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10.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo II)

« continuando do tomo I

No caminho da mão esquerda nós tomamos a rota direta, que é muito mais extenuante, muito mais perigosa, e onde há maiores chances de uma queda (Zeena Schreck)


Bem, se eu já havia me metido numa enrascada ao tentar definir o que diabos é ocultismo, talvez neste momento tenha me colocado num problema ainda maior: o que são o caminho da mão esquerda e da mão direita, afinal de contas?

Se formos buscar nos canais tradicionais de informação – onde boa parte do ocultismo é entendida de forma tão superficial quanto um super-herói como Hércules (da Marvel), se comparado ao seu mito antigo – temos algo não muito diverso do maniqueísmo raso: “O caminho da mão esquerda é equiparado às maliciosas práticas da magia negra, enquanto o caminho da mão direita refere-se às práticas benéficas da magia branca”. Sim, isto se encontra na Wikipédia; não é a toa que tão poucos sabem o que é ocultismo...

Um dos problemas de se tentar definir o que é o chamado caminho da mão esquerda (Left Hand Path: LHP) e a sua “contraparte”, o caminho da mão direita (Right Hand Path: RHP), é que muitas vertentes ocultistas formaram opiniões diversas sobre eles. Há quem creia que só devemos falar em LHP; há quem diga que podemos falar em ambos, mas que não são exatamente opostos; há quem atribua características tão díspares para LHP e RHP, que fica quase impossível uma definição única. No entanto, há pelo menos uma espécie de “consenso geral”: o de que LHP vem de práticas espirituais heterodoxas, por vezes individuais; e o RHP, por sua vez, favorece as práticas ortodoxas, geralmente baseadas nos ensinamentos de uma coletividade eclesiástica.

Tudo teve início na Índia...
Talvez surpreenda a muitos ocultistas ocidentais, mas os termos LHP e RHP surgiram inicialmente na Índia, mais precisamente dentre os praticantes do tantra, que pode ser aqui brevemente resumido como o “ocultismo hindu” (na verdade ele é muito mais que isso; apenas não terei tempo para entrar no tema nesta série). No Oriente, o RHP, ou Dakshinachara, se refere a doutrinas e/ou grupos que seguem princípios éticos, morais e filosóficos mais rígidos e conservadores, com forte tendência ortodoxa; por sua vez, o LHP, ou Vamachara, se refere a doutrinas e/ou grupos com práticas heterodoxas em sua maioria, que reforçam e induzem o questionamento e a oposição moral, não adotando estruturas éticas e filosóficas complexas. É preciso lembrar, no entanto, que isso já é muito distante da dualidade infantil de “bem” e “mal”; ou de “magia branca” e “magia negra”.

Porém, se no ocultismo ocidental contemporâneo um praticante LHP pode dividir um mesmo auditório com um praticante RHP sem que necessariamente eles sejam facilmente identificados por sua aparência, vestimenta, acessórios, ou até pela forma de se expressar, na Índia, particularmente na Índia antiga, alguns seguidores do LHP eram instantaneamente percebidos por onde passavam (e ainda são, embora estejam praticamente extintos):

Os aghori são devotos de Kala Bhairava, uma manifestação do deus Shiva associada à aniquilação… do mal! Eles se submetem em sua rotina ritualística à necrofagia, caminham entre cadáveres e fazem utensílios com ossos humanos, justificando tal comportamento como uma prática não-dual, o contato com o verdadeiro Eu, transcendendo todos os tabus sociais. Apesar de não serem considerados “hindus” pelos indianos em geral, os aghori têm curandeiros reconhecidos por seus poderes ditos milagrosos. Devemos pensar na prática aghori como uma vacina, em que você se contamina com o que quer evitar, sendo que a diferença entre a imunização e a infecção está simplesmente na dose e na manipulação do agente. Os aghori provavelmente seriam percebidos por um turista ocidental desapercebido como mendigos imundos que se misturam com mortos... mas, é preciso lembrar que mesmo Jesus Cristo já abriu uma tumba, e fez um cadáver voltar à vida: “Lázaro, levanta-te e anda!”. Não sei se o Rabi da Galileia foi lá muito ortodoxo em suas práticas...

Outra possível compreensão da relação entre o ortodoxo e o heterodoxo que definem os caminhos é a relação entre a disciplina e a abstenção. Um praticante RHP vai preferir abster-se de alguns desejos tipicamente mundanos, como o sexo dito promíscuo ou o consumo excessivo de bebida alcoólica; já alguém da via LHP pode, justamente, buscar ativamente tais práticas, para colocar a sua própria disciplina em xeque. Ou seja: ao invés de evitar o “perigo”, ele irá buscá-lo conscientemente, como alguém que se vê maduro o suficiente para ser testado, para testar a si mesmo, em seus apegos e excessos mundanos. É por isso que alguns dizem que o LHP é um caminho mais direto, porém bem mais perigoso.

Por muito tempo o ocultismo ocidental não esteve muito distante dessa antiga definição hindu para os dois caminhos. Ainda no tempo de Éliphas Lévi, que muitos consideram o maior ocultista do séc. XIX, a chamada “Alta Magia”, que lida com os seres do Alto, com os espíritos etéreos e com o intelecto, esteve associada à ortodoxia cristã e ao RHP. Assim, ainda que nem sempre tenha estado tão claro, se pressupunha que havia uma “Baixa Magia”, para lidar com os seres da Terra, com os espíritos densos e com a intuição – esta, portanto, estaria ligada ao LHP. Até hoje, de fato, podemos encontrar classificações parecidas nos cultos e religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda.

No entanto, com a abertura e divulgação de parte do chamado conhecimento oculto para a população leiga e os não-iniciados em geral, um movimento que atravessou o séc. XX (com grande auxílio de Aleister Crowley) e culminou na era da internet, muitas tradições se intercruzaram e, de uma imensa salada mista de conceitos e interpretações, se acabou chegando, ironicamente, a uma ideia um tanto simples para se compreender os caminhos: expansão e restrição.

Desde o yin e yang oriental já se fala nisso: uma parte da natureza que é ativa e expansiva (yang), e a sua contraparte, passiva e restritiva (yin). Na Árvore da Vida da kabbalah, há o pilar direito, expansivo, e o pilar esquerdo, restritivo. Neste caso, a associação dos lados aos caminhos é natural: o RHP seria o pilar expansivo (direito), enquanto o LHP ficaria do lado restritivo (esquerdo). Tal visão “natural” dos caminhos parece ter agradado muita gente, e em geral se tornou quase que um consenso adicional à antiga interpretação que, como já vimos, veio desde o tantra hindu. É preciso atentar para um detalhe, no entanto: todo yang traz em si um pouco de yin, e todo yin traz um pouco de yang. Com isto em mente, penso que podemos aplicar o LHP e o RHP ao caminho espiritual de cada um de nós (um caminho que, invariavelmente, perpassa muitas vidas)...

Ovelhas pastoreadas e ovelhas desgarradas
A imensa maioria das crianças não guarda senão uma vaga intuição acerca das vidas anteriores. Muitas podem carregar traumas relacionados às inúmeras guerras religiosas de nossa história, mas eles não costumam vir à tona até que chegue a adolescência com sua rebeldia. Assim, a suposta “tábula rasa” de nossa mente precisa ser preenchida com conhecimento, e na maior parte do mundo o lado espiritual é contemplado pela ortodoxia eclesiástica em voga na região em que nascemos. Nos tornamos, enfim, ovelhas pastoreadas pelo ensinamento religioso tradicional, e por seus representantes.

Isto se dá por um imenso movimento de expansão em nossa mente, que passa boa parte da infância sendo inundada, martelada por todo tipo de conhecimento religioso, mais ou menos dogmático, a depender da sorte que tivemos, isto é: do país e da família em que nascemos. Quando iniciamos a formação de nossa personalidade adulta, entretanto, muitas vezes antigos traumas, ou antigas preferências pela heterodoxia, costumam vir à tona. É assim que muitas ovelhas se desgarram de seus rebanhos, se tornando “a ovelha negra da família”.

Esta sempre foi à essência do ateísmo: não necessariamente descrer em Deus, mas ser avesso às tradições, se recusar a praticar a religião estabelecida, não seguir o rumo da multidão, por vezes se isolar não somente em seu próprio pensamento, mas abdicar da sociedade como um todo. Claro que nos dias atuais, numa era hiperconectada, tal isolamento é cada vez mais raro – mas, estranho de se pensar: todo livre-pensador, todo fundador de novas doutrinas e religiões, necessariamente teve o seu momento de eremita, o seu tempo no LHP. Foi necessário restringir a expansão para encontrar as suas próprias ideias.

O próprio cristianismo surgiu de um homem assim. Cristo jamais teria se dignado a perambular pela Galileia com seu punhado de ovelhas desgarradas, falando tanto a homens quanto a mulheres, tanto a nobres quanto humildes, praticando os “milagres” mais estranhos (ao ponto de precisar ser “calado” pela tradição), se não fosse ele mesmo um fiel seguidor do LHP.

No entanto, a partir da consolidação e da imensa vitória do cristianismo enquanto doutrina, todas as discussões da Igreja primitiva foram sendo decididas, todos os dogmas foram sendo estabelecidos sobre as heresias, e de um ensinamento simples e profundo, “Amai ao próximo como a ti mesmo, e a Deus acima de todas as coisas”, toda uma construção se ergueu, com suas virtudes e seus vícios, para se consolidar em uma nova tradição. É desta forma que a maior parte dos santos católicos seguiram o RHP, evangelizando os ensinamentos de um andarilho exótico, maltrapilho, que fazia os mortos se levantarem e afirmava que podia ser consumido, ele próprio, através do pão e do vinho. Não há nada mais heterodoxo que isso.

O mago e o místico
Numa visão geral, todo mago está geralmente ligado a uma via não tradicional, não eclesiástica, enquanto todo místico surge do próprio seio das comunidades religiosas... mas, será que é sempre assim? No ocultismo, não é possível nos atermos a visões binárias, ao “bem” e ao “mal”, ao “branco” e ao “negro”. Assim como todo yin traz sua parcela de yang, e vice versa, o mesmo pode ocorrer aqui.

Por exemplo, em seu aspecto de “realização da vontade”, o mago é muito mais ativo, muito mais expansivo, muito mais associado à coluna direita da Árvore, e não à esquerda. Da mesma forma, em sua “contemplação de Deus”, o místico é muito mais passivo, estando ligado à coluna esquerda, e não à direita.

Por outro lado, quando “expande seu coração” para abarcar a tudo e a todos, o místico se porta de forma incomparavelmente mais expansiva que o mago, que em geral “se restringe ao seu próprio grimório”, ao seu próprio vocabulário, a sua própria linguagem mágica, abdicando de maiores explorações pelas egrégoras alheias.

Quanto à ortodoxia e à heterodoxia, podem ocorrer inversões ainda mais curiosas: o já citado Éliphas Lévi foi um mago grandioso que, em geral, esteve muito ligado à tradição católica; já em pleno século XIII, em meio ao islamismo tradicional, surgiu um místico sufi, Jalal ud-Din Rumi, que passou boa parte de seus dias simplesmente rodopiando e recitando poemas aos seus discípulos. Perto de Lévi, Rumi seria considerado um lunático.

É assim que todo mago e todo místico têm sua fase LHP e sua fase RHP, e por vezes eles conseguem seguir precisamente pelo meio, tomando o rumo direto, o rumo que salta um Abismo ainda mais infernal do que qualquer noite negra da alma. Há que se perguntar, após tantas elucubrações, por que afinal tanta gente se arrisca por tantos e tantos perigos? Por que seguem pelo RHP ou pelo LHP? Aonde se quer chegar com tudo isso?

Creio eu que todos nós, os ocultistas, buscamos por um campo...


Além das ideias de certo e errado,
há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama,
o mundo está preenchido demais para que falemos dele.
Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um”
não fazem mais nenhum sentido.

(Rumi)

» No tomo III: a Verdadeira Vontade.

***

Fontes consultadas
O tema deste tomo é bastante complexo e certamente vai muito além dos meus parcos conhecimentos na área; tal texto jamais teria sido possível sem o inestimável auxílio do artigo O Caminho Sinistro (por XLR), do episódio 19 do Vortex Caoscast – Mão Esquerda para Destros, e das contribuições de Gabriel Leite Bueno, Maes Hughes e Dan Cruz (dentre outros) no grupo do Vortex no Facebook.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search/Geoglyphiks.com [ao longo] Reuters (Aghori de Varanasi, Índia); a1samurai @ DeviantArt.

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28.3.18

Vamos contar o Ômer?

Contagem do Ômer, ou Sefirat ha Ômer, é o nome dado à contagem dos 49 dias ou sete semanas entre Pessach e Shavuót, feriados judaicos correspondentes, respectivamente, a Páscoa e ao dia de Pentecostes. Nesta Contagem mística (de origem judaica), meditamos todos os dias relacionando sete das esferas da Árvore da Vida da Kabbalah com elas próprias e também com as demais, totalizando exatamente os 49 dias de Contagem (7x7=49).

Em 2014 eu segui a Contagem conforme proposta pela Kabbalah Hermética, seguindo o passo a passo organizado pelo meu amigo Marcelo Del Debbio (você pode ver toda a explicação e os vídeos de cada dia da Contagem aqui). De forma inteiramente inesperada, acabei escrevendo (o verbo mais correto provavelmente seria “recebendo”) um novo poema a cada noite da minha Contagem, o que acabou se tornando um livro chamado 49 noites antes da Colheita (disponível em e-book e versão impressa).

Muito bem, para a Contagem deste ano de 2018, que se iniciará ao pôr do sol do dia 31 de Março, eu resolvi preparar uma surpresa a todos os contadores que, pelo menos desde 2015, vêm usando meus poemas para auxiliar em suas meditações do Ômer: recitarei todos eles e irei incluí-los no canal do blog no YouTube. Iniciando por Chesed shebe Chesed, a ideia é que escutem cada um deles com a alma plena, durante a meditação específica de cada dia da Contagem:

“Conte esta noite: Hoje é o dia 1 do Ômer.”

» Aqui você encontra o restante da playlist com todos os áudios (note que eles ainda estão sendo incluídos, até o início de cada semana da Contagem, os áudios correspondentes já devem aparecer por lá).

***

Também recomendamos o Sefirat ha Ômer, um APP gratuito para Android, criado por Cristian Dornelles. Contendo todos os textos e gráficos do passo a passo elaborado pelo Marcelo Del Debbio, este aplicativo independente de conexão com internet serve para lhe guiar em cada noite dos 49 dias de meditação, onde você estiver.

Crédito da imagem: Vinícius Amano/unsplash

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19.3.16

A Sacerdotisa

Este é o Tarot da Reflexão, uma antiga e elaborada história em quadrinhos sobre nós mesmos. Eu decidi embarcar nesta aventura com o meu amigo e ilustrador, Roe Mesquita, que desde o início tem dado o sangue para tornar imagem – belíssimas imagens cheias de cor e de vida – o que antes era pura intuição, pura brisa etérea chegando sabe-se lá de que canto do universo em meu coração.

Hoje encontramos A Sacerdotisa:

Rafael Arrais é autor do blog Textos para Reflexão e receptor do livro 49 noites antes da Colheita, com poemas sobre a Kabbalah e o Sefirat ha Ômer.

Roe Mesquita é artista profissional e ilustrador do cardgame Pequenas Igrejas Grandes Negócios, uma crítica bem humorada ao charlatanismo espiritual.

***

O Tarot da Reflexão é um projeto em andamento. Se um dia for publicado, vocês serão avisados! Enquanto isso, no entanto, vocês já podem acessar o Tarot da Reflexão Online.

Sintam-se a vontade para comentar e nos dizer como vocês interpretam os símbolos da carta acima...

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25.2.16

A arte da magia, uma entrevista com Alan Moore (parte 2)

« continuando da parte 1

Trechos da entrevista de Alan Moore para a revista Pagan Dawn, orginalmente em inglês, com tradução de Rafael Arrais.

Sam: Você vê um elo íntimo entre a magia, a imaginação e a criatividade, uma ideia que foi desenvolvida em Promethea. Conte-nos mais sobre essa conexão.

Alan: Como já foi dito, a minha posição é a de que a arte, a linguagem, a consciência e a magia são todos aspectos do mesmo fenômeno. Com a arte e a magia vistas como quase totalmente intercomunicáveis e conectadas, o reino da imaginação se torna crucial para ambas as práticas.

O reino cabalístico lunar da imaginação é chamado Yesod, que é um termo hebraico que significa "Fundação". Isso sugere que a imaginação é a única fundação sobre a qual nossas funções mentais elevadas estão edificadas e, da mesma forma, por onde podem ser acessadas. A magia, segundo a nossa formulação, parece estar intimamente envolvida com a criatividade e a criação, em quaisquer contextos onde tais termos possam ser usados.

Sam: Promethea já foi descrito como "um passeio cabalístico", e traz uma empolgante visão geral das ciências ocultas. Ele abre a porta para este reino, e parece convidar as pessoas a aprenderem mais sobre ele. Foi esta a sua intenção?

Alan: A minha intenção original com Promethea, um título em que não perco muito tempo pensando hoje em dia, pois não me pertence, foi criar um modelo de história em quadrinho de super-heróis mais imaginativo e elaborado, usando as antigas heroínas do era da ficção pulp [pulp fiction] como meu ponto de partida.

Em uma ou duas edições, eu comecei a perceber como uma personagem desse tipo poderia evoluir para expressar de forma lúcida muitas das ideias que estavam há algum tempo no centro da minha mente e de todo o meu processo criativo.

Sam: Nos capítulos finais da série episódios inteiros foram usados para explorar cada esfera [sephirah] da Árvore da Vida. É verdade que você os escreveu enquanto se encontrava num estado de consciência alterada por rituais e meditações?

Alan: Eu comecei a explorar as esferas inferiores algum tempo antes de iniciar meu trabalho com Promethea. Minhas investigações se valiam tanto de rituais inventados quanto de drogas psicodélicas.

Após certo ponto em meu "passeio cabalístico", eu senti a necessidade de experienciar as esferas mais elevadas, de forma a representá-las de forma autêntica para o leitor. Uma delas, Hokhmah, foi alcançada através dos métodos já mencionados, enquanto para as demais eu decidi testar se a meditação intensa focada na escrita criativa seria suficiente para adentrar tais reinos elevados da consciência e do ser.

Me valendo do critério, "se você não pode imaginar a experiência então provavelmente ainda não alcançou a esfera", eu descobri que realmente poderia investigar todas as esferas superiores, para minha enorme satisfação.

A exceção foi Kether, neste caso eu comi um grande pedaço de haxixe, escrevi as três primeiras páginas da edição e depois praticamente desmaiei.

Sam: Os quadrinhos de Promethea se conectam com o conhecimento esotérico em múltiplas camadas. Para além das palavras e das imagens em si, por exemplo, os episódios que tratam das esferas da Árvore da Vida usam esquemas de cor apropriados para cada um dos reinos visitados. Isso lembra muito o Tarot Ritual da Golden Dawn, que usa as cores das esferas nos elementos simbólicos e no pano de fundo de forma a transmitir bastante informação logo que a carta é observada. O nível de detalhe em Promethea chega a atordoar – tudo isso foi planejado desde o início, ou foi crescendo conforme o título foi sendo escrito?

Alan: Conforme já foi dito, o ímpeto inicial se inclinava muito mais para uma narrativa mais tradicional, e o projeto pareceu evoluir intuitiva e organicamente conforme foi progredindo.

Sobre o assunto dos esquemas de cor cabalísticos, naquela altura eu já havia absorvido a lição de que enquanto os números, joias, plantas, animais, perfumes e divindades eram atributos das diversas esferas, as cores eram basicamente as esferas elas mesmas.

Apesar de na época não estarmos certos de que as várias escalas de cor seriam apropriadas em termos de publicação moderna de quadrinhos, nós decidimos tocar a ideia e, graças ao extraordinário trabalho de Jeremy Cox, formos recompensados com uma bela e envolvente demonstração do poder da atmosfera da decoração cabalística.

Sam: O desenhista, J. H. Williams III, disse que a criação do episódio sobre o Abismo cobrou o seu preço a todos os envolvidos no projeto. Houve outras experiências tão significativas durante o desenvolvimento de Promethea?

Alan: Bem, teve a minha experiência anterior a criação da edição sobre Hokhmah, que ocorreu junto à companhia de Steve Moore numa noite de sexta-feira, em 12 de Abril de 2002, quando estávamos tentando estabelecer se qualquer outra pessoa poderia ver a deusa lunar que ele havia passado cerca de um mês tentando materializar [imaginar], conforme descrevi na minha narrativa psicobiográfica, Unearthing.

O experimento foi não somente um aparente sucesso, como ocorreu no mesmo dia em que uma voz em minha cabeça (estranhamente, minha própria voz, embora dissociada da minha vontade) me disse que eu havia me tornado um mago [Magus], o que, ilusoriamente ou não, eu decidi levar a sério. Eu também recebi uma convicção muito firme de que a edição #32 de Promethea seria a última, e seria construída de alguma forma no formato de um pôster psicodélico.

Após Steve ter ido embora eu escrevi e digitei a edição sobre Hokhmah – foi a #22 ou algo assim – em menos de sete horas de um fluxo característico de energia criativa disforme e espontânea. Ainda não um exemplo de Moorcock em sua melhor forma, mas ainda assim alguma espécie de recorde pessoal.

Desde esse dia a minha vida e as minhas percepções têm sido notadamente diferentes.

Sam: Promethea é a última da longa lista de protagonistas femininas que você criou, desde Halo Jones em 2000AD. O que o atraiu a escrever sobre protagonistas mulheres?

Alan: Não acho que tenha escrito mais histórias com protagonistas femininas do que masculinos. Se parece haver uma preponderância de personagens femininos em minha obra, isso provavelmente nasceu da minha tentativa de abordar a desigualdade entre os gêneros que prevalece em nossa cultura.

Por outro lado, minha série baseada na obra de H. P. Lovecraft, Providence, mal tem quaisquer personagens femininos e, conforme se trata de um trabalho derivado da imaginação de um autor que é notoriamente avesso às mulheres, muitas das que aparecem com o tempo mostram serem monstros apavorantes.

Eu devo destacar que isso se dá por conta da percepção de mundo do Lovecraft, e não da minha.

Sam: No seu ensaio de 2002, Fossil Angels, você sugere que os rituais e a linguagem que circundam a magia conspiraram para manter a maioria das pessoas afastadas. Promethea por acaso foi uma tentativa de romper tais barreiras e despertar as massas para as tradições magísticas?

Alan: Todo o propósito do Moon and Serpent Grand Egyptian Theatre of Marvels (do qual Promethea é claramente uma parte não-oficial) desde o seu nascimento foi o de expressar as ideias da magia da forma mais bela e lúcida possível.

Em nosso Bumper Book of Magic nós vamos além e demandamos que os magos modernos se posicionem ao centro da sociedade, ao invés de se esconderem em suas margens, se engajando na ciência, na arte, na política, na filosofia e nas questões sociais, assim reconectando a magia com a população em geral, conforme ela foi inicialmente elaborada para servir e iluminar.

» encerra na parte 3

***

Crédito da imagem: Montagem do Jovem Nerd (Alan Moore e capas do Promehtea ao fundo)

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17.1.16

O Tarot da Reflexão

Muito já foi dito e especulado acerca do Tarot. Eu não estou aqui para teorizar acerca dele, mas para falar sobre o que senti em meu coração quanto descobri o que as suas cartas eram de verdade: lá dentro, o Tarot me pareceu como uma história em quadrinhos muito antiga e elaborada, que vem sendo contada e recontada há séculos... Sobre o que ela fala? Sobre nós.

São 22 Arcanos Maiores e 56 Arcanos Menores que, juntos, formam uma jornada eterna, um caminho que temos encenado e reencenado em nossa mente, em nossa alma, desde a luz primordial até a materialização final. Afinal, não se enganem: Toda a arte humana surgiu de uma alma humana.

E foi pensando nisso, em como a luz foi criada para ser refletida, que eu decidi embarcar nesta aventura com o meu amigo e ilustrador, Roe Mesquita, que desde o início tem dado o sangue para tornar imagem – belíssimas imagens cheias de cor e de vida – o que antes era pura intuição, pura brisa etérea chegando sabe-se lá de que canto do universo em meu coração.

Este é o Tarot da Reflexão, e a nossa história se inicia no alto de um penhasco ensolarado e cheio de Ar. Daqui para frente, como um trovão, desceremos Árvore abaixo... Boa viagem!


Rafael Arrais é autor do blog Textos para Reflexão e receptor do livro 49 noites antes da Colheita, com poemas sobre a Kabbalah e o Sefirat ha Ômer.

Roe Mesquita é artista profissional e ilustrador do cardgame Pequenas Igrejas Grandes Negócios, uma crítica bem humorada ao charlatanismo espiritual.

Então sou louco,
e quando vejo a vida passar
percebo que tudo que vejo
é sagrado;
e tudo que ainda não vejo,
mas dia virá que verei,
é apenas a saudade que sinto
de tudo de sagrado...
tudo isso que ainda não amei.

Então sou louco,
e quando vejo formigas a marchar,
andorinhas a voar,
e homens ignorantes a se exterminar,
percebo que tudo segue a lei;
nascer e morrer,
renascer e, lentamente, compreender:
a lei é a vontade,
o amor é a lei...
e devemos tão somente amar-nos
na idade em que nos é dado escolher.

Então sou louco,
se me lembro de quem fui,
se percebo de relance
quem sou: mais uma partícula de poeira
a girar no turbilhão universal;
então compreendo o longo caminho
que eu mesmo tracei para mim:
vejo mundos, vejo a força que os conduz
pelo Cosmos sem fim...

Então sou louco,
e minha loucura é feita de luz.

raph’09


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» Vejam as demais cartas deste Tarot: O Mago; A Sacerdorisa; A Imperatriz; O Imperador; O Hierofante; Os Amantes

» Acessem também O Tarot da Reflexão Online, e façam consultas direto do navegador (é grátis!)

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O Tarot da Reflexão é um projeto em andamento. Se um dia for publicado, vocês serão avisados!

Sintam-se a vontade para comentar e nos dizer como vocês interpretam os símbolos da carta acima...

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4.4.15

Aos contadores do Ômer...

A Contagem do Ômer, ou Sefirat ha Ômer, é o nome dado a contagem dos 49 dias ou sete semanas entre Pessach e Shavuot, feriados judaicos correspondentes, respectivamente, a Páscoa e ao dia de Pentecostes. Através da Cabala, a Contagem deixou de ser somente uma tradição agrícola, ou histórica, para se tornar um dos maiores rituais de meditação e autoconhecimento do mundo, praticado simultaneamente por milhares de pessoas em todo o globo, todos os anos.

Durante 49 noites, no Ômer de 2014, eu meditei sobre o microcosmo e o macrocosmo, sobre a lua e as estrelas, sobre a noite escura e a manhã vindoura, sobre a solidão e a tristeza, e sobre o amor que é eterno... Tais meditações se transformaram em poemas, e são estes poemas que compõem o livro 49 noites antes da Colheita.

Em homenagem aos contadores do Ômer deste ano, disponibilizei meu livro em download gratuito na Amazon, a promoção é válida entre hoje (04/04) e aproximadamente quinta-feira (08/04). Se você vai iniciar sua Contagem hoje, já pode aproveitar os poemas como "instrumento de trabalho". Alguns podem preferir ler o poema correspondente ao dia da Contagem antes ou depois da sua meditação diária, mas o importante é que acredito que eles podem, de verdade, lhes ajudar:

Baixe grátis (Kindle)

Não tem um Kindle? Não há problema: você também pode ler os e-books da Amazon num Tablet, iPad, Laptop, Smartphone, iPhone, PC ou MAC, basta instalar um dos aplicativos de leitura gratuitos.

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Vejam o vídeo com um dos poemas do livro, Netzach shebe Netzach, com música e edição de Fabio Almeida:

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Ainda no tema de "downloads gratuitos" para a Contagem de 2015, recomendamos o Sefirat ha Ômer 2015, um APP gratuito para Android, criado por Cristian Dornelles. Contendo todos os textos e gráficos do portal Teoria da Conspiração, este aplicativo independente de conexão com internet serve para acompanhar cada dia dos 49 dias de meditação, onde você estiver:

» Baixe grátis no Google Play

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14.6.14

Lançamento: 49 noites antes da Colheita

As Edições Textos para Reflexão retornam com os 50 poemas que foram o fruto da minha Contagem do Ômer neste ano de 2014 (*).

A Contagem do Ômer, ou Sefirat ha Ômer, é o nome dado a contagem dos 49 dias ou sete semanas entre Pessach e Shavuot, feriados judaicos correspondentes, respectivamente, a Páscoa e ao dia de Pentecostes. Através da Cabala, a Contagem deixou de ser somente uma tradição agrícola, ou histórica, para se tornar um dos maiores rituais de meditação e autoconhecimento do mundo, praticado simultaneamente por milhares de pessoas em todo o globo, todos os anos.

Durante 49 noites, enquanto este lado do globo virava suas costas ao sol, eu meditei sobre o microcosmo e o macrocosmo, sobre a lua e as estrelas, sobre a noite escura e a manhã vindoura, sobre a solidão e a tristeza, e sobre o amor que é eterno... Tais meditações se transformaram em poemas, e são estes poemas que compõem esta edição.

Um livro digital já disponível para o Amazon Kindle, e também na versão impressa:

Comprar eBook (Kindle) Comprar a versão impressa

***

Quem frequenta o blog deve se lembrar que alguns desses poemas já foram publicados por aqui. Para facilitar, estou trazendo os links para todos eles novamente abaixo:

» [Chesed shebe Chesed]

» [Hod shebe Chesed]

» [Chesed shebe Geburah]

» [Netzach shebe Geburah]

» [Geburah shebe Tiferet]

» [Hod shebe Tiferet]

» [Netzach shebe Netzach] (vídeo do Fabio Almeida sobre este poema)

» [Malkuth shebe Netzach]

» [Hod shebe Hod, ou Lag Baômer]

» [Tiferet shebe Yesod]

» [Yesod shebe Yesod]

***

(*) Gostaria de agradecer enormemente ao Marcelo Del Debbio por haver me encaminhado, indiretamente, para esta trilha. Ao Rodrigo Amorim Grola por ter me dado permissão de utilizar sua magistral ilustração da Ávore da Vida no livro. Ao pessoal do Conversa entre Adeptus pelo capricho nos vídeos com as instruções para as meditações de cada dia. E, especialmente, ao Fabio Almeida, por ter preenchido com música alguns dos poemas que consegui "roubar" de Kether. Claro que devo estender o agradecimento a todos os leitores, atuais e futuros, pois este livro agora é de todos vocês - eu já fiz a minha parte!


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11.6.14

49 noites depois...

Não percam a conta! O próximo lançamento das Edições Textos para Reflexão será nada menos do que o resultado da minha Contagem do Ômer neste ano de 2014: 49 noites antes da Colheita - um Sefirat ha Ômer poético. Certamente uma das fases mais inspiradas da minha vida como poeta e escritor...

Vocês já devem ter visto alguns poemas com títulos esquisitos por aqui, não? Pois é, eu já expliquei melhor do que eles se tratam noutro post. Agora quero lhes trazer uma passagem da Introdução do livro, onde falo sobre a música Lamidbar, do grupo Mawaca, que me auxiliou enormemente na jornada ascendente pela Árvore da Vida. E, ao final, uma amostra da capa do livro!

***

LAMIDBAR

Há mais de uma década tenho a felicidade de conhecer um dos maiores grupos musicais em atividade no mundo; e que é, quem diria, brasileiro.

O Mawaca é um grupo que pesquisa e recria a música das mais diversificadas etnias do globo buscando conexões com a música brasileira. Formado por sete cantoras que interpretam canções em mais de dez línguas, o Mawaca revela no seu nome a essência do seu trabalho. Segundo a etnia hausa do norte da Nigéria os mawaka (cantores-xamãs) recorrem ao poder mágico da palavra cantada para atrair o poder dos espíritos.

Como me vali de uma de suas interpretações mais belas, Lamidbar, para me auxiliar em minhas meditações na Contagem do Ômer, penso que deveria trazer aqui ao menos a letra deste canto hebraico tradicional, que segue abaixo:

Lamidbar saenú
Al gavshot gmalim
Al tsabeihem ietsaltselú
Paamonim gdolim
Saenú, saenú
Lamidbar saenú
Li li li li li li

Allá en el midbar,
vide relumbrar,
con voz de adobe
y un buen cantar
las tablas de la ley
(que) vide abajar

Mira el Rey
Es Mose rabenu
Que subió y abajó
a los altos cielos
Li li li li li li

[tradução]

Vamos para o deserto
Montados em nossos camelos
Seus guizos, pelo caminho, vão tilintar
Vamos, vamos!
Li li li li li li

Lá no deserto
vê-se alumiar
ao som do adobe [pandeiro sem platinelas]
e de um lindo cantar
as tábuas da lei
que dos céus vão baixar

Vivas ao rei!
É Moisés, o rabino
Que subiu e desceu
das alturas celestiais
Li li li li li li

***

Segundo Magda Pucci, do grupo Mawaca, “neste arranjo, nós tomamos a melodia cantada por Ora Sittner, cujo texto está em hebraico (versão de Alexander Penn), e utilizamos o texto em ladino da versão grega e turca coletada por Susana Weich, especialista em música sefaradita (dos judeus de Portugal e Espanha)”.

Lamidbar é parte do CD/DVD Pra todo canto, e pode ser facilmente encontrada online (*).

***

(*) Por exemplo, no Soundcloud:

Capa do livro

Sim, terá versão impressa, além de eBook na Amazon!


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11.5.14

A Contagem do Ômer

A Contagem do Ômer

Até o dia seguinte ao sétimo sábado contareis cinquenta dias; e oferecereis uma nova oferta de cereais a Jeová. E quando segardes as searas da vossa terra, não segareis totalmente os cantos do vosso campo, nem colhereis o rabisco da vossa seara; para o pobre e para o estrangeiro o deixareis: eu sou Jeová vosso Deus – Levítico, 23:16 e 23:22 (Sociedade Bíblica Britânica)


Contagem do Ômer, ou Sefirat ha Ômer, é o nome dado a contagem dos 49 dias ou sete semanas entre Pessach e Shavuót, feriados judaicos correspondentes, respectivamente, a Páscoa e ao dia de Pentecostes. A Pessach, também conhecida como “Festa da Libertação”, celebra a fuga dos hebreus da escravidão no Egito em 14 de Nissan no ano aproximado de 1280 a.C. Ora, Nissan é o mês do calendário judaico que se inicia com a primeira lua nova durante a época em que a cevada já plantada atinge o seu amadurecimento. A Contagem do Ômer (sefirat significa “contagem”) tem, portanto, a sua utilidade prática, que é a contagem dos dias até que a cevada esteja pronta para a colheita. Ômer era uma medida antiga de grãos secos, e equivalia a aproximadamente 2,2 litros.

O caráter festivo mais antigo de Shavuót é o de uma festa campestre. Ao final da Contagem, já no mês de Sivan do calendário judaico, era realizada a colheita da cevada e de outros cereais. Grandes grupos de agricultores afluíam de todas as províncias, e o país adquiria um aspecto animado e pitoresco. Todos se dirigiam a Jerusalém, acompanhados durante todo o trajeto pelos alegres sons das flautas. Em cestos decorados com fitas e flores, cada qual conduzia a sua oferenda: primícias do trigo, cevada, uvas, figos, romãs, azeitonas e tâmaras. Chegando à Cidade Santa eram acolhidos com cânticos de boas vindas e adentravam ao Templo, onde faziam a entrega de seus cestos ao sacerdote. A cerimônia se completava com hinos, toques de harpas e outros instrumentos musicais.

Há uma outra razão para o Shavuót ser tão festivo. Ocorre que a Contagem do Ômer (os 49 dias que o antecediam) não era exatamente um período de grandes alegrias, mas sim de introspecção, e até mesmo melancolia... Nesses dias, os hebreus também refaziam em seu imaginário os passos da jornada de seus antepassados do Egito ao Monte Sinai, em sua fuga angustiada do jugo do Faraó.

Posteriormente, o período da Contagem também passou a ser considerado um período de luto em memória à peste que matou centenas de discípulos do rabino Akiva. Costumeiramente os homens não se barbeavam e nem celebravam casamentos neste período. O único dia em que se abandonava o luto era no Lag Baômer, o trigésimo terceiro dia da Contagem (Hod shebe Hod), e o dia que marcou o fim definitivo dos casos da doença.

Este dia era também o dia em que faleceu o rabino Shimon bar Yochai, considerado o grande precursor da Cabala, uma vertente mística do judaísmo tradicional. E foi exatamente através da Cabala que a Contagem do Ômer deixou de ser somente uma tradição agrícola, ou histórica, para se tornar um dos maiores rituais de meditação e autoconhecimento do mundo, praticado simultaneamente por milhares (quiçá milhões) de pessoas em todo o globo, todos os anos.

Nesta Contagem mística, meditamos todos os dias relacionando sete das esferas da Árvore da Vida com elas próprias e também com as demais, totalizando exatamente os 49 dias de Contagem (7x7=49). A Árvore da Vida, na tradição da Cabala, representa um sistema hierárquico que pode ser lido de duas formas: De cima para baixo, se inicia na centelha divina (Kether), e vai se tornando mais “densa”, até atingir o mundo físico (Malkuth). De baixo para cima, se inicia na consciência “mundana”, que vai se elevando, esfera por esfera, até que se abra inteiramente para a comunhão com a divindade do Cosmos. Estes dois caminhos representam tanto a criação de tudo que há a partir desta substância primeira, como o caminho de religação que a consciência humana precisa galgar para que consiga se reunir novamente com sua origem divina.

Apesar de a Árvore conter, na realidade, 10 esferas, há 3 delas que se situam tão próximas da centelha divina, do transcendente e inefável, que também estão além das conceitualizações da linguagem. Neste sentido, as meditações diárias da Contagem usam somente 7 das 10 esferas:

Chesed ou Bondade (Misericórdia)
Chesed se situa abaixo de Chokmah. É a misericórdia. Representa o desejo de compartilhar incondicionalmente. Representa a vontade de doar tudo de si mesmo e a generosidade sem preconceitos, a extrema compaixão.

Geburah ou Disciplina (Rigor)
Geburah se situa abaixo de Binah. É o rigor. Representa o desejo de contenção e de questionar os próprios impulsos. Canaliza sua energia por meio de objetivos concretos, com o intuito de superar obstáculos e transformar a própria natureza.

Tiferet ou Compaixão (Beleza)
Tiferet se situa abaixo e entre Chesed e Geburah. É a beleza. Transforma em beleza Chokmah, Binah e Kether (as 3 esferas superiores). É a sabedoria e o entendimento sob a luz do conhecimento. Representa a divisão da árvore em macrocosmo e microcosmo.

Netzach ou Tolerância (Vitória)
Netzach se situa abaixo de Chesed. É a vitória. Representa a energia dos sentimentos. Se relaciona com a vontade de reciprocidade, a busca pelo próximo e a superação dos próprios limites, propagando o pensamento eterno. Funciona como o princípio fertilizador do esperma masculino.

Hod ou Humildade (Esplendor)
Hod se situa abaixo de Geburah. É o esplendor. Representa o pensamento concreto. É um canal de aprimoramento interno, de identificação com o próximo, sendo uma forma de aceitação do pensamento, assim como do reconhecimento dos opostos. Funciona como o princípio receptivo do óvulo feminino.

Yesod ou Compromisso (Fundação)
Yesod se situa abaixo e entre Netzach e Hod. É a fundação. Representa o Plano Astral. Funciona como um reservatório onde todas as inteligências emanam seus atributos, que são então misturados, equilibrados e preparados para a revelação material. É a compilação das oito demais emanações (Malkuth não tem emanação).

Malkuth ou Nobreza (Reino)
Malkuth se situa na posição central inferior da árvore. É o reino. Representa o mundo físico, onde é revelado o material compilado e emanado por Yesod (das oito demais emanações). É o canal da manifestação, desejando a recepção das demais esferas. É a distância de Kether que provoca esse desejo, criando a sensação de falta e de solidão. É, assim, o início do caminho ascendente.


Vejam abaixo uma ilustração da Árvore da Vida, por Rodrigo Amorim Grola:

A Árvore da Vida

***

Durante 49 noites, enquanto este lado do globo vira suas costas ao sol, eu tenho meditado sobre tais esferas, sobre o microcosmo e o macrocosmo, sobre a lua e as estrelas, sobre a noite escura e a manhã vindoura, sobre a solidão e a tristeza, e sobre o amor que é eterno...

Tais meditações têm se transformado em poemas, e os seus títulos correspondem exatamente ao dia da Contagem em que chegaram para mim. Não sei até onde isso tudo vai dar, mas o vídeo abaixo é somente um exemplo do que tem ocorrido em minha vida durante a Contagem do Ômer.

Boa reflexão a todos!


Em 9 de Maio de 2014 (Netzach shebe Netzach), durante a meditação da Contagem do Ômer, estas palavras chegaram para mim. Um dia depois, meu amigo Fabio Almeida (autor do blog, podcast e videocast Música & Magia) me deu este presente maravilhoso, com música que parece ter saído do mesmo lugar de onde vieram as tais palavras...


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29.1.13

O software angélico que roda no eixo do mundo, parte final

« continuando da parte 2

Eu tendo a pensar o Paganismo como um tipo de alfabeto, de linguagem. É como se todos os deuses fossem letras dessa linguagem. Elas expressam nuances, sombras de uma espécie de significado ou certa sutileza de ideias, enquanto o Monoteísmo é só uma vogal, onde tudo está reduzido a uma simples nota, e quem a emite nem sequer a entende (Alan Moore).

“Watson derrota a humanidade”
Essa foi uma das manchetes para a vitória de Watson, um computador que ganhou dos melhores competidores que a raça humana tinha disponível no Jeopardy!, um jogo de perguntas e respostas da TV americana. Como seus concorrentes humanos, Watson não estava ligado à internet. Tudo o que ele tinha à disposição era uma memória de 15 mil gigabytes com alguns milhões de textos arquivados e uma capacidade de processamento equivalente à de 2.800 micros caseiros. Um computadorzão bem programado, só isso.
Os cérebros humanos por trás são tão importantes que o próprio Watson errou questões por bobeira de programação. Um dos deslizes: perguntaram qual categoria da elite do automobilismo tem o nome de uma tecla de computador. "F-1" era a resposta. Qualquer batedeira tem capacidade de processamento para cruzar uma lista de nomes de teclas com uma de categorias de corridas. Mas a coisa mais próxima que Watson tinha para dizer era "Nascar". Falha dele? Não, dos programadores - a Fórmula 1 é solenemente ignorada nos EUA.
O erro nessas horas é imaginar que as máquinas são uma espécie à parte. Computadores são só alicates e martelos mais complexos. E quando você marreta o dedo não é culpa da natureza do martelo, mas sua, que não soube "programar" a martelada. A vida é melhor com martelos. Com supercomputadores também [1].
O que os bons observadores constatam, portanto, é que não existe nem existirá exatamente uma inteligência artificial, mas apenas uma ferramenta que é a extensão de alguma inteligência natural, que a programou. Computadores somente computam informação, mas são os seres que as interpretam, são os seres que as moldam em suas mentes, e as passam adiante, com uma nova forma e uma nova luz. E quem sabe disso, torna-se, nesta Criação, um cocriador.

Os muwakkals
Os sufis, místicos do Islã, dizem que assim como no corpo físico de um indivíduo muitos germes nascem e se desenvolvem como seres vivos, de forma análoga, existem também muitos seres no plano mental, chamados muwakkals ou elementais. Estes são entidades ainda mais etéreas nascidas do pensamento humano, e assim como os germes vivem no corpo humano, tais elementais sobrevivem de seus pensamentos. Segundo os místicos do Islã, o homem muitas vezes imagina que seus pensamentos não têm vida; ele não percebe que eles são mais vivos do que os germes físicos, e que eles também passam por nascimento, infância, juventude, velhice e morte. Eles trabalham contra ou a favor dos homens de acordo com sua natureza. Os sufis afirmam que os criam, elaboram e controlam. Um sufi os repete e os educa através de sua vida; ele forma seu exército e subjuga seus desejos.
Para os descrentes, a possibilidade de que nossa mente possa criar “pensamentos vivos”, e os educar para que sigam adiante com vidas próprias, pode parecer algo mais próximo do pensamento mágico do que da ciência. Mas, se procurarem saber o que Richard Dawkins, apóstolo do ateísmo, descreveu tão bem em sua obra prima, O gene egoísta, chegarão a um conceito muito próximo dos muwakkals sufi – apenas Dawkins os chamou de memes.
Sejam o que for, entretanto, estamos aqui analisando a possibilidade lógica de que seres possam ser criados “com algum grau de perfeição” do nada, sem passar por evolução alguma. Sejam robôs com inteligência artificial, sejam memes, sejam muwakkals, todos estes são candidatos, mas absolutamente nenhum deles é realmente capaz de se enquadrar no que buscamos. Pois o que buscamos, de fato, não existe: uma ferramenta, um computador, um algoritmo, um pensamento vivo – todos são tão somente extensões da mente que os criou em primeiro lugar, e não seres que evoluem por conta própria. No fim, um robô será sempre um robô.

O Grande Desconhecido
Conforme já dissemos, muitas mitos de criação das mais diversas e antigas culturas humanas falam de um “deus obscuro e ocioso”, que criou tudo o que há, inclusive os demais deuses, e depois se retirou. Olorun, afinal, não aceita oferendas, pois já possuí todas as oferendas do Cosmos, pois que é o próprio Cosmos, e estamos neste momento, como em todos os outros, encharcados por sua substância divina. No Evangelho de Tomé, Jesus também diz que o Reino de Deus se encontra espalhado pela Terra, mas os homens não o veem. No taoismo, o Tao é aquela substância “anterior ao Soberano do Céu”, um “vazio” que a tudo preenche, profundo e inesgotável. Benedito Espinosa a chamou de “a substância que não poderia haver criado a si mesma”. Mesmo o cristão de religiosidade mais superficial a conhece como algum elemento estranho chamado de Espírito Santo...
Mas e qual é o santo, iogue, rabi ou guru, que pode bater no peito e bradar: “Eu sei o que é Deus”? E, ainda que saiba, será mesmo que qualquer outra mente, qualquer outra máquina de interpretar a realidade, poderá chegar exatamente a mesma concepção? Como saber de que forma seu amante lhe ama? Como saber de que forma uma pessoa sente dor?
Para criar uma torta de maçã a partir do nada, antes seria preciso criar todo o universo... Para compreender exatamente como outro ser sente, ama ou sofre, antes seria preciso ser todo o universo.
Seria preciso conhecer o Grande Desconhecido, o Inefável, o Inalcançável, como ele mesmo se conhece. E esta é a aventura, a jornada, o prazer de todo verdadeiro religioso: religar-se a Deus.

O software angélico que roda no eixo do mundo
Tendemos a ver o xamanismo, o politeísmo e o paganismo em geral com certa desconfiança, particularmente no Ocidente. O que o monoteísmo sempre nos ensinou é que os pagãos são incapazes de perceber a mais básica das ideias: que tudo o que existe necessariamente surgiu de algo eterno e incriado, um Deus antes dos deuses... Entretanto, como já vimos, sempre existiram pagãos que sabiam perfeitamente disso, e devemos antes nos sentir orgulhosos destes sábios ancestrais, que muito antes dos hebreus já haviam chegado a tal concepção maravilhosa: a ideia de que há um Deus, uma substância ou ser incriado, anterior a tudo, causa primeira de tudo, o que se opõe ao nada... Aquele quem primeiro disse, quem sabe, “Eu sou”.
Como podemos ter alguma esperança de conhecer este Infinito? Ora, da mesma forma que temos esperança de um dia conhecer todas as leis da Natureza... A ciência nos ensinou, na verdade, uma lição que lhe era ainda muito anterior: separar o Infinito em pequenas partes, em aspectos e reflexos, para quem sabe um dia, estudando e compreendendo, amando e sentindo, uma a uma, cheguemos a uma compreensão melhor e mais profunda daquele Ser que tanto incomodou a Nietzsche: “Eu quero Te conhecer, Desconhecido” – disse o alemão quando ainda jovem, para uma plateia de jovens.
Assim como a ciência elaborou a Biologia, a Física, a Química ou a Neurologia, a mitologia elaborou o Soberano do Céu, Palas Atena, Hermes, Odin, Oxalá, e tantos outros deuses (e orixás) que são tão somente pequenas partes do Uno, aspectos do Infinito... Os deuses são o alfabeto com o qual a mente humana é capaz de reencenar, neste mundo objetivo, os fatos subjetivos de sua própria alma. Toda a mitologia é uma encenação da alma humana, toda a mitologia diz respeito a você: “Você venceu o seu monstro interior? Você morreu para seu lado animal, para renascer, três dias depois, como um novo ser?”.
Mas, seja este Grande Desconhecido quem for, talvez tenha tanta necessidade de nos amar, e reconhecer a si mesmo, através de nós, quanto nós temos esta necessidade ancestral de caminhar em sua direção – cada vez mais adentro. Nesta grande aventura, talvez também sejamos como o João no Pé de Feijão, que precisa escalar o axis mundi, e retornar com a galinha dos ovos de ouro... Ou talvez sejam precisas várias tarefas de Hércules, muitas e muitas aventuras, e inúmeras vidas.
Podemos então precisar de aliados, pois a longa jornada por vezes vai além de nossas capacidades humanas... E se o Grande Desconhecido não pode se revelar ainda, se é ainda muito arriscado que o vejamos face a face, sem estarmos amadurecidos para tal momento, quem sabe ele não nos ajude de outra forma?
Um software é uma sequência de instruções a serem seguidas e/ou executadas, na manipulação, redirecionamento ou modificação de uma informação ou acontecimento. Na mente divina existe tudo o que há, o Todo é mental. Na própria engenharia da realidade, ou mesmo no eixo que liga a Terra ao Céu, e o consciente ao inconsciente, pode sim haver um software rodando sem que o percebamos. Não fomos nós os programadores – os anjos podem ser robôs, portanto, mas robôs programados pelo Grande Arquiteto, o Programador dos programadores, o Deus dos deuses.
Eles são o Seu presente para esta grande aventura, e dizem que existem 72 deles a bailar pelo axis mundi. De vez em quando, um poeta vê uma de suas asas no céu, e de alguma forma sabe que não se trata apenas de um pássaro...

***

[1] O texto dos últimos 3 parágrafos foi retirado de um artigo de Pedro Burgos e Alexandre Versignassi para a revista Superinteressante, edição 290.

Crédito da imagem: Latajace

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8.1.13

O Ouroboros e a Árvore da Vida

Trecho do meu livro, Ad infinitum, que será lançado em 2013. Esta é uma nota acerca do símbolo representado na capa do livro...

Penso que os símbolos expostos na capa merecem alguma explicação:

A serpente formando um círculo quase perfeito, mordendo a própria cauda, representa o ouroboros. O nome vem do grego antigo, uma junção de oura (cauda) com boros (devora, devorar). Este símbolo antigo está relacionado à ideia de eternidade, e dos ciclos ininterruptos da existência: a serpente morde a própria cauda e forma um novo ser, assim como pode se livrar da pele antiga, e formar uma nova, embora sempre continue a ser, em essência, serpente. É possível que o símbolo matemático do infinito (∞) tenha se originado a partir da representação de dois ouroboros lado a lado. Finalmente, conforme o círculo formado pela serpente nunca será um círculo perfeito, isto nos remete a ideia de que a busca pelo conhecimento é um eterno “vir a ser”, sem que necessariamente devamos nos preocupar com a ideia opressora de “chegarmos à perfeição final”, pois talvez algo assim sequer exista. Agostinho de Hipona resumiu melhor: “Crer para compreender, compreender para crer; Buscar para encontrar, e então continuar buscando”.

Já a árvore no interior do círculo formado pela serpente pode remeter a pelo menos três simbologias distintas:

(a) A Árvore da Vida na Cabala, que representa um sistema hierárquico que pode ser lido de duas formas: De cima para baixo, se inicia na centelha divina (Kether), e vai se tornando mais “densa”, até atingir o mundo físico (Malkuth). De baixo para cima, se inicia na consciência “mundana”, que vai se elevando, esfera por esfera, até que se abra inteiramente para a comunhão com a divindade do Cosmos. Estes dois caminhos representam tanto a criação de tudo que há a partir desta substância primeira, como o caminho de religação que a consciência humana precisa galgar para que consiga se reunir novamente com sua origem divina;

(b) A Árvore da Ciência do Bem e do Mal, que no mito bíblico representa ao mesmo tempo o perigo e a benção de se tomar conhecimento da própria mortalidade. Afinal, os animais irracionais são imortais, na medida em que não têm a ciência da própria morte. O ser humano se torna mortal a partir do momento em que começa a desenvolver a própria racionalidade, o próprio conhecimento, o próprio sentimento, a própria intuição. Este é o caminho que todos precisamos percorrer – “sair do Éden” para, depois de muito esforço, descobrir finalmente que o Éden não foi nem será, mas é, e sempre esteve em nossa própria consciência, a ciência do nosso ser;

(c) A árvore filogenética, que na biologia representa as relações evolutivas entre várias espécies ou outras entidades que possam ter um ancestral comum. Na árvore de todas as espécies de vida que existem ou já existiram na Terra, o ser humano é apenas um pequeno galho, bem lá no topo, um recém-chegado no teatro ancestral da vida...

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Crédito da imagem: Ayon (o símbolo referido na nota acima)

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3.12.12

Tudo o que você queria saber sobre deuses

E nem sabia ao certo de onde começar...

Que tal começar por esta palestra de Marcelo Del Debbio na Loja Teosófica Liberdade, em São Paulo, onde ele fala sobre os paralelos entre os deuses e a árvore da vida? Pode parecer difícil de entender, mas não é:

A Kabbalah e os deuses de todas as religiões
O vídeo é uma gravação em áudio acompanhada das imagens da apresentação. É recomendado alterar a qualidade para 480 pixels e ver em tela cheia.

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» Veja também a série de artigos A roda dos deuses

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6.11.12

O recitador

Numa noite quente, enquanto retornava de seu passeio pelo deserto, Yeshua reencontrou o rabino andarilho, que um dia havia lhe convidado para sua sinagoga. Parecia cintilante em meio aquela noite sem tantas estrelas, uma alma entusiasmada sempre parecia mais com um oásis em meio a tanta secura...

Andarilho – Rabi! Rabi! Finalmente encontrei-o novamente. Estive perdido, com saudades de tua luz, então decidi abandonar as sinagogas e rumar para o deserto, atrás de tuas pegadas!

Mensageiro – Mas porque abandonou sua sinagoga?

Andarilho – Os textos antigos me escravizavam, eu quero uma nova religião, uma nova interpretação. Eu quero ser livre como tu e teus pescadores, me ajude a ser também um pescador de almas.

Mensageiro – Mas rabi, existe um lugar para cada um de nós neste grande deserto, e cada um de nós deve fazer sua parte para que ele um dia se torne um pomar.

Andarilho – Não me chame de rabi, tu que és o Rabi da Alma, e agora eu sei disso... Todos aqueles textos antigos, de nada nos servem mais, tu veio renovar à tudo, tu veio trazer uma nova lei; Tu nos oferta a Verdade, e os livros de minha sinagoga são incapazes de transmiti-la.

Mensageiro – E você acha que eu vim negar a lei antiga, apagar o texto e escrever um outro? Rabi, rabi, eis o que ocorre: a Verdade já está nos textos, e espalhada pelos ventos, pelas pedras e os galhos secos, mas nós temos dificuldade em interpretá-la, em criarmos olhos de enxergar, e compreender... Vou demonstrar o que quero dizer: você conhece a história de como Moshê guiou nosso povo para longe do jugo do Faraó?

Andarilho – Sim, claro... Mas peço encarecidamente que me rememore, pois algo me diz que, saindo de tua boca, será uma nova história, um novo êxodo...

Assim, Yeshua começou a recitar:

Mensageiro – Moshê foi encontrado no Nilo, o rio sagrado, pela filha do Faraó. Admirada pela presença de um filho das águas, decidiu educá-lo como um príncipe dentro da metrópole. Mas, apesar de sábio, Moshê cresceu inquieto, turbulento, como a água que deseja sair da represa...
Diz-se que, ao ver um feitor egípcio açoitando um escravo israelita, foi tomado de imensa compaixão para com o escravizado, e por uma cólera avassaladora contra seu opressor. Matou-o com um pensamento.
Assim, apesar de príncipe do Egito, foi obrigado a fugir da metrópole, para escapar da pena de morte do Faraó. Agradeceu a mãe, e iniciou um longo exílio pelo deserto, levando consigo boa parte dos escravos israelitas. Agora, eram todos livres, e ele era o seu santo pastor pelas areias escaldantes e as noites frias.
Diz-se que o Faraó mudou de ideia, e mandou legiões de soldados em seu encalço, para que os trouxessem de volta a sua metrópole. Moshê pensou que sua mãe poderia estar com saudades dele, mas não poderia retomar uma vida onde houvessem escravos  e opressores por toda a parte – e decidiu apertar o passo, embora não soubesse ao certo para onde fugir de tantos soldados.
Numa dessas noites, enquanto caminhava ao redor da aldeia, como eu mesmo costumo fazer, eis que Moshê se depara com um pequeno arbusto em chamas, a iluminar sua noite como a mais bela das estrelas. Seu fogo não findava, pois parecia ser o gerador de si mesmo. Moshê criou olhos de enxergar, e compreendeu a mensagem que Jeová havia lhe transmitido. Alegrou-se: agora, finalmente, sabia para onde lavar seu povo!
Diz-se que, antes que pudesse adentrar aos territórios prometidos por Jeová, foi encontrado e encurralado pelos soldados do Faraó. E lá estava Moshê, com seu povo liberto, e duas opções: arriscar a travessia do Mar Vermelho, ou render-se ao desejo do Faraó.
Moshê decidiu arriscar um milagre. Levantou, com toda convicção e vontade, seu longo cajado; e, quando o pousou ao solo, veio uma ventania, com nuvens esvoaçantes, que dividiu ao próprio mar a sua frente em duas imensas colunas, cada qual com 36 carpas douradas a nadar tranquilamente em direção à outra margem, como que apontando o caminho, e dizendo: “Venha Moshê, traga contigo todo o teu povo liberto, agora basta dar o primeiro passo”...
E ele, inspirando longamente, tomou da coragem final e adentrou, com seu povo, ao mar. Assim, na medida em que caminhavam dentre as colunas, eram abençoados e elevados, de modo que os soldados que vinham atrás, mesmo com suas carruagens e camelos, escorregavam e tropeçavam uns nos outros, até que metade foi levada pelas águas, quando as colunas desceram.
Diz-se que a outra metade retornou e, contando a notícia ao Faraó, fez com que este enlouquecesse ante sua ausência. Mas Moshê havia vencido, e era livre, finalmente livre. Com a ajuda de seu povo, plantou na Terra Prometida um imenso bosque; e diz-se também que, até hoje, todo aquele com a vontade suficiente para atravessar o deserto, e mergulhar ao mar, é recebido por este povo liberto e alegre, na outra margem da Alma do Mundo.
Isto foi o que compreendi da história da fuga de Moshê do Egito...

O outro rabi tinha lágrimas nos olhos, transbordando de luz irradiada:

Andarilho – Deus te ilumine em todos os teus passos, no deserto ou acima do mar, tu és um recitador divino!

Mensageiro – Mas tudo o que fiz foi ler o mesmo texto que você leu, ó rabi. Agora que sabe do mesmo que sei, vai e retorna a sua sinagoga, e trata de os ensinar tudo isso... Pois eu vim trazer a este mundo todo o tipo de luz que tenho visto na casa de meu Pai. Mas algumas luzes são cintilantes demais para que sejam expostas de uma vez ao mundo. Você, que tem olhos para enxergar, e não ficar cego, será aquele que guardará este segredo, até que um dia este deserto esteja suficientemente ungido e umidificado, para que a luz possa ser exposta, a fim de que o povo do futuro também possa, como Moshê, rebelar-se contra seu Faraó, meditar no deserto, atravessar o mar, e atingir sua própria terra de boa aventurança.
Vá em paz, ó rabi!


(escrito com base na interpretação compartilhada por Rafael Chiconeli no III Simpósio de Hermetismo, em São Paulo, Novembro de 2012)


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Este conto é uma continuação direta de "O filho da vida". A série se concluí em "O amante".

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Crédito da foto: RelaXimages/Corbis

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