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22.10.13

Os Orixás da Estrada Velha

O grande empreendedor brasileiro, Irineu Evangelista de Souza (1813-1889), mais conhecido como Barão de Mauá, recebeu em 1852, a concessão do Governo Imperial para a construção e exploração de uma linha férrea, no Rio de Janeiro, entre o Porto de Estrela, situado ao fundo da Baía da Guanabara e a localidade de Raiz da Serra, em direção à cidade de Petrópolis.

A primeira seção, de 14,5 km, foi inaugurada por D. Pedro II, no dia 30 de abril de 1854. A estação de onde partiu a composição inaugural receberia mais tarde o nome de Barão de Mauá...

***

Mais de um século e meio depois, a Estrada Velha da Estrela jaz relativamente esquecida e abandonada, exceto pelos devotos da Umbanda Sagrada e do Candomblé, que utilizam a vasta Natureza da região como "templo" para seus rituais de fé; e também a Coca-Cola, que deseja comprar áreas da região onde há fontes de água potável (porque será?).

Quem nos conta mais sobre o assunto é Fernando Gabeira, em seu aspecto mais genial, o de jornalista efetivamente curioso. Conforme ele mesmo diz, "minha tática com os centros espíritas foi essa: deixar que eles descrevam as cerimônias e expliquem para mim o que está se passando":

(clique na imagem para assistir a reportagem no site da GloboNews)


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28.1.13

O software angélico que roda no eixo do mundo, parte 2

« continuando da parte 1

E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou. (Gênesis 5:23-24).

Seriam os anjos e demônios seres como nós?
Se até agora tendemos a concluir que os deuses e orixás não poderiam ser seres pessoais, conquanto não poderiam haver passado por alguma espécie de evolução, o mesmo não necessariamente se aplica aos anjos e demônios.
É claro que nos mitos monoteístas, diz-se que os anjos foram criados como seres já perfeitos, servos eternos dos desígnios de Deus. Neste caso, seriam algo similar aos deuses, que operam as forças naturais. Mas o problema desta linha de pensamento é que esses mesmos mitos também nos contam que há alguns anjos que se rebelaram contra o Criador, e que desde então foram condenados a habitar o Inferno e, quem sabe, serem sempre maus, por toda a eternidade.
Com isso se quer dizer que o livre-arbítrio foi inventado, precisamente quando um anjo chamado Lúcifer (portador da luz) decidiu se rebelar contra a “programação” do Criador. Afinal, qualquer ser criado “já perfeito, pronto e acabado”, não passou por evolução alguma e, dessa forma, não é “perfeito” pelo seu próprio mérito, mas antes por alguma forma de “programação”. Tais anjos seriam então como robôs, autômatos sem vontade própria. Mas, se não teriam vontade, como diabos Lúcifer teve a vontade de contrariar seu Pai?
Eu penso que este problema tem duas soluções lógicas, e não mais do que duas: (a) Lúcifer na realidade também foi “programado” para contrariar a Deus, e tudo o que têm feito desde então, em realidade, é tão somente o que foi “programado” para fazer [1]; (b) Lúcifer na verdade seria um ser como nós, e sua decisão de contrariar ao Criador denota, metaforicamente dentro deste mito profundo, o estágio em que o ser se torna autoconsciente, que “desperta” para o conhecimento do bem e do mal, da vida e da morte, e para o fato de que possuí uma alma capaz de interpretar o mundo e fazer escolhas [2].
Ora, se ficarmos com a última opção (que, no meu entendimento, faz mais sentido), temos que anjos e demônios nada mais são do que espíritos, como nós mesmos, em maior ou menor grau de evolução cognitiva, moral e espiritual. Certamente pode parecer complicado “classificar” aos seres por sua suposta “evolução moral”; mas, na prática, é isto o que tentamos fazer todos os dias. Sempre que conhecemos algum novo amigo (ou inimigo), uma de nossas primeiras preocupações é tentar situar em que “nível de moralidade” ele opera. Claro que, muitas vezes, temos julgado errado [3], mas isto não significa que não exista uma distinção clara entre seres amorosos, sábios e morais, e seres indiferentes, ignorantes e imorais.
Antes, porém, de habitarem reinos fantásticos, acima ou abaixo do mundo, anjos e demônios talvez devam ser classificados pelo estado em que se encontram suas mentes, sua consciência, sua paz de espírito. Anjos seriam, portanto, aqueles seres com maior consciência da própria liberdade, e maior controle da própria vontade; ao passo que demônios seriam o oposto, ou seja: seres atolados num charco de desejos desenfreados, facilmente manipulados por vontades alheias, perdidos de si mesmos.

O que isto tudo quer dizer é isto aqui: anjos e demônios habitam mesmo este mundo, e não poderia ser diferente.

Os exus e as pambu njilas
Nas mitologias africanas (e, particularmente, na dos iorubás), deuses são chamados orixás, conforme já vimos. Pois bem, ocorre que no caso da umbanda sagrada, religião de origem brasileira [4], anjos e demônios são chamados de exus e pambu njilas. Exus nada mais seriam que espíritos como nós, no período entre vidas, do gênero masculino. Pombagiras seriam exus do gênero feminino (seu nome é uma corruptela do pambu njila, de origem angolana) [5].
Dessa forma, na umbanda, nem todo exu é demônio. De fato, a imensa maioria dos praticantes desta doutrina lida mesmo é com exus de amor e moral elevados – anjos, portanto.
Em todo caso, não devemos confundir os exus anjos e demônios com o Exu orixá (um dos deuses iorubás)...

O axis mundi
Me disseram que o termo Exu é derivado de “Eixo”, mas isto não posso confirmar. Em todo caso, é algo que faz sentido: o orixá Exu é o deus mensageiro, o responsável por fazer a conexão entre um mundo que está no plano com um outro mundo que está acima ou abaixo. No nosso caso, costuma-se dizer que Exu forma o eixo entre a Terra e o Céu, mas também poderia formar um eixo, igualmente, entre a Terra e o Inferno, dependendo de nossa intenção e vontade ao invocá-lo.
Desnecessário dizer que estas ideias de um axis mundi (Eixo do Mundo), e de deuses mensageiros que o percorrem, trazendo e enviando mensagens entre um plano médio e um superior (ou inferior), são abundantes em diversas mitologias. Geralmente, os deuses inventores da escrita (Toth-Hermes; Odin-Wotan) encontraram esta incrível descoberta exatamente enquanto viajavam através do Eixo, indo e retornando de um plano superior. Odin, por exemplo, chegou a se enforcar neste Eixo, que era a própria Yggdrasil (“o eixo do mundo”), e após alguns dias de “transe xamãnico”, trouxe o conhecimento das runas (forma de escrita) aos homens nórdicos.
Entretanto, isto vocês devem lembrar: dizíamos há pouco que os deuses eram forças da natureza, e não seres pessoais, que evoluem, como nós. Ora, e não é exatamente disto que se trata o orixá Exu? Uma força natural, um instrumento pelo qual nossas mentes conseguem entrar em estados alterados e acessar informações que antes nos eram ocultas?
No fundo, não importa muito ao médium ou magista se os deuses existem fora ou dentro de suas mentes... Na prática, o axis mundi poderia ser um pé de feijão mágico cujo caule gigantesco toca o próprio céu, ou o eixo interno da própria alma, que liga o plano médio, consciente, ao plano oculto, inconsciente. Dessa forma, se em nosso inconsciente há um reino celeste, ou infernal, isto depende unicamente de onde sintonizamos nosso pensamento e nossa vontade.

» Em seguida, finalmente, o software angélico...

***

[1] Apesar de eu mesmo não acreditar na hipótese, admito que ela explicaria o fato de Lúcifer ser eternamente mau, sem a possibilidade de se arrepender: é que foi “programado” para assim o ser.

[2] Neste caso, o mito de Lúcifer teria vários outros paralelos na mitologia. Mesmo no próprio Gênese, o mito da Eva que comeu a fruta proibida da Árvore da Ciência do Bem e do Mal, seria essencialmente uma metáfora muito parecida. Talvez surgido num tempo próximo, mas em outra parte do mundo, temos o mito de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses, e depois foi punido. Não obstante, houve tempo de presentear este fogo aos homens, o que os tornou “superiores” aos demais animais: ou seja, eram, conforme Adão e Eva, os primeiros seres humanos conscientes de si mesmos e da própria liberdade (vontade). Também haviam conquistado a ciência do bem e do mal (graças ao sacrifício de um ser “sobre-humano”, mas que foi punido pelos deuses por sua ousadia).

[3] O massacre dos indígenas da América pelos colonizadores vindos da Europa é um belo exemplo. Os colonizadores se julgavam “seres de moral superior”. Mas por tudo o que fizeram, pelo exemplo que foi dado, fica muito claro que os ditos “selvagens” estavam, muitas vezes, num estágio moral muito mais elevado do que os ditos “civilizados”.

[4] Surgida há pouco mais de um século, em Niterói, Rio de Janeiro.

[5] Muitas vezes a umbanda também lida com espíritos que, em sua última encarnação, não eram de origem africana, mas indígena. Normalmente são chamados de caboclos ou cabocladores, e não de exus. Eles são o que restou dos indígenas devastados pelos “homens civilizados”. E eles nos perdoaram: voltam para nos ajudar, sobretudo, por amor.

Crédito das imagens: [topo] Fantasy Flight Games; [ao longo] Tetra Images/Corbis

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27.1.13

O software angélico que roda no eixo do mundo, parte 1

O único lugar em que os deuses e demônios existem indiscutivelmente é na mente humana, onde são reais em toda a sua grandiosidade e monstruosidade (Alan Moore).

Há muitas coisas a se falar acerca de deuses, anjos e demônios. Para não tornar este texto excessivamente longo, estarei iniciando no meio do caminho, de forma que é recomendável que primeiramente leiam estas duas séries de artigos, antes da leitura deste aqui: A roda dos deuses e Os corvos de Wotan.

Se não entenderem muita coisa a partir daqui, não digam que não avisei!

Seriam os deuses forças da natureza?
Segundo muitos estudantes de mitologia e ocultistas, os deuses nada mais seriam do que imensos conjuntos de símbolos resumidos nalgumas imagens ou histórias, que foram passadas adiante pela cultura humana mesmo antes de a escrita haver sido inventada [1]. Existiriam, dessa forma, tão somente na mente humana, esta incrível força capaz de interpretar a realidade. Mesmo que este fosse o caso, o fato de existir somente na mente não necessariamente torna os deuses “assunto irrelevante”, principalmente pelo fato de que toda a realidade, de certa forma, existe na mente – na medida em que o resultado final dela é processado na mente.
Mas é óbvio que há muitos religiosos, dogmáticos ou não, que consideram ou creem piamente na possibilidade dos deuses existirem também fora da mente, na realidade objetiva. Ora, isto gera pelo menos duas questões lógicas de solução não exatamente trivial:

(1) Se os deuses existem objetivamente, quem os criou?
(2) Se os deuses são seres individuais, conscientes, de que forma ocorreu sua evolução?

Para respondermos a primeira pergunta, precisamos considerar o problema da existência, ou o problema do ser, que na filosofia postula, basicamente, que nada pode surgir do nada [2]. Trata-se de um problema muito antigo, que consta tanto nos Upanixades hindus quanto no taoismo, tanto na filosofia de Parmênides e Plotino quanto na monumental síntese moderna de Benedito Espinosa, que postula que “uma substância não pode criar a si mesma ou alguma outra substância totalmente dissociada de si”.
Ora, pela lógica mais pura e básica, isto significa que algo sempre existiu, e jamais foi criado, exatamente porque o nada não existe. Desta forma, isto também significa que, acaso os deuses existam objetivamente, mesmo eles precisam haver sido criados, e quem ou o que os criou, este sim é o chamado Criador.
A despeito da ignorância de muitos eclesiásticos monoteístas acerca do tema, em realidade o politeísmo sempre contou com alguns grandes sábios e/ou místicos que sabiam muito bem que “teria de haver um Deus anterior aos demais, e este seria o Criador, e ele teria de ser único”. Desta forma, a ideia central do monoteísmo, longe de ser alguma novidade lógica, é apenas uma conclusão tardia que, por alguma razão, preferiu discriminar ou ignorar a possibilidade da existência dos deuses.
De fato, há muitas mitologias arcaicas [3] que falam acerca de um Criador que, após haver criado o mundo e os deuses, se tornou um “deus ocioso”. O fato de ser “ocioso”, entretanto, não necessariamente significa que “não faça nada”, mas sim que “não fazemos sequer ideia do que ele é ou faz”.  
Na mitologia iorubá, que teve grande influência no Brasil através do candomblé e da umbanda sagrada, que lhe são derivadas, há o exemplo do Deus Criador: Olorun. Ora, foram os deuses (orixás) quem criaram os homens [4], e são eles quem “os influenciam” na Terra (Ayie). Mesmos estes orixás, porém, foram criados por Olorun, que hoje reside no Céu (Orun). Bem, sabemos que nos ritos do candomblé, por exemplo, há oferendas para os orixás. Para Olorun, porém, jamais é feita oferenda alguma. E o motivo é mesmo óbvio: Tudo o que existe, tudo o que pode ser ofertado, já lhe pertence em todo caso! Eis uma profundidade de pensamento que muitos críticos dos iorubás ignoram ou desconsideram.
E Olorun é também “ocioso”, antes por não ter nenhuma participação nos ritos e rituais, do que propriamente por não fazer nada. Ora, são os homens quem não sabem o que ele faz ou deixa de fazer, e que, portanto, disseram que ele “se tornou ocioso” – ou seja, além de nossa capacidade de compreensão do que uma ou outra ação sua significaria.
Seja Olorun da África, ou El da Mesopotâmia (que foi sincretizado com o deus bíblico), ou o próprio Tao, “anterior ao Soberano do Céu”, do taoismo: todos estes nomes se referem ao Criador, ao Uno, a substância tão sabiamente definida por Espinosa. E os deuses nada mais são do que seus filhos, assim como nós mesmos [5].

Para respondermos a segunda pergunta, precisamos considerar que todo ser vivo há que haver evoluído de um princípio simples para uma entidade complexa, consciente. Pois, assim como não há árvore que antes não tenha sido semente, e não há espécies complexas sem que antes haja existido espécies tão simples como uma simples bactéria, da mesma forma ocorre com o espírito. Se os deuses, portanto, fossem espíritos, teriam de haver evoluído da mesma forma, sabe-se lá onde, sabe-se lá quando.
O grande problema desta hipótese é que os deuses representam as forças da natureza, e estas não podem simplesmente ter passado por uma evolução. Pelo que sabemos, a gravidade precisa existir, da mesma forma como é hoje, desde os primeiros momentos deste espaço-tempo. E, ainda que existam outros universos num hipotético multiverso, pela lógica seria muito complexo supormos que, nalgum outro universo qualquer, a gravidade possa ter “evoluído passo a passo, assim como nós”.
Pode ser estranho para alguns associar um conceito científico, a gravidade, com o conceito dos deuses entendidos como forças da natureza. Mas para mim é uma associação muito proveitosa... Para Empédocles (filósofo pré-socrático), por exemplo, a gravidade era chamada de amor: o que unia não somente os seres, como todas as coisas do Cosmos. Ora, se a gravidade deixasse de existir por um momento sequer, podemos imaginar o caos que ocorreria em todo o universo. Não há como haver universo, ao menos um universo onde haja sóis, planetas e vida, sem a gravidade, sem o amor de Empédocles. Portanto, este amor tem de haver existido desde sempre.
Se formos então transportar esta ideia para o conceito dos deuses enquanto representantes e agentes das forças naturais, temos que eles não somente não são seres individuais, ou espíritos como nós, como tampouco tem exatamente uma vontade própria. Se existe alguma vontade nalgum deus, esta vem como reflexo da vontade do Deus Criador, pois que tudo o que os deuses fazem é legislar com as leis que existem na própria engenharia da realidade...
Isto é, se é que os deuses existem fora da mente humana.

» Em seguida, anjos e outros mensageiros atuando no eixo do mundo...

***

[1] Há muitos deuses que inclusive fazem parte da própria narrativa da descoberta da escrita, como é o caso de Toth-Hermes ou Odin-Wotan. Eles têm em comum pelo menos o fato de terem sido aqueles que “trouxeram o conhecimento da escrita para a humanidade”. Entretanto, também existem ou existiram outras doutrinas espiritualistas, como a druídica e boa parte das antigas doutrinas xamãnicas e indígenas, que ou jamais descobriram a escrita, ou preferiram não utilizá-la, temendo que ela terminasse por reduzir à experiência religiosa a mera teoria (provavelmente Sócrates sentia o mesmo, tanto que faz uma curiosa crítica ao discurso escrito no Fedro).

[2] Recomendamos a leitura da série Reflexões sobre o nada.

[3] E recomendamos, ainda uma vez mais neste blog, a leitura do monumental História das crenças e ideias religiosas, de Mircea Eliade (Ed. Zahar). Trata-se de uma série de 3 volumes, no qual o primeiro volume, por tratar do início, é obviamente o mais importante (ao menos no contexto do que estamos refletindo aqui).

[4] Bem, em algumas interpretações desta mitologia, Olorun também foi responsável pela criação dos homens. Mas no contexto de nossa reflexão, isto não fará muita diferença prática.

[5] Não à toa o rabi da Galileia nos disse: “sois deuses”. E, mesmo isto não era nenhuma novidade, pois há uma frase mística muito mais antiga que afirmava: “eu também sou da raça dos deuses”.

Crédito da imagem: Encontrada em UNEGRO

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19.11.12

Carta a um evangélico

Olá Sr. Evangélico, aqui quem fala sou eu, o Sr. Espiritualista.

Antes de mais nada, preciso lembrar-lhe de que somos irmãos, ou pelo menos não há nada explícito em nossas doutrinas que afirme o contrário...

Vejamos, então, a questão da espiritualidade africana. Tenho visto o senhor dizer que os orixás são demônios e que toda macumba é necessariamente coisa do Capeta... No entanto, é preciso que saiba: para o pessoal lá dos terreiros, macumba é só um instrumento musical, tipo reco-reco, sabe como é? Nem tem tanta importância assim, o som dos tambores é bem mais importante no ritual deles; E, já que falamos nos rituais, são coisas bem antigas, bem antigas mesmo! Muito antes dos termos “demônio” e “Capeta” terem sido inventados, já se faziam rituais para os orixás na África. Se ler um pouco de ciência e antropologia, saberá o que os cientistas já dão por quase certo: que viemos todos da África, o homo sapiens surgiu em algum ponto entre a parte sul e central do continente mãe.

O próprio deus bíblico deve muito ao deus que era cultuado na Mesopotâmia por povos que já eram bisnetos milenares dos primeiros africanos que batiam tambores em homenagem a Natureza. Sem El, Javé não seria muito mais do que o espírito ancestral de alguma tribo de hebreus perambulando por Canaã. Javé foi cultuado como um patriarca de homens, El foi compreendido como um deus cósmico, criador de tudo o que há [1]... Mais ou menos como Olorun, que criou o mundo, mas está tão acima de nosso plano de existência que não há nenhum xamã africano que tenha tido coragem de tratar diretamente com ele [2].

Foi muita engenhosidade dos hebreus esta que associou Javé a El, e com isso criou a ideia de um deus cósmico que, não obstante, poderia ser contatado como qualquer outro grande patriarca. O problema é supor que somente os rabinos podiam contatá-lo... Não foi exatamente por isto que Lutero lutou toda sua vida? Para que as pessoas comuns pudessem ler os textos sagrados e conhecer a Deus por si mesmas, sem a intermediação de Roma? Pois bem, pois os nossos irmãos africanos já falavam com Deus há muito mais tempo que a gente, e nem precisavam de livros para isso.

Quer dizer que todo o ritual que evoca orixás é coisa do bem? Claro que não, mas a maioria é. Maçãs podres, temos em qualquer pomar, e tenho certeza de que mesmo o neopentecostalismo tem as suas... Ou o senhor acha que abençoar talismãs com óleo ungido, ou derrubar fileiras inteiras de pessoas ao chão, é algo perfeitamente baseado nas Escrituras?

Tudo bem, vamos ser honestos: o que achamos um barato é essa tal experiência religiosa. Decerto Pentecostes foi uma loucura do Espírito Santo, mas quem garante que foi a primeira? Se até hoje os senhores procuram falar a língua dos anjos, porque encrencar com o caboclo que fala a língua dos espíritos da Natureza? Por mim, anjos e rios, cachoeiras e carruagens de fogo, florestas e sarças ardentes, se foram vistas pelas mentes que creem, se fizeram o bem para elas, que mal há? Onde o senhor vê o Capeta nessa história toda?

Por mim, se existe um ser assim, condenado a ser mal por toda a eternidade, ele não iria atuar sobre os verdadeiramente religiosos, mas antes optar pela via mais simples: tentar aqueles que já não creem, que não se dedicam, que nunca se arriscaram realmente a mergulhar neste Oceano de Amor que permeia todo o espaço e todos os tempos...

Me perdoe, eu tenho certeza que não é o seu caso, mas acaso nunca viu um cristaozão desses que bate no peito dentro da Igreja e diz: “Sou de Cristo!”, mas que começa a falar mal da sogra 5 minutos depois de terminar a oratória do pastor? De que adianta se achar um grande cristão ao chutar imagens de santos e orixás por aí, se ao chegar em casa chuta o seu cachorro e esbofeteia sua esposa? Será que Cristo falou numa espada para matar os infiéis, ou em oferecer a outra face para o agressor?

Os índios das Américas, coitados, também nunca tinham ouvido falar em Cristo. Os colonizadores europeus não deram muitas escolhas para eles: ou se convertiam, ou eram exterminados [3]. Até mesmo muitos que disseram ter se convertido foram exterminados do mesmo jeito, pois não serviam para o trabalho escravo... E o que há de cristão nisso tudo? Nas Cruzadas, o general francês perguntou ao representante do Papa como iriam identificar os cristãos dos não cristãos, na invasão de uma cidade onde cristãos, judeus e cátaros viviam em harmonia; Ele apenas disse isto: “Matem todos, que Deus escolherá os seus”... Ao que lhe pergunto: e quais deles não eram “de Deus”?

Ainda hoje, no Centro-Oeste do Brasil, há tribos indígenas sendo evangelizadas. Evangelizar não é o problema, pois ao menos estão dando a oportunidade para que esses indígenas se tornem parte de alguma outra comunidade que não a sua, e não vivam isolados, como párias, em um país construído sobre a invasão e o extermínio de suas terras ancestrais... O problema, este sim, é proibi-los de pintar o corpo de vermelho. “Vermelho é a cor do Capeta!”, seus colegas dizem... Mas, e o que diabos os índios tem a ver com o Capeta? Na maioria das mitologias indígenas, sequer existe um ser representante do mal, quanto mais um anjo caído... Eles nem sabem o que é um anjo! Se não podem se pintar de vermelho, vão se pintar de branco? Ou de verde? Ou lilás? Convenhamos, isso não faz o menor sentido.

Vamos tentar ser mais seguidores de El, e menos seguidores de Javé. Javé era um espírito ancestral, e precisava de barganhas e favores, e tinha ciúmes dos cultos de espíritos e deuses alheios, como foi o caso com Baal. Mas El não, El não tinha um oposto, pois o Tudo não tem oposto – o Nada não existe.

Dessa forma, se existe um Capeta, seria injustiça da parte de Deus que ele pudesse controlar a mente dos seres puros, corrompendo-os... Acho que faz mais lógica, além de estar mais de acordo com o que vemos na Natureza e na psicologia humana, considerarmos que o mal existe na alma de cada um de nós, e que é somente lá, precisamente lá, que precisamos fazer uso desta espada de que Cristo falou...

Para cortar a trave que obstruí nosso próprio coração. Para que nossa luz de amor transborde, e englobe os irmãos a nossa volta. Para que evangelizemos realmente uma boa nova, uma notícia de uma nova era, de uma nova sociedade, uma nova espiritualidade, uma nova religião... Assim, quem sabe, também poderemos ler, dentro de nossa alma, conectada a Alma do Mundo: “também eu sou da raça dos deuses, também eu trago o Pai dentro de mim, também eu farei tudo aquilo que o Cristo realizou, e talvez até mais”. E nem sequer precisaremos de um livro para guardar tal Verdade.

Cristo salva, afinal, todos aqueles que o encontram dentro de si mesmos... Mas Cristo é apenas uma palavra. O que salva é a fé, e não há fé mais profunda do que a fé no Amor. Pense nisso meu amigo, meu irmão. Pense, e reflita esta boa nova adiante!

***

[1] Maiores detalhes na série A roda dos deuses (esta teoria não é minha, mas de Mircea Eliade, um dos maiores especialistas em mitologia do séc. XX).

[2] Na mitologia Iorubá, talvez a de maior influência no Brasil, Olorun ou Olodumare é o criador do universo e mora no Orun (Céu). Embora reconhecido como Ser Supremo, não existe um culto ou templo que lhe é dedicado exclusivamente. Os orixás são os seus representantes em Aiye (Terra).

[3] Michel de Montaigne dá sua opinião, bem mais embasada do que a minha, nesta série de Reflexões sobre o sexo.

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Crédito das imagens: [topo] Mark Keathley (Dance of Grace); [ao longo] Stephen Frink/Science Faction/Corbis

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1.10.12

Os intolerantes

O vídeo a seguir faz parte de uma ópera teatral sobre a história do personagem Alabê de Jerusalém, uma "entidade" que viveu há cerca de 2000 anos na África, e foi contemporâneo de Jesus. Na verdade, se trata de um espetáclo baseado em mais de 20 anos de pesquisas dos antigos mitos africanos, e provavelmente a "grande obra" da vida do músico carioca Altay Veloso, que inclusive chegou a viajar, durante seus anos de pesquisa, a Jerusalém, à Nigéria, a Angola e à Bahia.

Este trecho em específico me parece bastante adequado ao blog, pois se trata de uma crítica "amorosa" a intolerância e ao preconceito religioso, particularmente contra os religiosos ligados as culturas africanas, como é o caso, no Brasil, dos praticantes da Umbanda Sagrada, Candomblé e Tambor de Mina (dentre outras já quase extintas)...

Eu só gostaria de fazer uma ressalva ao trecho do refrão do canto inicial, que diz: "Às vezes corações que creem em Deus, são mais duros que os ateus. E jogam pedra sobre as catedrais dos meus deuses Yorubás". Ora, se vamos criticar a intolerância, devemos levar em consideração que o preconceito que afirma que "ateus são duros de coração, ou frios de sentimentos", é tão somente mais um preconceito mesmo...

Assim como há doutrinas religiosas que sequer "necessitam" da crença em Deus, como o jainismo e algumas vertentes do budismo, o fato de alguém ser ateu não necessariamente indica que esta pessoa é "fria e calculista". Na verdade, há muitos ateus plenos de espiritualidade, a começar por Carl Sagan (na verdade, um agnóstico), que em certos momentos de seu Cosmos mais parece um "profeta da Natureza".

Feita esta consideração, podemos agora apreciar, de alma aberta, aos ecos da antiga sabedoria africana:

***

Alguns trechos recitados ou cantados no vídeo:

"Ah, meu Deus! Assisto com muita tristeza a pena da aspereza dilacerando a beleza de uma linda sinfonia. A aguarrás de juizes, ciumentos inflexíveis, descolorindo as matizes de uma linda pintura, só porque não gostam da assinatura?"

"E vai com uma bailarina, com a inocência de menina, dançando em volta do sol, a Grande Mãe Terra. Enquanto muitas nações, governos, religiões ensaiam a dança da guerra."

"Na verdade a bola azul quase nunca foi amada; é sempre penalizada. Tem um trabalho enorme, dedicação e talento para preparar a mistura, juntar os seus elementos para dar forma às criaturas, e elas, depois de paridas, desconhecem a matriarca e dizem, mal agradecidas: que a carne é fraca."

"E quando o planeta gera um Avatá, um iluminado assim como o Nazareno, tem logo quem se apresenta com conhecimento profundo e diz logo: não é desse mundo, só pode ser extraterreno."

"Ah, é difícil entender porque é que o homem, até hoje, cospe no prato que come. Algumas religiões, não sei por qual motivo, dizem que a Terra é um território com vocação pra purgatório, não passa de sanatório... E que nós só seremos felizes longe dela, bem distante, lá onde os delirantes chamam de paraíso."

"Olha, eu vou dizer de coração. Na minha simples, dia após dia, me perdoem a liberdade, mas religião de verdade, mais parecida com a que Jesus queria, talvez seja sentimento de ecologia. Para esse sentimento não tem fronteiras e só reza um mandamento: preservação das espécies com urgência, sem adiamento."

"Hoje, ela pensa nas plantas, nos rios, no mar, nos bichos. Amanhã, com certeza, com a mesma dedicação e capricho, pensará com muito cuidado nos meninos abandonados."

"Ah, se ela tivesse mais força para sustentar sua zanga, evitaria, com certeza a fome cruel de Ruanda. Não tinha maturidade, ainda era uma menina, quando a impertinência sangrou, com a bola de fogo, a pobre Hiroshima. Mas ela cresce, se instala como uma prece no coração das crianças. Tenho muitas esperanças..."

"Eu tenho toda a certeza que nosso planeta um dia, mesmo cansado, exausto, terá toda a garantia e guardado por uma geração vigia, nunca mais verá a espada fria no Holocausto."

"A intolerância, repito, é a mais triste das doenças. Não tem dó, não tem clemência. Deixa tantas cicatrizes nas pessoas, nos países, até as religiões, guardiãs da Luz Celeste, abandonam seus archotes para empunhar cassetete. E o que, na verdade, refresca o rosto de Deus, é um leque, que tem uma haste de Calvino e outra de Alan Kardec."

"Na outra haste, as brisas, que vêm das terras de Shivas, são uma, dos franciscanos, e outra, dos beduínos. Não precisa ir muito longe... Jesus nasce entre os rabinos."

"Às vezes corações que crêem em Deus, são mais duros que os ateus. E jogam pedra sobre as catedrais dos meus deuses Yorubás. Não sabem que a nossa terra é uma casa na aldeia, religiões na Terra são archotes que clareiam."

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Crédito da imagem: James C. Lewis (Olorun, ou Olorum, princípio criador da mitologia dos Yorubás)

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15.12.11

Tendências da fé, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Adjiedj Bakas e Minne Buwalda em "O futuro de Deus” (A Girafa) – pgs. 62 a 65. Tradução de Silmara Oliveria. As notas ao final são minhas.

América Latina
Originalmente, antes de os conquistadores espanhóis e outros europeus colonizarem o continente, a América Latina era dominada por religiões indígenas, algumas delas bem pequenas e locais, e outras maiores, como as religiões dos povos Maias e Astecas. Os europeus trouxeram o Cristianismo para o continente [1] e depois outras influências religiosas foram introduzidas, por exemplo, a tradição Yorubá, que foi trazida com os escravos importados da África.

Nas décadas de 1970 e 1980, a América Latina presenciou o nascimento e o crescimento da chamada Teologia da Libertação, um movimento dentro do Cristianismo que interpreta a Bíblia em termos de libertação da injustiça política, econômica e social. Tornou-se popular principalmente na Igreja Católica Romana, mas depois virou um movimento interdenominacional. Os padres se tornaram politizados, em uma tentativa de emancipar e elevar as massas, empregando palavras como “luta de classe” em seus sermões e reunindo seus seguidores em megaigrejas e práticas ao ar livre.

No início, a Igreja Católica via esse movimento como uma renovação da mensagem de Cristo, mas quando a Teologia da Libertação ficou mais marxista, o Vaticano reagiu, excomungando alguns de seus porta-vozes mais importantes [2]. Quando, na década de 1990, o neoliberalismo assumiu o cenário mundial e o Marxismo foi de repente visto como ultrapassado, a Teologia da Libertação perdeu grande parte de sua influência.

Desde então, a função da emancipação da Teologia da Libertação foi assumida pelo Cristianismo Evangélico e pelas Igrejas Carismáticas. Essas igrejas (por exemplo, a Igreja Pentecostal), não enfatizam a luta de classe e a emancipação de classe, mas se concentram na capacitação e na realização pessoais. Essas igrejas não são hierárquicas, como a Igreja Católica, e portanto “praticam o que pregam” – uma estratégia convincente [3].

Durante a sua história, a maioria dos países da América Latina recebeu novos grupos de imigrantes, o que resultou em um tipo de sociedade multicultural na qual as pessoas tendem a tolerar mais outras religiões. Por exemplo, o Suriname, onde nasceu um dos autores deste livro, é um país cuja população inclui descendentes de colonizadores brancos, escravos negros, trabalhadores indianos e indonésios, refugiados judeus e comerciantes chineses, entre outros. Esses grupos realizaram casamentos entre si, mas as religiões originais dos respectivos grupos ainda existem em Paramaribo, a capital do país. De fato, a mesquita e a sinagoga estão localizadas uma ao lado da outra e não há conflitos religiosos. O Oriente Médio deveria considerar essa tolerância como exemplo! [4]

Um outro fenômeno que pode ser visto com frequência no Suriname é que tanto os cristãos quanto os judeus e hindus recorrem ao Winti, tradição afro-surinamesa ligada ao Candomblé, Vudu e Santeria, à procura de cura ou magia, quando sua religião principal não oferece uma solução forte o suficiente para o seu problema [5]. A cultura latino-americana e os “novos países”, como o Brasil, que ainda atraem muitos migrantes, mostram hoje um caminho com tendência à tolerância religiosa e às práticas espirituais híbridas. Em um mundo que está cada vez mais multicultural, esses modelos podem ser vistos como “o futuro de Deus” [6].

Como o Cristianismo foi a religião dos colonizadores que dominaram a América, ele se tornou a fé principal; Porém, elementos e influências indígenas ancestrais e locais foram integrados e formaram-se novos rituais e práticas. Mais recentemente, com o fortalecimento da autoconfiança e do orgulho dos povos nativos da América Latina, a cultura, incluindo suas religiões e costumes éticos originais, ganhou mais destaque novamente. Na Bolívia, por exemplo, nas áreas montanhosas onde as leis modernas nunca tiveram muita influência, os antigos costumes nativos de praticar justiça estão sendo utilizados novamente, em um processo de descolonização do sistema legal. Entretanto, isso realmente significa que, quando alguém é pego roubando em um vilarejo na região montanhosa da Bolívia, o gatuno corre o risco de ser açoitado no local pelas pessoas ao redor.

No Brasil, o uso de plantas psicoativas em rituais religiosos está se tornando mais comum nas tribos indígenas novamente, não apenas na região da Amazônia, mas também nas grandes cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo [7]. No México, a adoração de La Santa Muerte (A Santa Morte) é o movimento religioso que mais cresce atualmente, com cerca de 10 milhões de seguidores. Obviamente, há um “Anjo da Morte” na tradição cristã, mas La Santa Muerte da Igreja Apostólica Tradicional do México provavelmente se refere ao deus asteca do submundo, Mictlanteuchitili [8]. Em todos os cantos da América do Sul, estão sendo reintroduzidos elementos das religiões e éticas pré-coloniais.

África
A história da África pode ser comparada a história da América Latina, exceto pelo fato de       que os conquistadores trouxeram ao continente não apenas o Cristianismo, como também o Islã. Uma linha que vai se Serra Leoa na parte ocidental, passa pela Nigéria e pelo Sudão e segue até a região do Vale do Rift na Etiópia, divide os muçulmanos no norte dos cristãos no sul. A região da África quê se parece com um chifre e as áreas costeiras do Quênia e Tanzânia são dos muçulmanos novamente.

No período em que os conquistadores muçulmanos e os colonizadores europeus foram para a África, havia muitas religiões tribais no continente. Algumas delas eram animistas, como a do povo San ao sul, mas a maioria das religiões africanas era teísta. Muitas vezes o deus criador supremo sequer era venerado, e sim os deuses e espíritos inferiores [9]. Em muitas religiões africanas, principalmente entre os sudaneses, surgiu uma tradição de soberania ou chefia sagrada, na qual a posição do rei ou chefe era justificada pela lei divina. A religião egípcia clássica também tornou o seu faraó um ser divino, uma característica influenciada pelas culturas sudanesas.

Algumas religiões africanas possuem mais de um deus, por exemplo, a religião Yorubá da Nigéria e de Benim, cujos deuses são chamados de orixás. Essas divindades representam energias fundamentais, atitudes ou formas de abordar a vida, e nos séculos 17 e 18, foram trazidas para a América Latina com os escravos, onde ainda formam o panteão de religiões latino-africanas, como a Umbanda e o Candomblé (no Brasil), Vodu (no Haiti), Winti (no Suriname) e Santeria (em Cuba).

Quando os árabes e os europeus conquistaram a África, as antigas religiões perderam força e foram substituídas pelo Islã e Cristianismo. A única exceção foi à Etiópia, que tem a tradição do Cristianismo Cóptico, que volta aos tempos bíblicos [10]. [...] Atualmente, a África está na linha de frente da luta entre o Cristianismo e o Islã. Essa luta se intensificou recentemente, com argumentos mais fortes para encorajar a conversão de ambos os lados, com ódio renovado e batalhas sangrentas em países como o Sudão e a Nigéria [11].

Assim como na América Latina, o Cristianismo Evangélico e o Pentecostalismo crescem na África. Uma das razões dessa popularização pode ser a prática religiosa de entrar em transe ao realizar um ato religioso, adotada por quase todas as religiões originais africanas, que se encaixa bem nas práticas “extáticas” dessas igrejas cristãs. Uma outra explicação é que a Igreja Pentecostal pode servir como um veículo para que os membros das classes mais inferiores se libertem, não por meio de uma revolução socioeconômica como a Teologia da Libertação prega, mas pela integração em um movimento religioso que oferece grande mobilidade social interna. Os ideais sociais embutidos no Pentecostalismo incentivam que o pobre rejeite a vida de maus hábitos e excessos e favoreça a economia e a responsabilidade, principalmente em relação á vida em família.

» Na continuação, tendências do mundo árabe, Índia e China.

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[1] Talvez fosse melhor dizer: forçaram o cristianismo goela abaixo dos nativos, isto é, dos que sobreviveram as chacinas...

[2] Por isso que a religião é livre, e a igreja não. Resta saber de onde tiraram a ideia de que Jesus fundou uma igreja...

[3] Obviamente que algumas delas na prática são hierárquicas, pois têm uma “cúpula de liderança” claramente definida. Acredito que não preciso nem dizem quais são, basta ligar a TV aberta na madrugada para assistir a vários dos “chefes de igrejas” discursando, de acordo com o canal sintonizado.

[4] Se fosse viável retirar todos os atuais moradores das zonas de conflito no Oriente Médio e os realocar, por exemplo, nas planícies da Austrália, é bem provável que os conflitos diminuiriam em muito. Às vezes, a “terra santa” é mais um fardo do que uma benção.

[5] As grandes religiões têm muito o quê aprender, em termos de tolerância e ecumenismo, com as tradições religiosas africanas – que, em sua maioria, são bem mais antigas; pelo menos anteriores ao cristianismo e ao islamismo. Também são religiões “sem igreja”, que podem ser praticadas ao ar livre, numa montanha, numa planície, como era o cristianismo primitivo (basicamente, o gnosticismo).

[6] E, talvez, o ditado popular “Deus é brasileiro” acabe fazendo todo o sentido – no futuro...

[7] No caso, os autores estão se referindo principalmente ao Santo Daime.

[8] A Igreja Católica se encontra num grande dilema no México: permitir que o catolicismo local se “misture” com práticas religiosas indígenas antigas, ou perder fiéis para as igrejas evangélicas, em franco crescimento no país – particularmente nas zonas mais pobres.

[9] Acredita-se que o monoteísmo surgiu com o judaísmo, mas se considerarmos que os mitos de doutrinas religiosas ancestrais já compreendiam um “deus criador supremo”, e “deuses secundários inferiores”, pode-se dizer que toda religião teísta já nasceu monoteísta (exceto por algumas poucas que consideravam dois deuses supremos antagônicos, “o bem contra o mal”). Podemos também nos lembrar do estoico Epicteto, que se referia a Zeus como “Deus dos deuses”.
No caso do catolicismo, por exemplo, os anjos e santos vieram preencher a lacuna dos “deuses secundários”. Daí a facilidade com que os escravos africanos que chegaram ao Brasil “adotaram” a religião: cada santo correspondendo a um orixá, muito simples!

[10] O que também inspirou o surgimento de uma curiosa religião jamaicana.

[11] Tudo isso, como sempre, parcamente anunciado pela mídia global. O mundo praticamente ignora as regiões africanas onde não há progresso nem petróleo. E pensar que todos viemos de lá...

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Crédito das imagens: [topo] Axel Koester/Corbis (o culto de La Santa Muerte); [ao longo] Ulysses de Castro (orixás do Dique do Tororó, em Salvador).

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