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4.3.19

Pedras preciosas: um conto sufi

Neste vídeo eu trago um conto espiritual dos sufis, os grandes representantes do misticismo islâmico. Se nosso trem para em meio a escuridão do deserto e uma voz nos diz que há pedras preciosas na areia lá fora, teremos coragem de sair a sua busca mesmo sob a noite escura?... Ao final, ainda recito um poema de Rumi, poeta sufi do século XIII e um dos grandes responsáveis pela disseminação do sufismo no Ocidente. (edição por Colossi Estúdio Gráfico)

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24.1.19

Um pequeno milagre

No começo ele era uma pequena noz flutuando numa caverna submersa, quase como um girino, mas não era nem peixe nem anfíbio. Mesmo assim, ali já se cumpria o código de Darwin, um contrato entre o ser humano e a vida, um baile multimilenar onde teimamos em tentar vencer a entropia... mesmo assim, a minha vida já estava mudada, pelo resto de meus dias: isso era muito claro para mim.

Depois nos comunicamos com ele, basicamente, através de sinais de pele. Pequenos carinhos na superfície do lago onde ele vivia. De volta, chutes e cabeçadas, cada vez mais fortes, faziam uma barriga de gestante de primeira viagem tremular aqui e ali. Para uma mãe, para um pai, isso já era a coisa mais maravilhosa e bizarra do mundo. Dois seres coabitando um só corpo... parem para pensar: isso talvez já solucione uma parte considerável deste mistério.

Então, num belo dia, ele se colocou de cabeça para baixo, e podíamos ver cada um de seus pezinhos despontando no topo da barriga. Não sei quem o ensinou toda essa ginástica de nascimento, mas fato é que funcionou muito bem!

"Você já está no início do trabalho de parto, quer esperar e aguentar a dor, ou fazer um corte e tirar logo esse rapazinho daí?" - disse o médico parteiro. E ela me olhou, como se fosse eu quem pudesse sentir suas dores, como se fosse eu quem pudesse decidir. Mamães, deixa eu lhes dizer uma coisa: nós homens não fazemos vaga ideia do que é ter um ser humaninho dentro de nós. Não temos a menor noção de como é ter um desejo súbito de comer uma fruta rara ou um sorvete de sabor específico. E, acima de tudo: não concebemos a experiência (e a dor) de um parto. Nós somos tão somente observadores de um baile ancestral de genes e açúcares – podemos (e devemos) oferecer carinho, jamais a compreensão exata do que de fato se passa em vocês.

Ela escolheu tirar logo. Tudo o que eu pensava era na descomunal alternância na experiência de vida pela qual todos nós passamos. Não nascemos no parto; nascemos, quem sabe, quando nosso cérebro pequenino começa a receber informações sensoriais – e flutuamos em águas mornas por meses, por todos os dias de uma nova vida ainda aquática... sair dessa primeira caverna, literalmente de um minuto para o outro, deve ser algo absolutamente impactante. Acho que, se pudéssemos realmente nos lembrar deste dia, talvez não conseguíssemos registrar mais muita coisa no caminho místico, talvez não fosse mais necessário.

Quando o vi pela primeira vez, meio azulado, parecia um bebê krishna, um ser de alguma dimensão paralela. Por um momento, ainda em silêncio, ele abriu os olhos e inspirou o ar deste mundo de chumbo, então chorou: é o que fazem os anjos caídos. E todos nós aqui somos anjos assim, embora muitos tenham se esquecido com o tempo. Talvez seja por isso que não nos lembramos mais do parto, a saudade do céu seria dolorida demais...

Essa é a história de todos nós. Ao contemplar aquele pequeno milagre chegando a este mundo, subitamente me dei conta de que estava participando ativamente desta epopeia humana, da qual até então havia sido somente mero espectador indireto. Ali não, ali estava a Vida, na ânsia por si mesma, em todo o seu esplendor, em toda a sua ancestralidade e mistério, em toda a sua potencialidade de luz e escuridão.

Um poeta do Líbano disse que "vossos filhos não são vossos filhos", e desde que o li o entendi e guardei para mim sua mensagem: que somos empréstimos, mensagens de Algo Maior para este mundo. Todos nós trazemos um poema em nosso coração, somos um anjo que não sabe que é um anjo. Depois, muitos se esquecem de que o empréstimo é passageiro, e este é só mais um mundo no Caminho. Então acham que devem conquistar o mundo e viver nele para sempre, como se isso fizesse algum sentido em meio a uma jornada que nos ultrapassa em bilhões e bilhões de anos. Somos poeira de estrelas, filhos do cintilar dos sóis, como isso tudo poderia ser reduzido a uma só vida, a uma só persona, a um único registro social?

E assim, refletindo sobre isso, percebi que a minha vida já estava mudada, pelo resto de meus dias: isso era muito claro para mim. Ninguém recebe um empréstimo desses e passa impune – vive, mas parte de seu coração já começa a bater noutro ser; caça, mas guarda a melhor parte do alimento para o seu rebento; ora, mas sabe que carrega consigo, num carrinho de bebê, um pequeno milagre que, de alguma forma, é maior do que todos os milagres deste mundo.

para Gael...


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Crédito da imagem: raph

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9.10.18

Pedras preciosas

Irfan já não aguentava mais tanto calor. Secretamente, rezava para que Allah fizesse com que a noite se derramasse logo no Saara. Sempre ouvira falar daquela distinta linha de trem que cruzava o maior deserto do planeta, mas nunca achou que um dia poria os pés na Mauritânia. Mas trabalho é trabalho, e ele precisava representar a empresa de peças de mineração francesa, que tinha enorme interesse no desenvolvimento da colônia.

Pelo menos aquele país quase que inteiramente plano possibilitava que a linha férrea fosse reta, tão reta que o trem quase não chacolejava. Além da praga e da súplica contra o calor que ele ouvia em sua própria mente, dizendo para si mesmo, tudo o que havia a volta eram pequenas e breves conversas em árabe e berbere; quase nenhum francês podia ser ouvido – o que o convenceu a se resignar com a solidão da viagem. Recostou a cabeça na janela e, contemplando a linha do horizonte que separava o amarelo e o azul semi-infinitos, dormiu.

O que ele se lembrou, em seguida, foi de ter ouvido uma voz doce e suave, reverberando em sua cabeça: “Irfan, venha! Há pedras preciosas no deserto, venha pegá-las!”

Acordou de um pulo, e pôde ver que já era noite, e o calor havia arrefecido e cedido lugar a um friozinho até mesmo agradável. Mas estava escuro, muito escuro dentro do trem. Nenhuma luz funcionava. Viu que os outros passageiros estavam tão assustados quanto ele. Tentou ligar sua lanterna, sem sucesso. Parecia que toda a luz do mundo havia sido retirada, o que restava era um breu noturno, com a parca luminosidade de uma lua crescente.

Irfan, venha! Há pedras preciosas no deserto, venha pegá-las!”

Desta vez ouviu acordado, e poderia jurar que todos os demais passageiros no trem ouviam exatamente a mesma coisa, quiçá cada um em seu próprio idioma. Colocou de novo a cara no vidro da janela: lá fora era tão escuro que, houvesse mesmo pedras preciosas em meio a tanta areia, seria impossível saber de longe. Teria de sair do trem.

“Irfan, venha! Há pedras preciosas no deserto, venha pegá-las!”

O trem, inexplicavelmente, foi parando lentamente no meio do Saara. Não havia cidade alguma nas imediações, e o sistema de som tampouco funcionava. Parecia uma pane geral. Mas, por que tudo estava tão estranhamente escuro? E aquela voz, de onde teria vindo? Seria Allah?

Irfan foi interrompido pelo som da abertura da porta do vagão. Havia uma pessoa se aventurando no deserto! Ele observou que ela encheu os bolsos de areia e logo retornou... Que maluquice!

Logo, outros passageiros resolveram fazer o mesmo. Eram minoria no vagão, mas observando as silhuetas humanas contra a luz do luar, parecia óbvio que pessoas dos demais vagões também resolveram descer e apanhar areia. Irfan observou que no seu próprio vagão menos da metade havia descido. “Descer para pegar areia?” – pensou consigo mesmo – “E se o trem partir? Mas e se... e se não for somente areia?”

Resolveu descer. Afinal, não se cruza o deserto de trem toda hora. Pegou um punhado de areia nas mãos, mas estava escuro demais para perceber qualquer pedra preciosa ali. O jeito seria guardar nos bolsos para analisar na manhã seguinte...

Enquanto enchia os bolsos de areia, percebeu que havia um casal que trouxe suas próprias malas para fora do vagão, e estavam jogando a roupa toda fora. Achou aquilo tudo tão inusitado que foi falar com eles, tentando ver se entendiam francês.

“Sim meu senhor, eu e minha amada já viajamos pela Europa, conhecemos francês, inglês e até mesmo um pouco de alemão. Me chamo Asik, e esta é a bela Duniazade.”

“Mas por que estão se desfazendo das suas roupas?”

“Ora, você não escutou a voz? Se esta areia estiver cheia de pedras preciosas, o que seria toda a nossa bagagem perto de tamanha preciosidade? E, se tudo o que houver for somente areia, compramos roupas novas na próxima parada!”

Aquele homem pareceu tão louco que Irfan ficou por um momento atônito. Resolveu se despedir e retornar para seu assento no vagão. “Devo eu mesmo ser um pouco louco, afinal estou com os bolsos cheios de areia” – pensou, e logo dormiu novamente, quando o trem retornou ao movimento. Estava um clima agradável, e por isso dormiu com um sorriso, pois Allah havia atendido sua prece contra o calor.

Na manhã seguinte, acordou com gritos efusivos de comemoração.

“Ricos, estamos ricos!” – foi o que Irfan pôde compreender do árabe.

Logo, retirou o punhado de areia de um dos bolsos. Sob o brilho do sol, pôde ver esmeraldas verdejantes e grandiosos rubis. Allah é grande.


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Comentário
Ouvi este conto, de maneira bem mais resumida, da boca de um sheikh sufi da Ordem Naqshbandi.

A vida é como uma viagem de trem. Entre uma e outra parada, temos a oportunidade de colher pedras preciosas. Disse Isa (Jesus) no Evangelho de Tomé que “o Reino está espalhado pela Terra, mas os homens não o veem” – isto é, tudo o que um místico faz é desenvolver olhos para contemplar o Reino. As pedras preciosas não são esmeraldas e rubis reais, mais metáforas para o conhecimento de Allah, o autoconhecimento, a gnose do Amor.

Quando o trem para em meio ao deserto, e está estranhamente escuro, nem todos têm coragem de descer e seguir a voz em sua mente (ou coração). Já aqueles que estão dispostos a trocar as quinquilharias de suas bagagens por tais pedras espirituais, estes são ainda bem mais raros. Eles não somente contemplaram o Reino espiritual, como verdadeiramente se desapegaram do mundo.

O Reino espiritual e o mundo também podem ser uma coisa só. Tudo o que se modifica é a nossa maneira de enxergar. Ou, como bem resumiu Jalal ud-Din Rumi:

A alma é a fonte,
e as coisas criadas, os rios.
Enquanto a fonte jorra, correm os rios.
Tira da cabeça todo o pesar
e sorve aos borbotões a água deste rio.
Que a água não seca, ela não tem fim.

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Conheça a Ordem Naqshbandi no Brasil

Crédito da imagem: Google Image Search

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16.7.17

A demissão

Quando você está há mais de uma década trabalhando na mesma empresa, quando se sente bem nela ao ponto de sequer se preocupar em acompanhar o quanto o seu passe está valendo no mercado, você parece ter uma parte essencial da vida moderna resolvida: a caça. Isto é, uma caça regulamentada, com dias e horários pré-determinados, férias e décimo terceiro. Você se torna uma espécie de caçador pacato, que finge não haver competição, ou a bem da verdade, sequer se lembra dela.

Quando você tem a sorte de poder trabalhar de casa, e ganha algumas horas que gastaria no seu deslocamento diário para fazer basicamente qualquer coisa que quiser, você pode se tornar até mesmo acomodado. A minha acomodação foi criar um blog e desafiar as páginas em branco, ou telas vazias do Word, no lugar de desafiar a hora do rush. Minha vida estava, portanto, indo muito bem. Mas, como sabemos, a existência teima em ser profundamente impermanente. Talvez, por já saber tão bem disso, tenha me resguardado algo absolutamente essencial: saber viver com pouco.

Como disse o sábio Mujica, “nós inventamos uma sociedade de consumo, e como a economia tem de crescer (ou acontece uma tragédia), inventamos uma montanha de consumos supérfluos. Vive se comprando e se descartando, mas o que estamos gastando é tempo de vida. Porque quando eu ou você compramos algo, não compramos com dinheiro, compramos com o tempo de vida que tivemos de gastar para conseguir esse dinheiro. Mas há um detalhe: a única coisa que não se pode comprar é a vida. A vida se gasta. E é miserável gastar a vida para se perder a liberdade.”

Num dia qualquer de trabalho, pouco antes do feriado de Semana Santa, aconteceu à suposta tragédia: meu chefe, e também grande amigo, me ligou e avisou, com certa dificuldade e voz embargada, que a crise estava muito aguda, que nunca tinham visto nada igual, que tentaram segurar o máximo que foi possível, mas que não dava mais, eu estava demitido, sem justa causa. Assim, era evidente que a minha economia iria parar de crescer, mas não era aquilo que me afligia naquele exato momento. A primeira coisa que pensei, para falar a verdade, é que provavelmente nunca mais iria trabalhar com aquela espécie de família da qual participei, com orgulho, por mais de uma década.

Afinal, eu nunca me senti gastando a vida enquanto trabalhei por lá. Lógico que nem sempre fiz tudo o que gostaria de fazer. Numa empresa de tecnologia da informação você pode participar de muitos projetos legais, ter muita liberdade criativa, mas você ainda vai ter de cadastrar aquelas centenas de conteúdos de teste mais dia menos dia, porque não há estagiário que dê conta de tamanha chatice todo o tempo. Mas o mais importante é que numa empresa deste tipo, quiçá o símbolo da nova economia, não há tanta hierarquia, ninguém se achando muito acima ou abaixo de ninguém, e todos podem muito bem pensar que estão numa grande brincadeira entre amigos. Às vezes vimos clientes chatos e desbocados, mas meu cargo era mais técnico do que de gerência ou atendimento, mesmo disso eu estava livre.

Parecia, enfim, que a vida me havia colocado por pouco mais de uma década naquele homeoffice abençoado, onde além de trabalhar com amigos, tinha tempo de escrever um blog e muitas outras coisas, mas que a minha grande sorte tinha acabado... teria de voltar a caça e a coleta, teria, quem sabe, de voltar a gastar um pouco de vida para perder um pouco de liberdade. Bem, isso me valeu algumas noites de insônia, mas nada de muito grave – grave seria, isto sim, se eu precisasse de muito para viver. Fiz os cálculos e, se fosse necessário, poderia tirar o ponto extra da TV a cabo, viajar menos vezes por ano para visitar a família em meu estado natal, comprar mais e-books nas promoções da Amazon, essas coisas...

Passou a Semana Santa e já havia conseguido manter uma consultoria pelos próximos três meses, como freelancer. Ou seja, estava oficialmente de volta a época do emprego temporário, sem tantos direitos além da própria negociação meio boca a boca, meio contratual, havia voltado no tempo junto com o resto do país. Tudo bem, mas o que mais me preocupava era encontrar alguma caçada mais fixa onde pudesse sobrar tempo de tocar o meu blog, ainda que noutro ritmo.

Em meio à crise, morando num estado onde nunca de fato trabalhei, sem muitas possibilidades de recorrer a “quem indica”, passei por algumas entrevistas sem sucesso para a minha área de caça, e logo comecei a imaginar outras possibilidades. Coisa de imaginador mesmo...

Via as atendentes do Café onde vou religiosamente todas as tardes, logo após o almoço, e imaginava se não seria um emprego legal, independente do salário é claro... mas logo me lembrei que eles não contratavam homens para esse tipo de serviço, deve ser alguma norma da empresa: para servir café, somente mulheres por favor.

Depois, rodando pelo shopping, me lembrei da minha loja preferida, que obviamente era uma livraria. Lá havia um vendedor mais velho, que provavelmente já deveria ter se aposentado mas continuava trabalhando, pois estamos no Brasil certo, enfim, me lembro de quando estava dando uma olhada no Zaratustra de Nietzsche, e ele me disse assim: “heh, Deus está morto né?”

Mas ele me disse isso com um tal sorriso no olhar, e no canto da boca, que não parecia ser a exclamação de um ateu, mas justamente a conclusão de alguém que havia lido Nietzsche e o compreendido plenamente: que só pode existir um Deus vivo que saiba dançar, junto conosco! Em todo caso, naquele dia minha resposta foi mais um “pois é”.

Meses ou anos depois, sempre retornando a livraria, pude ver que aquele mesmo vendedor sempre me acompanhava pela loja, curioso, provavelmente, pela variedade de prateleiras que eu visitava, desde poesia e literatura fantástica a filosofia, divulgação científica, e até mesmo aquela estante onde só havia livros da Madras!

Me lembro bem de como noutro dia deste rio da memória, estava ali perto da estante da Madras dando uma boa olhada em 20 Casos Sugestivos de Reencarnação, de Ian Stevenson, e ele se aproximou novamente e soltou no ar: “isso daí é bem impressionante, não acha?”. Desta vez, já quase como um amigo distante, respondi: “De fato, é o que acontece quando um cientista é livre para pesquisar o que bem entender”. Ele sorriu e respondeu, “vai levar?”. “Vou”. “Então deixa eu lhe dar o ticket”. Eu apresentei o ticket, comprei o livro, e saí satisfeito, sabendo que meu quase amigo ficaria com alguma parte da minha compra.

Retornando das águas do rio, imaginei que seria excelente trabalhar indicando livros de filosofia, ou poesia, ou literatura clássica, ou o que for, para as pessoas em geral, e ainda ganhar alguma coisa por cada ticket, além do salário, seja ele qual fosse. Eu pensei comigo: ainda que sobrasse menos tempo para escrever, era bem possível que pudéssemos ficar lendo nas horas vagas... Bem, na verdade não sei se seria, talvez fosse melhor fazer como Pessoa e procurar uma vaga nalguma biblioteca.

E assim, me imaginando nos empregos dos outros, e não me sentindo nem menor nem maior por conta disso, fui reparando a mágoa da demissão. O freelance de três meses foi estendido, em sucessivos contratos de adição, para mais de um ano, e estou até hoje nesta bela caçada alternativa... com ainda mais tempo livre para tocar o blog e nossas traduções e edições de e-books para a Amazon; sem estar no controle de nada, e não precisando estar.

Os estoicos tinham toda razão. Preocupemo-nos com o que podemos mudar. Neste rio da existência, o melhor mesmo é aproveitar a passagem, e gastar a vida mais sendo levado pela correnteza do que tentando remar contra a maré. Mas eu tive sorte, tive oportunidades e as soube aproveitar razoavelmente bem. Infelizmente, não é o que ocorre com a maioria dos brasileiros. Para a maioria, ser demitido ainda é uma situação consideravelmente mais desesperadora do que foi a minha. Se é que vale de algo, dedico este conto a vocês. Força pessoal!


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Crédito da imagem: Google Image Search

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7.12.16

Avistando tribos, parte 2

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).


« continuando da parte 1

A Águia aterrissou numa rocha mais elevada bem próxima a entrada da gruta, e me olhou fundo nos olhos. Não havia comunicação por palavras, apenas processos de pura intuição – e, afinal de contas, é preciso sempre lembrar que ela mesma era parte de mim.

Não sei exatamente como corre o tempo em tais experiências místicas, é certo que o que se passou jamais caberia nos 10 minutos em que Maiorino permaneceu tocando o seu tambor mágico, mas ainda assim boa parte da jornada já havia sido gasta em encontrar meu animal de poder, então não restava muito tempo, e talvez por isso o que senti a seguir se parecesse mais com um chamamento para um último voo, antes que aquele portal ancestral se fechasse.

Sim, um voo! Não foi como nos filmes do Senhor dos Anéis, devo deixar claro. Não havia ali nenhuma águia gigante em que pudesse pular no cangote. Era o voo da Águia e o meu voo, ao mesmo tempo, como se fôssemos um, ou ao menos como se eu pudesse ver através dela, com a sua peculiar acuidade visual... Assim voamos por extensos territórios, e pude ver que o meu Templo, afinal, parecia ser tão vasto quanto um país inteiro!

Não me entendam mal: muito pouca coisa do que vi era criação minha. Ocorre que, de alguma forma, quando caminhamos muito tempo na via espiritual, cruzamos com outros caminhantes, outras doutrinas, outras formas de enxergar este Cosmos. E, se nosso coração é aberto e interessado o suficiente nessa exploração toda, é claro que ganhamos algo em troca, ganhamos um mundo inteiro por ser explorado, lá dentro (ou lá fora, no próprio Plano Astral? a verdade é que não importa, o que importa é o que foi visto).

Nas extensas matas abaixo a Águia avistou muitas e muitas tribos, tribos que viviam em montanhas, próximas aos rios, em planícies de caça, e na profundeza das florestas. Nada disso era novidade para mim, tudo isso era apenas a própria jornada de nossos ancestrais por este vasto mundo ao qual chamamos Terra, ou Gaia.

Talvez seja mais fácil explicar com um breve relato de um outro dia, quando pude conversar com um caboclo, ou espírito de indígena, incorporado num médium num centro espírita ecumênico. Vocês já devem saber que os meus questionamentos nesses casos passam longe do trivial, “como vai meu emprego?” ou “será que minha mulher está me traindo?” etc., eu prefiro perguntar coisas que realmente me interessam, e naquele dia eu perguntei:

Vocês que foram perseguidos e exterminados por nossos ancestrais, que chegaram de barcos vindos de outras terras, porque continuam voltando aqui para nos ajudar?

E o caboclo, com o sorriso mais triste do mundo, me respondeu assim:

Meu filho, todos nós somos da mesma Tribo, nós voltamos para ajudá-los a relembrar. A doença da tribo daqui é esse grande esquecimento!

E quando se carrega esse entendimento, essa compreensão, marcada a ferro e a fogo na própria alma, não é difícil avistar tribos no horizonte de si mesmo. Desde que saímos da África, nós, os homo sapiens, temos montado muitos acampamentos e muitas fogueiras pelo mundo todo. O próprio termo xamã tem origem nos povos indígenas da Sibéria, e significa “aquele que enxerga no escuro”. Talvez as fogueiras tenham auxiliado nisso.

Em meu voo, foi chegando à tardinha, e as fogueiras começaram a ser acesas. Que espetáculo belíssimo! O tipo de cena que compensa todas as dificuldades e percalços neste caminho espiritual, e todo o sangue que foi deixado nos espinhos...

Mas então, naquele prédio em plena Avenida Paulista (lembram dele?), o toque do tambor começava a variar seu ritmo, era o momento de se preparar para voltar ao mundo do grande esquecimento.

A Águia pousou no topo de uma montanha, e um pouco antes de retornar, por um brevíssimo instante, eu pude me ver ali, metamorfoseado, meio homem, meio águia. Um homem com cabeça de águia. Nada que já não tenhamos visto na arte mais antiga do mundo...

***

“Sim, mas e de que adianta tudo isso?”, você pode me perguntar... A ideia, é claro, não é encerrar essa jornada após haver encontrado nosso animal de poder. De fato, este encontro é somente o seu início!

Uma das coisas que o Maiorino disse na sua palestra, antes da prática com o tambor, e que achei muito interessante, é que deveríamos iniciar o estudo de nosso animal de poder pelo seu comportamento na Natureza. Ou seja, nada de livros de simbologia ou mitologia, o estudo deveria começar pelos livros de biologia.

Como veterinário (dentre muitas outras especialidades), Maiorino sabia exatamente do que estava falando: é claro que a simbologia também importa, mas é o comportamento do animal em si que poderá nos dar mais pistas sobre nós mesmos, afinal a prática do xamanismo é indissociável da Natureza, como já foi dito.

Assim, por exemplo, posso me reconhecer de cara em duas características muito conhecidas das águias: caçar de forma solitária ou em pares; planar por longos períodos nas correntes de vento do alto, observando tudo o que se passa lá embaixo, para atacar com precisão qualquer presa desavisada.

Ora, não é isso o que tenho feito por tantos anos em meu blog? Planado pelas doutrinas, pelas filosofias, pelas religiões e teorias científicas, na maior parte do tempo só, às vezes com a ajuda de poucos amigos interessados, para de vez em quando descer e apanhar com minhas garras um ou outro pensamento, uma ou outra ideia, uma ou outra reflexão, que achei que dariam uma refeição apetitosa?

Voltando ao O Espírito do Xamã, Mike Williams também conta uma história que tem a ver com águias: “Os xamãs buryat do lago Baical, no sul da Sibéria, receberam seu poder dos deuses, ou tenger. Num esforço para dar fim ao sofrimento na Terra, o deus dos céus, Tengri, enviou uma águia para ensinar o xamanismo às pessoas. Mas elas não entenderam a língua da águia, então a uniram a uma mulher e a esta deram seu poder. Ela se tornou o primeiro xamã dos buryat.”

E assim, desde a primeira xamã até hoje, tudo o que as tribos do Alto têm tentado fazer é ensinar as tribos aqui de baixo a acender as suas próprias fogueiras, e sinalizar:

Ei! Nós estamos aqui! Nós nos lembramos de porque estamos aqui!


***

Nota: Encontrei um trechinho em vídeo da palestra do Fernando Maiorino, que entrou ao vivo no Facebook do pessoal da página Conhecimentos da Humanidade.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Susan Seddon Boulet (Shadow Play)

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6.12.16

Avistando tribos, parte 1

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).


Eu havia finalmente encontrado a gruta. Não era uma caverna, um buraco no chão ou nalgum tronco oco, mas uma gruta, e bem debaixo da cachoeira que eu costumava sempre ver ao longe... E agora, tão perto, era belo assistir a corredeira passar por cima de mim, salpicando gotículas que pairavam por todo o ambiente. Até o musgo nas pedras era de um verde que talvez só existisse mesmo ali, dentro de mim.

Mas eu não estava ali para admirar a Natureza que a mente imagina, estava ali para adentrar a gruta, e encontrar o meu animal de poder!

Ao mesmo tempo em que estava lá, frente a frente com a entrada escura que me encaminharia para algo desconhecido debaixo da terra, também estava em plena Avenida Paulista, confortavelmente sentado ao lado das dezenas de inscritos no V Simpósio de Hermetismo (2016), escutando ao ritmado e potente toque de tambor de Fernando Maiorino, fundador do Núcleo Xamânico Casca da Tartaruga, o primeiro palestrante daquele sábado.

Como o próprio Maiorino havia dito na apresentação que antecedeu aquela prática, “para o xamã os mundos sonhados são tão reais quanto este”. Num certo sentido, a experiência espiritual pela qual muitos de nós passamos na busca por nosso animal de poder era ainda mais real do que o mundo em que vivemos de olhos abertos, mas na maior parte das vezes desatentos para o que há de belo na Natureza lá fora. Afinal, a capacidade de estar atento à tanta beleza depende essencialmente da beleza que encontramos lá dentro, em nossas cavernas ancestrais e no seu entorno.

Segundo Maiorino, deveríamos fechar os olhos e relaxar a mente, permitindo que ela “inventasse as coisas livremente”. Essa invenção, obviamente, era guiada pelo passo a passo do ritual: “Se veja numa floresta, sinta o ambiente a sua volta, a grama, a corpulência das árvores, a brisa etc. Então procure por uma caverna, ou algum buraco no chão, um tronco oco de árvore, qualquer coisa que você possa se meter dentro. Entre nele e, ao aparecer um animal, lhe pergunte – Você é meu animal de poder?”

Em O Espírito do Xamã, o estudioso e praticante de xamanismo Mike Williams explica que o animal de poder, ou nagual, “não é um totem, não representa uma pessoa ou sua linhagem, e não é um animal real. Só é possível interagir com o animal de poder num plano paralelo. Cada pessoa tem um animal de poder próprio, que a acompanha por toda a vida, estando ela ciente disso ou não”. Na realidade, o animal de poder representa um aspecto expressivo de nosso próprio mundo interior, de nosso inconsciente mais ancestral e profundo. Conhecer nosso animal é talvez a mais antiga e sobrevivente prática de autoconhecimento da humanidade, muito anterior à religião arcaica, a filosofia e tudo o que veio depois...

Obviamente que o tambor tinha forte influência no ritual, era ele o instrumento primordial para a condução aos chamados estados alterados de consciência, que permitiam que a mente “inventasse tanta coisa”. Como bem resumiu Maiorino, “o tambor representa o útero de Gaia, e o seu som, a batida do coração da Terra”. A experiência xamânica é indissociável da experiência de contato com a Natureza, ainda que todos estivéssemos de fato bem no centro de uma das maiores metrópoles do planeta, que não foi exatamente sábia em sua urbanização.

Uma coisa que provavelmente auxiliou em minha jornada sob o som do tambor é o fato de que o meu Templo Astral [1] já é situado num espaço natural e aberto. Normalmente estou ao lado de um imenso carvalho, sentado numa pequena pedra sobre a grama, em cima de um monte, e à distância vejo um rio passar, vindo de uma cachoeira bem mais ao fundo, a minha direita, caindo de uma montanha um pouco maior.

Assim que fechei os olhos estava lá, como sempre. Tudo o que tive de fazer foi me levantar e me virar, pois sabia que atrás de mim havia uma floresta. Em meu ceticismo (subjetivo) eu honestamente pensei que provavelmente veria muitas araucárias e quem sabe eucaliptos, pois é esta a flora da Serra da Mantiqueira ao sul de Minas Gerais, onde vou desde pequeno passar algumas das minhas férias, e de longe o lugar do planeta onde mais me embrenhei no mato, por assim dizer. Mas nunca me toquei de que a charada já estava posta: ora, se em meu Templo eu sempre estive ao lado de um carvalho, era mesmo para se supor que a floresta seria de frondosos carvalhos – e, de fato, era exatamente assim.

É preciso deixar claro que nunca tive muita facilidade para esse tipo de ritual de “imaginação de coisas”. Até mesmo por isso eu construí mentalmente o meu Templo de forma bastante elaborada, para sempre ter ao menos uma boa base para as viagens internas. Nessa aventura ao som do tambor de Maiorino, no entanto, eu vi e vivenciei muita coisa, muito mais coisa do que seria verossímil acontecer nos 10 minutos em que durou a prática.

Mas, assim como nos sonhos, onde muita coisa pode ocorrer em pouco tempo, e onde vemos muitas coisas, mas sem usar os olhos, e escutamos a tudo, sem usar os ouvidos, e por vezes falamos, sem mexer os lábios, exatamente assim se passou naquele longo sonho lúcido em meu mundo interior.

Enquanto num prédio da Avenida Paulista um antigo tocador de tambor se aproximou de onde eu estava sentado, e com ele o seu som mágico, em meu Templo eu imediatamente iniciava a minha jornada... Adentrando a floresta, parcamente iluminada pelos poucos raios de sol que venciam os carvalhos gigantes, procurei e procurei por alguma caverna ou buraco que fosse, mas estranhamente era sempre atraído para o som do rio e da cachoeira distante. Me embrenhei profundamente na mata, descendo e subindo níveis, sem encontrar nenhuma caverna ou animal, até que, de repente, vi uma abertura na floresta, e ao passar por ela me dei de cara com a cena inicial deste relato: a gruta por baixo da cachoeira, a água caudalosa passando por cima, as gotas transparentes flutuando pelo ar, o musgo de um verde peculiar, e a entrada escura, rumo ao fundo da terra.

Naquele momento eu busquei seguir os comandos ritualísticos a risca: “Entre na caverna e, ao aparecer um animal, lhe pergunte – Você é meu animal de poder?”. Assim, era óbvio que eu tinha de entrar naquela gruta escura. Mas algo me deteve. Não foi o medo nem nada parecido, pois eu de fato estava ansioso por encontrar algum animal que fosse. Foi algo mais inusitado: o ressonante piar de alguma ave, lá no alto, que descia em círculos em minha direção. Era ela quem não me deixava entrar!

Assim, acomodando meus olhos a claridade que vinha do alto, e desviando das gotas da cachoeira, pude contemplá-la em toda a sua beleza e magnitude: uma Águia de penas brancas e acinzentadas [2], imperadora do ar, vinha circulando pelo céu...

Ela havia me escolhido há quem sabe tantas vidas, e era ali, precisamente na entrada da gruta, o nosso reencontro tão esperado. O tipo de reencontro que será lembrado por muito, muito tempo.

» Em seguida, voando com a Águia...

***

[1] Segundo Marcelo Del Debbio, “o Templo Astral é uma das primeiras coisas que um estudioso de ocultismo aprende a fazer, em praticamente qualquer Ordem ou Fraternidade que ingresse. Trata-se de uma construção no Plano Mental e Astral de um refúgio onde o magista pode descansar a mente, preparar uma viagem astral e guardar suas ferramentas. Trata-se de um local onde ele pode até mesmo realizar rituais se não dispor de espaço físico no Plano Material para tal”. Eu devo acrescentar que uso o meu Templo para tudo, desde breves meditações a trabalhos espiritualistas em geral, seja no campo do espiritismo e umbanda, seja no campo da magia. Saiba como criar o seu.

[2] Aqui é preciso ser sincero e admitir que o que eu vivenciei foi mais o conceito, o símbolo de uma águia. O que me chamou mais a atenção foi o seu rosto (os olhos e o bico), e não tenho certeza se era uma águia de cabeça branca, aquela mais famosa que é inclusive símbolo dos EUA, ou alguma outra espécie. Para este relato, eu optei por considerar a espécie Geranoaetus melanoleucus, a águia serrana, por ser uma espécie que vive em território brasileiro. Talvez seja só o incômodo de um cético, me perdoem.

Crédito das fotos: [topo] AESG/Divulgação (Fernando Maiorino durante o V Simpósio de Hermetismo); [ao longo] avespampa(.)com(.)ar (Águia Serrana)

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1.12.16

A iluminação é um caminho

Eu já não me interesso mais. Rafael Arrais se tornou desimportante, transbordou para olhares alheios, de transeuntes e andarilhos, de toda a gente que passa, dos que se hospedam aqui por alguns dias, algumas vidas, ou dos que somente acenam da estrada, e até dos que sequer me viram.

Não me interessa ser visto, mas ver. Contemplar as pétalas douradas que pairam pelo ar, deslizando suavemente, viajantes das copas das alturas, capazes de embelezar as raízes mais grotescas.

Não que meus bosques também não escondam monstros ocultos nas folhagens, e abominações a se esgueirar no lodo dos lagos e no fundo das cavernas. Mas eu já não me interesso mais.

Me interessa mesmo é perceber até onde se aventura essa luz que vem do Alto, e reflete em pequenos espelhos, perpassando olhares e sorrisos e lágrimas. Todo homem e toda mulher é um espelho. Cada poema, cada conjunto de cascas deste sentimento antigo, nada disso é realmente meu: me interessa a reflexão da luz, Rafael Arrais se tornou desimportante.

Não me interessa ser visto, mas ver. Já singrei por este mundo muitas e muitas vezes, trafegando dentre olhares que nada veem, nada sentem, nada imaginam... Já sangrei por dentro e cheguei a crer que a Criação não tinha mais salvação. Mas tudo isso perdeu a importância no momento em que saí de mim, em que transbordei, em que sangrei e gargalhei e dancei com o Tudo...

Um dia acreditei que entraríamos no céu de mãos dadas, mas agora, vendo toda esta cena do Alto, creio que chegaremos dançando e cantando, celebrando a Alvorada, e é precisamente esta música que irá atrair a todos os demais. A sua melodia e a sua luz ecoará em todos os territórios, e vencerá até mesmo os seres mais acinzentados e entediados. Me interessa é ouvir esta canção de chamamento! Vem, seja você um idólatra ou adorador do fogo, vem assim mesmo...

É verdade que a iluminação é um caminho, não um ponto de chegada. Nesta estrada há muitas vidas e muitas noites, é certo, mas também há muitos archotes a indicar a próxima estalagem, muitos faróis a indicar a próxima ilha. Me interessa é esta procissão galáctica. Não sou o guia de ninguém, somente o mensageiro.

Eu já não me interesso mais. E de tanto me desinteressar de mim, acabei rodopiando junto com tudo o que vibra, tudo o que jamais esteve parado, nem sequer por um piscar de olhos. E foi precisamente aqui, nesta dança em turbilhão, neste movimento eterno em direção a Fonte, é que cheguei a estas palavras:

Rafael Arrais, você que é todo o amor do mundo, você que é o Uno em Tudo, o centro de gravidade deste giro, diga: Eu sou você.


raph’16’A.’.A.’.SG

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Nota: Este texto trata essencialmente sobre aquilo que nos conecta a todos numa imensa rede de almas. Você pode muito bem ler este texto substituindo o nome "Rafael Arrais" pelo seu próprio nome, não faz diferença, ele apenas chegou por mim.

Crédito da imagem: Irmãos Hildebrandt (Lothlorien)

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12.11.16

Metafísico

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Meus amigos às vezes me dizem que eu sou um cara meio metafísico. Quase sempre eles têm toda a razão.

Não sei quando isso começou direito, provavelmente bem cedo. Por agora me lembro especificamente dos engarrafamentos em Copacabana, e eu na janela do 485, a caminho da faculdade de Artes no Fundão; ou seja, a uma boa hora de distância, quando tinha sorte!

Mas mesmo quando tinha azar e ficava preso muito tempo na Nossa Senhora, havia muito o que se observar pela janela, muito o que refletir – e a luz, como já devem saber, foi criada para ser refletida.

Ora, aqueles raios que me alcançavam numa esquina do Rio de Janeiro levavam menos tempo para viajar do Sol até ali do que eu levava para chegar na porta da aula de desenho. Todos os dias eles me venciam, e ricocheteavam na lente dos meus óculos e rumavam sabe-se lá para que outro canto do Cosmos.

Mesmo desenhando, é impossível explicar o que se sente ao compreender que nós mesmos também somos parte do que foi forjado no núcleo dos sóis, e catapultado a imensidão. Nós mesmos também somos hidrogênio, oxigênio, carbono, ferro e muitos outros elementos pesados das forjas estelares. Nós mesmos também vivemos mergulhados no oceano cósmico, e não aprendemos a nadar em suas profundezas somente por ter lido manuais de natação...

As palavras, as cascas de algum sentimento ancestral, escapam. Mesmo aos poetas mais loucamente cosmológicos, elas escapam!

Então estou tomando um delicioso chopp de trigo nalgum bar deste canto do hemisfério sul na terceira pedra do Sol, e tento fazer com que meus amigos percebam que nem a caneca em cima da mesa está perfeitamente parada, nem nós mesmos em nossas cadeiras, nem o planeta, nem mesmo a estrela por onde temos girado.

Desde o mais ínfimo átomo do trigo, tudo vibra e nada está parado. E em meio a conversas sobre resultados de partidas de futebol e eleições, não só o bairro da Lapa, como nossa galáxia inteira está a rodopiar junto a um aglomerado de bilhões e bilhões de sóis e seus mundos, rumo a onde quer que este Big Bang queira nos levar!

Enquanto vivemos esta vida entre dois séculos contados desde o nascimento de Cristo, as placas tectônicas se movem alguns bons milímetros, e algumas montanhas crescem um pouco, enquanto outras diminuem. Há árvores imensas e frondosas que nos viram nascer, e ainda verão muitas gerações de nossas famílias chegarem e partirem novamente.

Pasmado com tanta grandiosidade, posso muito bem concordar com Caeiro, há de fato metafísica suficiente em não pensar em nada...

E assim, de tanto não pensar, de tanto sentir, quem sabe eu também deixe de ser metafísico por um instante, quem sabe por breves momentos deste ir e vir incessante de sóis e átomos eu consiga deixar este observador de lado, para me espalhar por tudo o que há.

Não há misticismo maior do que romper tal casulo do ser, e voar assim, verdadeiramente liberto, seguindo a fragrância ancestral deste Amor que mantém a dança dos mundos: uma abelha seguindo o caminho do pólen, um pássaro rumando ao Monte Kaf, um louco saltando um abismo, um franciscano em busca de um bom pedaço de pedra para usar como tijolo em sua igrejinha, um físico maravilhado com a relação entre o espaço e o tempo, um poeta a escrever com sangue e lágrimas...

E depois voltar, da eternidade para a Lapa, e terminar o chopp, junto aos amigos. E olhar rapidamente para as estrelas, sem que percebam, e orar esta grande oração de uma palavra só, gratidão. É este, meus caros, o meu Evangelho!

Mas nada disso era para ser dito. Nada disso terá fim, tampouco teve um início...


raph’16

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Crédito da imagem: Google Image Search/Holzweg

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28.9.15

Lançamento: A educação de Casanova

Neste conto em 10 capítulos, o autor nos convida a uma viagem por Istambul (Turquia), Las Vegas (EUA), Rio de Janeiro (Brasil) e, sobretudo, pelas profundezas da alma e da sexualidade humana. Uma história para amantes, amados, e para quem se dedica a amar mais e melhor a cada dia, um pensamento de cada vez...

Um e-book recomendado para maiores de 16 anos, que pode ser baixado ou lido gratuitamente nas seguintes lojas (em breve, também na Amazon):

Baixar grátis (Kobo) Ler online (Google Livros)

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Eu considero este conto uma das melhores coisas que já escrevi, inclusive porque a inspiração para escrevê-lo surgiu aos poucos e de forma um tanto estranha. Primeiramente, me pareceu que se trataria de um conto erótico, e eu relutei por muito tempo em iniciá-lo... Quando finalmente comecei, percebi que seria uma aventura muito mais profunda do que havia imaginado de início.

Cada um dos três trechos em cidades diversas, que compõem juntos os 10 capítulos do conto, foi escrito em momentos diferentes, com intervalos de meses entre eles. No final, tudo acabou fazendo algum sentido, mas quando iniciei não fazia a menor ideia de para onde a história iria se encaminhar. Acredito que boa parte da "estranheza" do texto se refira também ao meu próprio sentimento de estranheza ante a sua temática e a inspiração que me impeliu a escrevê-lo.

É, enfim, um conto que superficialmente não tem muito a ver com a maior parte do que escrevo aqui no blog, mas se puderem mergulhar dentro dele, verão que acaba tendo tudo a ver... Boa leitura!

raph


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4.9.15

Aylan

Primeira vez que vi anjinha foi em noite fria. Anjinha escorregou do céu e entrou em quarto de eu. Tinha vestido todo branco que nem a lua, e era tão bonita que nem mamãe. Papai e mamãe não gosta que eu vá para longe brincar com gente que não sei o nome, no parque e na rua e todo lugar. Dizem que quem a gente não sabe o nome pode ser homem mau e machucar eu. Mas anjinha não diz o nome dela.

Anjinha vai e volta de escorrega do céu ainda muitas noitinha. Como já conheço ela brinco com ela e tudo e não preciso saber de nome. Mas anjinha já sabia meu nome quando me viu primeira vez: Aylan.

Quando era bebê não sabia nada. Mas papai me diz que somos filhos do Curdão. Então eu cheguei no mundo lá em Babani, onde mamãe e papai e irmãozinho morava. Babani era lugar bonito cheio de criança que nem eu, e árvore e flor e parque e gente com sorriso. Assim eu fiquei grandinho e não era mais bebê, e achei que iria ficar para sempre ali com mamãe e papai e irmãozinho e gente amiga, no Curdão.

Um dia falei para mamãe da anjinha, e ela não gostou. Disse que essas coisa é de povo atrasado que não conhece Alá. Disse que Alá é maior que tudo e tem coração gigante que ama todo mundo. Disse que anjinha podia ser coisa da minha cuca, coisa que veio na cabeça. Não entendi mamãe nunca porque anjinha escorregava do céu, coisa que nunca vi nenhuma gente fazer. E nunca vi esse Alá.

Mas eu continuava crescendo e brincando de monte. Numa noite que tava ventando quente e fiquei olhando pro teto, anjinha apareceu e tava triste. Ela disse que ficaria tempos sem escorregar e vir a noite brincar comigo. Disse que mundo tava meio doido e que eu e mamãe e papai e irmãozinho logo teria de viajar pra bem longe. Que era perigoso, mas que ia cuidar de nós, e que um dia ela voltava para me ver. Fiquei triste de ver ela indo embora, não sabia quando ia ver anjinha de novo.

Um dia, muitos dia depois, acordei com um BUM. Papai entrou correndo no quarto de eu e irmãozinho e disse para gente ir pra baixo da cama no quarto de mamãe. Disse que era nova brincadeira que a gente ia fazer toda hora que desse um BUM. Tava com medo. Nesses dia e noite tinha muitos, muitos BUM, e a casa tremia toda que nem na história dos porquinho.

Assim foi muito tempo e eu e irmãozinho já não saia muito de casa. Em volta de casa tudo ficava cheio de pó e bem cinza, cheiro ruim! Não ia mais a parque, nem sabia se tinha parque ainda. Babani tava sendo atacada pelos homens mau do Isi. Papai falou que o povo do Curdão ia defender cidade e com máquina de fazer BUM iam fazer povo mau correr pra longe.

Eu tinha saudade de anjinha, mas não falava para mamãe nem papai porque eles já tava muito chatiado com tanto BUM que estourava em Babani. Mamãe chorava mais que irmãozinho. Eu não chorava porque meu pai falou que não era bom de homem chorar. E eu não era mais bebezinho.

No dia que papai chorou, foi porque tinha de sair de casa, sair de Babani e do Curdão. Papai pegou terra de Babani na mão e beijou, e disse que um dia a gente voltava, mas que a gente tinha de ir para a terra da titia, no Nanadá, para ter escola e parque e brincadeira para eu e irmãozinho de volta. Papai disse que a gente ia pra Tuquia e ia pegar um barco bem bonito na praia. Eu nunca tinha ido na praia nem andado de barco! Achei que anjinha tava enganada em preocupar comigo. Era muito bom fazer viagem depois de ficar tantos tempo em casa sem nada para brincar, com mamãe e irmãozinho chorando, e tanto BUM, BUM, BUM!

Assim a gente pegou camião cheio de pessoa que não sabia o nome. Mas papai disse que era tudo gente boa, que também tinha de viajar com a gente. Ali naqueles dia andando no camião com tudo tremendo, fiquei com fome e sede vez de quando, mas foi legal porque vi muitas terra de longe e conheci algumas crianças já maiores que eu. Algumas delas chorava vez de quando também. Não eu, porque sabia que anjinha tava de olho em eu, em mamãe, papai e irmãozinho.

A gente chego na praia. Que lindo o marzão. Nossa dava vontade de ir correndo lá no fundo até ver o que tinha do outro lado. Mas papai disse que eu não podia andar na água e que afundar era perigoso e coisa assim. Disse que para a gente andar em cima da água tinha de ir de barco.

Mas quando chego o barco papai ficou muito chatiado. Disse que era barquinho pequeno demais para toda a gente. Mesmo assim a gente foi. Eu gostei porque nunca tinha ido de barco, e tremia menos que camião. A gente toda apertada em barco era que nem brincadeira em parquinho com todas criança na areia. No começo as onda balançava a gente mas não muito, e assim foi indo e indo e indo, e já quase não via nem praia nem Tuquia nem Babani. Tinha saído do Curdão e indo pro Nanadá.

Depois as onda começou a balançar demais a gente. Teve gente que fez coisa feia e cuspiu comida para fora. Mas eu não fazia isso porque sabia que era coisa feia. Assim foi indo toda a gente no barco, cheio de medo. Irmãozinho começa a chorar e muita gente começa a reza para Alá. Mas eu não sei reza e daí eu só lembrava da anjinha que disse que ia cuidar de nós.

Então o barco viro e caí na água gelada do mar. Tava gelada demais e não lembro direito o que passou. Lembro que papai gritava e tentava segurar eu e irmãozinho e mamãe, mas não deu para ele segurar nós tudo porque vinha muitas onda, sobe e desce de onda enorme no mar. Assim eu nem senti direito quando escorreguei que nem fazia a anjinha, só que de baixo pra cima.

Escorreguei do mar para o céu e lá tava a anjinha e um pavão bem bonito. Não dava para entender em que casa eu tava, nem se anjinha tava triste ou feliz. Anjinha tava é preocupada com resto de nós que ficou no mar. Eu não, porque tava bem melhor ali do que na água gelada, e sabia que anjinha ia ajudar mamãe e papai e irmãozinho a chegar no Nanadá.

Eu não, eu não queria ir pro Nanadá ver titia. Queria ver anjinha, então para mim tava bom. Mas eu queria saber só uma coisa, então disse pra ela:

“Mas por que homens mau do Isi vem e faz maldade em Babani se nós nunca fez maldade para eles?”

Assim, anjinha deu sorriso que nem os tempo que vinha de noite escorregar no meu quarto e me disse:

“Aylan, eles se esqueceram a tempo demais como é ser criança...”


raph’15

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O documentário Kobani Vive traz o olhar do fotógrafo brasileiro Gabriel Chaim sobre as ruínas de Kobani, a cidade curda que derrotou o Estado Islâmico, perto da fronteira entre a Síria e a Turquia. Através dele, podemos imaginar porque o pai de Aylan Kurdi decidiu fugir de Kobani, onde vivia, para tentar alcançar sua irmã no Canadá:

» Assista Kobani Vive

Crédito da imagem: Khalid Albaih

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5.8.15

Alumínio

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Há algum tempo atrás li num livro que Napoleão, o imperador da França, tinha uma pequena coleção de talheres de alumínio, e que os guardava somente para si e os seus convidados mais ilustres. Os demais usavam talheres de ouro mesmo.

Isto porque, na sua época, a produção de alumínio em larga escala havia sido recém-descoberta, e ainda era tão cara que os talheres ou joias feitos de alumínio tinham muito mais valor do que os mesmos forjados em ouro. Somente algumas décadas depois, ao final do século XIX, é que novas descobertas científicas permitiram que a produção de alumínio se tornasse bem mais barata [1].

Mas não consta que durante o reinado de Napoleão os alquimistas franceses tenham substituído o ouro pelo alumínio. Que eu saiba, eles continuaram tentando transformar o seu chumbo em ouro, como antes.

Ocorre que o ouro dos alquimistas nada tinha a ver com o ouro dos talheres comuns de Napoleão. Se tratava de um ouro mais etéreo, mais espiritual, mais simbólico. Um ouro, de fato, muito mais difícil de produzir do que aquele ouro mais comum. No entanto, um ouro que não se sujeitava as leis de escassez, da oferta e procura – enfim, um ouro que nunca esteve à venda.

Outra importante consideração a fazer sobre os alquimistas é que eles não valorizavam seus mestres pelo seu peso em ouro, mas sim pela sua luminosidade.

Na antiga Atenas um grande mestre das ideias também se tornou puro ouro. Mas ele fazia questão de ressaltar que nada sabia. As ideias tinham valor por si mesmas, ele provavelmente pensava, e o fato de orbitá-las não o fazia seu dono, apenas o seu divulgador. Ele era apenas um espelho devidamente polido, tudo o que fazia era refletir alguma luz vinda sabe-se lá de onde...

E se ele repetia há todo momento que tudo o que sabia era que nada sabia, é porque era sábio o suficiente para compreender a grande e vil armadilha que se arma para aqueles que julgam que o seu ouro é sua propriedade, e não a propriedade de toda a humanidade.

Pois que se a fonte dourada é represada pelas alucinações do ego, ela perde a sua pureza, e se torna fétida.

Afinal, aquele que se torna imperador de si mesmo produz não talheres, mas o próprio alimento para todos aqueles que vagam por este mundo, esfomeados e desamparados. São eles quem precisam ser alimentados, e não o ego!

Assim, o sábio que conquistou os seus próprios países, que marchou sobre a própria sombra e a trouxe para o seu exército, dispõe de riqueza inimaginável.

Mas como isso valeria mais do que ouro?

Ora, se os pretensos alquimistas tivessem sucesso, e se todo o chumbo do mundo se transmutasse em ouro, os talheres mais valiosos passariam a ser de prata. Isso já não diz muito sobre o valor que damos ao ouro?

No entanto, o outro ouro, o ouro dos verdadeiros alquimistas, será sempre o bem mais valioso! E no dia em que ele deixar de ser tão raro, no dia em que for tão comum quanto o alumínio de Napoleão, então esta terra estará cheia de imperadores sem súditos, e um céu dourado terá sido derramado sobre o mundo...

Há uma batalha diária, feroz e violenta, para que cada pensamento se livre do seu chumbo, e se eleve e se doure e se torne sublime!

Para aqueles que creem que o céu está lá fora, cheio de deuses misteriosos, esta é uma guerra sem sentido.

Mas para aqueles que trouxeram seus deuses para dentro, esta é a única guerra que merece ser travada, a grande guerra alquímica.


raph’15

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[1] Essa história também é contada neste artigo: Você sabia que o alumínio chegou a valer mais do que o ouro?

Crédito da imagem: Google Image Search/todayifoundout.com

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22.7.15

O dia que não passou

Se você já correu em bando atrás de uma pipa perdida, se já escalou árvores para comer frutos na companhia de outros adoradores da tardinha, se já se aventurou em florestas, praias e cavernas, reais ou imaginárias, desde que junto ao seu fiel grupo de aventureiros, então não é falso este sorriso que irrompe sem aviso em sua boca, pois que ele vem da alma.

De todas as lendas que os seres humanos criaram para o convívio em sociedade, do grande espírito da montanha aos duendes e fadas, do código da cavalaria a declaração dos direitos humanos, da teoria do big bang a bolsa de valores, só há mesmo uma entidade que não desvanece com o tempo, nem escapa, como tudo o mais, por entre nossos dedos sedentos de permanência...

Neste mundo somos livres, nos disseram, para buscar o que bem quisermos. Há aqueles que rodam todo o globo atrás de tesouros, e outros que fazem longas jornadas, todos os dias, enquanto contemplam o giro de tudo, sem sequer saírem do lugar. O que importa é que, seja aqui ou no Himalaia, ninguém pode escalar mais alto do que o pico que reside em seu interior.

E ainda que a pedra mais preciosa estivesse, em realidade, nas profundezas do Oceano, de nada adiantaria montar uma grandiosa empreitada para sugar suas águas – nenhuma máquina será capaz de esvaziar a alma, somos nós que temos de mergulhar e encontrar essa pérola cintilante, somente nós!

No entanto, é até estranho de se pensar, mas todos os vislumbres de tal milagre, todos os suspiros de saudade, todas as lágrimas de angústia, todos os solavancos cardíacos e, enfim, todos os momentos de pura e plena paz, em que deixamos nosso intelecto de lado e vivemos a experiência em si, sem crer nem descrer, sem ansiar nem temer, tudo isso ocorreu no dia em que o ser olhou para si, espalhado e espelhado pelo mundo, e compreendeu, ainda que sem saber, e de seus lábios emergiram estas palavras:

“Isto sou eu...”

E este dia não passou, pois ele mora no coração da eternidade.


raph'15

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Crédito da imagem: Google Image Search/Reflections Wallpaper

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5.6.15

Mergulhando em corações, parte 2

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).


« continuando da parte 1

A festa prosseguiu com apresentações de danças tradicionais indianas e curiosos desfiles de moda [1], e Atmaji se parecia com qualquer um de nós, aplaudindo junto com todos, sorrindo junto com todos... Para mim, isto indicava muito mais a sua sabedoria interior do que o contrário. Até aquele momento eu ainda não havia chegado a uma conclusão se ele era mesmo um mestre ou não. Foi somente quando a música começou que eu me decidi...

Atmaji não era somente um sábio conhecedor profundo de diversos tipos de yoga em sua terra natal, ele era um dançarino nato! E ele não dançou de sua cadeira, evidentemente, ele veio para o meio do palco, para o meio da tenda e, com pés descalços sob os tapetes, como boa parte dos presentes, dançou com todos nós... Foi ali que eu me decidi – afinal, eu só poderia acreditar num mestre que saiba dançar ao lado de todos.

Ao som de diversas melodias distintas, dançamos os cânticos de devoção a Krishna e Rama [2], que aposto que muitos de vocês já ouviram algum dia: Hare, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare ô ô... Hare, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare ô ô...

Todos dançavam com total liberdade. Não existia coreografia, nenhuma espécie de passo decorado, nem muito menos danças de casal, embora muitas vezes as pessoas se dessem as mãos ou atravessassem um ou ambos os braços através dos ombros das outras... Dizem que eu mesmo acabei sambando nalgum momento, mas isso não posso confirmar :)

Havia um garoto mais jovem, no final da adolescência, que estava tão empolgado que, num movimento brusco enquanto dançava junto a Atmaji, acabou acertando seu queixo com uma cabeçada involuntária. Eu observei a cena de perto e me impressionei com a forma como ele reagiu, ou melhor, como não reagiu. Apenas sorriu, foi como se nada tivesse ocorrido. De fato, nada havia ocorrido, nada além daquela bela dança de almas numa noite enluarada do centro do Brasil.

Mas toda dança tem seu fim, e ao final daquela dança abriu-se espaço para algo ainda mais belo – os presentes na festa fizeram perguntas ao mestre, e ele respondia, com breves intervalos para um ou outro sorriso [3].

Uma mulher estava triste porque, apesar de ter passado a semana com Atmaji e praticado diversas meditações e rituais de purificação, acabou reagindo mal a uma provocação em casa, e discutiu rispidamente com alguém próximo. Ela se sentia culpada de haver “falhado”, e chegou a chorar enquanto relatava o ocorrido... Após Abhishek haver traduzido a pergunta para o inglês, eis o que seu mestre respondeu:

Você não é o pecado, você é o observador do pecado. Isto já passou, e você não pode fazer nada em relação ao que já foi. Concentre-se no que pode fazer daqui para frente. Ninguém se iluminou da noite para o dia.

Um homem pergunta sobre o que é a iniciação pela qual Abhishek passou, e que todos teriam a oportunidade de passar, se fosse o seu desejo, no dia seguinte. Ele estava especialmente preocupado com a perspectiva de, quem sabe, ter de abandonar a sua religião atual. E o mestre lhe disse:

A iniciação é como a morte para o seu eu mundano, para que o seu novo eu divino possa florescer em todo o seu esplendor. Isso não tem a ver com igrejas, mas com a sua relação com a sua essência divina. Você poderá continuar na sua religião atual, no problem.

Uma mulher quis saber se é possível estar “sempre feliz”, como Atmaji aparentava. E quando passamos por grande tristeza, como fazer para continuar no caminho espiritual? O mestre ficou sério e respondeu:

Eu tento levar a vida com bom humor, esta leveza em relação às coisas é essencial. Mas isso não significa que, se um parente meu morre, eu não deva ficar triste, eu não deva chorar. Nós devemos viver o momento, completamente! Se o momento é de tristeza, viva esta tristeza. Se o momento é de alegria, viva esta alegria. Mas não ignore jamais o que ocorre com você. É preciso, a cada momento, estar muito atento ao que se passa em nosso interior.

Outra mulher relata que esteve presente em todos os eventos com Atmaji ao longo da semana que antecedeu a festa, mas que continuava em dúvida se deveria ou não participar da iniciação do dia seguinte. Ela relatou com convicção que Atmaji apareceu em alguns dos seus sonhos recentes, incluindo o da noite anterior, e acabou lhe convencendo a fazer a iniciação. O mestre, após rir de quase gargalhar, disse assim:

Eu senti que você estava pronta, então fui até o seu sonho para lhe dar a minha opinião sobre o assunto...

Estranho, não? Mas não havia sido a única... A Vânia, minha amiga do Mayhem, a quem conheço há alguns anos e de quem não tenho nenhuma razão para duvidar, já havia nos dito que Atmaji tinha aparecido num de seus sonhos, e que foi por conta disso, principalmente, que havia decidido vir naquela festa. O detalhe é que foi a Vânia quem nos chamou e estimulou a ir (além de mim e do Marcelo, ainda veio outro integrante do Mayhem, o namorado da Vânia), portanto não fosse por essa estranha prática de visitação dos sonhos alheios, quem sabe nenhum de nós teria conhecido o mestre indiano.

Já pelo final da festa quase todos fizeram uma fila enorme para serem abençoados por Atmaji. Eu preferi ficar fora da fila de início, e observar a reação das pessoas após haver meditado um tantinho ao seu lado, o que sempre terminava com um efusivo e prolongado abraço.

Foi assim que percebi que muitos tinham reações espontâneas ao seu lado. Uns riam, como ocorria comigo; uns choravam; e ainda outros (como era o caso de MarciAisha) riam e choravam ao mesmo tempo!

Quando finalmente chegou a minha vez, e ele novamente levou as minhas mãos de encontro as suas, percebi que a energia que sentia não tinha relação propriamente com a pessoa de Atmaji, mas com o espelho que ela havia se tornado. Ele apenas refletia a luz que vinha de algum canto do cosmos, e a luz foi criada para ser refletida.

De olhos fechados, eu tentei me conectar com essa luz, para que ela jorrasse ainda mais, em cântaros, sobre nós, sobre os que estavam naquela festa tão familiar, sobre a vizinhança, o país, o mundo inteiro... Nossas mãos de moviam juntas e em posição de reza, para o alto de nossas cabeças. Não me senti impelido a tal, de fato era como se alguém alheio a nós dois estivesse no comando daqueles movimentos todos... Uma coisa divina, pois de fato somos todos da raça dos deuses.

Então o movimento terminou no peito do mestre, e subitamente eu senti, ainda que por um momento tão breve quanto eterno: era como se eu estivesse mergulhando num coração gigante, como se o mundo inteiro se conectasse por aquele eixo de vermelhidão. Foi então que, numa mesma noite, numa mesma festa divina, eu não somente conheci um mestre, como mergulhei no Coração do Mundo.

Ao final, era desse poema de Rumi que eu me lembrava, inscrito em fogo em minha alma...

Sofreste em excesso
por tua ignorância,
carregaste teus trapos
para um lado e para outro,
agora fica aqui.

Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.


Para Vanessa, Marcos, Vinícius, MariAisha, Anny, Edilene, Nilton e Åsa... Foi inesquecível!

***

[1] A Om Namastê, o espaço onde se realizou a festa, além de ter aulas de meditação e yoga, é também uma loja de roupas indianas. Para quem morar em Campo Grande/MS e se interessar, vale a visita.

[2] Krishna é a personificação humana (avatar) do Espírito eterno ou Ser Supremo, representado pelos três grandes deuses hindus: Brâma, Vishnu e Shiva; pela ordem, o criador do universo, o mantenedor, e o destruidor e renovador. Já Rama é um dos avatares do deus Vishnu. Ambos são personagens importantíssimos nos Vedas.

[3] Na realidade houve esta festa num sábado à noite, e uma iniciação na tarde do domingo seguinte, no mesmo local, e que eu não descreverei neste conto. Não tenho certeza de quais perguntas foram feitas num dia ou noutro, pois estive presente em ambos, e em ambos Atmaji abriu espaço para as perguntas das pessoas. As respostas do mestre no texto são em realidade aproximações do que eu me lembro de ter ouvido, conjuntamente com alguns vídeos que tenho visto onde ele expõe o seu pensamento.

» Saiba mais sobre Atmaji em seu site (em inglês): upanisha.org

Crédito das fotos: Om Namastê (o espaço onde foi realizada a festa; obs.: o sujeito dançando é Atmaji)

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4.6.15

Mergulhando em corações, parte 1

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).


Há anos atrás Marcos estava meio desiludido com toda a sua busca espiritual. Havia nascido no Brasil, mas morado no Japão, nos EUA e noutros cantos deste planetinha, até que resolveu “se aposentar do trabalho formal” e viajar para a Índia, em busca da fonte original de tantos textos sagrados que havia lido ao longo da juventude.

Marcos estava num restaurante indiano, não propriamente “afogando as mágoas”, pois dificilmente se acha bebida alcóolica por lá [1], mas antes, quem sabe, finalmente encarando a própria tristeza. Faltava ainda algo em sua busca, algo essencial...

Dizem que quando o discípulo está pronto, o mestre aparece, e foi exatamente neste restaurante que Marcos encontrou Atmaji conversando com amigos, admiradores e discípulos. Marcos entrou na roda, e nunca mais saiu... Virou um dos discípulos de Atmaji, e ainda hoje vive entre o Oriente e o Brasil. É através de seu mestre que prossegue firme em seu caminho de autoconhecimento e autorrealização, seja acordado ou sonhando.

A diferença é que não existe mais Marcos. Desde que foi iniciado no ashram [2] de Atmaji, aquele que era Marcos vem, passo a passo, se transformando em Abhishek Ji. Não se trata só da mudança do nome mundano para o nome divino – lentamente, ele mesmo também morre para o seu eu anterior, e renasce como alguém destinado a iluminação.

Atmaji é, quem sabe, décadas mais velho que Abhishek, mas já alcançou a iluminação há muitos anos. Fora farmacêutico e praticante de diversos tipos de yoga, mas após haver alcançado a iluminação, fez como outros mestres, e resolveu dedicar o restante dos seus dias neste planetinha para tentar auxiliar os demais a se iluminarem junto com ele...

Foi assim que ele concordou em acompanhar Abhishek numa viagem pelo Brasil e, eventualmente, até a sua cidade natal, Campo Grande/MS, que curiosamente é a mesma cidade em que eu vivo hoje. Afinal, não estaria lhes contando toda essa história se não houvesse eu mesmo os encontrado por essas bandas de cá.

***

Para nós que seguimos na trilha espiritual através do estudo de diversas religiões, doutrinas, filosofias e mitologias diferentes, quase que como “turistas de egrégoras”, a melhor coisa é poder contar com amigos na caminhada. No caso, foi através de amigos tanto do Mayhem [3] quanto de um grupo que se reúne para entoar mantras hindus e sufis que eu fiquei sabendo da tal Festa Indiana do sábado a noite, que por acaso era organizada por Abhishek e pelos donos do espaço de meditação e yoga onde ela seria realizada.

A primeira coisa que notei ao chegar com a Vânia, uma amiga do Mayhem, foi a bela decoração do lugar. A festa seria num espaço aberto, onde montaram uma tenda (também aberta) com um longo tapete, cheio de almofadas decoradas, sofás e bancos longos de madeira, tudo no estilo indiano. As pessoas podiam ficar sentadas no tapete, nas almofadas ou nos bancos, e apreciar a miríade de pequenas velas, vasos de plantas e estatuetas de deuses hindus. Atrás das cadeiras onde sentariam Atmaji e seu discípulo brasileiro, podíamos admirar um belo pôster de Krishna e Radha, sua amante.

Lá me acomodei no espaço de um dos longos bancos, próximo a Marcelo, outro amigo do Mayhem, e ao grupo dos mantras. O interessante é que havia encontrado MarciAisha (que era quem organizava a entoação de mantras semanal num studio de dança árabe) exatamente através de minhas traduções de Rumi, o poeta sufi persa. MarciAisha me procurou nas redes sociais querendo saber mais sobre Rumi, e assim ficamos amigos... Pois bem, e eu estava lá naquela festa principalmente por conta de outra tradução que venho tocando neste ano, a do Bhagavad Gita [4].

Ou seja, a minha ideia era mais me “ambientar” neste universo do hinduísmo, e ter uma experiência direta com seus cantos, sua dança, e seus seguidores. Para falar a verdade, não imaginava que o tal “guru iluminado” fosse acrescentar muito a minha noite naquela festa, mas logo veria que estava muito enganado...

Assim que Atmaji e Abhishek chegaram, boa parte das cerca de 60 pessoas da festa foi ao seu encontro para abraçarem e tirarem fotos com o mestre indiano. Após algum tempo, foi nossa vez de nos aproximar... Foi MarciAisha (que já o conhecia) quem me apresentou a Abhishek, e após conversarmos rapidamente sobre viagens de trens na Índia e traduções do Gita em inglês, chegou a minha vez de ser apresentado ao mestre.

Ora, eu definitivamente não chamo muita gente de mestre. Que eu me lembre, nesta vida encontrei pessoalmente somente dois: o Professor Hermógenes, com quem dialoguei algumas vezes no Rio de Janeiro (onde nasci), e Marcio Lupion, de quem vi somente uma palestra uma vez (e foi o suficiente)... Mas quando me aproximei de Atmaji e olhei seus olhos por detrás das lentes de seus óculos, fui repentinamente inundado de uma doce e perene alegria. Era como se ele, como os demais mestres que havia tido o privilégio de encontrar, vivesse num outro tempo, num mundo mais próximo da essência das coisas do que de seu fluxo constante e ilusório.

Ele juntou minhas mãos com as dele e, num inglês tipicamente indiano, me perguntou meu nome, onde nasci e há quanto tempo morava em Campo Grande. Eu respondi tudo em meio às risadinhas que me surgiam a boca, só por estar por ali ao seu lado. Depois nos abraçamos... Eu tive vontade de ficar abraçado por muito tempo, e ele não esboçava nenhuma reação de encerrar tal abraço. No fim das contas, fui eu quem ficou meio sem jeito e me apartei...

Em seguida, vieram outros conversar com Atmaji, e eu fiquei me perguntando, “Por que era tão importante ele saber onde nasci e há quanto tempo moro aqui?”.


» Na continuação, um mergulho no Coração do Mundo...

***

[1] Embora isso possa estar mudando.

[2] Ashram, na antiga Índia, era um eremitério hindu onde os sábios viviam em paz e tranquilidade no meio da natureza. Hoje, o termo ashram é, normalmente, usado para designar uma comunidade formada intencionalmente com o intuito de promover a evolução espiritual dos seus membros, frequentemente orientado por um místico ou líder religioso.

[3] O Projeto Mayhem é basicamente um grupo de colaboradores, leitores, estudantes e simpatizantes do Teoria da Conspiração, o portal ocultista de Marcelo Del Debbio. Deu tão certo que hoje existem grupos em muitas cidades do país.

[4] A quem possa interessar, o livro de Rumi já foi lançado; já o Bhagavad Gita continua sendo traduzido...

» Saiba mais sobre Atmaji em seu site (em inglês): upanisha.org

Crédito das fotos: Om Namastê (o espaço onde foi realizada a festa)

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19.3.15

A educação de Casanova, parte final

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 9


10.

Quando se está a deriva em águas profundas, nunca se sabe até onde as correntes marinhas podem nos levar. Eu tentei nadar em direção a Janaína, mas subitamente percebi, enroscadas em meus tornozelos, as amarras que me atavam as profundezas. Neste momento tive medo, muito medo, mas criei coragem e olhei uma vez mais em direção à superfície, onde minha amada já desaparecia junto com os últimos reflexos da lua. Não sei bem como, mas mesmo lá no fundo, gritei com toda a vontade do meu pensamento:

“Meu amor, me ajude!”

E percebi, deslizando pelas águas fundas, um estranho brilho reluzente de alguma espécie de lâmina... Mas isto foi só por um breve momento, depois fui tragado pelas profundezas...

Lá no fundo, escuro como a noite eterna, vislumbrei e relembrei não somente quem havia sido, mas todos os homens que fui, desde antes das civilizações mais antigas de que a história já teve notícia.

Me vi como uma espécie de símio que ainda mal conseguia se colocar de pé. Meu plano de visão era totalmente terrestre, e eu ainda tinha de caçar os animais, ainda tinha de me alimentar de carne crua e cheia de sangue...Como podíamos viver sem contemplar as estrelas? Como sobrevivemos a tudo isso? Como, mesmo após tanto tempo, ainda aceitamos em nós alguns destes ecos animalescos do passado?

Ainda assim, em meio a tanto sangue e violência bestial, pude vislumbrar o despertar inesquecível do amor, da divina putaria... Pude ver como guardava a melhor parte da caçada para ofertar a uma fêmea ancestral. Pude ver como aquele jogo todo garantia que toda uma espécie pudesse não somente sobreviver num mundo selvagem, como lentamente, bem lentamente, aprender a caminhar de pé, e ver o céu, o sol, a lua, e todas, todas as estrelas da noite sem fim!

E subitamente, ao compreender como uma lótus tão bela podia nascer de um lamaçal tão denso, abri os olhos e percebi os parcos reflexos na lâmina cravada no fundo do mar. Aquela espada estranha era o presente de Janaína, mas a luz que conseguia adentrar tamanha profundidade era o presente do sol. Me senti seguro e reconfortado, mesmo indo tão fundo em mim – não há nada mais fundo do que Deus.

Criei forças para apanhar a lâmina, e com ela dilacerei todas as amarras que me prendiam ao passado. E, ao finalmente me livrar delas, tive uma clara revelação de tudo o quanto foi amor, e tudo o quanto foi bestialidade, não só na minha história, como em toda a história humana. Mas então já não sabia mais quem eu era, “Casanova” era agora tão somente um nome, uma casca que se desprendeu de algo muito maior, maior do que o mundo, maior do que qualquer coisa que alguém já pensou, imaginou ou calculou... A imagem daquilo que é lembrado para sempre, o eixo no qual gira tudo o que é, foi ou será...

Como um herói épico renascido, um mito renovado, nadei para a superfície do oceano, e me ancorei novamente no Campo do Leblon. Aquela praia continuava sendo a mesma, como qualquer outra praia do mundo, mas agora eu já não era o mesmo, agora eu enxergava as coisas como são.

Vinha nascendo a manhã, e Janaína havia desparecido por completo. Pouco importa, eu tinha todo o tempo do mundo para reencontrá-la... Finquei sua espada na areia (talvez alguém mais venha a precisar dela) e me sentei para observar o movimento do Cosmos:

Na beirinha, algumas crianças brincavam de construir castelos de areia e colecionar conchas. Os pescadores já vinham com suas redes e suas jangadas, apressados, mas a gurizada criava seus próprios barquinhos com as folhas secas que trouxeram das florestas.

Os pescadores arremessavam suas redes e conseguiam alguns peixes. Os barquinhos eram esfacelados pelas ondas, assim como os castelos... Mas as crianças não se importavam, elas já tinham inventado outras brincadeiras há essa altura.

Quanto milagre para um dia!

De fato, à partir daquele dia, não se passou um só momento em que não me sentisse profundamente excitado pelo simples fato de o vento passar, e as relvas farfalharem, e eu poder escutar a brisa, e sentir toda essa dança de vida que a grama faz.

Assim, nesta tranquilidade que se basta em si mesma, lembrei do que Dunia havia me segredado aos ouvidos, e que lhes disse que não poderia falar... Bem, agora eu posso, agora esta história está no fim, e não sou mais responsável por ela. Eis o segredo:

“Ninguém é capaz de gozar de olhos abertos.”

 

FIM

 

***

Esta foi a décima e última parte de A educação de Casanova, por raph em 2015.
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26.2.15

A educação de Casanova, parte 9

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 8


9.

O crepúsculo tomava rapidamente o céu do Campo do Leblon, mas meus olhos estavam perdidos, enfeitiçados pela pele sideral de Janaína. Seu corpo era tão negro quanto a noite, tão escultural quanto a arte renascentista de meu tempo, e tão excitante quanto o florescimento da primavera. As gotas salgadas que escorriam por entre seus volumosos seios nus, no entanto, disputavam minha atenção com a estranha máscara que cobria seu rosto: uma espécie de rede de onde pendiam inúmeras joias iluminadas, ou talvez fossem estrelas...

O mar estava calmo e soturno, de modo que ela nem precisou sair inteiramente dele. Como uma sereia, manteve somente metade do corpo na superfície, e acenou para mim. Em uma de suas mãos, havia um pequeno espelho, que ela parecia querer me entregar.

Retirei meus sapatos e larguei na areia, dobrei ainda mais a bainha da minha calça, e me encaminhei lentamente, pé ante pé, para aquele mar morno, que guardava lembranças do sol recém-saído de cena. A essa altura a beleza de Janaína era quase insuportável aos olhos. Eu gostaria de poder fazer um elogio digno dela, mas aparentemente ela não entendia a minha língua – quem sabe não entendesse língua alguma, quem sabe a própria linguagem lhe fosse inteiramente inútil.

Finalmente estava ao seu lado, sentindo a sua fragrância marinha, um cheiro qualquer de vida abundante, de fecundidade infinita... Meu coração batia aos solavancos; eu tinha minha cota de amores mortais, mas jamais havia me apaixonado assim por algo divino.

Mesmo por entre a rede estelar que cobria sua face, eu podia sentir que ela sorria. Mas o seu sorriso era ao mesmo tempo algo doce e assustador. Não parecia significar somente uma simpatia pela vida, mas antes um desejo de que a vida caminhasse a frente, sempre a frente... Janaína me estendeu seu espelho, e eu compreendi que ela me convidava para uma grande aventura, talvez a maior delas – uma jornada da qual ninguém poderia retornar igual a como partiu, ocorreria necessariamente uma espécie de “modificação”...

As palavras do velho pescador ressoavam na minha mente, “Para um sujeito qualquer, o encanto dessa moça é muito, muito perigoso!”

Mas retomei minha coragem ao lembrar de que não estava naquela praia à toa, aquilo tudo também fazia parte da reeducação conduzida por meu amigo Asik, ou quem sabe fosse uma ideia exclusiva de sua amada Dunia, mas não importava, em todo caso eu estava no caminho certo, o caminho para a alma...

Tomei o espelho de suas mãos e olhei para o meu próprio reflexo nele. A princípio não pude ver muita coisa, pois o vidro estava muito enferrujado, mas logo Janaína tomou um pouco da água do mar em suas mãos e jogou sobre ele, e pude ver claramente a mim mesmo, naquela bela noite quente, ao mesmo tempo cheio de curiosidade e de angústia... A curiosidade falou mais alto, a curiosidade sempre fala mais alto...

Mergulhei em meus próprios olhos, e era como se houvesse mergulhado no próprio mar, no próprio oceano que separava o Campo do Leblon da terra natal de Janaína – tão distante, e tão próxima!

Lá no fundo submarino, a primeira coisa que vi foi a mim mesmo nos bordéis italianos, há muito tempo, exercendo com maestria minha arte de sedução. Então eu pude rever toda a minha glória sexual, e subitamente pude compreender que aquilo tudo havia sido tão somente um primeiro passo na via do amor. Era verdade que Casanova havia desejado e amado, a sua maneira, cada uma das mulheres que penetrou, mas também me era claro e cristalino, naquele momento no fundo do mar, como minhas penetrações haviam sido superficiais, como havia me dado por satisfeito em me manter somente nas margens da alma, sem jamais mergulhar no fundo do coração de mulher alguma, tampouco no subterrâneo de mim mesmo...

Mas eu não sabia, eu não tinha como saber... Ó Asik, ó Dunia, ó Janaína, me desculpem, eu não tinha como saber! Se soubesse, por um momento, o quão vasto era este oceano dentro de meus olhos, teria contemplado tal espelho há muitos séculos atrás. Enfim, vivemos decerto um dia de cada vez.

Olhei para a superfície das águas, e vi a beleza de minha amada em todo o seu esplendor. Mesmo do alto do céu, a própria lua conseguia trazer o reflexo do sol a escuridão submarina. Então eu pude me reconfortar inteiramente: não havia nada a temer, nem nada a duvidar, não havia por onde pudesse realmente mergulhar para fora dos deuses...


***

Esta foi a nona parte de A educação de Casanova, por raph em 2015.
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