhe fazer se apaixonar, ou fatiar a reputação de algum ídolo num piscar de olhos, e o manter mutilado frente aos seus adoradores, morto para a posteridade. Ela conjura demônios de Goya e anjos de Rosetti até a aparência visível. É ao mesmo tempo a perdição e o instrumento mais amado dos tiranos. Ela transforma o mundo em que vivemos, altera nossa visão do universo, altera a nossa visão daqueles a nossa volta e até de nós mesmos. Qual a conquista da feitiçaria que já não foi alcançada pela arte? Ela conduziu um bilhão para a luz e assassinou outro bilhão. Se o nosso objetivo é o desenvolvimento do poder e das habilidades ocultas, não poderíamos ter um meio mais produtivo e poderoso do que a arte para chegarmos lá. A arte pode não fazer sua vassoura ter vida própria e fazer uma faxina para você... mas tampouco poderia a magia, em todo caso... no entanto, simplesmente por haver imaginado a cena, Walt Disney ganhou dinheiro mais do que suficiente para pagar alguém para que cuidasse disso em seu lugar. E ainda sobrou o suficiente para guardar sua cabeça neste enorme cubo de gelo marcado por hieróglifos nalgum lugar abaixo do Magic Kingdom. Isso, certamente, é toda a implacável influência satânica que qualquer um, são ou louco, poderia pedir [Moore se refere a uma provável lenda urbana, difícil dizer se está sendo irônico ou não].

Ao reclamar a magia como A Arte, nua e furiosa numa selva de Rousseau sem nenhuma cabana, é provável que os apreensivos pela preposição sejam aqueles que se sintam desprivilegiados pela ideia, aqueles que suspeitam que a sua oferta artística está aquém da tarefa dada. Tais temores, embora compreensíveis, não podem estar ao lado da imagem heroica, destemida, que muitos ocultistas têm de si mesmo. Será que não há realmente nada, nenhum artesanato ou ofício, que eles não possam usar para implementar sua magia? Eles não têm nenhum talento que possa ser usado de forma criativa e mágica, seja para a matemática, a dança, os sonhos, o toque de tambor, a comédia stand-up, o strip-tease, o grafite, o encantamento de cobras, as demonstrações científicas, ou mesmo para serrar vacas perfeitamente ao meio, ou esculpir bustos assustadoramente realistas dos monarcas europeus a partir de suas próprias fezes? Ou, tipo, qualquer coisa? Mesmo que tais habilidades não sejam hoje abundantes ou evidentes, tais almas tímidas não poderiam imaginar que a capacidade para algum trabalho honesto precisa ser primeiro desenvolvida para depois ser aplicada para algo de útil? O trabalho duro não deveria ser um conceito totalmente estrangeiro para o Mago. E não é nem mesmo A Grande Obra que nós estamos necessariamente discutindo aqui, é apenas a Obra Boa-Mas-Nem-Tanto-Assim. Algo muito mais atingível. Se até mesmo isso soa muito difícil e trabalhoso, você pode sempre tornar a aquisição de talento artístico profundo e a conquista do sucesso o desejo mais íntimo do seu coração e então simplesmente bater uma para um sigilo. Aparentemente, nunca falha. Então, qual a desculpa que alguém teria para não abraçar a arte como magia, e a magia como A Arte? Se você é, por qualquer razão, realmente incapaz de ter alguma criatividade, hoje ou sempre, então você tem realmente certeza que a magia é o campo certo para você? Apesar de tudo, as redes de fast-food estão sempre contratando. Em dez anos você poderia se tornar um gerente.

Ao compreender a arte como magia, ao conceber caneta ou pincel como varinha mágica, nós então devolvemos ao mago seus poderes xamânicos originais e a sua importância social, damos de volta ao ocultismo tanto um produto quanto um sentido. Quem sabe? Pode ser que ao implementarmos tal mudança terminemos por remover toda a nossa necessidade egóica de encantos e maldições , nossa magia superficial. Se formos realizados e prolíficos em nossa arte, talvez os deuses se preparem para nos enviar vales postais substanciais a cada semana, sem que nós sequer peçamos. Nos assuntos sexuais e românticos, como artistas nós nos sairíamos tão bem quanto Picasso. Mulheres e homens e animais se ofereceriam nus aos nossos pés. Já acerca da destruição de nossos inimigos, nós simplesmente não nos incomodaríamos de chamá-los para nossas celebrações e inaugurações, e eles simplesmente morreriam, com o tempo.

Este re-imaginar da magia como A Arte poderia beneficiar claramente o mundo ocultista em geral e o mago individual em particular, mas não esqueçamos o fato de que ele também poderia beneficiar as artes. É preciso ser dito que a cultura de massa [mainstream]  moderna, em grande parte e sob a maioria das perspectivas civilizadas, é um balde plástico cheio de doença. Os artistas de nosso tempo (admitidamente, com algumas notáveis exceções) parecem ter a única intenção de refletir adiante o vazio e a consequente obsessão com a mera superficialidade que nós também achamos nos líderes e governantes de nossa era. Apenas um ou dois anos atrás, a retrospectiva de Blake na antiga Tate Gallery despertou nos críticos mordazes comparações com os artistas britânicos habitando atualmente um bairro descolado, destacando que a geração moderna de visionários se torna um tanto pálida quanto comparada com a sua luz. A “loucura” estudada e autoconsciente de Tracey Emin [artista multimídia britânica; Moore continua citando outros artistas contemporâneos a seguir] se torna domesticada ao lado da loucura santificada de Blake. Damien Hirst é chocante numa maneira superficial, mas não chocante ao ponto de ter prestado juramentos de lealdade, ou de ter de lidar com turbas de inquisidores ou julgamentos de sedição. As contribuições dos irmãos Chapman [Jake e Dinos] para o Apocalipse (a exposição, não a situação no Iraque) não são de forma alguma uma revelação. William Blake poderia tirar um apocalipse muito superior da bunda de uma escultura de um dragão vermelho sem nem pensar muito no assunto. O mundo da arte moderna hoje lida com itens de conceito sofisticado, como os campos da publicidade. Ele parece sofrer de certo problema de visão, se é que pode ainda ver alguma coisa, e oferece muito pouco para o caminho de sustentação da cultura em sua volta, que tem fome o suficiente para uma refeição decente, agora mesmo. A reafirmação da magia como arte não poderia prover a inspiração, emprestar a visão e a substância que estão tão claramente em falta no mundo da arte nos dias atuais? Tal infusão de alma não permitiria que a arte vivesse para o seu propósito, a sua missão, de insistir para que a voz humana interior e subjetiva seja efetivamente ouvida na cultura, no governo, e em todos os grandes palcos do mundo? Ou deveríamos nos sentar e esperar que os intelectos super-humanos de Sirius ou a vassoura mágica de Disney ou o próprio Aeon de Horus finalmente cheguem e resolvam toda essa confusão para nós?

Uma união produtiva, uma síntese da arte e da magia propagadas numa cultura, um meio ambiente, uma paisagem mágica sem os muros dos templos e os móveis antigos que todos ignoravam em todo caso. Encenado entre as samambaias ornamentais e o vapor púrpura de uma reestabelecida biosfera ocultista, essa conjunção apaixonada de duas faculdades humanas certamente constituiria um Casamento Alquímico em que, se formos sortudos e as coisas saírem completamente de controle na Recepção Alquímica, poderá precipitar uma Orgia Alquímica, um incidente, uma explosão turbulenta de impulsos criativos, uma copulação astral de ideias resultando em múltiplos nascimentos de quimeras e monstros radiantes. Ferozes centauros conceituais com suas patas de perfume e cabeças de música. Noções sereiantes, oscilantes filmes mudos que são arquitetura da cintura para baixo. Esfinges de gênero e mantícoras de estilo. Mutações desconhecidas e jamais sonhadas, formas de novelas copulando e se adaptando rápido o suficiente para acompanhar o mundo atual, agindo mais como formas de vida, como fauna e flora, proliferando em nossa projetada selva mágica. Esta possível liberação de energia de fusão tornada possível quando esses dois massivos elementos de nossa cultura, a magia e a arte, são levados a uma proximidade dinâmica o suficiente, poderá inundar nossa selva de luz faérica, e até mesmo ajudar a iluminar este pântano de cultura de massa [mainstream] em que estamos todos atolados.

Nada nos impede de nos livramos dos compassos e dos freios, das rodas de treinamento que têm retardado o progresso da magia por tanto tempo que o musgo já cobriu tanto as linhas férreas quando os sinalizadores de desvios. Nada pode nos impedir, caso tenhamos vontade, de redefinir a magia como uma forma de arte, como algo vital e progressivo. Algo que, em sua habilidade de lidar com o nosso mundo interior em vias de utilidade realmente demonstráveis, pode efetivamente ajudar as pessoas comuns, com seus mundos internos sendo usurpados cada vez mais por um exterior tirânico, colonialista, cujo objetivo é extrair até a última gota dos seus sonhos, da sua alegria ou automotivação. Se assim nos decidirmos, poderíamos restaurar a magia a sua potência, um propósito que mal foi tocado nos últimos quatrocentos anos. Caso estivermos preparados para assumir a responsabilidade desse empreendimento então o mundo poderá assistir novamente aos grandiosos e terríveis magos que, fora dos meigos e inofensivos livros para crianças ou dos filmes com orçamentos obscenos e extravagantes, ele tão somente se direcionou a esquecer. Pode ser arguido que neste momento angustiante de nossa situação humana as perspectivas mágicas não são apenas relevantes, mas necessárias e indispensáveis caso desejemos sobreviver com nossas mentes e personalidades intactas. Ao redefinir o termo “magia” poderíamos uma vez mais confrontar as perversidades e trevas mundanas com o nosso método preferido, honrado por sua ancestralidade: com uma palavra.

Faça com que a palavra “magia” signifique algo novamente, algo digno do nome, algo que, como uma definição de tudo o que é mágico, o deixaria encantado quando você tinha seis anos; ou quando tiver setenta. Caso alcancemos tal conquista, caso consigamos reinventar nossa arte assustadora, selvagem e fabulosa para estes novos tempos assustadores, selvagens e fabulosos pelo qual caminhamos, então poderemos oferecer ao ocultismo um futuro muito mais glorioso, transbordante de aventura, do que jamais pensamos ou desejamos que o seu passado fabuloso pudesse ter sido. A humanidade, trancada nesta penitenciária de um mundo material que temos construído para nós mesmos por séculos, talvez nunca tenha necessitado mais da chave, do bolo com uma serra oculta, do perdão de última hora do governo que a magia representa. Com suas religiões de pedófilos e os seus fundamentalistas dementes, com suas eminências farsantes e seus demagogos mais desavergonhados em atingir suas vis ambições do que jamais foi visto, a sociedade contemporânea, seja no leste ou oeste, parece ter imensa carência de um centro moral e espiritual, parece ter carência até mesmo da mais ínfima pretensão de algo parecido. A ciência que sustenta a sociedade, cada vez mais, em suas mais remotas fronteiras quânticas, descobre que precisa recorrer à terminologia da cabala ou da literatura sufi para afirmar adequadamente o que agora sabe sobre nossas origens cósmicas. Em todas as suas muitas áreas e compartimentos, todos os seus campos dispersos, o mundo parece estar praticamente gritando para que o numinoso venha e o resgate dessa frenética cultura material que nada mais fez do que comê-lo inteiro e cagá-lo através de uma peneira. E onde está a magia, enquanto tudo isso vem acontecendo?

Está tentando forçar nosso namorado a voltar para nós. Está esfregando dinheiro para afastar nossa dívida no cartão de crédito, tentando dar àquele babaca que fugiu com nossa ex-mulher algo terminal. Está garantindo que festas do pijama com o tema Teen Witch corram bem. Está colocando insignificantes pessoas New Age em contato com seus insignificantes anjos New Age, e elas estão todas dizendo, tipo, “De jeito nenhum”, e os anjos estão dizendo, tipo, “Tanto faz”. Está atendendo a todos os nossos repetidos rituais com o entusiasmo que um patrocinador vem assistir à peça The Mouse Trap pela centésima sétima vez. Ela gasta os finais de semana tentando ler nossos péssimos sigilos debaixo da obscurecedora camada de giz, e em retaliação somente nos coloca em contato com entidades capengas, Elohim do serviço comunitário que tagarelam como cientologistas bebuns e nunca fazem um tiquinho de senso. Está no escritório de marcas registradas, registrando selos mágicos. Está lidando com uma agência de encontros que representa nossa única chance de alguma vez conhecer uma estranha buceta gótica. Está conseguindo pra nós uma oferta melhor naquele Renault novo, ajudando a prolongar a miserável vida de nosso cego e incontinente cachorrinho Gandalf, fazendo networking como louco pra garantir os diretos daquele Tarot de Hogwarts do Harry Potter. Ainda está tentando resolver o congestionamento resultante do Aeon de Horus ter furado através do canteiro central e invadido a pista sentido sul, sendo atingido de frente pelo Aeon de Maat, que derramou sua carga de penas pretas no acostamento. Não tem certeza se a ketamina foi realmente uma boa ideia. Está sentada olhando nervosa para mil estantes de livros desde entrevistas com necrófilos sobre estilo de vida e retrospectivas de moda na família Manson. Está aparecendo em celebrações neo-nazistas perto de Dusseldorf. Está se perguntando se deve introduzir uma política de “não pergunte, não conte” com relação ao 11º Grau. Está aconselhando Cherie Blair sobre tachinhas de acupuntura, e Islington inteira sobre Feng Sui. Colocou piercing no pênis numa tentativa de chocar seus pais classe média dos Home Counties, que estão mortos há dez anos, de qualquer maneira. Ela queria ser David Blaine. Ela queria ser Buffy. Ou, bem francamente, qualquer um.

Poderíamos, se desejássemos, ter as coisas de outra maneira. Ao invés de uma magia que está em servidão com um passado de ouro ingenuamente imaginado, ou ainda em romance com um futuro lugubremente fantasiado de parque temático do Deus Ancião, poderíamos tentar ao invés disso uma magia adequada e relevante à sua própria e extraordinária época. Poderíamos, se assim decidíssemos, garantir que o atual ocultismo seja lembrado como o auge de uma fanfarra ao invés de um suspiro decadente; um balbuciar moribundo e envergonhado; nem mesmo uma lamúria. Poderíamos transformar este terreno árido em um abundante paraíso, um trópico onde cada pensamento poderia florescer como arte. Sob o altar está o estúdio, a praia. Poderíamos insistir nisso, fôssemos verdadeiramente quem dizemos que somos. Poderíamos atingir isso não rabiscando sigilos, mas compondo histórias, pinturas, sinfonias. Poderíamos permitir que nossa arte espalhasse suas asas de escaravelho psicodélico em toda sociedade mais uma vez, e talvez ao fazê-lo, deixar que alguma luz ou graça caia sobre aquele dolorido e obscuro organismo. Poderíamos ser refeitos em nosso ninho fresco, permanecer reinventados num verdadeiro alvorecer de nossa Arte dentro de um mundo matinal, com nossa tinta ainda fresca, recém saídos do ovo e com nossos olhos ainda avermelhados no Éden. Recém-nascidos na Criação.

***

Crédito da imagem: Google Image Search/lexprojects.com (Alan Moore, The Great I Am)

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3.5.16

Anjos Fósseis, por Alan Moore (parte 5)

« continuando da parte 4 (ler do início)

Por Alan Moore. Tradução de Daniel Lopes, revisão de Rafael Arrais.

Se a magia fosse considerada como uma arte ela teria acesso culturalmente válido à paisagem interior [Infrascape], os territórios imateriais intermináveis que são ignorados e invisíveis à ciência, que são inacessíveis à razão científica, e, portanto, compreendem o terreno mais natural da magia. Voltar esforços para a exploração criativa do espaço interior da humanidade pode não só ser de utilidade humana massiva, como pode eventualmente restaurar à magia todo o propósito e relevância, a utilidade demonstrável que lhe foi tão lamentavelmente privada, e por tanto tempo. Visto como arte, o campo ainda poderia produzir as resmas de teorias especulativas de que tanto gosta (afinal, filosofia e retórica podem ser vistas mais facilmente como arte que como ciência), contanto que fossem escritas de maneira bela e interessante. Enquanto, por exemplo, o Livro da Lei poderia ser questionado em valor quando considerado puramente como texto profético descrevendo definitivas ocorrências de estados de consciência porvir, não se pode negar que seja um exemplo de escrita da porra, que merece ser reverenciado como tal. O ponto é que se a magia abandonasse suas vazias pretensões enquanto ciência e saísse do armário como arte, obteria ironicamente a liberdade para seguir em suas aspirações científicas, talvez até mesmo se valendo de um teorema do campo unificado do sobrenatural, tudo isso em termos aceitáveis para a cultura moderna. A obra prima de Marcel Duchamp, A Noiva Despida Por Seus Celibatários, é mais possível que seja pensada como alquimia genuína, que como descrita em um trabalho de um pobre coitado que sugere que tenha algo a ver com fusão a frio. A arte é claramente um ambiente muito mais confortável para o pensamento mágico do que a ciência, com uma decoração muito mais relaxante e mobília muito mais bonita.

Mesmo aquelas almas danadas tão institucionalizadas como os membros de ordens mágicas que nem conseguem imaginar algum estilo de vida que não envolva pertencer a uma elite secreta e cabal não tem razão para se desesperar ao encontrar a si próprios sem teto e solitários em nossa nova proposta selvagem. Arte não tem ordens, porém têm movimentos, escolas e panelinhas com toda a dissimulação, narizes empinados e elitismo que qualquer um poderia desejar. Melhor ainda, uma vez que movimentos artísticos não ficam competindo uns com os outros pelo mesmo território como as ordens mágicas (como podemos dizer, por exemplo, que William Holman Hunt compete com Miró, ou Vermeer?), isso deve evitar a necessidade que as diferentes escolas de pensamento ocultista têm de criar rixas, ou ataques, ou como geralmente acontece fazer a egípcia tal qual meras imitações de dar pena de Criswell-do-plano-9-do-espaço-sideral.

Assim como não há necessidade de descartar inteiramente as fraternidades, do mesmo modo não há necessidade para os que cresceram ligados a essas coisas de descartarem suas armadilhas rituais, quer dizer, seus rituais. A única coisa que pedimos é que eles abordem estes assuntos com mais criatividade e com um olhar mais criterioso e ouvidos para o que é profundo; o que é belo, original e poderoso. Que façam varinhas, selos e lamens aptos a estarem em exposições de arte marginal (quão difícil isso pode ser? Mesmo pacientes mentais são qualificados), façam de todo ritual uma peça de teatro impressionante e intensa. Quer consideremos magia arte ou não, essas coisas precisam ser minimamente ditas. A quem nossos rituais privados e adornos feitos visam agradar, se não os deuses? E quando sequer foi que eles nos deram a impressão de que estariam satisfeitos com algo que não fosse minimamente requintado ou original? Deuses, ou seja lá o que forem, são conhecidos por serem notoriamente parciais à criação, e portanto podemos presumir que sejam capazes de apreciar a criatividade humana, a coisa mais próxima que desenvolvemos de uma brincadeira divina e nossa mais sublime realização. Pensar a magia uma vez mais como arte permitiria que a ela conservasse tudo o que tem de melhor do que um dia já foi, ao mesmo tempo em que ofereceria a oportunidade para que ela floresça e progrida rumo a um futuro onde possa realizar muito mais.

Como é que esta mudança de premissa tem impacto, então, sobre nossa metodologia? Que mudanças de ênfase podem ser vinculadas, e poderiam tais alterações serem vantajosas tanto à magia enquanto campo como para nós enquanto indivíduos? Se tivermos uma intenção séria de reinventar o oculto como A Arte, uma alteração básica em nossos métodos de trabalho que poderia produzir benefícios consideráveis seria se nós nos determinássemos a cristalizar qualquer ideia, verdades ou visões que nossas viagens mágicas tenham nos proporcionado em algum artefato, algo que todo mundo pudesse ver também, só pra variar. A natureza do artefato, seja um filme ou Haikai, um expressivo desenho a lápis ou um exuberante espetáculo teatral, é completamente sem importância. Tudo o que importa é que seja arte e que permaneça fiel à sua inspiração. Uma vez que tenha sido adotado, em um único golpe, um ajuste tão pequeno de processo quanto esse poderia verdadeiramente transformar o mundo em magia. Em vez de ser por uma motivação pessoal, de funcionamento toscamente causal tanto de intenção duvidosa e resultado duvidoso, magia de punheta que termina geralmente em satisfação limitada, nossas transações com o mundo oculto seriam produtivas, gerando questões em resultados tangíveis onde todos possam julgar seus valores por si próprios. Em termos puramente evangélicos, como propaganda de uma visão de mundo mágica mais iluminada, a arte com certeza representa a nossa “evidência” mais convincente de outros estados e planos de existência. Enquanto os pensamentos de Austin Spare são inegavelmente interessantes quando expressados na forma de escrita como teoria, é sem dúvida seu talento como artista que proporciona a percepção de entidades e outros mundos realmente testemunhados e registrados, a autenticidade imediata que conferiu a Spare muito de sua reputação como um grande mago. Ainda mais importante, um trabalho como o de Spare fornece uma janela para o mundo oculto, permitindo aqueles que estão fora uma expressão mais eloquente acerca do que é a magia do que qualquer trato arcano, oferecendo-lhes uma razão legítima para se aproximar do oculto pra começo de conversa.

Em nosso cenário selvagem para a magia, com a competição Darwiniana feroz e justa entre as ideias implícita, tratar o oculto como uma arte também poderia emprestar um meio de lidar com (ou fomentar) quaisquer disputas que possam surgir. A arte tem uma maneira de resolver tais disputas por si, indiscutivelmente, sem recorrer a processos capengas como, por exemplo, resolução violenta de conflitos, litígios, ou ainda pior, democracia de patricinha. Com a arte, a visão mais forte vai prevalecer, mesmo que demore décadas, séculos para que aconteça, como William Blake. Não há necessidade de sequer fazer uma votação sobre qual é a visão mais forte: esta seria aquela sentada quietinha em seu canto indisputável da nossa cultura, indiferente palitando os dentes com os esternos de seus rivais. Mozart abate um Salieri, dorme durante dois dias após o banquete, período no qual a savana pode relaxar. Dando o bote de repente por entre as sombras das torres de concreto, J. G. Ballard corta fora Kingsley Amis, enquanto Jean Cocteau não sai da cola da ossuda bunda Imperial-Ciclópica [possível referência ao Ku Klux Klan] de D. W. Griffith como um filho da puta. Uma seleção natural artística, sanguinária, mas equilibrada, parece uma forma muito mais razoável de resolver assuntos que decisões arbitrárias e sem resposta, proferidas pelos chefes de ordens, como Moina Mathers dizendo a Violet Firth que sua aura não tinha os símbolos adequados.

Além disso, se a viciosa luta por sobrevivência é promulgada decretada nos termos daquele cuja a ideia é mais potente e mais bela em sua expressão, então os espectadores da briga-de-galos estão mais propensos a acabar sujos de metáforas magníficas do que com respingos frescos de entranhas. Mesmo nossas brigas mais incestuosas e sem sentido podem, assim, ter um produto que enriquece o mundo em alguma pequena parcela, em vez de nenhum resultado, salvo de que a magia pareça uma briga de parquinho ainda mais infantil e inane do que todos pensavam que era. Ao julgar por seus méritos, tal atitude de lógica selvagem para com a magia, com sua estética predatória e ideias competindo em uma mata fertilizada por seus requintados excrementos culturais, parece oferecer ao ocultismo uma situação em que todos ganham. Como poderia alguém ser contra, exceto no caso daqueles cujas ideias podem ser vistas como gordas, lentas, incapazes de voar, e fonte acessível de proteína; aqueles bem qualificados como presa primária que talvez estejam começando a suspeitar que isso tudo seja um argumento de um tigre para safáris em campo aberto?

Após análise, estas últimas dúvidas e medos mencionados, ainda que certamente triviais dentro de um contexto de bem estar da magia enquanto campo, é provável que sejam obstáculos mais graves para qualquer grande aceitação de uma ética-pantanal primal, como é proposta. No entanto, se aceitarmos que as únicas alternativas para a selva sejam um circo ou um jardim zoológico, a ideia talvez seja mais considerável. E se nossas preciosas ideias devam ser rasgadas em pedaços no momento em que mal estão saindo do ninho, mesmo que isso seja, é claro, angustiante, não é mais que uma prova da qual suportou qualquer poeta estudante ocasional ou pintor de domingo que expõe seu desajeitado esforço ao julgamento de outro. Por que deveria o medo do ridículo ou da crítica, medo do qual o mais baixo bêbado de karaokê está aparentemente bem capaz de superar, causar problemas para ocultistas que juraram manterem-se firmes frente às próprias portas do inferno? Na verdade, a superação de tais fobias simples não deveria ser pré-requisito pra quem quer trajar a si como um mago? Se considerar magia como arte e arte como magia, se como os antigos xamãs percebêssemos um dom para a poesia como um poder mágico, magicamente concedido, não teríamos finalmente uma resposta quando uma pessoa qualquer na rua nos pede, de forma razoável, para demonstrar um pouco de magia, então, já que somos tão taumatúrgicos?

O quão empoderador seria para ocultistas acumular constantemente, através de um trabalho árduo, genuínas habilidades mágicas que podem ser comprovadamente exibidas. Talentos que gente comum, inteligente e racional pode muito facilmente aceitar como sendo verdadeiramente mágicos em sua origem; prontamente se envolver de uma forma que o ocultismo atual, com o seu obscurantismo muitas vezes deliberado e desnecessário, não pode gerir. Apesar da magia ser mais seguramente expressa e sentida na maioria dos grimórios modernos, um mero folhear das Ficções de Borges, ou um vislumbre de Escher ou de um lado ou dois de Capitão Beefheart seria muito mais provável de persuadir o leitor comum para um ponto de vista magicamente receptivo. Se a própria consciência, com sua existência no mundo natural, está além da capacidade de comprovação da ciência, sendo, portanto, sobrenatural e oculta, certamente a arte é um dos meios mais óbvios e espetaculares pelo qual o reino sobrenatural da mente e da alma se revela, se manifesta sobre um plano material bruto.

» Conclui na parte 6

***

Aqui se encerra a participação do Daniel Lopes como tradutor deste ensaio. Como além de tradutor ele é artista e ilustrador, não poderia deixar de incluir aqui esta tirinha que ele diz ter criado inspirado diretamente pelas palavras de Moore. De fato, talvez ele tenha resumido todo o Fossil Angels em três quadrinhos. Valeu Daniel!

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search/thehorsehospital.com (Alan Moore); [logo acima] Daniel Lopes

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24.4.16

Anjos Fósseis, por Alan Moore (parte 4)

« continuando da parte 3 (ler do início)

Por Alan Moore. Tradução de Daniel Lopes, revisão de Rafael Arrais.

Para além de tudo isso, há outros ruídos, razões convincentes do por que pensar magia como uma ciência nos limita. Primeiramente e nitidamente que não é. A magia, depois que renunciou a toda e qualquer aplicação prática ou mundana após o crepúsculo dos alquimistas, não pode mais ser considerada como uma verdadeira ciência, assim como também, podemos dizer, a psicanálise. Por mais que Freud possa ter desejado o contrário, por mais que tenha, entretanto, lamentado que Jung tenha arrastado seu pretenso método científico para o fundo do escuro e borbulhante lodo do ocultismo, magia e psicanálise não podem nunca, por definição, serem permitidas a terem um lugar entre as ciências. Ambas lidam quase exclusivamente com fenômenos que não podem ser repetidos nas condições de laboratório e que, sendo assim, existem fora do alcance da ciência, preocupada apenas com as coisas que podem ser medidas e observadas, comprovadas empiricamente. Uma vez que a própria consciência não possa ter sua existência comprovada em termos científicos, então nossas afirmações que diziam que a consciência é atormentada seja pela inveja do pênis ou por demônios das Qlippoth devem permanecer para sempre além das fronteiras limítrofes do que pode ser verificado por exame racional. Francamente, deve-se dizer que a magia, quando considerada ciência, se coloca em um nível equivalente ao de alguém que escolhe os números da loteria utilizando a data do aniversário de alguém que ama.

Esse parece ser o "X" da questão: Se a magia é uma ciência, claramente não é uma particularmente bem desenvolvida. Onde estão, por exemplo, os equivalentes mágicos das teorias geral ou restrita da relatividade de Einstein, ou mesmo a interpretação de Bohr em Copenhagen? Sejamos objetivos, onde estão nossas analogias para a lei da gravidade, termodinâmica e todo o resto? Erastóstenes uma vez mediu a circunferência da terra utilizando geometria e sombras. Quando foi a última vez que utilizamos algo tão útil e tão engenhoso quanto isso? Houve qualquer coisa parecida com alguma teoria geral desde a Tábua de Esmeralda? Uma vez mais, talvez a preocupação de uma magia com causa e efeito tenha sua parcela de culpa nisso. Nossos axiomas em maioria parecem estar no nível de que se eu fizer "A" então "B" vai acontecer. Se nós dissermos essas palavras e chamar por estes nomes então certas visões aparecerão para nós. E como exatamente isso acontece, bem, quem se importa? Desde que tenhamos resultados, o pensamento corrente parece ser por que se importar em como obtemos? Se batermos essas duas pedras uma na outra depois de um tempo elas vão fazer uma faísca e toda essa grama seca vai pegar fogo. E você já reparou em como ter certeza de que se você sacrificar um porco durante um eclipse o sol sempre retorna? A magia, na melhor das hipóteses, é ciência paleolítica. Certamente é melhor deixar de lado o discurso da entrega do Prêmio Nobel para quando aparar os cabelos da testa.

Aonde exatamente, podemos razoavelmente perguntar, isso tudo nos leva? Tendo imprudentemente descartado nossas ordens ou tradições consagradas pelo tempo e rasgando nossa declaração de intenções; tendo dito que a magia não deve ser religião e não pode ser ciência, teremos nós levado essa abordagem de Ano Zero do Khmer Vermelho longe demais, cortando nossas próprias jugulares com a Navalha de Occam? Agora que trouxemos abaixo as nossas marcações e reduzimos nosso território a uma mata indistinta, será mesmo que esta é a melhor hora para jogarmos fora nossa bússola? Agora, enquanto a noite cai sobre a selva, nós nos tocamos que não somos nem missionários nem botânicos, mas o que então somos nós? Párias? Chiados breves no breu da escuridão? Se as metas e métodos da ciência ou da religião são inviavelmente fúteis, mero fim da linha definitivo, qual outro papel para a magia podemos conceber a existência? E por favor, não diga que é algo tão difícil assim, pois por todos os mantos negros e assustadores, tenderíamos a nos assustar facilmente.

Se não podemos considerar propriamente como ciência ou religião, seria uma provocação apresentar a sugestão de que podemos pensar magia como arte? Ou mesmo a Arte, se você gostar da ideia? Não seria como se esta noção fosse algo sem precedentes. Pode até mesmo ser visto como um retorno às nossas origens xamânicas, quando a magia era expressada em máscaras e mímicas e marcas nas paredes, os pictogramas que nos deram nossa linguagem escrita de modo que essa linguagem pudesse então nos possibilitar a consciência. Música, performance, pintura, dança, poesia e pantomima poderiam ser todas facilmente imaginadas como tendo se originado do repertório do xamã de truques mágicos para alterar a consciência. Escultura evoluindo a partir de bonecas de fetiche, a Venus de Willendorf transformando-se em Henry Moore. Trajes customizados e desfiles de passarela, Erte e Yves St. Laurent, decorrentes de fortes pisadas iluminadas pelo fogo, com peles contas e galhos, projetando formas para surpreender e despertar. Baronesa Tatcher, em seu chá de bebê, sugeriu que mais uma vez a sociedade abraça "valores Vitorianos", uma ideia que certamente parece ter pego dentre a fraternidade mágica. Isso não parece ser nem de longe o suficiente, no entanto. Em vez disso, vamos clamar por um retorno dos valores Cro-Magnons: mais criativo e robusto, e com cabelo melhor.

É claro, não precisamos viajar tão longe na antiguidade admitidamente especulativa por evidencias de uma relação íntima e única desfrutada pela arte e magia. Das pinturas nas paredes das cavernas de Lascaux, entre a estatuária grega e frisos dos mestres flamengos, até William Blake, e em diante aos Pré Rafaelitas, os simbolistas e surrealistas, é cada vez mais raro encontrarmos artistas com estatura real, sejam eles pintores, escultores, músicos, que não tenham recorrido em algum momento ao pensamento ocultista, seja através da atuação em seu alegado envolvimento com alguma ordem secreta ou com a maçonaria, como Mozart, ou a partir de uma visão cultivada particular, como Elgar. A Opera aparentemente tem suas origens na alquimia, produzida por seus primeiros pioneiros como uma forma de arte que incluía todas as outras artes dentro dela (musica, texto, performance, figurinos, cenários pintados) com a intenção de transmitir ideias alquímicas na sua forma mais abrangente artística e portanto, mais celestial. Da mesma forma, com as artes visuais não precisamos invocar exemplos óbvios de uma influência ocultista, tal como Duchamp, Max Ernst ou Dali, quando existem nomes mais surpreendentes, como Picasso (quando em sua juventude passou mergulhado em haxixe e misticismo, com sua obra posterior preocupado com ideias então ocultas pertencentes à quarta dimensão), ou os quadrados e retângulos calculados de Mondrian, criados para expressar noções, de acordo com ele, de seu estudo da teosofia. Na verdade, grande parte da pintura abstrata se deve à famosa sucessora de Blavatsky, Annie Besant, e da publicação de sua teoria de que as energias essenciais rarefeitas de raios, correntes e vibrações da Teosofia poderiam ser representadas por intuídos e disformes redemoinhos de cor, uma ideia da qual muitos artistas inclinados à moda mística aproveitaram avidamente.

A literatura, por outro lado, está tão intrinsecamente envolvida com a essência própria da magia que as duas podem ser efetivamente consideradas a mesma coisa. Feitiços e soletrar (spell e spelling. o verbo “to spell” pode ser traduzido tanto como soletrar quanto enfeitiçar), encantos bárdicos, gramáticas e grimórios, magia como “enfermidade da palavra” como Aleister Crowley tão inspiradamente descreveu. Odin, Thoth e Hermes, deuses da magia e da escrita. A terminologia mágica, seus simbolismos, conjurações e evocações, quase idênticos à da poesia. No início era o verbo. Com a magia sendo quase totalmente uma construção linguística é desnecessário ditar a longa lista dos muitos literatos praticantes de ocultismo. Na escrita, como na música ou na pintura, uma intensa e íntima conexão com o mundo da magia é tanto evidente quanto óbvia, e parece completamente natural. Com certeza, as artes sempre consideraram a Magia com mais simpatia e mais respeito que a ciência (que, historicamente, sempre buscou provar que os ocultistas são fraudulentos ou estão iludidos) e a religião (que, historicamente, sempre buscou provar que os ocultistas são inflamáveis). Enquanto elas compartilham o status social e amplo respeito concedidos à igreja e ao laboratório, o campo da arte não visa excluir, nem é governado por uma doutrina que é inimiga da magia, tal como pode ser dito de seus dois companheiros indicadores do progresso cultural da humanidade. Afinal, enquanto a magia tem produzido, em tempo relativamente recente, alguns poderosos teólogos dignos de nota e mesmo alguns poucos cientistas, ela tem produzido uma infinidade de inspirados e inspiradores pintores, poetas e músicos. Talvez devêssemos ficar com aquilo que nós sabemos que somos bons?

As vantagens de tratar magia como uma arte parecem à primeira vista consideráveis. Por um lado, não há interesses capazes de sustentar uma objeção à inclusão da magia no cânone, mesmo que eles se entretenham contestando a princípio, o que é pouco provável. Isso está claramente longe de ser o caso com a ciência e com a religião, que por natureza própria tem questão de honra em ver a magia insultada e ridicularizada, marginalizada e deixada para enferrujar no ferro velho da história junto com as teorias da terra plana, da memória da água e do flogisto. A arte, como categoria, representa um ambiente fértil e hospitaleiro onde a energia da magia poderia ser direcionada para seu crescimento e desenvolvimento como campo, em vez de canalizada em lutas fúteis para aceitação, ou queimada inutilmente e deixada de lado com o passar do tempo em repetidos rituais do século passado. Outro benefício, é claro, se encontra na numinosidade da arte, sua própria falta de definição em arestas rígidas e, portanto, sua flexibilidade. As questões “o que exatamente estamos fazendo e por que estamos fazendo”, que questionam o “método” e o “objetivo”, são trazidas a uma nova luz quando questionadas em termos da arte. O único objetivo da arte pode ser o de lucidamente expressar a mente, o coração e a alma humana em todas as suas incontáveis variações, assim para alcançar uma melhor compreensão do universo ou de si mesmo, favorecendo o seu crescimento em direção à luz. O método da arte é o que quer que possa ser mesmo além do imaginado. Esses parâmetros de propósito e procedimento não são suficientemente elásticos para permitir a inclusão de agendas mais radicais ou mesmo conservadoras para a magia? Ocultismo vital e progressivo, belamente expressado, que não tem obrigação alguma de se explicar ou se justificar. Cada pensamento, cada linha, cada estranha imagem feita para nenhum outro propósito senão de serem ofertas dignas aos deuses, à arte, à própria magia. A arte pela arte.

Paradoxalmente, mesmo aqueles ocultistas amantes de uma visão cientificista da magia poderiam ter motivos para celebrar essa mudança de ênfase. Como argumentado acima, magia nunca poderá ser ciência da maneira como a ciência é definida atualmente, que quer dizer como sendo inteiramente baseada em resultados reproduzíveis dentro do mundo mensurável e material. No entanto, ao limitar as suas atividades exclusivamente ao mundo material, a ciência automaticamente desqualifica-se de falar do mundo interior, imaterial, que é na verdade a maior parte da nossa experiência humana. A ciência talvez seja a ferramenta mais efetiva que a consciência humana tenha desenvolvido até então com a qual podemos explorar o universo lá fora, e ainda assim este polido e sofisticado instrumento de escrutínio é incapacitado por um ofuscante ponto cego na medida em que não pode examinar a própria consciência. Desde o final dos anos 1990, o campo de mais rápida expansão de interesse científico é, aparentemente, o estudo da consciência, com duas grandes escolas de pensamento-sobre-o-pensamento até então emergentes, cada uma se contrapondo a outra. Uma sustenta que a consciência é uma ilusão biológica, meros processos cerebrais automáticos e comportamentais que são dependentes de esguichadas de glândulas e penetração de enzimas. Ainda que essa descrição não pareça adequada às muitas maravilhas encontradas no interior da mente humana, seus defensores parecem quase certos de apoiar um vencedor, tendo visto que sua contundente teoria materialista é a única que tem uma chance de provar-se em termos de uma ciência materialista tapada. No outro campo, descrita como a mais transpessoal em sua abordagem, o atual teorema em liderança é de que a consciência é alguma “coisa” peculiar permeando o universo conhecido, na qual cada ser senciente é um pequeno reservatório temporário. Esse ponto de vista, o qual provavelmente gera grande simpatia daqueles com inclinações ao oculto, é quase certamente condenado em termos de alcançar uma eventual credibilidade científica. A ciência não pode nem mesmo discutir adequadamente o pessoal, de modo que o transpessoal sequer tem chance. Esses são assuntos do mundo interior, e a ciência não chega até lá. É por isso que sabiamente deixa a exploração do interior da humanidade nas mãos de uma ferramenta sofisticada e que é especificamente desenvolvida para este uso, esta que chamamos de arte.

» Continua na parte 5

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Crédito da imagem: Google Image Search/Wired (Alan Moore em Northampton)

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