Pular para conteúdo
24.7.18

Filosofia: a verdadeira autoajuda (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre como a forma como reagimos as derrotas e infortúnios da vida falará sobre quem somos, e sobre como daremos a volta por cima. Assim, iremos refletir juntos sobre vitórias e derrotas, sobre tempo e dinheiro, sobre o que é ser verdadeiramente rico, e finalmente, sobre como a filosofia pode nos auxiliar no Caminho.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , ,

13.6.18

Minimalismo

Aparências .:.

"O minimalista sempre terá dinheiro sobrando enquanto que o consumista nunca terá o suficiente!

A regra do minimalista é simples: tem dinheiro compra, não tem não compra! Já a do consumista é diferente: não tendo dinheiro compra-se 'fiado', pede-se emprestado ou endivida-se em parcelas, mas compra!

O consumismo sofre duma ansiedade crônica e precisa possuir agora para estar na 'moda', enquanto que o minimalismo é paciente e tem coragem para fazer a própria moda.

Viver o minimalismo não significa andar maltrapilho, não ter quase nada ou abster-se de prazeres na vida, trata-se justamente do oposto: o minimalista, em geral, não terá dívidas desnecessárias, será mais elegante, satisfeito e próspero.

Por experiência noto que o consumista tem um armário lotado mas é sempre assombrado pela sensação de não ter roupa para sair, enquanto que o minimalista sempre acha que tem roupa demais...

O indivíduo comum precisa de muitos cartões para sentir-se integrado ao sistema, importante e possuidor de recursos; o minimalista tem apenas o suficiente, preferencialmente um para manter-se no controle deste poder.

O minimalista, até por ter poucas contas, sempre paga adiantado abençoando o perfeito fluxo em sua vida; já o consumista esta sempre angustiado porque, não importa o quanto ganhe, é sempre engolido pelo dragão do descontrole.

O minimalista faz o que pode, o consumista vai além e, por conta da vaidade, troca os pés pelas mãos e perde-se no caminho.

O consumista está preocupado com a opinião dos outros, tem que aparentar maior felicidade e sucesso; o minimalista olha para dentro, descarta o supérfluo e opta pelo simples.

O consumista parece mais próspero, o minimalista o é de fato!"

Caciano Camilo Compostela, Monge Rosacruz – Contato: facebook.com/ mongerosacruzcacianocompostela

***

Crédito da imagem: NIK

Marcadores: , , , , ,

16.7.17

A demissão

Quando você está há mais de uma década trabalhando na mesma empresa, quando se sente bem nela ao ponto de sequer se preocupar em acompanhar o quanto o seu passe está valendo no mercado, você parece ter uma parte essencial da vida moderna resolvida: a caça. Isto é, uma caça regulamentada, com dias e horários pré-determinados, férias e décimo terceiro. Você se torna uma espécie de caçador pacato, que finge não haver competição, ou a bem da verdade, sequer se lembra dela.

Quando você tem a sorte de poder trabalhar de casa, e ganha algumas horas que gastaria no seu deslocamento diário para fazer basicamente qualquer coisa que quiser, você pode se tornar até mesmo acomodado. A minha acomodação foi criar um blog e desafiar as páginas em branco, ou telas vazias do Word, no lugar de desafiar a hora do rush. Minha vida estava, portanto, indo muito bem. Mas, como sabemos, a existência teima em ser profundamente impermanente. Talvez, por já saber tão bem disso, tenha me resguardado algo absolutamente essencial: saber viver com pouco.

Como disse o sábio Mujica, “nós inventamos uma sociedade de consumo, e como a economia tem de crescer (ou acontece uma tragédia), inventamos uma montanha de consumos supérfluos. Vive se comprando e se descartando, mas o que estamos gastando é tempo de vida. Porque quando eu ou você compramos algo, não compramos com dinheiro, compramos com o tempo de vida que tivemos de gastar para conseguir esse dinheiro. Mas há um detalhe: a única coisa que não se pode comprar é a vida. A vida se gasta. E é miserável gastar a vida para se perder a liberdade.”

Num dia qualquer de trabalho, pouco antes do feriado de Semana Santa, aconteceu à suposta tragédia: meu chefe, e também grande amigo, me ligou e avisou, com certa dificuldade e voz embargada, que a crise estava muito aguda, que nunca tinham visto nada igual, que tentaram segurar o máximo que foi possível, mas que não dava mais, eu estava demitido, sem justa causa. Assim, era evidente que a minha economia iria parar de crescer, mas não era aquilo que me afligia naquele exato momento. A primeira coisa que pensei, para falar a verdade, é que provavelmente nunca mais iria trabalhar com aquela espécie de família da qual participei, com orgulho, por mais de uma década.

Afinal, eu nunca me senti gastando a vida enquanto trabalhei por lá. Lógico que nem sempre fiz tudo o que gostaria de fazer. Numa empresa de tecnologia da informação você pode participar de muitos projetos legais, ter muita liberdade criativa, mas você ainda vai ter de cadastrar aquelas centenas de conteúdos de teste mais dia menos dia, porque não há estagiário que dê conta de tamanha chatice todo o tempo. Mas o mais importante é que numa empresa deste tipo, quiçá o símbolo da nova economia, não há tanta hierarquia, ninguém se achando muito acima ou abaixo de ninguém, e todos podem muito bem pensar que estão numa grande brincadeira entre amigos. Às vezes vimos clientes chatos e desbocados, mas meu cargo era mais técnico do que de gerência ou atendimento, mesmo disso eu estava livre.

Parecia, enfim, que a vida me havia colocado por pouco mais de uma década naquele homeoffice abençoado, onde além de trabalhar com amigos, tinha tempo de escrever um blog e muitas outras coisas, mas que a minha grande sorte tinha acabado... teria de voltar a caça e a coleta, teria, quem sabe, de voltar a gastar um pouco de vida para perder um pouco de liberdade. Bem, isso me valeu algumas noites de insônia, mas nada de muito grave – grave seria, isto sim, se eu precisasse de muito para viver. Fiz os cálculos e, se fosse necessário, poderia tirar o ponto extra da TV a cabo, viajar menos vezes por ano para visitar a família em meu estado natal, comprar mais e-books nas promoções da Amazon, essas coisas...

Passou a Semana Santa e já havia conseguido manter uma consultoria pelos próximos três meses, como freelancer. Ou seja, estava oficialmente de volta a época do emprego temporário, sem tantos direitos além da própria negociação meio boca a boca, meio contratual, havia voltado no tempo junto com o resto do país. Tudo bem, mas o que mais me preocupava era encontrar alguma caçada mais fixa onde pudesse sobrar tempo de tocar o meu blog, ainda que noutro ritmo.

Em meio à crise, morando num estado onde nunca de fato trabalhei, sem muitas possibilidades de recorrer a “quem indica”, passei por algumas entrevistas sem sucesso para a minha área de caça, e logo comecei a imaginar outras possibilidades. Coisa de imaginador mesmo...

Via as atendentes do Café onde vou religiosamente todas as tardes, logo após o almoço, e imaginava se não seria um emprego legal, independente do salário é claro... mas logo me lembrei que eles não contratavam homens para esse tipo de serviço, deve ser alguma norma da empresa: para servir café, somente mulheres por favor.

Depois, rodando pelo shopping, me lembrei da minha loja preferida, que obviamente era uma livraria. Lá havia um vendedor mais velho, que provavelmente já deveria ter se aposentado mas continuava trabalhando, pois estamos no Brasil certo, enfim, me lembro de quando estava dando uma olhada no Zaratustra de Nietzsche, e ele me disse assim: “heh, Deus está morto né?”

Mas ele me disse isso com um tal sorriso no olhar, e no canto da boca, que não parecia ser a exclamação de um ateu, mas justamente a conclusão de alguém que havia lido Nietzsche e o compreendido plenamente: que só pode existir um Deus vivo que saiba dançar, junto conosco! Em todo caso, naquele dia minha resposta foi mais um “pois é”.

Meses ou anos depois, sempre retornando a livraria, pude ver que aquele mesmo vendedor sempre me acompanhava pela loja, curioso, provavelmente, pela variedade de prateleiras que eu visitava, desde poesia e literatura fantástica a filosofia, divulgação científica, e até mesmo aquela estante onde só havia livros da Madras!

Me lembro bem de como noutro dia deste rio da memória, estava ali perto da estante da Madras dando uma boa olhada em 20 Casos Sugestivos de Reencarnação, de Ian Stevenson, e ele se aproximou novamente e soltou no ar: “isso daí é bem impressionante, não acha?”. Desta vez, já quase como um amigo distante, respondi: “De fato, é o que acontece quando um cientista é livre para pesquisar o que bem entender”. Ele sorriu e respondeu, “vai levar?”. “Vou”. “Então deixa eu lhe dar o ticket”. Eu apresentei o ticket, comprei o livro, e saí satisfeito, sabendo que meu quase amigo ficaria com alguma parte da minha compra.

Retornando das águas do rio, imaginei que seria excelente trabalhar indicando livros de filosofia, ou poesia, ou literatura clássica, ou o que for, para as pessoas em geral, e ainda ganhar alguma coisa por cada ticket, além do salário, seja ele qual fosse. Eu pensei comigo: ainda que sobrasse menos tempo para escrever, era bem possível que pudéssemos ficar lendo nas horas vagas... Bem, na verdade não sei se seria, talvez fosse melhor fazer como Pessoa e procurar uma vaga nalguma biblioteca.

E assim, me imaginando nos empregos dos outros, e não me sentindo nem menor nem maior por conta disso, fui reparando a mágoa da demissão. O freelance de três meses foi estendido, em sucessivos contratos de adição, para mais de um ano, e estou até hoje nesta bela caçada alternativa... com ainda mais tempo livre para tocar o blog e nossas traduções e edições de e-books para a Amazon; sem estar no controle de nada, e não precisando estar.

Os estoicos tinham toda razão. Preocupemo-nos com o que podemos mudar. Neste rio da existência, o melhor mesmo é aproveitar a passagem, e gastar a vida mais sendo levado pela correnteza do que tentando remar contra a maré. Mas eu tive sorte, tive oportunidades e as soube aproveitar razoavelmente bem. Infelizmente, não é o que ocorre com a maioria dos brasileiros. Para a maioria, ser demitido ainda é uma situação consideravelmente mais desesperadora do que foi a minha. Se é que vale de algo, dedico este conto a vocês. Força pessoal!


raph’17

***

Crédito da imagem: Google Image Search

Marcadores: , , , , ,

30.1.17

É preciso cair para levantar

O texto abaixo foi retirado de uma das respostas de minha amiga Wanju Duli (Juliana Duarte) dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas do qual também participo. Os comentários ao final são meus.

Podemos falar um pouco sobre o significado de evolução ou progresso espiritual. Acredito que o termo "evolução" ficou muito conectado a Darwin, com um sentido de que se passa de um estágio mais baixo para outro mais alto de forma linear. No entanto, o próprio Darwin considerava o termo "evolução" inadequado. Afinal, segundo ele, cada espécie é bem-sucedida caso se adapte melhor ao ambiente em que vive. Isso não significa que um ser humano é necessariamente mais evoluído que um pássaro ou um tubarão, apesar de possuir razão. Caso a espécie humana fosse extinta, os seres mais bem-sucedidos seriam simplesmente os sobreviventes, do ponto de vista biológico. Através da razão, o homem criou tecnologia para voar ou respirar embaixo d'água, mas não necessariamente para tornar-se um ser moralmente bom, espiritualmente elevado ou feliz.

De acordo com Erasmo em Elogio da Loucura, "O homem não foi feito para ser perfeitamente feliz na terra". O próprio termo "progresso" nos lembra o positivismo, que não por acaso está na bandeira do Brasil. Ou seja, tanto "evolução" quanto "progresso" nos remetem à necessidade de avanços científicos para darmos um passo adiante, mas a experiência nos mostra que em alguns casos avanços da ciência podem até nos ser negativos. Nem preciso citar bombas e outras armas de guerra. Em vez disso, irei citar elementos ainda mais fundamentais. É evidente que descobertas que contribuam para saúde e conforto, e que economizem tempo e dinheiro, são boas, desde que bem utilizadas. Por outro lado, conforto e facilidades demais podem nos deixar mal acostumados e nos fazer perder alegrias simples. Deixar de plantar e cozinhar os próprios alimentos de certa forma nos desconectaram da natureza e nos fizeram esquecer um pouco do sentido natural da existência.

Uma coisa que consumimos muito ultimamente são comidas prontas, em nome do maior conforto e da economia de tempo. No entanto muitas comidas industrializadas são pobres em nutrientes, fazem mal para a saúde e baixam nossa imunidade. Consequentemente nossa saúde mental fica prejudicada pelo reflexo do que comemos.

[...] É óbvio que comer bem não é a receita mágica para a felicidade, mas é um fator importante que muitos livros de espiritualidade podem não levar em consideração. A "falta de tempo" é um dos fatores levantados para que as pessoas cozinhem menos e caminhem menos. Evolutivamente, nosso corpo e mente estão adaptados a funcionar gastando tempo caçando, colhendo e cozinhando. No momento em que deixamos de exercitar o corpo e comemos de forma inadequada, não somente a saúde do corpo é prejudicada, mas também a saúde mental. Isso interfere diretamente em nossa espiritualidade, pois podemos nos sentir deprimidos e sem energia.

Meu primeiro ponto é bem simples: para tratar do tópico "evolução" num sentido mental ou espiritual, devemos levar em consideração que não somos somente mente-alma-espírito, mas também corpo. É o corpo que fica doente, envelhece e morre. Foi por causa dessas condições do corpo que Buda iniciou sua busca espiritual. Um dia todos iremos passar pela morte corporal, e todos conhecemos a doença e a dor corporal. É também em nome delas, e não somente do sofrimento mental, que buscamos respostas na espiritualidade. As nossas perguntas começam na mente, mas também tiveram origem no corpo. As nossas respostas terminam na mente, mas também terminarão no corpo, já que todo bom caminho espiritual também deve gerar modificações físicas em nosso estilo de vida.

E agora vamos ao próximo ponto: "aperfeiçoamento mediante a ação lúcida e continuada da consciência". Anteriormente tratamos da natureza dos pensamentos e agora devemos pensar em que sentido esses pensamentos podem ser trabalhados visando uma evolução moral e espiritual. Para introduzir esse tópico tratarei do conceito de busca do aperfeiçoamento e da verdade citando um livro que admiro: O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse. Nesse livro se trata de um conceito que já existia desde a Grécia Antiga: a ideia de que todas as áreas do conhecimento estão, de alguma forma, conectadas umas com as outras. O cristianismo também adotou esse conceito, baseando-se na ideia de que Deus criou "o melhor dos mundos possíveis", e que tal universo é harmonioso e racional.

Hoje em dia temos dificuldade de entender como as diferentes áreas do conhecimento se conectam, pois somos incentivados a ter um conhecimento mais especialista do que generalista. Perdemos muito a ideia do polímata, homem universal ou renascentista, que sabia transitar em diferentes saberes. Por isso é dito no livro de Hesse que vivemos na "Idade Folhetinesca" e isso fica ainda mais evidente hoje com a internet: o conhecimento está tão fragmentado e reduzido em posts curtos de blogs ou frases de redes sociais para "não perdermos tempo" que ficamos com a impressão que sabemos muito de várias coisas, mas não sabemos conectar ou aprender a fundo nenhum desses saberes. Uma invenção medieval chamada "universidade" tenta resgatar isso, mas como ela não é mais baseada nas Sete Artes Liberais e sim em conhecimentos pragmáticos visando apenas o mercado de trabalho, ainda está longe dessa realização. 

No paradigma secularista e materialista do século XXI, vivemos num universo sem sentido, em que muitos eventos ocorrem de forma aleatória, incluindo nossa própria vida e morte. No meio desse caos, nossa única esperança para esquecer a dor e a morte é ter o máximo de prazer e conforto possível, obtidos principalmente através do dinheiro. Talvez alguns problemas das filosofias espiritualistas do século XX e XXI sejam fruto da tentativa de construir uma solução moral e espiritual dentro desse paradigma. Nele o objetivo máximo é ser feliz através do "prazer" e do "sentir-se bem" seja com êxtase e emoções fortes ou paz.

Para buscarmos uma evolução consciente, seria bom lembrarmos do que nos diziam os gregos e romanos da Antiguidade, a exemplo dos estoicos. Diz Sêneca em Aprendendo a Viver:

Por que olhas para o cofre? A liberdade não pode ser comprada [...] Primeiro, livra-te do medo da morte, pois ela nos impõe o seu jugo, e, depois, deves perder o medo da pobreza.

Nós vivemos numa sociedade em que o maior objetivo da vida é não ser pobre, sendo que Jesus disse que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus. Isso significa que não podemos servir a dois deuses: a Deus e ao Dinheiro. É óbvio que tantas pessoas hoje se sentem depressivas e desconectadas do divino: porque estão adorando ao Deus errado. Eu respeito muitos Deuses de várias culturas e religiões, mas algo me diz que adorar ao Deus Mamon, conforme a história mostra, não tem gerado nem mesmo uma felicidade temporária nesse mundo.

Buda e Jesus nos deram outra resposta: a filosofia do sofrimento. Buda nos diz que a vida é sofrimento e Jesus nos convida a imitá-lo sofrendo com ele e carregando sua Cruz. O sofrimento pode não ser o problema, mas a resposta. Quem sabe o problema da humanidade seja achar que a dor e a morte sejam um erro, fugindo deles desesperadamente e se agarrando num sonho de felicidade. A solução é ver a morte como a chave para a vida, para o renascimento: o mártir que morre para o "eu" e renasce no "outro" e em "Deus" encontra a verdadeira vida. É preciso cair e morrer para levantar e nascer. A vida e o mundo não são erros a serem corrigidos pela ciência.

Comentários
A última vez em que falei da Wanju Duli aqui no blog foi trazendo a melhor resenha que já recebi para um livro, quando ela destrinchou o meu Ad Infinitum. Deveria ter trazido mais coisa dela para cá, visto que se trata de uma das maiores conhecedoras (no sentindo abrangente do termo) de magia e ocultismo da web e do meio literário nacional. Espero ter me redimido com este belo trecho que pesquei de nosso debate sobre espiritualidade em geral (também temos outros participantes, provavelmente esse “debate” ainda renderá um livro no futuro). Você também pode encontrar a Wanju na coluna sobre Magia do Caos do portal Teoria da Conspiração.

***

Crédito da foto: David Uzochukwu

Marcadores: , , , , , , , , , , , ,

22.2.15

É viável tornar o capitalismo sustentável?

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

[Raph] O capitalismo é o sistema econômico com hegemonia mundial. A despeito dos seus defensores e críticos, fato é que ele não irá embora tão cedo. Entretanto, já seria de grande ajuda se as multinacionais seguissem as regulamentações do próprio mercado. O monopólio, por exemplo, deveria ser algo a ser combatido, evitado ao máximo, e nas últimas décadas o que vem ocorrendo é exatamente o oposto: no Brasil, dez grandes companhias (entre elas Unilever, Nestlé e Coca-Cola) abocanham até 70% das compras de uma família nos supermercados, o que sobra é disputado por cerca de 500 empresas menores, regionais. Tal cenário parece ser muito mais benéfico para as multinacionais do que para a população em geral.
O grande mal do capitalismo moderno, no entanto, me parece ser o consumismo desenfreado. Se todos os africanos e indianos tivessem os mesmos padrões de consumo de um cidadão norte-americano, seria necessário mais de um planeta Terra para dar conta dos recursos naturais necessários para a produção de bens. Mesmo a China, teoricamente um sistema comunista, abraçou tal sistema com grande voracidade. Mas já sabemos que a conta não fecha, e a agenda da sustentabilidade se torna cada vez mais urgente. Diante disso, é viável tornar o capitalismo sustentável?

[Carvalho] Os grandes sistemas econômicos não possuem um conjunto exato e monolítico de regras. Semelhantemente ao que ocorre com as espécies biológicas, eles variam no tempo e no espaço, adaptando-se às circunstâncias – e também aos hábitos políticos, econômicos, sociais e culturais de cada época e de cada povo. O feudalismo europeu do século V, por exemplo, era muito diferente daquele que perdurou na Rússia até o século XX. Da mesma forma, o socialismo soviético não era idêntico ao chinês, nem ao cubano, e muito menos ao Venezuelano. E se mesmo tais sistemas, um sustentado por valores fortemente hierarquizantes, como a noção de direito divino dos reis, e o outro pela persistente obsessão de impor a igualdade material a qualquer custo, adaptaram-se às condições circundantes, porque não se adaptaria o capitalismo, fundado em valores que enfatizam a liberdade individual?

Portanto, sim, é possível transformar o capitalismo e torná-lo mais sustentável. Na verdade, se mais nações capitalistas realmente adotassem políticas econômicas liberais – em vez de políticas desenvolvimentistas, keynesianas, etc. – não haveria muito que se falar em tornar o capitalismo sustentável, pois, em tais condições, ele simplesmente tende a tornar-se sustentável, por meio de processos adaptativos mais ou menos espontâneos resultantes, não de intervenções e regulações estatais, mas dos comportamentos dos próprios indivíduos. E não digo isso com base em uma crença quase dogmática nos conceitos abstratos de “livre mercado” ou “mão invisível”, que os liberais e libertários frequentemente são acusados de possuir. Apenas me respaldo em evidências razoavelmente convincentes de que o liberalismo costuma ser mesmo mais eficiente e funcional que outras filosofias políticas quando se trata de questões econômicas, incluindo aí seus aspectos social e ecológico.

Na obra Free Market Environmentalism, por exemplo, os economistas Terry Anderson e Donald Leal apresentam uma série de exemplos em que soluções de mercado foram muito mais eficazes ao lidar com problemas ambientais do que as regulações estatais, e fazem uma brilhante análise das condições institucionais e políticas que permitiram que isso acontecesse. O ponto principal, inspirado em um famoso teorema do economista Ronald Coase, é que quando os direitos de propriedade são claramente definidos, as disputas sobre a justa utilização dos recursos naturais geralmente podem ser resolvidas nos âmbitos locais e de forma cooperativa.

São vários os estudos de caso apresentados no livro, envolvendo temas como: gestão de reservas minerais, parques naturais, mananciais de água e disposição do lixo, dentre outros. E em todos eles a lógica se repetiu: contanto que os direitos de propriedade fossem bem definidos e protegidos, as soluções de preservação ambiental emergiam naturalmente a partir dos conflitos entre os cidadãos. “A primeira premissa do Ambientalismo de Livre Mercado”, disse Terry Anderson em uma entrevista, “é de que ‘quanto maior a riqueza, maior a preservação’, no sentido que os mercados geram a riqueza que nos fornece meios de lidar com os problemas ambientais. Embora muitas pessoas pensem, de forma equivocada, que os mercados só geram consumismo e outras porcarias, são os mercados que produzem riqueza e, desse modo, ajudam o meio ambiente”.

De fato, apesar do ambientalismo anticapitalista dominante tentar sempre passar uma impressão contrária, países que decidem adotar políticas econômicas mais liberais tendem a melhorar seus indicadores ambientais de forma proporcional aos indicadores econômicos e sociais. Uma forma interessante de verificar isso é comparando a colocação dos países nos rankings dos índices de Liberdade Econômica, Performance Ambiental e Desenvolvimento Humano. A correlação entre eles é gritante. Se um país está entre os primeiros em um dos rankings, é muito provável, com raras exceções, que também esteja entre os primeiros nos outros dois, e vice-versa. Mesmo países com histórico de pobreza e dominação colonial – como Singapura, Lituânia, Hong Kong e Ruanda – conseguiram melhorias significativas depois de abraçarem o livre mercado.

Uma breve apreciação dos subcomponentes do índice de liberdade econômica, a propósito, nos permite compreender que em países como Brasil, México e China, com forte presença de multinacionais monopolistas, as instituições que poderiam garantir o verdadeiro livre mercado são muito enfraquecidas, ao passo que países como Noruega e Dinamarca – que fascinam os anticapitalistas de todas as estirpes – devem sua sustentabilidade econômica e ambiental a um capitalismo vigoroso e livre, apesar de seus estados inflados e não por causa deles.

É claro que não podemos tomar índices como referências definitivas do que quer que seja. As composições de todos eles sempre envolverão ao menos algum tipo de deficiência metodológica, assim como quaisquer outras tentativas de traduzir aspectos da realidade em números. Da mesma forma, não podemos crer que o livre mercado seja uma entidade miraculosa, capaz de resolver todos os problemas. O capitalismo possui mesmo contradições internas, de modo que ele tende a corromper a ordem moral e institucional que o gerou e o sustenta. Entretanto, o livre mercado ainda é a nossa melhor opção disponível, capaz de levar prosperidade econômica, social e, sim, ambiental, a um número de pessoas jamais imaginado em outras épocas. Por isso, antes de nos metermos a elogia-lo, criticá-lo, aprimorá-lo ou mesmo tentar substituí-lo, o primeiro passo talvez seja aprendermos a diferenciar bem o que ele realmente é do que ele não é, nem nunca foi.

[Teo] Como demonstrou o economista francês Thomas Piketty na sua obra O Capital no Século XXI, o capital tende a concentrar-se com o passar do tempo, isto é, produzir uma desigualdade cada vez maior em que poucos possuem grande parte da riqueza, enquanto a maior parte da população se encontra socialmente marginalizada. Isto aponta para a primeira parte da pergunta do Raph: antes de ser um mero mal ocasional do capitalismo, a acumulação de capital é estrutural a sua própria forma de organização. No entanto, a produção da desigualdade não é a única característica estrutural ao capitalismo, mas também o consumismo e a exploração dos recursos humanos e naturais. Isto faz com que toda tentativa de tornar o capitalismo sustentável tenha como destino o fracasso.

A subjetividade ocidental moderna, atravessada pela ideologia do capitalismo, marca-se pelo sempre mais (mais consumir, mais explorar, mais ganhar, mais prazer etc). Produz-se e consome-se cada vez mais novos produtos tecnológicos, roupas da nova tendência da moda, entre outros, de forma que nosso consumo e produção ultrapassa em muito o que é estimado como o suficiente. Na mesma medida em que cada vez mais exploramos os recursos naturais de forma a produzir nossos bens de consumo, o que consumimos, devido à condição intensa e fugaz da modernidade, rapidamente se torna lixo. Como não é a totalidade do nosso lixo que pode ser reciclado, consequentemente acumula-se um excedente cada vez maior de poluentes que não possuem um destino seguro. Afinal, por que consumimos tanto?

O espaço é curto para adentrar em todas as questões biológicas, psicológicas, sociológicas e filosóficas envolvidas. Pode-se dizer por alto que o ser humano, como um ser cultural, é essencialmente faltoso. Diferente do animal que tem a sua vida regulada por instintos pré-definidos biologicamente, a vida humana não tem nenhum destino a priori que não seja atravessado pela cultura, isto é, a subjetividade e o desenvolvimento histórico-social. Se essa falta em outros tempos pode ter sido preenchida pelos mais diversos significantes, em nossa sociedade pós-industrial capitalista é a ideologia do consumo que surge como discurso-mestre. Como afirma o psicanalista Antonio Quinet, o discurso capitalista produziu um sujeito animado pelo desejo capitalista, onde sua falta estrutural (falta-a-ser) é interpretada como falta-a-ter. Deste modo, acreditamos que no consumo poderemos adquirir aquele objeto imaginário que nos tornará mais felizes, belos, amados e desejados. Seja o novo iphone que todo mundo legal tem, a confortável casa de campo que sempre foi sonhada, o carro do ano para passear com a família no final de semana etc. O problema é que, ainda quando se adquire o objeto desejado, a falta permanece.

Consumir é mais do que simplesmente comprar um produto. Antes disto, deveríamos nos perguntar o que nos faz desejar o que desejamos. Por trás do nosso desejo pelos bens de consumo que nos são apresentados reside um horizonte histórico-cultural que sustenta que possuir um determinado objeto é importante, valorizado e que todos nós deveríamos desejá-lo. Não há nenhum tipo de crítica moral nisso, pois todos nós, devidos à nossa característica social, estamos sempre desejando objetos mediados socialmente. Ainda quando desejamos um objeto diferente do padrão hegemônico – digamos assim, alternativo – estamos visando atender certo padrão imaginário estabelecido num coletivo. Quero dizer, “não estar na moda” também é uma moda.

Consumir, neste sentido, é afirmar um estilo de vida. A publicidade sabe muito bem disto. Por este motivo, os comerciais costumam associar beber a “cerveja x” a conquistar a mulher do corpo socialmente valorizado, possuir o “carro y” a alcançar um determinado patamar social, geralmente um emprego, e por aí vai. Karl Marx já tinha percebido isto ao falar do fetiche da mercadoria: quando compramos um produto, estamos comprando muito mais que a materialidade daquela mercadoria. Estamos comprando a nossa própria fantasia de que ao adquirir determinado produto alcançaremos determinado status, certo grau da felicidade prometida, que não está propriamente nas qualidades materiais, mas no imaginário.

Com o fracasso da mercadoria desejada em oferecer a completude esperada, o sujeito se vê acreditando que no próximo produto que adquirir aí sim vai estar realmente sua felicidade. Não no iphone 5, mas no iphone 6, 7, 8... e assim pessoas vivem vidas inteiras. Isto deveria ser alvo de nossa crítica não por uma suposta moralidade espiritualizada, mas pelo fato de que esse modo de existência é causa de grande sofrimento mental para muita gente, e, além disso, vivemos num planeta de recursos finitos. Assim como a água de alguns estados brasileiros, outros recursos indispensáveis a nossa sobrevivência estão comprometidos devido a nossa exploração insaciável.

Para que o capitalismo funcione é necessário o constante consumo. Para que as indústrias operem, para que produtos sejam comercializados, e assim o capital continue rodando, girando a grande máquina do capital, as empresas possuem as mais distintas estratégias para que o consumo não reduza, desde a obsolescência perceptiva (a ideia de que seu iphone 5, ainda que perfeitamente funcional, será eventualmente para você indesejável visto que há produtos com aparência inovadora no mercado, mesmo que eles na verdade tenham apenas pequenas mudanças funcionais), à obsolescência programada (o fato de que as indústrias constroem produtos com vida útil cada vez menor, para darem defeito mais rápido, e que você tenha que comprar um novo produto delas: você deve lembrar que a geladeira da sua avó durou mais de 50 anos enquanto a sua não dura nem 5, né?).

Com a ascensão da consciência ecológica de que nosso planeta e nossa existência estão sendo destruídos pelas nossas próprias mãos, surgiu uma nova onda no pensamento ocidental: o ecocapitalismo. Sob a roupagem da sustentabilidade, esta visão propõe um modelo de desenvolvimento sustentável, em que a produção capitalista deveria se pautar idealmente por “soluções verdes”, equilibrando a busca por lucros com o investimento na natureza. Este talvez tenha sido o maior engodo que o capitalismo propôs nas últimas décadas.

A conscientização ocidental, não apenas em relação à ecologia, mas também em relação à pobreza, tem causado nas pessoas a sensação de que “algo deve ser feito”. Entretanto, antes desta sensação se situar como uma crítica ao capitalismo enquanto sistema intimamente implicado em tais males, o marketing corporativo tem se servido muito bem desta comoção. Por exemplo, empresas como Starbucks e McDonald’s afirmam destinar porcentagem das suas vendas para uma reconhecida instituição de caridade mundial. De acordo com o marketing das empresas, quando você está comprando um café ou um hambúrguer, você está fazendo algo mais que isso: você está comprando a experiência de ajudar alguém. Tal é a armadilha do capitalismo e das empresas que visam aumentar suas vendas ao se apoiarem na necessidade de redenção do consumidor, culpado diante do fato de que o sistema capitalista que ele alimenta é a causa de tantos males sociais.

Se as empresas têm publicamente afirmado nas últimas décadas seu interesse e comprometimento com o desenvolvimento sustentável, sabe-se que no capitalismo competitivo as empresas dependem da vantagem comparativa que consigam obter em relação a seus concorrentes, onde a legitimidade, a boa imagem corporativa e a maior visibilidade no mercado decorrente da adoção de programas de responsabilidade social são essenciais. Ser uma “empresa verde” é uma forma de angariar mais consumidores e, consequentemente, ganhar vantagem na competição do mercado. Aumentando a produção e venda, caímos no ponto contraditório: defendemos a tal “sustentabilidade” na mesma medida em que cada vez consumimos mais.

Ideias como “consumo consciente”, mesmo que bem intencionadas, são utópicas por diversos fatores, tais quais: 1) o consumidor nunca dispõe de informações suficientes sobre a procedência do que consome, ainda mais quando sabemos que a divulgação de informações é determinada pelo capital, que serve a interesses privados; 2) ainda quando dispõe de informação, o consumidor individualmente não tem poder de intervir na produção (este é o papel de entidades reguladoras para intervir em nome de interesses coletivos); 3) mesmo no ecocapitalismo, não é seguro contar com consumidores animados pelo desejo capitalista. Por exemplo, notícias como a de que a Apple tem condições de trabalho degradantes em suas fábricas não causam mudanças significativas em suas vendas.

Neste sentido, não há engano: o ecocapitalismo é o mesmo capitalismo, com todos seus males estruturais, mas transvestido com uma sustentabilidade de fechada apenas para aliviar nossa sensação de culpa. Se analisarmos seu funcionamento, veremos que sob uma roupagem de preocupação social, que raramente o consumidor pode fiscalizar (ou está interessado em fiscalizar), reside a exploração dos recursos naturais e humanos em função do potencial de lucro.

É neste sentido que o filósofo Slavoj Žižek concentra sua crítica social: na crença atual de que o capitalismo é um mal irremediável, que deveríamos aceitá-lo em seus termos, e que nos restaria apenas tentar torná-lo menos trágico, tentando conciliá-lo com vagas ideias como sustentabilidade. Se quisermos pensar num desenvolvimento verdadeiramente sustentável, precisamos estar dispostos a repensar o próprio capitalismo, encarar seus problemas estruturais. Isto é especialmente importante num tempo em que se critica muito a política e o Estado, mas não se percebe que existem empresas maiores que os países em que operam.

O governo é apenas um boneco de Judas, e os grandes empresários e banqueiros capitalistas, por terem a política em suas mãos, decidem muito mais o destino das coisas que aquele político que tanto se fala mal. A macropolítica apenas herda um viciado jogo de interesses estrutural ao próprio capitalismo. Neste sentido que se tornam vazios discursos como sustentabilidade ecológica no mercado, marcha contra a corrupção etc. Acontece que estamos lidando com problemas estruturais a nossa organização social, política e ideológica como se fosse questão de moralidade. Cabe questionar antes disso o que engendra essa moralidade duvidosa, pois culpamos pessoas e partidos, mas seguimos ufanistas das marcas de nossos carros ou gadgets, ingerindo substâncias duvidosas processadas com aparência de comida, vestindo e exibindo nossa vaidade ideológica.

***

» Ver todos os posts desta série

Crédito da imagem: Convergence Alimentaire (pode-se considerar a Kraft Foods e a Mondelez International como sendo a mesma empresa...)

O debate continua nos comentários, não deixem de acompanhar.

Marcadores: , , , , , ,

5.9.13

Uma breve história dos deuses

Há muitos que são ateus para a Deusa Mãe;
Há muitos que são ateus para os deuses do antigo Egito;
Há muitos que são ateus para os deuses da antiga Grécia;
Há muitos que são ateus até mesmo para Nosso Senhor Jesus Cristo;
Mas me diga, ó príncipe: quem, quem será ateu para o Deus do Consumo?


***

Crédito da arte: Eduardo Salles - Cinismoilustrado.com

Marcadores: , , , , , ,

26.11.12

Uma visita a Zygmunt Bauman

Em Julho de 2011, uma equipe do Café Filosófico (TV Cultura) foi recebida pelo professor Zygmunt Bauman, em sua casa, na cidade de Leeds, Inglaterra. Previsto para durar aproximadamente sessenta minutos, o encontro se alongou por cerca de três horas. Bauman revelou-se uma pessoa de extrema simpatia e cordialidade com a equipe que virtualmente “invadiu” sua casa naquela tarde de verão inglês com câmeras de cinema, gravadores de som e equipamentos profissionais de iluminação.

Bauman os recebeu em um ambiente familiar despojado, marcado por imagens de sua esposa Janina Bauman, de seus filhos e netos e de muitos livros em variados idiomas. Foi uma longa conversa que tratou de expectativas para o século XXI, internet, a necessidade de construção de políticas globais, a construção de uma nova definição de democracia, e finalmente, a necessidade da constante elaboração e reelaboração de nossas identidades sociais em uma era de modernidade líquida...

Trecho em destaque: Os 500 amigos do Facebook
Um viciado do Facebook gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi que eu vivi por 86 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso. Então, provavelmente, quando ele diz "amigo", e eu digo "amigo", não queremos dizer a mesma coisa. São coisas diferentes.

Quando eu era jovem, um nunca tive o conceito de "redes". Eu tinha o conceito de laços humanos, de comunidades, esse tipo de coisa, mas não redes. Qual é a diferença entre comunidade e rede? A comunidade precede você. Você nasce numa comunidade. Por outro lado, temos a rede. O que é uma rede? Ao contrário da comunidade, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes. Uma é conectar e a outra é desconectar.

E eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo, está exatamente aí. Que é tão fácil de desconectar. É fácil conectar, fazer amigos. Mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar. Imagine que o que você tem não são amigos online, conexões online, compartilhamento online, mas conexões off-line, conexões de verdade, face a face, corpo a corpo, olho no olho.

Então, romper relações é sempre um evento muito traumático. Você tem que encontrar desculpas, você tem que explicar, você tem que mentir com frequência e, mesmo assim, você não se sente seguro porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco, etc. É difícil, mas na internet é tão fácil, você só pressiona delete e pronto.

Em vez de 500 amigos, você terá 499, mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500... E isso mina os laços humanos.

Os laços humanos são uma mistura de benção e maldição. Benção, porque é realmente muito prazeroso, muito satisfatório, ter outro parceiro em quem confiar e fazer algo por ele ou ela. É um tipo de experiência indisponível para a amizade no Facebook; então, é uma benção. E eu acho que muitos jovens não tem nem mesmo consciência do que eles realmente perderam, porque eles nunca vivenciaram esse tipo de situação.

Por outro lado, há a maldição, pois quando você entra no laço, você espera ficar lá para sempre. Você jura, você faz um juramento: até que a morte nos separe, para sempre. O que isso significa? Significa que você empenha o seu futuro. Talvez amanhã, ou no mês que vem, haja novas oportunidades. Agora, você não consegue prevê-las. E você não será capaz de pegar essas oportunidades, porque você ficará preso aos seus antigos compromissos, às suas antigas obrigações.

Então, é uma situação muito ambivalente. E, consequentemente, um fenômeno curioso dessa pessoa solitária numa multidão de solitários. Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo.


Marcadores: , , , , , , , ,

14.9.12

Conversa Alheia: Guerra Fria, Propaganda, Capitão América e Crenças

Com vocês, mais um episódio do Conversa Alheia, onde alguns blogueiros e livres-pensadores falam sobre o que quer que lhes venha a mente...

Episódio #4: Guerra Fria, Propaganda, Capitão América e Crenças.
Igor Teo, Rodrigo Ferreira, Raph Arrais e Josinei Lopes falam sobre a obsolescência programada, honram a Mãe Rússia e falam de um herói que representa (ou não) uma nação. E alguém divaga...

Citado no programa:
A lâmpada centenária (sobre a obsolescência programada)

***

» Ouça aos demais episódios no canal do Conversa Alheia no YouTube

» Para baixar os vídeos do YouTube, você pode usar o complemento Ant Video Downloader (para Firefox)


Marcadores: , , , , ,

5.6.12

Interregno de eras

Há séculos o rio Tâmisa não era atravessado por uma procissão de barcos tão bela e luxuosa. Por quase todos os prédios no percurso, os súditos da rainha exibiam, orgulhosos, a bandeira da Inglaterra nas sacadas. Em seu barco real, cercada da família e em pé na maior parte do trajeto, Elizabeth II retribuía com pequenos acenos a todos que se acotovelavam as margens para celebrar o jubileu de diamante de seu reinado (em 2012): 6 décadas como rainha da Inglaterra, governante suprema da Igreja Anglicana, e comandante-em-chefe das Forças Armadas do Reino Unido.

Um pequeno grupo protestava pacificamente com cartazes de mensagens contra a monarquia. “Não tenho nada pessoal contra a rainha. É mais uma questão moral de ter uma chefe de Estado não eleita em pleno século 21” – explicou-se um manifestante. Outro alegava questões mais econômicas do que políticas: “A ideia de celebrar a vida de luxo da rainha me faz passar mal; muitos lembraram que essas celebrações estão acontecendo num momento de austeridade (em toda Europa), em que muitos estão perdendo seus empregos”... Estranho de se pensar: ainda assim, a grande maioria dos britânicos apoia a permanência da monarquia, exatamente como é hoje, e assim como já o é há muitos séculos.

Mais estranho ainda se lembrarmos que, há poucos meses, no final de 2011, Londres foi sacudida por uma série de manifestações populares em bairros de baixa renda. Jovens desempregados e desiludidos atacaram grandes lojas e mercados, saqueando boa parte das mercadorias, e tocando fogo nas demais... O polonês Zygmunt Bauman, que vive na Inglaterra há anos, sendo para muitos um dos maiores sociólogos vivos, foi quem primeiro levantou a grande questão que podia ser lida nas entrelinhas daqueles dias caóticos: Aquela não era uma primavera londrina, e tampouco os manifestantes tinham claras reivindicações políticas a fazer. Tratava-se simplesmente de um ato de revolta, de revanche, dos “consumidores desqualificados que foram criados numa sociedade de consumo”. Aquilo que desejavam, os tênis e roupas de grife, era o mesmo que, ao mesmo tempo, amavam e odiavam – tanto que colocaram fogo em parte do que poderia ter sido saqueado.

Essa complexa dualidade, de amor e ódio em relação ao objeto de consumo, pode ser, senão vista, ao menos intuída, por todo o mundo moderno ocidental, e particularmente na Europa. Os governantes que, em meio à crise econômica, recomendam o ajuste fiscal dos países em débito – incluindo pesadas reduções de salários –, são os mesmos que, por outro lado, continuam a estimular e tentar manter vivo a todo custo um sistema já decadente de consumo desenfreado, onde é dito a todos e há todo momento, em propagandas que só faltam pular por debaixo do tapete da porta de nossa casa: “Compre, consuma, aproveite enquanto é tempo! Seja feliz com um novo smartphone, um carro zero, uma TV com 10 polegadas a mais... Mas não se esqueça de continuar comprando, pois coisas novas são lançadas há todo momento, e se você parar de comprar, já sabe – a economia esfria, e é capaz de você perder o seu emprego!”.

Ora, é óbvio que as pessoas não conseguem consumir tanto quando as propagandas incitam, e exatamente por isso que foi criado o crédito bancário, que é obviamente a melhor coisa que os bancos inventaram desde as Cruzadas [1]: emprestar dinheiro que as pessoas não têm, para que elas comprem o que não precisam; mas, não obstante, dinheiro este que serão obrigadas a pagar de volta, com juros. Ah! Os juros! O que os bancos fariam sem inventar crédito, e ganhar dinheiro de volta por algo que foi emprestado, mas que, em realidade, sequer existe, sequer têm permanência – todo valor do dinheiro impresso é, afinal, um construto da fé. Afinal, não sei se sabem, mas as leis que requeriam que existisse lastro material em ouro (ou outros valores) para os belos papéis coloridos já deixaram de ser usadas há décadas... Nosso sistema econômico: uma grande bolsa de crenças, onde especuladores podem ser confundidos com pastores.

Este dinheiro de valor impermanente é apenas mais um dos fatores que compõe o que Bauman intitulou modernidade líquida: onde todos os valores morais, todas as antigas tradições, entraram numa ebulição, numa mistura complexa e sempre fluida, em constante mudança, de onde é cada vez mais difícil extrairmos algum significado. Tempo é dinheiro e, como é exatamente o dinheiro que nos garante o consumo, vivemos correndo, “economizando” tempo em fast-foods, em relações amorosas superficiais, em relações familiares cada vez mais desconexas, já que não há mais muito tempo nem para os jantares em família... Com todo esse precioso tempo que foi “economizado”, nos sobra então o tempo que precisávamos para ir nalgum shopping center consumir.

E é bom que sejamos felizes nestes breves momentos de consumo, pois será nossa única chance de termos alguma felicidade... Ou, pelo menos é para essa vida que fomos educados na modernidade, e basta ligar qualquer televisão no horário nobre para verificar. Nas grandes agências de propaganda e marketing, especialistas que passaram anos e anos nas melhores escolas e universidades realizam o seu brainstorm diário exatamente para que a nossa mente não desgrude os pensamentos da vitrine mais vistosa. A culpa não é dos publicitários: eles estão apenas realizando o que foram educados para fazer; eu diria até que alguns deles foram muito bem educados para nos convencer de quase qualquer coisa... Estamos na desvantagem, e nosso pensamento foi aprisionado nalgum outdoor pelo caminho.

Mas foi somente nos últimos anos, onde se levantaram as bandeiras da ecologia e da sustentabilidade, que as pessoas, todas as pessoas (embora algumas finjam não saber), passaram a perceber que a conta da economia de consumo em crescimento exponencial não irá fechar com um planeta, um meio ambiente, de recursos naturais finitos. Se tudo o que consumimos, e principalmente o combustível envolvido na produção e distribuição dos bens, tivesse uma taxação sobre “recurso finito”, e não fosse tratado como algo fabricado a partir de materiais infinitos, provavelmente viajaríamos bem menos de avião, comeríamos muito menos frutas vindas da Ásia, ou queijos vindos da Europa.

Dessa forma, a sociedade de consumo, perdida na fluidez de uma vida sem significado, sabe muito bem que o mesmo objeto de consumo que hoje deseja, depois vira lixo, muitas vezes não tratado, não reciclável. E, sem reciclar o que é finito, para ser reutilizado, um dia a conta chegará... Bem, segundo Bauman, as gerações atuais, com seu sistema de crédito e consumo, nada mais fazem do que hipotecar o futuro. Estamos, dessa forma, comendo em restaurantes luxuosos e deixando a conta para que nossos netos e bisnetos paguem, literalmente. Sob esse ponto de vista, é mesmo bom que haja uma grande crise no horizonte.

E, quanto a monarquia inglesa, ela nada mais é do que uma âncora fincada no passado. Uma mitologia, um significado, uma narrativa da pátria, do “ser inglês”, que ainda traz sentido à vida britânica. Se os ingleses estão dispostos a continuar financiando os rituais de sua realeza? Enquanto não chegar uma nova era, certamente – para eles, é uma pechincha. E, afinal, o dinheiro não existe enquanto valor por si só, o que existe á uma crença nos valores que povoam nosso pensamento. Melhor comemorar a longa vida da rainha do que a curta vida do seu smartphone.

Ainda assim, um dia, mesmo a rainha cairá... Mas, e o que virá nesse interregno de eras, onde os sistemas e os reis antigos caem, mas os novos não se erguem, sequer foram ainda inventados? Isso, nem mesmo Bauman foi capaz de nos dizer...

Entrevista com Zygmunt Bauman no programa Milênio, da Globo News. Vinte e poucos minutos altamente recomendados.

***

[1] Devido ao pouco espaço, estou trazendo alguns conceitos de forma superficial. Para se aprofundar melhor em alguns dos assuntos tratados neste artigo, recomendo consultarem alguns outros posts: A história do ouro; Padrão-fé; O dinheiro que não existe; A lâmpada centenária; Nosso planeta, nossa casa; e finalmente Onde está o seu deus?

Crédito das imagens: [topo] AFP (Elizabeth II conversa com o decano David Ison ao deixar a Catedral de St. Paul); [ao longo] Anônimo.

Marcadores: , , , , , , , , , , ,

31.5.12

A lâmpada centenária

O comercial acima tem, talvez, o conjunto dos clichês mais utilizados pela publicidade atual para que um homem troque de carro. Mas não vou falar aqui das aeromoças de rosa dando o "sinal de ok", nem sobre como o sujeito parece "deixar de existir" enquanto não tem um carro adequado: o que quero destacar é que o consumidor já tinha um carro, provavelmente não tão antigo assim, mas é incentivado a comprar um novo.

Na época atual, onde todos parecem seguir o deus do consumo, trocar de carro a cada 1-2 anos, e de celular a cada 6-12 meses, parece ser algo não apenas perfeitamente natural, como enormemente incentivado por todo tipo de propaganda... Engraçado que todos enalteçam os benefícios de se estar sempre "atualizado", com um carro zero, um widget "de ponta", e ainda falem em sustentabilidade, em ecologia, em um "mundo verde"...

Ora, tudo o que é consumido deve ser descartado, deve virar lixo. Até aí tudo bem, contanto que o lixo possa ser reciclado, ou que não se avolume tão depressa assim. O nosso problema é, portanto, um modelo econômico que foi planejado para ser o exato oposto da sustentabilidade: é difícil mudar tal paradigma quando as mesmas grandes empresas que ditam a economia mundial, e se dizem favoráveis a sustentabilidade, muitas vezes continuam investindo pesado na prática da obsolescência programada.

Por exemplo, a lógica da indústria de computadores é semelhante à das montadoras de carros. Ambas lançam novos produtos para nos fazer descartar os antigos. Essa estratégia foi criada na década de 1920 por Alfred Sloan, então presidente da General Motors. Sloan decidiu seduzir os consumidores para que trocassem de carro com frequência, apelando para a mudança anual de modelos, cores e acessórios. Bill Gates, o fundador da Microsoft, adotou a mesma fórmula nas atualizações do Windows, e o fabricante de chips Intel usa o mesmo procedimento para lançar seus chips. Não é à toa que o livro de cabeceira de Gates é a autobiografia de Sloan.

Você pode achar que isso é perfeitamente comum e corriqueiro, que faz parte da economia industrial e etc. De certa forma, terá total razão, mas a grande questão é que, de tão seduzidos pelas maravilhas das novas tecnologias, muitas vezes esquecemos que elas não são tão "de ponta" assim... Se já são maravilhosas, poderiam ser ainda muito mais, poderiam mesmo durar anos, décadas, e quem sabe até, séculos...

Em Livermore, na Califórnia, um corpo de bombeiros possuí uma lâmpada que está acesa já há mais de um século. Difícil de acreditar? O Cartel Phoebus, fundado em 1924 por empresas como General Eletric, Philips e Osram (todas ainda existentes), determinou que todas as grandes produtoras de lâmpadas elétricas propositadamente reduzissem seu tempo de duração para 1.000 horas. E, até hoje, isso não mudou muito... Você acha que tem mesmo tanta tecnologia em casa? A lâmpada centenária de Livermore talvez lhe faça mudar de paradigma:

Comprar, descartar, comprar. Documentário espanhol (legendado) sobre a história da obsolência programada, com cerca de 52min. de duração.

***

» Veja também: os 10 grandes deuses do Supermercado

Marcadores: , , , ,