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13.11.18

Buda, o Darma e o Karma (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo veremos como viveu e morreu, quiçá pela última vez, Sidarta Gautama, o Buda, o homem que atingiu a iluminação, e depois passou o resto da vida ensinando aos demais como alcançá-la. Também trarei o novo lançamento das Edições Textos para Reflexão: "Dhammapada", o texto budista mais lido e traduzido no mundo. Ao final, veremos o que são, afinal, o Darma e o Karma.

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1.11.18

Lançamento: Dhammapada, O Caminho do Darma

As Edições Textos para Reflexão desta vez trazem a você o livro mais lido e traduzido do budismo, Dhammapada: O Caminho do Darma.

Segundo a tradição, ele teria sido composto pelas anotações dos discípulos que chegaram a conviver com o Buda. Ou seja, se trata do que nos foi ditado pelo próprio Buda. Monges budistas da vertente teravada registraram o Cânone Páli algumas centenas de anos após a morte do Buda. O Dhammapada é uma parte do Sutta Pitaka, que por sua vez é uma parte do Cânone Páli. Trata-se de uma coleção de 423 versos que nos demonstram como viver uma vida que conduza à iluminação. Quem consegue viver uma vida neste caminho, segue o seu Darma.

Disponível em e-book e versão impressa :

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À seguir, trazemos um trecho do Prefácio (por Rafael Arrais, tradutor da obra):


Uma criança é um Buda que não sabe que é um Buda. E um Buda é uma criança que sabe que é um Buda. (Satyaprem)

Enquanto vivia sua juventude em meio ao luxo do palácio de sua família, o príncipe Sidarta era mesmo puro, puro como a criança que tem a sorte de viver uma infância de belezas. Diz-se que seu pai, o governante de Kapilavastu (um reinado que se situava ao sul de onde hoje existe o Nepal), tentou proteger o filho de qualquer tipo de sofrimento humano, e o criou dentro dos limites do próprio palácio, sem que tivesse contato com o que havia fora dele.
Quando fez 16 anos, Sidarta Gautama se casou com uma prima da mesma idade e com ela teve um filho. Até os 29 anos, o príncipe viveu uma vida sem grandes incidentes, tendo a sua mão todo o conforto material de que poderia necessitar, embora se diga que nada disto jamais o seduziu. Talvez faltasse algo naquela vida de contos de fada, afinal...

Inquieto em meio a uma vida de perfeições palacianas, aos 29 anos Sidarta resolve sair de seu palácio (sem o conhecimento do pai), acompanhado somente por um cocheiro, que pilotava a sua luxuosa carruagem. Diz-se que ele fez quatro viagens curtas para além das muradas palacianas, finalmente tendo contato direto com o mundo lá fora:
Na primeira viagem, avistou um homem velho e decrépito, apoiado num cajado. Seu cocheiro prontamente lhe explicou que envelhecer era o destino de todas as pessoas.
Na segunda viagem, avistou um homem doente e cambaleante, ardendo em febre. Seu cocheiro complementou que muitas doenças eram inevitáveis na vida.
Na terceira viagem, avistou um corpo já em decomposição, sendo conduzido a um cemitério local. Seu cocheiro explicou que ninguém poderia escapar para sempre da morte.
Desolado e deprimido, em sua quarta viagem o príncipe finalmente avista um monge mendicante calmo e sereno, mesmo conhecendo a velhice, a doença e a morte, como todos os demais que viviam fora dos palácios. Essa visão o consola e, ao mesmo tempo, estabelece um novo sentido para a sua vida: chega de palácios artificiais, chega de infância, Sidarta desejava ser adulto em meio ao sofrimento do mundo.
Numa noite, enquanto todos no palácio dormiam, saiu novamente acompanhado de seu amigo cocheiro, cada um montando um cavalo. Desta vez, a viagem seria bem mais longa...

A alguns quilômetros de distância de Kapilavastu, Sidarta parou, cortou os próprios cabelos com sua espada, trocou as roupas luxuosas pelos trajes simples de um caçador, e se despediu do amigo, que retornou ao reino com ambos os cavalos.
Transformado em monge andarilho sob a alcunha de Gautama (o nome da sua família), dirigiu-se para Vaisali, onde um mestre bramânico indiano, Arada Kalama, ensinava um sistema filosófico que ficou conhecido como sanquia. Aprendendo-o rapidamente, mas julgando-o insuficiente, ele deixa o mestre e se dirige a Rajagarra, capital do reino Mágada, ao sul do rio Ganges. Lá conhece o rei Bimbisara, que, seduzido pelo seu já vasto conhecimento, lhe oferece a metade do próprio reinado, mas o monge Gautama gentilmente recusa a oferta, e logo se torna discípulo de outro mestre, chamado Udraka.
Após apenas um ano, domina com facilidade as técnicas e a filosofia do yoga ensinado por Udraka, e parte rumo à cidade de Gaya acompanhado por cinco discípulos, que já o tinham como mestre. Gautama se estabelece num local aprazível nas proximidades de Gaya, e lá se submete, durante alguns anos, à ascese mais severa. Chegou a se alimentar com um único grão de milho por dia.
Meditando imóvel, magro como um esqueleto coberto de parcas camadas de pele, eventualmente recebeu o título de sakyamuni (“asceta entre os Sakya”, o clã dos Gautama). Ao atingir o extremo limite da mortificação, finalmente compreendeu a inutilidade da ascese total como meio de libertação do sofrimento do mundo, e decidiu encerrar aquela prática.
Diz-se que uma mulher piedosa, ao ver o seu estado deplorável, lhe ofereceu um pote de arroz cozido. Para a imensa surpresa de seus discípulos, que naquela altura o veneravam, o monge Gautama aceita a oferta e devora o alimento. Consternados, seus cinco discípulos o abandonam a própria sorte...

Milagrosamente restaurado pelo arroz, Sidarta dirige-se a um bosque próximo, escolhe uma árvore (que eventualmente foi chamada de bodhi-druma, sânscrito para “a árvore do despertar”) e se senta ao pé de suas raízes, decidido a se levantar somente após haver obtido o “despertar”, ou seja, uma forma de se livrar definitivamente do sofrimento da existência.
Diz-se que, durante as sete semanas em que permaneceu aos pés da árvore, Sidarta foi tentado e atormentado inúmeras vezes pela entidade conhecida como Mara, que reinava sobre a morte. Ora, Sidarta ameaçava ensinar aos homens e mulheres a se libertarem definitivamente do ciclo de nascimentos, mortes e renascimentos, portanto era natural que Mara quisesse impedi-lo.
Em suas reflexões internas, Sidarta avançava rapidamente, estava a um passo de se tornar Buda, “o desperto”. O último recurso de Mara foi lhe oferecer a passagem imediata para o Nirvana, o estado além da vida onde o príncipe se encontraria livre, para sempre, dos ciclos de mortes e renascimentos. Sidarta lhe respondeu que só aceitaria entrar no Nirvana após ter estabelecido naquele mundo uma comunidade instruída e bem organizada, que soubesse ensinar o caminho da libertação...

Assim, após sete semanas aos pés da árvore do despertar, o príncipe Sidarta Gautama venceu definitivamente a tentação de Mara, e se ergueu como o Buda, o primeiro desperto, o primeiro ser que conheceu o caminho para a libertação do sofrimento.
Aos 35 anos, o Buda iniciou sua peregrinação pelos vilarejos, pequenas cidades e grandes reinados dos arredores da região onde atingiu a iluminação. A pé, carregando pouco mais que a roupa do corpo, acompanhado por dezenas de discípulos (dentre os quais, aqueles cinco que lhe haviam abandonado), o Buda passou 45 anos ensinando as chamadas quatro nobres verdades que conduziam ao Darma, o caminho para a iluminação: a existência do sofrimento; a origem do sofrimento; a interrupção do sofrimento; e o caminho que nos leva à cessação do sofrimento.
A criança havia perdido sua pureza, e conhecido as dores da vida adulta. Mas, ao contrário de tantos outros, o adulto havia encontrado um meio para se libertar definitivamente de todo o sofrimento, e alcançar novamente a pureza infantil, mesmo tendo conhecido a dor. Sidarta era novamente como uma criança, mas era também um Buda que sabia que era um Buda.
Aos 80 anos, depois de padecer de uma forte diarreia em decorrência, provavelmente, de haver ingerido carne de porco estragada, o Buda se despediu deste mundo e pôde finalmente alcançar o Nirvana. Diz-se que isto se deu no nordeste da Índia, na cidade de Kushinagar. A data provável é o ano de 483 a.C.

Assim viveu e morreu, quiçá pela última vez, Sidarta Gautama, o Buda, o homem que trouxe o budismo a este mundo.


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24.10.18

Anjos e Devas

Em diversas religiões é comum a existência de seres espirituais de diferentes categorias. Eles podem variar em termos de desenvolvimento espiritual, moral, poderes e entendimento.

No budismo existem muitos reinos espirituais ou planos de existência que fazem parte de sua cosmologia. Nos estados de privação temos, por exemplo, os asuras (demônios), espíritos famintos e os animais. Podemos renascer como demônios como resultado de karma ruim. Há também diferentes categorias de reinos de devas. Quando temos um bom karma podemos renascer como devas ou como humanos.

É verdade que o reino humano (manussa loka) encontra-se abaixo de muitos dos reinos de devas na hierarquia. Porém, ao atingir os estados de jhanas, um ser humano torna-se capaz de atingir os reinos dos devas.

Na cosmologia do budismo, nascer como ser humano é considerado o melhor tipo de nascimento, pois possui um equilíbrio único de prazer e dor, que é ideal para nos libertar dos ciclos de nascimentos e mortes.

Os devas experimentam muito mais prazer que dor e se encontram em reinos mais elevados do que os humanos. Em compensação, por se encontrarem em estados de tanta alegria, eles não sentem a urgência de se libertar e portanto se torna difícil para eles atingir o nirvana. Por sua vez, os demônios experimentam muito mais dores do que prazer, o que se torna um estado que dificulta enormemente o desenvolvimento espiritual.

Nós humanos normalmente buscamos o prazer e fugimos da dor, o que acaba nos gerando um problema similar ao enfrentado pelos devas: nós ficamos tão distraídos com os prazeres e alegrias que nos esquecemos de trilhar o Caminho Nobre, ou não vemos tanta urgência para isso.

As religiões indianas costumam compensar esse problema sugerindo uma vida de mais simplicidade, meditação, leitura das escrituras ou, em alguns casos, a prática de certas penitências. As austeridades não devem ser excessivas, ou cairíamos num estado similar aos demônios: muita dor impede o desenvolvimento espiritual. Devemos seguir, como Buda sugeriu, o Caminho do Meio, que o nascimento humano já proporciona naturalmente. Basta então adotar as práticas corretas.

Disso tudo concluí-se uma coisa: apesar de na hierarquia os devas (similares aos anjos do cristianismo) se encontrarem num estado superior, por possuírem bom karma, nascer como ser humano é melhor do que ser deva. Através dos estados refinados da mente (jhanas) podemos “ser como devas”. Ao atingir os quatro primeiros jhanas materiais alcançamos um estado mental equivalente ao dos devas. Porém, ao atingir os jhanas imateriais atingimos reinos acima daqueles que os devas podem alcançar, até que conquistamos a iluminação, que é, espiritualmente falando, praticamente inacessível a eles. Por isso é comum que devas escutem os discursos de humanos que já conquistaram alguns jhanas imateriais e as primeiras etapas da Iluminação. Ajahn Mun costumava discursar para devas mesmo antes de se iluminar, quando já estava avançado no entendimento.

Pode-se dizer que existe um ensinamento semelhante no cristianismo. Nós costumamos olhar os anjos como se eles estivessem numa categoria muito acima daquela dos humanos, mas não é bem assim.

O Corão nos conta que, no princípio, Deus criou Adão num estágio de desenvolvimento espiritual até mesmo acima dos anjos. Por isso Deus ordenou que os anjos se ajoelhassem diante dele. Porém, Lúcifer teria se recusado e por isso ele foi expulso do paraíso, de acordo com o islamismo.

É dito no cristianismo que os anjos se encontram constantemente na presença de Deus. Por isso, eles não têm dúvidas de sua existência. São Tomás de Aquino nos conta que eles não possuem corpos materiais, mas espirituais. Sendo assim, são capazes de apenas dois pecados principais: orgulho e inveja, tidos como os piores, pois são pecados do espírito e não da carne.

Os humanos, por outro lado, são capazes de realizar os sete pecados capitais. Eles também não são capazes de ver Deus. Num primeiro olhar, consideraríamos isso como uma desvantagem, certo?

Porém, não é bem assim. De forma similar ao budismo, é dito que os humanos se encontram num equilíbrio de dor e prazer ideal para adquirirmos humildade. É verdade que Adão e Eva caíram, porque pecaram. Eles queriam ser como Deuses, assim como Lúcifer. Porém, a “punição” de Lúcifer e de Adão foram diferentes. Na verdade, essa punição tem mais relação com uma condição que nos ensinará a humildade mais facilmente.

Nós humanos nos tornamos mortais. Porque morremos podemos valorizar mais a vida, considerando-a preciosa. Isso irá apressar nossa urgência de nos desenvolvermos espiritualmente. A mesma urgência que os devas não possuem, já que eles vivem muito mais que nós.

Para completar, porque os seres humanos podem cair em mais pecados que os anjos, eles poderão aprender a humildade com rapidez. Irão reconhecer que são fracos. Da mesma forma que no budismo é dito que, porque o ser humano experimenta certo grau de dor, ele irá buscar atingir a iluminação com mais urgência, sem tantas distrações.

E, finalmente, uma questão chave: Deus não se mostra claramente para os seres humanos. É dito que Deus mantém uma distância epistêmica de nós, não deixando sua existência totalmente clara, pelo mesmo motivo que ele respeita nossa liberdade: é superior escolher o bem quando é possível optar pelo bem ou pelo mal do que se não tivéssemos escolha nenhuma. De forma análoga, é superior acreditar em Deus quando ele não se mostra claramente do que caso ele deixasse bem claro que existe.

Os anjos caminham sempre na presença de Deus e não têm dúvidas de sua existência. É muito mais difícil caírem em pecado, por não terem corpos. Sendo assim, a missão deles é diferente. Eles podem, por exemplo, nos guiar, nos ajudar e nos inspirar.

Não é que os anjos sejam inferiores aos humanos no cristianismo. Em muitos aspectos, os anjos são superiores aos humanos, da mesma forma que os devas são superiores: por não terem corpos, possuem muitos poderes especiais que nós humanos não possuímos. E por terem um nível mais elevado de entendimento espiritual (afinal, os anjos sempre estão com Deus e os devas se mantém sempre num estado equivalente aos jhanas materiais), eles são capazes de saber coisas que desconhecemos.

No entanto, a fraqueza humana pode se tornar uma força que nos torna capazes de ir mais longe. No catolicismo é dito com muita clareza que quando um ser humano se torna um santo, o seu desenvolvimento espiritual se torna tão elevado quanto o de um anjo. Da mesma forma que uma pessoa ao atingir jhanas materiais torna-se tão elevado quanto um deva.

Existe essa passagem misteriosa na Bíblia:

“Ousa algum de vós, tendo algum negócio contra outro, ir a juízo perante os injustos, e não perante os santos? Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas pertencentes a essa vida?” (1Cor 6:1–3)

Existem diferentes interpretações para essa passagem. Alguns dizem que os humanos que se tornarem santos serão aqueles a julgar os anjos caídos no Juízo Final.

E não podemos nos esquecer que no catolicismo há Maria, mãe de Deus. Ela só está abaixo da Santíssima Trindade. Encontra-se até mesmo acima dos anjos. O que nos sugere que um ser humano possui o potencial de atingir um estágio até mesmo superior ao dos anjos, como é o exemplo de Adão no islamismo, quando estava no Jardim do Éden, e de Maria no catolicismo.

Vejo isso como um teste de Deus para ambos: para anjos e para humanos. Os humanos devem desenvolver humildade lembrando que Deus e os anjos se encontram acima deles na hierarquia. E os anjos devem desenvolver humildade lembrando que Deus está acima deles e os seres humanos possuem um potencial de elevarem-se a alturas que somente Deus sabe, de acordo com o nível de santidade de cada um.

Porém, a isso o catolicismo não coloca nenhuma dúvida: um santo é equivalente a um anjo. Não em natureza, mas em nível espiritual e de entendimento. Por isso eles podem adquirir até o poder de fazer milagres, originalmente apenas pertencente a anjos. E por isso quem atinge jhanas materiais no budismo pode adquirir alguns poderes psíquicos, como os devas.

Que tudo isso nos sirva de reflexão e para recordarmos: nascer como humano é realmente uma bênção extraordinária. Podemos chegar a alturas que nem imaginamos, mas primeiramente é preciso tornar-se digno disso, baixando a cabeça, com humildade, prestando homenagem a todos que são mais sábios que nós e aprendendo com eles.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito da imagem: wikimedia (Buddha preaching Abhidhamma in Tavatimsa)

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19.6.18

Budismo e Copa do Mundo (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo veremos como é fácil e natural deixar de ser criança, mas muito difícil trilhar o caminho de volta em busca da felicidade perene no aqui e agora. Para seguir na via da iluminação, o Buda nos auxiliou com algumas questões: por exemplo, será que vale mais vencer a Copa, ou vivenciar de fato este momento?

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15.5.18

O que é a filosofia chinesa?

A expressão filosofia chinesa é bastante controversa, sobretudo porque o termo em chinês que denota filosofia (zhexue) foi cunhado apenas no século XIX. Se estivermos com ele nos referindo ao Confucionismo, ao Taoismo, ao Budismo, e outras correntes de pensamentos presentes na China, devemos estar cientes que estamos usando um conceito historicamente posterior para representar algo muito mais antigo. Utilizamos um conceito ocidental para representar retrospectivamente uma série de investigações, reflexões e debates de pensadores que sequer conheciam o termo.

Os pensadores chineses da antiguidade discutiram questões sobre ética, governabilidade, sociedade, metafísica, natureza e linguagem, as quais entendemos hoje serem do escopo da filosofia. Porém, eles não as entendiam como parte de uma disciplina específica de conhecimento. Tratava-se do conhecimento de maneira geral.

As principais discussões filosóficas da China Antiga iniciaram em torno do problema político. Pensadores como Confúcio buscaram definir o que é a moralidade e o bom governo do povo. O propósito do conhecimento era o desenvolvimento da virtude.

A filosofia chinesa, no entanto, não possui um posicionamento único. Diversos pensadores discordaram entre si e criaram diferentes escolas de pensamento. Neste texto, pretendemos caracterizar brevemente as principais correntes, sinalizando a pluralidade do pensamento oriental.

1. Confucionismo
Perturbado pelas inquietações políticas, Confúcio propôs uma reforma ética da sociedade de seu tempo. Confúcio desejava eliminar a corrupção dos comportamentos daqueles que estavam no poder. Tal processo devia iniciar com a educação dos líderes da sociedade.
No confucionismo, a educação possui um alto valor. O objetivo da educação é o cultivo de uma vida ética e disciplinada. A grande ênfase a tais aspectos deu um retrato ao confucionismo como uma filosofia rígida e conservadora, baseada em estritas regras morais.
Essencialmente, a visão de Confúcio consistia em desenvolver uma moralidade para que os líderes fossem capazes de governar a sociedade de forma ética. O bom governo deveria atender às necessidades do povo de uma forma humanista, valorizando a amabilidade e a cortesia.

2. Taoismo
O taoismo surgiu como uma crítica ao confucionismo, considerado como excessivamente moralista. Entretanto, o taoismo é mais do que uma mera oposição a Confúcio, pois desenvolveu uma metafísica própria que marcou profundamente o pensamento chinês.
O conceito chave do taoismo é o Tao, comumente traduzido por caminho. Marcado por mutabilidades, o caminho não pode ser compreendido, apenas vivenciado. Seguir o Tao, ao contrário das disciplinas morais desenvolvidas por Confúcio, é agir de acordo com sua própria naturalidade, muitas vezes de modo pouco antropocêntrico.
Segundo os taoistas, quando as pessoas são ensinadas a se comportarem de uma determinada maneira, elas se conformam àquela forma específica de agir. Tornam-se obedientes e infelizes. Enquanto os confucionistas valorizavam o poder dessa educação moral, os taoistas diziam que ela tinha um aspecto limitador.  O objetivo do taoismo era, portanto, recuperar a espontaneidade para além das formas criadas pelo homem. Agir livre de coerções indevidas.
Por reciprocidade, o taoismo valorizava não apenas a liberdade pessoal, mas também a apreciação da espontaneidade do outro. Neste sentido, o taoismo possui uma ética de não-interferência. O que significa evitar ideias absolutas, inflexíveis ou metodologias unilaterais.

3. Chuang-Tzu
Chuang-Tzu foi um filósofo taoista de um período mais tardio desta escola. Tornou-se conhecido pelo seu ceticismo em relação à ideia de existir um observador privilegiado ou um juiz imparcial sobre qualquer assunto. Para Chuang-Tzu, não existe teoria correta. Cada julgamento carrega consigo os valores pessoais de quem a defende.
Toda perspectiva filosófica parte de uma determinada forma de compreender o mundo. Cada indivíduo só pode compreender o mundo a partir do próprio lugar em que está inserido. O conhecimento, portanto, é sempre um tipo de interpretação, e não a representação fidedigna da realidade.
Tal compreensão teve grande influência no modo em que os pensadores chineses lidavam com as divergências. Ao invés de buscarem eliminá-las através de uma verdade única que demonstrasse a falsidade das demais, eles valorizavam os diferentes aspectos de um pensamento, procurando estabelecer uma posição conciliadora.

4. O sincretismo e o pensamento correlativo
Diante de uma grande divergência de perspectivas que não adentraremos aqui além do confucionismo e o taoismo (poderia se falar ainda sobre escolas menores, como o moismo, o legalismo etc.), os pensadores posteriores da filosofia chinesa passaram a sintetizar elementos de diferentes doutrinas em sua própria abordagem.
Ao contrário de como fazemos no Ocidente, não é difícil encontrarmos um taoista, por exemplo, que possuísse uma leitura de Confúcio e tentasse aproveitar seus ensinamentos. Para um pensador chinês, mais importante do que a escola específica de onde surgiu uma ideia, ou quem defendeu uma ideia, está o valor daquela ideia, se ela é aplicável ou não.
A prática sincrética do Oriente teve uma consequência ambígua. Se por um lado vemos uma maior liberdade para lidar com as ideias, podendo os pensadores se servir de múltiplas contribuições; por outro, a falta de rigor metodológico fez com que muitas escolas perdessem sua raiz original, abandonando a especificidade do que caracterizava o seu discurso.
As discussões da filosofia chinesa, a princípio voltadas para a ação e o comportamento, absorveram gradualmente concepções e práticas já existentes na religião popular chinesa. Embora não fosse o objetivo inicial de pensadores como Confúcio e Lao-Tzu (taoismo), suas filosofias não foram indiferentes às práticas populares, como a adivinhação, a astrologia, a medicina e o culto aos ancestrais.
Ao mesmo tempo em que essas filosofias transformaram a religiosidade chinesa, foram também transformadas a partir do contato e do sincretismo com as crenças e costumes populares, sendo que hoje é comum termos acesso a elas muito mais pelo seu viés religioso do que filosófico.
Deste modo, por exemplo, se originalmente o conceito de Tao não envolvia um aspecto cosmológico, com o passar do tempo se tornou uma forma de representar os fenômenos e as correlações entre o céu, a terra, o clima e até seres espirituais na medida em que as preocupações filosóficas chinesas foram se deslocando da ética ao misticismo.
O neoconfucionismo, por sua vez, passou a absorver elementos de outras doutrinas, ampliando sua visão humanista – inicialmente focada na política e no desenvolvimento de virtudes – para incorporar as correlações entre as esferas humana e natural através do pensamento correlativo.
O pensamento correlativo da cultura tradicional chinesa traça correspondências sistemáticas entre várias ordens da realidade, tais como o corpo humano, a política e os astros. Ele presume que essas ordens são homólogas e relacionadas entre si. Por exemplo, desastres naturais podiam representar maus presságios em assuntos políticos, ou as ações do governo estavam ligadas aos fenômenos da ordem natural, como estrelas, plantas, ventos, chuvas, pássaros e insetos.
O pensamento correlativo influenciou profundamente a filosofia, e ainda hoje, nas abordagens medicinais, o corpo humano é entendido como um microcosmo em que saúde e doença precisam ser compreendidas de maneira holística. A arquitetura chinesa, outro exemplo, leva em consideração aspectos psicológicos, fisiológicos, geográficos e até mesmo astrológicos.
Hoje é muito difícil separarmos o holismo místico da filosofia chinesa de suas primeiras preocupações sobre ética e política. A compreensão correlativa e holista dos fenômenos se tornou uma característica essencial da filosofia chinesa como a conhecemos e de suas diversas práticas derivadas.

5. Budismo chinês
Apesar da origem do budismo não ser chinesa, a sua introdução na China teve grandes influências sobre a filosofia. Diversos pensadores buscaram articular o budismo com conceitos já existentes, sobretudo com o taoismo.
A origem do budismo é indiana, e aspectos de sua filosofia, como o ascetismo, a meditação, a crença numa percepção extrassensorial e ideias sobre continuidade da consciência, já faziam parte do pensamento indiano. A novidade introduzida pelo seu fundador, o Buda Siddartha Gautama, foi a concepção de uma consciência não individual.
O budismo rejeita uma concepção individualizada e permanente de Eu característica do pensamento indiano. Em seu lugar, propõe o Eu como um fenômeno impermanente, em constante mudança, em que nossa individualidade não passa de uma ilusão causada por uma conjunção de impressões. A filosofia budista entende que o indivíduo deve aceitar a impermanência para alcançar a iluminação, distanciando-se do apego aos desejos que conduzem ao sofrimento.
Um aspecto bastante valorizado no budismo chinês foi, diante de oposições e diferenças de pensamento, a adoção do caminho do meio como solução para a questão da dualidade, o que remete a mais uma modalidade de síntese, estratégia característica do pensamento chinês diante das divergências filosóficas.

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Para concluir...
Vemos como o pensamento chinês é marcado por uma diversidade. Existe e existiram diferentes escolas que divergiram em uma variedade de questões. Os debates promovidos por essas diferenças fizeram com que a filosofia chinesa se transformasse ao longo dos séculos, e através de inúmeras sínteses, essas compreensões foram se entrelaçando com o passar da história.

Além disso, as preocupações iniciais sobre o comportamento humano virtuoso ou autêntico e a construção de uma sociedade ideal foram dando lugar e sendo reinterpretados à metafísica e ao misticismo. Hoje, uma das principais influências da filosofia chinesa ao Ocidente é a concepção de uma visão holista sobre saúde e espiritualidade, conhecida através de práticas medicinais (como a acupuntura) e religiosas (como a meditação).

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Diem Nhi Nguyen/unsplash

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22.2.17

Lançamento: A Metafísica do Amor e outras reflexões

As Edições Textos para Reflexão têm o prazer de anunciar esta edição de trechos selecionados da obra de um dos maiores filósofos do Ocidente, Arthur Schopenhauer.

Schopenhauer encontrou nas tradições do hinduísmo, do budismo, e até mesmo do misticismo cristão, o caminho possível para vencer Maya, representação ilusória e impermanente do mundo, e nos voltarmos para a Eternidade, um pensamento de cada vez. É isto que pode ser desvendado em A Metafísica do Amor e outras reflexões. Você já pode começar a ler em poucos minutos, pelo preço de um café:

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À seguir, trazemos o prefácio da edição, por Rafael Arrais:

“O mundo é a minha representação. – Esta preposição é uma verdade para todo ser vivo e pensante, embora só no homem chegue a se transformar em conhecimento abstrato e refletido. A partir do momento em que é capaz de o levar a tal estado, pode se dizer que nele nasceu o espírito filosófico.
Possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra, mas tão somente olhos que contemplam este sol, mãos que acariciam esta terra; numa palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que o perceber, que é o homem ele mesmo.
[...] Nenhuma verdade é portanto mais certa, mais absoluta, mais evidente do que esta: tudo o que existe, existe para o pensamento, isto é, o universo inteiro é tão somente um objeto em relação a um sujeito, apenas percepção, em relação a um espírito que o percebe. Ou seja, é pura representação.
Esta lei naturalmente se aplica a todo o presente, a todo o passado e a todo o futuro, tanto àquilo que está longe como ao que está próximo de nós, visto que ela também é verdadeira para o próprio tempo e o próprio espaço, graças aos quais as representações particulares se distanciam umas das outras.
Tudo o que o mundo encerra ou pode encerrar depende necessariamente do sujeito que o percebe, e existe exclusivamente para tal. Assim, o mundo é representação.”

Apesar de haver muitas vezes dialogado com o velho Platão e com o seu conterrâneo e predecessor na linhagem dos grandes filósofos alemães, Immanuel Kant, foi na sabedoria oriental que Arthur Schopenhauer encontrou sua fonte eterna – mais precisamente nos Vedas hindus, e no Bhagavad Gita, o ápice de toda a sua filosofia.
Não é o que a Academia gosta de lembrar, mas toda a obra de Schopenhauer, a começar pela sua obra-prima, O mundo como vontade e representação (do qual tiramos o trecho inicial deste prefácio), é nada mais do que um comentário dos Vedas, e em diversas passagens o autor não lhes economiza elogios.
Se o mundo é nossa representação, o mundo nada mais é do que Maya – a ilusão, a transitoriedade e a impermanência são, portanto, suas características primordiais. Neste mundo cheio de desejos que de fato nunca serão totalmente satisfeitos, tudo o que podemos experimentar é a dor e a angústia de uma grande insatisfação, um vazio no peito, uma sensação estranha de que nada tem realmente um sentido de ser. Foi por conclusões assim que Schopenhauer foi chamado de “o filósofo do pessimismo”.
No entanto, há também a Vontade, a “coisa em si”, a essência da realidade, a ânsia da vida por si mesma (como chamaria mais tarde o poeta Khalil Gibran). Perto dela, somos como marionetes, a cumprir o seu maior e mais grandioso objetivo: perpetuar a vida!
Para o pensador alemão, tudo o que fazemos em Maya é executar a vontade da própria vida de se reproduzir, e reproduzir, e reproduzir, infatigavelmente... No fundo, somos todos como espelhos apontados para uma só Vontade, comandados pelo instinto, e por conta de nossa razão e intuição empoeiradas, incapazes de observar e refletir a sua luz sagrada.
Schopenhauer encontrou nas tradições do hinduísmo, do budismo, e até mesmo do misticismo cristão, o caminho possível para vencer esta representação ilusória e impermanente, e nos voltarmos para a Eternidade, um pensamento de cada vez.
A grande questão é que, apesar de seus extraordinários esforços, o filósofo ainda foi limitado pelas palavras, pela linguagem, pela racionalidade tão comum no Ocidente. Assim, talvez tenham sido poucos os que chegaram a compreender que o seu pessimismo era antes um chamamento, um incentivo a que nós mesmos nos arriscássemos também a abandonar Maya, rumo ao Nirvana, rumo a Vontade, rumo ao que em realidade existe, sempre existiu e sempre há de existir.
Mas isso ainda seria filosofia? Não sei bem. Fato é que Schopenhauer tampouco esteve preocupado com tais classificações. No fim das contas tudo pode ser resumido em algumas poucas reflexões:

O mundo é a minha representação, mas é possível transcender esta representação? E, em sendo, é possível descrever tal transcendência com palavras? Em suma, é possível relatar a face da Eternidade?

Talvez tais perguntas só possam mesmo ser respondidas pelo ser que se aventura neste caminho. E se forem de fato respondidas, temo que só mesmo ele, o caminhante, consiga compreender as respostas.
Então não custa nada tentarmos seguir neste caminho também. Talvez esta leitura, de trechos selecionados das grandes obras de Schopenhauer, O mundo como vontade e representação e Parerga e Paralipomena, seja já um vigoroso primeiro passo, ou quem sabe mais um proveitoso material de consulta para os aventureiros.

Boa viagem!

O editor.


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30.1.17

É preciso cair para levantar

O texto abaixo foi retirado de uma das respostas de minha amiga Wanju Duli (Juliana Duarte) dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas do qual também participo. Os comentários ao final são meus.

Podemos falar um pouco sobre o significado de evolução ou progresso espiritual. Acredito que o termo "evolução" ficou muito conectado a Darwin, com um sentido de que se passa de um estágio mais baixo para outro mais alto de forma linear. No entanto, o próprio Darwin considerava o termo "evolução" inadequado. Afinal, segundo ele, cada espécie é bem-sucedida caso se adapte melhor ao ambiente em que vive. Isso não significa que um ser humano é necessariamente mais evoluído que um pássaro ou um tubarão, apesar de possuir razão. Caso a espécie humana fosse extinta, os seres mais bem-sucedidos seriam simplesmente os sobreviventes, do ponto de vista biológico. Através da razão, o homem criou tecnologia para voar ou respirar embaixo d'água, mas não necessariamente para tornar-se um ser moralmente bom, espiritualmente elevado ou feliz.

De acordo com Erasmo em Elogio da Loucura, "O homem não foi feito para ser perfeitamente feliz na terra". O próprio termo "progresso" nos lembra o positivismo, que não por acaso está na bandeira do Brasil. Ou seja, tanto "evolução" quanto "progresso" nos remetem à necessidade de avanços científicos para darmos um passo adiante, mas a experiência nos mostra que em alguns casos avanços da ciência podem até nos ser negativos. Nem preciso citar bombas e outras armas de guerra. Em vez disso, irei citar elementos ainda mais fundamentais. É evidente que descobertas que contribuam para saúde e conforto, e que economizem tempo e dinheiro, são boas, desde que bem utilizadas. Por outro lado, conforto e facilidades demais podem nos deixar mal acostumados e nos fazer perder alegrias simples. Deixar de plantar e cozinhar os próprios alimentos de certa forma nos desconectaram da natureza e nos fizeram esquecer um pouco do sentido natural da existência.

Uma coisa que consumimos muito ultimamente são comidas prontas, em nome do maior conforto e da economia de tempo. No entanto muitas comidas industrializadas são pobres em nutrientes, fazem mal para a saúde e baixam nossa imunidade. Consequentemente nossa saúde mental fica prejudicada pelo reflexo do que comemos.

[...] É óbvio que comer bem não é a receita mágica para a felicidade, mas é um fator importante que muitos livros de espiritualidade podem não levar em consideração. A "falta de tempo" é um dos fatores levantados para que as pessoas cozinhem menos e caminhem menos. Evolutivamente, nosso corpo e mente estão adaptados a funcionar gastando tempo caçando, colhendo e cozinhando. No momento em que deixamos de exercitar o corpo e comemos de forma inadequada, não somente a saúde do corpo é prejudicada, mas também a saúde mental. Isso interfere diretamente em nossa espiritualidade, pois podemos nos sentir deprimidos e sem energia.

Meu primeiro ponto é bem simples: para tratar do tópico "evolução" num sentido mental ou espiritual, devemos levar em consideração que não somos somente mente-alma-espírito, mas também corpo. É o corpo que fica doente, envelhece e morre. Foi por causa dessas condições do corpo que Buda iniciou sua busca espiritual. Um dia todos iremos passar pela morte corporal, e todos conhecemos a doença e a dor corporal. É também em nome delas, e não somente do sofrimento mental, que buscamos respostas na espiritualidade. As nossas perguntas começam na mente, mas também tiveram origem no corpo. As nossas respostas terminam na mente, mas também terminarão no corpo, já que todo bom caminho espiritual também deve gerar modificações físicas em nosso estilo de vida.

E agora vamos ao próximo ponto: "aperfeiçoamento mediante a ação lúcida e continuada da consciência". Anteriormente tratamos da natureza dos pensamentos e agora devemos pensar em que sentido esses pensamentos podem ser trabalhados visando uma evolução moral e espiritual. Para introduzir esse tópico tratarei do conceito de busca do aperfeiçoamento e da verdade citando um livro que admiro: O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse. Nesse livro se trata de um conceito que já existia desde a Grécia Antiga: a ideia de que todas as áreas do conhecimento estão, de alguma forma, conectadas umas com as outras. O cristianismo também adotou esse conceito, baseando-se na ideia de que Deus criou "o melhor dos mundos possíveis", e que tal universo é harmonioso e racional.

Hoje em dia temos dificuldade de entender como as diferentes áreas do conhecimento se conectam, pois somos incentivados a ter um conhecimento mais especialista do que generalista. Perdemos muito a ideia do polímata, homem universal ou renascentista, que sabia transitar em diferentes saberes. Por isso é dito no livro de Hesse que vivemos na "Idade Folhetinesca" e isso fica ainda mais evidente hoje com a internet: o conhecimento está tão fragmentado e reduzido em posts curtos de blogs ou frases de redes sociais para "não perdermos tempo" que ficamos com a impressão que sabemos muito de várias coisas, mas não sabemos conectar ou aprender a fundo nenhum desses saberes. Uma invenção medieval chamada "universidade" tenta resgatar isso, mas como ela não é mais baseada nas Sete Artes Liberais e sim em conhecimentos pragmáticos visando apenas o mercado de trabalho, ainda está longe dessa realização. 

No paradigma secularista e materialista do século XXI, vivemos num universo sem sentido, em que muitos eventos ocorrem de forma aleatória, incluindo nossa própria vida e morte. No meio desse caos, nossa única esperança para esquecer a dor e a morte é ter o máximo de prazer e conforto possível, obtidos principalmente através do dinheiro. Talvez alguns problemas das filosofias espiritualistas do século XX e XXI sejam fruto da tentativa de construir uma solução moral e espiritual dentro desse paradigma. Nele o objetivo máximo é ser feliz através do "prazer" e do "sentir-se bem" seja com êxtase e emoções fortes ou paz.

Para buscarmos uma evolução consciente, seria bom lembrarmos do que nos diziam os gregos e romanos da Antiguidade, a exemplo dos estoicos. Diz Sêneca em Aprendendo a Viver:

Por que olhas para o cofre? A liberdade não pode ser comprada [...] Primeiro, livra-te do medo da morte, pois ela nos impõe o seu jugo, e, depois, deves perder o medo da pobreza.

Nós vivemos numa sociedade em que o maior objetivo da vida é não ser pobre, sendo que Jesus disse que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus. Isso significa que não podemos servir a dois deuses: a Deus e ao Dinheiro. É óbvio que tantas pessoas hoje se sentem depressivas e desconectadas do divino: porque estão adorando ao Deus errado. Eu respeito muitos Deuses de várias culturas e religiões, mas algo me diz que adorar ao Deus Mamon, conforme a história mostra, não tem gerado nem mesmo uma felicidade temporária nesse mundo.

Buda e Jesus nos deram outra resposta: a filosofia do sofrimento. Buda nos diz que a vida é sofrimento e Jesus nos convida a imitá-lo sofrendo com ele e carregando sua Cruz. O sofrimento pode não ser o problema, mas a resposta. Quem sabe o problema da humanidade seja achar que a dor e a morte sejam um erro, fugindo deles desesperadamente e se agarrando num sonho de felicidade. A solução é ver a morte como a chave para a vida, para o renascimento: o mártir que morre para o "eu" e renasce no "outro" e em "Deus" encontra a verdadeira vida. É preciso cair e morrer para levantar e nascer. A vida e o mundo não são erros a serem corrigidos pela ciência.

Comentários
A última vez em que falei da Wanju Duli aqui no blog foi trazendo a melhor resenha que já recebi para um livro, quando ela destrinchou o meu Ad Infinitum. Deveria ter trazido mais coisa dela para cá, visto que se trata de uma das maiores conhecedoras (no sentindo abrangente do termo) de magia e ocultismo da web e do meio literário nacional. Espero ter me redimido com este belo trecho que pesquei de nosso debate sobre espiritualidade em geral (também temos outros participantes, provavelmente esse “debate” ainda renderá um livro no futuro). Você também pode encontrar a Wanju na coluna sobre Magia do Caos do portal Teoria da Conspiração.

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Crédito da foto: David Uzochukwu

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11.12.15

Jesus na Índia

Suponha que você seja um detetive, e se depara com um caso incomum. Não se trata de um caso de identidade incerta ou de pessoa desaparecida; trata-se de um histórico incerto, de anos sem qualquer tipo de registro, onde os detalhes são poucos... Dia de nascimento: desconhecido. Ano de nascimento: desconhecido; presumido entre 8 e 4 a.C. Lugar de nascimento: incerto; acredita-se que seja Belém.

No entanto, a história da humanidade é dividida pelo seu nascimento: antes de Cristo, depois de Cristo... Este não é um caso simples, é uma investigação sobre a vida de uma das pessoas mais influentes da História. Agora você já deve saber no que está se metendo...

É assim que Edward Martin inicia a narração do seu instigante documentário sobre os chamados “anos perdidos” da vida de Jesus de Nazaré, isto é, tudo o que pode ter ocorrido durante os cerca de 18 anos de sua vida que simplesmente não aparecem em nenhum trecho do Novo Testamento.

De fato, só há um único episódio da infância de Jesus, relatado em Lucas 2:42-51, onde o garoto, então com meros 12 anos, é encontrado pelos pais num templo de Jerusalém (após haver se perdido por alguns dias), conversando com rabinos mais velhos, enquanto “todos os que o ouviam admiravam a sua inteligência e respostas”. Logo depois, em Lucas 3, já está adulto, sendo batizado por João Batista.

Uma das hipóteses “que se recusa a morrer” acerca do que teria feito Jesus nessas quase duas décadas de intervalo é a que afirma que ele rumou para a Índia, onde se instruiu tanto no hinduísmo quanto no budismo com grandes mestres, e depois retornou para reformar o judaísmo.

Na época de Jesus, se alguém quisesse sair de Israel para aprender sobre outros costumes, culturas e religiões em regiões mais afastadas, a rota mais segura e conhecida sem dúvida seria a chamada Rota da Seda, que já existia há milhares de anos, principalmente em sua via terrestre. Ora, esta rota terminava precisamente no coração da Índia, e podia ser feita a pé, ou na carona de caravanas de mercadores. A hipótese, portanto, é bem mais verossímil do que parece a primeira vista.

Mas há mais: no final do século 19, o jornalista e explorador russo Nicolas Notovich disse haver encontrado manuscritos milenares no Tibete, dentre os quais um chamado A Vida do Santo Issa, que ele traduziu e publicou no Ocidente. Ora, Issa é o nome de Jesus no Oriente e também entre os muçulmanos [1].

Até hoje acusam Notovich de haver inventado a história toda, pois os manuscritos originais nunca foram encontrados. No entanto, fato é que em pleno século 21 ainda circulam muitas “lendas” acerca da passagem de Jesus pela Índia. Será que podemos deduzir, neste caso, que “onde há fumaça, há fogo”?

Isso é o que esse documentário investigativo tenta descobrir. Apesar de se arrastar nalguns momentos e de ser bem mais longo do que merecia, tem a vantagem de praticamente esgotar o assunto, e ainda fazer um belíssimo elogio ao ecumenismo, já pelo final... Assistam com a alma aberta. Feliz Natal, e Namastê!

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[1] Apesar da grafia diferente, Jesus, Issa (ou Isa) e Yeshua (seu nome original em hebraico) provavelmente tinham pronúncias muito parecidas há milênios atrás. “Jesus” poderia ter o “J” pronunciado como “IÊ”, formando algo como “Iêzu”, nada tão distante de “Yeshu”. Já “Issa” pode ter surgido da mistura com as pronúncias árabes e/ou persas.

Crédito da imagem: Google Image Search

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31.8.15

Memes para reflexão, parte 3

« continuando da parte 2

(clique nas imagens abaixo para abri-las em nossa galeria de memes no Facebook)

O Senhor dos Exércitos
As Cruzadas não se prestaram a “combater infiéis” somente na Terra Santa. No caminho até lá, houve algumas outras batalhas da Igreja dentro da própria Europa. Bem, “batalha” talvez não seja a melhor definição, e sim “massacre”.

Em 1209 a cidade de Béziers era habitada por cerca de 60 mil pessoas, e dentre elas havia muitos seguidores do catarismo, uma vertente mística do cristianismo que desagradava a Igreja. O problema é que nem todos dentro dos seus muros eram cátaros, o que gerou um questionamento muito pertinente de um dos comandantes do exército francês ao representante do Papa, quando eles se preparavam para invadir a cidade com uma força militar vastamente superior. O comandante perguntou: “Mas senhor, nesta cidade encontram-se vivendo em paz cristãos, judeus, árabes e cátaros. Como vamos saber quais são os inimigos?”. E o representante assim o respondeu: “Matem todos; Deus escolherá os seus!”. Béziers foi dizimada, mas não se sabe se Deus conseguiu encontrar os seus...

A ideia da “guerra do Bem contra o Mal” é poderosa e sedutora, e por isso mesmo sempre agradou aos Imperadores, Reis e Papas. De todas as ilusões que se interpõe a verdade inconveniente de que, como muitos já devem saber, todas as guerras do mundo se dão quase que unicamente pelo desejo da conquista de territórios e riquezas, a lenda do Bem contra o Mal é a mais simples de se compreender, e a mais capaz de arrebatar uma grande massa de ignorantes. Nesse tipo de guerra não há dor na consciência em dizimar inocentes, nem mesmo em estuprar mulheres e crianças, pois fica pré-estabelecido que elas são como demônios sem alma, fruto de um suposto exército comandando pelo Mal.

No entanto, talvez até mesmo uma criança já seja capaz de se questionar: “Ora, mas se Deus criou a todos nós, como ele pode ser o Senhor de um único exército?”. Acredito que a resposta seja óbvia, e este meme é uma tentativa de trazer essa reflexão à tona.


Buda, e Budai...
Uma curiosidade: na imagem cima não temos o Buda Sidarta Gautama, mas Budai, uma divindade chinesa que é costumeiramente confundida com Sidarta. Obviamente que o Buda Gautama provavelmente nunca foi muito "gordinho", até mesmo porque chegou a praticar jejuns extremos, e após atingir a iluminação, aos 35 anos, passou os próximos 45 anos de sua vida viajando pelos arredores do Nepal.

A vida de Buda se parece muito mais com a vida de um místico andarilho, como Jesus de Nazaré, que viajou a pé pelos arredores de sua cidade natal, ensinando a todos com quem cruzava. A diferença é que Buda não é conhecido por realizar milagres, como ressuscitar mortos, curar leprosos ou transformar água em vinho. Em todo caso, os ensinamentos de Buda foram tão impactantes quanto os de Jesus, o que é atestado pelo fato de terem igualmente sobrevivido por mais de dois mil anos, sem terem sido esquecidos.

No entanto, não é difícil encontrar pessoas que, por total desconhecimento da história de vida de Sidarta, creem piamente que ele passou a vida toda meditando ao lado de uma árvore, e não ajudou ninguém. O fato de sua imagem ser costumeiramente confundida com a imagem de Budai talvez ainda ajude a perpetuar essa lenda do “monge gordinho que nunca saiu do lugar”.

Tal visão, é óbvio, não poderia estar mais distante da realidade. Desde o momento em que atingiu a iluminação, é dito que o Buda passou o restante de seus dias tentando auxiliar aos demais a atingir esse mesmo grau de consciência da realidade, e de desapego para com tudo o que existe somente no fluxo do tempo.

Se há um lugar em que Sidarta passou boa parte da vida, não foi na sombra de uma árvore, mas na própria eternidade.

» Em breve, + memes!

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Crédito das imagens: Raph/Google Image Search

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28.6.15

O óbito da ignorância

A Casa Branca, pela entrada da noitinha, com iluminação especial em diversas cores, celebrando a decisão histórica da Suprema Corte americana.

Foi por conta de uma certidão de óbito que os EUA finalmente foram incluídos no rol dos países que deixaram de proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao lado de Holanda (a pioneira) e diversos países europeus, assim como Uruguai, Argentina, Brasil, Canadá, México, África do Sul e Nova Zelândia:

Mapa com os países onde o casamento gay já é legal.

“Quando conheci meu marido, eu soube que queria ficar com ele pelo resto da minha vida, até que a morte nos separasse. A maioria das pessoas sente isso quando encontra o amor de sua vida”, disse a BBC o americano Jim Obergefell, 48 anos, ao falar sobre John Arthur, seu parceiro por 21 anos.

Eles se conheceram em 1992 e durante duas décadas construíram uma vida juntos em Cincinnati, Ohio. Em 2011, Arthur foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, doença que não tem cura, e começou a perder o controle de seus movimentos musculares e a fala. Ambos sabiam que o tal “até que a morte os separe” estava cada vez mais próximo, e decidiriam aproveitar uma decisão prévia da Suprema Corte americana, de 2013, que permitia o seu casamento em certos estados da federação.

O casal arrecadou US$ 13 mil com familiares e amigos e alugou um jato com equipe médica para viajar a Maryland, Estado onde o casamento gay já era permitido na época. Em 11 de julho de 2013, Obergefell e Arthur trocaram votos e alianças em uma cerimônia de menos de dez minutos, realizada dentro do avião, na pista de um aeroporto em Baltimore.

Após voltarem para casa, entraram com uma ação para que o casamento fosse formalmente reconhecido na certidão de óbito, quando Arthur morresse. Após decisão favorável de um juiz federal, o Estado de Ohio recorreu, e o caso chegou à Suprema Corte.

Foi precisamente este caso que acarretou na decisão histórica e acirrada (5 votos a 4) do último dia 26 de julho de 2015, que basicamente estendeu o direito ao casamento homossexual de alguns estados para todo os EUA. Foi para que na certidão de óbito do grande amor de sua vida não constasse a palavra “solteiro” no lugar de “casado” que Obergefell, indiretamente, ajudou a acelerar o óbito da intolerância e da ignorância na maior potência do mundo ocidental.

Claro que, não fosse por este caso, teria sido por outros. Para além do apoio incondicional a decisão da maior rede social da internet, o Facebook, o que acarretou no florescimento de milhões de fotos de perfil mais coloridas nos dias subsequentes, essas foram algumas das grandes empresas que demonstraram explicitamente o seu apoio à decisão americana:

Logos da Apple, Microsoft, Google, Facebook, YouTube, Twitter, Tumblr AmericanAirlines, Uber e Vevo.

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Uma questão bíblica
No Levítico, a Bíblia nos explica que “quando um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão” (Le 20:13). Teoricamente, todos os judeus andarilhos, que então viviam em tribos nos desertos do Oriente Médio, deveriam seguir estritamente tal lei ou seriam “punidos por Javé”. Isto fazia algum sentido na época, pois era um povo nômade, que não dispunha de cadeias para punir infratores, e nem podia se dar ao luxo de contar com homens “efeminados” que, para além de não poderem guerrear, não ajudariam na procriação, que era vital naqueles tempos.
Estar ainda ancorado nas leis do Levítico, mesmo no século XXI, é no mínimo uma enorme ignorância, até mesmo porque quem se vale dessa passagem para condenar a homossexualidade está sendo algo hipócrita, na medida em que provavelmente não segue as demais leis do mesmo livro da Bíblia, como por exemplo: “não cortar o cabelo muito curto, nem danificar as extremidades da barba” (Le 19:27); “sacrificar dois pombos a Deus 8 dias após cada menstruação” (Le 15:13-14); “jamais comer carne de porco” (Le 11:7) etc.

Pederastia
A origem desta palavra remonta a antiga Grécia, berço da democracia e de inúmeras ideias que até o nosso século ainda iluminam o Ocidente. Ela significa, literalmente, “amor por garotos”.
Na Antiguidade, a pederastia era uma relação entre um homem mais velho e um adolescente. Em Atenas este indivíduo mais velho era chamado de erastes, e sua função era a de educar, proteger, amar e agir como um exemplo para seu amado – chamado de eromenos, cuja recompensa para seu amante estaria em sua beleza, juventude e potencial.
Não está claro se tal relação passava muito além de uma iniciação sexual que durava não mais do que alguns anos, mas fato é que a sociedade grega não distinguia entre desejo e comportamento sexual com base no gênero de seus participantes, mas sim pela extensão com que tais desejos ou comportamentos se conformavam às normas sociais, que eram baseadas por sua vez no gênero, idade e status social.
Naquela época, o sexo entre homens era aceito, contanto que não deixassem de buscar constituir família nem de se alistarem para a defesa de suas cidades.

Bonobos
Os estudiosos perceberam apenas em 1928 que os bonobos formavam uma família diferente dentro da espécie dos chimpanzés, com um comportamento muito peculiar, em que o sexo está em primeiro lugar, funcionando como substituto da agressividade. O bonobo é um dos raros animais para quem não existe relação direta entre sexo e reprodução. Ou seja, como os humanos, eles fazem mais amor do que filhos. Ao contrário da maioria dos primatas, a sociedade dos bonobos é dominada pelas fêmeas e não pelos machos.
Este “matriarcado” só se torna efetivamente possível porque, ao contrário da maioria das fêmeas de outras espécies, que só são receptivas ao sexo no período fértil, as fêmeas bonobos são atrativas e ativas sexualmente durante quase todo o tempo. Além de intensa atividade sexual com seus parceiros, em que tomam a iniciativa, elas simulam relações com outras fêmeas – é justamente através do sexo que estabelecem as alianças entre si. Os machos também participam dessa espécie de homossexualidade light.
Este é apenas o mais evidente de muitos casos de relações homossexuais na natureza. Assim, se por acaso algum dito pastor, seguidor de algum estranho deus raivoso, lhe disser que ser gay é “antinatural”, você pode lhe responder assim: “Senhor Pastor, o senhor por acaso já ouvir falar dos bonobos?”.

A visão budista
Um dos alunos de Chagdud Tulku Rinpoche, o Precioso Senhor da Dança, um reconhecido mestre budista tibetano, conta que uma vez presenciou tal conversa do mestre com uma senhora que havia acompanhado uma de suas palestras:
Ela: “Mestre, o que é um homossexual?”; Ele: “Um homossexual é uma pessoa que faz sexo com o mesmo sexo.”; Ela: “Acho que o senhor não entendeu… Como o budismo vê o homossexualismo?”; Ele: “Nós não vemos o homossexualismo. No budismo, não temos o costume de ver as pessoas fazendo sexo.”; Ela: “Mestre, o que eu quero saber é a opinião do budismo sobre pessoas que fazem sexo com o mesmo sexo.”; Ele: “Alguém pode dar opinião sobre quem não conhece? Você está falando em “pessoas”. Que pessoas?”; Ela: “Qualquer uma! Qualquer uma!”; Ele: “Todas as pessoas são milagres.”; Ela: “Mas afinal o homossexualismo é certo ou errado?”; Ele: “Atos homossexuais consensuais são atos de amor.”
Tudo isso com a mesma expressão de quem vê um passarinho azul. Seguem-se aplausos e gargalhadas. Rinpoche sorri...
Há ainda este vídeo onde outro mestre, Dzongsar Khyentse Rinpoche, do Butão, fala mais prolongadamente sobre o tema. Em ambos os casos, vemos que os budistas estão mais preocupados com seu autoconhecimento e iluminação do que com a sexualidade alheia [1].

A Igreja, o Pecado e a Verdade
Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, afirmou o Papa Francisco em 2013, durante a entrevista concedida aos jornalistas que o acompanhavam no voo de volta à Itália depois da visita de uma semana ao Brasil, surpreendendo boa parte dos vaticanistas presentes.
É óbvio, no entanto, que não há nenhuma chance no horizonte próximo de que a Igreja Católica apoie o casamento homossexual. E nem há qualquer problema nisso... A luta pelos direitos dos gays é uma luta travada na esfera secular e laica, e não na esfera religiosa. O casamento gay nada tem a ver, nem poderia ter, com o casamento conforme os rituais da doutrina cristã.
Da mesma forma, além de certos ativistas da causa gay mais agressivos e ignorantes, nenhum gay ou simpatizante está querendo atacar ou denegrir a Igreja, e muito menos o Cristo, ao lutar por seus direitos, pela igualdade, a tolerância, o amor e, sobretudo, o fim da ignorância.
Afinal, foi ele mesmo, o doce rabi da Galileia, quem nos enxortou a amar a todos, a todos, sem exceção. E, se você ainda crê realmente que a homossexualidade é um tenebroso pecado, então eu lhe convido a conhecer a Verdade e se livrar das trevas da ignorância. Espero que o conteúdo deste artigo possa lhe ajudar em parte – afinal, foi também o rabi quem nos disse que a Verdade nos libertará...

***

[1] Vale lembrar, no entanto, que o casamento homossexual ainda não é permitido oficialmente nem no Tibete (China) nem no Butão.

Crédito das imagens: [topo] Monica M. Davey/EPA (Casa Branca com iluminação em homenagem a decisão histórica da Suprema Corte americana); [ao longo] Quartz (mapa com os países onde o casamento homossexual já se tornou legal); FCKH8.com (algumas das grandes companhias que apoiaram a decisão da Suprema Corte; para boicotá-las será necessário abandonar a era da internet e voltar a vida dos anos 1970/80).

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20.5.14

O encontro de Carl Sagan e Dalai Lama

Carl Sagan e Dalai Lama

Este vídeo – na verdade o vídeo de uma projeção – está em péssima qualidade, mas por se tratar de uma conversa entre dois seres plenos de espiritualidade, achei por bem trazer para cá...

Em 1991 o Dalai Lama, líder espiritual tibetano que foi obrigado a se exilar de sua terra natal devido a opressão do governo chinês, concedeu uma entrevista a Carl Sagan, provavelmente o maior divulgador de ciência do século XX, e que também sempre demonstrou interesse genuíno pela história das religiões – particularmente as orientais.

O que vemos no vídeo acima é, no entanto, apenas uma parte do diálogo, que transcrevo abaixo [as notas ao final são minhas]:


[Carl] Então deixe-me perguntar agora, se me permite, algumas perguntas sobre religião... O que acontece se a doutrina de uma religião, digamos o budismo, seja contrariada por algum achado, alguma descoberta na ciência, digamos, o que um crente no budismo faz nesse caso?

[Dalai] Para os budistas isso não é um problema. O próprio Buda deixou claro que o importante é a sua própria investigação. Você deve conhecer a realidade, não importa o que a escritura diz.

No caso de você encontrar uma contradição, em oposição a explicação das escrituras, então você deve confiar na descoberta em vez da escritura [1].

[Carl] Isso não é muito parecido com a ciência?

[Dalai] Sim, isso mesmo. Então eu acho que o conceito budista básico é que no início vale mais a pena permanecer cético [2]. Em seguida, realizar experimentos através de meios externos, bem como meios internos.

Se através da investigação as coisas se tornarem claras e convincentes, então é hora de aceitar ou acreditar [3]. Se, por meio da ciência, existir prova de que após a morte não há continuidade da mente humana, ou continuidade da vida; se isto for provado, então teoricamente falando, os budistas terão de aceitar isso [4].

[Carl] Então, o que isso faria com a doutrina da reencarnação?

[Dalai] Bem, eu não acho que, veja você, no que diz respeito à existência de uma continuidade da mente ou da vida após a morte... Esse conceito [a reencarnação], eu acho, tem mais razões coerentes.

Embora a aceitações desse tipo de teoria não consiga resolver todas as suas dúvidas, e não podem lhe dar a satisfação completa, ainda assim, tal teoria ainda é melhor do que a teoria da não-existência. Se não houver continuidade da vida, ou do ser, então a questão permanece: Qual a causa original de todas as galáxias, incluindo este planeta?

Por exemplo, há a Teoria do Big Bang... Tudo bem se foi assim que aconteceu, mas não importa... Então, por que aconteceu? [5] Então, ou você tem de aceitar que as coisas acontecem por acaso [6], sem uma causa específica, o que é desconfortável, pois várias perguntas permanecem; ou outra explicação seria [a existência de] um Criador.

Do ponto de vista budista, isso também não soa como resposta. Por que é que um Criador cria essas coisas? Mais perguntas permaneceriam...

[Carl] Então, você acredita em Deus?

[Dalai] Deus, no sentido de alguma realidade última – então sim, nós aceitamos isso. Mas Deus no sentido de um Criador todo-poderoso, os budistas não aceitam.

[Carl] Portanto, não há constatação concebível da ciência que faria você dizer que a doutrina budista está errada, ou que você não é mais um budista?

[Dalai] Eu acho que uma descoberta científica [realizada] através de cuidadosos experimentos, isto os budistas terão de aceitar de uma vez. Sem problemas.

Alguns cientistas, ou alguns budistas com mentalidade científica – como acho que deveríamos chamá-los –, dizem que não consideram o budismo como uma religião, mas sim uma ciência da mente. Às vezes eles chamam o budismo de uma ciência interior...

Assim, de acordo com a minha própria experiência, como resultado de me encontrar com cientistas – nos últimos anos tive muito contato com eles –, principalmente no campo da cosmologia, da neurobiologia, e também da física, principalmente no campo da mecânica quântica; e, claro, da psicologia – acho que nestes campos há muitos paralelos em comum.

Acho que nessas discussões que realizamos ao longo desses campos [7]... Eu como budista me beneficiei muito do que aprendi com suas descobertas. É muito útil para um budista [participar dessas conversas]. Ao mesmo tempo, alguns cientistas também mostram um interesse genuíno nas explicações budistas para os assuntos envolvidos.

E uma coisa é muito clara: No que diz respeito as ciências mentais, o budismo é altamente avançado.

***

[1] Reparem que o Dalai Lama fala em “nossa própria investigação”. Enquanto Sagan afirma que “alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”, há muitos que se comprazem com o fato de muitas alegações espiritualistas não haverem (ainda) sido comprovadas em laboratório. Porém, a espiritualidade (e particularmente o budismo) vive de evidências extraordinárias, porém subjetivas. O máximo que conseguimos medir por aparelhos, até o momento, é o estado cerebral de monges budistas em meditação – e isto já é material para anos e anos de estudo. Sobre o tema, recomendo a leitura do livro O cérebro espiritual, do Dr. Mario Beauregard e Denise O’Leary (Ed. BestSeller).

[2] Eu pessoalmente estenderia este conselho a toda e qualquer prática espiritualista. Não há como se crer profundamente sem haver tido a experiência, é como “acreditar que a água do mar é salgada” porque se leu sobre isso nalgum livro... Mergulhar, e sentir o sal nos próprios lábios, é um outro nível de evidência – uma evidência que não se encontra em livros nem em experimentos científicos objetivos.

[3] Reparem como esta abordagem budista em nenhum momento procura “evangelizar” a própria crença, nem muito menos convencer ninguém de nada. O budismo, como ciência da mente, confia que cada um de nós – seres que possuem mentes – será capaz de, ao seu tempo, encontraras suas próprias evidências, e crer ou descrer por experiência própria. Isto nada tem a ver com evangelizações de crentes ou descrentes.

[4] Obviamente que, como Sagan gostava de dizer, “a ausência da evidência não é a evidência da ausência”, ou seja: é muito difícil comprovar objetivamente que algo não existe. No entanto, existem vários fenômenos “estranhos” que ocorrem em hospitais do mundo inteiro que parecem corroborar com uma ideia de continuidade da consciência durante o processo de morte. Sobre o tema, recomendo a leitura do livro O que acontece quando morremos, do Dr. Sam Parnia (Ed. Larousse).

[5] É precisamente esta abordagem que separa os espiritualistas dos cientistas mais céticos. Uma coisa é se perguntar, “Como funciona a gravidade, como ela afeta os corpos celestes?”, outra muito diferente é se perguntar, “Por que, afinal, existe a gravidade? Por que a Terra foi formada a partir da poeira estelar? Por que existe a vida?”.

[6] O que não é muito diferente de aceitar que não sabemos por que diabos elas acontecem, e desistimos de continuar tentando saber... É este o tal “desconforto” ao qual o Dalai Lama se refere. Talvez fosse mais honesto dizer, numa postura genuinamente agnóstica, “São tantas as variáveis em jogo que hoje o mistério do surgimento do espaço-tempo nos parece algo sem causa definida, pois é impossível conhecermos todas essas variáveis atualmente”. Segundo Immanuel Kant, tal mistério pode nunca ser totalmente solucionado...

[7] A visão preconceituosa de que os budistas ficam “meditando sem fazer nada isolados do restante do mundo” está um tanto distante da realidade. Se forem perguntar a um monge budista “o que ele faz além de meditar”, ficará um tanto surpreso com a sua agenda agitada – incluindo animadas discussões existenciais, científicas e filosóficas.

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Crédito da foto: Divulgação/Google Image Search (Carl Sagan e Dalai Lama)

Obrigado a Luc Anderssen por haver postado o vídeo legendado no YouTube

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6.9.13

Mundos Internos, Mundos Externos

Ver o mundo num grão de areia
e o céu numa flor da relva;
agarre ao infinito na palma de sua mão
e a eternidade, numa única hora.
- William Blake


Neste documentário lançado em 2012 e intitulado "Mundos Internos, Mundos Externos" (Inner Worlds, Outer Worlds), o canadense Daniel Schmidt (músico e professor de meditação) explora de maneira rica e visualmente atraente a conhecida sabedoria antiga – Védica e Hermética - que afirma o célebre “Assim em cima, assim embaixo”.

Reunindo conhecimento atual como a descoberta recente do Bóson de Higgs, trazendo conhecimentos ancestrais como dos Vedas, do Budismo e da Kaballah, passando por insights de cientistas como Nikola Tesla (“estudou com Swami Vivekananda”, um conhecido iogue indiano) e do matemático Benoit Mandelbrot, além de citar de passagem Heráclito, Einstein, Goethe, Richard Feynman e Kierkegaard, e buscando o cruzamento dessas fontes de conhecimento, "Mundos Internos, Mundos Externos" também apresenta com riqueza visual os caminhos que a ciência e a sabedoria antiga percorrem para entender o universo, como os padrões de fractais (de Mandelbrot) e dos sons na matéria física como areia e água (de Chladni) [via _dharmalog].

Para os que acompanham este blog de longa data, e particularmente para os que leram o meu livro, "Ad infinitum", este documentário soará estranhamente familiar, e isto apesar de ter um foco muito maior na visão oriental, particularmente a visão zen budista. Entretanto, como os que me leem há tempos devem saber, não há tanta diferença assim entre o "Bhagavad Gita" e as teorias de Eisntein, entre o Tao de Lao Tse e a Substância de Espinosa, entre o logos estoico e o Campo de Higgs - todos estão, afinal, observando ao mesmo Cosmos e, ao mesmo momento, ainda que não saibam, também a si próprios...

Para se contemplar em estado de relaxamento:

Parte 1 - Akasha

Parte 2 - A Espiral

» Parte 3 - A Serpente e a Lótus

» Parte Final - Além do Pensar

***

Crédito da imagem: Divulgação (Inner Worlds, Outer Worlds)

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23.8.13

O que é um buda?

Este curto e belíssimo vídeo nos foi enviado por um anônimo nos comentários de um post recente do blog...

Ele me remeteu a um conto que escrevi tempos atrás, do qual trago um trecho abaixo:

"Temos brincado e rolado juntos pelos montes de nossa pequena caixa de areia, e por vezes a temos tentado apanhar com as mãos – mas tal areia do deserto é como o tempo a escorrer entre os dedos, e não é possível guardar quase nada de todo esse turbilhão. Tudo o que guardamos são as brincadeiras, tudo que nos resta é continuar a brincar..."


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20.8.13

Lançamento: A Voz do Silêncio

Em mais um lançamento das Edições Textos para Reflexão, trazemos uma das obras-primas de Helena Blavatsky, A Voz do Silêncio.

Blavatsky escreveu esta obra de memória nos últimos anos de uma vida quase mitológica, totalmente dedicada a divulgação da luz da antiga sabedoria do Oriente. Esta edição traz um grande livro de uma grande autora, traduzido para nosso idioma por um dos homens que mais o dominaram ao longo de sua história, ninguém menos que Fernando Pessoa: 

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***

Abaixo, segue um trecho da introdução do livro:

Carta de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro

Lisboa, 6 de Dezembro de 1915

Meu querido Sá-Carneiro:

Como lhe escrevo esta carta, antes de tudo, por ter a necessidade psíquica absoluta de lhe escrever, Você desculpará que eu deixe para o fim a resposta à sua carta e postal hoje recebidos, e entre imediatamente naquilo que ficará o assunto desta carta.
Estou outra vez presa de todas as crises imagináveis, mas agora o assalto é total. Numa coincidência trágica, desabaram sobre mim crises de várias ordens. Estou psiquicamente cercado.
Renasceu a minha crise intelectual, aquela de que lhe falei mas agora renasceu mais complicada, porque, à parte ter renascido nas condições antigas, novos fatores vieram emaranhá-la de todo. Estou por isso num desvairamento e numa angústia intelectuais que você mal imagina. Não estou senhor da lucidez suficiente para lhe contar as coisas. Mas, como tenho necessidade de lhes contar, irei explicando conforme posso.
A primeira parte da crise intelectual, já você sabe o que é; a que apareceu agora deriva da circunstância de eu ter tomado conhecimento com as doutrinas teosóficas. O modo como as conheci foi, como você sabe, banalíssimo. Tive de traduzir livros teosóficos. Eu nada, absolutamente nada, conhecia do assunto. Agora, como é natural, conheço a essência do sistema. Abalou-me a um ponto que eu julgaria hoje impossível, tratando-se de qualquer sistema religioso. O carácter extraordinariamente vasto desta religião-filosofia; a noção de força, de domínio, de conhecimento superior e extra-humano que ressumam as obras teosóficas, perturbaram-me muito.
Coisa idêntica me acontecera há muito tempo com a leitura de um livro inglês sobre “Os Ritos e os Mistérios dos Rosa-Cruz”. A possibilidade de que ali, na Teosofia, esteja a verdade real me [?]. Não me julgue você a caminho da loucura; creio que não estou. Isto é uma crise grave de um espírito felizmente capaz de ter crises desta.
Ora, se você meditar que a Teosofia é um sistema ultracristão – no sentido de conter os princípios cristãos elevados a um ponto onde se fundem não sei em que além-Deus – e pensar no que há de fundamentalmente incompatível com o meu paganismo essencial, você terá o primeiro elemento grave que se acrescentou à minha crise.
Se, depois, reparar em que a Teosofia, porque admite todas as religiões, tem um carácter inteiramente parecido com o do paganismo, que admite no seu Panteão todos os deuses, você terá o segundo elemento da minha grave crise de alma. A Teosofia apavora-me pelo seu mistério e pela sua grandeza ocultista, repugna-me pelo seu humanitarismo e apostolismo (você compreende?) essenciais, atrai-me por se parecer tanto com um “paganismo transcendental” (é este o nome que eu dou ao modo de pensar a que havia chegado), repugna-me por se parecer tanto com o cristianismo, que não admito. E o horror e a atração do abismo realizados no além-alma.
Um pavor metafísico, meu querido Sá-Carneiro!

Fonte:
“Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas”. Fernando Pessoa (Introduções, organização e notas de António Quadros). Publicações Europa-América, 1986.

***

Comentário
Ocorre um caso curioso no caso desta tradução de “A Voz do Silêncio”, onde o tradutor acaba se tornando mais famoso no meio literário, ao menos na “pátria da língua portuguesa”, do que a própria autora.
No entanto, embora nem todos o saibam, Fernando Pessoa traduziu diversos autores ligados a Teosofia: além da própria Helena Blavatsky, notadamente duas outras autoras – Annie Besant e Mabel Collins – e o autor C. W. Leadbeater. Em todos os casos traduções do inglês (idioma dominado por Pessoa) para o português (idem).


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