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25.7.11

4 amores, parte 1

Amor: Pode significar afeição, compaixão, misericórdia, ou ainda, inclinação, atração, apetite, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo, libido, etc.

Porno: o despertar

Em algum córrego de água fluente, colônias de bactérias lutam pela sobrevivência. Um grupo de colônias flutua pela correnteza, e guarda toda a energia adquirida do ambiente para sua auto-preservação. Muitas vezes o grupo flutua junto, muitas vezes algumas bactérias se desprendem e rumam para o fim quase certo... Mas, um outro grupo gasta parte de sua energia para produzir uma peculiar substância viscosa. A primeira vista, pode parecer um grande desperdício, uma mutação fadada à extinção. Porém, tal substância faz com que as bactérias se agrupem de forma mais eficiente, e suas colônias tendem a permanecer sempre muito próximas a superfície das águas, onde suas chances de sobreviver e prosperar aumentam enormemente.

O altruísmo parece ser uma evolução da espécie. Através desse sistema peculiar da natureza, seres de uma mesma espécie, ou até mesmo de espécies diferentes, se auxiliam mutuamente, em situações onde a ajuda mútua faz com que os seres terminem por aumentar sua adaptabilidade ao meio ambiente, e sobrevivam com mais eficiência conjuntamente do que em separado.

Talvez o melhor exemplo de um “despertar do altruísmo” em nossos ancestrais hominídios esteja intimamente ligado ao fato de hoje andarmos eretos. Segundo uma teoria, o bipedalismo e a redução dos dentes caninos foram acompanhados das primeiras convenções sociais entre os caçadores-coletores. As fêmeas passaram a preferir machos menos agressivos, e passaram também a trocar sexo por comida, além de se comprometerem por mais tempo com a "educação" dos filhos. Isso favoreceu nos machos, e conseqüentemente em toda a espécie, o bipedalismo: assim poderiam se deslocar por distâncias maiores, e carregar oferendas (pequenos pedaços de comida, sejam frutos ou carne de animais abatidos) para trocar por sexo. A redução dos caninos talvez indicasse que os machos não precisavam mais competir agressivamente pelas fêmeas, e que a troca de carinho (sim, talvez pudéssemos usar esta palavra) era mais reconfortante e necessária, então, do que as lutas sangrentas pelo direito de copular com as fêmeas.

Se alguém tinha dúvidas de que a prostituição era a profissão mais antiga do mundo, a arqueologia e a antropologia têm nos deixado muito clara essa questão: não só parece ser a profissão mais antiga, como também a razão primária do primeiro sistema de trocas entre seres humanos, ou mesmo entre hominídios... O termo em grego antigo para a prostituição era pornea, que em português seria algo como porno ou pornôa pornografia nada mais é, portanto, do que “a ilustração ou imagem da prostituição”.

Numa relação pornográfica, há sempre um indivíduo que visa obter alguma compensação financeira pela “oferta” de seu corpo a um outro indivíduo que, por sua vez, visa uma satisfação sexual em troca do dinheiro despendido. Milhões de anos se passaram, e muitos de nós continuam se comportando como hominídios, como se tivéssemos acabado de aprender a andar com apenas “duas patas”...

Schopenhauer era um pensador admirado com a capacidade do instinto sexual de afetar a razão até mesmo dos homens e mulheres mais sábios de nossa sociedade. Não é preciso ir muito fundo no assunto: até os dias de hoje há grandes chefes de família, de função respeitada na sociedade, que subitamente arriscam perder tudo apenas para poder vivenciar alguma nova “aventura sexual” que lhes aparece subitamente no horizonte... Dentre os mais jovens então, nem se fala – observe a entrada de uma casa noturna em alguma grande metrópole e verá que aquele espaço nada mais é, para a grande maioria dos jovens, do que uma versão moderna do “terreno de caça” dos hominídios.

O filósofo alemão não conseguia vislumbrar na força motriz da vida mais do que uma espécie de escravidão dos sentidos: “A vida da maioria dos insetos não passa de um esforço incessante de preparar a alimentação e a moradia da futura prole, que sairá de seus ovos. Depois de ter consumido o alimento e ter passado para o estágio de crisálida, a prole começa uma existência cuja finalidade é cumprir novamente, e desde o princípio, a mesma tarefa; não podemos deixar de indagar qual o resultado de tudo isso; não há nada a revelar, apenas a satisfação da fome e do instinto sexual e uma pequena recompensa momentânea, ocasional, entre necessidades e esforços infindáveis.”

Realmente, se pararmos para refletir acerca das zonas erógenas do corpo humano, a princípio podemos imaginar que há uma grande variedade delas: Pescoço, nuca, lóbulo da orelha, lábios e língua, mamilos, nádegas, coxas e dedos, além dos próprios órgãos sexuais... No entanto, quantas e quantas vezes fazemos sexo ao longo da vida? Quantas e quantas repetições intermináveis de seqüências de movimento mecânicos envolvendo somente um punhado de zonas erógenas? Por mais que existam inúmeras possibilidades para o ato sexual, no fim o que nos motiva, o que nos carrega nesse desejo desenfreado, é o instinto em si, é a força motriz de Schopenhauer – a forma com a qual a natureza ensaiou a grandiosa dança da vida.

Essa forma de contato, essa forma de troca, essa forma de altruísmo, no entanto, não deve ser julgada apenas pelo que é, mas pela potencialidade que é capaz de despertar no ser humano.

Enquanto nos contentarmos em repetir os rituais de nossos ancestrais hominídios, seremos ainda apenas “prostitutos de nós mesmos”, pois nesse sistema de troca animal tanto faz em que posição estamos – ambos, o macho e a fêmea, ou o ativo e o passivo, estão apenas encenando repetidamente a dança da vida, que embora possa ser bela e ancestral, nem sempre condiz com o nosso atual estágio de consciência.

É possível, é necessário, despertar, e evoluir no nosso caminho de altruísmo. Não mais tratar o próximo como uma fonte de troca de sexo por dinheiro ou dinheiro por sexo, mas como uma possibilidade de reconhecimento mútuo, de cumplicidade, de companheirismo, de conhecer, quem sabe pela primeira vez, “a visão do outro”...

Se Deus nos deu o dom do amor, não me parece que devêssemos nos contentar em utilizá-lo apenas como moeda de troca, como uma espécie de barganha. Da mesma forma com que alguns recorrem a Deus com oferendas e orações decoradas, apenas com o objetivo de conseguir alguma espécie de “bênção” em troca (geralmente o mais rápido possível), muitos de nós ainda vêem o ato sexual como mera barganha, mero “comércio de amor”. Mas o amor não pode ser comprado nem vendido, e o seu sistema de troca está ainda muito além da compreensão dos hominídios...

Ainda assim, eles o reconheceram. Aprenderam a andar em duas patas e, pela primeira vez em sua existência, puderam observar o céu e o infinito para além dele, e não mais apenas o nível do solo a sua frente. Alguma coisa em seu interior se acendeu e desejou ardentemente seguir adiante, sempre para o alto, cada vez mais alto... E, embora suas patas tenham permanecido arraigadas a terra, sua mente e seus corações passaram a perceber o início de uma trilha.

Ali começava o caminho do amor, e quem poderia imaginar até onde ele poderia nos levar?

» Na continuação, o segundo amor: eros...

***

Nota: Este artigo não deveria ser entendido como uma crítica a prostituição. A prostituição é uma atividade profissional como qualquer outra (ou ainda, a mais antiga delas). O problema não é se prostituir durante uma parte da vida, mas sim se prostituir durante toda a vida. Ou seja: não ter, durante a vida, nada além de relações de prostituição.

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Crédito das fotos: [topo] I Love Images/Corbis; [ao longo] Boris Roessler/dpa/Corbis (Bonobos)

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13.10.09

Oferendas ancestrais

O bipedalismo, ou seja, a capacidade de se andar apenas com dois membros, e não com quatro, é uma característica desenvolvida por pouquíssimos animais ao longo da evolução das espécies. Como se sabe, um desses animais é o homo sapiens. Segundo a teoria de Darwin-Wallace, o homo sapiens evoluiu a partir de um ancestral comum com o chimpanzé, ou pelo menos esta era a teoria mais aceita até alguns anos atrás. Uma outra teoria acerca da evolução humana postulava que o bipedalismo foi desenvolvido sobretudo quando os humanos arcaicos, ancestrais do homo sapiens, abandonaram as regiões africanas de densas florestas e se aventuraram nas pradarias, onde a capacidade para arrancar frutos e carregar comida e armas de caça seria, talvez, mais importante do que a velocidade e equilibrio conferidas pelo andar em quatro patas, o que seria muito mais útil para se fugir de predadores.

No entanto, descobertas da arqueologia nas últimas décadas tem colocado em xeque tais teorias. Particularmente a descoberta do esqueleto de Ardi (ardipithecus ramidus) encontrado em 1992. O esqueleto demorou três anos para ser escavado pela equipe do Projeto Médio Awash, em Aramis, na Fenda de Afar, Etiópia. Sua reconstrução foi realizada por dezenas de cientistas de todo o mundo, sendo que atualmente a liderança dos estudos está em mãos de Tim White. Ele trabalha com Paleontologia e Arqueologia Paleolítica na África desde 1974, sendo professor de biologia da Universidade da Califórnia em Berkley e codiretor do projeto que atuou na retirada do achado.

Após mais de uma década de análises minuciosas, as conclusões finais dos arqueólogos e cientistas envolvidos foram finalmente publicadas na revista Nature de Outubro de 2009. A datação de Ardi como tendo vivido a 4,4 milhões de anos, e sua combinação única de bipedalidade indiscutível com os dentes molares pequenos, assim como a curiosa semelhança dos pés com os pés de outros símios, capazes de agarrar objetos com as mãos, lança muito mais dúvidas do que certezas no estudo dos cientistas.

Primeiro, fica comprovado que o "elo perdido", ou a espécie ancestral que o homo sapiens teria em comum com outros símios, teria vivido há muito mais tempo do que antes se imaginava, há pelo menos 7 milhões de anos. Isso levanta a curiosa hipótese de que os chimpanzés evoluíram por muito mais tempo após terem se "dissociado" de nosso galho evolutivo. Nesse sentido, é possível que muitas características dos chimpanzés sejam exclusivas deles, e nunca tenham estado realmente presentes em humanos arcaicos.

Mas a questão mais curiosa é que, além da bipedalidade ter se desenvolvido há muito mais tempo do que antes se imaginava (sabe-se também que ela ocorreu milhares de anos antes do aumento e evolução do cérebro humano), estudos da região onde Ardi foi encontrada comprovaram que, em sua época, há mais de 4 milhões de anos, aquela região da Etiópia era cercada por densas florestas! Isso significa que a ciência precisa arranjar uma nova e arrojada explicação para o motivo dos humanos arcaicos teremos evoluído para a bipedalidade e os caninos menores, ainda milhares de anos antes de desenvolverem a cognição peculiar da mente do homo sapiens.

Uma das hipóteses que mais me agradaram foi a descrita no documentário da Discovery Channel. Segundo essa teoria, o bipedalismo e a redução dos dentes caninos foi acompanhada das primeiras convenções sociais entre os caçadores-coletores. As fêmeas passaram a preferir machos menos agressivos, e passaram também a trocar sexo por comida, além de se comprometerem por mais tempo com a "educação" dos filhos. Isso favoreceu nos machos, e consequentemente em toda a espécie, o bipedalismo: assim poderiam se deslocar por distâncias maiores, e carregar oferendas (pequenos pedaços de comida, sejam frutos ou carne de animais abatidos) por sexo. A redução dos caninos talvez indicasse que os machos não precisavam mais competir agressivamente pelas fêmeas, e que a troca de carinho (sim, talvez pudéssemos usar esta palavra) era mais reconfortante e necessária, então, do que as lutas sangrentas pelo direito de copular com as fêmeas.

Será que isso faz sentido? Será que nossas convenções sociais, nossa organização em famílias de indvíduos, tem uma origem ancestral, bem mais antiga até do que nossa cognição avançada?

Hoje se sabe que o altruísmo é uma forma de evolução da espécie. Grupos de indivíduos capazes de colaborar entre si tem maiores chances de sobrevivência do que indivíduos solitários que caçam sozinhos. Sim, eles tem maior reserva de alimento, mas muito menos proteção contra outros predadores, e contra a própria solidão da vida selvagem... Caso possamos fazer uma associação entre o altruísmo e o que o homem moderno chama de amor, talvez o estudo científico da evolução humana nos traga lições muito mais profundas do que a mera compreensão do mecanismo pelo qual nossos corpos evoluíram. Talvez compreendamos que não foram apenas dentes que deixaram de ser pontiagudos, ou mãos que passaram a ser capazes de produzir ferramentas especializadas, mas antes a evolução social que potencializou nossas chances de sobrevivência, e nos tornou a espécie dominante deste planeta.

Talvez, as oferendas ancestrais de humanos arcaicos em troca de sexo, dando origem aos rudimentos do que hoje chamamos de família, tenha sido o momento-chave que possibilitou toda a evolução seguinte. Afinal, a partir do momento que deixamos de rastejar junto ao solo, buscando comida e sobrevivência, e passamos a andar eretos, e a enxergar as estrelas no céu, e os olhos e a face de nossos semelhantes, possivelmente tenhamos passado a desenvolver o rudimento da consciência de nós mesmos, e do que afinal viemos fazer nesta terra.

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Crédito da imagem: J.H.Matternes

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