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17.6.11

Hedonismo

Texto de José Arreguy Pimentel que circula pela web há alguns anos, mas ao contrário de boa parte desse tipo de texto, é muito profundo. Os comentários ao final são meus.

Eu li em um dos livros do Ruy Castro que, ainda mais legal do que unir o útil ao agradável, é unir o agradável ao agradável. A exaltação do desfrute.

Há tempos venho ruminando sobre isso.

Conheço muitas pessoas que vão ao cinema, a boates e restaurantes e parecem eternamente insatisfeitas. Até que li uma matéria com a escritora Chantal Thomas na revista República e ela elucidou minhas indagações internas com a seguinte frase: "Na sociedade moderna há muito lazer e pouco prazer".

Lazer e prazer são palavras que rimam e se assemelham no significado, mas não se substituem. É muito mais fácil conquistar o lazer do que o prazer. Lazer é assistir a um show, cuidar de um jardim, ouvir um disco, namorar, bater papo. Lazer é tudo o que não é dever. É uma desopilação. Automaticamente, associamos isso com o prazer: se não estamos trabalhando, estamos nos divertindo. Simplista demais.

Em primeiro lugar, podemos ter muito prazer trabalhando, é só redefinir o que é prazer. O prazer não está em dedicar um tempo programado para o ócio. O prazer é residente. Está dentro de nós, na maneira como a gente se relaciona com o mundo.

Chantal Thomas aborda a idéia de que o turismo, hoje, tem sido mais uma imposição cultural do que um prazer. As pessoas aglomeram-se em filas de museus e fazem reservas com meses de antecedência para ir comer no lugar da moda, pouco desfrutando disso tudo. Como ela diz, temos solicitações culturais em demasia. É quase uma obrigação você consumir o que está em evidência. E se é uma obrigação, ainda que ligeiramente inconsciente, não é um prazer.

Complemento dizendo que as pessoas estão fazendo turismo inclusive pelos sentimentos, passando rápido demais pelas experiências amorosas, entre elas o casamento. Queremos provar um pouquinho de tudo, queremos ser felizes mediante uma novidade. O ritmo é determinado pelas tendências de comportamento, que exigem uma apreensão veloz do universo.

Calma. O prazer é mais baiano.

O prazer não está em ler uma revista, mas na sensação de estar aprendendo algo. Não está em ver o filme que ganhou o Oscar, mas na emoção que ele pode lhe trazer. Não está em faturar uma garota, mas no encontro das almas.

Está em tudo o que fazemos sem estar atendendo a pedidos. Está no silêncio, no espírito, está menos na mão única e mais na contramão. O prazer está em sentir. Uma obviedade que merece ser resgatada antes que a gente comece a unir o útil com o útil, deixando o agradável pra lá.

***

Comentário: O título desse texto é "Hedonismo". O hedonismo é uma doutrina filosófica que afirma ser o prazer o supremo bem da vida humana. Surgiu na Grécia, seus maiores representantes foram Aristipo de Cirene e, principalmente, Epicuro. O problema é que muita gente entende por hedonismo uma simples busca desenfrada por prazer, particularmente de cunho material - como aquisição e consumo de bens e riquezas -, mas isso está um tanto longe do que Epicuro ensinava.
O filósofo grego em realidade afirmava que “o homem que alega não estar ainda preparado para a filosofia ou afirma que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que é jovem ou velho demais para ser feliz.” Longe de ensinar uma busca desenfreada por prazeres mundanos, ele defendia que uma vida equilibrada e na companhia de boas amizades era todo o necessário para a felicidade – neste caso, pão e água eram suficientes... “De todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade... alimentar-se sem a companhia de um amigo é o mesmo que viver como um leão ou um lobo.”

***

Crédito da foto: Ken Seet/Corbis.

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2.6.11

Transcendência

Diálogos de Waldemar Falcão, Marcelo Gleiser e Frei Betto em "Conversa sobre a fé e a ciência” (Ed. Agir) – Trechos das pgs. 86 a 90. Os comentários ao final são meus.

Waldemar Falcão – Isso é um ponto que acho muito interessante, que para mim de certa forma aproxima a ciência e a religião [1]: é porque as duas buscam uma compreensão do mundo que vai além daquilo que podemos captar através dos nossos cinco sentidos habituais. O que acontece é que principalmente o budismo, no caso, tenta sempre ir além daquilo que conseguimos perceber através dos cinco sentidos habituais, e de uma certa maneira acho que é o que a ciência tenta compreender: o invisível. A física quântica, principalmente, está toda mergulhada nessa parte, no mundo subatômico.

Marcelo Gleiser – O ponto então talvez seja a busca pela transcendência.

WF – Acho essa palavra perfeita nesse contexto!

MG – Que é uma coisa que tanto a religião quanto a ciência procuram. No caso, Betto, você falou da paixão que vem de fora, mas que também está dentro de você [2]. E quando se acredita num Criador que é onipotente e onipresente, para penetrar na Sua mente, você tem de transcender sua dimensão humana. Isso pode ser tanto por meio da fé, ou até mesmo da ciência, se o cientista acredita nessa metáfora que quanto mais a gente entende o mundo, mas a gente entende a mente de Deus. Hoje em dia isso costuma ser metáfora, mas na época de Galileu e de Newton era isso mesmo [3]: o mundo era uma obra do Arquiteto Divino, e, portanto, quanto mais se conhecesse deste mundo pela ciência, mais se conhecia, de fato, a mente de Deus. O [Stephen] Hawking continua usando essa metáfora: quanto mais a gente entender da teoria unificada, que visa unificar todas as forças da natureza numa só, mais a gente entende a mente de Deus. No fundo, ambas, a fé e a ciência, estão servindo como uma veículo de transcendência da condição humana, de ir além, de explorar uma dimensão desconhecida; e você, Betto, falou uma coisa interessante: que a ciência é o reino da dúvida, se alimenta da dúvida para buscar a verdade. Acho que é fundamental saber que não existem verdades acabadas, finais. O processo de busca é o processo de transcendência.

Frei Betto – Justamente, e o maior de todos os erros é a religião abafar a espiritualidade. Esse é o maior de todos os erros [4].

MG – É um paradoxo.

WF – É um paradoxo, mas fato incontestável.

FB – É como você ter um carro maravilhoso na garagem, mas que não anda. Todo mundo aprecia e...

MG – Isso é importantíssimo para mim, porque vejo como um problema sério da religião, não só no ritual católico e no cristão, mas em geral; talvez não nos evangélicos, mas também na maioria das vertentes dos ritos judaicos existe essa questão da passividade, quer dizer, você repete todas aquelas rezas, mas não tem...

WF – Aquele arrebatamento.

MG – Em contrapartida, você vai a um candomblé ou àquelas igrejas negras dos Estados Unidos, em que todo mundo canta, dança e grita... Essa coisa da entrega da atividade, da busca, não só receber e repetir, deve ser importante, concorda [5]?

FB – Tudo é a questão do poder. Em 1971, houve uma reunião de bispos de vários continentes em Roma, e um bispo africano convidou os bispos e cardeais para, à noite – naquela época não havia vídeo –, ver um documentário sobre a liturgia na diocese dele. No filme em cores aparecia um tronco de árvore com o vinho e hóstia, uns negros dançando e batucando, e as negras com os seios à mostra, de tanga, todas pintadas, dançando. Um cardeal se levantou: “Isso é um absurdo, é uma infâmia, é uma blasfêmia, não é a liturgia da Igreja!”. Aí o bispo africano parou o filme, acendeu a luz e disse: “Pode não ser da liturgia de Roma, mas da Igreja é, porque se nós, africanos, tivéssemos evangelizado a Europa, a essa hora todos vocês estariam de tanga, dançando e cantando em volta do altar” [6]. Isso comprova a dificuldade que as religiões têm de se inculturar.

WF – De serem permeáveis a outras culturas.

FB – Como soube fazer isso muito bem o apóstolo Paulo, que disse “fui grego com os gregos e judeu com os judeus”. Há uma briga explícita na Carta aos Gálatas, uma das 13 cartas contidas no Novo Testamento e que são consideradas sagradas pela Igreja Cristã, que Paulo escreveu, nas quais critica duramente Pedro. E Pedro era o papa! Pedro achava que para ser cristão o pagão deveria, primeiro, passar pelos ritos judaicos: circuncisão, observação dos ritos de pureza, etc. Paulo chega a dizer que Pedro é um homem de duas caras. Não conhecemos a resposta de Pedro, mas sabemos que Paulo viveu um momento da Igreja em que, pelo amor à Igreja, se podiam expressar críticas até ao papa, não tinha essa coisa de “amém” para toda forma de autoridade, achando que a autoridade é portadora da verdade. Muitas vezes ela falseia a verdade [7]. Mas quero voltar ao tema: a ciência pode, na minha opinião, viver sem a religião. Diria mais: eu me sentiria, como cristão, como religioso, muito incomodado com uma ciência confessionalizada, como me sinto incomodado como esse esforço de querer provar, pela linha da unificação, que lá na ponta do Big Bang está Deus e... eu brincava com isso... acho que escrevi isso na Obra do Artista [8], não me lembro, mas mencionava os quarks, que nunca foram quebrados. Então são sempre três, não é isso?

MG – Na verdade, são seis quarks. Mas prótons e nêutrons são feitos de três.

FB – Ao quebrá-los, o que se encontra? Encontra-se, do outro lado, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Considero isso uma grande bobagem. Um Deus que precisa ser explicado pela ciência, acabou [9].

[...] MG – Acho essa uma ótima posição. Pelo lado da ciência também é uma grande bobagem querer explicar Deus [10].

***

[1] Estavam falando sobre a suposição radical, e errônea, de que a religião seria o reino do dogma e da certeza absoluta; e a ciência, o reino da dúvida. Chegaram à conclusão de que o questionamento era um fator positivo, e de que a dúvida permeava tanto a ciência quanto a religião.

[2] Referência à experiência religiosa relatada por Frei Betto.

[3] Sempre acho uma grande ironia e ignorância quando afirmam que “toda religião é veneno”, pois que esses que o afirmam quase sempre são “devotos” da ciência (materialista). Soubessem eles um pouco da história da ciência, saberiam que foi graças à inspiração religiosa que muitos grandes cientistas realizaram grandes descobertas e feitos.

[4] Reparem que Frei Betto acaba de concordar com Gleiser no sentido de não aceitarmos a existência de verdades finais, acabadas, absolutas – ou, pelo menos, de não aceitarmos que já chegamos a sua compreensão completa. Todos aqueles que seguem manuais de verdades absolutas talvez ficassem atônitos ao saber que grandes religiosos e eclesiásticos, católicos como Frei Betto ou Pe. Fábio de Melo, antes consideram manuais de dúvidas divinas do que de verdades absolutas – embora todos os conheçam pelo mesmo nome. Onde há dúvida, há busca pela transcendência.

[5] Dentro de seu agnosticismo, Gleiser me parece um ser profundamente religioso, no sentido essencial da religiosidade, que é exatamente essa busca pela transcendência, pela religação a mente de um Criador ou, talvez fosse melhor dizer no seu caso, aos mistérios ocultos do Cosmos. Em suma, ele me lembra muito o Carl Sagan quanto se mete a falar sobre religião e espiritualidade (estou fazendo aqui um grande elogio, é claro).

[6] A liturgia do filme do bispo africano não era assim tão diferente da utilizada pelo Batista para seus rituais de batismo e devoção. Me lembro da cena em que Jesus o encontra, no filme “A última tentação de cristo” –acredito que tenha sido bem fiel a realidade de época. Ironias, ironias...

[7] Vejam bem: quem diz isso é um frade!

[8] “A obra do Artista – uma visão holística do Universo” (Ed. Ática), lançado em 1995.

[9] Acredito que Frei Betto tenha se confundido um pouco no que quis dizer, é claro que sempre será uma grande besteira tentar explicar ou definir Deus por meio de teorias científicas – A trindade não é formada por quarks, o Big Bang não necessariamente é um “espirro divino”, nem a física quântica parece poder explicar diretamente uma série de questões espiritualistas... Entretanto, a ciência é o conhecimento da realidade detectável e das leis naturais; enquanto que a religião é um movimento íntimo, uma certa vontade incomensurável que nos impele a refletir, a pensar, e a tentar desvendar os mistérios do Cosmos. Nesse contexto, uma não excluí a outra, e ambas estarão sempre sondando a “mente de Deus”: seja no sentido, seja no mecanismo, pois Deus é tudo que há, e algo a mais.

[10] Embora Gleiser seja um cientista agnóstico, Frei Betto um cristão socialista, e Waldemar Falcão um músico espiritualista, a conversa deles engrena em diversos momentos, o que faz desse livro um achado. De fato, já conhecia Gleiser (de “A dança do universo”, “Criação imperfeita”, dentre outros) e os dois livros anteriores de Falcão, excelentes (“Encontros com médiuns notáveis” e “O Deus de cada um”), mas me surpreendi com a coerência do próprio Frei Betto, apesar de nem sempre concordar com o que ele diz.

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Crédito da foto: Bruno Veiga/Divulgação (Frei Betto e Marcelo Gleiser).

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30.5.11

Nada era em vão

Textos de Fernando Pessoa em "Teatro do Êxtase” (Ed. Hedra) – Organização por Caio Gagliardi.

[Coro] – Cantai nas árvores das estradas, ó aves que consolai o ouvido dos tristes! Correi docemente na sombra, ó fontes! Dormi quietos na relva calma, ó feras agora em sossego! Daí a vossa alegria a todos os ventos, cantai a vitória do amor em todas as brisas! Morreu a sua vida o Salvador do Mundo!

Para ele não haverá nada. Só para ele nada haverá! Tudo quanto sofreu será consolado nesta hora sem tempo. Tudo quanto fez mal agora passará a nunca o ter feito. Tudo quanto sofreu o mal feito eis que nunca sofreu hoje, e nunca soube o que era o sofrimento! Só Ele, o Coração Amante do Universo, é volvido a Sombra e [o] Apagamento! Só Ele vai esquecer de todo, levando em seu seio noturno todo o mal que nele concebeu para alívio e descanso do Mundo. Só Ele desaparece, só Ele é nada. O próprio amor a ele acabará, porque ele acabará. Não há para ele a recompensa, porque ele passa agora, no triunfo maior do que os deuses, a não ser nada, a nunca ter sido coisa nenhuma. Através do Sofrimento Absoluto ele entra na Morte sem resgate.

***

[Coro] – O Mundo é livre! O Mundo é Deus! As coisas renascem em extemporâneo e Divino!

Raiam Deus todas as luzes, aquiescem Deus todas as Sombras, todos os espaços são Deus.

As flores desabrocham Deus, cada árvore é uma divindade todas elas, cada folha é Deus Todo.

Este é o Mundo! Este é o Mundo! Nunca houve tempo nem espaço! Nunca houve alegria nem dor!

O que era bom é hoje o Bem. O que era doce e humano na imperfeição é hoje a Perfeição.

Tudo quanto era divisão de repente não é, nem nunca foi (subitamente nunca foi).

O que se perdeu nunca se tinha perdido!

As pequenas ternuras são grandes hoje com o calor das pequenas. As afeições da terra são hoje do Céu em que a terra toda está. Todos os filhos estão com todas as mães. Nada falta, nada sobra, nada limita. Tudo é tudo em Deus.

***

[Coro] – Acabou o amor, porque nada se busca, estando tudo encontrado. O que era amado por ser pequeno continua a ser amado por ser pequeno, mas é grande. O que era amado por ser humano continua a ser amado por ser humano, mas é divino. O que era amado por ser imperfeito continua a ser amado por ser imperfeito, mas é perfeito. Tudo tem o que tinha de belo e Deus a mais. Tudo está liberto. Nada era em vão.


Um (ou dois, ou talvez três) dos possíveis finais para a peça “Sakyamuni”, onde Pessoa trata da passagem de Buda para o Nirvana. O organizador do livro, Gagliardi, comentou: “Sem indicação de data, a peça nos sugere interessante clave de leitura para o vertiginoso processo de despersonalização poética em que resultou a heteronímia: Tornado a Diversidade Absoluta, o Abismo Puro, morrerás de ti próprio. E tudo será o Nirvana atingido, e o Fim [dourado] da Estrada”.

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Crédito da imagem: Ananda K. Coomaraswamy e Irmã Nivedita, litografia de 1913 (Stapleton Collection/Corbis).

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16.5.11

Fragmentos de Pessoa

Textos de Fernando Pessoa em "Teatro do Êxtase” (Ed. Hedra) – Organização por Caio Gagliardi.


2º – Todo este país é muito triste... Aquele onde eu vivi outrora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada à minha janela. A janela dava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe... Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse...

1º – Fora daqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que é a única de onde o mar se vê, vê-se tão pouco! O mar de outras terras é belo?

2º – Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca.

Diálogo entre duas personagens sem nome, em “O marinheiro (drama estático)”.

***

I.

B – Vamos jogar, se quiseres, um jogo novo. Joguemos a que somos um só. Talvez Deus nos ache graça e nos perdoe ter-nos criado... Senta-te aqui, defronte de mim e chegada a mim. Encosta os teus joelhos aos meus e toma as minhas mãos nas tuas... Assim... Agora fecha os olhos. Fecha-os bem e pensa... e pensa... Em que deverás pensar? Não, não penses em nada. Trata de não pensar em nada, de não querer sentir, de não saber que ouves ou que podes ver, ou que podes sentir as mãos, se quiseres pensar que elas existem... Assim, amor... Não movas nem o corpo nem a alma...

(uma pausa)

B – O que sentiste?

A – Primeiro nada... Foi um espanto de ti e de mim... Depois que me esqueci de tudo, meu corpo cessou. Quis abrir os olhos mas tive um grande medo de os abrir. Depois cessei ainda mais... Fui pouco a pouco nem tendo alma. Encontrei-me sendo um grande abismo em forma de poço, sentindo vagamente que o universo com os seus corpos e as suas almas estava muito longe. Esse poço não tinha paredes mas eu sentia-o poço, sentia-o estreito, circular e profundo. Comecei então a sentir o grande horror – ah, já não poder senti-lo! – é que esse poço era um poço para dentro de si próprio, para dentro não do meu ser nem do meu ser poço, mas para dentro de si próprio, nem sei como. [...]

B – (numa voz muito apagada) Depois? Depois?

A – Depois desci... Encontrei no pensamento uma dimensão desconhecida por onde fiz meu caminho... É como se se abrisse no escuro um vácuo. Um súbito pavor de uma Porta... Assim no meu pensamento uno, vácuo abstrato, uma porta se abriu, um Poço por onde fui descendo. Compreendes bem, não compreendes? Foi no pensamento todo abstrato e sem diferenças nem fins, nem ideias, nem ser, que um Poço se abriu... E eu desci, ao contrário do que se desce – ao contrário por dentro do ao contrário...

II.

B – Assim, separados, amar-nos-emos sempre. A ponte entre nós será a curva do céu, e assim o nosso amor será eterno. Possuir-te era já o caminho de perder-te. Viver contigo era a maneira de te ir esquecendo.

O que concluir de tudo isto? Nada. Dissemos muitas verdades mas elas contradizem-se umas às outras.

Os sonhos quando passam na água são repuxos também porque a gente pode senti-los do mesmo modo. Quando a gente os sente, se depois fechar os olhos, aquilo que se sente transforma-se em repuxos que a gente vê. Eu acho que [há] muito a explorar nas nossas sensações. Há grandes interiores de continentes dentro de nós, com mistérios a desvendar. Quem sabe, amor, se raças diferentes das nossas habitarão esses sítios desconhecidos (inexplorados)? Habituei-me sempre a olhar para as minhas sensações como para uma coisa exterior.

A – De que havemos de falar?

B – De qualquer coisa. Do mistério das coisas e das formas das flores. São coisas iguais quando a medida é Deus. O mistério das coisas [...] E as formas das flores foram os primeiros contos de fadas.

A – Ás vezes, quando acordo de noite, sinto parar de repente, para que eu não vá ouvi-lo, o ruído das mãos que estão tecendo o meu destino. Vejo no ar fragmentos do meu futuro, rápidas sombras, e tendo uma vaga intuição da unidade divina do meu ser. Eu sou uma frase divina com um sentido que me escapa.

III.

B – Para onde viraste tu?

A – Não me virei para parte nenhuma.

B – Viraste-te... Um arrepio pela minha espinha sentiu que te viravas... Percebi logo que o fazias... Viraste-te para o lado donde sempre está chegando Deus...

A – De que lado é que Deus está sempre chegando?

B – De todos e de nenhum... Por isso quando te viraste para lá não fizeste movimento nenhum com o corpo...

A – Como soubeste então que eu me tinha virado?

B – Deus é que soube; não fui eu.

Diálogo entre duas personagens sem nome, ao longo de três trechos distintos, em “Diálogo no jardim do palácio”.

***

Príncipe – Vou morrer.

X – Não, meu Senhor...

Príncipe – Sim, vou... Já tudo começa a ter outro aspecto e a falar aos meus olhos numa outra voz... Parece que não sou eu que estou cansado de existir, mas as coisas que se cansam de eu as ver... Começo a morrer nas coisas... O que se apaga de mim começa a apagar-se no céu, nas árvores, no quarto, nos cortinados deste leito... Depois, pouco a pouco, ir-se-á apagando pelo meu corpo dentro até que fizer noite mesmo ao pé das janelas da minha alma.

X – Isso é belo demais para que possais estar perto da morte...

Príncipe – É belo demais para que possa lembrar à vida... A curva dos montes, lá muito ao longe, torna-se, não mais indecisa mas mais indecisa de outra maneira... As árvores esbatem-se em sombras mas as folhas parecem-me extraordinariamente nítidas, evidentes demais... A seda dos cortinados deste leito é uma outra espécie de seda... Afundo-me pouco a pouco... Não te entristeças... Eu era real demais para poder reinar algum dia... O único trono que mereço é a morte... Não dizes nada?

X – Senhor, não morrereis...

Diálogo entre o príncipe e seu confidente desconhecido, em “A morte do príncipe”.

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Crédito da foto: Mauricio Abreu/JAI/Corbis (Azores/Portugal)

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4.5.11

Watson: quase humano?

Artigo de Pedro Burgos e Alexandre Versignassi para a revista Superinteressante, edição 290. Os comentários ao final são meus.

"Watson derrota a humanidade." Essa foi uma das manchetes para a vitória de Watson, um computador que ganhou dos melhores competidores que a raça humana tinha disponível no Jeopardy!, um jogo de perguntas e respostas da TV americana. Pudera: Jeopardy! é um jogo complexo. Para humanos, inclusive. São perguntas furtivas, tipo: "Isso é só um nariz sangrando! Você não tem essa doença genética que já foi endêmica entre a realeza europeia. Qual é a doença?". Watson acertou: hemofilia. Acertou essa e outras dezenas de perguntas capciosas - e, como seus concorrentes humanos, não estava ligado à internet. Tudo o que ele tinha à disposição era uma memória de 15 mil gigabytes com alguns milhões de textos arquivados e uma capacidade de processamento equivalente à de 2.800 micros caseiros. Um computadorzão bem programado, só isso.

E tudo isso: para responder perguntas nessa linha, um computador precisa entender a linguagem falada e ter um raciocínio capaz de fazer associações inesperadas. Até fevereiro, isso era exclusividade de humanos. Mas e agora, que perdemos para esse ser gelado? Dá para dizer que a inteligência artificial está se equiparando à nossa inteligência?

O debate está pegando fogo. De um lado, há os que vibram com Watson e similares e acreditam que os computadores vão superar logo a inteligência humana. A outra corrente diz que, por mais complexo e surpreendente que seja o feito de um computador, ele nunca será comparável ao de uma pessoa [1]. Seriam duas inteligências distintas.

O termo "computador" denunciaria isso, por sinal. Até a metade do século 20, "computador" era uma profissão. Eram pessoas responsáveis por fazer cálculos longos - como pegar um monte de dados astronômicos e calcular quando um cometa passaria de novo pela Terra. Pessoas inteligentes, claro. Mas e hoje? Bom, hoje inteligente é quem bola o programa para que o computador resolva as contas.

Toda vez que conseguimos delegar uma função para máquinas, a tarefa perde a nobreza. Isso aconteceu até na derrota do campeão Kasparov para Deep Blue em 1997. Enquanto os defensores da inteligência artificial comemoravam, os da humanidade saíram-se nessa linha: "Bom, xadrez é só um jogo de análise estatística bruta. Não requer inteligência de verdade". Com a vitória no Jeopardy! pode acontecer a mesma coisa: "Computadores vão bem? Ah, o jogo não é nada de mais".

Mas e se habilidades que consideramos pessoais e intransferíveis da nossa espécie puderem ser executadas por máquinas sofisticadas? Como ficamos? Se quisermos reduzir as habilidades do Homo sapiens a instruções de programação, o talento para a poesia, por exemplo, pode ser descrito como um programa capaz de achar uma boa combinação de palavras. E daria para definir um líder político como um sujeito com um bom software para analisar riscos e oportunidades [2].

Não é fantasia. O próprio Watson pode servir para tarefas bem mais humanas que responder perguntas. Programado adequadamente, ele pode fazer diagnósticos com mais precisão que um médico - da mesma forma que uma calculadora de bolso é mais rápida que qualquer gênio da matemática. O supercomputador tem como ouvir relatos orais de pacientes e cruzar os sintomas com o banco de dados de toda a literatura médica em segundos. É mais do que qualquer Dr. House pode fazer. Mas isso torna os humanos dispensáveis? Não. Por mais que uma máquina consiga feitos mirabolantes, ela vai ser sempre uma ferramenta que depende de humanos. Um "computador médico" precisa de médicos para ser programado. Os cérebros humanos por trás são tão importantes que o próprio Watson errou questões por bobeira de programação. Um dos deslizes: perguntaram qual categoria da elite do automobilismo tem o nome de uma tecla de computador. "F-1" era a resposta. Qualquer batedeira tem capacidade de processamento para cruzar uma lista de nomes de teclas com uma de categorias de corridas. Mas a coisa mais próxima que Watson tinha para dizer era "Nascar". Falha dele? Não, dos programadores - a Fórmula 1 é solenemente ignorada nos EUA.

O erro nessas horas é imaginar que as máquinas são uma espécie à parte. Computadores são só alicates e martelos mais complexos [3]. E quando você marreta o dedo não é culpa da natureza do martelo, mas sua, que não soube "programar" a martelada. A vida é melhor com martelos. Com supercomputadores também. A vitória de um é uma vitória da humanidade. E sempre será, mesmo no dia em que uma máquina puder escrever um texto como este bem melhor do que a gente [4].

***

[1] Sempre me pareceu que aqueles que acreditam que os computadores estão "quase chegando ao nível humano" tem uma visão um tanto quanto superficial da mente humana, e da existência em geral. Nós nos diferenciamos das máquinas no sentido em que interpretamos informações do mundo a nossa volta, e não apenas as computamos e/ou cruzamos com bancos de dados na memória. Em suma, somos seres de vontade, e nenhuma máquina até hoje chegou sequer próximo de demonstrar alguma vontade. Mesmo Alan Turing jamais imaginou que um computador seria o equivalente de um ser humano, tudo o que disse é que as máquinas poderiam eventualmente fazerem-se passar por um ser humano, nos copiar quase a perfeição - mas até hoje não há máquina que tenha passado no teste de Turing.

[2] Se é que um computador um dia produzirá poesia de qualidade, isso nada mais será do que o resultado da arte de uma programação. Talvez combinada com uma boa dose de conhecimento da gramática, mas uma programação. Ou seja, um dia talvez programadores sejam poetas - máquinas, nem tanto...

[3] E, como qualquer outra ferramenta criada pela humanidade, são fruto de nossa mente em sua potencialidade criativa. Não faz sentido imaginar máquinas como novas espécies, ah não ser que você contrarie a teoria da evolução e afirme que nós mesmos fomos "programados" por alguma inteligência superior. Quem quer que tenha programado em nós essa divina capacidade de ter vontade, não passou o código-fonte adiante.

[4] Esse artigo, talvez até por ser de certa forma despretencioso, é genial em sua capacidade de síntese do que é e do que não é a inteligência artificial. Ora, devemos sim comemorar os avanços da ciência, da mesma forma que comemoramos a escultura de um gênio da arte. Não podemos é acreditar que, tal qual os mitos de gárgulas, nossas esculturas de silício ganharão vida própria, e deixarão de ser apenas uma ferramenta, para se tornar uma nova espécie - programando a si mesma de alguma forma "mágica".

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Crédito da foto: Adrianna Williams/Corbis.

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25.4.11

Caso Parmod, parte 4

« continuando da parte 3

Texto de Ian Stevenson em "Reencarnação, 20 casos” (Ed. Vida e Consciência) – Trechos das pgs. 163 a 185. Tradução de Carolina Coelho Lima. Os comentários ao final são meus.

Reconhecimentos mais relevantes feitos por Parmod
Abaixo listarei os 6 reconhecimentos mais relevantes de uma lista original com 36 itens. Também optei por ignorar alguns que já foram citados ao longo do meu resumo do texto completo deste caso.

1. Ele “morreu em uma banheira” (Informantes: M. L. Sharma; Verificação: M. L. Mehra, J.D. Mehra, segundo irmão de Parmod)
Comentários: De acordo com Sri M. L. Sharma, Parmod disse que “morreu em uma banheira”. As testemunhas da família Mehra afirmaram que Parmanand tentou uma série de tratamentos com banhos naturopáticos, quando teve apendicite. Ele fez alguns desses tratamentos dias antes de morrer, mas não morreu na banheira. Em uma carta de 6 de setembro de 1949, Sri B. L. Sharma afirmou que Parmod tinha dito que morreu “por ter sido molhado com água” e que ele (Sharma) soubera (supostamente por meio da família Mehra) que alguém dera um banho nele imediatamente antes de sua morte.

2. Ele tinha um cinema em Saharampur (Informantes: B. L. Sharma; Verificação: M. L. Mehra)
Comentários: A família possuía um cinema em Saharampur [1].

3. Seu nome era Parmanand (Informantes: B. L. Sharma; Verificação: M. L. Mehra)
Comentários: Parmod não havia dito o nome Parmanand até o momento em que cumprimentou Sri Karam Chand Mehra, na estação de Moradabad. Ele disse: “Olá, Karam Chand. Eu sou Parmanand”.

4. Explicação de como mexer na máquina de refresco na loja dos irmãos Mohan, em Moradabad. (Informantes: M. L. Mehra, B. L. Sharma, N. K. Mehra)
Comentários: Quando Parmod entrou na loja, um de seus primeiros comentários foi: “Quem está cuidando da panificadora e da fábrica de refrescos?” (Essas eram as funções de Parmanand nos negócios da família.) Ao ser levado até a máquina de refrescos, Parmod sabia exatamente como fazê-la funcionar. A água tinha sido desligada para enganá-lo, mas ele percebeu sem que ninguém lhe dissesse, como aquela máquina complicada tivesse condição de funcionar.

5. Reconhecimento da esposa de Parmanand. (Informantes: Nandrani Mehra, B. L. Sharma, M. L. Sharma)
Comentários: Sugestão não intencional pode ter entrado neste reconhecimento, uma vez que Parmod foi levado entre um grupo de moças e perguntaram a ele se conseguia reconhecer “sua” esposa. Ele ficou tímido e olhou para a viúva de Parmanand. Ela desviou o olhar. Mais tarde, ela disse a outros que Parmod havia dito: “Eu vim, mas você não colocou o bindi”. Essa afirmação referia-se à marca redonda de pigmento vermelho usada na testa das esposas, mas não por viúvas na Índia. O comentário teria sido muito incomum para um menino fazer a uma mulher mais velha, mas totalmente apropriado na relação entre marido e mulher. Ele indica como Parmod acreditava que a senhora era “sua” esposa [2]. Ele também a reprovou por estar usando um sári branco, como as viúvas hindus costumam fazer, em vez de um colorido, como é próprio às esposas.

6. Reconhecimento de Yasmin, um cobrador muçulmano de Parmanand. Parmod disse a ele: “Preciso receber um dinheiro de você”. (Informantes: B. L. Sharma, Raj. K. Mehra)
Comentários: Yasmin, a princípio, ficou relutante em assumir a dívida, mas quando membros da família Mehra afirmaram que não pediriam o dinheiro de volta, ele disse que, de fato, existia uma dívida. As testemunhas disseram valores diferentes [3].

O desenvolvimento posterior de Parmod
Não encontrei Parmod entre agosto de 1964 e novembro de 1971. Mas, durante esses anos, fiquei sabendo notícias dele por meio do Dr. Jamuna Prasad, que havia incluído o caso de Parmod entre aqueles nos quais uma equipe liderada por ele vinha estudando correspondências dos traços comportamentais entre indivíduos e personalidades anteriores relacionadas de casos de reencarnação. Durante esses anos, também recebi algumas cartas de Parmod ou de seu pai com notícias sobre suas atividades atuais.

Em novembro de 1971, pude conversar longamente com Parmod em Pilibhit. Nós nos reunimos no escritório do Soil Conservation Service, no qual ele trabalhava na época. Parmod tinha um pouco mais de 27 anos.

(...) Parmod continuava mantendo amizade com os membros da família de Parmanand, e os encontrava com frequência. Às vezes passava alguns dias com eles em Moradabad, apesar de não ter vivido com eles no período em que estava trabalhando em Moradabad. Com preferências condizentes com as de Parmanand, Parmod via mais os filhos de Parmanand do que a esposa dele em Moradabad.

Parmod disse que às vezes pensava na vida como sannyasi ou homem sagrado (anterior àquela de Parmanand) de que ele havia-se lembrado antes. Ele se lembrava dessa vida de vez em quando, em ocasiões em que se encontrava com pessoas com interesses filosóficos. Das três vidas das quais tinha lembranças, a do sannyasi, a de Parmanand e a de Parmod, ele preferia a de Parmanand. Não conseguia explicar essa preferência.

(...) Discutimos o valor de ele ter se lembrado de uma vida anterior. Parmod respondeu que a experiência não tinha sido útil nem prejudicial, mas imediatamente continuou dando exemplos que sugeriam que a experiência tinha sido as duas coisas.

Por um lado, ele concordava com a mãe em relação ao fato de sua lembrança da vida anterior ter interferido em seus estudos; e se isso fosse verdade, ele não havia se recuperado totalmente dessa deficiência, uma vez que seu avanço futuro dependia em grande parte do fato de completar os estudos e ter um diploma. Por outro lado, ele acreditava que suas lembranças de uma vida anterior também haviam trazido vantagens. No nível prático, ele acreditava que sua perspicácia nos negócios vinha do que ele havia aprendido da vocação da Parmanand [4].

E de modo mais geral, a certeza da continuação da vida depois da morte que suas lembranças lhe davam fazia com que tivesse equilíbrio, o que o ajudava muito em seus relacionamentos pessoais [5].

» Na continuação, minhas considerações finais acerca do caso Parmod.

***

Comentários sobre esta parte. Ao final da série trarei comentários gerais:

[1] É preciso considerar que naquela época (e até mesmo ainda nos dias atuais, em muitas regiões da Índia) os cinemas eram pequenos e administrados como um negócio de família. Mesmo assim, pouquíssimas famílias indianas tinham um cinema, o que aumenta consideravelmente a relevância da informação. É o tipo de coisa que parece a primeira vista uma fantasia, mas que termina por se tornar uma verificação relevante.

[2] É curioso ler nas entrelinhas. Percebam como o menino não se virou para a “esposa” e apontou: “é aquela ali”. Ao invés disso, comportou-se como se apenas houvessem se separado por algum tempo. A relação tempestuosa entre os dois também fica evidente: mesmo após terem sido separados pela “morte”, a primeira declaração de Parmod é uma represaria.

[3] Em todo caso, melhor assumir uma dívida menor do que a real...

[4] Em realidade, sua vocação para negócios era uma de suas potencialidades bem desenvolvidas ao longo de inúmeras vidas, enquanto a personalidade anterior era tão somente a última de uma série onde teve a oportunidade de aprimorar esta potencialidade em específico... Ou, em outras palavras, ninguém nasce gênio por bênção divina ou uma graça aleatória da combinação genética, mas tão somente reflete a potencialidade (ou a “genialidade”) que vem sendo desenvolvida, passo a passo, vida a vida, pelas eras pregressas.

[5] Talvez ninguém tenha mais “certeza” disso do que uma criança que “já nasceu sabendo”. Há muitos que creem em vida após a morte, mas são pouquíssimos os que compreendem ao menos uma parte do mecanismo pelo qual isso ocorre. Crianças que lembram vidas passadas são especiais no sentido de que trazem uma crença que está por si só além de qualquer sistema religioso, científico, ou filosófico, pré-estabelecido pela sociedade.

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Crédito da foto: Doug Pearson/JAI/Corbis.

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21.4.11

Médium de mim mesmo

Como alguns devem saber, estou de novo perambulando pelo Rio, e em meio a correria do centro da cidade, tive a oportunidade de visitar a exposição de Fernando Pessoa no centro cultural dos correios, no que subitamente me senti como que deslocado do tempo e do espaço. Todo centro de cidade grande deveria ter uma exposição permanente como essa, ou de Tagore, ou de Gibran, ou de poetas afins, médiuns deles mesmos...


Tive sempre, desde criança, a necessidade de aumentar o mundo com personalidades fictícias, sonhos meus rigorosamente construídos, visionados com clareza fotográfica, compreendidos por dentro de suas almas. Não tinha eu mais que cinco anos, e, criança isolada e não desejando senão assim estar, já me acompanhavam algumas figuras de meus sonhos – um capitão Thibeaut, um Chevalier de Pás – e outros que já me esqueceram, e cujo esquecimento, como a imperfeita lembrança daqueles, é uma das grandes saudades da minha vida.

(...) Esta tendência não passou com a infância, desenvolveu-se na adolescência, radicou-se como crescimento dela, tornou-se finalmente a forma natural de meu espírito. Hoje já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra sou o executor. Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha.

(...) Médium, assim, de mim mesmo, todavia subsisto. Sou porém menos real que os outros, menos coeso, menos pessoa, eminentemente influenciável por eles todos.

Carta ao casal Monteiro.


Pertenço a uma geração – supondo que essa geração seja mais pessoas que eu – que perdeu por igual a fé nos deuses das religiões antigas e a fé nos deuses das irreligiões modernas. Não posso aceitar Jeová, nem a humanidade. Cristo e o progresso são para mim mitos do mesmo mundo. Não creio na Virgem Maria nem na eletricidade.

Barão de Telve, "A educação do estoico".


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

"Mar português".


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Crédito da foto: Viviam Carvalho (exposição de Fernando Pessoa, quando em São Paulo)

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12.4.11

Caso Parmod, parte 3

« continuando da parte 2

Texto de Ian Stevenson em "Reencarnação, 20 casos” (Ed. Vida e Consciência) – Trechos das pgs. 163 a 185. Tradução de Carolina Coelho Lima. Os comentários ao final são meus.

Meios possíveis de comunicação entre as famílias
Bisauli é uma pequena cidade de 50Km a sudeste da grande cidade de Bareilly, no estado de Uttar Pradesh. Moradabad é outra grande cidade do estado, cerca de 97Km ao norte de Bareilly. Saharanpur fica ainda mais ao norte, cerca de 1600Km.

(...) A família de Parmod não tinha conhecimento da família dos “Irmãos Mohan” e, como já foi mencionado, a família de Parmod não iniciou contatos para combinar um encontro entre as duas famílias. [Elas] entraram em contato por meio de Sri Lala Raghanand Prasad, que tinha parentes em Moradabad, apesar de viver em Bisauli, onde era amigo do pai de Parmod.

(...) Em 1961, a mãe de Parmod afirmou que seu irmão, Sri Shiva Sharan Sharma, empregado de uma estrada de ferro, passou um tempo trabalhando em Moradabad. Ele também conversou com os irmãos Mehra a respeito do comportamento de Parmod depois que tomou conhecimento dele. Sri Shiva e Sri L. R. Prasad podem ter servido de elos telepáticos entre a família Mehra e Parmod [1].

Observações relevantes do comportamento das pessoas envolvidas
Por cerca de quatro anos, dos três aos sete anos, Parmod mostrou um comportamento que indicava uma forte identificação com a personalidade anterior, Parmanand Mehra.

(...) Durante esse período, Parmod costumava ficar sozinho e evitava brincar com outras crianças; ele parecia preocupado com a vida em Moradabad e com frequência pedia a seus pais que o levassem para lá, chegando a chorar por isso. Com relutância, começou a frequentar a escola, com a promessa de sua mãe de que ele poderia ir a Moradabad quando soubesse ler. Parmod reclamou do status financeiro de sua família, que ele comparava de modo desfavorável a “sua” antiga propriedade.

Além do comportamento já mencionado, Parmod demonstrou outros desejos, hábitos e coisas de que não gostava que eu descobri que se relacionavam com traços e experiências de Parmanand. Ele tinha, por exemplo, grande aversão a comer coalhada, cuja ingestão, como já foi dito, acredita-se ter contribuído decisivamente para a doença e morte de Parmanand. Parmod disse ao pai que ele não devia comer coalhada, que era perigoso [2].

(...) Parmod também demonstrava não gostar de ser submerso em água. Ele não tinha problemas com a água de uma torneira, por exemplo, mas ficava ansioso quando lhe propunham nadar ou até banhar-se em um rio, onde seu corpo ficasse todo submerso. Esse medo relacionava-se aos banhos de banheira que Parmanand tomou antes de morrer. Quando Parmod tinha 19 anos, em minha segunda visita, estava livre de ambos os medos descritos acima.

Na primeira infância, Parmod demonstrava uma devoção incomum, que correspondia a um traço parecido de religiosidade em Parmanand. Parmod disse que conseguia se lembrar de alguns fragmentos de uma vida antes daquela de Parmanand, quando era um saanyasi ou homem sagrado [3].

(...) Parmod usava diversas palavras e frases em inglês que seu pai dizia que não poderiam ter sido aprendidas na família, mas que eram apropriadas para Parmanand, que sabia falar inglês. (...) Parmod também mencionava os nomes Tata, Birla e Dolmia, grandes empresas da Índia. A última é uma fábrica de biscoitos [4].

(...) Em um aspecto de seu comportamento, Parmod demonstrava habilidade superior. Um parente que tinha uma pequena loja deixava alguém nela para cuidar dos negócios quando tinha de se ausentar. Parmod demonstrava grande aptidão para cuidar da loja, e esse homem preferia-o a qualquer outra pessoa para substituí-lo na loja.

(...) Ao encontrar membros da família de Parmanand pela primeira vez, Parmod demonstrou grandes emoções, incluindo lágrimas e demonstrações de afeto [5]. Sri M. L. Mehra disse que Parmod, em Moradabad, demonstrava preferência por ficar com ele e não com seu pai [6]. Essa atitude em relação aos membros da família de Parmanand correspondia aos relacionamentos que Parmanand tinha com eles.

Assim, ele se comportava com a esposa de Parmanand do modo como um marido faria, e em relação aos filhos dele como um pai faria. Demonstrava familiaridade com os filhos de Parmanand, mas não com seu sobrinho. Parmod não permitia que os filhos de Parmanand o chamassem pelo nome, mas disse que eles deveriam chamá-lo de “pai”. Ele dizia: “Apenas fiquei pequeno”.

Parmod perguntou à esposa de Parmanand se ela lhe daria trabalho de novo. Em outra ocasião, ele disse, referindo-se à esposa de Parmanand: “Esta é minha esposa com quem eu sempre discuto”. Um informante disse que Parmanand fora irritado pela esposa e que ele havia se mudado para Saharanpur para se afastar dela [7].

(...) Em 1962, o professor Sharma afirmou que Parmod havia “esquecido completamente” os fatos a respeito de sua vida anterior. (...) Ele não pensava muito sobre sua vida anterior, a menos que visitasse algum lugar, como Délhi, e sentisse uma certa familiaridade com alguma área ou construção. Ele tentava relacionar o local com suas lembranças da vida como Parmanand. E ele falava ainda menos da vida anterior aos outros, a menos que, como em minha visita, alguém lhe perguntasse algo específico.

» Na continuação, um quadro com os reconhecimentos mais relevantes de Parmod, e os comentários finais de Stevenson acerca deste caso...

***

Comentários sobre esta parte. Ao final da série trarei comentários gerais:

[1] Estas análises céticas de possíveis formas de troca de informação entre a família da criança e a família de sua suposta vida passada estão presentes em todos os 20 casos descritos no livro. É muito comum que os investigadores deste tipo de fenômeno recorram também a explicações do ramo da parapsicologia, como a telepatia ou a “imposição de personalidade” dos pais aos filhos; muito embora os casos sugestivos do livro sempre tenham ao menos algum detalhe que não poderia ser explicado por outra teoria que não a da reencarnação, ou alguma outra teoria mais elaborada – e que ainda não foi criada.

[2] Fico imaginando se, daqui a algumas décadas, ou até mesmo nos dias atuais, não veremos crianças reclamando dos hábitos alimentares dos pais, ainda antes de terem estudado qualquer coisa sobre o tema...

[3] Isso é um padrão raro entre os casos descritos no livro, assim como nos casos em geral, mas bastante interessante. Ao que tudo indica, ter sido um “homem santo” não livra ninguém de ter de retornar para viver vidas bastante mundanas. Isso pode significar que: (1) Homens santos ou profundamente religiosos podem eles mesmos se interessarem em retornar, para ajudar a evolução da humanidade; (2) Tais “homens santos” tinham apenas um título eclesiástico ou similar, e não possuíam necessariamente uma estatura espiritual condizente com seu posto; ou (3) Uma mistura das duas possibilidades anteriores.

[4] Tais características eram bem mais relevantes no passado, antes do advento da internet. Parmod tampouco tinha acesso a enciclopédias ou grandes bibliotecas... Infelizmente, nos dias atuais, esse tipo de característica torna-se cada vez menos relevante, visto que as crianças já usam a internet desde muito cedo (contanto que tenham acesso a ela).

[5] Neste ponto a mera descrição por palavras, ou cascas de sentimento, é sem dúvida muito aquém do tipo de sensação vivenciada, ainda que não sejamos nós mesmos parentes das famílias envolvidas... Os vídeos sobre o assunto por vezes trazem uma visualização mais relevante, mas nada se compara a vivenciar este tipo de coisa. Não foi à toa que Stevenson trabalhou com isso por quase toda a vida!

[6] Eis a principal razão pela qual os pais das crianças só pesquisam e levam seus casos adiante quando não tem mais outra opção para aplacar a angústia das mesmas. Mesmo em países onde a reencarnação é aceita, nenhum pai passa sem o medo de que seu filho decida simplesmente ir viver com a outra família – embora isso quase nunca ocorra, em todo caso.
Da mesma forma, muitas vezes o esquecimento da vida anterior, que vem invariavelmente com a idade e a falta de convívio, é muitas vezes uma bênção. Pois quem gostaria de viver com saudades por mais uma vida inteira? E quem disse que renascer é fácil?

[7] “Até que a morte os separe” é muitas vezes uma nova bênção.

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Crédito da foto: Photosindia.com/Photosindia/Corbis.

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8.4.11

Caso Parmod, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Ian Stevenson em "Reencarnação, 20 casos” (Ed. Vida e Consciência) – Trechos das pgs. 163 a 185. Tradução de Carolina Coelho Lima. Os comentários ao final são meus.

Parmod Sharma, segundo filho do professor Bankeynehary lal Sharma, nasceu em Bisauli no dia 11 de outubro de 1944 [1].

Aos dois anos e meio de idade, ele começou a dizer a sua mãe para não cozinhar, porque ele tinha uma esposa em Moradabad que poderia cozinhar. Mais tarde, entre três e quatro anos de idade, começou a se referir a uma loja de refrescos e biscoitos que tinha em Moradabad [2].

Parmod pedia para ir a Moradabad. Afirmava ser um dos “Irmãos Mohan” e dizia ser rico e que tivera uma loja em Saharanpur [3]. Ele demonstrava grande interesse em biscoitos e lojas, que eu descreverei de modo mais completo posteriormente. Dizia que em sua vida anterior havia ficado doente depois de comer muita coalhada e que “havia morrido em uma banheira” [4].

Os pais de Parmod, no início, não fizeram nada para verificar as afirmações do menino. Essas notícias chegaram aos membros de uma família chamada Mehra, em Moradabad [5].

Os irmãos dessa família, que tinham uma loja de refrescos e de biscoitos (chamada Irmãos Mohan [6]) em Moradabad e outra loja em Saharanpur, haviam tido um irmão, Parmanand Mehra, que morrera no dia 9 de maio de 1943, em Soharanpur [7]. Parmanand havia sofrido de uma doença gastrintestinal crônica depois de se empanturra de coalhada. Parece que ele sofreu de apendicite e peritonite, e morreu.

Parmanand era um homem de negócios que mantinha uma sociedade com três irmãos e um primo. Eles tinham muitos interesses em Moradabad e Saharanpur, incluindo o negócio de fabricação de refrescos e biscoitos da família, que ele gerenciou por muitos anos.

Quando a família de Parmanand ficou sabendo das afirmações de Parmod por meio das conexões descritas a seguir, eles decidiram visitar o menino em Bisauli.

No verão de 1949, quando Parmod tinha pouco menos de cinco anos, diversos membros da família Mehra foram para Bisauli, mas não encontraram Parmod. Logo depois, Parmod viajou com seu pai e seu primo por parte de mãe para Moradabad. Ali, ele reconheceu diversos membros da família Mehra e diversos pontos da cidade. Posteriormente, visitou Saharampur e fez mais reconhecimentos das pessoas ali [8].

(...) Em 1961, investiguei o caso com a ajuda de Sri Sudhir Mukherjee atuando como intérprete. Em 1962, Sri Subash Mukherjee reuniu alguns relatos de entrevistas com testemunhas. Eu voltei à região em 1964 e reverifiquei o caso com o Dr. Jamuna Prasad como intérprete. A maioria das testemunhas apenas falava híndi, mas o pai de Parmod e um irmão mais velho falavam inglês, assim como Sri Raj K. Mehra (sobrinho de Parmanand Mehra) em Moradabad. Parmod falava apenas um pouco de inglês. Ao preparar este relatório, tive como base, principalmente, minhas entrevistas em 1964.

(...) Usei relatórios [de outros estudiosos do caso] apenas quando as testemunhas que eu entrevistei os leram e os aprovaram como corretos. O material reunido pelo professor B. L. Atreya e os primeiros relatórios têm a vantagem de terem sido escritos logo depois que os principais acontecimentos do caso ocorreram [9].

» Na continuação, um resumo dos relatos e observações relevantes do comportamento das pessoas envolvidas no caso...

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Comentários sobre esta parte. Ao final da série trarei comentários gerais:

[1] Este caso se encontra entre os casos estudados na Índia.

[2] Difícil dizer ao certo quando as memórias surgem. Provavelmente na maior parte dos casos elas já tenham surgido, mas a criança só consegue comunica-las aos pais a partir do momento em que adquire maior domínio da linguagem. Especificamente em casos de xenoglossia em crianças prodígio, é possível que as memórias possam ser comunicadas ainda muito cedo. Porém, devido a raridade desses casos de xenoglossia infantil, a grande maioria dos casos só pode ser verificada após os 2 anos de idade.

[3] Este na realidade é um dos poucos casos do livro em que a vida anterior (ou personalidade anterior, como Stevenson gosta de chamar) tinha uma condição financeira consideravelmente superior a atual. Trata-se obviamente de uma exceção, visto que na Índia do século passado, e mesmo na atual, existe uma proporção muito maior de pobres e classe média do que de ricos.

[4] Um dos motivos porque escolhi este caso sobre outros onde houveram grandes acidentes, assassinos e assassinados, é exatamente porque a morte pode ser considerada “banal”, embora tenha sido traumática. Falarei mais sobre isso ao longo dos comentários.

[5] Este trecho é importante. Muito embora a Índia seja um país onde a crença na reencarnação é fortemente arraigada, isso não significa que os pais tenham interesse em divulgar os “comentários estranhos” de seus filhos. Normalmente, são vizinhos curiosos (ou fofoqueiros) que acabam por divulgar tais notícias, visto que os pais na maior parte das vezes são os menos interessados em seguir adiante nas investigações (principalmente em casos onde há assassinos ou assassinados).

[6] Conforme comentário do autor: O irmão mais velho dos sócios da família Mehra era Mohan Mehra. Seu nome tornou-se relacionado aos negócios da família, chamado “Mohan e irmãos”, abreviado para “Irmãos Mohan”.

[7] Posteriormente irei comentar sobre o tempo médio “entre vidas” e da possível relação de mortes traumáticas com períodos mais breves.

[8] Stevenson analisa detalhadamente cada reconhecimento, o que será descrito em outras partes desta série.

[9] Um problema comum – e constantemente lembrado pelos críticos – das investigações de Stevenson é o fato de na maior parte das vezes terem sido tardias. Acredito que ele tenha aprendido a lição, tanto que o principal “continuador” de seu trabalho, Dr. Jim Tucker, tenha optado por focar em casos norte-americanos, como forma de conseguir chegar às crianças analisadas o mais breve possível. Isso é vital por duas razões: a primeira é a de que na maior parte dos casos as crianças vão se esquecendo das lembranças já a partir dos 7 anos – sendo que muitas se esquecem por completo. A segunda é a de que analisando o caso desde o início, é possível anotar afirmações das crianças ainda antes de sequer terem sido validadas, o que traz uma enorme credibilidade a pesquisa. Não podemos esquecer do caso extraordinário de James Leninger, norte-americano, em que inúmeras afirmações foram comprovadas posteriormente.

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Crédito da foto: Scott Stulberg/Corbis (criança de Jaipur/Índia).

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1.4.11

White Pride

Texto de Tiago de Thuin, autor do blog "Samba do Avião" e também meu amigo de longa data. O comentário ao final é meu.

Volta e meia alguém, mesmo sem ser particularmente racista (numa sociedade que é racista, não dá pra dizer que alguém seja inteiramente livre disso), repete aquela pergunta de white power, "se você pode ter orgulho negro, por que não orgulho branco, ein, ein?" A resposta que eu dou normalmente é a tradicional: porque orgulho negro se trata de orgulho de ter sobrevivido, e ainda sobreviver, a uma sociedade que lhe oprime, assim como o orgulho gay; nessa dicotomia, orgulho branco ou orgulho hétero ou bem são uma besteira sem sentido ou bem são orgulho de fazer parte dos opressores. E sinceramente, a não ser que você seja uma dominatrix, acho que ninguém acha tão legal ou virtuoso oprimir os outros quanto manter a cabeça erguida diante da opressão. O orgulho negro, ou gay, explícito, se dá justamente para afirmar o valor frente a um orgulho implícito branco ou hetero fortíssimo. É como a piada do dia internacional da mulher; agora que acabou voltamos ao ano internacional do homem.

Hoje, vendo a wikipédia sobre os bairros do Rio, achei algo que atenta para uma das facetas desse orgulho, que se mistura com a noção dos EUA como modelo de civilização. É que o brasileiro - ou pelo menos, e principalmente, a classe média brasileira, que é afinal de contas principalmente branca e poderia concordar com a frase infeliz de Gilberto Freyre quando este diz que o brasileiro se misturou com o negro e com o índio - tem, muitas vezes, um orgulho desmesurado de suas raízes imigrantes. Você tem um único imigrante na família? Basta para se proclamar "italiano," "alemão," ou "espanhol." A importância da imigração é ensinada na escola, mesmo em livros radicais de esquerda, de forma epocal; no fim do século XIX, saem as lutas dos escravos, exceto por uma nota de rodapé dizendo que não foram devidamente apoiados após a abolição, e entram os imigrantes. O povo brasileiro do século XX, nessa visão, é imigrante.

E ora, o Brasil não chega a ser exatamente um país de imigrantes, não na escala dos EUA ou da Argentina. A maior leva imigratória brasileira, de muito longe, foi mesmo a africana, forçada; 4,4 milhões de escravos, versus 3,3 de todos os imigrantes não-escravos juntos. E esses 3,3 milhões de imigrantes, ao longo da maior parte de um século, se somaram a um país que tinha, em 1872, quase dez milhões de habitantes, dos quais seis milhões de pretos e pardos. A imensa maioria do Brasil (e não da classe média) é mesmo descendente, não de imigrantes, mas de pretos, ibéricos da época da colônia, e índios; os imigrantes não chegam a ser um prato principal nessa mistura. Como foram trazidos justamente, em parte, por se acreditar na sua "superioridade racial," e se beneficiaram tanto de leis de imigração que em alguns momentos foram ridiculamente generosas quanto do racismo em geral, os imigrantes rapidamente viraram a nova classe média, expulsando dela a maior parte dos mulatos.

No caso dos bairros da wikipédia, chega a ser hilário. Alguém realmente acha que um componente importante da população de Botafogo é inglês? (No caso, como o modo de valorizar a imigração segundo o modelo americano já foi estabelecido, somaram ali uma igualmente enigmática Angola.)

Outro caso em que esse orgulho, essa ânsia de ser imigrante (e não-negro ou se mestiço só o bastante pra ter bunda, de preferência) fica engraçado é nos números anunciados da população "x" do Brasil. Fora os portugueses e os italianos, cujo número no Brasil é mesmo substancial (se bem menor, no caso dos segundos, que na Argentina), com efeito, os números propagandeados significariam que todo japonês, árabe, e alemão que veio pro Brasil teve mais filhos que o Genghis Khan. Assim, São Paulo sozinha teria mais de seis milhões de libaneses, apesar de haver, nos censos de 1920 e 1940, uns cinquenta mil imigrantes daquelas bandas. Os 250.000 alemães que chegaram até 1970 representariam a maior parte da população do Sul - uma multiplicação de 1 pra cada 50, pelo menos, o que significa que o Gobineau estaria certo e a fertilidade ariana era mesmo maior, já que se os pobres bugres brasileiros da mesma época tivessem se multiplicado do mesmo jeito, o Brasil seria mais ou menos do tamanho da Índia.

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Comentário
Existem realmente muitos racistas assumidos no país, pelo menos assumem "em família", qual a família que não conta pelo menos um? Mas a grande maioria é racista mesmo sem perceber, por isso que é sempre válido refletir sobre isso...

Para mim, o racismo é sobretudo um fardo. O que eu tenho de racista, tento sempre me livrar, pois em última instância é apenas ignorância, uma ignorância que pode me afastar de conhecer boas pessoas.

Não custa lembrar: não afirmo que o racismo seja ignorância por mera opnião, mas porque já foi comprovado cientificamente que não existem raças humanas, e todos os homo sapiens compartilham um único genoma.

"A palavra raça não identifica nenhuma realidade biológica reconhecível no DNA de nossa espécie, e portanto não há nada de inevitável ou genético nas identidades étnicas e culturais, tais como as conhecemos hoje em dia. Sobre isso, a ciência tem idéias bem claras." - Guido Barbujani em "A Invenção das Raças" (Editora Contexto).

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Crédito da foto: Leonardo Martins (Quilombolas no estado do Rio, aprox. 1940)

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