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26.5.10

Navegar é preciso

Poema de Fernando Pessoa

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso."

Quero para mim o espírito desta frase, transformada
A forma para a casar com o que eu sou: Viver não
É necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, ainda que para isso
Tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso
Tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho
Na essência anímica do meu sangue o propósito
Impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
Para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.


***

Comentário
Além de interpretar seus diversos heterônimos, Pessoa era também mestre em interpretar palavras e simbolismos, de modo que muitas de suas poesias têm vários graus de interpretação – geralmente (mas não necessariamente) um mais profundo do que o outro, como nesse caso.

Esta é a origem da frase citada no poema: "Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra (cf. Plutarco, in Vida de Pompeu).

A primeira interpretação que muitos chegam, principalmente em focando somente a frase e não o contexto do poema, é a de que navegar, explorar o mundo ou até mesmo ser um guerreiro disciplinado é mais importante do que viver uma vida rotineira, sedentária e monótona.

A segunda interpretação envolve um olhar das entrelinhas da etimologia do jogo de palavras nesta frase. Nesse caso, navegar é preciso no sentido de ser uma atividade, uma ciência precisa; Já viver não é preciso no sentido de que a vida envolve não somente o lado racional, como também o emocional e o espiritual – viver não é nem nunca será, portanto, uma atividade precisa. Viver é deliciosamente ou terrivelmente impreciso, dependendo dos olhos de quem vê.

A interpretação derradeira e mais profunda (na minha opinião é claro) no entanto envolve parte do conceito das interpretações anteriores, com algo a mais. Pessoa quis dizer que para engrandecer sua pátria e colaborar com a evolução da humanidade, não lhe é necessário viver a vida egoisticamente como se esta fosse somente sua, e sim dedicar a vida – ou “perdê-la” – em prol da humanidade como um todo (sua pátria é o mundo e não Portugal).

Qualquer semelhança com alguns ensinamentos de Jesus não é mera coincidência. Mas além disso podemos ir um pouco mais além: a vida continua sendo imprecisa, mas navegar pelo oceano do mundo é mais necessário do que viver ancorado a sua aldeia (e dogma) local. O misticismo de sua Raça (com “R” maiúsculo) não é o misticismo dos portugueses ou dos homens de “raça branca” (na verdade raça não existe, apenas a espécie homo sapiens), mas o misticismo dos grandes sábios – esses que, como desejava Pessoa um dia o ser, viveram não para si, mas para toda a sua Raça.

***

» Veja também Navegar é preciso, uma coletânea em e-book dos textos místicos de Fernando Pessoa

Crédito da foto: jazz dalek

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18.5.10

Soberania

Texto de Manoel de Barros em "Memórias Inventadas - A Terceira Infância" (Editora Planeta), Tomo X

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo do vento escorregava muito e eu não consegui pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado e disse que eu tivera um vareio da imaginação. Mas que esses vareios acabariam com os estudos.

E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.

E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria das idéias e da razão pura.

Especulei filósofos e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande saber. Achei que os eruditos nas suas altas abstrações se esqueciam das coisas simples da terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo — o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:

A imaginação é mais importante do que o saber.

Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu olho começou a ver de novo as pobres coisas do chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as próprias asas. E vi que o homem não tem soberania nem pra ser um bentevi.

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14.5.10

O mito da caverna comentado, parte 2

Texto de Platão em “A República”. Os comentários ao final são meus.

continuando da parte 1

Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

Glauco - Com toda a certeza.

Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?

Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz [5].

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.

Glauco - Necessariamente.

Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna [6].

Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.

Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia? [7]

Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.

Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?

Glauco - Por certo que sim.

Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? [8] E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?

Glauco - Sem nenhuma dúvida.

Sócrates - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível [9], não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Deus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.

Glauco - Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la [10].

(Platão, A República, v. II p. 105 a 109)

***

[5] Na metáfora Sócrates discorre sobre o processo de evolução do conhecimento, e como ele necessita ocorrer passo a passo, gradativamente.

[6] Buscar o que sustenta a Criação, ou “porque existe algo e não nada”, é o estágio primordial da evolução do conhecimento – onde ela também pode ser confundida, não sem razão, com uma evolução espiritual. Não importa o que dizem os materialistas atuais, foi buscando a Deus que os grandes cientistas comporam suas equações e os grandes filósofos pautaram sua lógica. Qual Deus buscavam eles, entretanto, é algo próprio de cada um deles...

[7] Lembremos que não se trata de mudar de uma realidade para outra, e sim de retroceder a uma vida de ignorância. Ainda que quisesse, entretanto, já não mais conseguiria. Quem vê a luz uma vez e a compreende, jamais voltará a enxergar sombras.

[8] Aquele que compreende a essência das coisas – que sai da caverna – se torna um ser modificado. O que antes lhe interessava na vida dentro da caverna, não lhe interessa mais... Dessa forma, mesmo seus familiares e amigos mais próximos vão estranhar seu comportamento.
É isso precisamente o que ocorre com todos aqueles que “se iniciam” nos estudos mais profundos em filosofia, religião ou ciência. Um físico não conseguirá mais ignorar o baile de partículas do Cosmos, um budista não conseguirá mais ignorar o que compreende em suas meditações, e um filósofo não conseguirá mais viver sem o eterno exercício dos questionamentos existenciais... E todos esses serão agora “estranhos no ninho”, “excêntricos”, “loucos”, “nerds”, etc.
Isso não quer dizer que todo louco seja sábio. Muitas vezes, é apenas louco mesmo. Eis que os sábios são ainda muito poucos, e esta é a razão do mundo ser como é. Tolstói já dizia: “Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo”.

[9] O “mundo inteligível” não é um céu localizado fisicamente em algum lugar. Nem a “subida da alma” é uma elevação a esse céu mítico. O céu está na consciência de cada um, assim como a ascenção da alma corresponde a ascenção do conhecimento de si mesmo e da essência das coisas. Repito: não é o mundo que muda, somos nós!

[10] Platão nunca afirmou que compreendeu totalmente Sócrates. Eu não afirmo que compreendi totalmente este mito. Da mesma forma, Krishna, Lao Tsé, Buda, Jesus e tantos outros sábios jamais foram compreendidos totalmente, exceto pelos seres de igual estatura espiritual – muito provavelmente não estamos ainda entre eles.

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Crédito da foto: Diana Oliveros

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O mito da caverna comentado, parte 1

Texto de Platão em “A República”. Os comentários ao final são meus.

Trata-se de um diálogo metafórico onde as falas na primeira pessoa são de Sócrates, e seus interlocutores, Glauco e Adimanto, são os irmãos mais novos de Platão. No diálogo, é dada ênfase ao processo de conhecimento, mostrando a visão de mundo do ignorante, que vive de senso comum, e do filósofo, na sua eterna busca da verdade [1].

Sócrates - Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres [2] armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Glauco - Estou vendo.

Sócrates - Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.

Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

Sócrates - Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?

Glauco - Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?

Sócrates - E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

Glauco - É bem possível.

Sócrates - E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?

Glauco - Sim, por Zeus!

Sócrates - Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados? [3]

Glauco - Assim terá de ser.

Sócrates - Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora? [4]

Glauco - Muito mais verdadeiras.

» continua na parte 2

***

[1] Essa introdução ao texto foi transcrita da Wikipedia.

[2] Bonecos de pano ou marionetes. A metáfora fala sobre um teatro de bonecos e sobre os prisioneiros da caverna que crêem piamente que tal teatro corresponde a realidade.

[3] Há aqui um conceito importantíssimo para a compreensão do mito – algo que normalmente escapa as análises superficiais. Decerto vocês já ouviram críticos de Platão afirmando que sua filosofia nos deixa alienados da realidade física, nos convencendo de que existe uma mítica “realidade superior”, normalmente chamada de “mundo das idéias”.
Dizem esses que foi “culpa de Platão” toda essa alienação do mundo físico que encontrou ressonância no cristianismo... Ora, eu não vou nem questionar aqui o cristianismo, mas me parece que aqueles que acreditam que Platão nos aliena do mundo físico estão bastante equivocados em sua interpretação.
Vamos lembrar que Sócrates, o grande sábio que inspirou quase todos os textos de Platão, dava pouca importância à sociedade hipócrita de sua época (não tanto diferente da de hoje), mas não ao mundo físico e a natureza em si. Tanto que participava de rituais em celebração as estações e a época de colheita. Freqüentemente temos trechos de livros de Platão onde Sócrates conversa com seus discípulos em agradáveis passeios pela área rural. Não me parece, honestamente, que Sócrates era um alienado da realidade.
Repare que o mito não fala em duas realidades opostas, e sim em um plano de observação onde as coisas são vistas com clareza, e um outro plano onde as mesmas coisas são vistas sem tanta clareza (onde vemos apenas sombras das coisas em si). Ou seja: é a mesma realidade, e são as mesmas coisas, o que muda é tão somente nossa visão – consciência, conhecimento, compreensão – delas.
Sócrates não nos pedia para ignorar o mundo físico, mas sim para não considerar apenas a aparência superficial das coisas, e nos esforçar para buscar uma compreensão mais elaborada de sua essência. Dessa forma, assim como Jesus, Sócrates viveu sim neste mundo, embora soubesse que sua essência não pertencia a ele.
Eu particularmente acho que Nikos Kazantzakis (ateu) resumiu muito bem a questão em um diálogo de Jesus de “A Última Tentação de Cristo”: “Eu vi o mundo dos homens, e vi também o mundo espiritual. Me perdoa Pai, pois não sei qual é o mais bonito”.
O grande sábio carrega seu céu e seu “mundo das idéias” consigo, de modo que o mundo é o mesmo, mas sua visão dele é muito mais profunda e maravilhosa.

[4] Aí está o principal motivo porque a evolução do conhecimento deve se realizar passo a passo. De nada adiantaria transportar um selvagem canibal para uma academia de física – não se produziriam grandes cientistas na tentativa. Porque para o selvagem a academia seria um inferno, ainda que não tivesse mais que caçar seus alimentos. Na natureza as coisas seguem o seu próprio ritmo, e é importante que respeitemos o tempo de cada um.
Não se trata de “jogar pérolas aos porcos”, mas sim de ensinar os porcos a apreciar a casca da ostra, para que um dia possam apreciar também sua pérola... Passo a passo, mas sempre à frente.

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Crédito da foto: Zep10

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13.5.10

Processo

Texto de Marcelo Ferrari, livre-pensador.

De que adianta lutar contra uma vida que começa sem querer e acaba de repente?

O fim de toda busca humana é satisfazer o desejo. Só que o desejo não tem fim e o ser humano tem.

A lagarta não precisa buscar a borboleta, basta aceitá-la.

Num caminho eterno, não importa o tamanho do passo, importa o sentido.

Trecho de "Pra Boi Acordar".

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3.5.10

Astrologia genética

Texto de Eva Jablonka e Marion J. Lamb em "Evolução em quatro dimensões" (editora Cia. das Letras) – Trechos das pgs.77 a 81. Tradução de Claudio Angelo. Os comentários e notas ao final são meus.

Infelizmente, o entendimento de muita gente da relação entre genes e caracteres é baseado nesse minúsculo conjunto de doenças monogênicas [1]. A visão popular é a de que os genes determinam, individual e diretamente, a aparência de uma pessoa e o seu comportamento. Nós temos genes para isso e aquilo (a cor dos nossos olhos, o formato do nosso nariz, o quanto somos tímidos, a nossa orientação sexual etc.), e a pessoa que você vê é em grande parte a soma dos efeitos dos genes dele ou dela mais um pequeno verniz social e educacional. O indivíduo é visto como pouco mais do que um robô, guiado por seus genes [2].

Obviamente, tal concepção de como os genes agem abastece a crença de que a biotecnologia dará enormes poderes aos geneticistas. As pessoas acreditam (e são incentivadas pelos cientistas a acreditar) que num futuro não muito distante os geneticistas conseguirão descobrir tudo a respeito delas apenas seqüenciando o seu DNA [3]. Não apenas os geneticistas poderão traduzir o “livro da vida” de cada pessoa como também serão capazes até mesmo de editá-lo, cortando os erros se necessário.

[...] A convicção de que o caráter de uma pessoa está “escrito nos genes” foi uma das razões para a reação histérica do público quando a clonagem produziu a ovelha Dolly. Aquela ovelhinha invocou uma estranha mistura de sentimentos, pois por um lado parecia oferecer a esperança da imortalidade pessoal [4]; por outro, porém, dava a impressão de que a nossa identidade individual única estava sob risco. Ambas as noções derivam da crença de que a relação causal entre genes e caracteres é simples e previsível – ou seja, que conjuntos idênticos de genes sempre produzirão fenótipos [5] idênticos. Essa convicção, no entanto, é muito enganosa e potencialmente prejudicial.

Nós não podemos garantir que no futuro não haja institutos de genética que finjam ler o futuro de um embrião no seu DNA. Se houver demanda, com certeza haverá pessoas dispostas a estabelecer esses institutos. No entanto, poucos geneticistas profissionais (ao menos em seus momentos mais lúcidos) acreditam em tal astrologia genética [6]. Isso apesar de incessantes alegações nos meios de comunicação de que o gene para a homossexualidade, o espírito de aventura, a timidez, a religiosidade ou de alguma outra característica mental ou espiritual foi isolado. Os geneticistas são em geral muito mais cautelosos em relação ao seu trabalho. Se você ler artigos científicos genuínos em vez de reportagens nos jornais sobre esses genes maravilhosos, vai perceber que na verdade o que se descobriu foi uma correlação entre a presença de uma determinada seqüência de DNA e a presença do caractere. De forma geral não fica claro que a seqüência de DNA tem uma relação causal com o caractere, e quase sempre fica bem claro que “o gene” não é condição necessária nem suficiente para o desenvolvimento do caractere.

[...] Estudar a genética humana não é fácil, pois os pesquisadores não podem controlar com quem as pessoas devem se casar e como elas devem viver [7]. Sempre há muitos fatores incontroláveis que poderiam estar influenciando aquilo que eles descobrem. Mesmo quando um estudo mostra que existe uma correlação entre a presença de um alelo [8] em particular com algum aspecto do comportamento humano, nós temos de ter cuidado em aceitar que essa relação seja causal. Por exemplo, precisamos saber se a associação observada é encontrada sob todas as condições e em todas as populações ou apenas na amostra estudada pelo cientista. Uma das razões pelas quais muitas celebradas descobertas dos “genes para” várias coisas terminaram em um silêncio constrangedor é que, quando começaram a seguir a descoberta original, os cientistas concluíram que a correlação não existia em outras populações. É muito raro que a associação entre um gene e um traço seja algo simples [9].

***

Comentário geral
Aqueles que costumam ler meus artigos a algum tempo devem lembrar que abordei a questão do problema da evolução cognitiva em artigos como “A evolução desconhecida” e no mais aprofundado “Onde estarão os memes?”; Nesses artigos questionei a solução encontrada por teorias da biologia (os memes de Dawkins) e da psicologia (o Inconsciente Coletivo de Jung) para a questão da transmissão de características não físicas entre as gerações, e tentei demonstrar como a hipótese da reencarnação é ao mesmo tempo mais lógica e mais abrangente para a explicação do problema.

Pois bem, neste excelente livro (talvez revolucionário, tento pelas questões levantadas quanto por ser um dos poucos livros de grande alcance na divulgação científica atual escrito por mulheres – ver também, por exemplo, a excelente crítica recebida na Scientific American de Abril de 2010 [ano 8, #95]) as autoras trazem a primeira teoria inteiramente científica (leia-se, “ciência oficial” e/ou “não espiritualista”) que explica o problema levantado.

Sua teoria identifica quatro “dimensões” – quatro sistemas de herança que desempenham um papel na evolução: a genética, a epigenética (ou transmissão de características celulares, alheias ao DNA), a comportamental e a simbólica (transmissão através da linguagem e de outras formas de comunicação). Elas argumentam que esses sistemas são capazes de fornecer variações sobre as quais a seleção natural pode agir.

Não significa que explique alguns fenômenos como o das crianças que se lembram de vidas passadas, mas ao menos trata-se de uma teoria muito mais sólida, plausível e abrangente do que as propostas por Dawkins, Jung, pelos psicólogos evolutivos e ainda muitos outros.

O importante é que elas estão, verdadeiramente, caminhando adiante – e não estagnadas em um “genecentrismo” que nada mais é do que um antigo dogma da biologia.

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[1] Doenças de origem em componentes genéticos que se resumem a alterações de um único gene. São menos de 2% do total de doenças genéticas mapeadas – a maioria envolve a interação complexa de inúmeros genes e muitas vezes do ambiente em si.

[2] Essa é precisamente a visão do determinismo genético. Uma visão que vem se provando cada vez mais falha com o passar dos anos, e da divulgação de estudos mais honestos e corajosos sobre a evolução das espécies – em particular do homo sapiens.

[3] É o sonho neo-modernista do “autoconhecimento fast food”. As pessoas estão tão distantes delas próprias que crêem piamente que poderão “se descobrir” pelo seu DNA. As pessoas ainda vão sofrer muito, sem idéia do que fazer com seu sofrimento, e a indústria do “antidepressivo tarja preta” agradece...

[4] Como se a imortalidade (física) fosse resolver nossos problemas... Mas isso já é uma outra história.

[5] O fenótipo são as características observáveis ou caracteres de um organismo como, por exemplo: morfologia, desenvolvimento, propriedades bioquímicas ou fisiológicas e comportamento. O fenótipo resulta da expressão dos genes do organismo, da influência de fatores ambientais e da possível interação entre os dois.

[6] Seria melhor recorrer à astrologia tradicional, que tem muito mais a ver com uma “previsão” das potencialidades e da personalidade do bebê, do que o que vem codificado em seu DNA – e trata apenas de características físicas. Mas não quero aqui discutir sobre a astrologia em si, deixo isso para meu amigo Marcelo Del Debbio, que a conhece bem mais do que eu.

[7] Muitos pesquisadores investigam certas regiões da Índia onde a tradição dos “casamentos familiares” entre primos é seguida a milênios. Se existe alguma “raça pura” no sentido de ter seus genes restritos a um pequeníssimo grupo de pessoas a incontáveis gerações, ela está na Índia – e é bem mais fácil “isolar genes” entre eles.

[8] Um alelo é cada uma das várias formas alternativas do mesmo gene. Por exemplo, o gene que determina a cor da flor em várias espécies de plantas - um único gene controla a cor das pétalas, podendo haver diferentes versões desse mesmo gene. Uma dessas versões pode resultar em pétalas vermelhas, enquanto outra versão originará pétalas brancas.

[9] Não somos máquinas nem robôs, não adianta buscar “manuais de código fonte” para nos decifrar. Esse tipo de conhecimento será sempre um conhecimento “pela metade”, ou até bem menos da metade. Pretender que seres que interpretam informação se assemelhem a máquinas que simplesmente a computam é algo tão ou mais fantasioso quanto crer na literalidade bíblica.

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Crédito da imagem: Autism News

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13.4.10

Mitos, ciência e religiosidade

Texto de Marcelo Gleiser no Caderno Mais! da Folha de São Paulo (11/04/10). As notas ao final são minhas.

Começo hoje com a definição de mito dada por Joseph Campbell, uma das grandes autoridades mundiais em mitologia: "Mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre" [1]. Sabemos que mitos são narrativas criadas para explicar algo, para justificar alguma coisa. Na prática, não importa se o mito é verdadeiro ou falso; o que importa é sua eficiência.

Por exemplo, o mito da supremacia ariana propagado por Hitler teve consequências trágicas para milhões de judeus, ciganos e outros. O mito que funciona tem alto poder de sedução, apelando para medos e fraquezas, oferecendo soluções, prometendo desenlaces alternativos aos dramas que nos afligem diariamente.

A fé num determinado mito reflete a paixão com que a pessoa se apega a ele. No Rio, quem acredita em Nossa Senhora de Fátima sobe ajoelhado centenas de degraus em direção à igreja da santa e chega ao topo com os joelhos sangrando, mas com um sorriso estampado no rosto. As peregrinações religiosas movimentam bilhões de pessoas por todo o mundo. É tolo desprezar essa força com o sarcasmo do cético. Querendo trazer a ciência para um número maior de pessoas, eu me questiono muito sobre isso.

Como escrevi antes neste espaço, os que creem veem o avanço científico com uma ambiguidade surpreendente: de um lado, condenam a ciência como sendo materialista, cética e destruidora da fé das pessoas. "Ah, esses cientistas são uns chatos, não acreditam em Deus, duendes, ETs, nada!"

De outro, tomam antibióticos, voam em aviões, usam seus celulares e GPSs e assistem às suas TVs digitais. Existe uma descontinuidade gritante entre os usos da ciência e de suas aplicações tecnológicas e a percepção de suas implicações culturais e mesmo religiosas. Como resolver esse dilema?

A solução não é simples. Decretar guerra à fé, como andam fazendo alguns ateus mais radicais, como Richard Dawkin, não me parece uma estratégia viável. Pelo contrário, vejo essa polarização como um péssimo instrumento diplomático. Como Dawkins corretamente afirmou, os extremistas religiosos nunca mudarão de opinião, enquanto um cientista, diante de evidência convincente, é forçado eticamente a fazê-lo. Talvez essa seja a distinção mais essencial entre ciência e religião: o ver para crer da ciência versus o crer para ver da religião [2].

Aplicando esse critério à existência de entidades sobrenaturais, fica claro que o ateísmo é radical demais; melhor optar pelo agnosticismo, que duvida, mas não nega categoricamente o que não sabe. Carl Sagan famosamente disse que a ausência de evidência não é evidência de ausência. Mesmo que estivesse se referindo à existência de ETs inteligentes, podemos usar o mesmo raciocínio para a existência de divindades: não vejo evidência delas, mas não posso descartar sua existência por completo, por mais que duvide dela. Essa coexistência do existir e do não-existir é incômoda tanto para os céticos quanto para os crentes. Mas talvez seja inevitável.

A ciência caminha por meio do acúmulo de observações e provas concretas, replicáveis por grupos diferentes. A experiência religiosa é individual e subjetiva, mesmo que, às vezes, seja induzida em rituais públicos. Como escreveu o psicólogo americano William James, a verdadeira experiência religiosa é espiritual e não depende de dogmas. Apesar de o natural e o sobrenatural serem irreconciliáveis, é possível ser uma pessoa espiritualizada e cética [3].

Einstein dizia que a busca pelo conhecimento científico é, em essência, religiosa. Essa religião é bem diferente da dos ortodoxos, mas nos remete ao mesmo lugar, o cosmo de onde viemos, seja lá qual o nome que lhe damos.

***

[1] Acredito que Campbell quis dizer que o mito existe fora do tempo, em essência, e porisso existe sempre. É a essência de verdade dos grandes mitos que sobrevive (sempre), independente do formato e da cultura de onde se originaram. Não sei se o Gleiser entendeu dessa forma...

[2] Grande parte das pessoas parece não compreender direito nem o que é ciência nem o que é religião. Ciência é o conhecimento da realidade detectável por sentidos ou instrumentos, não sendo nem materialista nem espiritualista. Religião é a religação, a busca pela compreensão de Deus ou do Cosmos, não sendo ela em si presa a nenhuma igreja ou doutrina, pois o caminho é livre, é o caminho de cada um... Não concordo com o "ver para crer" nem com o "crer para ver" - seria melhor dizer: a compreensão do Mecanismo da natureza (em vendo, se compreende) e a compreensão do Sentido da natureza (em compreendendo, se vê). Ou como dizia Sto. Agostinho: crer para compreender, compreender para crer.

[3] Esta também era a opnião de Carl Sagan em “O mundo assombrado pelos demônios”:

“Espírito” vem da palavra latina que significa “respirar”. O que respiramos é o ar, que é certamente matéria, por mais fina que seja. Apesar do uso em contrário, não há na palavra “espiritual” nenhuma inferência necessária de que estamos falando de algo que não seja matéria (inclusive aquela de que é feito o cérebro), ou de algo que esteja fora do domínio da ciência. De vez em quando, sinto-me livre para empregar a palavra. A ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de júbilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um desserviço a ambas.

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Crédito da foto: Site oficial de Marcelo Gleiser

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7.4.10

O portador da luz

Texto retirado da Wikipedia, no verbete "Lúcifer".

Lúcifer (em hebraico, heilel ben-shachar, הילל בן שחר; em grego na Septuaginta, heosphoros) representa a estrela da manhã (a estrela matutina), a estrela D'Alva, o planeta Vênus, mas também foi o nome dado ao anjo caído, da ordem dos Querubins, como descrito no texto Bíblico do Livro de Ezequiel, no capítulo 28. Nos dias de hoje, numa nova interpretação da palavra, o chamam de Diabo (caluniador, acusador), ou Satã (cuja origem é o hebraico Shai'tan, que significa simplesmente adversário). Atualmente discute-se a probabilidade de Lúcifer ter sido um rei assírio da Babilônia.

Significado/Origem
A palavra Lúcifer significa "o portador da luz" ou "o portador do archote" (a palavra tem sua origem no latim, lux ou lucis com o significado de "luz"; ferre com o significado de "carregar"). Ou seja, de acordo com a origem, seu significado é "aquele que carrega a luz". O nome Lúcifer ocorre uma vez nas Escrituras Sagradas e apenas em algumas Traduções da Bíblia em língua portuguesa, geralmente usado na "Vulgata" para referir a "Estrela da Manhã", ou um "filho do sol". Por exemplo, a tradução de Figueiredo verte Isaías 14:12: "Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante?"

A designação descritiva de Isaias 14:4, 12, provém duma raiz que significa "brilhar" (Jó 29:3), e aplicava-se a uma metáfora aplicada aos excessos de um "rei de Babilônia", não a uma entidade em si, como afirma o pesquisador iconográfico Luther ("O Diabo: máscara sem rosto". Cia. das Letras, 1998), "Isaías não estava falando do Diabo.Usando imagens possivelmente retiradas de um antigo mito cananeu, Isaías referia-se aos excessos de um ambicioso rei babilônico"

A expressão hebraica (heilel ben-shahar) é traduzida como "o que brilha", nas versões NM, MC, So. A tradução "Lúcifer" (portador de luz), (Fi, BMD) deriva da Vulgata latina de Jerónimo e isso explica a ocorrência desse termo em diversas versões da Bíblia. Mas alguns argumentam que Lúcifer seja Satanás e por isso, também foi o nome dado ao anjo caído, da ordem dos Querubins (Ez 28:14). Assim, muitos nos dias de hoje, numa nova interpretação da palavra, o chamam de Diabo (caluniador, acusador), ou Satã (cuja origem é o hebraico Shai'tan, Adversário).

Hebraísmo/Judaísmo
Os judeus o chamam de heilel ben-shachar, onde heilel significa Vênus e ben-shachar significa "o luminoso, filho da manhã". Alguns judeus interpretam Lúcifer como uma referência bíblica a um rei babilônico. Mais tarde a tradição judaica elaborou a queda dos anjos sob a liderança de Samhazai, vindo daí a mesma tradição dos padres da Igreja.

Conceito da Igreja Católica
Segundo a igreja católica, Lúcifer era o mais forte e o mais belo de todos os Querubins. Então, Deus lhe deu uma posição de destaque entre todos os seus auxiliares. Segundo a mesma, ele se tornou orgulhoso de seu poder, que não aceitava servir a uma criação de Deus, "O Homem", e revoltou-se contra o Altíssimo. O Arcanjo Miguel liderou as hostes de Deus na luta contra Lúcifer e suas legiões de anjos corrompidos; já os anjos leais a Deus o derrotaram e o expulsaram do céu, juntamente com seus seguidores. Desde então, o mundo vive esta guerra eterna entre Deus e o Diabo; de seu lado Lúcifer e suas legiões tentam corromper a mais magnífica das criaturas mortais feitas por Deus, o homem; do outro lado Deus, os anjos, arcanjos, querubins e santos travam batalhas diárias contra as forças do Mal (personificado em Lúcifer). Que maior vitória obteria o Anticristo frente a Deus do que corromper e condenar as almas dos humanos aos infernos, sua morada verdadeira?

A aparência de Lúcifer pode variar; acredita-se que ele (chamado agora de Diabo), pode assumir a forma que desejar, podendo passar-se por qualquer pessoa. Seu aspecto físico criado pela Igreja em seus primeiros séculos (e posteriormente herdado pelas várias religiões cristãs) fora copiado de várias entidades das mitologias e religiões de diferentes povos antigos (não exatamente ligadas a maldade); Seu reino, os Infernos, sofreu influência do Tártaro da mitologia grega, morada de Hades, local para onde iam as almas dos mortos, cuja porta de entrada era guardada por Cérbero, o Cão de três cabeças; seus chifres eram de , uma entidade grega protetora da natureza; sua fama de representar uma força eternamente em conflito com Deus veio do Zoroastrismo. Ainda encontramos coincidências com as crenças dos antigos Egipcios, quando se acreditava que o Deus Anúbis (o Chacal) carregaria a alma dos mortos cujo coração ao ser pesado numa balança, seria mais pesado que uma pluma.

Durante a "baixa Idade Média", entretanto, que o "Anjo Decaído" ganhou a hedionda aparência com a qual o conhecemos hoje; asas de morcego, pés de bode, olhos de fogo, chifres enormes na cabeça, olhar aterrorizante, etc. A idade das trevas fora um momento fértil para a propagação nas crenças nas ações de forças demoníacas agindo sobre o mundo. Os milhões de mortos nas epidemias de peste negra vieram, juntamente com a ocorrência de guerras sangrentas, de que "o Anticristo estaria atuando no mundo". Foi aí que Lúcifer passou a representar a personificação do mal da forma mais intensa e poderosa que conhecemos hoje. Surge a crença de que para cada ser humano vivo na Terra, Lúcifer criou um demônio particular, encarregado de corromper aquele indivíduo; já Deus, não poderia deixar por menos, e criou para cada ser humano um "Anjo da Guarda" ao qual incumbia da missão de proteger e zelar pela alma daquela pessoa.

Interessante observar que o próprio Jesus Cristo é a estrela da manhã que ilumina até o fim dos tempos toda escuridão (trevas), como em Apocalipse 22:16 onde está escrito: "Eu, Jesus, enviei o meu anjo. Ele atestou para vocês todas essas coisas a respeito das Igrejas. Eu sou a raiz e o descendente de Davi, sou a estrela radiosa da manhã.". Assim como em II Pedro 1,19 que diz: "E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumina em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela D'alva apareça em vossos corações.".

Apesar de Satanás ser originalmente conhecido como Lúcifer, perdeu seu posto ao desejar subir a alturas acima de Deus e de Seu Ungido (Jesus Cristo).

Outras opiniões
Muitos exegetas afirmam que não existe fundamentação bíblica para identificar Lúcifer como o Satã tentador. Esta confusão com Satã foi ocasionada por uma má interpretação de Isaías 14:12-15: "Como caíste desde o céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações! E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo. E contudo levado serás ao (Seol) inferno, ao mais profundo do abismo".

Imagem de Lúcifer na catedral Saint-Paul de Liège, na Bélgica.Esta interpretação é geralmente atribuida a São Jerônimo, que ao traduzir a Vulgata atribuiu Lúcifer ao anjo caído, a serpente tentadora das religiões antigas, embora antes dele esta interpretação não existisse. Oficialmente a Igreja não atribui a Lúcifer o papel de Diabo, mas apenas o estado de "caído" (Petavius, De Angelis, III, iii, 4).

Por exemplo, a enciclopédia Estudo Perspicaz das Escrituras, vol.1, pág, 379, explica que "o termo "brilhante", ou "Lúcifer", é encontrado na "expressão proverbial contra o rei de Babilônia" que Isaías mandou profeticamente que os israelitas proferissem. De modo que faz parte duma expressão dirigida à dinastia babilônica.

Que o termo "brilhante" é usado para descrever um homem e não uma criatura espiritual é notado adicionalmente na declaração: "No Seol serás precipitado." Seol é a sepultura comum da humanidade — não um lugar ocupado por Satanás, o Diabo. Além disso, os que vêem Lúcifer levado a essa condição perguntam: "É este o homem que agitava a terra?" É evidente que "Lúcifer" se refere a um humano, não a uma criatura espiritual. — Isaías 14:4, 15, 16."

Por que se dá tal ilustre descrição à dinastia babilônica? Temos de dar-nos conta de que o rei de Babilônia seria chamado de brilhante apenas depois da sua queda e de forma escarnecedora. (Isaías 14:3). O orgulho egoísta induziu os reis de Babilônia a se elevarem acima dos em sua volta. A arrogância da dinastia era tão grande, que ela é retratada fazendo a seguinte declaração jactanciosa: "Subirei aos céus. Enaltecerei o meu trono acima das estrelas de Deus e assentar-me-ei no monte de reunião, nas partes mais remotas do norte... Assemelhar-me-ei ao Altíssimo." — Isaías 14:13, 14.

As "estrelas de Deus" são os reis da linhagem real de Davi. (Números 24:17) A partir de Davi, essas "estrelas" governavam desde o Monte Sião, e com o tempo, o nome Sião passou a ser aplicado a toda a cidade. Por decidir subjugar os reis judeus e depois removê-los daquele monte, Jerusalém, Nabucodonosor declara sua intenção de se colocar acima dessas "estrelas".

Em vez de atribuir a Deus o mérito dessa vitória sobre eles, coloca-se arrogantemente no lugar Dele. Portanto, é depois da sua queda que a dinastia babilônica é chamada zombeteiramente de "brilhante". Com certeza a arrogância dos governantes babilônicos realmente refletia a atitude de Satanás, o Diabo também chamado de o "deus deste sistema de coisas" ou o "deus deste mundo" (II Coríntios 4:4).

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Crédito da ilustração: Gustave Doré ("A Queda de Lúcifer", feita para o livro "O Paraíso Perdido" de John Milton)

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12.3.10

Deus e os astrônomos

Texto de Fred Heeren em "Mostre-me Deus" (editora Clio) com citações de Robert Jastrow e outros cientistas. Tradução de Soraya Bausells. As notas ao final são minhas.

Os cientistas honestos em relação à questão de onde a matéria e a energia se originaram admitem duas coisas: primeiro, que o problema é impossível de ser solucionado por meio da ciência [1]; segundo, que essa situação é extremamente frustrante para o cientista.

O astrônomo respeitado internacionalmente (e agnóstico declarado) Robert Jastrow admite que os cientistas foram “traumatizados” por terem se empenhado em solucionar um problema que deve permanecer para sempre além deles [2]. Em seu livro God and the Astronomers, Jastrow diz: “O desenvolvimento é inesperado porque a ciência vem tendo um sucesso extraordinário na investigação da cadeia de causa e efeito no tempo retroativo.

A situação viola uma “fé religiosa” profundamente arraigada nos cientistas na própria ciência, a crença de que a ciência deveria finalmente ser capaz de descobrir as forças e leis para explicar tudo [3]. Afinal de contas, Carl Sagan nos diz que a ciência é “aplicável a todas as coisas. Com essa ferramenta nós vencemos o impossível”. Mas Jastrow escreve:

“Considere a grandiosidade do problema. A ciência provou que o universo surgiu de uma explosão em determinado momento. Pergunta-se: Que causa produziu este efeito? Quem ou o que colocou a matéria e a energia dentro do universo?... E a ciência não pode responder essas perguntas, porque, de acordo com os astrônomos, em seus primeiros momentos de existência, o universo foi comprimido a um grau extraordinário e consumido pelo calor de um fogo além da imaginação humana [4].”

Jastrow diz que o universo começou “sob circunstâncias que parecem tornar impossível – não apenas agora, mas sempre – descobrir que força ou forças trouxeram o universo à existência naquele momento.”

Antecipando tais questões sobre o incompreensível momento da criação, Isaías nos diz que ninguém pode sondar o entendimento do Criador (Isaías 40:28). Mas quem ou o que é a causa desse efeito? A Bíblia levanta a questão: não deveríamos saber a resposta desde sempre? “Ergam os olhos e olhem para as alturas. Quem criou tudo isso?... será que você não sabe? Nunca ouviu falar? O Senhor é o Deus eterno, o Criador...” (Isaías 40:26a, 28a).

Ao comparar com a suposição alternativa de que a matéria e a energia de alguma forma sempre existiram, o físico britânico Edmund Whittaker diz: “É mais simples postular a criação ex nihilo – o Divino constitui a natureza a partir do nada.”

O físico Barry Parker concorda: “Nós com certeza temos uma alternativa. Poderíamos dizer que não houve uma criação e que o universo sempre existiu. Mas isso é ainda mais difícil de se aceitar do que a Criação [5].”

Após considerar a descoberta de que nosso universo teve um começo e que a ciência é incapaz de descobrir o que houve antes dele, o astrônomo Jastrow conclui seu livro:

“Para o cientista que viveu acreditando no poder da razão, a história termina como um pesadelo. Ele escalou as montanhas da ignorância; está perto de conquistar o ponto mais alto; à medida que se esforça para alcançar a última rocha, ele é recebido por um bando de teólogos que estavam sentados lá há séculos [6].”

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[1] Por isso o agnosticismo é um caminho tão comum a maioria dos cientistas que só conseguem enxergar a realidade pelas lentes da ciência.

[2] Mas esta “angústia” é compartilhada por cientistas, filósofos e religiosos, desde que o homem foi capaz de se indagar “porque existe algo e não nada?” (essa pergunta é atribuída ao filósofo Lucrécio). Afinal: Ex nihilo nihil fit (Do nada, nada se faz).

[3] Certamente o autor usa o termo “fé religiosa” de forma sorrateira, ainda que entre parêntesis. Por mim, seria melhor usar o termo “convicção na ciência”, ou seja: a crença de que a ciência ainda tem muito a alcançar na capacidade de descrever a realidade (e decerto o tem, embora certamente será incapaz de descrever toda a realidade).

[4] Trata-se da Teoria do Big Bang, que é ainda incapaz de descrever o que ocorreu no universo antes do Tempo de Planck (um tempo muito, muito curto, após o “bang” inicial). Einstein disse certa vez, assim que se convenceu de que o universo realmente havia surgido de uma singularidade inicial: “[Quero] saber como Deus criou esse mundo. Eu não estou interessado nesse ou naquele fenômeno, no espectro desse ou daquele elemento. Eu quero conhecer Seus pensamentos, o resto são detalhes.” (citado por Nick Herbert em Quantum Reality – Beyond the New Physics, p. 177).

[5] Não necessariamente, mas mesmo que fosse, ainda assim não resolveria o problema inicial: há que existir um ser ou substância incriado(a) e eterno(a), em oposição ao nada. Este sim seria a causa primeira de tudo.

[6] Sempre digo que ciência e religião são duas lentes para se enxergar a realidade. Somente quando usadas em conjunto a realidade passa a ser percebida integramente, tanto em seu Mecanismo quanto em seu Sentido. É ignorância (ou muitas vezes puro sofismo) pretender que a realidade não tenha Sentido, e que tudo tenha surgido do nada sem nenhuma causa. Porém, também é ignorância pretender compreender a realidade sem o conhecimento detalhado de seus belos e elegantes Mecanismos. Se o cientista chegou no topo da montanha e encontrou um bando de teólogos, é porque precisará deles para seguir adiante; assim como os teólogos que lá estavam precisam dos cientistas.

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Crédito da foto: Wikipedia (nascimento de estrelas a bilhões de anos-luz da Terra)

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24.2.10

O cão e a carroça

Texto de Alain de Botton em "As consolações da filosofia" (editora Rocco) com citações de filósofos estóicos. Tradução de Eneida Santos. As notas ao final são minhas.

Os estóicos lançavam mão de uma imagem para evocar nossa condição de criaturas fortuitamente capazes de efetuar mudanças, apesar de sujeitas às necessidades extremas. Somos como cães amarrados a uma carroça que, a qualquer instante, pode se colocar em movimento. O comprimento de nossa trela é suficiente para nos permitir uma certa liberdade de movimento, mas não nos concede a autonomia necessária para vagarmos a nosso bel-prazer.

A metáfora foi formulada pelos filósofos estóicos Zenão de Cício (fundador da escola estóica) e Crisipo e relatada pelo sacerdote romano Hipólito:

“Quando um cão atrelado a uma carroça quiser acompanhá-la, ele é puxado por ela e avança, fazendo com que seu gesto espontâneo coincida com a necessidade. Mas se o cão decidir não se mexer, o movimento da carroça o obrigará a segui-la, de qualquer maneira. O mesmo acontece com os homens: mesmo que não queiram, eles são forçados a obedecer o que o destino lhes reservou.”

Naturalmente, um cão é livre para ir onde bem entender. Mas, como sugere a metáfora de Zenão e Crisipo, se seus movimentos estão tolhidos é melhor trotar para acompanhar a carroça do que ser arrastado e estrangulado por ela. Embora o primeiro impulso do animal talvez seja o de lutar contra a guinada repentina do veículo que o obriga a tomar uma direção imprevista, seu sofrimento só dura enquanto durar sua resistência.

Assim Sêneca se posicionou sobre o assunto [1]:

“Ao lutar contra o laço, o animal o aperta mais... qualquer cabresto apertado irá machucar menos o animal se ele se mover com ele do que se lutar contra ele. Somente a capacidade de resistência e a submissão à necessidade proporcionam o alívio para o que é esmagador.”

Para reduzir a violência de nossa insubordinação contra acontecimentos que tomam rumos opostos ao que desejávamos, devemos refletir que também nós temos um cabresto em volta do pescoço. O sábio aprenderá a identificar de imediato o que é necessário e o seguirá, em vez de deixar-se exaurir em protesto. Quando um homem sábio é informado de que sua mala se perdeu em trânsito, ele precisará de poucos segundos para resignar-se. Sêneca relatou de que forma o fundador do estoicismo se comportou quando soube que havia perdido todos os seus pertences:

“Ao ser avisado sobre um naufrágio e ser alertado para o fato de que sua bagagem havia afundado, Zenão comentou: ‘A Fortuna [2] me desafia a ser um filósofo menos sobrecarregado.’”

Isso pode soar como uma receita para a passividade e a placidez, um incentivo à resignação diante das frustrações que poderiam ter sido vencidas. Mas a argumentação de Sêneca é mais sutil. Existe o mesmo grau de irracionalidade em se aceitar como necessário algo que não é necessário e em se rebelar contra algo que é necessário. Podemos, com a mesma facilidade, cometer o mesmo erro, ao aceitarmos o desnecessário e negarmos o possível, e negarmos o necessário e desejarmos o impossível. Cabe à capacidade de raciocínio estabelecer a distinção.

Não importa que semelhanças possam existir entre nós e um cão atrelado, nós possuímos uma vantagem crucial: podemos raciocinar e o cão, não. O animal sequer percebe de imediato que foi amarrado a uma trela e nem entende a relação entre as guinadas da carroça e a dor que sente no pescoço. Ele se sentirá confuso com as mudanças de direção e será difícil para ele calcular a trajetória da carroça, portanto sofrerá puxões constantes e dolorosos. Mas a razão nos capacita a teorizar com precisão sobre a rota de nossa carroça e isto nos oferece uma oportunidade, única entre os seres vivos, de aumentar nosso senso de liberdade ao assegurar uma boa folga entre nós e a necessidade [3]. A razão nos permite determinar quando nossos desejos estão em conflito irrevogável com a realidade e nos desafia a não sentir revolta ou amargura, e sim a nos submetermos de bom grado às necessidades. Talvez sejamos impotentes para alterar determinados acontecimentos, mas permanecemos livres para escolher que atitude tomar em relação a eles, e em nossa aceitação espontânea da necessidade encontramos uma liberdade característica.

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[1] Este trecho faz parte do capítulo intitulado “consolação para a frustração”,  baseado no pensamento do Sêneca. Como este livro também deu origem a um documentário da BBC, é possível ver o capítulo inteiro – incluindo a metáfora do cão, onde a carroça é sutilmente substituída por uma bicicleta pilotada pelo próprio Alain – no vídeo abaixo (e suas seqüências):

[2] Os estóicos freqüentemente faziam referências aos deuses não em um sentido religioso, mas no sentido dos arquétipos e conceitos universais que estes representavam. Epicteto ficou conhecido por “antecipar” o monoteísmo ao chamar a Zeus de Deus dos deuses. Zenão e Sêneca se referiam a Fortuna como uma referência ao destino, a sorte, aos acontecimentos da vida e da natureza sobre os quais não tínhamos controle algum.

[3] A melhor maneira de assegurar esta “folga” é exatamente avaliar de forma racional as nossas necessidades: que na maior parte das vezes, poderemos nos contentar com pouco, e a felicidade freqüentemente reside nas coisas simples, das quias infelizmente negligenciamos o real valor na maior parte da vida. No capítulo sobre Epicuro, intitulado “consolação para quando não se tem dinheiro suficiente”, Alain fala exatamente sobre isso. Sim, o livro é altamente recomendado e de simples leitura...

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Crédito da foto: Carlos Moraes

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18.2.10

O princípio antrópico

Texto de Chris Impey em "O universo vivo" (editora Larousse). Tradução de Henrique Monteiro. As notas ao final são minhas.

A física contém alguns números persistentes e importantes – a massa do próton, a massa do elétron, a carga elétrica das partículas subatômicas, a energia das forças fundamentais da natureza e assim por diante [1]. Se muitos desses números fossem ligeiramente diferentes, não estaríamos aqui. Em outras palavras, torcer a base fundamental e a física ainda seria funcional, mas as conseqüências dessas leis agindo sobre o universo não incluiriam formas de vida baseadas no carbono como nós.

Os átomos são mantidos unidos por uma força nuclear forte, que tem um raio de ação muito curto e age como cola, e uma força nuclear fraca, responsável pela desintegração radioativa [2]. Se a força forte fosse um pouco mais intensa, a reação nuclear seria tão eficiente que as estrelas rapidamente transformariam quase todo o hidrogênio do universo em hélio e até em ferro. Sem nenhum hidrogênio, não existe água. Se, ao contrário, ela fosse um pouco mais fraca, a repulsão elétrica entre os prótons impediria a formação de todos os núcleos complexos, portanto não seria criado nenhum tipo de carbono [3]. Se a força fraca fosse um pouco mais forte, os nêutrons se desintegrariam tão rapidamente que os núcleos se desfariam antes que se produzissem quaisquer elementos pesados. Se ela fosse um pouco menos intensa, haveria grande quantidade de nêutrons disponíveis, com o resultado de que novamente todo o hidrogênio seria convertido em hélio e até em elementos mais pesados, sem que nada restasse para produzir água. Não estamos falando sobre nenhuma grande mudança; “um pouco” aqui significa de 5% a 10% [4].

E tem mais. A força eletromagnética controla as maneiras como os átomos interagem e explica a luz. Se essa força fosse ligeiramente mais forte, os átomos se tornariam egoístas e não partilhariam elétrons, e não seria possível nenhuma reação química. Se ela fosse ligeiramente mais fraca, os átomos não prenderiam os seus elétrons, e o universo se tornaria um mar de partículas soltas, sem nenhuma química possível. Não havendo química, nada de vida.

Ainda não acabou. A gravidade é a força mais fraca da natureza [5], mas de muitas maneiras ela é a mais importante, uma vez que esculpe tudo, desde planetas até a expansão cósmica. Uma gravidade forte faria com que se formassem estrelas maiores, as quais queimariam rapidamente e se tornariam instáveis; isso provavelmente não seria nada bom para a vida nos planetas nas proximidades de tais estrelas. Uma gravidade mais fraca seria pior, porque as estrelas não teriam massa suficiente para morrer explosivamente. As supernovas são necessárias para criar alguns elementos fundamentais para a vida e para dispersas o carbono e outros elementos pesados para regiões onde novas estrelas e planetas possam se formar [6].

A cosmologia nos presenteia com mais quebra-cabeças. Em grande parte da sua história, a expansão universal perdeu velocidade em decorrência da gravidade da matéria escura. No entanto, alguns bilhões de anos atrás, entrou em uma fase de aceleração quando a energia escura se impôs à gravidade mais fraca de toda aquela matéria altamente dispersa. A história desde o big bang é movida pela quantidade de matéria escura e de energia escura. As partículas comuns das quais você e eu e o nosso mundo familiar somos feitos são insignificantes nas suas conseqüências sobre a expansão [7].

Um universo com muito menos matéria teria se expandido mais rapidamente na fase inicial – tão rápido que a gravidade não teria tido tempo de exercer sua influência antes que tudo se transformasse em um gás frio e difuso. Se nenhuma estrela ou galáxia se formassem, não haveria vida. Um universo com muito mais matéria teria atingido um tamanho máximo e desmoronado totalmente sob o peso da própria gravidade [8]. Considerando que achamos que a biologia precisa de muito tempo – talvez 1 bilhão de anos – para se desenvolver, um universo bebê com este seria natimorto. O mesmo se aplica à energia escura; se ela fosse muito forte, o universo se destroçaria antes que a vida tivesse alguma possibilidade de se formar.

Acontece que a energia escura faz as galáxias se separarem com velocidade crescente. Isso acaba com a idéia das comunicações intergalácticas ou de uma consciência universal porque as galáxias acabarão se afastando mais rapidamente do que a luz pode se deslocar na distância entre elas [9]. O físico Freeman Dyson chamou a isso de universo Carroll, em referência a Lewis Carroll, porque “você precisa correr o máximo que puder, apenas para permanecer no mesmo lugar”.

As propriedades “especiais” do nosso universo levam a um princípio antrópico. O princípio antrópico não é uma idéia isolada; é uma rede de conceitos e argumentos lógicos, e tem provocado tanta controvérsia quanto confusão como qualquer outra coisa na ciência. Na sua modalidade mais fraca, o raciocínio antrópico é uma verdade incontestável: só podemos observar um universo que nos permita existir. A modalidade mais forte afirma que o universo precisava ser da maneira como é de modo a permitir que houvesse observadores inteligentes.

E o que vem a ser isso? Podemos virar e dizer: É claro que o universo é velho e grande, e as estrelas produziram carbono, e a química é possível. Se tudo isso não fosse verdade, não estaríamos aqui. Ou podemos ficar totalmente perplexos pela sorte inacreditável que levou à nossa existência [10].

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[1] Alguns cientistas costumam dar nomes curiosos para esse fato: sintonia fina, coincidência cósmica, acaso fortuito, etc. É sempre mais simples “inventar” algum rótulo para evitar pensar sobre o assunto dentro da ciência.

[2] Princípios de ação e reação, criação e destruição, existem desde as partículas mais fundamentais do universo. Hermes Trimegisto seria hoje um grande entusiasta da física de partículas...

[3] As condições necessárias para se produzir carbono são tão “especiais” que o astrofísico Fred Hoyle chegou a especular, em um artigo intitulado “O universo: reflexões passadas e presentes”, que “um superintelecto está brincando com as leis da física”. Não é muito diferente da idéia básica dos deístas e panteístas.

[4] Apenas a título de curiosidade: as chances de você ganhar na mega-sena ou ser atingido por um raio são incomparavelmente superiores às chances de um universo assim ter surgido “por acaso”. Na verdade, poderia-se até dizer que isso seria impossível; ou para ficar no campo do bom humor, que seria mais fácil alguém ser atingido por um raio todos os dias, precisamente ao meio-dia, enquanto vivesse.

[5] Quando aproximamos um pequeno ima de geladeira de um clipe de papel, e ele se desloca em direção ao ima, estamos presenciando a força eletromagnética de um pedaço de ima vencer toda a força gravitacional da Terra. A gravidade é realmente fraca. No entanto, segundo a Teoria M, ela seria uma força atuante em várias dimensões – inclusive dimensões ainda não detectáveis pela tecnologia atual –, e isso explicaria o fato de ser tão fraca “em nossa dimensão”.

[6] Vide a nota #2 acima. Só que dessa vez, a lógica é aplicada ao macro-cosmos. “O que está em cima é como o que está embaixo” – Hermes continuaria satisfeito.

[7] Somos formados pela matéria que preenche cerca de 4% da matéria e energia do Cosmos. O resto (96%) não interage com a luz, e até hoje não foi detectado diretamente em laboratório.

[8] O big crunch seria o inverso do big bang, ou mais ou menos como “retroceder” no tempo do universo, de volta ao “bang” inicial.

[9] O universo é tão grande que mesmo que nos desloquemos a velocidade da luz em qualquer direção à partir da Terra, existirão galáxias inatingíveis, se afastando a tanto tempo que nem a luz conseguirá vencer a distância. A velocidade da luz delimita nosso horizonte cósmico.

[10] Ou seja, o pensamento científico moderno prefere não de “deter” com a questão da “sintonia fina” das forças da natureza. “É assim porque é, se não fosse não estaríamos aqui em todo caso, porque perder tempo especulando a razão disso tudo?” – Mas nem sempre a ciência se fez com tal racionalidade. Em seus primórdios, junto ao logos grego, buscar o Mecanismo e o Sentido do Cosmos eram atividades irmãs, e não distintas. Talvez a ciência moderna tenha perdido a perplexidade dos gregos perante o infinito do Cosmos, ou talvez os cientistas estejam apenas “escondendo o jogo”, com medo de perder certos financiamentos por conta de “idéias heterodoxas”. Depois de conhecer gente como Sagan, Hawking, Greene e outros tantos, a segunda opção me parece a mais provável.

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Crédito da foto: Astronomy Picture of the Day (NASA)

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31.1.10

Evolução: até onde vai o acaso?

Texto de Chris Impey em "O universo vivo" (editora Larousse). Tradução de Henrique Monteiro. As notas ao final são minhas.

A recorrência de determinadas formas bem-sucedidas, juntamente com a efemeridade da maioria das espécies, levou a uma tensão entre duas idéias na teoria da evolução: a contingência e a convergência. O paleontólogo Stephen Jay Gould foi o defensor mais eloquente da idéia de que o acaso desempenhou papel decisivo na evolução [1]. Gould foi um personagem de grande importância e decisivo no campo da evolução – magistral como pesquisador e escritor popular, ainda que às vezes arrogante e refratário no seu modo de pensar.

Gould usava o Folhelho Bugess como seu exemplo central. O Folhelho Bugess é um modelo muito bem-preservado da profusão de formas de vida exóticas que apareceram nos oceanos da Terra pouco mais de 510 milhões de anos atrás. A maioria das linhagens não sobreviveu – Gould sustentava que não havia como prever quais desses organismos bem-adaptados subsistiria. Eventos caprichosos como impactos e meteoros tornaram a evolução altamente contingente. Segundo essa teoria, os micróbios podem ser comuns em planetas como a Terra ao longo do cosmos, mas os mamíferos e os répteis seriam improváveis, e os primatas e humanos com certeza muito raros.

Simon Conway Morris, um paleontólogo da Universidade de Cambridge, era um estudante de graduação quando tomou contato pela primeira vez com o achado valioso do Folhelho de Burgess. Sua interpretação dos mesmos fósseis [2] que Gould observara levou-o a uam conclusão muito diferente. Conway Morris não nega o papel desempenhado pela sorte, mas observa que as estratégias evolucionárias são limitadas pelas leis da física e não acontecem em um ambiente de possibilidades ilimitadas.

Peguemos como exemplo às asas e aos olhos. O vôo evoluiu separadamente entre insetos, mamíferos (o morcego) e répteis (notavelmente o pterossauro, um leviatã voador do Triássico). O desenho das asas é diferente em casa caso, mas a vantagem evolucionária de ganhar os céus é inegável. A visão foi descoberta, e às vezes reinventada, em criaturas tão diferentes quanto mamíferos, cefalópodes e insetos. Se você observar um polvo, o olho que verá é tão misterioso quanto o seu, mas ele tem uma ascendência completamente diferente. Todos esses são exemplos de convergência [3].

Conway Morris identificou um impressionante número de exemplos de convergência. Ele reconhece o elemento acaso da evolução, mas sustenta que a vida encontrou soluções semelhantes para o problema da sobrevivência inúmeras vezes seguidas. Por isso ele é otimista quanto à inevitabilidade de animais grandes e complexos e até mesmo da inteligência. Em sua pesquisa intitulada “Sintonizando as freqüências da vida”, ele escreve: “Onde quer que exista vida, haverá, no momento devido, uma mente. Se essa mente será sempre como a nossa é outra questão.

O naturalista britânico D’Arcy Thompson chamou a atenção para a convergência cerca de um século atrás, mas alguns dos exemplos mais intrigantes ocorrem no nível molecular. Dois grupos de peixes sem nenhuma relação um com o outro usam o mesmo anticongelante natural para combater os efeitos da água fria. O truque é realizado por um proteína codificada por uma seqüência dos mesmos aminoácidos repetidos indefinidamente. No caso, o peixe Nototheniidae da Antártica surgiu de 7 a 15 milhões de anos atrás, ao passo que o bacalhau ártico apareceu do outro lado da Terra há 3 milhões de anos. Em outro exemplo, anticorpos idênticos foram encontrados em duas espécies altamente distintas, o cação-lixa e o camelo. Circuitos genéticos semelhantes foram localizados na bactéria E. coli e na levedura, mostrando que a convergência também ocorre em níveis superiores de organização molecular.

A convergência molecular endossa o fato de que a criação de elementos pesados nas estrelas proporciona uma base universal para a bioquímica, assim como o fato de que componentes básicos como aminoácidos são encontrados em uma vasta gama de ambientes cósmicos. Existe um número astronômico de proteínas possíveis, assim como de outras moléculas biologicamente úteis. Ainda assim, a vida escolheu um número modesto [4] – propagada ao nível de genes, essa especificidade contribui para limitar as funções e as formas das espécies.

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[1] O acaso é um nome fortuito que os cientistas encontraram para intitular "não fazemos idéia das causas reais". A idéia de acaso vai lentamente caindo por terra na medida em que as causas vão sendo identificadas e compreendidas, por exemplo, pela idéia de convergência (exposta logo a seguir no texto). Ainda que, conforme o próprio Impey admita um pouco anteriormente a este texto: "Na evolução, assim como na maioria dos outros ramos da ciência, não faz sentido perguntar por quê. Só faz sentido perguntar como". Ou seja: como cientista, você não pergunta porque um mecanismo que ainda não compreende inteiramente executa as suas funções de modo surpreendentemente coordenado. Primeiro procura entender como ele funciona. Os "porquês" ficam com a religião e a filosofia.

[2] Muitas vezes se pensa que na ciência não existem interpretações distintas para teorias bem fundamentadas, e obviamente não é o que ocorre. Na verdade um dos trunfos da ciência é a sua capacidade de abarcar interpretações distintas e por vezes opostas, sem que os cientistas se achem no direito de humilhar ou fazer pouco caso de seus opositores (bem, pelo menos os cientistas de verdade).

[3] Talvez a evolução da vida seja como uma corrida off-road: todos largam do mesmo ponto e seguem estradas distintas, mas para passar a outra fase da competição precisam encontrar o check-point; Até que em algum desses pontos de passagem surja, finalmente, uma mente. Nesse sentido, não é possível afirmar que a vida não siga algum plano. Muito embora daí a afirmar que este plano seja um design divino já requira alguma dose de crença.

[4] Quando um cientista como Impey usa o termo "a vida escolheu", é o caso típico de uso de linguagem metafórica. Será que todo cientista é um poeta? Ou será que as vezes a intuição acaba "burlando" a linha se segurança do ceticismo materialista? Talvez o Deus da ciência, a tal "vida que faz escolhas", seja o Deus do Acaso, um Deus desconhecido...

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Crédito da ilustração: Simon Conway Morris e Masanori Gukuhari (espécies exóticas do Folhelho Burgess).

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19.1.10

O ano cósmico

Texto de Chris Impey em "O universo vivo" (editora Larousse). Tradução de Henrique Monteiro. As notas ao final são minhas.

Vamos comprimir o tempo (cósmico) por um fator de 50 mil trilhões (5 x 1016) . Essa escala reduz os 13,7 bilhões de anos desde o big bang ao calendário de um ano.

No dia do ano-novo, no hemisfério norte, todo o tempo e o espaço, toda a matéria e toda a energia são criados. No final de fevereiro, a Via Láctea está se formando. Gerações de estrelas nascem e morrem ao longo da primavera e do verão. A Via Láctea devora uma série de companheiras menores e completa uma volta a cada semana. No início de setembro, próximo do braço espiral de Órion, forma-se um estrela de tamanho médio em uma creche estelar movimentada: sua nuvem de gás foi levada à ruína pela morte violentade uma supergigante vizinha. Dois dias depois, oito grandes corpos rochosos se formaram a partir da poeira que girava ao redor do menino Sol. Um é a nossa Terra.

Dentro de uma ou duas semanas, o planeta novinho em folha está vivo. Micróbios espalham-se pela superfície do planeta e no fundo dos seus oceanos. O Sol converte hidrogênio em hélio e envia uma corrente contínua de fótons aquecidos ao espaço. Várias vezes por semana, a intervalos aleatórios, imensas rochas chocam-se contra o planeta e produzem o caos. Muitos organismos são extintos, mas o restante se adapta e se diversifica. Em outrubro, a vida inventa uma novo modo de aproveitar a energia solar, e a atmosfera começa a encher-se de oxigênio [1].

Em meados de dezembro, o ritmo da vida começa a recobrar a velocidade. Depois de vários meses sem nenhum organismo maior do que um punho, novas criaturas proliferam nos oceanos. Algumas vão até a terra firme e outras aprendem a voar. Na época do Natal, os dinossauros dominam as florestas e pântanos do planeta exuberante. Três horas antes das badaladas da meia-noite no ano-novo, aparecem os primeiros hominídios. Descendem de mamíferos, espécie sobrevivente bem-sucedida do impacto de um enorme meteoro, vários dias antes [2]. Faltando 20 segundos para meia-noite, os hominídios evoluíram para se tornar exatamente como nós, inventam as ferramentas e a agricultura, e constroem as primeiras cidades. A Revolução Coperniciana acontece quando falta um segundo para a meia-noite [3].

O modelo do tempo em escala explica a nossa chegada final à cena como forma de vida inteligente, capaz de explorar o espaço e compreender o cosmos, mas considera o seguinte: podemos não ser os primeiros. Um planeta semelhante à Terra pode ter se formado em algum lugrar do universo muito antes de nós. Digamos que seja no começo de junho. Se a evolução seguiu o mesmo ritmo da terra, haveria uma espécie alienígena atingindo nosso nível tecnológico no final de setembro, exatamente quando a vida estava começando a brotar na Terra. Do que seria capaz uma espécie alienígena agora, com uma dianteira de 4 bilhões de anos em relação a nós?

Vivemos no ápice de uma mudança exponencial. Todas as maravilhas do mundo moderno - computadores, televisão, viagens espaciais, genética, a internet - encaixam-se no último décimo de segundo do ano cósmico. A velocidade crescente das mudanças tecnológicas torna impossível predizer o futuro de modo confiável. Conhecendo a nossa insignificância no tempo e no espaço, ficamos tanto impressionados quanto impacientes perante nosso imenso potencial como espécie consciente de si mesma. Se não estamos sozinhos na posse dessa capacidade, o universo deve ser um lugar muito, muito interessante [4].

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[1] As formas de vida mais bem-sucedidas da Terra, as cianobactérias remontam a 3,5 bilhões de anos, e seus descendentes ainda são encontrados em muitos ambientes na terra e na água. Esses minúsculos organismos fotossintéticos criaram quase todo o oxigênio existente na atmosfera, e levaram ao desenvolvimento das plantas. Eles merecem o nosso respeito!

[2] No cataclisma que se seguiu, a maior parte dos dinossauros foi extinta, embora saibamos que as aves atuais sejam remanescentes deles. Em todo caso, foram pequenos roedores, sobrevivendo em pequenos e profundos túneis sob a terra, quem sustentaram nosso legado genético (e de todos os mamíferos). Também sem eles, não estaríamos aqui para contar a história.

[3] Que foi, sobretudo, uma revolução do pensamento humano. Sem esse conhecimento, provavelmente ainda pareceria que o Sol gira em torno da Terra, visto que através da observação pura é exatamente o que parece a primeira vista. Foi necessária uma grande mudança de paradigma para que a maior parte da população alfabetizada olha-se para o Sol e imagina-se que, na realidade, somos nós quem giramos ao seu redor (e ele, ao redor do cosmos).

[4] E a astrobiologia, um ramo científico muito, muito promissor.

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Crédito da foto: Descubra o Cosmos (NASA)

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