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12.3.14

O reformador da Igreja do Carmo

Cerca de 2.000 pessoas assistiram à missa celebrada às 11h de 09/02/14 pelo frei Cláudio van Balen (81 anos, nascido na Holanda) na Igreja Nossa Senhora do Carmo, zona sul de Belo Horizonte. O frade, ligado à ala mais progressista da Igreja Católica e defensor da Teologia da Libertação - e que há cinco décadas celebra a missa nesse horário -, havia sido afastado em janeiro pela Arquidiocese de Belo Horizonte e Província Carmelita de Santo Elias, mas retornou à função após pressão dos fiéis.

A presença de 2.000 pessoas na missa representa o dobro do público que normalmente frequentava as celebrações das 11h de domingo na igreja. O templo, que tem capacidade para 800 pessoas sentadas, foi tomado por fiéis que acabaram ocupando espaços laterais e parte do altar, e dezenas de pessoas ficaram do lado de fora da igreja.

Depois que o sinete do altar tocou três vezes, frei Cláudio van Balen entrou e foi aplaudido com entusiasmo pelos fiéis - alguns choravam. O frade, então, levantou a mão direita pedindo silêncio, e a missa pôde começar. Balen nada falou sobre o seu afastamento... [fonte: uol]

***

Neste programa da GloboNews, canal de TV a cabo, o jornalista Fernando Gabeira vai atrás dessa e de muitas outras histórias que cercam o frade holandês, que mora há tantos anos no país que, além de se considerar brasileiro, ainda fala um português adocicado pelo delicioso sotaque mineiro.

"Ele nos fala de uma nova fé, sem as antigas ideias de culpa e de medo de algum julgamento; uma fé descontraída, que caminha junto com a cidadania, onde todos os atos visam um mundo melhor, uma convivência mais amorosa" - é mais ou menos isto que os fiéis de van Balen falam dele, e até mesmo por isso fica a indagação, "E por que diabos uma ala da Igreja deseja afastá-lo do seu ofício a qualquer custo?". Gabeira nos ajuda a responder:

(clique na imagem para assistir a reportagem no site da GloboNews)


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19.1.14

Esperando Jesus, parte 2

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

« continuando da parte 1

É claro que eu me recusei a participar dos “turnos” da vigília pela madrugada. Se eu bem compreendi na época, muitos dos jovens que participavam das vigílias nos retiros consideravam, não se sabe se simbolicamente ou literalmente, que Jesus poderia aparecer a eles, seja às 3h ou 4h da matina, e dizer algo como:

“Oi, fico feliz que tenham me aguardado, eu finalmente retornei ao mundo!”

O que me pareceu puro absurdo naquela época, entretanto, foi melhor compreendido quando cheguei a conhecer, muitos anos depois, a entrevista de Joseph Campbell, um dos maiores estudiosos de mitologia do século passado, para Bill Moyers. Esta célebre entrevista rendeu um livro e também uma série de vídeos, dentre os quais retirei a passagem abaixo, que trago aqui como forma de ilustrar melhor o que eu quero dizer:

Queremos pensar em Deus. Deus é um pensamento. Deus é uma ideia. Mas a sua referência é algo que transcende o pensamento. Ele existe além da existência... Além da categoria de ser ou não ser. Ele existe ou não? Nem existe, nem não existe. Qualquer deus, qualquer mitologia ou qualquer religião são verdadeiros nesse sentido... Assim como uma metáfora do mistério humano e cósmico.

Quem pensa que sabe, não sabe. Quem sabe que não sabe, este sim, sabe. Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana?

Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental.

Portanto, embora muitos dos jovens naquele retiro talvez acreditassem realmente que Jesus poderia chegar na capela durante a madrugada, literalmente em carne e osso, ainda assim esta crença não merece ser alvo do deboche costumeiro dos descrentes (incluindo a mim mesmo, na época).

Pois que, se pensarmos no Cristo como uma metáfora para o nosso eu angélico, que anseia por domesticar seu lado animal (não acho que a crucificação seja necessária, mas enfim) e renascer como um ser mais humano, que deixou de olhar para o pântano dos desejos desenfreados, e agora mira na senda do Paraíso (com ou sem piscinas), então temos que esperar pelo Cristo nas madrugadas é não somente um ritual belíssimo, como potencialmente transformador. Muito mais profundo do que apenas confessar pecados e repetir orações decoradas...

E, se anteriormente tais jovens viviam de crenças literais, não importa tanto assim, pois o importante é a experiência. Da teoria eles podem ler e compreender melhor depois, mas a experiência religiosa é o que conta, e isto eles já estavam tendo desde cedo – neste sentido posso compreender perfeitamente como a prática dos rituais católicos também ajuda a moldar uma alma mais aberta para a luz do Alto, e mais predisposta a ser incendiada pelo Amor. Não vejo porque se ter vergonha de haver participado deste tipo de ritual (embora certamente na época eu pensasse de outra forma).

Na manhã do outro dia fui “carinhosamente” levantado da cama pelas canções religiosas. Eram três jovens percorrendo todos os quartos e acordando todo mundo. Dois deles dedilhavam seus violões, enquanto outra cantava, felizmente, até com bastante afinação. Nem me lembro da hora que acordei – uma das características interessantes desses retiros espirituais é que facilmente perdemos a noção da hora (e, naquela época, vale lembrar, ninguém tinha celular).

Eram canções que se estendiam pelo café da manhã, almoço, e até o início da última tarde de orações na igrejinha. Ainda me lembro de alguns refrãos até hoje...

Eis que faço novas todas as coisas,
Que faço novas todas as coisas,
Que faço novas todas as coisas! [1]

Voa Jesus pequeno pássaro,
Vamos cantar seu louvor,
Aleluia, aleluia, aleluia! [2]

Embora eu tivesse estranhado a proibição de usar a piscina, a estranha obsessão com pecados, e até mesmo o conselho de se tomar banho de água fria para “evitar a vontade da masturbação” [3], foi durante toda aquela cantoria, divina cantoria, que pude compreender um pouco melhor toda a alegria que brota da experiência religiosa genuína.

Eu certamente não entraria para algum grupo católico e dificilmente tão cedo iria participar de outro retiro daquele tipo (e até hoje não participei), mas isto não significa que eu não houvesse compreendido, de alguma forma, o porquê daqueles jovens haverem escolhido aquela doutrina e aquelas práticas religiosas – havia, certamente, uma grande alma em toda aquela música cantada em voz de dentro; e como disse um poeta, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

Mas isto não foi tudo. Talvez todo este relato nem merecesse estar aqui se não fosse pelo que presenciei nas orações da última tarde. Ao contrário da tarde anterior, quando houve muitas palestras, esta foi inteiramente dedicada ao ritual e as orações. Eu certamente mal me lembro dos rituais hoje em dia, mas há algo que dificilmente esquecerei: as católicas (sim, porque acredito que eram todas mulheres) que oravam e oravam e oravam, intensamente, até entrarem nalguma espécie de transe e simplesmente desabarem no chão!

Eu vi meninas chaparem, literalmente, a cabeça no chão, após um momento de transe intenso, e serem deixadas ali, deitadas, até que acordassem por conta própria logo depois...

Como observei bem que nenhuma delas se machucou com gravidade, embora certamente fosse o caso de haver pelo menos um certo derramamento de sangue, depois fui perguntar a uma amiga da minha prima sobre como nenhuma delas se machucou. Ela respondeu apenas que:

A gente não se machuca não. O Espírito Santo segura a gente e nos protege”.

Bem, eu certamente não vi o Espírito Santo amortecer a queda de nenhuma delas, mas certamente foi impressionante ouvir todos aqueles estrondos no piso de madeira da igrejinha e depois não ver nem uma gota de sangue no chão.

De resto, findara a tarde e todos retornamos para o Rio no mesmo ônibus com o qual chegamos em Secretário. Felizmente não fez tanto calor naquele final de tarde, e eu até consegui voltar sentado ao lado de uma das amigas da minha prima em quem eu estava de olho...

Mas não rolou nada, eu era muito tímido, e em todo caso nunca gostei muito de banho de água fria.

***

[1] Refrão da letra de Paulo Roberto. Talvez lhe interesse ouvir para ter uma ideia do tipo de experiência que vivenciamos por lá:

[2] Trecho da música do grupo Canção Nova (com pequenas alterações).

[3] Conselho este que eu nunca segui (independente da masturbação), a não ser quando o chuveiro elétrico pifou, ou durante os apagões.

***

Crédito da foto: Rádio Catedral

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17.1.14

Esperando Jesus, parte 1

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Após algumas horas num ônibus sem ar condicionado, enfrentando o trânsito usual da saída do Rio de Janeiro para a região serrana, a visão daquela enorme piscina com água azul a refletir o sol de quase meio-dia era a imagem do Paraíso naquele exato momento.

Isto foi há cerca de 20 anos, em 1994, quando eu ainda era um adolescente viajando a convite de minha prima católica com o seu grupo da Igreja. Era um retiro católico formado na maior parte por jovens da Zona Sul carioca. Teoricamente não havia perigo algum, e seria uma excelente oportunidade para conhecer mais do catolicismo. Mesmo assim, houve quem dissesse, na minha família, para “ter cuidado com a lavagem cerebral”...

Eu nunca tive educação religiosa, e mesmo assim sempre me interessei muito por religião. Mas é preciso deixar claro que religião não é o mesmo que igreja: religação a Deus é uma coisa bem distinta de “uma comunidade dos eleitos de Deus”. Eu não buscava nenhuma “salvação”, desta forma, tampouco algum “céu prometido”; queria apenas conhecer a Deus, e a melhor forma sempre me pareceu ser a via da contemplação e da observação de todos aqueles que já estavam aqui antes de mim a buscá-lo – afinal, alguém deve ter achado algum atalho que eu ainda não conhecia.

Mas o atalho para o mergulho naquela piscina me foi barrado. Quando perguntei a uma amiga da minha prima se a gente podia colocar roupa de banho para mergulhar ainda antes do almoço, ela respondeu assim:

“Está doido? Isto aqui é um retiro espiritual; aqui ninguém pode ficar com pouca roupa, e daí ninguém pode mergulhar!”

Eu então pensei comigo mesmo, “Tudo bem, tudo bem, só vamos ficar aqui de hoje para amanhã, não pode ser tão ruim assim”...

Após o almoço simples, mas bastante saboroso, houve uma reunião na pequena igrejinha. Ao todo, o sítio em Secretário, cidadezinha próxima de Itaipava, no meio do caminho entre o Rio e Juiz de Fora, devia contar com cerca de 50 a 60 jovens católicos em retiro (além de mim), e uns 5 a 10 padres e/ou coordenadores. Alguns destes últimos também eram palestrantes, e usaram algumas horas daquele início de tarde para falar sobre passagens da Bíblia, a vida de Jesus, o amor, a fé, etc. – enfim, nenhuma novidade até ali.

Quando as palestras encerraram, entretanto, ocorreu algo curioso: os jovens se reuniram em pequenos grupos de 5 ou 6 pessoas e começaram a conversar entre si sobre a vida de cada um. Isto eu achei bem interessante, pois como era muito tímido, me dava uma oportunidade de “quebrar o gelo” com aquele pessoal na maioria desconhecido até então.

O problema foi quando apareceu um dos padres no nosso grupo, e começou a perguntar sobre “o problema de cada um”. O que se seguiu foi uma espécie de terapia em grupo, onde cada um falava sobre suas inseguranças e angústias, etc. Foi quando finalmente chegou a minha vez:

“Mas, seu padre, eu não tenho problema nenhum, ou pelo menos não me lembro de nenhum em especial para falar agora”.

“Tem certeza, meu filho?” – respondeu o padre com um olhar inquisitivo – “Você não sabe que todos somos pecadores? Confesse-nos um dos seus pecados; confie em mim, vai ser melhor resolver isso logo, e com as bênçãos de Deus!”

Mas a minha prima não me disse de nada daquilo, eu não estava preparado para aquela espécie de terapia – na verdade praticamente um confessionário. Eu nunca havia ido à igreja alguma me confessar e sinceramente não prestava atenção especial a nenhum dos meus pecados...

Assim, como insisti em não me “confessar”, passei a ser malvisto pelo padre e pelos outros jovens do grupo. Achei aquilo tudo péssimo, pois como era bem tímido na época, já começava a imaginar os comentários que se seguiriam, “Sabe o Rafael, primo da Alessandra [1]? Pois é, veio até aqui e não teve coragem de se confessar!”

Muito tempo depois, relembrando o ocorrido, refleti sobre como o ato de confessar, e a certa obsessão com os pecados, é parte tão importante do dia a dia espiritual da maioria dos católicos (eu quero dizer, católicos praticantes). Nunca me pareceu lógica, filosófica ou espiritualmente, a ideia de que Jesus veio a Terra para pagar por nossos pecados na cruz. Ainda que fizesse sentido que alguém pudesse redimir os pecados de outro alguém (e eu não acho que faz sentido algum), o que seria dos novos pecados? Ou será que Jesus teria de retornar a Terra, de tempos em tempos, para ser novamente crucificado e nos redimir? A ideia sempre me pareceu estranha, realmente estranha!

Mas me agradava a ideia de que poderíamos nos redimir de nosso pecados nos confessando. Na verdade a origem etimológica da palavra “pecado” vem de um conceito de “errar o alvo”. E, quem erra o alvo, pode sempre tentar de novo, contanto que não desista deste alvo. O problema não é bem errar, mas insistir no erro, e fingir que está tentando acertar apenas se confessando como quem conversa com um poste (ou um bode [2]), e recitando orações decoradas para “se redimir”.

Ora, sem a alma não dá, não há espiritualidade genuína sem que a alma esteja presente em cada desejo, em cada vontade, até que elas se tornem a boa ação. E a maior das boas ações é a reforma de si mesmo, a alquimia interna, a construção do Céu em nossa própria consciência: um pensamento de cada vez. Acertar um alvo, para então mirar o próximo, ad infinitum!

Em todo caso, na época eu não tinha esta maturidade toda, e optei por me afastar um pouco do grupo e ir caminhar pelos montes em volta da área do sítio, contando vacas e bois nos outros montes próximos, ouvindo o piar dos passarinhos e o som do vento a escorar pelos ombros e pelo gramado que insistia bravamente em crescer em cada palmo de terra... Até que veio o pôr do sol, e eu achei por bem retornar para o quarto onde iria dormir naquela noite.

Foi quando botei os pés no quarto de duas beliches, onde dormiria com três outros jovens (todos homens, é claro), que me deparei com a pergunta mais insólita de todo o retiro:

“Oi, aí está você fujão! Não pense que vai se safar da vigília hoje hein? Me diga aí, você prefere esperar Jesus das 3h até às 3:30h, ou das 4:30h às 5h?”


» Na continuação, Jesus pela madrugada, belas músicas, e orações intensas!

***

[1] Todos os nomes, afora o meu, são fictícios.

[2] Nas cerimônias hebraicas do Yom Kipur, dois bodes eram levados, juntamente a um touro, ao lugar de sacrifício. No templo os sacerdotes sorteavam um dos bodes. Um era queimado em holocausto no altar de sacrifício com o touro. O segundo tornava-se o bode expiatório, pois o sacerdote punha suas mãos sobre a cabeça do animal e confessava os pecados do povo de Israel. Posteriormente, o bode era deixado ao relento na natureza selvagem, levando consigo os pecados de toda a gente.
Na teologia cristã, a história do bode expiatório é interpretada como uma prefiguração simbólica do autossacrifício de Jesus, que chama a si os pecados da humanidade, tendo sido expulso da cidade por ordem dos sacerdotes.

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Crédito da imagem: William Holman Hunt ("O Bode Expiatório")

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22.9.13

A surpreendente resposta de Papa Franciso a um ateu

Segue abaixo a transcrição da Carta Aberta de Papa Franciso ao Jornalista Eugenio Scalfari. A carta do Papa pretende ser uma resposta a duas cartas abertas que Scalfari escreveu a Francisco e publicou nos dias 7 de Julho e 7 de Agosto de 2013 no editorial do La Repubblica, jornal italiano do qual é fundador e colunista. Em ambas, Scalfari formula - como alguém que tem uma cultura iluminista e não procura a Deus - “perguntas de um não crente ao papa jesuíta chamado Francisco”. Pois “aqui e hoje não sou um jornalista - escreve Scalfari - sou um não crente que há anos está interessado e apaixonado pela pregação de Jesus de Nazaré, filho de Maria e de José [...]. Tenho uma cultura iluminista e não procuro a Deus. Acho que Deus seja uma invenção consoladora e ilusória da mente dos homens”.

A resposta de Francisco é surpreendente e praticamente inaugura um diálogo direto e profundo, até recentemente impensável, entre a Santa Sé e os ateus humanistas e moderados. A forma com que Francisco consegue acolher e responder as questões de Scalfari, sem pretender impor sua fé e muito menos condenar o ceticismo do jornalista, é certamente uma aula de embate de ideias, onde as pedras, longe de se chocarem e arrancarem lascas uma das outras, produzem faíscas luminosas e, quem sabe até, um fogo até então desconhecido...

Não irei comentar ao final do texto, como costumo fazer com textos de autores selecionados que trago a este blog, mas no entanto gostaria muito que lessem este trecho abaixo, de autoria do grande estudioso de mitologia do século passado, Joseph Campbell, que foi retirado do monumental O Poder do Mito. Após lerem o trecho, terão plenas condições de analisar o que diz o Papa Francisco de forma ainda mais profunda, até onde as palavras podem chegar:

Deus é um pensamento. Deus é uma idéia. Mas a sua referência é algo que transcende o pensamento. Ele existe além da existência... Além da categoria de ser ou não ser. Ele existe ou não? Nem existe, nem não existe. Qualquer deus, qualquer mitologia ou qualquer religião são verdadeiros nesse sentido... Assim como uma metáfora do mistério humano e cósmico. Quem pensa que sabe, não sabe. Quem sabe que não sabe, este sim, sabe.

Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana? Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental.

* * *

E finalmente, a carta de Francisco, na íntegra (retirada do vatican.va):

Vaticano, 4 de Setembro de 2013

Prezado Dr. Scalfari,

Com viva cordialidade queria, através desta, procurar, ainda que apenas em linhas gerais, responder à carta que houve por bem dirigir-me, nas páginas do jornal La Repubblica de 7 de Julho, com uma série de reflexões pessoais, que haveria de desenvolver nas páginas do mesmo jornal do dia 7 de Agosto.

Começo por lhe agradecer a solicitude que teve em ler a Encíclica Lumen fidei. De facto, esta – na intenção do meu amado Predecessor, Bento XVI, que a idealizou e em grande parte redigiu e de quem a herdei com imensa gratidão – tem em vista não só confirmar na fé em Jesus Cristo aqueles que nela já que se reconhecem, mas também suscitar um diálogo sincero e rigoroso com quem, como o senhor, se define «um não-crente há muitos anos interessado e fascinado pela pregação de Jesus de Nazaré».

Parece-me, pois, muito positivo, tanto para nós individualmente como para a sociedade em que vivemos, determo-nos a dialogar sobre uma realidade tão importante como é a fé, que faz apelo à pregação e à figura de Jesus.

Em particular, penso que há hoje duas circunstâncias que tornam obrigatório e precioso este diálogo. Aliás o mesmo constitui – como se sabe – um dos objectivos principais do Concílio Vaticano II, querido por João XXIII, e do ministério dos Papas, que desde então até aos nossos dias – cada um com a própria sensibilidade e contribuição – têm caminhado pelo sulco traçado pelo referido Concílio.

A primeira circunstância – como lembram as páginas iniciais da Encíclica – decorre do facto de, ao longo dos séculos da modernidade, se ter assistido a um paradoxo: a fé cristã, cuja novidade e incidência na vida do homem foram expressas, desde o início, precisamente através do símbolo da luz, tem sido muitas vezes rotulada como a obscuridade da superstição, que se opõe à luz da razão. E assim se chegou à incomunicabilidade entre a Igreja e a cultura de inspiração cristã, por um lado, e a cultura moderna de traça iluminista, por outro. Chegou o tempo – o próprio Vaticano II inaugurou a estação – de um diálogo aberto e sem preconceitos, que reabra as portas para um encontro sério e fecundo.

A segunda circunstância, para quem procura ser fiel ao dom de seguir Jesus na luz da fé, decorre do facto de este diálogo não constituir um acessório secundário da existência do crente; antes, pelo contrário, é sua expressão íntima e indispensável. A este respeito, deixe-me citar-lhe uma declaração, na minha opinião muito importante, da Encíclica: dado que a verdade testemunhada pela fé é a do amor – como lá se sublinha – «resulta claramente que a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro. O crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui. Longe de nos endurecer, a segurança da fé põe-nos a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos» (n. 34). Este é o espírito que me anima nas palavras que lhe escrevo.

A fé, para mim, nasceu do encontro com Jesus: um encontro pessoal, que tocou o meu coração e deu uma direcção e um sentido novo à minha existência; mas, ao mesmo tempo, um encontro que se tornou possível pela comunidade de fé em que vivi e graças à qual encontrei o acesso ao entendimento da Sagrada Escritura, à vida nova que flui, como jorros de água, de Jesus através dos sacramentos, à fraternidade com todos e ao serviço dos pobres, verdadeira imagem do Senhor. Sem a Igreja – creia-me! –, eu não teria podido encontrar Jesus, embora ciente de que este dom imenso da fé está guardado em frágeis vasos de barro que é a nossa humanidade.

Ora, é precisamente a partir desta experiência pessoal de fé vivida na Igreja que me sinto à vontade para perscrutar as suas perguntas e procurar, juntamente com o senhor, as estradas ao longo das quais possamos talvez começar a fazer um pedaço de caminho juntos.

Desculpe, se não sigo passo a passo as argumentações que propôs no editorial de 7 de Julho. Parece-me mais frutuoso – ou pelo menos está mais de acordo com o meu génio – ir de certo modo ao coração das suas considerações. Não entro sequer na modalidade de exposição que segue a Encíclica e na qual o senhor entrevê a falta duma secção dedicada especificamente à experiência histórica de Jesus de Nazaré.

Para começar, limito-me a observar que uma tal análise não é secundária. Trata-se efectivamente – seguindo aliás a lógica que guia o desenrolar da Encíclica – de deter a atenção sobre o significado daquilo que Jesus disse e fez e assim, em última instância, sobre aquilo que Jesus foi e é para nós. De facto, as Cartas de Paulo e o Evangelho de João, especialmente referidos na Encíclica, estão construídos sobre o sólido fundamento do ministério messiânico de Jesus de Nazaré, cuja resolução chega ao seu auge na páscoa de morte e ressurreição.

Por isso, é preciso confrontar-se com Jesus – diria – na dimensão concreta e tosca da sua história, tal como nos é narrada sobretudo pelo mais antigo dos Evangelhos, o de Marcos. Aí se constata que o «escândalo», que as palavras e a actividade de Jesus provocam ao seu redor, deriva da sua extraordinária «autoridade» – termo este, atestado já desde o Evangelho de Marcos mas que não é fácil de traduzir em italiano. A palavra grega é exousia, que literalmente se refere àquilo que «provém do ser» que se é. Trata-se portanto, não de algo exterior ou forçado, mas de algo que brota de dentro e se impõe por si mesmo. Realmente Jesus impressiona, desinstala, reforma a partir – Ele mesmo o disse – da sua relação com Deus, que trata familiarmente por Abbá, o qual Lhe confere esta «autoridade» para que Ele a aplique a favor dos homens.

Assim, Jesus prega «como alguém que tem autoridade», cura, chama os discípulos para O seguirem, perdoa... Todas estas coisas, no Antigo Testamento, são prerrogativa de Deus, e só Deus. A pergunta, que mais vezes reaparece no Evangelho de Marcos – «Quem é este que... ?» – e que diz respeito à identidade de Jesus, nasce da constatação de uma autoridade diferente da do mundo, uma autoridade que não tem como finalidade exercer um poder sobre os outros mas servi-los, dar-lhes liberdade e plenitude de vida. E isto até ao ponto de arriscar a sua própria vida, até experimentar a incompreensão, a traição, a rejeição, até ser condenado à morte, até cair no estado de abandono na cruz. Mas Jesus permanece fiel a Deus até ao fim.

E é precisamente então – como exclama o centurião romano ao pé da cruz, no Evangelho de Marcos – que, paradoxalmente, Jesus Se mostra como o Filho de Deus! Filho de um Deus que é amor e que quer, com todo o seu ser, que o homem, todo o homem, se descubra e viva, também ele, como seu verdadeiro filho. Para a fé cristã, isto é certificado pelo facto de que Jesus ressuscitou: não para triunfar sobre aqueles que O rejeitaram, mas para atestar que o amor de Deus é mais forte do que a morte, o perdão de Deus é mais forte do que todo o pecado, e que vale a pena gastar a própria vida, até ao fim, para testemunhar este dom imenso.

A fé cristã acredita nisto: Jesus é o Filho de Deus que veio dar a sua vida para abrir a todos o caminho do amor. Por isso, ilustre Dr. Scalfari, tem razão quando vê, na encarnação do Filho de Deus, o perno da fé cristã. Já Tertuliano escrevia: «caro cardo salutis – a carne [de Cristo] é o perno da salvação». É que a encarnação, ou seja, o facto de o Filho de Deus ter tomado a nossa carne e compartilhado alegrias e sofrimentos, vitórias e derrotas da nossa existência até ao grito da cruz, vivendo tudo no amor e na fidelidade ao Abbá, testemunha o amor incrível que Deus tem por cada homem, o valor inestimável que lhe reconhece. Por isso, cada um de nós é chamado a assumir o olhar e a opção de amor de Jesus, a entrar no seu modo de ser, pensar e agir. Esta é a fé, com todas as suas expressões que são descritas concretamente na Encíclica.

* * *

Além disso, no mesmo editorial de 7 de Julho, o senhor pergunta-me como entender esta originalidade da fé cristã, assente precisamente na encarnação do Filho de Deus, face a outras crenças que por sua vez gravitam em torno da transcendência absoluta de Deus.

Eu diria que a sua originalidade está precisamente no facto de que a fé nos faz participar, em Jesus, na relação que Ele mesmo tem com Deus que é Abbá e, nesta luz, participar na relação que Ele tem com todos os outros homens, incluindo os inimigos, sob o signo do amor. Por outras palavras, a filiação de Jesus, como no-la apresenta a fé cristã, não é revelada para marcar uma separação intransponível entre Jesus e todos os outros, mas para nos dizer que, n’Ele, todos somos chamados a ser filhos do único Pai e irmãos entre nós. A singularidade de Jesus visa a comunicação, não a exclusão.

Claro, daqui segue-se também – e não é pouco – a distinção entre a esfera religiosa e a esfera política, que está sancionada no «dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César", afirmada com nitidez por Jesus e sobre a qual, laboriosamente, se construiu a história do Ocidente. De facto, a Igreja é chamada a semear o fermento e o sal do Evangelho, ou seja, o amor e a misericórdia de Deus que envolvem todos os homens, apontando para a meta escatológica e definitiva do nosso destino, enquanto à sociedade civil e política cabe a árdua tarefa de articular e encarnar na justiça e na solidariedade, no direito e na paz, uma vida cada vez mais humana. Para quem vive a fé cristã, isto não significa fuga do mundo nem vontade de qualquer hegemonia, mas serviço ao homem, ao homem todo e a todos os homens, a partir das periferias da história e mantendo desperto o sentido da esperança que impele a realizar o bem em todas as circunstâncias e com o olhar sempre fixo no além.

Na conclusão de seu primeiro artigo, o senhor pergunta-me ainda o que dizer aos irmãos judeus sobre a promessa que Deus lhes fez: terá ela caído completamente no vazio? Trata-se de uma questão – pode crer – que nos interpela radicalmente como cristãos, porque, com a ajuda de Deus, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II redescobrimos que o povo judeu continua a ser, para nós, a raiz santa donde germinou Jesus. Na amizade que cultivei durante todos estes anos com os irmãos judeus, na Argentina, também eu muitas vezes questionei a Deus na oração, especialmente quando a mente se detinha na recordação da experiência terrível do Holocausto. O que lhe posso dizer – com palavras do apóstolo Paulo – é que nunca esmoreceu a fidelidade de Deus à aliança estabelecida com Israel e que, através das terríveis provações destes séculos, os judeus conservaram a sua fé em Deus. E nunca lhes agradeceremos suficientemente por isso, não só como Igreja, mas também como humanidade. Além disso, perseverando eles precisamente na sua fé no Deus da aliança, lembram a todos, inclusive a nós cristãos, o facto de que permanecemos, como peregrinos, à espera do regresso do Senhor e, por conseguinte, devemos manter-nos sempre abertos a Ele, sem nos fecharmos jamais no que já conseguimos.

E assim chego às três perguntas que me coloca no artigo de 7 de Agosto.

Parece-me que, nas duas primeiras, aquilo que lhe está a peito é entender a atitude da Igreja com quem não partilha a fé em Jesus. Antes de mais nada, pergunta-me se o Deus dos cristãos perdoa a quem não acredita nem procura acreditar. Admitido como dado fundamental que a misericórdia de Deus não tem limites quando alguém se Lhe dirige com coração sincero e contrito, para quem não crê em Deus a questão está em obedecer à própria consciência: acontece o pecado, mesmo para aqueles que não têm fé, quando se vai contra a consciência. De fato, ouvir e obedecer a esta significa decidir-se diante do que é percebido como bem ou como mal; e é sobre esta decisão que se joga a bondade ou a maldade das nossas acções.

Em segundo lugar, o senhor pergunta-me se é um erro ou um pecado pensar que não existe nada absoluto e, consequentemente, também não há uma verdade absoluta mas apenas uma série de verdades relativas e subjectivas. Para começar, eu não falaria – nem mesmo para aqueles que acreditam – de verdade «absoluta» dando ao termo absoluto o sentido daquilo que está desligado, que carece de qualquer relação, porque a verdade, segundo a fé cristã, é o amor de Deus por nós em Jesus Cristo. Portanto, a verdade é uma relação! E tanto é assim, que cada um de nós capta a verdade e exprime-a a partir de si mesmo: da sua história e cultura, da situação em que vive, etc. Isto não quer dizer que a verdade seja variável e subjectiva. Longe disso! Significa, sim, que ela se nos dá sempre e só como um caminho e uma vida. Porventura não disse o próprio Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida»? Por outras palavras, sendo a verdade, em última análise, uma só coisa com o amor, requer a humildade e a abertura para ser buscada, acolhida e expressa. Concluindo, é preciso entendermo-nos bem sobre os termos e, para sair dos estrangulamentos duma contraposição... absoluta, talvez seja necessário reformular em profundidade a questão. Penso que isto seja hoje absolutamente necessário para se estabelecer aquele diálogo sereno e construtivo que eu almejava ao início deste meu texto.

Na última questão, pergunta-me se, com o desaparecimento do homem da terra, desaparecerá também o pensamento capaz de pensar Deus. É certo que a grandeza do homem está em ser capaz de pensar Deus, isto é, em poder viver uma relação consciente e responsável com Ele. Mas, a relação é entre duas realidades. Deus – tal é o meu pensamento e a minha experiência, mas são muitos os que, ontem e hoje, os compartilham! - não é uma ideia, ainda que muito elevada, fruto do pensamento do homem; Deus é realidade com o «R» maiúsculo. Jesus no-Lo revela – e vive em relação com Ele – como um Pai de bondade e misericórdia infinitas. Por isso, Deus não depende do nosso pensamento. Aliás, mesmo quando acabar a vida do homem sobre a terra – e, segundo a fé cristã, este mundo tal como o conhecemos está destinado em todo o caso a perecer –, não deixará de existir o homem; e com ele, de um modo que ignoramos, o próprio universo também não. A Escritura fala de «um novo céu e uma nova terra» e afirma que, no final – num onde e quando que nos ultrapassam mas para os quais, na fé, tendemos com desejo e expectativa – Deus será «tudo em todos».

E assim concluo, ilustre Dr. Scalfari, estas minhas reflexões, suscitadas por tudo o que me quis comunicar e perguntar. Receba-as como uma tentativa de resposta, provisória mas sincera e confiante, ao convite que vislumbrei para fazermos um pedaço de estrada juntos. A Igreja – creia-me! – apesar de todas as lentidões, infidelidades, erros e pecados que possa ter cometido e pode ainda cometer nos que a compõem, não tem outro sentido e finalidade que não seja viver e testemunhar Jesus: Ele, que foi enviado pelo Abbá para «anunciar a Boa-Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista, mandar em liberdade os oprimidos, proclamar um ano favorável da parte do Senhor» (Lc 4,18-19 ).

Com fraterna amizade,

Franciscus PP.

 

* * *

Crédito da imagem: Google Image Search

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8.8.13

Um ser ondulante

Trecho do Projeto Rumi:

O amor não é condescendência,
nem livros ou qualquer marca em papel,
nem o que uma pessoa diz para a outra.

O amor é uma árvore
com seus galhos se elevando a eternidade,
suas raízes se aprofundando na eternidade
e nenhum tronco!

Você o viu?
A mente é cega para ele.
Seu desejo é incapaz de observá-lo.
A saudade que sente desse amor
vem do seu interior.

Quando se tornar o Amigo,
sua saudade será como o náufrago no oceano
agarrado a um pedaço de madeira...

Eventualmente, madeira, homem e oceano
se tornam um ser ondulante:
Shams de Tabriz, o segredo de Deus.

***

Mantido assim, para amamentação,
sem consciência, provando nuvens de leite,
nunca tão satisfeito.


Comentário

Enquanto transpirava paixão, perda e saudade em seus poemas, foi exatamente num sonho que Rumi conseguiu localizar Shams; conforme nos contou Aflâki, o seu principal biógrafo:

Uma noite, Rumi sonhou com Shams. Sentado numa pequena taverna em Damasco, ele jogava dados com um jovem francês, este também um buscador espiritual. Shams havia ganho todas as partidas e o perdedor, desesperado, estava a ponto de se lançar violentamente sobre ele. Rumi despertou subitamente da visão e pediu que seu filho, Sultan Walad, fosse até Damasco salvar Shams do perigo.
Walad viajou imediatamente e, ao chegar, de fato o encontrou na referida taverna sendo agredido e insultado pelo jovem. Walad se prostrou aos pés de Shams, depositou ouro e prata sobre suas sandálias e implorou, em nome do pai, que ele regressasse a Konya. Ao ouvir isso, o jovem francês compreendeu que havia insultado um grande mestre a também se prostrou a seus pés, envergonhado e implorando para que Shams o aceitasse como discípulo.
Shams o recusou dizendo: “Retorna à Europa; visita os buscadores de lá, seja o seu líder e recorde-se de nós em suas orações”. Então, Shams concordou em regressar a Konya e Sultan Walad o guiou, prosseguindo a pé por todo o caminho ao lado do cavalo em que Shams seguia montado.

Se o relato é verdadeiro, é sem dúvida um mistério a identidade deste jovem francês que vagava por Damasco no remoto século XIII. Quem sabe se tratava de um sobrevivente dos cátaros [1], tão brutal-mente perseguidos pelos ditos cristãos na Europa? Quem sabe, um cavaleiro em busca de aventuras em terras lendárias – afinal, o código de amor cortês e o ideário da cavalaria espiritual foram adotados no Ocidente quando o mundo europeu entrou em contato com a tradição sufi.

Isto também nos remete a Francisco de Assis, o grande santo do cristianismo na época e, segundo muitos, o maior cristão que caminhou neste mundo após Jesus de Nazaré...
Conforme nos conta o blog “Saindo da Matrix” [2]:

A atmosfera e organização da Ordem franciscana é mais parecida com os dervixes (Ordem sufi) que qualquer outra coisa. Além dos contos sobre Francisco serem muito parecidos com os dos professores sufis, todos os tipos de pontos coincidem. Como os sufis, os fran-ciscanos não se preocupam com sua salvação pessoal (o que era considerado uma vaidade). Francisco iniciava suas pregações com a frase “Que a paz de Deus esteja com você”, que ele disse ter recebido de Deus, mas que era (obviamente) uma saudação árabe. Até a roupa, com seu capote coberto e mangas largas, é a mesma dos dervixes de Marrocos e da Espanha, por onde Francisco se aventurou em 1212, plena época das cruzadas, dedicando-se a tentar converter os sarracenos pela não-violência.
O próprio nome da Ordem, “Fraternidade dos Irmãos Menores”, pressupõe haver os Irmãos Maiores, e os únicos com esse nome na época eram os “Grandes Irmãos”, uma Ordem sufi fundada por Najmuddin Kubra, “o Grande”. As conexões impressionam. Uma das maiores características deste grande sufi era sua misteriosa influência sobre os animais. Desenhos o mostram cercado de pássaros; ele amansou um cachorro feroz apenas olhando para ele (exatamente como Francisco fez com um lobo). Todas essas histórias eram conhecidas no Ocidente 60 anos antes de Francisco nascer.
Por tudo isso, não é de se espantar que, em Damietta, no Egito, de alguma forma Francisco e seus companheiros tenham conseguido cruzar a linha de batalha onde os Cruzados lutavam com os Árabes e se encontrar pessoalmente com o sultão Malik el-Kamil (e ser bem recebido). Diz-se que Francisco desafiou os líderes religiosos muçulmanos a um teste de fé através do fogo, mas eles recusaram. Então Francisco propôs entrar no fogo primeiro e, se ele saísse de lá incólume, o sultão teria que reconhecer o Cristo como o verdadeiro Deus. O sultão não aceitou, mas ficou tão impressionado com a fé deste homem que permitiu aos franciscanos acesso livre aos locais sagrados para os cristãos, como a sagrada sepultura. Deu um salvo-conduto para que eles pudessem trafegar e até mesmo pregar em terras árabes, e ainda pediu para que ele o visitasse novamente.

Aquilo que as igrejas e os estados separaram, o misticismo reúne novamente: todas as almas navegam neste mesmo segredo.

***

Obs.: A história da amizade entre Rumi e Shams será contada em detalhes na versão final do livro, este é somente um trecho dela (e, sim, no livro ela é contada aos poucos, acompanhando os poemas de certos capítulos).

[1] O catarismo (do grego katharós, “puro”) foi um movimento cristão, considerado herético pela Igreja Católica. Ele se manifestou  no sul da França e no norte da Itália do final do século XI até meados do séculos XIV. Suas ideias tinham fortes paralelos com o gnosticismo do início da era cristã. Os historiadores indicam sua formação a partir da expansão das crenças dos bogomilos (Reino dos Búlgaros) e dos paulicianos (Oriente Médio). Eles afirmavam ser “os verdadeiros cristãos”. Traziam em sua doutrina a assinatura da mensagem sincrética do iniciado persa Mani, que tinha espalhado pelo mundo antigo sua doutrina gnóstica.

[2] Blog pessoal de meu amigo Acid (Sidharta Campos). O trecho foi retirado do post intitulado “São Francisco de Assis” (29/05/2007).

Crédito da imagem: Pintura de Frank Cadogan Cowper.

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29.7.13

Uma entrevista com Papa Francisco

Em uma entrevista histórica, a primeira (exclusiva) desde que se tornou Papa, Francisco responde sem hesitação (e com toda a doçura que lhe é peculiar) a todas as perguntas do jornalista Gerson Camarotti da GloboNews, provavelmente um dos homens que mais compreende a política vaticanista; mesmo estando fora do Vaticano. A entrevista foi concedida na semana passada, enquanto o Papa participava da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) no Rio de Janeiro.

No Estúdio I de hoje à tarde, Camarotti confessou que o Vaticano não havia aprovado a entrevista exclusiva, e que "tudo dependeu da intuição do Papa em aceitar falar". Além disso, ocorreu algo muito raro para o caso de uma entrevista a um chefe de Estado: nenhuma pergunta foi vetada a priori. Ou seja, Camarotti podia perguntar sobre o que quisesse perguntar - e não faltaram perguntas difíceis, como as que remetiam aos problemas de corrupção no chamado Banco do Vaticano (IOR) e as recentes manifestações nas ruas do Brasil. Sobre o que sabia responder, Francisco respondeu pausadamente e com enorme clareza, nos trazendo uma sabedoria que vai muito além da mera intelectualidade. Sobre o que não sabia responder, teve a humildade de admitir:

Alguns trechos selecionados da entrevista acima:


Trecho sobre o inconformismo da juventude

Um jovem que não protesta não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia, e a utopia não é sempre negativa. A utopia é respirar e olhar adiante.

O jovem é mais espontâneo. Não tem tanta experiência de vida, é verdade, mas as vezes essa experiência nos freia. O jovem tem mais energia para defender suas ideias. O jovem é essencialmente um inconformista, e isso é muito lindo! Isso é algo comum a todos os jovens.

Então eu diria que, de uma forma geral, é preciso ouvir os jovens, dar-lhes meios de se expressar e cuidar para que não sejam manipulados.

***

Trecho sobre a idolatria do dinheiro

O mundo atual em que vivemos caiu na feroz idolatria do dinheiro. Há uma política mundial impregnada pelo protagonismo do dinheiro. Quem manda hoje é o dinheiro.

Isso significa uma política mundial economicista, autossuficiente, sem qualquer controle ético, que vai arrumando os grupos sociais de acordo com essa conveniência.

O que acontece então? Quando reina no mundo a feroz idolatria do dinheiro, se concentra muito no centro, e as pontas da sociedade, os extremos, são mal atendidos, mal cuidados, descartados.

Até agora, vimos claramente como se descartam os idosos. Há toda uma filosofia para descartar os idosos: "Não servem. Não produzem". Os jovens tampouco produzem muito, pois é uma carga que precisa ainda ser formada. O que estamos vendo agora é que a outra ponta, a dos jovens, está em vias de ser descartada.

O alto percentual de desemprego entre os jovens da Europa é alarmante. Em certos países já há mais da metade dos jovens desempregados. Nós vemos um fenômeno de jovens descartados.

Então para sustentar este modelo político mundial, estamos descartando os extremos... Curiosamente, estes que são a promessa para o futuro. Porque o futuro quem vai dar são os jovens, que seguirão adiante, e os idosos, que precisam transferir sabedoria aos jovens. Descartando ambos, o mundo desaba.

Falta uma ética humanista em todo o mundo.

***

Trecho sobre a Torre de Babel

Se me der um minuto, direi algo a mais sobre esse tema (Camarotti: "lógico que dou").

No século XII havia um rabino muito sábio que escrevia explicando à sua comunidade, com fábulas, os problemas morais que havia em algumas passagens da Bíblia.

Uma vez, falou sobre a Torre de Babel. Ele explicava assim:

Qual era o problema com a Torre, porque houve o castigo divino?

Ora, durante a construção da Torre, era necessário fabricar tijolos do barro, meter-lhes palha, levá-los ao forno e, já cozidos, transportá-los para o alto da edificação. Cada tijolo era um tesouro, devido a todo o trabalho envolvido em sua fabricação. Quando caía um tijolo do alto da Torre, era uma catástrofe, e o operário que o deixou cair era castigado.

Mas se caísse um operário, nada acontecia...

Hoje, há crianças que não têm o que comer no mundo; há crianças que morrem de fome e desnutrição; há doentes que não têm acesso a tratamento; há mendigos que morrem de frio no inverno; há crianças que não têm educação nem perspectivas de futuro. Nada disso é notícia.

Mas quando as bolsas de algumas capitais caem 3 ou 4 pontos percentuais, isso é tratado como uma grande catástrofe mundial. Compreende?

Esse é o drama desse "humanismo" desumano que estamos vivendo. Por isso é preciso recuperar os extremos da sociedade, os idosos e os jovens, e não cair numa globalização da indiferença em relação a esses dois extremos que são o futuro do mundo.


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28.7.13

Oremos por Francisco

Ele que veio do "fim do mundo", retornou para demonstrar que o Reino se espalha por onde quer que existam corações abertos para ele. Afinal, o mundo não terá fim enquanto existirem corações a pulsar...

Veio nos relembrar de que a Igreja, a verdadeira, é feita de pedras vivas e de sementes a aflorar nos campos, e não de orações repetidas da boca para fora dentro de quatro paredes de pedras mortas.

Veio andar entre nós sem blindagens nem pompa. Veio beber chimarrão do mesmo copo de seus conterrâneos. Veio sorrir junto ao povo pelos corações entreabertos que lhe reservaram um espaço; e que agora se encontram cada vez mais abertos. Isto tudo lembra mais aos pastores andarilhos do que os eclesiásticos sedentários. Isto tudo lembra mais a Igreja do futuro, a Igreja que renova a si mesma, a Igreja que canta novamente o Pai Nosso em latim, mas com outro espírito e outro pensamento...

"Uma Igreja pobre para os pobres". Não vai ser fácil. Por isso tantos pedidos de oração. O Papa Francisco precisa mesmo delas, pois que passará mais perigo nos corredores do Vaticano do que nas areias de Copacabana. Ele vai tentar reformar a Igreja de fora para dentro, e não de dentro para fora. Passo a passo, uma planilha do IOR de cada vez.

Isto não significa que a Igreja deixará de ser conservadora. Não significa que o Papa e os católicos vão, do dia para a noite, aceitarem grandes reformas em sua fé e em seus dogmas. Ora, há muitos que, como eu, continuarão discordando de um ou diversos dogmas da Igreja... Porém, se a Igreja puder "sair as ruas", se puder ser novamente cristã, se puder ser mais franciscana e menos hierárquica; se puder, enfim, seguir o exemplo do Papa Francisco, e olhar as pessoas na mesma altura, e não de cima para baixo, isto será um enorme ganho para todo o mundo!

Por tudo isso, oremos por Francisco; mas oremos também por Maradiaga em sua "batalha" pela reforma da Cúria em Roma. Pois que será lá, principalmente, o campo onde será decidido o futuro da Igreja. Não torço pelo fim da Igreja do Cristo, torço pelo seu início...

Boa viagem, Francisco, e até breve.

***

Crédito da imagem: UOL

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22.3.13

Conversa Alheia: A revolução na Islândia

Com vocês, a "segunda temporada" do Conversa Alheia, onde alguns blogueiros e livres-pensadores falam sobre o que quer que lhes venha a mente...

Raph fala sobre a "revolução silenciosa" da Islândia.

Citado neste trecho:
A revolução em curso na Islândia

***

No episódio de reestreia, Raph Arrais, Igor Teo, Dani Roses e Josinei Lopes discutem sobre o "imperialismo norte-americano", os problemas da Igreja Católica e a adoção entre casais homossexuais.

Citado no programa:
Sobre Hugo Chávez
3 chimpanzés (sobre os bonobos)

***

» Ouça aos demais episódios no canal do Conversa Alheia no YouTube

» Para baixar os vídeos do YouTube, você pode usar o complemento Ant Video Downloader (para Firefox)


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18.3.13

Hangout Gnóstico: Mística Católica e o Novo Papa

Em minha segunda participação nos hangouts semanais de Giordano Cimadon (coordenador da Sociedade Gnóstica Internacional), a conversa gira em torno de um evento bastante recente: a eleição do Papa Francisco e os rumos da Igreja Católica Apostólica Romana. O convidado especial (Marco Antônio Marcon), entretanto, como estudante de teologia e católico, nos traz também um amplo espectro do lado mais profundo e místico da religiosidade católica-cristã.

Me causou especial admiração o fato de ter partido do próprio convidado a menção aos problemas do Instituto de Obras Religiosas (IOR), o "banco" do Vaticano. Assunto que eu mesmo evitei mencionar e que ele abordou de forma até mais contundente e direta do que eu imaginei fazer...

Para os que acham 2h10m um tempo muito longo de hangout, devo dizer que a partir de aproximadamente 01:18:00 o assunto recaí sobre as profecias de fim dos tempos, e vai nele até o final. Portanto, para quem não se interessa por profecias, pode terminar ali. E para quem se interessa somente por profecias, pode iniciar dali:

Obs(1): ao longo do vídeo, eu chego a citar que São Francisco de Assis era "quase um sufi", mas não houve tempo de explicar o que queria dizer. Vocês encontrarão mais informações sobre isso neste artigo do blog Saindo da Matrix (ver o trecho intitulado "No Oriente").

Obs(2): o artigo sobre "religião, mitos e super-heróis", que cito rapidamente no vídeo, é este: Xamãs, Heróis e Dragões

Crédito da foto: Time

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18.10.12

Franciscano

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...

Encontrei uma criança que abençoa as pessoas...

Estou de férias num hotel fazenda no sul de Minas Gerais, dentre a Serra da Mantiqueira, e a encontrei num almoço. A mãe a carregava no colo e nos avisou: “Ele abençoa, querem ser abençoados?”.

Uma amiga avisou que queria, e o garotinho, de não mais do que uns 2 ou 3 anos, levantou a mão pequenina e pousou sobre a fronte dela, para logo após levantar a mão e dizer: “Dá dá!”. Logo após rodou a mesa, no colo da mãe, abençoando a todos.

Uma gracinha, muitos diriam... Também diriam que provavelmente a mãe é evangélica. E provavelmente era mesmo. Na nossa mesa todos eram católicos (exceto eu e minha esposa, que somos, poderíamos dizer, espiritualistas). Ninguém comentou ou quis saber nada sobre as raízes religiosas daquele tipo de benção infantil. Ficou apenas no “uma gracinha” mesmo.

Nos dias de hoje há um certo asco da chamada afirmação evangélica. Sejam jogadores da seleção brasileira que apontam para o céu a cada gol, sejam políticos da chamada bancada evangélica tentando introduzir leis antilaicas no país, sejam os shows da fé que reúnem milhares de pessoas em plena “aceitação do Senhor”, etc. As pessoas não evangélicas ficam assustadas.

Fato é que, bem ou mal, a renovação carismática está a pleno vapor no Brasil e em boa parte da América Latina. É claro que os pastores da madrugada na TV, que pediam 10% e agora pedem “tudo o que se puder doar a Deus”, trazem bons motivos para uma postura crítica e desconfiada de todos nós (inclusive os protestantes). Porém, será que todos os evangélicos são como zumbis que doam tudo a sua Igreja? Se fosse assim, seu dinheiro já teria acabado... Aquele casal tinha dinheiro para pagar diárias de um bom hotel fazenda no sul de Minas Gerais. Algum dinheiro deve ter sobrado.

Em todo caso, uma criança que abençoa não era nenhuma novidade para mim. A única novidade é que ela fingia ser um pastor mirim... Pois, ao menos para mim, todas as crianças nos abençoam. Abençoam com o olhar, com o sorriso, a espontaneidade, e a fragrância que trouxeram consigo da Casa do Amanhã.

Quando vejo uma criança, penso em todas as potencialidades, em toda a dose maciça de sonho e imaginação que carregam consigo. É claro que ainda irão enfrentar a castração da escola e da sociedade, é claro que muito pouco de seu sonho irá sobreviver, mas nada disso me impede de admirar aquele brilho que ainda são capazes de carregar consigo. Toda criança é um milagre em potencial.

Jesus também adorava as crianças, mas não parecia ter a necessidade de ensiná-las a abençoar ninguém... Foi Jesus quem nos relembrou de alguns ensinamentos que todas as crianças trazem consigo, embora muitas se esqueçam, na medida em que moram muito tempo neste mundo:

Todos são filhos de Deus; Todos somos deuses; Amemos ao próximo como a nós mesmos, como a um deus.

Mas então vieram os eclesiásticos, os legisladores da fé. Eles introduziram suas reformas, seus adendos, que não me parecem ter adicionado nada ao sonho original:

Todos são filhos de Deus, mas somente os que aceitarem Nosso Senhor Jesus Cristo obterão a Salvação (seja o que isto for); Todos somos deuses, mas somente através do pastor podemos contatar Deus; Amemos ao próximo como a nós mesmos, como a um deus, mas não esqueçamos que o homossexualismo é uma abominação, etc.

Na entrada da cidade há uma estátua de São Francisco de Assis. Trata-se do primeiro santo ecológico e, em todo caso, provavelmente do maior de todos os santos católicos, ou pelo menos aquele que mais se aproximou de Jesus... Os evangélicos não gostam de santos nem de imagens, sua interpretação dos testamentos arcaicos é um tanto quanto radical. São Francisco não é Baal, e mesmo Baal, coitado, era só um deus da Mesopotâmia que calhou de virar um bode expiatório bíblico. Mas Martinho Lutero viu uma Igreja em decadência, e encontrou no texto bíblico a única fonte realmente confiável para a religação a Deus.

Não foi exatamente assim com Francisco. O santo de Assis achou a Deus dentro de si mesmo, e não num livro. E passou a chamar de irmãos os próprios sinais e atributos divinos: Irmã Brisa, Irmão Vento, Irmã Lua, Irmão Sol, etc. Para Francisco, as plantas e flores, os rios e os lagos, os pássaros no céu e os peixes no mar, e os homens e mulheres, e as crianças, todos eram milagres em plena reforma.

Não coube nenhum adendo ao seu exemplo de vida. Sua reforma antecedeu a de Lutero, e deixou claro, escancarado, o imenso abismo que há entre a Casa do Padre e a Casa do Amanhã.

Se relembrei o que relembrei, é porque também sou um pássaro, a cantarolar, nos ombros de Francisco...

Brother Sun, Sister Moon (Donovan). Retirado do filme homônimo, de Franco Zeffirelli.

***

Crédito da foto: Dany (este sou eu numa pequena igreja dedicada a Francisco)

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10.2.12

La Santa Muerte Play

» Parte da série: Play a myth

Joseph Campbell dizia que um mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre. Seres mitológicos, a despeito de em alguns casos se basearem em personagens históricos reais, são em verdade conjuntos de símbolos. Alguns os usam como lembrete de feriados, outros para sintonia de bons pensamentos. Apenas alguns poucos os incorporam, e tentam ser como heróis, fazendo de sua vida uma aventura épica...

Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth.

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(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

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Crédito da imagem: Rafael Arrais + Google Image Search

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6.7.11

Orando em teatros

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Nunca tive uma educação religiosa na infância, mas como na minha família haviam católicos e espíritas, tive a oportunidade de, como a maior parte dos brasileiros, conhecer superficialmente a doutrina católica: da bíblia conheci mais por filmes e pela “bíblia para crianças” que saia nas bancas de jornal na década de 80. Só fui ler a bíblia já adulto, e mesmo assim com muito mais ênfase no Novo Testamento.

Como já havia dito, na minha infância e pré-adolescência me interessava muito mais por super-heróis e histórias de fantasia do que por missas ou doutrinas religiosas. Até hoje não sei o que fazer direito numa missa católica (além de sentar e levantar quando todo mundo faz o mesmo, e cantar às vezes), e sei de cor apenas uma ou duas orações (decerto sei mais poesias de cor do que orações) [1].

A espiritualidade que nasceu comigo, entretanto, esteve sempre presente. No fundo, eu sabia muito bem que havia algo de profundo e verdadeiro por detrás dos rituais sagrados, somente não conseguia compreender decerto o que era – assim como os próprios padres e católicos que conheci pessoalmente também não souberam me informar. Tudo o que faziam era repetir trechos da bíblia, como robôs, e eu não queria ser um “espiritualista robô”.

Quando finalmente li alguns livros de Alan Kardec, pude perceber que havia algo de mais profundo ali, algo que me relembrava alguma coisa que já sabia desde que nasci... Não foi como quando li o Fédon de Platão, quando tive a sensação de estar relendo exatamente o mesmo texto, mas certamente era algo muito parecido com isso.

Mas somente ter lido tudo aquilo não teria me ajudado tanto quanto frequentar alguma espécie de “missa”, algum ritual sagrado onde às verdades ocultas na alma pudessem ser expostas e vivenciadas plenamente. Ironicamente, a minha maior igreja, o templo onde orei verdadeiramente pela primeira vez, estava ainda mais próximo de minha casa do que a igreja católica – estava dentro de um shopping!

Augusto César Vannucci foi um produtor e diretor de TV, tendo trabalhado por muitos anos na Rede Globo. Seu ponto alto, pelo menos para mim, foi a direção dos especiais da Turma do Balão Mágico, muito saudosos [2]. Pois bem, Vannucci era espírita, e até hoje sua influência é clara em setores de Globo. Em 1978 ele fundou o Teatro Vannucci no Shopping da Gávea (Rio de Janeiro), a menos de 500m de onde passei a maior parte de minha juventude. Até hoje o Teatro abriga palestras espiritualistas todas as quartas-feiras, às 19h, e eu as frequentei desde meados da metade da década de 90 [3]. Infelizmente Vannucci morreu em 1992, então não pude conhecê-lo...

Mas conheci Joel, um médium pleno de luz com uma voz ao mesmo tempo doce e profunda, que até hoje preside as reuniões e apresenta os palestrantes; conheci o professor Hermógenes, um dos pioneiros na divulgação da Yoga no país; conheci Jorge Andréa, L. Palhano Jr., Narci de Castro e tantos outros espíritas e parapsicólogos; conheci pastores batistas ecumênicos, que se “atreviam” a ir palestrar em um palco espiritualista; conheci inúmeros artistas, atores, músicos, filósofos, poetas, e até mesmo assistentes sociais que trabalhavam no atendimento telefônico de pessoas com tendências suicidas. Em suma, tive a grandiosa oportunidade de observar um amplo espectro da luz da espiritualidade [4].

Dizem que a oração é um ato religioso, uma ligação, uma conversa, um pedido, um agradecimento, que fazemos em nosso íntimo em conexão a uma força transcendente, que uns chamam Deus, outros Cosmos, outros Natureza. Eu nunca fui muito bom em decorar orações, pois nunca fui muito bom em conversar com Deus com palavras pré-estabelecidas, com linguagem represada, e não fluida... No fim das palestras do Vannucci, sempre havia um período de oração. Foram nesses breves momentos ao longo das quartas-feiras e dos anos que pude ter contato com “energias” além da minha ampla compreensão, mas que representavam agrupamentos de espíritos das mais variadas culturas e religiões.

Joel os chamava de “falanges”: a falange dos gregos, a falange dos indianos [5], a falange dos índios, a falange dos pretos velhos, a falange dos artistas (Joel citava constantemente que eram presididos por John Lennon, creia quem quiser). A verdade, entretanto, é que eu não sabia ao certo diferenciar entre as diversas “falanges”, mas com o tempo certamente pude sentir sua presença no recinto, tanto quando chegavam (normalmente ainda antes da palestra iniciar) quanto quando partiam.

Assim, mesmo sem querer e decerto sem compreender ao certo, estava lentamente desenvolvendo minha própria mediunidade, meu próprio meio de contato com as sensações que chegavam até mim de algum “outro canto do universo”. Hoje sei que, apesar de não incorporar espíritos e nem nalgum dia desejar o fazer, muito do que escrevo, particularmente no campo da poesia, só é possível graças a esse exercício que fiz, sem saber, ao longo dessas noites de luz.

Apenas uma única vez Joel me chamou para me juntar aos médiuns “da casa” durante a parte final das palestras, quando estes se alinham em frente ao palco e dão passes magnéticos em todos os presentes... Estranho que, muitos anos depois, fui estudar passes magnéticos em um centro espírita onde resido hoje, em Campo Grande, e o que aprendi mais ou menos correspondia ao que realizei intuitivamente naquele dia. Quem sabe, talvez tenha sido o médium mais jovem a ter dado um passe no Teatro Vannucci [6] – talvez alguma falange tenha me auxiliado, mas eu não sei qual delas...

***

[1] Se tivesse frequentado missas gnósticas, provavelmente teria sido bem diferente...

[2] “Pegar carona nessa calda de cometa, ver a Via Láctea, estrada tão bonita, brincar de esconde-esconde numa nebulosa, voltar pra casa em nosso lindo balão azul”. Veja quem tiver olhos para ver.

[3] Eu hoje não moro mais no Rio, mas sempre que retorno para visitar a família tento aparecer por lá as quartas-feiras.

[4] Como é comum no espiritismo, também compareci a reuniões jovens, eventos de caridade, hospitais, asilos, instituições de deficientes mentais, etc. Embora certamente não tanto quanto deveria... Em todo caso, muito obrigado a Maria por ter me “iniciado” na caridade.

[5] Existe uma ligação muito forte do Teatro com o guru indiano Sai Baba, que morreu recentemente. Uma foto de Sai Baba pode ser vista logo na entrada do recinto. O professor Hermógenes e diversos outros palestrantes conheceram pessoalmente Sai Baba, na Índia.

[6] Embora um dia tenha dito ao Professor Hermógenes, quando este me chamou de sobrinho, que não era possível dizer quem era, dentro daquele Teatro, o mais jovem ou o mais velho.

***

Crédito da foto: NASA (balão de alta pressão na estratosfera)

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2.5.11

Caso Parmod, parte 5

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A primeira coisa que se lê no livro de Ian Stevenson (publicado pela Editora Vida e Consciência) é uma citação atribuída a ele – que não sei se consta da edição original americana, mas não deixa de ser pertinente –, que diz assim:

“Se os hereges pudessem ser queimados vivos nos dias de hoje, os cientistas – sucessores dos teólogos, que queimavam qualquer um que negasse a existência das almas no século XVI – hoje queimariam aqueles que afirmam que elas existem”.

Exagero? Provavelmente que sim, mas nem tanto... A vantagem dos cientistas radicais sobre os eclesiásticos radicais é que, apesar de tudo, eles ainda são mais racionais, e não se esqueceram dos seus precursores que morreram na fogueira – embora estes não fossem tão radicais e tampouco apenas cientistas, muitos eram também religiosos e até mesmo frades, como o dominicano Giordano Bruno.

Ainda assim, a neutralidade da ciência Ocidental é um mito. A começar pelo fato de ser primordialmente a ciência de uma cultura. Não há espaço para trazer muitos detalhes, mas apenas gostaria de lembrar que Alfred Russel Wallace é tão autor da teoria da evolução quanto Darwin, mas a Academia optou por relegá-lo a um rodapé da história, pois que era um espiritualista com “ideias heterodoxas”; Também vale a pena citar a acupuntura, parte da ciência Oriental, largamente utilizada na medicina dita complementar e mesmo na veterinária, que é muito pouco estudada pela Academia, apesar de que admitem seus resultados – todos, sem exceção, caindo na conta do “misterioso” efeito placebo...

A Academia parece até abrir um certo precedente para doutrinas como a do catolicismo, onde todos os milagres ocorreram a muito tempo atrás, e os pouquíssimos admitidos pelo Vaticano atualmente servem muito mais para beatificações e santificações do que para qualquer espécie de estudo científico do assunto. Se almas existem, pouco importa cientificamente falando, pois só teremos contato com elas após a morte. A presença de um Espírito Santo imaterial em tudo que há tampouco pode ser detectada. E, se orações funcionam ou não, não parece aborrecer a Academia no sentido em que o Vaticano tampouco conduz experimentos sobre isso.

Porém, quando surge um sujeito sério como Ian Stevenson, pesquisando temas ditos esotéricos e místicos de forma científica e extremamente meticulosa, daí é um grande absurdo! Talvez não décadas atrás, quando ele iniciou os estudos com o patrocínio de Carlson, mas nos dias atuais vemos várias publicações científicas atacando seus métodos. Interessante como justamente Carl Sagan endossou sua seriedade... Ah, quantos céticos de negação a priori não devem se incomodar: “porque diabos o Sagan foi falar disso?”.

Há que se exaltar, finalmente, a coragem de Stevenson. Em nenhum momento ele diz ter certeza da reencarnação, mas a hipótese surge como uma explicação mais plausível e menos absurda para os fenômenos que ocorrem a crianças em todo mundo, embora relativamente raros. Alguns materialistas podem preferir a teoria dos Memes de Dawkins, outros parapsicólogos podem atribuir tudo ao Inconsciente Coletivo de Jung, mas apesar de serem mais bem aceitas pelos asseclas da Academia, tais teorias são consideravelmente mais místicas do que a da reencarnação, pelo menos vista pela visão científica de Stevenson.


Para terminar este estudo, gostaria de comentar sobre alguns dos padrões mais interessantes e relevantes observados no livro:

Da morte traumática
Muitos dos casos estudados relatam lembranças de uma morte traumática na vida anterior. Acidentes, assassinatos, suicídios, brigas, doenças fatais... Nesse sentido, o mecanismo da memória não parece ser muito diferente do que ocorre numa mesma vida. Ora, não é preciso nem se aprofundar muito na neurologia ou na psicologia para sabermos que são as memórias de maior carga emocional as mais duradouras, as que mantemos mais detalhes, muitas vezes as que nos traumatizam e se recusam a ir embora.
Muitas vezes é necessária uma imagem ou situação catalisadora dessas memórias “perdidas”... Uma garotinha da Europa medieval pode ter fugido da invasão de uma tribo de bárbaros a sua vila, apenas para morrer de fome em meio à área selvagem, sendo devorada por urubus ainda agonizante. Se a última imagem da vida anterior foi de um pássaro negro te devorando, não será de surpreender que numa outra vida esta mesma alma desenvolva uma estranha fobia a pássaros, sobretudo pássaros grandes.
Então muitos espiritualistas ficarão buscando um sentido para tais experiências, como se pudessem realmente compreender a consciência alheia, e seus “débitos” em relação ao Cosmos. Não podem: só o ser saberá dizer, quem sabe um dia, o porque de ter passado por tudo o que passou.
Mas fato é que, se a reencarnação existe, todos nós havemos de ter passado por alguma morte traumática, sendo que o importante é compreender que foi algo que já passou. Conforme Parmod ao reencontrar sua esposa da vida anterior – ele não se lamentou nem amaldiçoou a Deus por seu destino, apenas disse: “eu vim”.

Do esquecimento das vidas passadas
Interessante como o estudo de crianças que se lembram de vidas passadas também passe pelo seu esquecimento. É realmente quase que um padrão fixo: mais ou menos entre 1 a 3 anos as memórias se iniciam, mais ou menos entre 4 a 10 anos começam a desaparecer, mais ou menos na idade adulta foram completamente esquecidas, ou assimiladas e compreendidas, corretamente, como uma personalidade que já não está mais aqui.
Pois que drama há nisso tudo? Não é verdade que nenhum de nós sequer faz ideia de como éramos antes dos 3 a 4 anos (exceto alguns autistas, mas isso é uma outra história)? Ora, da mesma forma que as células de nosso corpo morrem e se renovam, de modo que ao morrermos não possuímos mais praticamente nenhuma célula daquelas que nasceram conosco, as memórias são muitas vezes apenas bruma e espuma, sustentáculos de nossas breves personalidades que estão em constante renovação e afloramento.
Você saberia dizer quem era você há 15, 20 anos atrás? E, mesmo que saiba dizer, tem mesmo certeza de que todo o seu relato é fiel a uma realidade que não existe mais? Pois, dessa forma, você já morreu – e continuará morrendo...
Apenas a potencialidade persiste. A capacidade de amar, o dom para as letras ou para a música, a lógica matemática, a intuição do caçador, a divina criatividade do poeta... Se é que existe mesmo uma alma primordial por detrás dessas máscaras de personalidade que usamos e trocamos inúmeras vezes, mesmo que em uma única vida, ela ainda parece estar muito distante de nossa compreensão. Portanto, quem acha que a reencarnação é apenas uma teoria para aplacar a angústia perante a morte, pense novamente – muitas vezes, esquecer é morrer. Mas será que esquecemos para sempre?

Da mudança de sexo
Segundo Stevenson, os relatos de vidas passadas com sexo diverso comportam menos de 10% de todos os casos estudados. Entretanto, essas ocorrências raras (dentro das já raras crianças que podem ser estudadas), apontam para um outro aspecto muito pertinente destes casos: o comportamental.
Ora, se é verdade que muitos casos são investigados do ponto de vista das informações passadas adiante pelas crianças – como nome de familiares, endereços, descrições de eventos, identificação de objetos, etc. –, há ainda muitos outros que caem no campo do comportamento, e que são muitas vezes mais sutis. Por exemplo: se uma criança do gênero masculino tem um comportamento afeminado, isso pode ser fruto de uma vida passada no gênero feminino? Essa seria a resposta mais superficial, mas nos estudos de Stevenson muitas vezes a vida passada era a de uma mulher com comportamento dito masculino. É difícil julgar, pois as almas insistem em serem apenas almas: nem homens, nem mulheres.
Muitas vezes, um modo de caminhar, um modo de dirigir o olhar durante uma conversa, um modo de observar a natureza ao redor, são muito mais pertinentes do que uma mera tendência a este ou aquele gênero sexual. A reencarnação pode nos ensinar que ainda antes de sermos heterossexuais ou homossexuais, somos almas, ou, porque não dizer, apenas seres sexuais.

Do tempo “entre-vidas”
Deste assunto Stevenson praticamente não trata, pois é até curioso de se notar: não há nada mais raro do que uma criança que afirme se lembrar de um tempo entre encarnações. E mesmo dentre as que lembram, os relatos não fazem muito mais sentido do que um sonho. Parece que, particularmente neste caso, o estudo genuinamente científico ainda precisará transpor muitas barreiras técnicas...
Entretanto, vale a pena notar como na maioria dos casos do livro, talvez por se tratarem de casos de mortes por acidente, violência ou doenças, e não por idade avançada, resultem em tempos entre vida bastante curtos – desde reencarnações “automáticas”, quando uma alma reencarna imediatamente após a morte (se quiserem saber mais, comprem o livro, não é minha intenção prejudicar o mercado editorial, e sim auxiliar!), até períodos de não muito mais do que alguns poucos anos.
Nesse aspecto as observações de Stevenson parecem diferir bastante de inúmeros casos relatados na literatura espírita, particularmente em livros como “O Céu e o Inferno” (de Kardec) e “Nosso Lar” (psicografia de Chico Xavier). Há a possibilidade dos relatos espíritas serem feitos por espíritos desencarnados, e não por crianças encarnadas, e, portanto, incluírem a memória do tempo entre-vidas: este tempo pode ser semelhante ao tempo que percebemos nos sonhos, e que muitas vezes é bastante mais longo do que o tempo “normal”. Quantas vezes não acordamos 15 minutos antes do despertador, e ao voltamos a dormir, experienciamos toda uma epopeia narrativa em apenas 15 minutos, até sermos interrompidos pelo despertador?
Enfim, o mundo dos espíritos pode mesmo ainda estar fora do alcance de uma análise objetiva e racional. Mas, o mundo das crianças que afirmam se lembrar de vidas passadas ainda promete nos ensinar muito sobre o mecanismo da existência e, principalmente, sobre os mecanismos de nossa mente.

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Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Ian Stevenson); [ao longo] Tim Pannell/Corbis.

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