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30.8.17

Lançamento: O Livro da Reflexão, vol.3: As lições da ciência

As Edições Textos para Reflexão trazem mais um presente a todos os fiéis leitores deste blog, assim como a todos que um dia também virão refletir conosco. Afinal, a luz foi criada para ser refletida!

"Textos para Reflexão é um blog que fala sobre filosofia, ciência e espiritualidade. Este é o terceiro volume da série O Livro da Reflexão, que pretende ser uma coletânea dos melhores textos do blog. Nesta edição pretendo abordar a ciência, o ceticismo, a consciência e a evolução das espécies, todos temas recorrentes em minhas reflexões."

Um livro digital disponível para download gratuito em diversos formatos (exceto na Amazon, onde custa o valor mínimo permitido pela loja):

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8.10.15

A ciência e os seus dogmas

Trechos de Ciência sem Dogmas, de Rupert Sheldrake (editora Cultrix). Tradução de Mirtes Pinheiro. Os comentários ao final são meus.


Há mais de duzentos anos, os materialistas prometeram que a ciência explicaria tudo sob a ótica da física e da química. A ciência provaria que os organismos vivos são máquinas complexas, que a mente nada mais é do que atividade cerebral e que a natureza é desprovida de propósito. As pessoas apoiam-se na fé de que as descobertas científicas justificarão suas crenças.

Karl Popper, filósofo da ciência, chamava essa postura de “materialismo promissório”, pois depende de notas promissórias por descobertas que ainda não foram feitas. Apesar de todas as conquistas da ciência e da tecnologia, atualmente o materialismo está enfrentando uma crise de credibilidade que seria inimaginável no século XX.

[...] A preposição fundamental do materialismo é de que a matéria é a única realidade. Portanto, a consciência nada mais é do que atividade cerebral. É como uma sombra, um “epifenômeno”, que não faz nada, ou apenas outra maneira de falar sobre atividade cerebral. No entanto, os pesquisadores de neurociência e estudos da consciência não chegaram a um consenso sobre a natureza da mente.

Revistas respeitadas como Behavioural and Brain Science e Journal of Counsciousness Studies publicam muitos artigos que revelam problemas profundos na doutrina materialista. O filósofo David Chalmers chamou a própria existência da experiência subjetiva de “problema difícil [da consciência]”. Difícil porque desafia uma explicação em termos de mecanismos. Mesmo que compreendamos como os olhos e o cérebro reagem ao farol vermelho, a experiência de [interpretar o] vermelho não é levada em consideração.

Na biologia e na psicologia, o grau de credibilidade do materialismo está em queda. Será que a física pode vir em seu socorro? Alguns materialistas preferem denominar-se fisicalistas, para enfatizar que suas esperanças dependem da física moderna, e não de teorias sobre a matéria do século XIX. Mas o grau de credibilidade do fisicalismo foi reduzido pela própria física, por quatro razões.

Em primeiro lugar, alguns físicos insistem em afirmar que a mecânica quântica não pode ser formulada sem levar em consideração a mente dos observadores. Eles alegam que a mente não pode ser reduzida à física, porque [a] física [também] pressupõe a mente dos físicos.

Em segundo lugar, as mais ambiciosas teorias unificadas da realidade física, a teoria das cordas e a teoria M, com dez e onze dimensões, respectivamente, levam a ciência para um território totalmente novo.

[...] Em terceiro lugar, desde o início do século XXI, ficou claro que os tipos conhecidos de matéria e energia representam apenas cerca de 4% do universo. O restante consiste em “matéria escura” e “energia escura”. A natureza de 96% da realidade física é literalmente obscura.

Em quarto lugar, o Princípio Antrópico Cosmológico afirma que, se as leis e constantes da natureza tivessem sido ligeiramente diferentes no momento do Big Bang, jamais poderia ter surgido vida biológica e, portanto, não estaríamos aqui para pensar sobre isso. Então, será que uma mente divina ajustou as leis e as constantes no início?

Para evitar que um Deus criador surgisse numa nova forma, quase todos os principais cosmólogos  preferem acreditar que o nosso universo é apenas um entre um vasto, talvez infinito, número de universos paralelos, todos com diferentes leis e constantes, como também sugere a teoria M. Acontece que simplesmente existimos no universo que tem as condições certas para nós.

A teoria do multiverso é a suprema violação da navalha de Occam, princípio filosófico segundo o qual “as entidades não devem ser multiplicadas além do necessário”, ou, em outras palavras, devemos fazer o menor número possível de pressuposições. Essa teoria também tem a desvantagem de não poder ser testada, tampouco consegue se livrar de Deus. Um Deus infinito poderia ser o Deus de um número infinito de universos.

O materialismo apresentou uma visão de mundo aparentemente simples e direta no final do século XIX, mas que a ciência do século XXI deixou para trás. Suas promessas não foram cumpridas e suas notas promissórias foram desvalorizadas pela hiperinflação.

Estou convencido de que a ciência está sendo restringida por pressuposições que se enrijeceram em dogmas, mantidos por fortes tabus. Essas crenças protegem a cidadela da ciência tradicional, mas age como uma barreira ao pensamento aberto.


Comentários
Quando um cientista “desafia a visão dogmática” da Academia, logo surgem os seus detratores. O que eles costumam afirmar é que “não se trata de um cientista relevante”, ou ainda levantar a questão, “mas qual foi a contribuição dele para a ciência”?

Como se fosse necessário que alguém fizesse uma grande contribuição científica, ou tivesse artigos publicados em revistas de renome, como a Nature, para poder criticar a ortodoxia da Academia...

De qualquer forma, no caso específico deste cientista, ambas as “exigências” acima foram cumpridas. Rupert Sheldrake é um biólogo e bioquímico inglês de renome, que além de ter publicado mais de oitenta artigos científicos e uma dezena livros, já foi o convidado de diversos programas de divulgação científica de grande audiência na TV, como por exemplo o Grandes Mistérios do Universo, apresentado por Morgan Freeman (no Brasil, passa no Discovery Science, na TV a cabo).

Entre as suas importantes contribuições científicas, se destacam a descoberta do mecanismo de transporte da auxina em vegetais, assim como o auxílio no detalhamento da “morte celular programada”, que se tornou um campo de pesquisa vital no estudo de doenças como o câncer e a Aids, bem como da regeneração de tecidos pelas células-tronco. Na Índia, ainda participou no desenvolvimento de técnicas de cultivo em clima semi-árido, hoje amplamente usadas em todo o mundo.

Ou seja, este livro incomoda, pois não se trata do pensamento de um cientista “de pouco renome”. Viva-se com esse barulho.

O objetivo de Sheldrake, no entanto, não é substituir o dogma materialista por algum antigo dogma espiritualista. Ele quer somente romper a represa dogmática que tem restringido enormemente o atual pensamento científico, particularmente dos cientistas que, exatamente por terem obtido relativo sucesso em suas carreiras, ficam cada vez mais preocupados com “o que vão pensar lá na Academia” a toda a vez que falam sobre assuntos científicos heterodoxos.

O biólogo inglês é, sobretudo, um grande crítico da ideia de um “relojoeiro cego”, uma metáfora alçada à fama por Richard Dawkins para explicar como um universo complexo pode ter surgido do “acaso cego”. Ora, o que Sheldrake combate não é propriamente a ideia de “cegueira”, mas o conceito de que o universo é como um “relógio”, ou “alguma espécie de máquina que está lentamente perdendo o vapor”.

Não, segundo ele, o universo se parece muito mais com um organismo vivo, assim como todos os seres vivos dentro dele. Ao longo desse livro extraordinário o que ele tenta nos explicar é que, no final das contas, o materialismo em sua visão mecanicista sequer consegue encontrar as metáforas adequadas para explicar o que quer dizer – em suma, que não somos consciências que interpretam o mundo, mas tão somente máquinas que computam e guardam informações.

Afinal de contas, nenhum gene pode ser realmente “egoísta” nem muito menos “aspirar a imortalidade”, e ainda que o universo inteiro operasse efetivamente como um relógio, tudo o que um relógio pode fazer é apontar para algo muito maior e mais transcendente. O tempo não pode ser reduzido às engrenagens de um relógio, assim como a consciência e a subjetividade ultrapassam em muito a tentativa de explicar o que são utilizando somente 4% do que existe.

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Crédito da imagem: Harfian Herdi

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30.10.13

E não pisquem os olhos!

Dizem que os alquimistas queriam transformar chumbo em ouro. Há um certo mistério nesta transformação: segundo Lavoisier, “na Natureza nada se perde ou se cria, apenas se transforma”; então, poderíamos pensar, como diabos uma substância se torna outra?

Do que, afinal, é feita a Natureza? O que forma a realidade (ou o que conseguimos perceber da realidade)?

Segundo Aristóteles, a realidade nada mais é do que uma relação entre substância e estrutura. Para ele, nada existe que não seja uma combinação entre elas. A substância sem estrutura é o caos (o que, no pensamento grego, equivalia ao “nada” de onde surgiu o mundo); já a estrutura sem substância é mero fantasma do ser... Mas será mesmo?

Normalmente se diz que um espiritualista crê em “espíritos e coisas imateriais”, enquanto que um cientista materialista crê “somente na matéria”. Quando analisamos sob este ponto de vista, fica parecendo que os primeiros creem em coisas etéreas, e que os últimos creem em coisas sólidas. Estranho de se pensar: foi exatamente a ciência moderna que minou completamente toda e qualquer ideia de “solidez da matéria”.

Hoje se sabe que num simples aperto de mão, se alguma parte de nossos átomos realmente se chocasse com os átomos de quem cumprimentamos educadamente, teríamos um drástico incidente nuclear do qual certamente não escaparíamos com vida. No fim das contas, somos formados por pequenos pedaços flutuantes de matéria que em realidade estão simplesmente “flutuando por aí”. A única coisa que os mantém juntos é a estrutura determinada pelas leis naturais... Mas, e quanto a substância?

Em 1844, Michael Faraday, observando que a matéria só podia ser reconhecida pelas forças que atuam sobre ela, indagou-se: “Que razão teríamos para supor que ela realmente existe?” [1]

No início do século XX a física descobriu que os próprios átomos, até então verdadeiros “arautos da solidez intrínseca da realidade”, eram, em essência, espaço vazio. Não muito tempo depois a mecânica quântica revelou ante a cientistas extremamente espantados que os constituintes subatômicos – elétrons, prótons e nêutrons, que formam os átomos – se comportavam mais como aglomerados de propriedades abstratas do que como usualmente são vislumbrados por nós leigos: pequeníssimas bolas de bilhar.

A cada nova casca da realidade desvelada pela ciência ficava mais claro que a cebola cósmica era formada por pura estrutura, enquanto que a substância em si foi se tornando cada vez mais teórica e cada vez menos empírica e observável. Segundo a teoria das cordas, a matéria poderia ser formada praticamente por pura geometria – mas uma “geometria” que tampouco pode ser detectada atualmente.

Em seu nível mais fundamental, a ciência descreve os elementos da realidade de um ponto de vista puramente relacional e estrutural, ignorando, em realidade, se existe ou não uma substância no final das contas. Ela pode nos dizer, por exemplo, que um elétron tem certa massa e certa carga, mas tudo o que isto nos informa é que o elétron tem a propensão de sofrer a ação de outras partículas e forças naturais de determinadas maneiras. Ela pode nos dizer que a massa equivale a energia, mas não nos informa efetivamente o que diabos é a energia senão uma quantidade numérica que, calculada da forma correta, se conserva igual através de todos os processos físicos do universo.

Conforme observou o filósofo Bertrand Russell em Análise da matéria (1927), “as entidades que constituem o mundo físico são como peças num jogo de xadrez: o importante é o papel de cada peça num sistema de regras que determinam como ela pode se mover, e não do que é feita tal peça”.

Talvez tenha sido John Wheeler, um físico americano, quem melhor descreveu a essência da realidade: uma cadeia estrutural de pura informação. Para se explicar melhor, ele cunhou a expressão “o it que vem do bit”. Em suas palavras: “Cada it – cada partícula, cada campo de força e até mesmo o próprio continuum espaço-tempo – deriva inteiramente sua função, seu significado, sua própria existência – mesmo que em alguns contextos indiretamente – de respostas induzidas por equipamento a perguntas sim ou não, escolhas binárias, bits. O it que vem do bit simboliza a ideia de que cada item do mundo físico tem no fundo – bem no fundo, na maioria dos casos – uma fonte e uma explicação imateriais; que aquilo que chamamos de realidade vem em última análise da colocação de perguntas sim-não, e do registro de respostas evocadas por equipamento; em resumo, que todas as coisas físicas são informacional-teóricas na origem.” [2]

Mas se as mentes mais racionais e científicas de nossa história recente nos dizem que em sua essência a realidade não passa de um fluxo de estruturas em constante mutação, sem qualquer substância subjacente, onde exatamente se encontra a antiga solidez do materialismo clássico? Onde existe, afinal, alguma substância?

Ora, a despeito de toda a metafísica presente na física moderna, há ainda uma parte do universo em que a sua explicação para a realidade ainda não penetra inteiramente: algo que se situa, ao menos em teoria, bem entre as nossas orelhas...

Para que a realidade pudesse ser explicada somente em termos de informação, seria necessário que nossa consciência e nossa subjetividade também o fossem. Dizem que os cientistas da computação estão muito próximos de criar simulações computacionais de processos mentais complexos, como “sentir dor com uma martelada no dedão” ou “sentir prazer com a vermelhidão e o perfume de uma rosa”. O filósofo John Searle, entretanto, se pergunta “porque alguém na plena possa de suas faculdades racionais suporia que uma simulação de processos mentais em computador de fato tivesse processos mentais?”.

Esta é uma longa discussão, mas o que sabemos atualmente é que a consciência e a subjetividade humanas permanecem absolutamente misteriosas, além do alcance da linguagem e de uma descrição puramente informacional... A consciência não se limita ao mero processamento de informações, a mera computação. Há algo mais, algo que utilizamos principalmente na leitura de poesia ou na contemplação de grandes peças de teatro, obras de arte, shows musicais ou, simplesmente, na observação de um jardim: a interpretação da Natureza.

Se o mundo não pode ser descrito somente por este ponto de vista absolutamente abstrato e metafísico da ciência moderna, há que se buscar onde há exatamente uma substância “palpável” por detrás de tanta teoria.

Ora, se em toda a vasta quantidade de informação do universo tudo o que se encontrou foi estrutura, é possível que a substância esteja, afinal, na própria mente que observa toda essa imensidão estrutural. Neste caso, é possível que toda a realidade – subjetiva e objetiva – seja constituída da mesma substância básica. Parece uma hipótese simples e atraente, além de maluca... Foi exatamente a esta hipótese que Bertrand Russell chegou em sua Análise da matéria. O mesmo disse Arthur Eddington (outro “Sir”) em The Nature of the Physical World (1928): “a substância do mundo é uma substância mental”.

É precisamente neste ponto que grandes cientistas e filósofos da modernidade se alinham novamente com o misticismo antigo, muito antigo, ainda que muitos sequer se deem conta disso.

Há milhares de anos houve um homem (ou talvez um mito, ou quem sabe um deus, o que neste caso não faz tanta diferença), chamado Hermes Trimegisto, que disse que “o Todo é mental”. Não foi a única coisa que disse que casa perfeitamente com a ciência moderna. Segundo ele, “o que está em cima é como o que está embaixo” – querendo dizer que as leis que regem o que está no alto do céu eram as mesmas que regem o que está aqui no solo onde pisamos; e “tudo vibra, nada está parado” – querendo dizer que, a despeito do que nossos sentidos nos dizem a todo momento, não há um só pedaço do seu corpo que esteja realmente parado no mesmo lugar. Quantos chutes e quantos acertos para Hermes, não?

A lição que parece restar disto tudo é que não importa, no final das contas, se queremos descrever a realidade através da filosofia de Aristóteles, da física de partículas aliada a mecânica quântica, ou do hermetismo antigo. O que importa é que estamos tentando descrever o que temos contemplado, espantados, há muitas e muitas eras. Que existe aí alguma substância, seja onde for, e ela não é o Nada, pois não existe o Nada.

Dizem os teístas que Deus criou o mundo à partir do Nada. Mas isto não é possível, nem mesmo para Deus – no fim, uma substância jamais se tornou outra, e Deus sempre foi o mesmo. Nunca houve a possibilidade da existência do Nada, nunca houve “0”, apenas “1”. Flutuações quânticas no vácuo não são o Nada; o tecido espaço-temporal ou o campo de Higgs não são o Nada; mesmo um espaço perfeitamente vazio, exatamente por estar “vazio” e “poder ser preenchido” não é o Nada. Não importa se ainda tateamos em meio a névoa metafísica de um universo puramente informacional onde catalogamos e computamos estrutura, sem jamais chegar a capturar qualquer substância: o fato é que existe Algo, e não Nada.

Seremos capazes de, algum dia, com toda nossa filosofia, ciência e espiritualidade, completar este tortuoso caminho de religação a esta tal substância? Seremos capazes de algum dia abrir os olhos e ver não os fótons de luz que refletem a estrutura da realidade, mas ver efetivamente a substância que faz com que ela exista?

Seja como for, neste dia, neste momento dourado, estejam atentos e não pisquem os olhos... Contemplem a substância que sempre aí esteve, que sempre existiu, estruturada de maneiras inefáveis e infinitas, dando forma a toda a vastidão informacional do Cosmos através de todo espaço e todo tempo... Contemplem com os olhos da alma, seja ela o que for...

E não pisquem os olhos!

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[1] Esta e outras citações deste artigo foram retiradas de Por que o mundo existe?, de Jim Holt (Ed. Intrínseca).

[2] Citado em O universo inteligente, de James Gardner (Ed. Pensamento). O livro de Wheeler, de onde foi extraída a citação, é intitulado At home in the universe.
Um bit de informação equivale a menor unidade computacional que pode ser medida, ela pode assumir somente dois valores, tais como “0” ou “1”, “verdadeiro” ou “falso”, etc. Não confundir com bytes, que são conjuntos de bits (normalmente, 8 bits).

Crédito da foto: ever-look

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16.5.13

Nunca desliga

Imaginem que Maria estava quase caindo no sono em sua rede a beira do rio, com uma revista no colo. Então de repente uma mosca pousa em seu braço, ela o sacode quase instintivamente, e continua praticamente adormecida. Mas a mosca não se dá por vencida, e fica zunindo em seus ouvidos, como é próprio de todas as moscas que evoluíram para nos atormentar... Maria pega a revista e espanta a mosca, chateada. Quem sabe agora possa voltar a dormir.

O que será que ocorreu em seu cérebro depois que “despertou” com o zunido da mosca? E como estava ele momentos antes, enquanto Maria caia no sono? Por muito tempo, os neurocientistas consideraram a hipótese de que grande parte da atividade cerebral durante o repouso se equiparava a um estado “semi-inativo”, sonolento.

Conforme tal hipótese, a atividade no cérebro em repouso representaria nada mais que um ruído ocasional, semelhante ao padrão de “chuviscos” na tela de TV enquanto o sinal está fora do ar. Então, quando a mosca zuniu e incomodou Maria, seu cérebro “despertou” para se concentrar na tarefa consciente de exterminá-la... Entretanto, estudos recentes com tecnologias de neuroimagem revelaram algo muito diverso, e estranho: mesmo quando estamos em repouso, sem fazer absolutamente nada, o cérebro continua em plena atividade!

Sim, hoje conseguimos observar o interior do cérebro e medir boa parte de sua atividade química e elétrica em tempo real. Tudo começou com o psiquiatra alemão Hans Berger, criador do eletroencefalograma (EEG), que grava a atividade elétrica no cérebro por meio de um conjunto de linhas ondulatórias sobre um gráfico.

Em ensaios seminais sobre suas descobertas com as primeiras pesquisas utilizando o EEG em 1929, Berger deduziu, a partir das incessantes oscilações elétricas detectadas pelo aparelho, que “temos de supor que o sistema nervoso central está sempre – e não somente durante o estado de vigília – num estado de considerável atividade.” Mas suas ideias foram amplamente ignoradas, até tempos recentes, bem recentes... A tecnologia para se examinar o cérebro se aprimorou: em 1970, veio à tomografia por emissão de pósitrons (PET, Positron-Emission-Tomography), que mede o metabolismo da glicose, fluxo sanguíneo e absorção de oxigênio para a extensão da atividade neuronal; já em 1992 veio à captação de imagem por ressonância magnética funcional (fMRI, functional Magnetic Ressonance Imaging), que mede a oxigenação do cérebro com o mesmo propósito.

Essas tecnologias são mais do que capazes de analisar a atividade cerebral, focada ou não, mas a maioria dos estudos iniciais levou a impressão errônea de que, na maior parte, as áreas do cérebro permanecem “tranquilas” até que sejam requisitadas a desempenhar alguma tarefa específica. Ao longo dos anos, no entanto, alguns pesquisadores [1] começaram a estudar a atividade cerebral de colaboradores simplesmente em estado de descanso, deixando a mente livre para divagar. Eles descobriram que a energia gasta pelo cérebro não varia mais do que 5% entre o estado de vigília e/ou atividade consciente e o estado de relaxamento completo, quando supostamente não fazemos absolutamente nada a não ser pensar, divagar...

A conclusão surpreendente a que chegaram é a de que boa parte da atividade geral – de 60% a 80% de toda a energia gasta pelo cérebro – ocorre em circuitos não relacionados a nenhuma evento externo. Com a devida licença dos colegas astrônomos, os pesquisadores deram a essa atividade intrínseca o nome de “energia escura do cérebro” – referência à energia não visível (não interage com fótons), mas que representa a maior parte da massa do universo.

Ficou claro, a partir desse trabalho, que o processo consciente é responsável por apenas uma parte, ainda que crítica, da atividade total de todos os sistemas do cérebro. Como Berger mostrou em primeiro lugar, e muitos outros confirmaram desde então, a sinalização cerebral consiste em um amplo espectro de frequências, que vão dos potenciais corticais lentos (SCPs, Slow Cortical Potentials) de baixa frequência até a atividade acima de 100 ciclos por segundo. Um dos grandes desafios da ciência é entender como os sinais de diferentes frequências interagem.

A orquestra sinfônica proporciona uma metáfora adequada, com sua integrada “tapeçaria” de sons provenientes de múltiplos instrumentos que tocam no mesmo ritmo. Os SCPs equivalem à batuta do regente. Só que, em vez de manter o tempo para um conjunto de instrumentos musicais, esses sinais coordenam o acesso que cada sistema cerebral exige para o vasto depósito de memórias e outras informações necessárias para se sobreviver num mundo complexo e em permanente mudança. Os SCPs garantem que as computações corretas ocorram de maneira coordenada, exatamente no momento adequado.

Mas o cérebro é muito mais complexo que uma orquestra sinfônica. Ele oscila continuamente entre a necessidade de equilibrar respostas planejadas com demandas imediatas. Os grandes expoentes da psicologia, como William James, Sigmund Freud e Carl Jung, sempre compreenderam o enorme e misterioso papel do inconsciente sobre o consciente. Que o cérebro pode até ser uma máquina de envio e reenvio de informações, um computador molecular de vasta complexidade, mas ainda assim há que se pensar no que quer que – esteja onde estiver no cérebro – interpreta as informações recebidas e elabora respostas morais e sentimentais...

Pesquisadores já sabem há algum tempo que do imenso fluxo de informações que trafegam pelo cérebro a todo instante, apenas um mísero “filete” se encaminha para os centros de processamento neurológicos. Embora 6 milhões de bits sejam transmitidos através do nervo ótico, por exemplo, somente 10 mil bits (0,16%) chegam até a área de processamento virtual do cérebro; e, destes, apenas algumas centenas participam da formulação de percepção consciente – o que é escasso demais para que possam gerar, por si mesmos, uma percepção significativa do ambiente a volta.

Tal descoberta sugere que o cérebro provavelmente faz constantes predições sobre o ambiente externo, valendo-se de insignificantes impulsos sensoriais que chegam a ele do mundo exterior. O que isto quer dizer, na prática, é que a maior parte do que vemos do mundo é imaginada e antecipada por padrões cerebrais que independem, na realidade, do que nos chega do exterior.

Ultimamente, neurocientistas tem registrado em estudos que há mesmo certas áreas do cérebro que estão em maior atividade no repouso, e que reduzem sua atividade quando precisamos realizar uma tarefa motora ou intelectual, como afugentar uma mosca ou ler um texto em voz alta. Tais áreas estão envolvidas com a lembrança dos eventos pessoais, com aspectos que tendem a determinar o nosso estado emocional e com a capacidade empática de “imaginarmos o que os outros estão pensando”.

Tudo isso nos sugere que em nosso inconsciente, e talvez em nossa essência mais íntima, somos como uma trupe teatral que escreve os roteiros e reencena para si mesma, constantemente, histórias repletas de significância emocional. A emoção, ao que parece, nunca desliga. E o mundo, o nosso mundo, nada mais é do que a peça que nos dispomos a encenar para nós mesmos. Os filetes de informação que chegam de fora podem mesmo ser quase irrelevantes perto da gigantesca quantidade de informação que moldamos dentro de nós mesmos.

Os sábios antigos, de diversas partes do mundo, pareciam já saber disso. Saber, isto é, que para conhecer o mundo, devemos antes conhecer a nós mesmos. E que, para alcançar o Céu, devemos antes olhar para dentro – se não erguermos nosso próprio Céu dentro de nós mesmos, não o encontraremos em lugar algum...


É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha, sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo – desde a nascença e a consciência –, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui... (Livro do Desassossego - Fernando Pessoa)

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[1] Boa parte das informações científicas deste artigo foram retiradas do artigo “A energia escura do cérebro”, capa da Scientific American de Abril de 2010 (ano 8, #95), escrito por Marcus E. Raichle – professor de radiologia e neurologia –, que é um dos principais pesquisadores no assunto aqui abordado.

Crédito das imagens: [topo] John Warburton-Lee/JAI/Corbis; [ao longo] Michael Pole/Corbis

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18.9.12

Você não é o seu cérebro

Alva Noë é um filósofo da mente que traz uma nova abordagem ao problema difícil da consciência:


De fato, a personalidade e a consciência desta personalidade parecem ter nascido da observação "do outro". O ser cognitivo sabe que outro ser é cognitivo, não porque "pense dentro dele", mas porque "o reflete e elabora dentro de si mesmo". Nesse sentido aquilo que chamamos consciência pode não se limitar somente a "nossa visão", e as informações podem trafegar junto aos pensamentos, e tudo parece cada vez mais conectado na medida em que estamos, cada vez mais, "conscientes do tudo". Então é óbvio que não somos o nosso cérebro, mas somos também parte da Natureza... Ou, conforme era dito antigamente: também somos da raça dos deuses.

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agradecimentos a Igor Teo por ter me encaminhado o vídeo :)

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2.9.12

Monismos e dualismos

Assim como no caso dos teísmos e ateísmos, referentes a crença ou descrença numa divindade, e também ao que compreendemos pelo próprio conceito de “divindade”, há muitas confusões desnecessárias criadas em torno do mal entendimento do que cada um compreende pelo que quer que seja a mente, e da sua relação com o cérebro. Seria a mente gerada pelo cérebro, ou aquela quem tecla as teclas cerebrais, comandando o corpo? O que seria exatamente a subjetividade, algo real, ou uma ilusão persistente?

Tais questões residem no âmago da filosofia da mente e, apesar dos esforços de alguns dos maiores filósofos e cientistas do mundo, continuam sendo profundamente desconcertantes. Em geral os filósofos da mente não buscam fatos cientificamente investigáveis sobre ela [1], mas o que o conceito de mente em si envolve. Seu método inclui a exploração de conexões lógicas e conceituais existentes entre mente, comportamento e nossas várias capacidades mentais.

Para tentar auxiliar em classificar as definições e/ou visões distintas acerca da mente, os monismos, dualismos e suas variações conceituais, elaborei um pequeno glossário de termos abaixo, que é propositadamente curto – e, obviamente, não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas apenas de ajudar a resolver melhor alguns debates:

Monismo
Há várias doutrinas filosóficas que defendem o monismo. Embora elas tenham inúmeras diferenças entre si, o que nos interessa aqui é que todas elas concordam que existe apenas uma única substância responsável tanto pelo corpo quanto pela mente.
Seria muito simples dizer que todo monista crê que a mente e o corpo são inseparáveis, e não podem existir dissociados – no caso, a mente não existiria dissociada de um corpo. Poderíamos complementar a tese afirmando que todos os monistas são materialistas. Mas mesmo tais classificações poderiam ser apressadas...
Por exemplo, embora o grande Benedito Espinosa seja um monista, que crê que todas as substâncias do Cosmos derivam de uma única substância incriada, seu pensamento possuí alguns aspectos do dualismo de propriedade (que veremos abaixo), e pode se enquadrar mais definitivamente naquele caso. Além disso, por incrível que pareça, existe um polêmico cientista chamado Amit Goswami que consegue ser um monista materialista e ao mesmo tempo crer na possibilidade da mente sobreviver mesmo após a morte do corpo.
Para evitar maiores confusões, bastará aqui concluirmos que o monista crê que só existe uma substância no Cosmos, e que tanto a mente quanto o corpo são formados por ela.

Acreditam na existência da mente? Quase sempre sim.
Acreditam que a mente possa existir independente do cérebro? Algumas vezes sim (ver dualismo de propriedade).
Acreditam que a mente possa existir sem um corpo físico? Não, exceto no caso do “monismo quântico”.

“Monismo quântico”
Embora esta definição se refira exclusivamente as teorias do cientista indiano Amit Goswami, devo dizer que certos autores a classificariam dentro do chamado monismo idealista. Eu preferi falar do monismo idealista no dualismo de propriedade (que veremos abaixo), por achar que se enquadraria melhor naquela outra definição mais ampla.
Pois bem, como cientista a materialista, Goswami crê que a mente e o corpo são formados pela mesma substância, com a mesma propriedade material. Para Goswami, no entanto, nossa capacidade consciente de escolha, e a interferência fundamental que a consciência exerce nos processos da mecânica quântica, denotam que é a consciência quem “molda” o cérebro (e não o contrário). Além disso, suas teorias também abarcam a possibilidade da reencarnação e da imortalidade da consciência (alma), ao postularem que após a morte do corpo a consciência não é perdida, mas tampouco “vaga pelo ar”, e sim dá um “salto quântico” pelo espaço-tempo até a próxima possibilidade que seja criada para que uma consciência habite um cérebro – ou seja, a concepção de outro ser humano.
Esta teoria é obviamente muito controversa no meio acadêmico, e nem sequer podemos dizer aqui que o próprio Goswami a compreende inteiramente. Para maiores detalhes, recomendamos a leitura de seu livro A física da alma (publicado no Brasil pela Editora Aleph).

Acreditam na existência da mente? Sim.
Acreditam que a mente possa existir independente do cérebro? Não, porém a consciência molda o cérebro.
Acreditam que a mente possa existir sem um corpo físico? De certa forma sim, embora ela só se “manifeste” a partir do momento que encontra uma nova possibilidade para “habitar um corpo”.

Monismo eliminativo
Um materialista crê que tudo é formado por substância material, muito embora, caso seja bem informado, saberá que atualmente a ciência postula que apenas cerca de 4% da matéria do universo foi detectada, pois interage com a luz – enquanto os outros 96% são Matéria Escura e Energia Escura, e até hoje não foram detectadas em experimentos, nem uma partícula sequer.
Já os materialistas eliminativos, que sempre serão monistas por definição, são um tanto mais radicais que os materialistas: eles negam que sequer exista uma mente! Eles dizem que a mente poderia parecer óbvia para nós, mas, segundo o eliminativista, à medida que a ciência avança, pode-se revelar que mentes “não são mais reais do que seres mitológicos” [2].
Segundo eles, a explicação apropriada para o comportamento humano não envolve nada semelhante a mentes ou ao que supostamente se passa nelas, como pensamentos e sentimentos. A explicação correta de nossas “vontades” envolve apenas referências a eventos naturais, sem nenhuma relação ao que chamamos de mente – que pode ser nada mais do que uma ilusão persistente do cérebro.
Os monistas eliminativistas resolveram o problema difícil da consciência, que envolve a questão da subjetividade e do “eu” (por exemplo, a interpretação subjetiva da “vermelhidão” do vermelho; ou da “profundidade” com a qual um filho ama sua mãe), da forma mais simples e reducionista: negando que exista uma consciência subjetiva... Talvez o maior representante do monismo eliminativo seja o filósofo americano Daniel Dennet.

Acreditam na existência da mente? Não. Ou seja, não existe o que chamamos de subjetividade, e nossas escolhas são eventos naturais, das quais somos em realidade apenas “espectadores”, ou nem isso.
Acreditam que a mente possa existir independente do cérebro? Não.
Acreditam que a mente possa existir sem um corpo físico? Não.

Dualismo (de substância)
O dualismo é uma concepção filosófica ou teológica do mundo baseada na presença de dois princípios ou duas substâncias ou duas realidades opostas e inconciliáveis, irredutíveis entre si e incapazes de uma síntese final ou de recíproca subordinação. É dualista por excelência qualquer explicação metafísica do universo que suponha a existência de dois princípios ou realidades não subordináveis e irredutíveis entre si.
A ideia aparece na filosofia ocidental já nos escritos de Platão e Aristóteles, que afirmam, por diferentes razões, que a inteligência do homem (uma faculdade do espírito ou da alma) não pode ser assimilada ao seu corpo, nem entendida como uma realidade física.
Descartes foi o primeiro a assimilar claramente o espírito (substância imaterial) à consciência e distingui-lo do cérebro, que seria o suporte da inteligência. Chamou a mente de res cogitans ("coisa pensante") e o corpo de res extensa ("coisa extensa", isto é, que ocupa lugar no espaço). A ligação entre a mente e o corpo, segundo ele, seria feita através do tálamo, uma pequenina parte do cérebro [3]. Foi Descartes, portanto, quem primeiro formulou o problema do corpo-espírito do modo como se apresenta modernamente.
A maior parte dos dualistas é dualista de substância, o que se opõe em parte ao dualismo de propriedade, do qual falaremos na sequência.

Acreditam na existência da mente? Sim.
Acreditam que a mente possa existir independente do cérebro? Sim.
Acreditam que a mente possa existir sem um corpo físico? Quase sempre sim, particularmente entre os religiosos.

Dualismo de propriedade
Uma das posições mais sutis sobre a relação entre a mente consciente e o mundo material é o dualismo de propriedade, que também englobaria o chamado monismo idealista. Ele admite que os materialistas estão corretos ao supor que há apenas um tipo de substância – a substância física. Mas, a seu ver, as substâncias materiais podem ter propriedades físicas e mentais. Estas últimas seriam distintas das primeiras e não poderiam ser reduzidas a elas.
Sir John Eccles, neurologista vencedor do prêmio Nobel de medicina de 1963, foi talvez o mais ilustre cientista a argumentar em favor da separação entre a mente, a consciência (no caso, um processo da mente) e o cérebro. Ele dizia: "Nós, como pessoas que experienciam, não aceitamos tudo o que nos é fornecido por nosso instrumento, a máquina neuronal de nosso sistema sensorial e o cérebro, nós selecionamos tudo o que nos é fornecido de acordo com o interesse e a atenção, e modificamos as ações do cérebro, através do 'eu'".
Os dualistas de propriedade crêem que a matéria possa explicar o problema difícil da consciência, porém também acreditam que o mecanismo da subjetividade não possa ser explicado apenas com a matéria detectada no cérebro. Ou seja, na sua opinião, o entendimento atual da neurociência parece ser incapaz de nos descrever como seres que interpretam informações, e não somente como máquinas que se limitam a computar informações – neste sentido, eles se opõe diretamente a explicação do materialismo eliminativo, que basicamente compreende a mente como “a ilusão de uma máquina biológica”.
Até anos atrás poderiam ser chamados de lunáticos pelos acadêmicos, porém desde a descoberta científica de que provavelmente 96% da matéria do universo não foi detectada, pois não interage com a luz, fica um tanto complicado afirmar que “estão delirando”.
Conforme dissemos, mesmo Espinosa e os demais monistas idealistas podem se enquadrar nesta classificação, pois embora acreditem que exista somente uma substância, sua concepção leva a crer que ela tenha ao menos duas propriedades muito distintas – as propriedades físicas, e as mentais.
Note que o dualista de propriedade, embora concorde com o materialista que há apenas um tipo de substância (a material, o que faz dele também um materialista, porém não um materialista eliminativo), concorda com o dualista substancial que os fatos relativos às nossas mentes estão além da compreensão atual que temos dos fatos meramente físicos.

Acreditam na existência da mente? Sim.
Acreditam que a mente possa existir independente do cérebro? Sim.
Acreditam que a mente possa existir sem um corpo físico? Muitas vezes sim, particularmente entre os espiritualistas e ocultistas. Mas Espinosa, por exemplo, não acreditava nisso.

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Bibliografia recomendada
Wikipedia; Guia Zahar de Filosofia (Stephen Law); A física da alma (Amit Goswami); Ética (Espinosa); 25 Grandes Ideias (Robert Matthews – há um capítulo sobre a consciência); O cérebro espiritual (Dr. Mario Beauregard e Denyse O’Leary); O erro de Descartes (Antônio Damásio).

Observação (1): É preciso sempre lembrar que a ciência não é ideologia ou doutrina, não é materialista nem espiritualista, monista ou dualista, teísta ou ateísta. A ciência é tão somente o conhecimento da natureza detectável, e o estudo de seus mecanismos. Há muitos grandes cientistas da história que eram monistas ou dualistas.

Observação (2): Embora nem sempre fique claro em meus textos, como um dualista de propriedade, costumo defender este tipo de visão aqui no blog. Me coloco, portanto, em oposição total ao monismo (ou materialismo) eliminativo, embora isso não signifique que deixe de admirar a paixão com que alguns filósofos defendem tal visão, particularmente Daniel Dennet. Finalmente, embora sempre afirme ser um espiritualista, em realidade também não deixo de ser um materialista – se me entenderam bem até aqui, verão que tais conceitos não necessariamente se opõe entre si.

***

[1] Embora a neurociência esteja avançando a passos largos na compreensão do processo de consciência, ao ponto de já sermos capazes de “decodificar” os comandos motores do cérebro, abrindo a possibilidade para que tetraplégicos voltem a caminhar (comandando exoesqueletos robóticos apenas por ondas celebrais), ainda estamos muito distantes de resolver o chamado problema difícil da consciência, que envolve a questão em torno da própria subjetividade e do “eu”.

[2] Notem que, ainda que seres mitológicos “existam apenas na mente”, isso nada tem a ver com a ideia de que a própria mente seja um mito!

[3] Hoje este conceito foi desacreditado, com os avanços da neurociência. Porém, é possível que o tálamo também seja, na realidade, uma espécie de “sensor” de ondas eletromagnéticas, o que supostamente explicaria a mediunidade.

Crédito da foto: Oliver Killig/dpa/Corbis (My Soul, Escultura de Katharine Dowson)

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10.8.12

Citações (7)

Algumas citações minhas e de outros autores. Elas geralmente já terão aparecido anteriormente na página do Textos para Reflexão no Facebook...


O Bergson diz aqui que "o olho vê somente o que a mente está preparada para compreender"...

É uma frase bastante profunda do Bergson, mas se formos refletir um pouco mais a fundo sobe o assunto, teremos algumas conclusões ainda mais surpreendentes:

-O olho é apenas uma ferramenta de captar fótons (luz); O que vê não é o olho, mas o cérebro. Uma pessoa com os olhos perfeitos, mas sem um cérebro funcional, pode ainda assim não ver nada, ou não distinguir o que vê.

-Mesmo o cérebro levou anos para "aprender a ver". Cegos de nascença, como alguns descritos nos livros do neurologista Oliver Sacks, mesmo após terem recuperado a visão podem levar até 15 anos para "reaprender a enxergar", e alguns deles podem até enlouquecer ou preferir voltarem a ser cegos.

-Se o olho é uma ferramenta que envia informações ao cérebro, mesmo o cérebro age como ferramenta para a mente, ou o que quer que, dentro dele, interprete o que está sendo visto, e possa admirar "o amarelo da pétala do Girassol", ou "a vermelhidão do céu no final da tarde".

-Nos sonhos, quando nunca vemos com os olhos, mas diretamente com a mente, ainda assim podem surgir formas e signos tão "alienígenas" a nossa realidade desperta, que mesmo após acordar não compreendemos o que se passou, ou simplesmente esquecemos...

***

Segundo o filósofo americano John Searle, a consciência poderia ser imaginada como um “quarto chinês”: neste quarto estariam armazenados todos os dicionários e regras de gramática associados ao idioma chinês. Dentro dele haveria um homem capaz de traduzir e responder às questões escritas em chinês manipulando esses recursos, apesar de não saber falar uma única palavra nessa língua. Então, alguém que enviasse a frase “Como está o dia hoje para você?” poderia receber a resposta “Horrível!”, no mesmo idioma. Visto de fora, poderia parecer que o homem no interior “entendeu” a questão, mas Searle argumenta que esse comportamento não é suficiente para a compreensão.

Da mesma forma, um computador nunca poderia ser descrito como “tendo uma mente” ou “compreendendo”. Já o cérebro poderia ser tão somente “um supercomputador pilotado pela mente”.

Outros filósofos argumentam que a compreensão consciente seja tão somente o processo de “se comportar como se entendesse”.

***

Para os Panteístas, como Parmênides, Plotino e Espinosa, Deus e o Universo são a mesma coisa, o Uno. Neste contexto, falar em "causas naturais" e "causas divinas" não faz muita diferença, pois a Natureza também é divina.

Por isso que, para muitos Panteístas, dizer que Deus existe ou não é inútil, ao menos do ponto de vista filosófico. Melhor seria perguntar: "O que é Deus para você?"; ou ainda: "Porque existe algo e não nada?". Estas sim são questões pertinentes, sem respostas fáceis, e que fazem pensadores, e não dogmáticos do "existe" ou do "não existe".

No fundo, Deus é apenas uma palavra. E, ao mesmo tempo, Deus é Tudo.

***

A vida é cheia de muitas coisas. Felizes são aqueles que conseguem se preocupar apenas com aquelas que podem mudar, e não esquecer jamais do perfume dos amantes, e não desviar a atenção do ritmo da melodia da festa - sim, esta mesma, que é celebrada neste momento.

***

É melhor amar e perder, amar e sofrer, do que nunca haver sequer amado, do que nunca haver sequer vivido. O que sobra do amor? Todo o amor, e toda a poesia.

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Seria o Nirvana o último passo da longa caminhada? E depois o que? Ficar eternamente diluído no Grande Oceano? Dar por encerrada a navegação?

Devemos lembrar que o próprio Buda respondeu tais questões, não com palavras, mas com ações: foi somente após ter alcançado o Nirvana que Sidartha passou a percorrer as estradas e os vilarejos do Oriente, refletindo a luz de sua sabedoria adiante... Para o Buda, o Nirvana foi o início, não o fim.

***

O Céu, afinal, não é o lugar onde os anjos estão, nem há nesse momento nenhuma festa acontecendo por lá. Os anjos estão atarefados demais convidando aos que ainda não chegaram para a Grande Festa, quando o Céu estará finalmente cheio - todos nós, de mãos dadas, dançando em torno do Sol.

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Crédito da imagem: Martin Puddy/Corbis

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25.7.12

A consciência animal

Reportagem original da VEJA, por Marco Túlio Pires. Os comentários ao final são meus.


O neurocientista canadense Philip Low ganhou destaque no noticiário científico depois de apresentar um projeto em parceria com o físico Stephen Hawking, de 70 anos. Low quer ajudar Hawking, que está completamente paralisado há 40 anos por causa de uma doença degenerativa, a se comunicar com a mente. Os resultados da pesquisa foram revelados numa conferência em Cambridge (7/7/12). Contudo, o principal objetivo do encontro era outro. Nele, neurocientistas de todo o mundo assinaram um manifesto afirmando que todos os mamíferos, aves e outras criaturas, incluindo polvos, têm consciência. Stephen Hawking estava presente no jantar de assinatura do manifesto como convidado de honra.

Low é pesquisador da Universidade Stanford e do MIT (Massachusetts Institute of Technology), ambos nos Estados Unidos. Ele e mais 25 pesquisadores entendem que as estruturas cerebrais que produzem a consciência em humanos também existem nos animais. "As áreas do cérebro que nos distinguem de outros animais não são as que produzem a consciência", diz Low, que concedeu a seguinte entrevista ao site de VEJA:

Estudos sobre o comportamento animal já afirmam que vários animais possuem certo grau de consciência. O que a neurociência diz a respeito? Descobrimos que as estruturas que nos distinguem de outros animais, como o córtex cerebral, não são responsáveis pela manifestação da consciência. Resumidamente, se o restante do cérebro é responsável pela consciência e essas estruturas são semelhantes entre seres humanos e outros animais, como mamíferos e pássaros, concluímos que esses animais também possuem consciência.

Quais animais têm consciência? Sabemos que todos os mamíferos, todos os pássaros e muitas outras criaturas, como o polvo, possuem as estruturas nervosas que produzem a consciência. Isso quer dizer que esses animais sofrem. É uma verdade inconveniente: sempre foi fácil afirmar que animais não têm consciência. Agora, temos um grupo de neurocientistas respeitados que estudam o fenômeno da consciência, o comportamento dos animais, a rede neural, a anatomia e a genética do cérebro. Não é mais possível dizer que não sabíamos.

É possível medir a similaridade entre a consciência de mamíferos e pássaros e a dos seres humanos? Isso foi deixado em aberto pelo manifesto. Não temos uma métrica, dada a natureza da nossa abordagem. Sabemos que há tipos diferentes de consciência. Podemos dizer, contudo, que a habilidade de sentir dor e prazer em mamíferos e seres humanos é muito semelhante.

Que tipo de comportamento animal dá suporte à ideia de que eles têm consciência? Quando um cachorro está com medo, sentindo dor, ou feliz em ver seu dono, são ativadas em seu cérebro estruturas semelhantes às que são ativadas em humanos quando demonstramos medo, dor e prazer. Um comportamento muito importante é o autorreconhecimento no espelho. Dentre os animais que conseguem fazer isso, além dos seres humanos, estão os golfinhos, chimpanzés, bonobos, cães e uma espécie de pássaro chamada pica-pica.

Quais benefícios poderiam surgir a partir do entendimento da consciência em animais? Há um pouco de ironia nisso. Gastamos muito dinheiro tentando encontrar vida inteligente fora do planeta enquanto estamos cercados de inteligência consciente aqui no planeta. Se considerarmos que um polvo — que tem 500 milhões de neurônios (os humanos tem 100 bilhões) — consegue produzir consciência, estamos muito mais próximos de produzir uma consciência sintética do que pensávamos. É muito mais fácil produzir um modelo com 500 milhões de neurônios do que 100 bilhões. Ou seja, fazer esses modelos sintéticos poderá ser mais fácil agora.

Qual é a ambição do manifesto? Os neurocientistas se tornaram militantes do movimento sobre o direito dos animais? É uma questão delicada. Nosso papel como cientistas não é dizer o que a sociedade deve fazer, mas tornar público o que enxergamos. A sociedade agora terá uma discussão sobre o que está acontecendo e poderá decidir formular novas leis, realizar mais pesquisas para entender a consciência dos animais ou protegê-los de alguma forma. Nosso papel é reportar os dados.

As conclusões do manifesto tiveram algum impacto sobre o seu comportamento? Acho que vou virar vegetariano. É impossível não se sensibilizar com essa nova percepção sobre os animais, em especial sobre sua experiência do sofrimento. Será difícil, adoro queijo.

O que pode mudar com o impacto dessa descoberta? Os dados são perturbadores, mas muito importantes. No longo prazo, penso que a sociedade dependerá menos dos animais. Será melhor para todos. Deixe-me dar um exemplo. O mundo gasta 20 bilhões de dólares por ano matando 100 milhões de vertebrados em pesquisas médicas. A probabilidade de um remédio advindo desses estudos ser testado em humanos (apenas teste, pode ser que nem funcione) é de 6%. É uma péssima contabilidade. Um primeiro passo é desenvolver abordagens não invasivas. Não acho ser necessário tirar vidas para estudar a vida. Penso que precisamos apelar para nossa própria engenhosidade e desenvolver melhores tecnologias para respeitar a vida dos animais. Temos que colocar a tecnologia em uma posição em que ela serve nossos ideais, em vez de competir com eles.

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Comentários
Para qualquer amante dos animais, parece difícil crer que as pessoas realmente acreditavam que eles eram como "coisas", incapazes, na teoria, de sentir dor, amor por seus donos, medo ante ameaças, etc. No entanto, num mundo onde a ciência é o novo "arauto da verdade", após o manifesto do qual Philip Low participou, realmente nenhum governo poderá dizer que não sabia da consciência animal (o máximo que poderá dizer é que "era ignorante"). Antigamente a Igreja dizia que animais não tinham alma, talvez agora eles estejam finalmente sendo elevados a categoria de "seres com alma", algo que sempre foi óbvio a qualquer espiritualista.
É claro que a consciência animal obedece uma "gradação", e que é muito mais evoluída num cão do que num peixe, por exemplo; Mas qualquer animal que possua "algum arremedo de cérebro" deve necessariamente possuir também "algum arremedo de consciência". E agora que sabemos disto ("oficialmente"), teremos responsabilidades ainda maiores, e decisões morais cada vez mais urgentes.


Tempos virão, para a humanidade terrestre, em que o estábulo, como o lar, será também sagrado. (Chico Xavier, Missionários da Luz)

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Crédito da imagem: Stuart Westmorland/Corbis

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20.6.12

O pensamento analógico

Eu (raph), Igor Teo, Peterson Danda, Raphael PH e Jeff Alves, antigos membros do Links Mayhem, estamos participando de um novo projeto: Sobre um tema específico cada um dos participantes irá publicar um texto, em uma ordem estabelecida aleatoriamente, formando uma discussão, um agradável bate papo, onde o leitor será levado a refletir e meditar sobre diversos pontos de vista e abordagens do mesmo tema. Eis então o projeto Entrementes. Boa leitura!

O tema da primeira rodada é “Pensamento”, e já havia se iniciado no blog Artigo19 (Igor). Este é o segundo artigo, pela ordem [1]...


Outro dia estava vendo na TV a cabo um programa sobre novas empresas no ramo da tecnologia e inovação, e conheci a Quirky, que é basicamente uma comunidade online de gente criativa, com ideias para novos produtos. Você envia uma ideia por 10 dólares e, duas vezes por mês, as ideias mais votadas pela comunidade passam a ser desenvolvidas pela Quirky, até que virem produtos reais, físicos, e 30% das vendas vão para o criador.

Mas o que me chamou a atenção foi o depoimento do sujeito que criou o Click and Cook [2]. Há certa altura ele disse mais ou menos assim: “Sim o dinheiro é legal, mas o que mais me emociona é o fato desse produto, que agora está aqui na minha frente, e que posso pegar com a mão, ter saído da minha cabeça”... Nós realmente temos essa estranha dificuldade em notar que tudo o que há por aí, construído pelos homo sapiens – arranha-céus, trens bala, semáforos, espátulas, etc. –, saiu nalgum dia da cabeça de um, ou vários, de nós. Ainda assim, é sempre emocionante ver quando alguém percebe isso: “pensei alguma coisa, e agora é real!” Há que se perguntar: e quando, afinal, um pensamento não foi real?

Por exemplo, na era da informática, muitas e muitas coisas foram criadas, mas não passam de bits trafegando por hard disks. Na verdade, toda a internet é algo que não se pega com a mão: mas existe, e foi criado por nós. Alguns homens criam coisas “físicas”, hardwares; Outros criam coisas “virtuais”, softwares. Um programa de computador, por exemplo, é uma série de comandos e algoritmos que lidam com a interação do usuário para lhe trazer novos comandos e algoritmos de acordo com o que ele deseja: apenas um clique no botão de “buscar” do Google, e quantos e quantos anos de inovação e criatividade não se escondem por detrás do processo que retorna milhões de resultados [3], quantos e quantos pensamentos que saíram nalgum dia da cabeça dos homo sapiens.

Mas qual seria exatamente a natureza do pensamento? Sabemos que o pensamento sem dúvida passa pela mente, independentemente de ter se originado apenas no cérebro, ou de ter vindo de algum outro centro oculto, de alguma usina espiritual. Isto pois, com os eletroencéfalogramas (EEGs) e outras tecnologias de observação objetiva das fagulhas elétricas a navegar pelo espaço neuronal do cérebro, tudo o que vemos é o resultado da vontade de agir, dos comandos cerebrais; Ou pelo menos nada que temos visto na neurociência de ponta indica que tal fagulha se originou apenas no cérebro, e não está somente trafegando por ele, ativando as teclas do piano que controla nosso corpo. Observamos, portanto, luzes a passar por extensos e intrincados postes de luz, que iluminam toda a metrópole cerebral, e fazem a cidade funcionar – porém, jamais encontramos algo no cérebro que possamos indicar, com boa convicção, como sendo a usina elétrica dessas luzes, o centro da vontade.

Portanto, ainda que hoje saibamos que a consciência é um processo que simula e elabora realidades para que nosso eu possa decidir o que fazer a seguir; E ainda que a atividade consciente na verdade seja apenas reflexo de inputs de informação sensorial e decisões muitas vezes inconscientes que ocorreram a até meio segundo atrás, antes de terem sido percebidas conscientemente [4]; Ainda assim, a despeito de todo o ceticismo envolvido com as questões espirituais, podemos dizer pelo menos isto aqui: enquanto vivos, encarnados, todos nós concordamos que somos um ser que tem uma mente e é capaz de elaborar e interagir com pensamentos, ainda que tão somente dentro de nossa própria mente [5].

Podemos, sem dúvida, extrair algumas conclusões da metáfora do cérebro enquanto máquina, lidando com as informações da mente como um computador lida com bits digitais. Ora, uma das definições de informação é exatamente “dar forma a mente”. Mas, se aqui falamos apenas de informações que trafegam pela mente, será que elas também são substâncias reais por si mesmas?

John Wheeler, um físico americano, cunhou a expressão “o it que vem do bit”. Em suas palavras: “Cada it – cada partícula, cada campo de força e até mesmo o próprio continuum espaço-tempo – deriva inteiramente sua função, seu significado, sua própria existência – mesmo que em alguns contextos indiretamente – de respostas induzidas por equipamento a perguntas sim ou não, escolhas binárias, bits. O it que vem do bit simboliza a ideia de que cada item do mundo físico tem no fundo – bem no fundo, na maioria dos casos – uma fonte e uma explicação imateriais; que aquilo que chamamos de realidade vem em última análise da colocação de perguntas sim-não, e do registro de respostas evocadas por equipamento; em resumo, que todas as coisas físicas são informacional-teóricas na origem.” [6]

Bem, foi um físico quem disse... Na verdade, talvez a realidade virtual gerada por computador, ou através do baile neuronal mental, não seja assim tão virtual. É mesmo estranho de se pensar, mas cada pensamento, cada imagem mental, também precisa estar lidando com informações; Ou com bits de informação, se formos manter esta nossa metáfora mecanicista.

Dessa forma, da mesma maneira que as espátulas do Click and Cook surgiram primeiramente na mente de seu criador, para depois serem projetadas nos softwares de renderização de imagens em 3D, para somente então serem produzidas, se tornarem “algo que se pega com a mão”, assim também ocorre com tudo o mais. O computador mais avançado que a humanidade criou é tão ferramenta quanto à primeira roda. Mas, tanto a roda quanto o computador, surgiram antes nalguma mente.

Você pode imaginar uma cadeira de madeira; Se tiver uma em casa, fica ainda mais simples. Porém, ainda mesmo que memorize a forma da cadeira que vê a sua frente, ou que se lembre de uma cadeira que já viu, quando imagina de novo a cadeira, sem usar os olhos, é o seu cérebro que a constrói, que a renderiza tal qual um software 3D. E não apenas isso, se avançar a fundo na imaginação, verá que pode rotacionar a imagem, dar zoom, separar as partes da cadeira e depois juntar de novo e, às vezes quem sabe, até mesmo criar um formato inteiramente novo para a tal cadeira. Sim, tal cadeira não é mais feita de madeira, é feita de informação – não obstante, ela existe, ela precisa ter substância, ainda que seja apenas a substância mental.

Mas é quando percebemos que é a mente quem tecla o computador cerebral, que é o eu quem tem a vontade de imaginar a cadeira, que percebemos que, no fundo, mesmo o cérebro é ferramenta. Se a metáfora mecanicista pode abranger o cérebro, ela é ainda totalmente falha em abranger a vontade, a mente, o eu.

Num sinal digital, como o que você usa para acessar a internet, a informação viaja por "pacotes" de bits binários. O sinal digital é preferível ao analógico, que viaja por ondas eletromagnéticas, e é afetado pela estática, ou seja, os campos elétricos que estão por toda parte, e causam ruído no sinal. No sinal digital, onde a informação que interessa ser transmitida é decodificada em “pacotes”, fica bem mais simples distinguir o ruído do sinal.

O nosso cérebro, no entanto, não é digital, mas analógico. Ele está, há todo momento, recebendo uma quantidade imensa de informações de nossos sentidos, e é somente nossa consciência que nos protege de uma overdose sensorial, ao armar o palco da existência, para que o eu trabalhe apenas com as informações mais relevantes, e possa construir o sentido de sua própria história, elaborando as decisões a seguir. Nada disso parece ter a ver com uma metáfora mecanicista: onde entra o eu, a ideia de ferramenta se esvai.

Nosso pensamento é analógico. Por mais que alguns de nós tentem viver de forma totalmente racional, filtrando o ruído da existência e procurando acessar somente a razão, isoladamente, mais dia menos dia percebemos que não somos máquinas, e não podemos viver separando a existência em “pacotes”. O ruído sempre esteve presente, e sempre estará. Devemos aprender a conviver com ele, ainda que não o compreendamos totalmente, pois o ruído é a maneira da alma nos lembrar: eu estou aqui.


raph

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» Acompanhe os próximos artigos do Projeto Entrementes

[1] Na sequencia, os próximos artigos serão publicados em: blog O Alvorecer (Jeff); blog Diário do Adeptu (PH); encerrando no blog Autoconhecimento e Liberdade (Peterson).

[2] Um engenhoso sistema de espátulas onde você pode trocar de espátula rapidamente, mantendo o mesmo cabo. Bem talvez fique mais simples de entender vendo no site.

[3] A busca por “pensamento”, por exemplo, traz mais de 33 milhões de resultados em menos de meio segundo (na banda larga).

[4] Exceto em ações puramente reflexivas, como proteger os olhos com as mãos de algum objeto arremessado em sua direção, que não passam por esse intervalo de meio segundo, e são efetivamente “automáticas”, ou pelo menos na grande maioria dos casos não teremos escolha entre proteger os olhos ou não: nós os protegeremos.

[5] Bem, os materialistas eliminativos não creem que exista uma mente, pois eles tampouco creem que exista uma subjetividade, ou a liberdade, mesmo uma liberdade parcial e limitada, da vontade. A subjetividade seria uma ilusão persistente do cérebro, e todas as nossas escolhas (veja bem: todas) na verdade se reduziriam ao tilintar neuronal de partículas já descobertas pela ciência (veja bem: apenas 4% da matéria e energia do universo, segundo a teoria da Matéria Escura).

[6] Citado em O universo inteligente, de James Gardner, publicado pela Cultrix/Pensamento. O livro de Wheeler, de onde foi extraída a citação, é intitulado At home in the universe.
Um bit de informação equivale a menor unidade computacional que pode ser medida, ela pode assumir somente dois valores, tais como “0” ou “1”, “verdadeiro” ou “falso”, etc. Não confundir com bytes, que são conjuntos de bits (normalmente, 8 bits).

Crédito das imagens: [topo] Mike Agliolo/Corbis/Rafael Arrais; [ao longo] Sung-Il Kim/Corbis

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29.3.12

Comentário: que é, afinal, a vida?

Comentário das respostas da pergunta “que é, afinal, a vida ?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] O maior evento da história da Terra ocorreu há bilhões de anos: ainda antes que o planeta completasse seu primeiro bilhão de anos, organismos unicelulares surgiram, de alguma forma, da matéria inorgânica, provavelmente em pequenos lagos aquecidos pelo calor do núcleo a vazar pela crosta... Mas, o tipo de matéria que formava esses organismos primordiais não foi forjado na Terra, mas sim no núcleo de estrelas como o nosso Sol. Na verdade, não sabemos nem se tal matéria já se encontrava no planeta desde a origem, ou se chegou até nós, literalmente, na cauda dos cometas.

Segundo a teoria da panspermia, boa parte ou mesmo a totalidade do tipo de matéria que possibilitou o surgimento das primeiras células vivas chegou a nós incrustada em asteroides que se chocaram com a Terra no período de centenas de milhões de anos após sua formação. Nós buscamos pelos alienígenas lá fora, mas de certa forma sempre fomos, nós mesmos, os próprios alienígenas: filhos das estrelas, parte dos elementos pesados que são somente formados, no universo conhecido, nas reações nucleares do núcleo dos sóis.

Chris Impey é um dos primeiros astrobiólogos, cientistas que se especializaram em estudar as possibilidades de vida alienígena que parece extremamente viável de ser encontrada pelo Cosmos afora: organismos simples, talvez mesmo unicelulares, podem realmente ser ubíquos pela imensidão da noite infestada de berçários de vida. Em seu excelente O universo vivo, ele explica [1]:

“A vida hoje não se parece com substâncias químicas flutuando em uma lagoa salgada, ou com moléculas complexas aprisionadas em uma superfície mineral. Todas as formas de vida, da menor bactéria até a sequóia mais imponente, são feitas de células. Depois que uma célula primitiva foi criada, o caminho para o alto ficou claro. Certamente ir de uma bactéria a um chimpanzé é um passo menor do que ir de uma mistura de aminoácidos a uma bactéria. Saber como se formaram às primeiras células é vital para que a ciência compreenda a origem da vida.

Mas essa questão ainda permanece em aberto. Apesar de nos dias atuais a ciência pelo menos fazer uma ideia básica de como o processo provavelmente se conduziu, nunca vimos moléculas se reproduzindo, nunca produzimos uma célula sequer a partir de elementos sem vida.”

Essa questão tem uma história longa e turbulenta, estimulando poetas e céticos, filósofos e mecânicos quânticos, biólogos e místicos, a oferecer uma gama de explicações radicalmente diferentes. “A vida é um fenômeno único e fundamentalmente diferente da não vida”, opinou o filósofo francês Henri Bergson. Bergson teorizou que a vida é irresistivelmente impelida a níveis cada vez mais altos de realização evolutiva por uma misteriosa força vital (élan vital), que é inteiramente ausente na matéria não viva.

Já para o cético Robert Morrison, a palavra vida é apenas uma convenção linguística que empregamos para descrever uma classe especial de objetos materiais: “A vida não é uma coisa ou um fluido mais do que o calor o é. O que observamos são alguns conjuntos incomuns de objetos separados do resto do mundo por certas propriedades peculiares, como crescimento, reprodução e maneiras especiais de lidar com a energia. Esses objetos, escolhemos chamar de coisas vivas.”

A arma secreta da vida, concluiu o pioneiro da física quântica Erwin Schrödinger num livro intitulado What Is Life? [O Que é a Vida?], é sua capacidade única de metabolizar: exportar desordem para o ambiente circundante em forma de calor irradiado e excrementos enquanto importa ordem desse ambiente em forma de alimento e energia. O livro de Schrödinger foi uma inspiração para toda uma geração de cientistas que criaram, basicamente a partir do zero, o enorme empreendimento científico hoje conhecido como biologia molecular.

James Watson, um dos descobridores do DNA, também caminhou nos ombros de um gigante: “Schrödinger argumentou que a vida pode ser pensada em termos de armazenamento e transmissão de informações biológicas. Os cromossomos seriam assim meros portadores de informação.” – Este conceito de pensar a vida como informação biológica teve impacto decisivo nas pesquisas de Watson, e quando este finalmente descobriu o DNA, pensou ter finalmente resolvido um dos grandes mistérios da ciência:

“Nossa descoberta põe fim a um debate tão antigo quanto à espécie humana: Será que a vida tem alguma essência mágica, mística, ou é, como qualquer reação química produzida numa aula de ciências, o produto de processos físicos e químicos normais? Haverá alguma coisa divina numa célula que a traga a vida? A dupla hélice respondeu a essa pergunta com um definitivo Não.”

Ironicamente, seu mentor intelectual (Schrödinger) chegou precisamente à conclusão oposta em What Is Life?, ao observar que a característica que define a vida – sua capacidade para produzir e prolongar a existência de uma ilha de ordem contínua, incessantemente fustigada por um mar de aleatoriedade e de desordem movida a entropia – é uma forte evidência da existência de um “novo tipo de lei física” que governa o comportamento da matéria viva.

Assim como o gelo formado a partir da água dentro de nossa geladeira é uma “ordenação” das moléculas de água ao custo de uma “desordem” ainda maior, causada pelo calor expelido de dentro para fora (pelo menos quando ela esta ligada na tomada), biologicamente a vida não desafia a segunda lei da termodinâmica, que afirma que o universo inteiro caminha sempre para a entropia, ou seja, para “a desordem das informações”. E, de fato, tudo parece ser constituído puramente de informação.

John Wheeler, um físico americano, cunhou a expressão “o it que vem do bit”. Em suas palavras: “Cada it – cada partícula, cada campo de força e até mesmo o próprio continuum espaço-tempo – deriva inteiramente sua função, seu significado, sua própria existência – mesmo que em alguns contextos indiretamente – de respostas induzidas por equipamento a perguntas sim ou não, escolhas binárias, bits. O it que vem do bit simboliza a ideia de que cada item do mundo físico tem no fundo – bem no fundo, na maioria dos casos – uma fonte e uma explicação imateriais; que aquilo que chamamos de realidade vem em última análise da colocação de perguntas sim-não, e do registro de respostas evocadas por equipamento; em resumo, que todas as coisas físicas são informacional-teóricas na origem.”

Esse tipo de consideração metafísica demonstra como alguns físicos modernos não têm um pensamento tão distante de certos filósofos e espiritualistas, embora usem outros termos. Se tudo que há é informação, e se tudo o que essa informação forma é matéria, ainda falta descobrirmos o que diabos são os outros 96% da matéria e energia do universo, que não interagem com a luz (não refletem fótons), segundo a novíssima “teoria quente” da cosmologia: a Matéria Escura. Se, assim como Dawkins teorizou, mesmo os nossos pensamentos seguem a lei da seleção natural, através dos memes (alguns diriam: os genes místicos), e têm nascimento, vida e morte, falta-nos desvendar se a vida é, afinal, apenas algo mais que moléculas de carbono, água e outros elementos em uma configuração fortuita, ou se nossa mente, nossa consciência, nosso élan vital, é formado por algum tipo de matéria ainda totalmente desconhecida, e profundamente invisível (exatamente por não interagir com a luz).

E, se acaso um dia esbarremos numa consciência formada por matéria sutil demais para que nossa tecnologia a houvesse descoberto anteriormente, tal evento, longe de invalidar mais de um século de desenvolvimento da biologia, apenas a elevará a um patamar ainda mais grandioso, ainda mais fantástico, ainda mais complexo... Será que um dia descobriremos, afinal, o que é que interpreta informações em nosso cérebro, o que é que percebe subjetivamente a “vermelhidão do vermelho”, o que é que se maravilha com uma música ou um poema, o que é que olha de volta para a imensidão do Cosmos e se pergunta: “para que, para que, afinal, tudo isso?”. E será que, mesmo isso, será apenas um sim contra um não?

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[1] Todas as citações deste artigo/comentário foram retiradas deste livro de Impey, publicado no Brasil pela Larousse, e também de O universo inteligente, de James Gardner, publicado pela Cultrix/Pensamento. Ambos são recomendados para quem se interessa por um debate genuinamente filosófico e científico sobre o assunto.

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Crédito da imagem: Tom Grill/Corbis

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