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13.10.09

As origens da arte

Texto de Steven Mithen em "A pré-história da mente " (Editora Unesp, tradução de Laura de Oliveira).

Os três processos cognitivos cruciais para a produção da arte - a concepção mental de uma imagem [1], a comunicação intencional [2] e a atribuição de significado [3] - estavam todos presentes na mente humana arcaica. Foram encontrados, respectivamente, nos domínios das inteligências técnica, social e naturalista. Mas a criação e uso de símbolos visuais impõe que eles funcionem juntos, harmoniosamente. Isso exigiria ligações entre domínios (das inteligências). E o resultado disso seria a explosão cultural (incluindo a origem da arte humana).

Observamos realmente uma explosão cultural começando a quarenta mil anos na Europa, com a produção dos primeiros trabalhos artísticos, e eu sugeriria que isso pode ser explicado por novas conexões entre os domínios das inteligências técnica, social e naturalista. Os três processos cognitivos, antes isolados, agora funcionavam juntos, criando o novo processo cognitivo que podemos chamar de simbolismo visual, ou simplesmente arte.

Se eu tivesse de escolher apenas uma característica da primeira arte para sustentar esse argumento, seria a incrível habilidade técnica e poder emotivo das primeiras imagens. Nenhuma analogia pode ser feita entre as origens da arte no tempo evolucionista e o desenvolvimento das habilidades artísticas na criança. Estas consistem de uma passagem gradual das garatujas às imagens representacionais, seguidas do aprimoramento gradual da qualidade das imagens. No caso de alguns jovens artistas, podemos então ver uma compreensão gradual do uso da linha e da cor para transmitir não apenas um registro do que se vê, mas os sentimentos a respeito. Não existe nada gradual sobre a evolução de uma capacidade para a arte: os primeiros objetos que encontramos podem ser comparados, em qualidade, aos produzidos pelos grandes artistas da Renascença [4]. Isso não significa argumentar que os artistas da Idade do Gelo não passaram por um processo de aprendizado; podemos na verdade encontrar muitas imagens que parecem ter sido feitas por crianças ou jovens aprendizes. Mas a habilidade de impor forma, de comunicar e interferir significados a partir de imagens já devem ter estado presentes na mente dos humanos arcaicos - embora não existisse arte. Tudo o que bastava para criar as maravilhosas pinturas da caverna de Cauvet era uma conexão entre os processos cognitivos que haviam evoluído para outras tarefas.

Antes de deixar as origens da arte, devemos voltar às peças riscadas de osso e marfim feitas pelos humanos arcaicos, como as de Bilzingsleben e Tata. Se - e este é um grande se - esses riscos foram feitos intencionalmente, como podem ser explicados? Sugiro que eles refletem o máximo da comunicação simbólica que pode ser alcançado ao depender apenas de uma inteligência geral. Os humanos arcaicos podem ter sido capazes de associar marcas com significados usando apenas suas capacidades para o aprendizado associativo. Mas depender disso teria restringido a complexidade das marcas e dos significados. Existe uma semelhança entre a simplicidade das capacidades de produzir instrumentos dos chimpanzés comparadas às dos humanos arcaicos, e a simplicidade das marcas intencionais dos humanos arcaicos comparadas às dos humanos modernos. Os chimpanzés dependem da inteligência geral [5] para a comunicação "simbólica". Como resultado disso, os chimpanzés e os humanos arcaicos parecem alcançar "sub-realizações" nessas atividades, em vista de seus feitos em domínios comportamentais para os quais possuem inteligências especializadas.

[Retirado do capítulo 9: O big bang da cultura humana: as origens da arte e da religião]

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[1] Por exemplo, produzindo artefatos como machados de mão a partir de moldes mentais, a inteligência técnica.

[2] A comunicação intencional é fruto da inteligência social e surgiu juntamente com a linguagem gestual, assim como formas primitivas de vocalização.

[3] Caçadores-coletores dependiam da interpretação detalhada de marcas de cascos e pegadas de animais deixadas na natureza, os "símbolos naturais". Este é um atributo da inteligência naturalista:

"As marcas involuntárias de animais representam uma série de propriedades em comum com as "marcas" intencionais ou símbolos dos humanos modernos, como as pinturas em faces de rochas ou os desenhos na areia. Elas são inanimadas. Ambas estão espacial e temporalmente deslocadas do evento que as criou e o que elas significam. As pegadas, assim como os símbolos, devem ser colocadas na categoria certa se formos atribuir-lhes os significados corretos. Por exemplo, a pegada de um veado vai variar dependendo de ter sido feita no barro, na neve ou na grama, assim como o desenho de um símbolo vai variar segundo a face da rocha ou o estilo individual do artista."

[4] Pessoalmente acredito que o autor exagerou bastante na comparação, embora seu argumento continue sendo válido mesmo assim.

[5] O que seria, segundo o autor, um domínio não especializado da inteligência. É na "conexão" das outras inteligências "dentro" do campo da inteligência geral que surgiu a cognição avançada dos humanos modernos.

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Crédito da foto: Wikipedia

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7.8.09

O elo perdido da mente

Texto de Steven Mithen em "A pré-história da mente " (Editora Unesp, tradução de Laura de Oliveira). As notas do texto são minhas.

Para encontrar as origens da mente moderna temos que mergulhar na escuridão da pré-história. Voltar ao tempo que antecede as primeiras civilizações, e que começa há apenas cinco mil anos. Voltar ao período anterior às domesticações iniciais de animais e cultivo de plantas, há dez mil anos. Temos que olhar num relance para a origem da arte, há três mil anos, mesmo aquela criada pela nossa própria espécie, Homo sapiens sapiens (atualmente o homem moderno recebe a denominação H. sapiens), no registro fóssil de cem mil anos de idade. Nem mesmo o tempo remoto de dois milhões e meio de anos, quando as primeiras ferramentas de pedra apareceram, é adequado. Nosso ponto de partida para um pré-história da mente não pode retroceder menos que seis milhões de anos, porque nesse período viveu um símio cujos descendentes seguiram dois caminhos evolutivos distintos. Um deu origem aos símios modernos, os chipanzés e os gorilas, e outro aos humanos modernos. Consequentemente, esse antepassado é chamado ancestral comum.

Não apenas ancestral comum, mas também elo perdido. É a espécie que nos conecta com os símios atuais - e continua ausente nos testemunhos fósseis. Não temos nem sequer um fragmento fóssil de evidência, mas é impossível duvidar que o "elo perdido" existiu. Os cientistas estão no seu encalço. Medindo as diferenças de constituição genética entre símios e humanos modernos e estimando a taxa de aparecimento das mutações genéticas, eles estipularam que o elo perdido existiu cerca de seis milhões de anos atrás. E podemos estar certos de que esse antepassado viveu na África, porque - como bem disse Darwin - é lá que realmente parece ter sido o berço da humanidade. Em nenhum outro continente encontram-se fósseis que pudessem de fato contrariar essa hipótese (realmente a teoria mais aceita atualmente é a de que o homem moderno surgiu ainda na África, migrando somente depois para outros continentes).

Seis milhões de anos é um vasto intervalo de tempo. Começar a compreendê-lo, a captar o padrão de eventos que apresenta, passa a ser mais fácil se pensarmos nos acontecimentos como uma peça de teatro, o drama do nosso passado. Uma peça muito especial, porque ninguém escreveu o roteiro: seis milhões de anos de improvisações (Mithen é obviamente totalmente anti-criacionista, ainda que seja adepto da evolução cognitiva da mente). Nossos ancestrais são os atores, suas ferramentas são os objetos de cena e as incessantes transformações do ambiente em que viveram são as mudanças de cenário. Mas não considerem a peça um suspense, em que a ação e o final é o que importam. Porque já conhecemos o epílogo - nós o estamos vivendo. Todos os neandertais e outros atores da Idade da Pedra se extinguiram, deixando apenas um sobrevivente, o Homo sapiens sapiens.

[Retirado do início do capítulo 2: O drama do nosso passado]

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Pouco a pouco, na busca pelo suposto "elo perdido", talvez a ciência e a religião finalmente se reunifiquem novamente... Em todo caso, este e outros livros de Mithen são altamente recomendados. Sem dúvida é um dos maiores especialistas em sua área de estudo.

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Crédito da foto: Becoming Human

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4.8.09

O caminho de cada um

Texto de Gibran Khalil Gibran

Homem algum poderá revelar-vos senão o que já está meio adormecido na aurora do vosso entendimento.

O mestre que caminha à sombra do templo, rodeado de discípulos, não dá de sua sabedoria, mas sim de sua fé e de sua ternura. Se ele for verdadeiramente sábio, não vos convidará a entrar na mansão de seu saber, mas vos conduzirá antes ao limiar de vossa própria mente.

O astrônomo poderá falar-vos de sua compreensão do espaço, mas não vos poderá dar a sua compreensão.

O músico poderá cantar para vós o ritmo que existe em todo o universo, mas não poderá dar o ouvido que capta a melodia, nem a voz que a repete.

E o versado na ciência dos números poderá falar-vos do mundo dos pesos e das medidas, mas não vos poderá levar até lá.

Porque a visão de um homem não empresta suas asas a outro homem.

E assim como cada um de vós se mantém isolado na consciência de Deus, assim cada um deve ter sua própria compreensão de Deus e sua própria interpretação das coisas da terra.

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Crédito da foto: Jonny Rewind

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23.7.09

Reflexões do Imperador

Texto de Marco Aurélio (imperador romano) em "Meditações" (Editora Martins Claret, tradução de Alex Marins).

O tempo da vida humana: um ponto. Sua substância: um fluxo. Suas sensações: trevas. Todo o seu corpo: corrupção. Sua alma: um remoinho. Sua sorte: um enigma. Seu renome: uma cega opinião. Resumindo, tudo, em sua matéria: precariedade. Em seu espírito: sonho e fumaça. Sua existência: uma guerra, a etapa de uma viagem. Sua glória póstuma: esquecimento. Que nos pode então servir de guia? A filosofia, apenas isso.

A filosofia consiste em fazer com que o gênio interior de cada um seja invulnerável aos ultrajes, impassível, superior aos prazeres e às dores. Que não se mova ao acaso, por falsidade ou maldade. Que não cogite do que fazem ou deixam de fazer os outros. Que aceite as vicissitudes e o destino como provenientes da mesma origem. Acima de tudo, que aguarde a morte com serenidade, nela não vendo mais do que a dissolução dos elementos constitutivos de todos os seres. Pois, se para os elementos nada há de horrível em se transformarem incessantemente uns nos outros, por que temer a transformação universal e a universal dissolução? Como nada é mal segundo a natureza, acredite que a natureza assim exige.

[livro II - XVII]

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A época antiga nos relegou centenas de reis e imperadores que, por mais que tenham conquistado diversas regiões do mundo, hoje são praticamente esquecidos. Aqui está um imperador que conquistou (ou pretendeu e se dedicou a conquistar) sua própria alma; Hoje, poucos se importam com quantas regiões Marco Aurélio conquistou, seu legado é algo muito superior as regiões e riquezas que se perderam no tempo.

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Crédito da foto: Cebete

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10.7.09

S.A.G.

Tu que és eu mesmo, além de tudo meu;
Sem natureza, inominado, ateu;
Que quando o mais se esfuma, ficas no crisol;
Tu que és o segredo e o coração do Sol;
Tu que és a escondida fonte do universo;
Tu solitário, real fogo no bastão imerso;
Sempre abrasando; tu que és a só semente;
De liberdade, vida, amor e luz eternamente;
Tu, além da visão e da palavra;
Tu eu invoco; e assim meu fogo lavra!
Tu eu invoco, minha vida, meu farol,
Tu que és o segredo e o coração do Sol
E aquele arcano dos arcanos santo
Do qual eu sou veículo e sou manto
Demonstra teu terrível, doce brilho:
Aparece, como é lei, neste teu filho!

Aleister Crowley

Igne Natura Renovatur Integra (INRI) - Pelo Fogo a Natureza se Renova Inteiramente

Faz o que tu queres, há de ser o todo da lei.
O amor é a lei, amor sob a vontade.

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Crédito da foto: Rodrigo Martin

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8.7.09

Preto Velho

Sou preto. Negro como a noite sem estrelas.

Sou velho. Velho como as vidas de meus irmãos.

Mas se sou ainda negro, é porque trago em mim as marcas do tempo, as marcas do Cristo. Essas marcas são as estrelas de minha alma, de minha vida.

Sou negro. Mas a brancura do linho se estampa na simplicidade do meu olhar, que tenta ver apenas o lado bonito da vida.

Sou velho, sim. Mas é na experiência da vida que se adquire a verdadeira sabedoria, aquela que vem do Alto. Sou velho. Velho no falar; velho na mensagem, velho nas tentativas de acertar.

A minha força, eu a construí na vida, na dor, no sofrimento. Não no sofrimento como alguns entendem, mas naquele decorrente das lutas, das dificuldades do caminho, da força empreendida na subida.

A força da vida se estrutura nas vivências. É à medida que construímos nossa experiência que essa força se apodera de nós, nos envolve e nós então nos saturamos dela. É a força e a coragem de ser você mesmo, do não se acovardar diante das lutas, de continuar tentando.

Sou forte.

Mas quando me deixo encher de pretensões, então eu descubro que sou fraco. Quando aprendo a sair de mim mesmo e ir em direção ao próximo, aí eu sei que me fortaleço.

Sou andarilho.

Eu sou preto, sou velho, sou humano. Sou como você, sou espírito. Sou errante, aprendiz de mim mesmo.

Na estrada da vida, aprendi que até hoje, e possivelmente para sempre, serei apenas o aprendiz da vida.

Pelas estradas da vida eu corro, eu ando.

Tudo isso para aprender que, como você, eu sou um cidadão do universo, viajor do mundo. Sou um semeador da paz.

Sou preto, sou velho, sou espírito.

Pai João de Aruanda (psicografia de Robson Pinheiro em seu livro Sabedoria de Preto Velho - ed. Casa dos Espíritos)

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Para quem é espírito, ser preto ou branco, velho ou jovem, é tudo uma questão secundária...


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6.7.09

Três dias para ver

Por Helen Keller [1]

Várias vezes pensei que seria uma benção se todo ser humano, de repente, ficasse cego e surdo por alguns dias no princípio da vida adulta. As trevas o fariam apreciar mais a visão e o silêncio lhe ensinaria as alegrias do som. De vez em quando testo meus amigos que enxergam para descobrir o que eles vêem. Há pouco tempo perguntei a uma amiga que voltava de um longo passeio pelo bosque o que ela observara. “Nada de especial”, foi à resposta.

Como é possível, pensei, caminhar durante uma hora pelos bosques e não ver nada digno de nota? Eu, que não posso ver, apenas pelo tato encontro centenas de objetos que me interessam. Sinto a delicada simetria de uma folha. Passo as mãos pela casca lisa de uma bétula ou pelo tronco áspero de um pinheiro. Na primavera, toco os galhos das árvores na esperança de encontrar um botão, o primeiro sinal da natureza despertando após o sono do inverno. Por vezes, quando tenho muita sorte, pouso suavemente a mão numa arvorezinha e sinto o palpitar feliz de um pássaro cantando.

Às vezes meu coração anseia por ver tudo isso. Se consigo ter tanto prazer com um simples toque, quanta beleza poderia ser revelada pela visão! E imaginei o que mais gostaria de ver se pudesse enxergar, digamos por apenas três dias.

Eu dividiria esse período em três partes. No primeiro dia gostaria de ver as pessoas cuja bondade e companhias fizeram minha vida valer a pena. Não sei o que é olhar dentro do coração de um amigo pelas “janelas da alma”, os olhos. Só consigo “ver” as linhas de um rosto por meio das pontas dos dedos. Posso perceber o riso, a tristeza e muitas outras emoções. Conheço meus amigos pelo que toco em seus rostos.

Como deve ser mais fácil e muito mais satisfatório para você, que pode ver, perceber num instante as qualidades essenciais de outra pessoa ao observar as sutilezas de sua expressão, o tremor de um músculo, a agitação das mãos. Mas será que já lhe ocorreu usar a visão para perscrutar a natureza íntima de um amigo? Será que a maioria de vocês que enxergam não se limita a ver por alto as feições externas de uma fisionomia e se dar por satisfeita? Por exemplo, você seria capaz de descrever com precisão o rosto de cinco bons amigos? Como experiência, perguntei a alguns maridos qual a exata cor dos olhos de suas mulheres e muitos deles confessaram, encabulados, que não sabiam.

Ah, tudo que eu veria se tivesse o dom da visão por apenas três dias! O primeiro dia seria muito ocupado. Eu reuniria todos os meus amigos queridos e olharia seus rostos por muito tempo, imprimindo em minha mente as provas exteriores da beleza que existe dentro deles. Também fixaria os olhos no rosto de um bebê, para poder ter a visão da beleza ansiosa e inocente que precede a consciência individual dos conflitos que a vida apresenta. Gostaria de ver os livros que já foram lidos para mim e que me revelaram os meandros mais profundos da vida humana. E gostaria de olhar nos olhos fiéis e confiantes de meus cães, o pequeno scottie terrier e o vigoroso dinamarquês.

À tarde daria um longo passeio pela floresta, intoxicando meus olhos com belezas da natureza. E rezaria pela glória de um pôr-do-sol colorido. Creio que nessa noite não conseguiria dormir. No dia seguinte eu me levantaria ao amanhecer para assistir ao empolgante milagre da noite se transformando em dia. Contemplaria assombrado o magnífico panorama de luz com que o Sol desperta a Terra adormecida.

Esse dia eu dedicaria a uma breve visão do mundo, passado e presente. Como gostaria de ver o desfile do progresso do homem, visitaria os museus. Ali meus olhos, veriam a história condensada da Terra -- os animais e as raças dos homens em seu ambiente natural; gigantescas carcaças de dinossauros e mastodontes que vagavam pelo planeta antes da chegada do homem, que, com sua baixa estatura e seu cérebro poderoso, dominaria o reino animal. Minha parada seguinte seria o Museu de Artes. Conheço bem, pelas minhas mãos, os deuses e as deusas esculpidos da antiga terra do Nilo. Já senti pelo tacto as cópias dos frisos do Paternon e a beleza rítmica do ataque dos guerreiros atenienses. As feições nodosas e barbadas de Homero me são caras, pois também ele conheceu a cegueira.

Assim, nesse meu segundo dia, tentaria sondar a alma do homem por meio de sua arte. Veria então o que conheci pelo tato. Mais maravilhoso ainda, todo o magnífico mundo da pintura me seria apresentado. Mas eu poderia ter apenas uma impressão superficial. Dizem os pintores que, para se apreciar a arte, real e profundamente, é preciso educar o olhar. É preciso, pela experiência, avaliar o mérito das linhas, da composição, da forma e da cor. Se eu tivesse a visão, ficaria muito feliz por me entregar a um estudo tão fascinante.

À noite de meu segundo dia seria passada no teatro ou no cinema. Como gostaria de ver a figura fascinante de Hamlet ou o tempestuoso Falstaff no colorido cenário elisabetano! Não posso desfrutar da beleza do movimento rítmico senão numa esfera restricta ao toque de minhas mãos. Só posso imaginar vagamente a graça de uma bailarina, como Pavlova, embora conheça algo do prazer do ritmo, pois muitas vezes sinto o compasso da música vibrando através do piso. Imagino que o movimento cadenciado seja um dos espetáculos mais agradáveis do mundo. Entendi algo sobre isso, deslizando os dedos pelas linhas de um mármore esculpido; se essa graça estática pode ser tão encantadora, deve ser mesmo muito mais forte a emoção de ver a graça em movimento.

Na manhã seguinte, ávida por conhecer novos deleites, novas revelações de beleza, mais uma vez receberia a aurora. Hoje, o terceiro dia, passarei no mundo do trabalho, nos ambientes dos homens que tratam do negócio da vida. A cidade é o meu destino. Primeiro, paro numa esquina movimentada, apenas olhando para as pessoas, tentando, por sua aparência, entender algo sobre seu dia-a-dia. Vejo sorrisos e fico feliz. Vejo uma séria determinação e me orgulho. Vejo o sofrimento e me compadeço.

Caminhando pela 5ª Avenida, em Nova York, deixo meu olhar vagar, sem se fixar em nenhum objeto em especial, vendo apenas um caleidoscópio fervilhando de cores. Tenho certeza de que o colorido dos vestidos das mulheres movendo-se na multidão deve ser uma cena espetacular, da qual eu nunca me cansaria. Mas talvez, se pudesse enxergar, eu seria como a maioria das mulheres – interessadas demais na moda para dar atenção ao esplendor das cores em meio à massa.

Da 5ª Avenida dou um giro pela cidade – vou aos bairros pobres, às fábricas, aos parques onde as crianças brincam. Viajo pelo mundo visitando os bairros estrangeiros. E meus olhos estão sempre bem abertos tanto para as cenas de felicidade quanto para as de tristeza, de modo que eu possa descobrir como as pessoas vivem e trabalham, e compreendê-las melhor.

Meu terceiro dia de visão está chegando ao fim. Talvez haja muitas atividades a que devesse dedicar as poucas horas restantes, mas acho que na noite desse último dia vou voltar depressa a um teatro e ver uma peça cômica, para poder apreciar as implicações da comédia no espírito humano. À meia-noite, uma escuridão permanente outra vez se cerraria sobre mim. Claro, nesses três curtos dias eu não teria visto tudo que queria ver. Só quando as trevas descessem de novo é que me daria conta do quanto eu deixei de apreciar.

Talvez este resumo não se adapte ao programa que você faria se soubesse que estava prestes a perder a visão. Nas sei que, se encarasse esse destino, usaria seus olhos como nunca usara antes. Tudo quanto visse lhe pareceria novo. Seus olhos tocariam e abraçariam cada objeto que surgisse em seu campo visual. Então, finalmente, você veria de verdade, e um novo mundo de beleza se abriria para você.

Eu, que sou cega, posso dar uma sugestão àqueles que vêem: usem seus olhos como se amanhã fossem perder a visão. E o mesmo se aplica aos outros sentidos. Ouça a música das vozes, o canto dos pássaros, os possantes acordes de uma orquestra, como se amanhã fossem ficar surdos. Toquem cada objeto como se amanhã perdessem o tacto. Sintam o perfume das flores, saboreiem cada bocado, como se amanhã não mais sentissem aromas nem gostos. Usem ao máximo todos os sentidos; goze de todas as facetas do prazer e da beleza que o mundo lhes revela pelos vários meios de contacto fornecidos pela natureza. Mas, de todos os sentidos, estou certa de que a visão deve ser o mais delicioso.

***

[1] Helen Keller (1880-1968) foi uma extraordinária mulher, triplamente deficiente, que ficou cega e surda, desde tenra idade, devido a uma doença diagnosticada na época como febre cerebral (hoje acredita-se que tenha sido escarlatina). Tornou-se uma célebre escritora, filósofa e conferencista, uma personagem famosa pelo extenso trabalho que desenvolveu em favor das pessoas portadoras de deficiência. Este ensaio acima foi publicado no Reader's Digest a mais de 70 anos, o texto foi extraído do site Lerparaver.
Há que se diminuir o ego ante tal extrato de sabedoria vindo de uma mulher que conheceu o mundo apenas através do tato, do olfato e do paladar.

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30.6.09

O discurso da alma

Textos de Platão em "Fedro" (Editora Martins Claret, tradução de Alex Marins). As notas são de minha autoria.

SÓCRATES - Imagina que alguém expõe por escrito as regras de sua arte e um outro aceita o livro como sendo a expressão de sua doutrina clara e profunda; esse homem seria um tolo, pois, não entendendo a advertência profética de Amon [1], atribuiria a teorias escritas mais valor do que o de um simples lembrete do assunto tratado. Não é assim?

FEDRO - Perfeitamente.

S. - O uso da escrita, Fedro, tem um incoveniente que se assemelha à pintura. Também as figuras pintadas têm a atidude de pessoas vivas, mas se alguém as interrogar conservar-se-ão gravemente caladas. O mesmo sucede com os discursos. Falam das coisas como se as conhecessem, mas quando alguém quer informar-se sobre qualquer ponto do assunto exposto, eles se limitam a repetir sempre a mesma coisa [2]. Uma vez escrito, um discurso sai a vagar por toda parte, não só entre os conhecedores mas também entre os que o não entendem, e nunca se pode dizer para quem serve e para quem não serve [3]. Quando é desprezado ou injustamente censurado, necessita do auxílio do pai, pois não é capaz de defender-se nem de se proteger por si.

F. - Também neste ponto tens toda a razão.

S. - Examinemos agora uma outra espécie de discurso, irmão legítimo dessa eloquência bastarda: vejamos como nasce e quanto ele é superior e mais poderoso que o outro.

F. - A que discurso te referes, e como nasce ele?

S. - Refiro-me ao discurso conscienciosamente escrito com a ciência da alma, ao discurso que é capaz de defender a si mesmo e que sabe diante de quem convém falar e diante de quem é preferível ficar calado.

F. - Estás falando do discurso vivo e animado do homem sábio, do qual todo discurso escrito poderia ser chamado com justiça um simulacro?

S. - Exatamente. Imagina que um agricultor inteligente possua sementes e lhes dá valor, e das quais queira obter frutos. Pensaria tal homem seriamente em plantar suas sementes durante o verão nos jardins de Adônis [4], e gostaria de vê-las desenvolvidas como plantas dentro de oito dias? Seria possível que o fizesse de bom grado, mas simplesmente a título de cerimônia religiosa, por ocasião das festas de Adônis. Quanto às sementes a que deseja dar um fim sério, porém, ele as plantará em solo apropriado, utilizando a sua técnica de agricultor, e ficará contente se a seara lhe der frutos no oitavo mês.

F. - Mas é evidente, Sócrates; como dizes, esse homem faria uma coisa seriamente e a outra com intensões diversas.

S. - Ora, podemos nós dizer que quem possui o conhecimento do justo, do belo e do bom dará às suas sementes um uso menos judicioso do que o camponês?

F. - Não.

S. - Tu bem vês que aquele que conhece o justo, o bom e o verdadeiro não irá escrever na água (locução que equivale a escrever na areia) essas coisas, nem usará uma caniço para semear tais discursos, pois eles se mostrarão incapazes de ensinar eficientemente a verdade.

F. - Provavelmente não fará isso.

S. - Claro que não. Naturalmente, semeará nos jardins literários apenas por passatempo. Se escrever, será na intenção de acumular para si mesmo um tesouro de recordações para a velhice, se chegar até lá; porque os velhos esquecem tudo. Escreverá também para os que caminham na mesma rua com ele, e se alegrará vendo crescer as tenras plantas. E, enquanto outros se divertem em banquetes e prezeres semelhantes, esse homem se recreará com as coisas que mencionei [5].

F. - Mas, Sócrates, estás comparando com divertimentos vulgares a belíssima atividade de um homem que se deleita em escrever discursos sobre a justiça e as outras virtudes!

S. - É verdade, meu caro Fedro! Mas acho muito mais bela a discussão dessas coisas quando alguém semeia palavras de acordo com a arte dialética, depois de ter encontrado uma alma digna para recebê-las; quando esse alguém planta discursos que são frutos da razão, que são capazes de defender por si mesmos e ao seu cultivador, discursos que não são estéreis mas que contém dentro de si sementes que produzem outras sementes em outras almas, permitindo assim que elas se tornem imortais. Aos que as levam consigo, tais sementes proporcionam a maior felicidade que é dado ao homem possuir [6].

F. - Na verdade, isso é muito mais belo.

***

[1] Sócrates acabara de descrever o mito da invenção da escrita pelo deus egípcio Thoth. Este foi repreendido em sua intenção por outro deus egípcio, Amon: "Tu, como pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos, só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos. Logo, tu não inventaste um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação. Transmites aos teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em consequência, serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios".
Sócrates (assim como seu discípulo, Platão) acreditava que a sabedoria não poderia ser passada adiante como "verdades impressas" em algum texto ou discurso, mas que deveria ser despertada na alma das pessoas; até mesmo porque certas verdades não podem ser expressas em palavras, mas somente através da estimulação do logos (razão conectada ao Cosmos) de cada um. No belo final do "Fedro", Sócrates nos dá uma boa pista de como discursar para a alma - é exatamente este trecho que está transcrito acima.

[2] Infelizmente Sócrates não viveu em nossa época, pois ficaria maravilhado com as possibilidades de discursos transmitidos em blogs e afins, onde todos podem comentar e interagir diretamente com o autor, contanto que este realmente frequente o próprio blog. Muito embora, evidentemente, nossa sociedade em sua maioria continue utilizando a web para fins muito menos nobres...

[3] Os discursos não poderem se adaptar a sua audiência. Sócrates defendia que, pessoalmente, o filósofo deveria ser capaz da analisar o conhecimento de cada um, e proferir discursos de acordo com a capacidade de cada ouvinte. Talvez mesmo por isso nunca tenha escrito coisa alguma, tendo sempre preferido transmitir sua sabedoria pessoalmente aos seus discípulos.

[4] Tratava-se de uma festa para o deus Adônis. No início da festa colocavam-se sementes em grandes vazos cheios de terra molhada, para simbolizar o desaparecimento de Adônis; depois expunham-se os vasos à irradiação de um forte calor artificial, o que fazia com que as sementes brotassem em poucos dias. As pequenas plantas que se desenvolviam nos jardins de Adônis eram apresentadas no fim da festa como símbolos da ressurreição desse deus. Naturalmente, tais plantas artificiais eram bonitas, mas caducavam poucos dias depois da festa, sem dar frutos nem sementes. Ou seja, o camponês sábio guardava suas melhores sementes não para a festa, mas para o plantio durável, para que possam germinar e dar frutos reais. Esta é mais uma bela analogia de Sócrates para com o discurso efêmero (atrativo e superficial, mas que não dá frutos) e o discurso durável, talhado para a alma (requer certa reflexão, mas traz o fruto como recompensa).

[5] Sócrates dedicou boa parte da vida a analisar a sabedoria dos homens. E percebeu que exatamente os que se julgavam os mais sábios eram, muitas das vezes, os mais ignorantes. Por isso se utiliza de uma fina ironia em muitas de suas críticas veladas a sociedade da época. Também é preciso lembrar que é muito complexo discernir o que era pensamento genuíno de Sócrates, e o que era interferência de Platão, nessas questões.

[6] Em última instância, a função da filosofia é proporcionar ao homem o contato com tal felicidade. Após o contato, todo filósofo pleno dessa felicidade não terá objetivo mais recompensador do que o de passar tal conhecimento adiante, de modo a que outros também possam alcançar a felicidade. Se há "filósofos" que não fazem isso, é porque nunca alcançaram essa sabedoria, e não exatamente porque creem que a filosofia deva ser uma forma de sofrimento intelectual, ou um conjunto de sistemas e regras do pensar, que servem mais para confundir a mente do que aplainá-la.

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Crédito da foto: camerar (borboleta "adonis blue - lysandra bellargus")

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28.6.09

Os Aymara e o tempo

Os índios Aymara, que habitam há séculos as margens do lago Titicaca, nos Andes, junto com algumas tribos africanas tem um estranho conceito de passado e futuro.

Exatamente ao contrario de nós, o que para nós é passado, para eles é futuro e, com esse conceito defendem a necessidade de sete diferentes tipos de paz.

A primeira é para dentro de si. Consigo próprio, na saúde do corpo, na lucidez da mente, no prazer do seu trabalho, na correspondência dos seus amores. Sem paz consigo, você não está em paz.

A segunda é para cima. Com o espírito de seus antepassados, com a vontade de Deus. Se você não está em paz com o mundo espiritual, com a essência de sua existência, sua paz está incompleta.

A terceira paz é para frente, com seu passado. A cultura ocidental põe o passado para trás. Já os Aymara põem o passado à frente, porque ele é o conhecido, o visto, o vivido. Se você tem remorsos, dívidas não pagas, culpas, arrependimentos, não está totalmente em paz.

A quarta paz é para trás, com seu futuro. Quem tem medo do que virá, está assustado com dívidas a pagar, com emprego incerto, esperando más notícias, não está em paz.

A quinta é para o lado esquerdo, com seus próximos. Sem a paz familiar, não há paz. A disputa doméstica, o descontentamento com familiares e amigos próximos, tira o sentimento de paz.

A sexta paz é para o lado direito, com seus vizinhos. Não adianta a paz em casa, se do outro lado da rua estão a ameaça, a maldição, o descontentamento.

A sétima paz é para baixo, com a terra que você pisa, de onde virá seu sustento. Se vier tempestade, se o solo secar ou tremer, se não respeitarmos nosso planeta, não haverá paz completa.

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Crédito da foto: José Branco

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26.6.09

A graça de ser só

Autor: Pe. Fábio de Melo

Ando pensando no valor de ser só. Talvez seja por causa da grande polêmica que envolveu a vida celibatária nos últimos dias. Interessante como as pessoas ficam querendo arrumar esposas para os padres. Lutam, mesmo que não as tenhamos convocado para tal, para que recebamos o direito de nos casar e constituir família.

Já presenciei discursos inflamados de pessoas que acham um absurdo o fato de padre não poder casar.

Eu também fico indignado, mas de outro modo. Fico indignado quando a sociedade interpreta a vida celibatária como mera restrição da vida sexual. Fico indignado quando vejo as pessoas se perderem em argumentos rasos, limitando uma questão tão complexa ao contexto do "pode ou não pode".

A sexualidade é apenas um detalhe da questão. Castidade é muito mais. Castidade é um elemento que favorece a solidão frutuosa, pois nos coloca diante da possibilidade de fazer da vida uma experiência de doação plena. Digo por mim. Eu não poderia ser um homem casado e levar a vida que levo. Não poderia privar os meus filhos de minha presença para fazer as escolhas que faço. O fato de não me casar não me priva do amor. Eu o descubro de outros modos. Tenho diante de mim a possibilidade de ser dos que precisam de minha presença. Na palavra que digo, na música que canto e no gesto que realizo, o todo de minha condição humana está colocado. É o que tento viver. É o que acredito ser o certo.

Nunca encarei o celibato como restrição. Esta opção de vida não me foi imposta. Ninguém me obrigou ser padre, e quando escolhi o ser, ninguém me enganou. Eu assumi livremente todas as possibilidades do meu ministério, mas também todos os limites. Não há escolhas humanas que só nos trarão possibilidades. Tudo é tecido a partir dos avessos e dos direitos. É questão de maturidade.

Eu não sou um homem solitário, apenas escolhi ser só. Não vivo lamentando o fato de não me casar. Ao contrário, sou muito feliz sendo quem eu sou e fazendo o que faço. Tenho meus limites, minhas lutas cotidianas para manter a minha fidelidade, mas não faço desta luta uma experiência de lamento. Já caí inúmeras vezes ao longo de minha vida. Não tenho medo das minhas quedas. Elas me humanizaram e me ajudaram a compreender o significado da misericórdia. Eu não sou teórico. Vivo na carne a necessidade de estar em Deus para que minhas esperanças continuem vivas. Eu não sou por acaso. Sou fruto de um processo histórico que me faz perceber as pessoas que posso trazer para dentro do meu coração. Deus me mostra. Ele me indica, por meio de minha sensibilidade, quais são as pessoas que poderão oferecer algum risco para minha castidade. Eu não me refiro somente ao perigo da sexualidade. Eu me refiro também às pessoas que querem me transformar em "propriedade privada". Querem depositar sobre mim o seu universo de carências e necessidades, iludidas de que eu sou o redentor de suas vidas.

Contra a castidade de um padre se peca de diversas formas. É preciso pensar sobre isso. Não se trata de casar ou não. Casamento não resolve os problemas do mundo.

Nem sempre o casamento acaba com a solidão. Vejo casais em locais públicos em profundo estado de solidão. Não trocam palavras, nem olhares. Não descobriram a beleza dos detalhes que a castidade sugere. Fizeram sexo demais, mas amaram de menos. Faltou castidade, encontro frutuoso, amor que não carece de sexo o tempo todo, porque sobrevive de outras formas de carinho.

É por isso que eu continuo aqui, lutando pelo direito de ser só, sem que isso pareça neurose ou imposição que alguém me fez. Da mesma forma que eu continuo lutando para que os casais descubram que o casamento também não é uma imposição. Só se casa aquele que quer. Por isso perguntamos sempre – É de livre e espontânea vontade que o fazeis? – É simples. Castos ou casados, ninguém está livre das obrigações do amor. A fidelidade é o rosto mais sincero de nossas predileções.

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Crédito da foto: Revista Isto É

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24.6.09

O verdadeiro Eu

Autor: Alan Moore.
Fonte: Acid (em artigo para o site Somos Todos Um, o texto é retirado do documentário "The Mindscape of Alan Moore").

Quando cumprimos a vontade de nosso verdadeiro Eu, nós estamos inevitavelmente cumprindo com a vontade do universo. Na magia, ambas as coisas são indistinguíveis. Cada alma humana não é, de fato, UMA alma humana: é a alma do universo inteiro. E, enquanto você cumprir a vontade do universo, é impossível fazer qualquer coisa errada.

Muitos dos magos como eu entendem que a tradição mágica ocidental é uma busca do Eu com "E" maiúsculo. Esse conhecimento vem da Grande Obra, do ouro que os alquimistas buscavam, a busca da Vontade, da Alma, a coisa que temos dentro que está por trás do intelecto, do corpo e dos sonhos. Nosso dínamo interior, se preferir assim. Agora, esta é, particularmente, a coisa mais importante que podemos obter: o conhecimento do verdadeiro Eu.

Assim, parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência por ignorar seu Eu, mas que também parecem ter a urgência por obliterarem-se a si próprias. Isto é horrível, mas ao menos vocês podem entender o desejo de simplesmente desaparecer, com essa consciência, porque é muita responsabilidade realmente possuir tal coisa como uma alma, algo tão precioso. O que acontece se a quebra? O que acontece se a perde? Não seria melhor anestesiá-la, acalmá-la, destruí-la, para não viver com a dor de lutar por ela e tentar mantê-la pura. Creio que é por isso que as pessoas mergulham no álcool, nas drogas, na televisão, em qualquer dos vícios que a cultura nos faz engolir, e pode ser vista como uma tentativa deliberada de destruir qualquer conexão entre nós e a responsabilidade de aceitar e possuir um Eu superior, e então ter que mantê-lo.

Tenho estudado a escola da história do pensamento mágico e o ponto em que começou a dar errado. No meu entender, o ponto em que começa a dar errado é com o monoteísmo. Quero dizer, se olhar a história da magia, verá suas origens nas cavernas, verá suas origens no Xamanismo, no Animismo, na crença de que tudo o que te rodeia, cada árvore, cada rocha, cada animal foi habitado por algum tipo de essência, um tipo de espírito com o qual talvez possamos nos comunicar. E ao centro você tinha um xamã, um visionário, que seria o responsável por canalizar as idéias úteis para a sobrevivência. No momento em que você chega às civilizações clássicas, verá que tudo isto foi formalizado até certo grau. O xamã atuava puramente como um intermediário entre os espíritos e as pessoas. Sua posição na aldeia ou comunidade, imagino, era a de um "encanador espiritual". Cada pessoa no grupo devia ter seu papel: A melhor pessoa durante uma caçada tornava-se o caçador, a pessoa que era melhor pra falar com os espíritos, talvez porque ele ou ela estivesse um pouco louco, um pouco separado do nosso mundo material normal, eles tornavam-se os xamãs. Eles não seriam mestres de uma arte secreta, mas sim, os que simplesmente espalhariam sua informação pela comunidade, porque se acreditava que isto era útil para todo o grupo. Quando vemos o surgimento das culturas clássicas, tudo isso se formalizou para que houvesse panteões de deuses, e cada um destes deuses tinha uma casta de sacerdotes, que até certo ponto atuariam como intermediários, que te instruiriam na adoração a estes deuses. Então, a relação entre os homens e seus deuses, que pode ser vista como a relação entre os humanos e seus "Eus" superiores, não era todavia de um modo direto.

Quando chega o Cristianismo, quando chega o Monoteísmo, de repente tem uma casta sacerdotal movendo-se entre o adorador e o objeto de adoração. Tem uma casta sacerdotal convertendo-se em uma espécie de gerência intermediária entre a humanidade e a divindade que está se buscando. Já não se tem mais uma relação direta com os deuses. Os sacerdotes não têm necessariamente uma relação com Deus. Eles só têm um livro que fala sobre gente que viveu há muito tempo que teve relação direta com a divindade. E assim está bom: Não é preciso ter visões milagrosas, não é preciso ter deuses falando contigo. Na verdade, se você tem algo disto, provavelmente está louco. No mundo moderno, essas coisas não acontecem; as únicas pessoas as quais se permite falar com os deuses, e de um modo unilateral, são os sacerdotes. E o Monoteísmo é, pra mim, uma grande simplificação. Eu quero dizer, a Cabala tem uma grande variedade de deuses, mas acima da escala, da Árvore da Vida, há uma esfera que é o Deus Absoluto, a Mônada. Algo que é indivisível, você sabe. E todos os outros deuses, e, de fato, tudo mais no universo é um tipo de emanação daquele Deus. E isto está bem. Mas, quando você sugere que lá está somente esse único Deus, a uma altura inalcançável acima da humanidade, e que não há nada no meio, você está limitando e simplificando o assunto.

Eu tendo a pensar o Paganismo como um tipo de alfabeto, de linguagem. É como se todos os deuses fossem letras dessa linguagem. Elas expressam nuances, sombras de uma espécie de significado ou certa sutileza de idéias, enquanto o Monoteísmo é só uma vogal, onde tudo está reduzido a uma simples nota, que quem a emite nem sequer a entende.

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Crédito da foto: Rodrigo Furlan (Alan Moore)

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16.6.09

Pérolas de Espinosa

Textos de Benedito Espinosa em "Ética" (Editora Autêntica, tradução de Tomaz Tadeu)

Impossível enumerar os grande momentos de pura lógica e razão demonstrados através de uma delicada geometria contidos nas páginas da Ética. Aqui, porém, escolhi algumas pérolas da Quarta Parte - A Servidão Humana ou a Força dos Afetos:

Da perfeição (Prefácio)
Quem decidiu fazer alguma coisa e a concluiu, dirá que ela está perfeita, e não apenas ele, mas também qualquer um que soubesse o que o autor tinha em mente e qual era o objetivo de sua obra ou que acreditasse sabê-lo. Por exemplo, se alguém observa uma obra (que suponho estar inconclusa) e sabe que o objetivo de seu autor é o de edificar uma casa, dirá que a casa é imperfeita e, contrariamente, dirá que é perfeita se perceber que a obra atingiu o fim que seu autor havia decidido atribuir-lhe. Mas se alguém observa uma obra que não se parece com nada que tenha visto e, além disso, não está ciente da idéia do artífice, não saberá, certamente, se a obra é perfeita ou imperfeita. Este parece ter sido o significado original desses vocábulos. Mas, desde que os homens começaram a formar idéias universais e a inventar modelos de casas, edifícios, torres, etc., e a dar preferência a certos modelos em detrimento de outros, o que resultou foi que cada um chamou de perfeito aquilo que via estar de acordo com a idéia universal que tinha formado das coisas do mesmo gênero, e chamou de imperfeito aquilo que via estar menos de acordo com o modelo que tinha concebido, ainda que na opinião do artífice, a obra estivesse plenamente concluída. E não aprece haver outra razão para chamar, vulgarmente, de perfeitas ou imperfeitas também as coisas da natureza, isto é, as que não são feitas pela mão humana.

Da razão (Escólio da Preposição 18, e também mais de acordo com o logos do estoicismo)
Como a razão não exige nada que seja contra a natureza, ela exige que cada um ame a si próprio; que busque o que lhe seja útil, mas efetivamente útil; que deseje tudo aquilo que, efetivamente, conduza o homem a uma maior perfeição; e, mais geralmente, que cada qual se esforce por conservar, tanto quanto está em si, o seu ser. Tudo isso é tão necessariamente verdadeiro quanto é verdadeiro que o todo é maior que qualquer uma de suas partes. Além disso, uma vez que a virtude não consiste senão em agir pelas leis da própria natureza, e que ninguém se esforça por conservar o seu ser senão pelas leis da natureza, segue-se: 1. Que o fundamento da virtude é esse esforço por conservar o próprio ser e que a felicidade consiste em o homem poder conservá-lo. 2. Que a virtude deve ser apetecida por si mesma, não existindo nenhuma outra coisa que lhe seja preferível ou que nos seja mais útil e por cuja causa ela deveria ser apetecida. 3. Finalmente, que aqueles que se suicidam têm o ânimo impotente e estão inteiramente dominados por causas exteriores e contrárias à sua natureza. Segue-se, ainda, que é totalmente impossível que não precisemos de nada que nos seja exterior para conservar o nosso ser, e que vivamos de maneira que não tenhamos nenhuma troca com as coisas que estão fora de nós. (...) Portanto, nada é mais útil ao homem do que o próprio homem. Quero dizer com isso que os homens não podem aspirar nada que seja mais vantajoso para conservar o seu ser do que estarem, todos, em concordância em tudo, de maneira que as mentes e os corpos de todos componham como que uma só mente e um só corpo, e que todos, em conjunto, se esforcem, tanto quanto possam, para conservar o seu ser, e que busquem, juntos, o que é de utilidade comum para todos.

Da sociedade e do pecado (Segundo Escólio da Preposição 37)
Por qual razão (...) os homens, que estão necessariamente submetidos aos afetos e são inconstantes e volúveis, possam dar-se essas garantias recípocras e terem uma confiança mútua. Mais especificamente, é porque nenhum afeto pode ser refreado a não ser por um afeto mais forte e contrário ao afeto a ser refreado, e porque cada um se abstém de causar prejuízo a outro por medo de um prejuízo maior. É, pois, com base nessa lei que se poderá estabelecer uma sociedade, sob a condição de que esta avoque para si própria o direito que cada um tem de se vingar e de julgar sobre o bem e o mal. E que ela tenha, portanto, o poder de prescrever uma norma de vida comum e de elaborar leis, fazendo-as cumprir não pela razão, que não pode refrear os afetos, mas por ameaças. Uma tal sociedade, baseada nas leis e no poder de se conservar, chama-se sociedade civil e aqueles que são protegidos pelos direitos dessa sociedade chamam-se cidadãos. Com isso, compreendemos facilmente que, no estado natural, não há nada que seja bom ou mau pelo consenso de todos, pois quem se encontra no estado natural preocupa-se apenas com o que lhe é de utilidade, considerada segundo a sua própria inclinação. (...) Não se pode, por isso, no estado natural, conceber-se o pecado, mas pode-se, certamente, concebê-lo no estado civil, no qual o que é bom e o que é mau é decidido por consenso, e cada um está obrigado a obedecer à sociedade civil. (...) Por essas razões é evidente que o justo e o injusto, o pecado e o mérito são noções extrínsecas e não atributos que expliquem a natureza da mente [1].

Fazer o bem por temor do mal (Demonstração, Escólio e Corolário da Preposição 63)
Todos os afetos que estão referidos à mente, à medida que ela age, isto é, que estão referidos à razão, só podem ser afetos de alegria e de desejo. Por isso, quem se deixa levar pelo medo e faz o bem por temor do mal não se conduz pela razão.
Os supersticiosos, que, mais do que ensinar as virtudes, aprenderam a censurar os vícios, e que se aplicam a conduzir os homens não segundo a razão, mas a contê-los pelo medo, de maneira que, mais do que amar as virtudes, fujam do mal, não pretendem senão tornar os demais tão infelizes quanto eles próprios. Por isso, não é de admirar que sejam, em geral, importunos e odiosos para os homens.
Pelo desejo que surge da razão buscamos diretamente o bem e evitamos indiretamente o mal.

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[1] Mas vale lembar que Espinosa defendia que toda a ação dentro das leis da natureza é uma ação boa e útil. Não no sentido egocêntrico, mas no sentido de que, ao seguir a natureza, o ser segue sua potência natural e estará alegre. As ações más não serão más porque a sociedade (ou certas concepções de Deus, por exemplo) às pune, mas porque vão contra a nossa própria natureza, antes de mais nada.

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Crédito da foto: Laura Cammarata (série sobre os pecados)

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26.5.09

O ceticismo do cientista

Texto de Marcelo Gleiser, físico e divulgador de ciência, autor de "A dança do universo" - publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

Volta e meia, leitores me questionam sobre o que lhes parece ser o exagerado – ou pouco razoável – ceticismo do cientista.

As abordagens variam. Algumas vezes, acham inconsistente um cientista se dizer ateu quando não pode responder a certas questões básicas, como, por exemplo, a origem do Universo ou da vida. Dizem eles: “Vocês falam do Big Bang, o evento que iniciou tudo. Mas de onde veio a energia que provocou esse evento? Como falar de algo material surgindo do nada, sem a ação de um ser imaterial, isto é, divino?” Outras críticas dizem respeito à descrença em fenômenos paranormais, sobrenaturais, OVNIs e seres extraterrestres, espiritismo etc.

Segundo estatísticas recentes feitas pela Fundação Gallup nos Estados Unidos, em torno de 50% dos americanos acreditam em percepção extra-sensorial. Mais de 40% acreditam em possessões demoníacas e casas mal-assombradas, e em torno de 30% crêem em clarividência, fantasmas e astrologia. Não conheço estatísticas semelhantes para o Brasil, mas imagino que os números devam ser no mínimo comparáveis.

Sem a menor dúvida, a luta do cético é ingrata; ele estará sempre em minoria. Existem muito mais colunas sobre astrologia do que sobre astronomia ou ciência nos jornais e revistas do Brasil e do mundo. Mas, sem ceticismo, a sociedade estaria fadada a ser controlada por indivíduos oportunistas que se alimentam dessa necessidade muito humana de acreditar.

Ela existe para todos não há dúvidas. Mesmo o cético deve acreditar no poder da razão para desvendar os muitos mistérios que existem. A paixão que o alimenta é a mesma do crente, mas direcionada em sentido oposto.

Devido a esse ceticismo, muitas vezes os cientistas (incluindo este que lhes escreve) são acusados de insensibilidade. De jeito nenhum. Eu tenho grande respeito pelos que acreditam. O que me é difícil aceitar é a exploração que existe em torno dessa necessidade, a exploração da fé.

Na Índia, por exemplo, recentemente apareceram milhares de “homens-deuses”, que se dizem meio deuses, meio gente. No México, funcionários do governo freqüentam seminários sobre como usar o poder dos anjos. O Peru está cheio de psíquicos, enquanto na França são aromaterapeutas. Testes em laboratório visando verificar poderes extra-sensoriais invariavelmente falham.

O famoso paranormal israelense Uri Geller, que dobrou garfos na frente de milhões nos anos 70, foi desmascarado como fraudulento. O meu orientador de doutorado na Inglaterra, impressionado com Geller e outros médiuns, montou um laboratório para testar seus poderes. Ele o fez com ótimas intenções, para explorar a origem desses poderes de modo a divulgá-las para o resto da humanidade. Mas falharam todos.

Voltando à questão do Big Bang. A religião não deve existir para tapar os buracos da nossa ignorância. Isso a desmoraliza. É verdade, não podemos ainda explicar de forma satisfatória a origem do Universo. Existem inúmeras hipóteses, mas nenhuma muito convincente.

Mesmo se tivéssemos uma explicação científica, sobraria uma outra questão: o que determinou o conjunto das leis físicas que regem este Universo? Por que não um outro? Existe aqui uma confusão sobre qual é a missão da ciência. Ela não se propõe a responder a todas as questões que afligem o ser humano.

A ciência, ou melhor, a descrição científica da natureza, é uma linguagem criada pelos homens (e mulheres) para interpretar o cosmo em que vivemos. Ela não é absoluta, mas está sempre em transição, gradativamente aprimorada pela validação empírica obtida através de observações. A ciência é um processo de descoberta, cuja língua é universal e, ao menos em princípio, profundamente democrática: qualquer pessoa, com qualquer crença religiosa ou afiliação política, de diferentes classes sociais e culturas pode participar desse debate. (Claro, na prática a situação é mais complexa.)

Ela não terá jamais todas as respostas, pois nem sabemos todas as perguntas. O cético prefere viver com a dúvida do que aceitar respostas que não podem ser comprovadas, que são aceitas apenas pela fé. Para ele, o não-saber não gera insegurança, mas sim mais apetite pelo saber. Essa talvez seja a lição mais importante da ciência, nos ensinar a viver com a dúvida, a idolatrá-la. Pois, sem ela, o conhecimento não avança.

Fonte: ateus.net (mas vale lembrar: nem todo cético é ateu, o ceticismo é uma ferramenta do pensar e não uma ideologia)

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21.5.09

Lembrando de nós mesmos

Texto de Jean-joël Duhot no "Sócrates ou o despertar da consciência" (Edições Loyola)

Os professores afirmam ser capazes de ensinar tudo, e assim de fabricar o homem completo. Sócrates nada ensina, não forma nem transforma ninguém. E contudo pode-se sair transformado de sua frequentação, e só ele é o mestre verdadeiro. Os outros vendem fórmulas que não passam de simulacros de realidade, evoluem no não-ser. Sócrates é o catalisador pelo qual vai poder revelar-se a marca divina escondida em nós. Não há meio de fazer tornar alguém um outro, se já não o for em si mesmo, de sorte que há alunos para os quais reconhece que nada pode fazer.

Daonde vem essa marca divina da qual Sócrates é o revelador? Encontramos as imagens da visão, da caverna, do vôo da alma, mas como essa busca é interior seu objeto está em nós mesmos. Longe de ser esquecimento de si, o êxtase socrático é sua descoberta. O divino não é uma figura da alteridade, mas da identidade. A busca obedece uma intimação: "Conhece-te a ti mesmo", que, é claro, nada tem a ver com a psicologia, seja geral ou individual. Conhecer-se, para Sócrates, é buscar o que se é realmente.

Somos nosso corpo? Mas como nesse caso teríamos uma identidade, já que ele muda constantemente? A idéia mesma de um Si exclui que a essência do ser humano resida na matéria que o compõe. Além disso, como um ser vivo poderia definir-se por algo não-vivo? Somos antes de tudo seres vivos, de modo que é pela vida que é preciso definir-nos. Ora, a vida diz-se psychè, o que faz que não seja outra coisa que a alma. A essência do vivente está por conseguinte em sua alma. E inversamente, como mostra o Fédon, a identidade da alma e da vida permite estabelecer a imortalidade da alma: a vida não pode morrer porque então não seria mais ela mesma. Essa incompatibilidade da vida e da morte vale também para a alma pelo fato de que não é outra coisa que a vida, como indica sua identidade nominal.

Sócrates é pois um revelador graças ao qual o discípulo vai empreender descobrir-se, isto é, ter acesso ao conhecimento de sua alma, que conserva ocultas dentro dela algumas lembranças do divino. É aqui que se articula a reminiscência: a alma, a psychè, já habitou no além, mas voltando para a terra tudo esqueceu [1]. O conhecimento verdadeiro consiste por conseguinte na tentativa de reencontrar essas lembranças perdidas. O problema teórico é de fato muito simples. Trata-se de encontrar uma resposta à questão de saber como a alma pode ter acesso ao divino - apesar de sua imortalidade - que conteria em si mesmo, por natureza, o saber divino; é que ela já o encontrou. Conhecer-se a si mesma consiste assim em reencontrar fragmentos de visões perdidas por ocasião da encarnação [2].

A reminiscência permite dar conta dos eixos essenciais que já destacamos. Explica que a alma possa ter acesso a uma visão do divino, e que o faça ao interrogar-se sobre si mesma. Nisso o método socrático é extremamente paradoxal. Essa método, a dialética ascensional, utiliza, por definição, a palavra, mas o que se trata de atingir é um saber indizível; e essa busca no mais profundo de si requer a presença ativa de um outro, que no entanto nada transmite. A palavra é o instrumento da descoberta do indizível, o outro é necessário para a descoberta de si, e o divino encontra-se no questionamento sobre esse Si. Não é no silêncio nem na solidão que se empreende a subida para o divino, que é de fato uma descida para dentro de Si, que não pode ser feita sem um outro [3].

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[1] Porisso diz-se, com razão, que a teoria da reencarnação é muito mais antiga do que a da ressurreição, e talvez tenha surgido em um mesmo momento que a crença na vida após a morte. Ao associar a vida ao oposto da morte, Sócrates demonstra com lógica implacável que o que é vivo não pode morrer, e certamente já estava vivo antes de nascer. Por alguma razão o cristianismo primitivo deixou definitivamente para trás a crença na reencarnação à partir do século IV (aproximadamente), apesar de dever uma forte influência a fiolosofia socrática e estóica, talvez por influência do mesmo materialismo que sempre esteve presente no judaismo.

[2] Aqui também temos claramente o conceito de que a alma vive em algum lugar entre suas encarnações, tanto que adquire memórias que podem ser acessadas durante a encarnação atual. Dessa forma já temos pelo menos desde Sócrates (25 séculos atrás) a definição de que a reencarnação não é um ato instantâneo, como querem acreditar certos céticos que creditam toda teoria reencarnacionista antiga a uma associação direta com a mentempsicose.

[3] Assim como um olho não pode "ver a si mesmo", a alma também, se quer conhecer a si mesma, deve olhar uma outra alma, e nessa alma, a parte onde reside a excelência própria da alma. É observando o mundo e os seres que encontraremos os parâmetros para nosso próprio conhecimento (sophia) interno.

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Crédito da foto: Wikipedia ("A morte de Sócrates", Jacques-Louis David)

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15.5.09

Sócrates nas Nuvens

Texto de Jean-joël Duhot no "Sócrates ou o despertar da consciência" (Edições Loyola)

Vejamos como se faz o encontro de Estrepsíades com o mestre (Sócrates como caricatura [1] em As nuvens de Aristófanes, o texto mais antigo a seu respeito). Um discípulo introduziu no "pensadeiro" (novamente, caricatura de uma "escola" socrática [2], na peça de Aristófanes) um novo aluno: Sócrates está no ar, num barquinho suspenso:

Ando nos ares e olho o sol. Nunca, com efeito, teria deslindado exatamente as coisas celestes se não tivesse elevado meu espírito e confundido meu pensamento sutil com o ar semelhante. Se tivesse ficado na terra para observar de baixo as regiões superiores, nunca teria descoberto nada; não, porque a terra forçosamente atrai para ela a seiva do pensamento. É exatamente o que acontece com o agrião. [As nuvens, 225-243]

Por trás da paródia, pode-se compreender, parece que Sócrates se arranca da terra e pratica uma ascensão do espírito que lhe permite o acesso às realidades superiores. Esse acesso supõe uma iniciação comparada à dos Mistérios [As nuvens, 258, 303] [3]. E, depois de ter ouvido as Nuvens, a alma de Estrepsíades [As nuvens, 319] começa a alçar seu vôo. Contudo, o conhecimento supõe aptidões, trabalho e uma verdadeira ascese: precisa-se de memória, de concentração e de resistência, de saber aguentar de pé as caminhadas, o frio e a fome [As nuvens, 412-416]. Quando chega o momento da iniciação, Estrepsíades, trêmulo, evoca a consulta do oráculo de Trofônios [As nuvens, 50]. Depois de uma lição de mestre de escola, em que Estrepsíades exibe claramente seus limites intelectuais, Sócrates o convida a passar para uma sessão de meditação, alongando-se sobre um catre, coberto de percevejos para a circunstância. O coro traz ao novo discípulo alguns conselhos:

Medita agora e examina a fundo, gira teu pensamento em todas as direções, recolhido sobre ti mesmo. Depressa, se cais em um impasse, salta para outra idéia de teu espírito; e que o sono doce ao coração esteja ausente de teus olhos. [As nuvens, 700-705]

Conselhos que parecem bastante técnicos, notadamente sobre o risco de pegar no sono, ao qual Sócrates está atento um pouco mais adiante [As nuvens, 732], quando vem perguntar a Estrepsíades sobre o resultado de sua meditação. A isso acrescenta uma indicação sugestiva: é preciso relaxar o espírito para que ele alce o vôo [As nuvens, 762].

A encenação e o conteúdo de paródia dos diálogos não devem iludir-nos: eliminando tudo que tem a ver com a intenção cômica, parecem desenhar-se certas características. Sócrates concebe o ensinamento como uma iniciação aos Mistérios, o conhecimento adquire-se no termo de um trabalho e de uma verdadeira ascese, que necessitam e qualidades naturais: além disso, é necessário praticar a meditação. Tudo isso permite destacar-se da terra, o que abre o caminho para o conhecimento.

Assim, abstraindo do tom e do conteúdo da paródia, Aristófanes confirma amplamente os aspectos de Sócrates que Platão evocava com a metáfora do xamanismo (em Cármides). A iniciação dos Mistérios resultava em uma visão, a epoptia, que aparece frequentemente no Sócrates de Platão, de modo que também nesse ponto Aristófanes traz uma preciosa caução ao testemunho de Platão.

Parece, pois, que o êxtase esteja no coração do pensamento de Sócrates. É nesse vôo da alma que ele pode contemplar a realidade, libertado da terra, e tenta, por uma combinação de disciplina intelectual, de ascese e de meditação, provocá-la em seus discípulos [4].

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[1] O autor, Duhot, postula exatamente que a caricatura não é completa, e que por detrás dela se revela o Sócrates "iniciado" que Platão procurou ocultar.

[2] Mais adiante o autor postula sobre a possibilidade de ter existido, e conclui que era apenas uma alusão a escola pitagórica, além de um lugar ficctício necessário ao roteiro da peça em si.

[3] Trata-se dos Mistérios de Elêusis: os sacerdotes de Elêusis ensinaram sempre a grande doutrina esotérica que lhes veio do Egito. Esses sacerdotes, porém, no decorrer do tempo, revestiram essa doutrina com o encanto de uma mitologia plástica, repleta de beleza.

[4] Dirigindo-se a Sócrates, o Alcibíades de O Banquete compara-o ao sátiro Mársias:

Mas, tu dirás, não és tocador de aulos (instrumento musical parecido com oboé). Sim, e bem mais extraordinário do que Mársias. Ele de fato servia-se de um instrumento para encantar os seres humanos com a ajuda do poder de seu sopro, e é o que se faz hoje em dia quando se tocam suas músicas no aulos. E as músicas de Mársias, se interpretadas por um bom tocador de aulos, são as únicas capazes de nos pôr em um estado de possessão, e porque são músicas divinas, capazes de fazer ver quais são os que têm necessidade dos deuses e de iniciações. Mas tu te distingues de Mársias em um só ponto: Não tens necessidade de instrumentos, e é proferindo simples palavras que produzes o mesmo efeito (...) Cada vez que a ti se ouve, ou se escuta uma pessoa que está transmitindo tuas falas (...) ficamos perturbados e possessos. (...) Quando lhe escuto meu coração bate muito mais forte do que o de Coribantes e suas palavras me tiram lágrimas. [O Banquete, 215 b-e]

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Crédito da foto: Wikipedia (tríade eleusiana)

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13.5.09

Alguém constrói a Deus na penumbra

Falando de Espinosa, encontrei (e traduzi) este lindo poema em sua homenagem, do grandioso mestre das palavras - Jorge Luis Borges:

Benedito Espinosa

Bruma de Ouro, o Ocidente ilumina
A janela. O assíduo manuscrito
Aguarda, já carregado de infinito.
Alguém constrói a Deus na penumbra.
Um homem engendra a Deus. É um judeu
De olhos tristes e pele pálida;
O tempo o leva como leva o rio
Uma folha que desce pelas águas.
Não importa. O feiticeiro insiste em esculpir
A Deus com geometria delicada;
De sua enfermidade, de seu nada,
Segue erigindo a Deus com a palavra.
O amor mais pródigo lhe foi outorgado,
O amor que não espera ser amado.

Jorge Luis Borges (tradução de Rafael Arrais)


Baruch Spinoza

Bruma de Oro, el Occidente alumbra
La ventana. El asiduo manuscrito
Aguarda, ya cargado de infinito.
Alguien construye a Dios em la penumbra.
Um homem engendra a Dios. Es un judio
De tristes ojos y de piel cetrina;
Lo lleva el tiempo como lleva el rio
Una hoja en el agua que declina.
No importa. El hechichero insiste y labra
A Dios con geometria delicada;
Desde su enfermedad, desde su nada,
Sigue erigiendo a Dios com la palabra.
El más pródigo amor le fue ortogado,
El amor que no espera ser amado.

Jorge Luis Borges

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Crédito da foto: roel1943

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Atenas, Esparta e o humanismo

Texto de Jean-joël Duhot no "Sócrates ou o despertar da consciência" (Edições Loyola)

Ao contrário de Atenas, Esparta não concebeu o projeto de construir um vasto império [1]. As molas da potência militar das duas cidades são diferentes. Atenas tem necessidade de dinheiro para construir frotas e pagar os marinheiros, os pobres apreciam esse soldo e os benefícios da guerra, e esse dinheiro exige o imperialismo que é a sua fonte. O dinheiro e o material encontram-se no coração desse encadeamento. Diante disso, Esparta conta essencialmente com os homens: forma guerreiros e apóia-se em seu valor. O dinheiro de um lado, e do outro o valor do homem. O Sócrates do Górgias critica assim o que está no centro do sistema, o Pireu e os Longos Muros que o ligam à cidade, conjunto que abre a cidade sobre o mar e seu império, ao mesmo tempo que a fecha para o acesso terrestre: não é sobre as fortificações materiais que deve repousar a potência verdadeira, mas sobre o homem. Além disso, enquanto a riqueza de Atenas é fundada também sobre o comércio marítimo, por sua vez possibilitado pelo domínio do mar e das costas, Esparta ignora a moeda, recusa o luxo e o comércio inútil e vive em autarquia.

Paradoxo no limite do inacreditável: é graças a uma reflexão sobre Esparta que se afirma a preeminência do homem. O modelo espartano ensina que os valores materiais são engodos, e que o ínico valor verdadeiro está no homem. A cidade é uma verdadeira escola, que se encarrega da criança muito cedo. O paradoxo está em que para os espartanos o homem é essencialmente o guerreiro, enquanto para Platão e, sem dúvida, para Sócrates o modelo espartano é transposto: a república ideal está centrada na formação do homem, concebido não mais como guerreiro, mas como filósofo (veremos aliás que Sócrates soube ser ambos) [2]. Essa cidade, que nos repugna por seu desprezo pelo homem, máquina desumanizante que choca nosso princípios, ocupa assim um lugar insuspeitável nas fontes do humanismo.

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[1] Mais adiante o autor irá afirmar que "Democracia, imperialismo e riqueza estão estritamente ligados em Atenas" - vale lembrar que a democracia ateniense é muito distinta da democracia atual; Ainda citando o autor: "É preciso dar-se conta que o sistema é tão perigoso que nenhuma democracia moderna se inspira nele: não são os cidadãos que tomam as decisões políticas, mas seus eleitos, que podem estudar os dossiês de maneira aprofundada. Transposta para época moderna, a democracia ateniense seria um governo por sondagens de opinião aquecida por uma imprensa arrebatada".

[2] Apesar de Sócrates ter sido militar, tenho sérias dúvidas acerca das ideologias políticas expostas em A Repúlica serem de fato originárias do próprio Sócrates, e não de Platão. Não me parece que Sócrates tinha qualquer vocação ou compromisso para com a política em si, tanto que usualmente demonstra até certo desprezo pelos políticos de sua época.

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Crédito da foto: Wikipedia (hoplita)

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7.5.09

Crear e criar

Retirado do livro: "Orientando para a auto-realização" de Huberto Rohden.

A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior, porque deturpa o pensamento.

Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a transição de uma existência para outra existência.

O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado. Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.

A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada se aniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa mas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.

Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquer convenções acadêmicas.

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6.5.09

Fé: pistia e fides

Trecho de um artigo do site Terra Espiritual baseado em interpretações do termo "fé".

"Fé tem duas origens, a primeira deriva do termo grego pistia, que quer dizer acreditar. Este é o significado mais usual, entretanto ainda incompleto, pois não basta crer, é necessário também compreender a razão pela qual se crê. Esta é a chamada fé raciocinada. Antes de ser uma contradição, como podem pensar alguns, o uso da razão solidifica a fé, pois ao analisarmos o objeto de nossa fé, compreendo-o e aceitando-o, estamos criando alicerces que tornarão nossa fé inquebrantável, fortalecendo-nos frente aos desafios mais árduos. Por outro lado, a fé sem a razão é frágil, está sujeita a ser desfeita e pode, frente ao menor abalo, desmoronar. Ou ainda pior, esta fé irracional pode nos conduzir ao fanatismo, a negação de tudo que seja contra o nosso ponto de vista. Com esta postura, nos arriscamos a cometer grandes desatinos, visto que, com nossos olhos fechado à razão, poderemos esta defendendo grandes mentiras, e negando grande e redentoras verdades.

A outra origem da palavra fé vem do latim, fides, que também possui o sentido de acreditar, mas agrega a este, o conceito de fidelidade, ou seja, é necessário que sejamos fieis ao objeto de nossa fé, falando em fé religiosa, estamos falando em Deus, portanto é preciso que sejamos fieis a Deus e isto só é possível seguindo os seus preceitos: 'Amar a Deus sobre todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos.' Tomando por base esta compreensão percebemos que não basta ficarmos recolhidos, rezando, estudando os textos sagrados ou contemplando os céus. Praticando uma fé passiva. Lembrando as palavras do apóstolo Tiago: 'Que proveito há, meus irmãos se alguém disser que tem fé e não tiver obras? Porventura essa fé pode salvá-lo? Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma.' (Tiago, 2:14 a 17)."

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