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19.12.18

João de Deus caiu da Torre

Há quase uma década eu analisei as "cirurgias físicas" de João de Deus, porque são de fato extraordinárias (no sentido de não serem totalmente explicadas pela ciência dita oficial), mas sempre as analisei da forma como são, amorais: fenômenos que em si não têm a ver nem com moralidade nem com imoralidade.

João dizia que as "cirurgias" era realizadas somente para "ativar a fé" das pessoas, e que de fato não eram em si necessárias para a cura das enfermidades. Então nesse sentido ele mesmo admitia que elas eram amorais.

Mas utilizá-las como espetáculo, atraindo NetGeo, BBC, Discovery Channel e até a Oprah para uma cidadezinha do interior de Goiás, isso já cai em terreno pantanoso: seria uma forma (moral) de atrair mais gente para um tratamento que prometia cura, ou seria uma forma (imoral) de virar um "médium celebridade" e poder lucrar com isso de alguma forma?

Eu sempre achei que ele se aproximava mais da imoralidade (leve) do que da moralidade, mas não suspeitava que no meio disso pudessem ter tantos casos de assédio e até de estupro, principalmente envolvendo rezas, rituais e supostamente até mesmo a incorporação dos mesmos espíritos que, literalmente horas antes, participavam das chamadas cirurgias espirituais... ou seja, isso afeta fortemente até mesmo a credibilidade desses espíritos.

Mas, acima de tudo, convivendo no meio espírita e espiritualista do país, já cansei de ver médiuns muito mais capacitados para o tratamento espiritual do que João de Deus rodarem o Brasil indo a diversos centros espíritas, pequenos ou grandes, de graça, trabalhar pela cura do próximo... nenhum deles, praticamente, ficou famoso fora do meio espírita. Nenhum deles chegou perto da fama de João de Deus.

E isso já diz muito sobre aonde você deve buscar luz espiritual, seja em qual religião estiver procurando... evite as celebridades deste mundo, busque quem tem importância no outro mundo – quase sempre, serão pessoas diversas.

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Crédito da foto: Google Image Search

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11.9.12

Arquivo Especial: o que a ciência (ainda) não explica

Neste Arquivo Especial falaremos sobre o que a ciência não explica e nem comprova fraude:

Há mais de uma década, cientistas da Universidade de Princeton, nos EUA, capitaneiam um curioso experimento que envolve a análise dos dados de geradores aleatórios de números espalhados por dúzias de locais ao redor do globo. O Projeto Consciência Global basicamente analisa os padrões de máquinas que jogam, virtualmente, milhares de moedas por segundo, e anotam o resultado: “cara” ou “coroa” (em bits, “0” ou “1”).

Os pesquisadores postulam que há uma relação direta entre eventos globais, como a morte da princesa Diana ou o tsunami da Indonésia, e os “desvios de padrão” ocorridos em tais geradores aleatórios. A despeito disto, eles não fazem muita ideia do porque isso parece ocorrer. Na realidade, somente no atentado de 11/9 nos EUA é que obtiveram um resultado “sobrenatural”: um desvio que se estendeu desde horas antes do primeiro avião atingir uma das torres de Nova York a até cerca de 72 horas depois...

Os céticos elogiam a metodologia do experimento, “realmente científico”, mas sentem-se confortáveis quanto aos resultados: há sempre a explicação de que em padrões aleatórios, há uma chance de “coisas assim ocorrerem, mesmo que as chances sejam de um em um milhão”. Mas, ainda que de fato o “grande desvio” de 11/9 se repita próximo de outro acontecimento de grande atenção da mídia global, há sempre a questão: “e daí, e o que isso prova?”. Este tipo de experimento agrada a Academia, pois não envolve diretamente explicações espiritualistas, e mesmo as explicações paranormais são tão vagas, que não despertam grandes preocupações nos céticos com certo asco do espiritualismo.

Há muitos céticos que negam uma hipótese espiritualista a priori. Eles afirmam (com razão) que afirmações extraordinárias, como a existência de espíritos, requerem comprovações extraordinárias, provas cabais, em laboratório, certificadas pelo “papado acadêmico”. Mas isso, como bem sabem os espiritualistas que ouviram Kardec, pode demorar a ocorrer – afinal não se experimenta com espíritos como se experimenta com pilhas voltaicas.

De fato, talvez nunca ocorra, talvez espíritos não existam afinal... No entanto, engana-se o cético que crê que a Academia têm comprovado que todas as alegações espiritualistas são fraudes ou devaneios. Não estou falando da prova de que espíritos não existem, pois isto é basicamente impossível: provar que algo não existe. Mas falo, isso sim, de diversos fenômenos paranormais relacionados à espiritualidade que não foram comprovados como fraude, e tampouco explicados pela ciência. Bem vindos ao reino da dúvida, só que agora, a dúvida de verdade:

Artigos:

Caso Parmod 05.04.11
Nesta série de artigos falamos sobre as pesquisas de uma vida inteira do parapsicólogo Ian Stevensson, que graças à herança deixada pelo fundador da Xerox, pôde rodar o mundo estudando os casos de crianças que lembram vidas passadas. Sua metodologia é tão meticulosa que até mesmo Carl Sagan citou seu trabalho em O mundo assombrado pelos demônios – embora Sagan acreditasse que devesse haver “outro tipo de explicação para os fenômenos”. O que você diria de crianças que lembram do endereço e de detalhes familiares íntimos de parentes de supostas vidas passadas? Qual seria a explicação? Fraude? Erro de metodologia de pesquisa? Memes? Inconsciente coletivo? Reencarnação? Todas estas hipóteses continuam muito válidas até hoje, e há inúmeros parapsicólogos seguindo com a pesquisa de Stevensson.

Reflexões sobre a consciência 16.04.09
Os dualistas acreditam na separação mente-corpo como duas entidades separadas. Na realidade essa separação, com o avanço da neurologia, hoje é compreendida como mente (ou consciência) e cérebro. Apesar da ciência ter conquistado avanços no estudo da mente humana, ao ponto de conseguir decodificar sinais motores e fazer macacos "pilotarem" membros robóticos a meio mundo de distância, ainda não se sabe onde está a "usina cerebral", o que exatamente ativa as correntes elétricas em questões mais complexas como decisões morais ou emoções como o amor. Este é o famoso problema difícil da consciência, mas engana-se quem pensa que todos os neurologistas sejam contrários a noção do dualismo. Nesta série de artigos falamos mais sobre este tema.

Quase morte 03.08.10
Mais uma série de artigos, desta vez focada nas experiências de morte, ou de quase morte. Tanto crianças como idosos, tanto ateus quanto crentes, têm relatado experiências muito parecidas que supostamente ocorreram enquanto seus cérebros estavam em “atividade zero”, normalmente enquanto estavam passando por cirurgias complexas em hospitais, quando “morreram, e depois retornaram”. O Dr. Sam Parnia é um neurologista que tem dedicado a vida ao estudo genuinamente científico desse tipo de fenômeno, tão conhecido de qualquer cirurgião geral (que “oficialmente” muito pouco falam sobre o assunto).

Um médium notável 09.04.10
Existam ou não espíritos, a ciência parece um tanto distante de chegar a uma explicação plausível para a fenomenal produção literária do maior médium brasileiro, que psicografou sobre assuntos tão diversos quanto a história da época de Cristo e a física moderna, em estilos literários e poéticos tão variados que um dia Monteiro Lobato declarou: “Se Chico Xavier produziu tudo aquilo por conta própria, merece quantas cadeiras quiser na Academia Brasileira de Letras”. Como explicar? Criptomnésia (esquecer-se de algo que já sabia, e escrever como se fosse vindo de um espírito)? Mas como ele teria psicografado livros junto com Waldo Vieira, numa parceria em que um “trazia” os capítulos pares, enquanto outro “trazia” os ímpares, separados por cidades de distância? Vale a sua dúvida...

João de Deus: charlatão? 19.02.09
Operando à décadas em Abadiânia, valendo-se (literalmente) de uma faca de cozinha não esterilizada, o médium João de Deus tem tratado de pacientes “desenganados” pelos médicos ao redor do globo, sendo hoje famoso no mundo todo. Neste artigo eu comparo a suposta “análise embasada” do desmistificador James Randi (que nunca visitou Abadiânia, e apenas “viu um vídeo” de João operando) com o estudo presencial da Associação Médica Brasileira acerca das cirurgias. E a AMB atesta: elas são reais, embora não esteja comprovada nenhuma relação com a cura dos males em si. O que se passa, afinal, no interior de Goiás?

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Vídeos e documentários:

Alma sobrevivente 17.06.09
Há muitos críticos ocidentais que afiram que os estudos de crianças que lembram vidas passadas se resumem a regiões do globo onde a crença na reencarnação é fortemente arraigada. Isto não é verdade, pois o próprio Ian Stevensson estudou casos na Europa e em muitos outros lugares onde a maioria das pessoas não crê em reencarnação. Em todo caso, parece que o garoto americano, James Leininger, filho de pais que mal tinham ouvido falar no termo “reencarnação”, nos serve como um belo exemplo de caso sugestivo. E ele não se lembrou apenas dos parentes ou dos companheiros que lutaram ao seu lado na Segunda Guerra de uma outra vida, ele foi até o local onde seu avião havia sido abatido, e chorou... Pena que Stevensson já não vivia mais para ver tal cena.

Um caso sugestivo de psicopictografia 20.09.11
Neste trecho do programa da Xuxa, na TV Globo, temos a história de Lívio Barbosa, médium que afirma pintar com o “auxílio” de espíritos. Há demonstrações de pinturas mediúnicas e, no texto do artigo, trazemos o resumo de algumas das possíveis explicações para este tipo de fenômeno: criptomnésia (conforme no caso de Chico), inconsciente coletivo, imatéria (um conceito de Alan Moore) e espiritualismo.

Os mistérios de Abadiânia 19.08.12
João de Deus opera um tratamento que pode resultar em cura? É exatamente esta pergunta que o documentário Cura: Milagres e Mistérios de João de Deus procura responder. Ganhador de 3 prêmios no festival internacional de Mônaco, em 2008, é de longe o documentário mais bem produzido acerca do médium de Abadiânia. Ainda que não creiamos que espíritos estão a operar e curar valendo-se das mãos de João, o documentário é tocante em seu lado humano.

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» Veja também: Espiritualismo: o que a ciência pode estudar

Crédito da imagem: James Sebor (I am we)

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19.8.12

Os mistérios de Abadiânia

Discovery Channel, National Geographic e BBC foram alguns dos canais de TV estrangeiros, bastante conceituados, que já realizaram filmagens e documentários acerca de João de Deus. Apesar de ser relativamente conhecido no próprio país, ao ponto de ter sido chamado para auxiliar no tratamento de câncer do ex-presidente Lula, e também do ator Reynaldo Gianecchini, o médium é muito mais famoso fora do país, tanto que mereceu uma visita exclusiva de Oprah Winfrey, provavelmente a apresentadora de TV mais famosa do mundo.

Filmadas por todos os ângulos, as cirurgias físicas de João de Deus causam um misto de espanto e certa repudia. Certamente não é todo dia que vemos uma pessoa sem qualquer formação médica fazer incisões profundas na pele das pessoas com facas de cozinha, “raspagem” de catarata em olhos abertos (com o mesmo instrumento, tudo filmado), e inserções de tesouras pelo orifício nasal. Em estudo da Associação Médica Brasileira, ficou comprovado que tais cirurgias são reais, e que os tecidos extraídos e “raspados” dos olhos são inteiramente compatíveis com a fisiologia dos pacientes. Mas, a pergunta que fica é: com ou sem cirurgias físicas [1], João de Deus opera um tratamento que pode resultar em cura?

É exatamente esta pergunta que o documentário Cura: Milagres e Mistérios de João de Deus procura responder. Ganhador de 3 prêmios no festival internacional de Mônaco, em 2008, é de longe o documentário mais bem produzido acerca do médium de Abadiânia. Ainda que não creiamos que espíritos estão a operar e curar valendo-se das mãos de João, o documentário é tocante em seu lado humano. Nele, vemos um homem que veio se tratar e até hoje não pode se distanciar algumas centenas de metros da Casa, pois do contrário suas convulsões retornam imediatamente. Vemos uma jovem que veio a Abadiânia por pura curiosidade, e encontrou motivos para lá residir o resto da vida, encerrando uma longa viagem pelo mundo, e iniciando uma nova viagem interior. Vemos um homem que teve de vir dezenas de vezes ao Brasil, e não compreendia porque afinal nunca se livrava de sua doença, até que finalmente conseguiu algo mais importante: tratar e curar a causa, e não o efeito.

E de todos esses, nenhum nasceu no Brasil. Há que se perguntar o que todo esse povo estrangeiro tem a tratar com João de Deus:

Caso o vídeo acima dê algum erro, veja no site do Vimeo. No Firefox as vezes os vídeos do Vimeo não abrem, então será necessário usar outro browser para ver.

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[1] O documentário mostra, em curtos momentos, cenas de cirurgias físicas operadas pelo médium. Sabe-se que tais cirurgias na verdade não participam de cura alguma, o próprio médium conta que servem apenas para "reduzir o ceticismo dos pacientes quanto ao tratamento". Eu não concordo com tais cirurgias, mas em todo caso elas são uma parcela ínfima do total de cirurgias espirituais (sem cortes, etc.) realizadas por João ao longo de décadas. Portanto, não concordo, mas isso por si só não me impede de admirar todo o amor e toda a espiritualidade que existem em Abadiânia.

» Para uma análise cética centrada exclusivamente nas cirurgias físicas mostradas no documentário, ver o artigo João de Deus: charlatão?

Crédito da imagem: Divulgação/Cena do documentário (Healing)

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8.5.09

Reações a João de Deus

Quando soube de João de Deus pela primeira vez confesso que não fiquei muito entusiasmado. Meu interesse não era exatamente nas suas práticas de cirurgias espirituais, mas sim na "fama" que adquiriu fora do país: conheci-o antes através da Discovery Channel do que qualquer veículo nacional de mídia... E não para por aí: BBC, National Geographic, ABC e diversos outros canais estrangeiros já produziram diversas reportagens e documentários sobre ele. Não se trata de um "apelo à multidão", pois certamente não creio que apenas por que centenas de pessoas o visitam todos os dias ele seria um grande médium, ou mesmo que suas cirurgias espirituais realmente favorecessem a cura das enfermidades dos pacientes; Mas me parecia um caso curioso que um médium brasileiro houvesse alcançado certa "fama" antes fora do páis do que dentro, considerando-se que o espiritismo é muito mais difundido aqui do que lá fora. Além disso, obviamente o fato de João de Deus tratar de forma inteiramente gratuita me fez continuar a estuda-lo de forma séria.

Então soube que o médium se considera católico (às vezes, "incorporado" ele se diz espírita, mas na maioria das vezes se diz católico) e que admitia abertamente que as cirurgias físicas, invasivas, não faziam qualquer diferença no tratamento em si, que era totalmente fluido - tratava somente da "matéria espiritual" e não envolvia cortes (apenas em casos de catarata, as "raspagens de olho" fazem parte do tratamento em si, segundo o próprio médium). Ou seja: as cirurguas físicas serviam apenas para "aumentar a fé" dos pacientes, fazendo-os crer que o tratamento espiritual, invisível aos olhos, poderia funcionar (cabe lembrar que segundo o espiritismo cirurgias físicas e "incorporações" totais são amplamente descaconselhadas e não fazem parte dos estudos originais da doutrina, com Kardec).

Ah essa altura eu estava quase convencido que se tratava de charlatanismo: me parecia uma idéia idiota arriscar a saúde das pessoas apenas para que elas "possam ter maior fé no tratamento"... Inclusive considerando que João de Deus nunca cursou medicina, operava com aparelhagem tosca (ex: faca de cozinha), sem assepsia e sem anestesia! No entanto, pesquisando um pouco mais descobri que na verdade apenas uma pequena parte de seus pacientes faziam tais cirurgias, e as faziam porque pediam, não porque o médium recomendava que fizessem. Ou seja: os que não "conseguiam crer o suficiente" no tratamento espiritual, pediam por uma espécie da "placebo físico" para aumentar sua fé no tratamento. Além disso, em décadas desse tipo de operação, nunca houve caso de infecção ou piora grave de condições de saúde dos pacientes, ainda que isso desafiasse a ciência convencional.

Menos mal, pelo menos aos meus olhos o médium deixou de ser uma espécie de "açougueiro irresponsável" e passou a ser, talvez, um "pequeno charlatão" que visava apenas aumentar a fé das pessoas no tratamento espiritual (independente de ser efeito placebo ou não, fato é que o resultado de um tratamento em que temos fé tem maiores chances de ser positivo)... Mas, novamente, eu ainda não dispunha de informação suficiente - pesquisei sobre evidências das cirurgias físicas serem ou não fraudes. Para mim surpresa, encontrei um estudo da Associação Médica Brasileira atestando que as cirurgias eram reais! Apesar de inteiramente inconclusivo acerca da eficácia do tratamento em si, a AMB provou que as cirurgias não eram fraudes.

À partir da posse dessas informações, e considerando que não nutro pessoalmente nenhuma admiração especial ou repulsa para com João de Deus, me pareceu que utilizar esse estudo da AMB em discussões no orkut seria uma excelente maneira de verificar uma amostragem de moderados, em oposição aos radicais, como céticos que negam qualquer prática espiritualista de antemão, ou evangélicos que as relegam a "obra de Satanás"... O fato do médium se dizer católico era ainda um detalhe relevante para observar a reação dos católicos a tais informações.

Não vou citar nomes porque não vem ao caso (cada pessoa analisada será chamada por uma letra: "A", "B", "C", etc.). Abaixo segue um breve resumo da reação de certas pessoas as práticas de João de Deus e ao estudo da AMB que comprovou que as cirurgias são reais:

A
Caso clássico de cético com repulsa a quelquer prática espiritualista, que considera tudo "repugnante" e "obviamente fraudulento" de antemão. Apesar de ter conhecimentos avançados em ciência e filosofia, portou-se grosseiramente, apelando sempre que possível a ataques pessoais a minha pessoa (lembrando que eu estava apenas passando às informações adiante e deixava claro que não concordava com as cirurgias invasivas). Até o final do debate, sustentou que a pesquisa da AMB era também uma fraude, e que a totalidade dos canais estrangeiros que realizaram documentários sobre João de Deus estavam sendo "subornados" por agências de turismo que planejavam trazer europeus e americanos ao Brasil (mais precisamente a uma remota cidade do interior de Goiás). Mesmo a BBC, notoriamente um canal que prima pela isenção de suas fontes, ficou no mesmo "bolo de suborno".

B
A princípio parecia um cético mais moderado, mas quando "ouviu falar" em espiritismo partiu para o ataque pessoal, me acusando de ser apenas "mais um crente espírita" (além do que disse acima para "A", aqui também deixei claro que não sou espírita, minha religião é meu pensamento). Apesar de eu ter dito inúmeras vezes que não defendia a prática de cirurgia invasiva, até o fim do debate ignorou solenemente essa informação, e parecia convencido que eu era "um ardoroso defensor de João de Deus", e que ele era "meu herói". Pesa a seu favor pelo menos a atitude moderada de reconhecer que o estudo da AMB era válido e que as cirurgias eram de fato reais.

C
Uma reação genuinamente cética: admitiu que o estudo da AMB era válido sem "espernear" nem apelar a qualquer tipo de ataque pessoal. No entanto, fez questão de ressaltar o que a própria AMB diz: que o estudo é inconclusivo acerca da eficácia do tratamento em si. Atribuiu todo tipo de cura por tratamento espiritual ao efeito placebo, porém não soube seguir adiante de forma sólida quando lhe indaguei sobre "o que era exatamente o efeito placebo?". Apesar de obviamente ser desfavorável as práticas do médium, portou-se de forma exemplar dentro de um ceticismo genuíno e responsável.

D
Católico extremamente cético (se é que isso possa fazer sentido a você), a princípio ironizou e fez chacota acerca das informações trazidas, como é de seu costume em relação a qualquer temática espírita... Porém, talvez por ter descoberto que o médium se dizia católico, procurou investigar mais (nessa época não tinha achado ainda o estudo da AMB). Mesmo antes da comprovação da AMB, admitiu que "era um caso misterioso" e que a princípio não se tratava de charlatanismo (inclusive porque o médium não cobra pelo tratamento). Alguns meses depois, após analisar o estudo da AMB, admitiu que as cirurgias são mesmo reais e que "alguma coisa desconhecida da ciência convencional" estava ocorrendo. Não apelou para ataques pessoais, mas deixou como sempre bem claro que "não acredita em espíritos desencarnados".

E
Evangélico "semi-radical", ignorou por completo as informações e videos postados e resumiu o assunto dizendo que "era apenas mais um charlatão espírita"... Interessante que não tenha aproveitado a deixa para atribuir suas práticas a influência de Satanás na Terra.

F
Espírita admirador de João de Deus, que inclusive já foi tratado por ele e costuma postar avisando de eventuais documentários na TV brasileira (como o SBT Repórter), a princípio não gostou do meu post "João de Deus: Charlatão?", afirmando que "estava muito cético" e que "não destacava o aspecto moral e o amor emanado pelo médium e seus seguidores"; Expliquei que se tratava de um post direcionado a todos, espíritas e não-espíritas, céticos e não-céticos, e então ele admitiu "que pode ajudar, mas que duvidava muito que algum cético iria admitir que João de Deus operava milagres"... Na verdade nem mesmo eu afirmo que o médium "opera milagres", o que quer que ocorra em suas operações, deve ter uma explicação física plausível, apenas ainda não compreendida devidademente pela ciência convencional.

G
Livre-pensador e admirador da Logosofia, manteve-se à parte dos debates e apenas me aconselhou a "procurar saber por mim mesmo se as práticas espirituais do médium são reais e consistentes", e não "confiar em documentários e pesquisas apenas, ainda que sejam genuinamente científicas". Trata-se sem dúvida de um conselho válido. Quero aqui deixar claro que nunca visitei João de Deus pessoalmente e que não o defendo nem o repudio, e que porisso mesmo me pareceram honestas e pertinentes as análises acima.

Conclusão
Os médicos que realizaram o estudo pela Associação Médica Brasileira provavelmente não são espíritas, mas somente seu interesse em estudar a chamada medicina alternativa com maior cuidado já aponta uma tendência clara na medicina atual, de se tornar pelo menos um pouco mais receptiva a terapias complementares como acupuntura, homeopatia, "tratamento espiritual", etc.

O fato de terem comprovado que as cirurgias são reais de forma alguma prova como eficaz ou ineficaz o tratamento espiritual oferecido por João de Deus. Porém, pelo fato de ele atender gratuitamente e as pessoas o procurarem por livre e espontânea vontade, devemos evitar ataques sem base a sua idoneidade. Vale destacar novamente o estudo da AMB: "Nem a crença entusiasmada ou a descrença renitente ajudarão os pacientes ou o desenvolvimento da medicina".

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Crédito da foto: Revista Época.

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19.2.09

João de Deus: charlatão?

Este artigo visa analisar o fenômeno das cirurgias físicas efetuadas pelo médium João de Deus, a que muitos céticos encaram como charlatão ou fraude. No entanto, independente de aprovarmos ou não tais cirurgias (ao que tudo indica são os próprios pacientes que pedem por elas), devemos aqui analisa-las somente no contexto do pretenso fenômeno "paranormal" em si, sem que para isso deixemos que noções materialistas influenciem nossa visão. Este artigo pretende analisar esse tipo de fenômeno de forma verdadeiramente cética e imparcial.

Como dito em nosso último artigo sobre ele, João de Deus nasceu em 24 de junho de 1942 em Cachoeira da Fumaça, interior de Goiás. Muito pobre, estudou até o segundo ano primário e em seguida abandonou a escola com o intuito de procurar trabalho e ajudar no sustento dos cinco irmãos. As manifestações mediúnicas começaram quando ainda era menino. Em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, teve início o seu trabalho de cura. Após uma visão embaixo de uma ponte, foi orientado a procurar um centro espírita na cidade. Lá chegando, foi recebido à porta pelo presidente do centro, que disse já estar esperando por ele. João se aproximou e subitamente desmaiou. Ao acordar, ficou sabendo que, incorporado, havia operado e atendido a diversas pessoas. Desde então não parou mais de realizar trabalhos de cura.

Em 2005 o dismistificador James Randi participou de um programa da rede americana ABC que visava analisar o fenômeno das cirurgias físicas de João de Deus. Apesar de apenas ter visto alguns vídeos sobre essas cirurgias (provavelmente imaginando que não era possível ir até lá e filmar do ângulo que quiser), ele logo teceu alguns comentários que tem como objetivo dismistificar o fenômeno apresentado, afirmando se tratar de truques de mágica "até mesmo simplórios".

Logo abaixo, iremos contrapor as suposições de Randi com um estudo médico sobre cirurgia espiritual da Associação Médica Brasileira (inclusive baseado em observações das próprias cirurgias de João de Deus), do qual tiraremos algumas citações quando necessário[1]:

1. Sobre as tesouras enfiadas pelo nariz dos pacientes.
Randi afirma que isso não passa de um truque de circo bastante conhecido. No entanto, se esquece de que para que o truque funcione, o mágico precisa enfiar o objeto (no caso, algum prego longo e não uma tesoura) no próprio nariz. Não se conhece esse tipo de truque efetuado em outras pessoas não preparadas. Para se conceber que João de Deus faça isso como forma de mágica, seria preciso crer que as dezenas de pessoas operadas todos os dias, incluindo os próprios pesquisadores e repórteres de dezenas de emissoras (incluindo Discovery e BBC) foram não apenas subornados para compactuar com o "show" de João, mas da mesma forma treinados na técnica. Como o próprio Randi admite que apenas algumas centenas de pessoas conhecem a técnica ao redor do globo, ele mesmo se contradiz.

2. Sobre os cortes de pele sem sangramento normal.
João de Deus faz incisões na pele de pacientes e estes não sentem dor e quase não sangram, apesar de não estarem anestesiados (quanto ao não-sangramento, nem se conhece alguma substância química que possa causar tal efeito). Resta a Randi apelar para um truque de mágica mais elaborado, que ele mesmo demonstrou algumas vezes em programas de TV. Randi esquece, porém, que para tais truques funcionarem precisamos de: (A) Posição específica da câmera, proibindo certas angulações de filmagem; (B) Compactuação e participação do paciente; e (C) Espelhos, pele falsa e outros elementos de tecnologia específica da mágica. Ou seja, (A) é refutado pois podemos filmar as cirurgias por qualquer ângulo, inclusive circundando o médium e o paciente; (B) é refutada pelo mesmo motivo da citação #1 acima; e (C) é refutada pois até hoje não se encontrou nada parecido no "santuário" do médium.
Também vale citar a pesquisa da AMB: "As cirurgias são reais[2], mas, apesar de não ter sido possível avaliar a eficácia do procedimento, aparentemente não teriam efeito específico na cura dos pacientes."

3. Sobre as "raspagens de olho".
João de Deus efetua "raspagens" de um dos olhos dos pacientes utilizando nada mais que a própria mão e uma faca de cozinha não esterilizada. Randi, não tendo muito a acrescentar ao assunto, admite que "seria impossível tocar a córnea do paciente sem uma reação adversa imediata (como piscar ou se afastar) do mesmo, exceto por meio de uma anestesia local aplicada sem que o paciente saiba". Bem, como não está provado que exista qualquer tipo de anestesia aplicada, e João opera dessa forma a décadas, fica difícil imaginar que se trata de fraude.
Voltando a citar a pesquisa da AMB: "As cirurgias e raspados são reais e os materiais extraídos são compatíveis com o local de origem."

4. Sobre a ausência de dor nos procedimentos citados em #1 a #3.
Randi afirma que as "vítimas" podem estar em um "estado de choque" refrente ao trauma, e que porisso não sentem dor no momento, mas podem vir a sentir alguns minutos depois. Ele afirma que a "câmera não continuou filmando o paciente, então não podemos saber" - Aqui se torna evidente que Randi se expõe ao ridículo por fazer tantas suposições sobre um fenômeno que mal conhecia. É muito simples encontrar no YouTube diversos vídeos dessas cirurgias onde fica atestado que os pacientes não sentem nenhuma dor, mesmo horas depois. O mesmo vale para diversos documentários, como os da Discovery e BBC.
Na pesquisa da AMB, dos 10 casos estudados, apenas uma paciente sentiu dor em uma incisão mamária com retirada de fragmento (pretensamente um nódulo benigno), mas não uma dor forte como seria de se esperar normalmente.

5. Sobre a ausência de infecção (hospitalar).
Em décadas de cirurgias físicas sem a instrumentação, anestesia e assepcia adequados, nunca foi constatado um caso sequer de infecção hospitalar nos pacientes de João de Deus, inedependente de ter havido cura ou não no tratamento espiritual. Randi aqui apela para a explicação "de que nem todos os procedimento invasivos realmente cortam completamente o tecido da pele (como um ferimento exposto), e isso poderia explicar a ausência de infecções". Randi mal sabia que João também faz cirurgias extremamente invasivas, apenas estas são mais raras.
Em todo caso, a pesquisa da AMB estudou algumas dessas cirurgias invasivas, e mesmo assim confirmou que não houve casos de infecção: "não há utilização de técnica asséptica ou anestésica, mas não foi detectada nenhuma infecção e apenas um paciente referiu dor."

6 e 7. Sobre os "transes" em que o médium "entra em contato com espíritos" e sobre as recuperações e curas reportadas por pacientes.
Não queremos aqui analisar a crença de Randi em si. Obviamente, como cético, ele não pode conceber uma explicação espiritual para esse tipo de fenômeno. Não criticamos aqui o ceticismo de Randi, mas o exaltamos e reafirmamos: cada um deve crer naquilo que quiser. O problema está no julgar sem saber, como ficou claro nesse caso. Julgar fraude de antemão um fenômeno mal estudado, apenas porque vai contra sua crença (ou descrença). Nesse ponto, o ceticismo de Randi é obviamente falho. Não tiramos seu mérito de dismistificar diversos charlatões pelo mundo, mas lamentamos sua falta de critério para com esse caso em específico.
Sobre as curas comentaremos à seguir.

***

Médico não promete cura, promete tratamento
Essa frase, que ouvi do célebre e amoroso médico Patch Adams (que é inclusive ateu), resume muito do que devemos considerar acerca desse tipo de cirurgia ou tratamento. Vale mencionar que "assim como outros cirurgiões espirituais brasileiros, João Teixeira afirma que as cirurgias são completamente dispensáveis, podendo os espíritos atuarem diretamente sobre os pacientes. Mas estes necessitariam ver as curas sendo realizadas no corpo físico para se convencerem da realidade do tratamento" (novamente citando a pesquisa da AMB), ou seja, lembrando Hipócrates, podemos também afirmar que "tuas forças naturais, as que estão dentro de ti, serão as que curarão suas doenças" - ou seja, entenda-se como quiser, que "a fé cura" ou que "o efeito placebo cura", o importante é que alguma espécie de cura (ou melhoria) ocorre para quem se mantém confiante e otimista, e isso é fato mesmo na medicina tradicional.

Falando do ponto de vista espiritualista, me parece óbvio que o ideal seria que João parasse com esse tipo de cirurgia física. É difícil dizer até que ponto elas lhe auxiliam em sua jornada de caridade, e até que ponto apenas lhe trazem uma exposição indesejada na mídia mundial. Decerto, é claro, lhe traz muitos inimigos céticos, que chegam até a classifica-lo como "açougueiro". Obviamente que, num estudo mais detalhado, como o da AMB, percebemos a realidade de suas cirurgias, e o bem (direto ou indireto) que produz em seus pacientes.

Mas o fato é que, mesmo de acordo com o próprio João, as cirurgias físicas são desnecessárias para o tratamento. A matéria espiritual é fluida, e como tal, não se opera por mãos físicas, mas antes pelas mãos sutis do pensamento, ou pelo menos é mais ou menos como os espiritualistas compreendem o fenômeno em si. Nada mais sóbrio do que optar pela eventual redução desse tipo de cirurgia, até que não mais seja realizada, mesmo que as pessoas continuem lhe pedindo para tal.

Também vale lembrar que João opera gratuitamente a décadas, e que por mais que a "venda de remédios naturais a 10 reais" e o turismo da região possa até lhe trazer certa renda, não seria suficiente para garantir o funcionamento de seu "santuário", e toda a caridade que próvem dele (incluindo doação de comida e alojamento aos mais necessitados, etc.). Portanto João, como todos nós, depende da caridade, mas além de depender dela, também a realiza, em abundância. Julguemo-o por sua obra.

Conclusão final da pequisa da AMB (veja a pesquisa aqui)
"Pode-se concluir que as cirurgias estudadas e os materiais extraídos são reais, não há utilização de técnica asséptica ou anestésica, mas não foi detectada nenhuma infecção e apenas um paciente referiu dor. Como não houve identificação de fraudes, o fenômeno necessita de posteriores estudos para a explicação adequada da analgesia, da não-infecção, avaliação da eficácia e por quais mecanismos a suposta cura poderia ocorrer, pois as cirurgias em si aparentemente não conduziriam a esse resultado, já que usualmente não extraem tecidos patológicos.

Como vários autores relatam benefícios com os tratamentos espirituais, é fundamental um melhor conhecimento dos mecanismos e eficácia das curas espirituais. Isso possibilitaria a adaptação das formas úteis como terapias complementares à medicina ocidental, bem como desencorajaria os procedimentos danosos ou inúteis. A discussão séria de um tema não requer que compartilhemos as crenças envolvidas, mas que tomemos suas implicações seriamente e não subestimemos as razões pelas quais tantas pessoas se envolvem. Nem a crença entusiasmada ou a descrença renitente ajudarão os pacientes ou o desenvolvimento da medicina".

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Notas:

[1] Este estudo foi realizado por pesquisadores e médicos filiados a Associação Médica Brasileira, e é somente nesse sentido que me refiro a pesquisa como "uma pesquisa da AMB". Não quer dizer que a AMB seja espiritualista, ou materialista, nem que os médicos que conduziram a pesquisa sejam uma ou outra coisa - até mesmo porque a ciência não é, em si, nem uma coisa nem outra.

[2] As cirurgias são reais no contexto de negarem a insinuação de James Randi de que seriam "truques de mágica". Não quer dizer que tenham resultado em cura. Aliás, se lerem a pesquisa completa da AMB verão que a efetividade do tratamento espiritual não é confirmada, embora nenhuma fraude tenha sido verificada nas cirurgias em si.

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Este artigo também pode ser visualizado pelo endereço http://tinyurl.com/joaodedeus

Crédito da foto: Sakanta Running Wolf

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