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13.10.17

O voo interno de Estas Tonne

Como um trovador dos dias atuais, eu viajo a incontáveis locais e encontro inspiração em diversas culturas sem me identificar especificamente com uma única nação ou país, mas antes com a riqueza cultural de todo o mundo. Minha música é o reflexo de uma estrutura clássica, com técnicas do flamenco, raízes ciganas, e características latinas. Meu nome é Estas Tonne.


Estas Tonne, apesar de nascido na Rússia, é um músico do mundo. Já tem diversos álbuns gravados que são distribuídos gratuitamente na web, mas o que é mais interessante é como eles foram gravados – como afirma o próprio músico: "Cada álbum é um demo gravado ao vivo. O que significa caminhar em um estúdio e tocar o que se sente."

Recentemente ele publicou no YouTube uma espécie de poema seguido de belíssimas imagens e, é claro, do seu violão mágico. Respire fundo, aperte o play, e sinta Internal Flight, the movie (Voo Interno, o filme):

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Crédito da foto: Divulgação/Estas Tonne

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4.12.14

A canção do dragão dourado

Como um trovador dos dias atuais, eu viajo a incontáveis locais e encontro inspiração em diversas culturas sem me identificar especificamente com uma única nação ou país, mas antes com a riqueza cultural de todo o mundo. Minha música é o reflexo de uma estrutura clássica, com técnicas do flamenco, raízes ciganas, e características latinas. Meu nome é Estas Tonne.


Bem, quem frequenta este blog deve saber que eu também me interesso muito pela música. E, em se falando de música, não há nada mais genuíno e intenso do que a chamada world music que, na prática, engloba quase tudo o que não seja a chamada música comercial... Ora, nada contra a música comercial, tem quem goste, mas fico imensamente feliz em ver que com a era da internet e do YouTube, genuínos artistas de rua, músicos de verdade, têm sido descobertos aqui e ali.

Este é um caso especial. Estas Tonne, apesar de nascido na Rússia, é um músico do mundo. Já tem quase 10 álbuns gravados que são distribuídos gratuitamente na web, mas o que é mais interessante é como eles foram gravados – como afirma o próprio músico, "Cada álbum é um demo gravado ao vivo. O que significa caminhar em um estúdio e tocar o que se sente."

Mas ele ficou conhecido mesmo por esta apresentação em plena rua (em Landshut, na Baviera alemã), onde dedilha em seu violão mágico um feitiço chamado The song of the golden dragon ("A canção do dragão dourado"):

O vídeo acima está muito próximo de 10 milhões de visualizações e é de longe a maior audiência do artista no YouTube, mas eu considero este outro ainda mais impactante, Between fire and water ("Entre o fogo e a água", apresentado na mesma cidade alemã):

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Crédito da foto: Divulgação/Estas Tonne

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29.5.13

Inquilinos do mundo

Inquilinos do mundo é o mais novo projeto do grupo musical Mawaca. Ele apresenta melodias e ritmos dos povos nômades, refugiados, exilados e ciganos de todo o mundo. São canções da Macedônia, Bulgária, Romênia, Grécia, Espanha, Índia, México, Haiti que ficaram guardadas na memória como verdadeiros relicários sonoros. Abaixo, uma prévia deste CD e DVD que deve estar sendo lançado em breve. A música Jarnana é uma canção tradicional de amor da Albânia:

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Há mais de uma década tenho a felicidade de conhecer um dos maiores grupos musicais em atividade no mundo; E que é, quem diria, brasileiro...

O Mawaca é um grupo que pesquisa e recria a música das mais diversificadas etnias do globo buscando conexões com a música brasileira. Formado por sete cantoras que interpretam canções em mais de dez línguas (línguas indígenas brasileiras, espanhol, búlgaro, finlandês, japonês, húngaro, swahili, grego, árabe, hebraico, ioruba e português), o Mawaca revela no seu nome a essência do seu trabalho. Segundo a etnia hausa do norte da Nigéria os mawaka (cantores-xamãs) recorrem ao poder mágico da palavra cantada para atrair o poder dos espíritos.

Além das sete cantoras o Mawaca é formado por um grupo instrumental acústico que apresenta uma multiplicidade de timbres; acordeom, violoncello, flauta, violino e sax soprano, baixo, além dos instrumentos de percussão como as tablas indianas, derbak árabe, djembés africanos, berimbau, vibrafone, pandeirões do Maranhão e marimba.

Vejam abaixo mais algumas belíssimas canções retiradas dos últimos trabalhos da banda:

Tango dos Chavicos, uma canção sefardita que está no repertório do DVD "Pra todo canto" e tem arranjo de Magda Pucci e Thomas Howard.

Ciranda Indiana
Este cirandeiro tradicional brasileiro é uma das faixas do DVD "Rupestres Sonoros". Com arranjos de Magda Pucci e base eletrônica de Xuxa Levy, esta música é uma comunhão de coletivos tribais e uma homenagem a cultura indígena.

Cangoma Me Chamou
Este tema dos escravos brasileiros, imortalizada pela cantora Clementina de Jesus, é uma das faixas do DVD "Pra todo Canto".

Soran Bushi
Esta música tradicional dos pescadores de Hokkaido (Japão) faz parte do repertório do DVD "Ikebanas Musicais". Esta faixa tem arranjo musical de Magda Pucci e Cíntia Zanco, e participações especiais de Deborah e Daniella Shimada.

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Crédito da imagem: Divulgação (Mawaca)

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27.8.12

Algo caminha pelo ar

Se o mundo for uma escola, os poetas serão como anjos, a passearem desapercebidos em meio ao recreio, cantando os ecos dos tempos antigos. Dizem que Bituca é quase um setentão, mas como pode haver um setentão com um coração destes, ainda tão aberto, ainda tão estudante? Tancredo fez deste hino da poesia mineira, o hino das Diretas... Mal sabia ele que este algo de que falam, que caminha pelo ar, ainda há de libertar muito mais do que a democracia, há de libertar nossa alma:

Clipe de Coração de Estudante, composição de Wagner Tiso e Milton Nascimento.


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3.5.12

Sara Kali Play

» Parte da série: Play a myth

Se houveram aqueles que souberam falar diretamente ao reino da alma, caminharam no mundo também alguns raros seres que adentraram o reino do mito, e dissolveram seus egos num oceano de bem-aventurança. Embora fossem ainda eles mesmos, eram também um portal vivo para o Infinito, habitados pelos mais belos deuses que a mente humana foi capaz de identificar. Estes são os que falam em nome do amor: os santos...

Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth.

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(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

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» Saiba mais sobre Sara Kali

» Saiba ainda mais sobre Sara Kali (e o culto às virgens negras)

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Crédito da imagem: Rafael Arrais + Muriel Mager

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16.11.11

Gitana

Para lhes trazer um exemplo de como o espírito cigano ainda se faz presente mesmo nos grandes palcos da mídia mundial, achei que seria interessante convidar a bela Shakira em sua exibição no Rock in Rio deste ano (no Rio). Nem tanto pela letra, mas pela melodia, pela dança e, sobretudo, pela sensualidade - tudo isso de maravilhoso que o gênero feminino irradia aos bons observadores...

Então, com vocês, Gypsy (em espanhol, Gitana; e ambas significam, obviamente, "cigana"):

Obs: infelizmente esta versão do vídeo está com falhas de sincronização entre som e imagem a partir de cerca da metade da música. A única versão que havia achado no YouTube sem este problema foi retirada do ar, então sobrou apenas esta mesmo :(


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15.11.11

Dançando com ciganos, parte 3

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

« continuando da parte 2

E a festa continuou... Ao ritmo de músicas latinas, espanholas, ciganas, espíritos dançavam em meio à mata carioca, úmida, a refletir uma lua cheia em céu límpido, estrelado, infinito. Quantos e quantos espíritos já dançaram nesta terceira pedra do sol, quantas e quantas vidas nômades encontraram refúgio em nosso planeta, quantas ainda por chegar...

Quando digo que espíritos dançavam, é por não saber ao certo se eram os médiuns encarnados a dançar, ou espíritos de outrora, ou de agora, daqui ou de algum lugar, pegando emprestado seus corpos para que dançassem como seres humanos uma vez mais. Como disse, segundo meus colegas de faculdade, quase todos estavam emprestando gentilmente seus corpos. Mas eu não – eu não queria, não poderia, perder aquela dança.

Para mim a dança, sobretudo a espiritual, é uma espécie de ritual em movimento. Quando estou nesse estado, de dançarino da vida, alguma coisa em mim, alguma coisa maravilhosa, passa a influenciar meus passos, meus movimentos, meus pensamentos... Para lhes dizer a verdade, minha relação com a dança é tão intensa (apesar de eu ter iniciado somente lá pelos 16 anos, num casamento de minha família), que eu jamais poderia acreditar em um Deus que não soubesse dançar.

No entanto, nunca gostei de decorar passos de dança, assim como nunca gostei de decorar orações. Para mim a maior oração é aquela que se faz no ato de viver no amor, e a maior dança é aquela que reflete o agitar de nossa própria alma, ao vivenciar este amor.

E aquela poesia noturna continuou...

Quando os ciganos dançam
Saias e lenços vermelhos
Bailam pelo ar
Estamos no mesmo passo
No mesmo ritmo
Todos a amar

Sob a proteção de Sara
Dos astros
E do mar
Destinados a felicidade
Banhados pela luz
De um tênue luar [1]


Até que a música cedeu lugar às consultas com os médiuns (incorporados). Foi nesse momento que me aproximei da fila que se formava em torno de Madalena, e enquanto aguardava minha vez, fiquei de olhos e ouvidos bem abertos para tudo o que era perguntado, e respondido...

Uma coisa que constatei na época, e que até hoje me intriga quando visito centros espíritas, espiritualistas, umbandistas, e festas espirituais em geral, é como as pessoas perguntam sobre coisas pequenas, mundanas, praticamente irrelevantes se comparadas com a divina oportunidade de conversarmos por alguns momentos com entidades que parecem habitar o outro lado do véu, nalguma outra dimensão... “Como vai minha situação no trabalho, será que serei demitido este ano?”; “Queria saber se sicrano gosta de mim mesmo, ou seria de fulano?”; “Você acha que esse ano é um bom ano para iniciar meu novo negócio?” – nada disso me parece importante perto de tal fenômeno.

Além disso, muitas vezes (talvez a maioria) um médium não estará realmente incorporando outro espírito, mas o seu próprio, seja alguma parte inconsciente, seja alguma personalidade de outra vida – o que é conhecido usualmente como animismo. Se usamos tal comunicação para perguntar perguntas como estas, melhor seria consultar um psicólogo, um filósofo, talvez um leitor de tarô, e não um ser que veio de outra dimensão da natureza para nos visitar... Apesar de que, muitas vezes, tampouco haverá ser algum ali para nos responder, apenas o animismo do próprio médium.

E como eu não estava ali somente para dançar, mas, sobretudo, para observar e aprender algo de útil, quando veio a minha vez de dialogar com Madalena, lhe trouxe uma pergunta um pouco mais profunda do que as demais:

“O que eu gostaria muito de saber é acerca da natureza do tempo. É verdade que ele é somente uma parte do espaço? E, sendo assim, é verdade que vocês aí de cima conseguem visualizar outras partes do tempo, ou seja, o nosso futuro aqui na Terra?”

O espírito que habitava Madalena me olhou de uma forma doce e respondeu, como se houvesse uma espécie de “tradução simultânea” sendo realizada, enquanto ela buscava as palavras certas para seus pensamentos:

“Jovem, não existe em cima e embaixo, nem o que passou e o que vai passar, existe só amor. Tudo isso aqui, toda essa festa, toda essa música, é só pelo amor que tudo existe...”

Sem refletir muito sobre a resposta dada, prossegui:

“Mas, e como é isso? Porque estamos aqui desse lado, vivendo no tempo? Se já sabem do futuro, tudo já foi escolhido por nós? Somos fantoches?

“Não! Vocês têm isso... Como que chamam aí? Vontade! Vocês têm vontade! Então, vocês é que escolhem, a gente só observa... Mas, sobre o futuro, jovem, é melhor não saber... Ainda não podem saber... Seria muito, muito ruim, que soubessem quando vão morrer... Têm muito medo, vocês daí, de morrer...”

E já estava terminando meu tempo com ela, então parti para a pergunta que jamais poderia ter deixado de fazer:

“Mas, e quem é você? É algum guia de Madalena?”

“Não... Eu sou guia é das águas... Eu cuido de um lago no Japão há muitos, muitos anos atrás... Acho que... Isso, mais de mil anos atrás! Adeus, é hora de retornar.”

E o que posso dizer é que até hoje estou refletindo sobre aquela última resposta de quem quer que seja que pegou Madalena emprestada [2].

***

[1] Trecho de um poema que escrevi na época, Festa cigana.

[2] Sendo que, o máximo a que cheguei em relação ao assunto se encontra relatado em minhas Reflexões sobre o tempo. Já se acharam estranho um espírito da natureza oriental estar freqüentando uma festa cigana, lembro que os ciganos se originaram de migrações da Índia para a Europa há 1.500 anos; E, independente disso, é muito comum que entidades de egrégoras diversas operem certo “turismo espiritual” em egrégoras alheias – ou, em outras palavras, o mundo é um só.

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Crédito da foto: knulp (Torii de Shirahige, Shiga, Japão)

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8.11.11

Dançando com ciganos, parte 2

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

« continuando da parte 1

Outro amigo nosso da faculdade, o Caio, também foi convidado para a tal “festa dos ciganos”. Então viajamos no carro eu, Caio, Amanda e os pais dela, com Jânio no volante. Estranho de se pensar, mas eu hoje mal me lembro desse percurso ou até mesmo para qual região do interior do Rio nos locomovemos (lembro apenas, claro, que não era região de praia) – acho que isso ocorreu porque os registros de minha memória na festa em si foram tão mais interessantes e relevantes, que esses outros detalhes acabaram esquecidos, apesar de eu usualmente me recordar bem de qualquer lugar novo para o qual viajo, principalmente de carro.

Apesar de bastante curiosos acerca dos “assuntos espiritualistas”, meus colegas de faculdade na verdade ainda tinham aquele certo receio, até mesmo natural, do desconhecido... Chegando na chácara, ficou muito claro para quase todos quem eram os médiuns a incorporar, e quem eram apenas os “observadores”, ou seja, gente “normal”. Ficou claro, isto é, para quase todos, mas aparentemente não para mim: somente dias depois que meus colegas me contaram como eu agia tão naturalmente com os médiuns incorporados, e como chegaram até a pensar que eu mesmo poderia estar incorporado também. Será que eles tinham razão?

Um dos eventos que me lembro muito bem desta festa noturna é a da chegada de um sujeito chamado Pablo: chegara sozinho e bastante “desconfiado”, tinha um físico de lutador de artes marciais e aparência típica de playboy da zona sul carioca, com seu semblante carrancudo era a definição mais perfeita de “peixe fora d’água” que se poderia imaginar... Além disso, era o tipo de pessoa com a qual eu raramente me sentiria a vontade para dialogar, pois provavelmente não tínhamos quase nenhum interesse em comum, aquela coisa de “cada um na sua tribo” própria da juventude mesmo...

Mesmo assim, eu fui a primeira pessoa para a qual ele dirigiu a palavra, não faço ideia do por que:

“Você acredita nessas paradas aí?”

“Não sei, estou vindo à primeira vez, estou só observando...”

“Eu também. Não era nem para eu estar aqui... Eu não sei por que eu vim, eu não queria vir... Mas esse pessoal ali, parece que fica me chamando, parecem familiares... Eu não entendo o que acontece comigo...”

A essa altura ele parecia transtornado, como alguém “impelido” a estar em um lugar que jamais gostaria de adentrar, quase como um fugitivo passando ao lado da cadeia... Mesmo assim, Pablo se dirigiu lentamente a uma espécie de “roda de ciganos” numa área mais afastada da festa, bem em meio ao mato mesmo. Na verdade, eram umas 7 ou 8 médiuns (todas mulheres) incorporadas, que ficavam girando lentamente em círculo enquanto conversavam sabe-se lá o que umas com as outras. Eu fiquei observando Pablo se dirigir cada vez mais lentamente até lá, até que cambaleou, ajoelhou e se prostrou com a cabeça no solo... Fiquei preocupado, ele não parecia estar nada bem!

Então, o que ocorreu à seguir faz parte da minha própria experiência religiosa naquele evento singular. Até hoje eu não sei por onde aquela vontade de ajudar tomou conta de mim, mas fato é que eu agi tão naturalmente que naquele momento era como se fosse à única coisa que eu poderia pensar em fazer – me dirigi até o círculo de ciganas e bradei, até mesmo algo irritado, para uma delas:

Vocês não vão ajudá-lo?

“Ele nos deve. Tomou o que era do grupo somente para ele, e até hoje não devolveu... Mas agora é tarde para ele, vai ter de merecer voltar para nós...” [1]

Há essa altura, eu já havia percebido que se tratava de uma questão de vidas passadas, e que, de alguma estranha forma, aquelas almas estavam se reencontrando para resolver antigas pendências, em uma chácara do interior do estado do Rio de Janeiro, muito distante das terras natais dos ciganos na Europa [2]...

“Mas vocês não o querem de volta? Ele não está arrependido? Você não quer ajudá-lo?” – repeti.

“E você acha que eu preciso estar ali do lado dele para poder ajudar?”

Com essa resposta seca e enigmática, acabei me afastando da médium... Por um momento achei que elas estavam ali realmente o auxiliando “a uma certa distância”, mas depois me dei conta que, independente de estarem perto ou longe, não estavam nem aí para o aparente sofrimento de Pablo. E foi então que eu me ajoelhei próximo a ele e dirigi a palma da minha mão direita a sua cabeça – e o mais interessante é que eu não tinha nenhuma ideia consciente do que estava realmente realizando ali.

Mas imaginei, imaginei uma luz peculiar e “poderosa” descendo dos céus e envolvendo Pablo. Em minha mente (pois já estava de olhos fechados), imaginei que eu estava tentando erguê-lo, para que se apresentasse de pé, sem medo, sem vergonhas, diante do seu grupo de antigos amigos (ou nem tão amigos assim)... Essa foi a primeira vez que auxiliei “não fisicamente” um espírito nesta vida; E, por mais estranho que pareça, era um espírito encarnado, e eu o estava auxiliando por pura intuição, realizando automaticamente, e mentalmente, certas coisas, certos rituais, que só iria “aprender” muitos anos depois... Obviamente que as palavras não são suficientes para descrever propriamente o que eu experienciei naquele momento.

Quando voltou a si, Pablo estava um tanto aliviado, mas ainda assim prontamente se levantou e se afastou para bem longe daquela roda de ciganos. Somente no decorrer da festa que pude confirmar que aquilo tudo que imaginei não foi mera fantasia da minha mente, ou pelo menos foi algo que Pablo imaginou junto comigo. Na verdade, ele me pareceu imensamente agradecido, quase como se eu tivesse salvo sua vida – mas talvez ele tenha exagerado um pouco, pois nem mesmo eu sei se fui eu quem o ajudou, ou um outro alguém oculto, através de mim...

Mas o que mais me afetou a memória naquele dia ocorreu assim que Pablo se afastou do círculo. Uma das ciganas, a mesma com a qual havia conversado anteriormente, veio até bem próximo de mim e disse algo como... “Você é cigano? Você vai deixar eu entrar em você também...

Então, de repente, senti uma sensação “intrusiva” no topo da cabeça, quase como se uma imensa garra de águia estivesse prendendo minha cabeça no lugar, e alguma coisa estivesse tentando se apossar de mim... Essa experiência foi tão drástica que até hoje eu tenho imensa dificuldade em incorporar espíritos, mesmo que parcialmente ou de forma plenamente consciente (que, em todo caso, provavelmente será a única forma que eu nalgum dia irei incorporar) – A sensação que eu tinha era a de perda de consciência, e prontamente imaginei uma espécie de “escudo mental” a me proteger, e algo dentro de mim ficou furioso, e expulsou aquela garra de águia para bem longe!

Quando eu abri os olhos, a médium na minha frente estava assustada, e claramente tinha “voltado ao corpo” de forma abrupta, de modo que o espírito que a incorporava (e que talvez tenha tentado “pular para dentro de mim”) tinha sumido de uma hora para a outra. Tudo que pude fazer foi me desculpar:

“Me desculpe, é que não estou acostumado com essas coisas...”

“Está tudo bem, meu filho. Eles só entram onde têm condições de entrar... Acho que aí dentro de você, tão cedo nenhum cigano vai querer entrar...” [3]

» Na continuação, minha consulta atemporal com Madalena.

***

[1] Uma das características mais conhecidas das comunidades ciganas, que mesmo eu sabia ainda naquela época, era a de compartilhar todos os objetos e utensílios, que não eram “pessoais”, mas “de quem está usando”, ou por vezes “de todo o grupo”. Um cigano que se desinteressava pelo uso de algum objeto, automaticamente o “perdia” para quem quer que encontrasse uso para ele.

[2] Em realidade os ciganos se originam de migrações de nômades da Índia entre os séculos IV e IX, mas o que conhecemos hoje como povo cigano se refere principalmente as comunidades que ainda vivem relativamente isoladas na Europa, principalmente na Romênia e na Bulgária, muito embora existam pequenas comunidades genuinamente ciganas em diversos países, incluindo o Brasil. Que eu saiba, de todos os presentes na festa, nenhum era cigano.

[3] Que fique bem claro: não estou sugerindo que ciganos são “espíritos inferiores”, até mesmo porque existem espíritos nas mais variadas gradações morais, nas mais variadas frequências vibratórias, encarnados ou não, em todos os povos e etnias da Terra. Certamente não me deparei com os melhores exemplos de sabedoria cigana naquela roda, mas a festa tampouco havia acabado, e ainda haveria tempo para encontrar seres um tanto mais elevados.

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Crédito da foto: Clã Cigana Zoraya

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