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6.5.10

A busca pela verdade

Texto de Rafael Arrais, em homenagem ao grande poeta Gibran Kahlil Gibran.

Então Almitra [1] disse: fala-nos da busca pela verdade.

E ele respondeu:

Buscai a verdade como quem busca o horizonte.

Pois vós sabeis: o horizonte está sempre à frente. Não adianta se virar para outra direção nem pegar um atalho. O horizonte está além de qualquer atalho, e seu reino jaz no fim de todos os caminhos.

Mas não vos inquieteis com a imensidão do céu nem com a distância que vos separa da verdade. O infinito é dividido em eras, as eras são divididas em dias dos homens, e tais dias são divididos em momentos...

A cada momento a sua preocupação, e a sua verdade. Não acheis que algum momento trará “a verdade”, mas ficais satisfeitos se encontrardes “uma verdade”.

Povo de Orfalés, não busquem a verdade como quem busca um vagalume pela noite. Não confundais vagalumes com estrelas, nem pretendeis que ao agarrardes um com as mãos, que tenhais dominado uma verdade.

Que a luz não se detém nem com as mãos nem com a razão. Ela escapa, flui por entre caminhos invisíveis, e só se revela nos sonhos de vossas almas.

E as estrelas da noite, essas estão muito além do horizonte.

Cabe ao homem buscar a verdade neste mundo, para somente após se arremessar rumo às estrelas.

Que todos os dias dos homens são como um piscar de olhos da eternidade. E não há verdade que fuja dela. Toda a luz do mundo irradia da essência que está fora do tempo, além de vossos horizontes, no momento que é para sempre o mesmo...

Mas não nos demoreis muito em tais pensamentos, nem pretendais serem desbravadores de novas eras. Que todas as eras já foram desbravadas, e todas as verdades já foram descobertas.

Contentai-vos, portanto, em viver com alegria. Em buscar o horizonte não como quem quer salvar-se do mundo, mas como quem quer abraçar o céu inteiro, e dançar com as estrelas pela noite adentro...

***

[1] Almitra é o personagem que faz a maior parte das perguntas para Almustafa, o escolhido e bem amado, personagem principal que dá voz aos ensinamentos de Gibran em sua obra-prima, “O Profeta”. Este texto, entretanto, é apenas uma homenagem ao grande poeta.

***

» Parte da série "Após Gibran"

Crédito da foto: Larissa Januzzi

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12.2.10

O reino de Asoka, parte 3

continuando da segunda parte...

Atordoado pelo olhar firme e tranqüilo daquele monge pronto para a morte, Asoka se lembrou do olhar do avô, pouco antes da batalha em que desapareceu, tornando-se um monge jainista. Sacou a espada do avô e cravou-a ao solo, próximo de Samudra, que então fechou brevemente os olhos e disse:

“Vejo que está pronto, o primeiro ato para a não-violência é deixar a espada de lado.”

“Sim, agora eu entendo o que meu avô quis dizer. Em minha última batalha em Kalinga, matamos mais de 100 mil homens de seu exército, e perdemos 10 mil de nossos soldados. Que maldição! Que ignorância! O que eu tenho feito? Se foram vitórias o que obtive nesses anos todos, o que seriam então derrotas? Alguém perdeu seu marido, e outro um pai, ainda outro um filho, e há mulheres que tenham perdido a vida junto com sua criança na barriga... Não há sentido em tamanha loucura, se conquistar significa dizimar, então todos os conquistadores são tolos, e eu sou o maior deles!”

“Mas foi para os tolos que o Buda trouxe seus ensinamentos. Enquanto vivia em seu palácio, ignorante do sofrimento do mundo, eis que ele mesmo era também um tolo. Para tudo isso há remédio. Só não há remédio para quem está ainda cego, para quem insiste em caminhar no caminho circular, e retorna sempre para onde acabou de sair...”

“Mas como eu vou me regenerar? Como vou convencer o povo da não-violência, se eu mesmo tenho sido um invasor brutal?”

“Primeiro com o exemplo, depois com o ensinamento das nobres verdades do senhor Buda. É isso que todos temos feito, a diferença é que eu sou monge, e comando apenas a mim mesmo, e você é imperador: o seu fardo é mais pesado.”

“Oh nobre Samudra, que os deuses lhe abençoem por ter me encontrado  nesta prisão. Eu que um dia quis conquistar toda a extensão dos horizontes, hoje percebo que até hoje conquistei apenas sombras e fumaça, e o que sou permaneceu selvagem e descontrolado. De agora em diante irei conquistar apenas a mim mesmo, e farei de tais ensinamentos a lei para todo o meu império!”

E o primeiro ato de Asoka foi destruir o seu poço infernal, e destituir Girika do cargo de executor real, não mais necessário. Com o auxílio de Samudra, estabeleceu novas leis para o Império Máuria, que foi o grande responsável pela propagação do budismo no mundo antigo.

Asoka defendeu até o fim da vida os princípios do dharma, como a não-violência, a tolerância a seitas e opiniões contrárias, a obediência aos pais, o respeito aos brahmans, professores e sacerdotes de todas as religiões, a tendência para a amizade entre os povos, a observação dos direitos humanos de escravos e serviçais, e até mesmo aos direitos dos animais...

Embora certamente pudesse ter marchado e seguido em suas conquistas territoriais até a borda do império romano, e provavelmente além dela, deixou a fronteira do império intacta, e se preocupou apenas com a conquista da verdade. Asoka ficou desde então conhecido como Dhammashoka (sânscrito), “o seguidor do dharma”, ou simplesmente como Asoka o Grande .

Em todas as grandes cidades, mandou construir os Pilares de Asoka, muito mais famosos que seus poços infernais: ao invés de prisões que se estendiam para abaixo do solo, construiu pilares que apontavam para o céu, com as leis do dharma gravadas em sua superfície, para que todos os povos pudessem ler.

Eis a história de como um homem teve de abdicar de seu vasto reino para finalmente conquistar algo de real. E conquistando a si mesmo, tornou-se enfim um verdadeiro imperador de homens e almas de homens, e não de sombras e cadáveres... Não se sabe se Asoka conseguiu limpar a consciência de todas as guerras e execuções, e de todos os sonhos sombrios de glórias efêmeras que tenha tido em sua fase de caminhos circulares e ignorância – porém, desde que encontrou o caminho sem fim para a verdade, reconheceu qual era o melhor caminho. E isso é, no fim, o que importa.

***

Crédito da foto: Velachery Balu (réplica dos 3 leões esculpidos sempre no topo dos Pilares de Asoka - há ainda muitos pilares originais na Índia)

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11.2.10

O reino de Asoka, parte 2

continuando da primeira parte...

Um dos ministros de Asoka exercia o cargo de conselheiro direto do imperador. Asoka confiava plenamente nele, e acatava muitos de seus conselhos. O conselheiro então, verificando que Asoka perdia mais tempo preocupado em julgar e executar os criminosos, rebeldes e traidores do império, do que em efetivamente governar as províncias, aconselhou-o: “crie o cargo de executor real, deixe que outra alma se encarregue dessas decisões negras, e fique livre para governar sem se preocupar em julgar.”

“Mas onde vou encontrar alguém que seja tão implacável quanto eu em seus julgamentos?” – perguntou o jovem imperador. O conselheiro então indicou um jovem chamado Girika, que diziam ser tão maquiavélico que não poupara nem a própria família de sua ira. Seguindo o conselho mais uma vez, Asoka nomeou o jovem Girika como executor real. Em seu primeiro dia no cargo, Girika ordenou a construção de um poço nas imediações da capital. Diziam que era um poço inspirado no mesmo poço que Asoka construiu para matar o irmão. No entanto, em torno da construção cresciam belos jardins, de modo que mais parecia que uma casa de descanso paradisíaca estava sendo construída sob a terra.

Quando o poço oculto em sua entrada florida ficou pronto, Girika chamou Asoka para inspecionar a obra:

“Eis o inferno sobre a terra, meu senhor!” – exclamou Girika.

“Inferno? Mas como? Isso mais parece um jardim de meditação” – respondeu-lhe Asoka, um tanto confuso.

Girika então convidou o imperador para adentrar o poço, e Asoka percebeu que os jardins da entrada escondiam um poço ainda mais infernal do que o anterior: rios de óleo negro escaldante escorriam por entre frestas nas paredes, apenas pequenas ilhas de pedra pontiaguda se elevavam acima do mar de fogo – quem quer que ali fosse jogado, teria uma morte dolorosa, definitivamente!

Asoka ficou maravilhado com a obra, e perguntou se Girika não necessitava de alguma compensação por tão brilhante empreendimento. O executor real apenas pediu para que qualquer um que fosse condenado a entrar naquela prisão disfarçada, nunca mais pudesse sair dali. O imperador concordou, e então estava criado o famoso Inferno de Asoka...

Durante os anos que se passaram, muitos foram os condenados ao Inferno de Asoka. Ludibriados por sua aparência externa, muitos condenados o escolhiam de livre vontade, imaginando que se tratava apenas de um jardim recluso, onde cumpririam sua pena em vida contemplativa. E assim foram as histórias de dolorosas mortes no lago infernal de Asoka, até que um monge budista foi confundido com um rebelde, e condenado injustamente ao poço.

Samudra era monge à muitos anos, e se encantou com os belos jardins que escondiam o Inferno de Asoka. No entanto, lá adentrando, percebeu que logo teria seu fim. Ao contrário de todos os outros que encararam o lago de fogo, Samudra não pareceu se abalar nem um pouco com seu destino. Girika pareceu comover-se com o fato, e chamou seu mestre para se certificar de que gostaria mesmo de arremessar aquela criatura pacífica no poço.

Asoka veio e, observando a atitude do monge, questinou-o:

“Porque está sorrindo para mim? Você não é um dos rebeldes que gostaria de me ver morto?”

“De modo algum, não sou eu quem decide quem vive e quem morre. Por acaso o senhor pode decidir sobre a vida e a morte?”

“É claro, eu sou Asoka, imperador de todas as terras ao sul e futuro conquistador dos povos do ocidente e do norte. Minha palavra é a lei!”

“Muitos antes de você também disseram o mesmo, e hoje se foram. Não há quem possa decidir quando e como vai morrer. Tudo o que sabemos é que partiremos um dia, então porque a necessidade de um império? Nenhum império atravessa o véu conosco, para o lado de lá...”

Asoka nunca havia sido tratado de forma tão insolente desde que se tornara imperador. Furioso, fitou o monge e bradou:

“Se eu ordenar, Girika irá arremessá-lo neste poço e terá uma morte terrível! É isso o que quer, testar se sou ou não sou capaz de decidir quem vive e quem morre? Pois posso lhe matar neste momento!”

O monge fitou o imperador, sem perder o sorriso entre os lábios nem por um momento:

“E não foi o que eu disse? Você pode até decidir quando alguém vai morrer, mas de sua própria morte, isso ninguém sabe. No entanto, fico feliz por ter conhecido jardim tão belo pouco antes de aqui adentrar... Vou manter o jardim em mente, e esquecer que estarei derretendo em um lago de fogo.”

Asoka ficou atônito. De certa forma, de todas as batalhas que havia participado, em nenhuma delas havia enfrentado um homem tão corajoso quanto aquele monge. Asoka dominava vasta extensão da Ásia, e era tratado como um semi-deus por seu povo, mas nunca havia conseguido encontrar aquela paz que via na feição de um ser pronto para a morte. Aliás, para uma morte dolorosa.

Samudra entoou um belo cântico budista, respirou profundamente e olhou fundo nos olhos de Asoka:

“Vá, faça o que tem de fazer. Mate-me!”

continua...

***

Crédito da foto: buecherwurm

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10.2.10

O reino de Asoka, parte 1

Esta é a história de Asoka, e de como um homem teve de abdicar de seu vasto reino para finalmente conquistar algo de real [1]...

Asoka era um dos filhos do imperador Bindusara, e neto do grande Chandragupta Maurya, primeiro grande imperador da Índia, que surgiu do norte com um bando de tribos e acabou conquistando quase todo o território indiano moderno, no que ficou conhecido pela história com o Grande Império Máuria, que durou de 322 a 185 a.C.

O avô de Asoka conviveu com o neto durante sua infância, e muitos diziam que se tratava do seu neto favorito: “possuí um grande intelecto e habilidade em combate incomparável, com o tempo e a sabedoria se tornará o imperador ideal”. Chandragupta sabia do que estava falando, havia batalhado a vida toda, conquistado cada palmo de terra ao custo de inúmeras vidas e rios de sangue. No fim da vida, este peso sobre as costas era cobrado pela sabedoria que adquirira ao entrar em contato com a religião dos jainistas. Que paradoxo: o homem responsável por tanta matança, em seu íntimo sabia que estava condenado pela própria consciência, agora aberta para as idéias mais profundas do Jainismo.

Foi em uma de suas batalhas que Chandragupta desapareceu para se tornar um monge jainista, deixando para trás apenas a sua espada fincada nas planícies de arroz e sangue. O avô de Asoka havia lhe alertado que ninguém deveria carregar tal espada, amaldiçoada por anos e anos de matanças. Mas Asoka ignorou o aviso: ao avistar a espada do avô, guardou-a antes que outros de seus irmãos e meio-irmãos mais velhos a vissem. Este foi o início do desejo de Asoka de se tornar, ele também, um grande imperador!

Susima era um dos irmãos mais velhos de Asoka, apenas mais um preocupado em ser o escolhido do pai para se tornar o próximo imperador do Grande Império Máuria. Em seu jogo de política e influência, conseguiu sorrateiramente convencer o pai a enviar Asoka para as províncias mais perigosas do reino, onde haveria mais chances de perder uma batalha contra os rebeldes e invasores, e ser definitivamente eliminado da disputa. Asoka, entretanto, repelia os invasores com táticas de batalha cuidadosamente planejadas, e acalmava e persuadia os rebeldes com seu carisma e sua oratória épica, sempre prometendo a todos que comandaria o império até conquistar todas as terras conhecidas...

Apesar do pai, Bindusara, não ter Asoka como seu preferido, com o tempo e os contínuos sucessos de suas campanhas, todos os ministros do imperador sabiam que a escolha mais sensata seria Asoka, e não seu irmão Susima. A sorte de Asoka brilhou no dia em que seu pai morreu repentinamente, tossindo sangue, enquanto seu irmão Susima estava distante da capital do império. Todos os ministros se apressaram em coroar Asoka o imperador, ainda que todos esperassem o retorno de Susima e algum conflito em relação à questão. “Pena que Susima vá regressar e tomar o reino de volta, Asoka seria um imperador bem melhor” – refletiam a maioria dos ministros.

Mas não foi o que ocorreu – assim que tomou o poder, brandiu a espada de seu avô, Chandragupta, e bradou a todos: “eu sou o escolhido dos deuses, eles desceram a terra e me trouxeram a espada de meu avô, eu serei o imperador do mundo!” – Não houve quem duvidasse que Asoka realmente desejava conquistar todo o mundo. E o retorno de seu irmão era apenas o primeiro obstáculo que se interpunha entre ele e seu grande objetivo.

Asoka então mandou construir o primeiro de seus poços infernais na entrada da capital: era um buraco fundo o suficiente para que toda a guarda pessoal de seu irmão caísse, ao galopar de volta descuidadamente. No interior, carvão em brasa. Susima e toda a sua guarda tiveram uma morte agonizante em meio ao fogo e as estocadas de lança dos soldados do império, agora leais a Asoka. Os ministros que não concordaram com a forma brutal com que Asoka eliminou sua concorrência direta ao trono foram banidos ou executados impiedosamente. Nascia um novo Asoka, um homem determinado, sombrio, sanguinário, que não mediria esforços até que seu desejo fosse concretizado:

Asoka o Cruel queria dominar todas as terras abarcadas pelo horizonte!

continua...

***

[1] Conto baseado na vida de Asoka o Grande, imperador Máuria de 269 a 232 a.C., e figura mítica do Budismo. Não necessariamente absolutamente fiel a história.

***

Crédito da ilustração: Divilgação do filme Asoka (2001).

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6.1.10

Algumas reflexões, parte 2

Continuando da parte 1...

A profetisa

Dizem que o maior de todos os medos é o medo de morrer. Bem, eu não sei se isso é verdade – acho que tenho mais medo de ser atropelado por um cavalo a galope e continuar vivo e todo esturricado – mas deve estar, em todo caso, bem próximo da verdade... Dizem também que o homem imaginou os deuses e o além-vida como forma de amenizar esse tal medo da morte. Ora, mas se o homem imaginou a Deus, com quem é que os profetas costumam conversar?

Eu não me lembro de ter conhecido algum profeta pessoalmente, mas sim uma profetisa! A amiga de minha prima católica, da qual não me lembro o nome, costumava dar conselhos para os fiéis que se dirigiam a ela com os mais variados problemas existenciais – alguns profundos, como “o que Deus quer de mim?” e outros nem tanto, como “quando vou encontrar o homem que Deus está guardando para mim?”. Mas fato é que ela sempre tinha as respostas na ponta da língua, seja qual fossem as indagações existenciais...

A profetisa, católica fervorosa, no entanto tinha uma estranha tristeza no olhar, uma melancolia que me parecia altamente contrastante com a felicidade e consolo que suas respostas traziam aos que lhe traziam perguntas e olhares igualmente angustiados... “Minha nossa”, eu pensei, “se ela tem esse dom tão maravilhoso, o que diabos a deixa tão triste?”

Ao final de uma das suas sessões de respostas proféticas – que eram realizadas, por pura caridade mesmo, em sua própria casa – eu tive a oportunidade de lhe perguntar:

“Você está triste porque não consegue falar com Deus não é?” – e sim, eu juro que não faço idéia de porque exatamente complementei a pergunta com a afirmação... Talvez eu também tenha “absorvido” brevemente seu dom de profetizar.

Ela nem precisou responder nada: seu olhar já me dizia que era exatamente esse o seu problema. E, se eu já havia acertado a primeira aposta, acho que desenvolvi bem a habilidade em seguida:

“Mas não fique triste. Veja bem: todas essas pessoas vêm até você com suas dúvidas e seus problemas, e você parece ter sempre uma boa resposta para lhes dar. Não acho que você seja adivinha, acho que é Deus quem fala através de você... Nunca havia percebido isso? Logo você, que reclama que Deus nunca lhe responde, é aparentemente quem está mais próxima dele, e não se deu conta!”

Ela se comoveu com essa resposta, e nos emocionamos juntos. Ela, porque percebeu que sempre esteve próxima de Deus. E eu, porque adorei a experiência de estar próximo de Deus, ainda que tenha durado tão pouco tempo. Na verdade, como sempre, só percebi a profundidade da experiência algum tempo após o ocorrido - no momento em que ocorreu, me pareceu algo tão natural quanto apreciar o nascer do sol.

Isto é, se é que Deus existe... Entretanto, se não foi Deus quem nos causou uma impressão tão avassaladora dos sentidos e da alma, não sei o que possa ter sido. A experiência religiosa é sim, subjetiva, mas quem passa por ela, e tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, nunca mais esquece.

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Crédito da foto: Max Tuta

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Algumas reflexões, parte 1

O pequeno sábio

Um dos primeiros conselhos de genuína sabedoria que recebi foi quando ainda era um garotinho, aprendendo a andar a cavalo em Monte Verde, no sul de Minas Gerais. Eu havia escorregado da cela enquanto meu cavalo estava galopando, e fiquei com o pé enroscado no estribo – de modo que o máximo que podia fazer para evitar ser esfolado pelos cascos do cavalo era segurar com toda a força na correia, e rezar para que ele parasse de galopar.

Mas não me lembro se na época eu sabia rezar, provavelmente não, visto que ainda hoje não sei bem. Em todo caso, havia um outro garotinho que me seguia, em outro cavalo, apenas este era parente do homem que alugava os cavalos, e tinha bem mais experiência no ramo, apesar da idade. Foi ele quem fez o meu cavalo parar de galopar, até que pudesse pará-lo para que eu pudesse me desenroscar do estribo e finalmente me dar por seguro, são e salvo!

Talvez não me lembrasse bem desses eventos, não fosse pelo que o garoto me disse após perceber que eu estava apavorado com a idéia de ter de subir de novo na sela do cavalo – afinal ainda estávamos no meio do caminho e tínhamos de retornar ao hotel onde o dono dos cavalos nos aguardava:

“Agora você tem de subir de novo, senão vai ficar com medo, e nunca mais vai andar a cavalo!” – Falou o sábio-mirim, do alto de seus poucos anos de experiência com o hipismo.

“Subir de novo? Mas eu quase me arrebentei agora pouco... Prefiro voltar puxando o cavalo pela correia...”

“Você até pode voltar no meu, se quiser... Mas o melhor é você voltar no mesmo cavalo, que daí vai dominar o medo, e ele não volta mais.”

E foi o que eu fiz. Parece incrível, mas eu nunca tive medo de andar a cavalo, por mais que tenha visto gente caindo do cavalo na minha frente. Por mais que tenha galopado por terrenos escorregadios e quase – por mais de uma vez – tenha voltado a cair do cavalo... Quem sabe qual é o segredo para dominar o medo? Em todo caso, fato é que nunca mais enfiei minha canela adentro do estribo!

O sujeito que me deu o tal conselho, o fez do fundo de sua alma. Ele não era meu parente nem meu amigo, e não tinha idade para trazer algum mal obscuro no coração. Eu me lembro de seu olhar e seu riso disfarçado, que tampouco era de zombaria – ele decerto havia passado pela mesma situação que eu, e decerto deve ter ficado com medo de andar a cavalo de novo, e decerto alguma outra pessoa o incentivou a vencer o medo, até mesmo porque no seu caso, ele não tinha escolha: seus pais viviam do aluguel de cavalos, e ele tinha de ajudá-los.

É pena eu não ter transportado tal conselho para outros eventos traumáticos em minha vida. Quem sabe, se hoje tenho alguns de meus medos, é porque não tive a coragem de encará-los frente a frente ainda lá no início, na primeira vez que bateram a minha porta.

Continua em "A profetisa"...

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Crédito da foto: Edu Hana

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3.1.10

O passado e o futuro

Texto de Rafael Arrais, em homenagem ao grande poeta Gibran Kahlil Gibran.

Então Almitra [1] disse: fala-nos do passado e do futuro.

E ele respondeu:

O passado e o futuro estão dentro de vós, e não fora de vós.

O passado é como uma trilha de migalhas de pão que delimita o caminho que percorremos na floresta, e os degraus que subimos na montanha.

Ele também nos aponta as armadilhas e os trechos sem saída. Ele nos traz a história de todos os nossos irmãos, que seguiram por este mesmo caminho, em eras de outrora.

Porém, não se admirem demasiadamente com o passado.
Não queiram viver uma vida que já não existe mais; não queiram seguir a trilha reversa, atrás de migalhas que não estão mais lá.

Que a natureza não se detém em tempo algum. Os rios fluem sem cessar, e toda represa um dia encontra um caminho para vencer o concreto e seguir em frente.

Povo de Orfalés, não sejam represas, sejam rios!
Que a vida segue apenas em uma única direção: adiante.
E todos aqueles que ignoram tal verdade, se tornam mortos enquanto vivos, cheios de lágrimas represadas.

E o futuro, este é o hóspede que ainda não chegou.
Portanto, não se preocupem em arrumar a casa para ele, pois que ele tampouco avisou quando irá chegar.

Talvez, sejamos nós que tenhamos de chegar a sua casa.
Talvez ele more no cume da montanha, e seu convite seja como um chamamento, para que prossigamos a subir, sem mourejar.

E quando chegarmos lá no alto, veremos que de nada adiantou toda essa preocupação com sua visita...
Todos os jantares e todas as mesas postas, tudo em vão.

Foi no café da manhã que chegamos em sua morada, e lá do alto víamos o vale ensolarado e toda a extensão de nossas vidas na floresta.
E soubemos que a mesa estava posta para nós, e não para o hóspede.

Que o hóspede era na verdade o anfitrião.
Que a vida não atende aos nossos compromissos: ela tem os seus próprios.
E da sua agenda, a vida mesmo cuida.
Que nada foi gravado em pedra.
E todas as coisas fluem, como as estações do ano.
E todas as histórias se encerram em um único momento.

Este é o momento que realmente nos importa, meus irmãos: a vida se vive neste farfalhar de grama, nesta brisa incessante, neste aroma eterno de primavera...

***

[1] Almitra é o personagem que faz a maior parte das perguntas para Almustafa, o escolhido e bem amado, personagem principal que dá voz aos ensinamentos de Gibran em sua obra-prima, “O Profeta”. Este texto, entretanto, é apenas uma homenagem ao grande poeta.

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» Parte da série "Após Gibran"

Crédito da foto: Billtam

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8.12.09

Nós não temos religião

Este é um pequeno conto sobre minha conversa com um espírito “caboclo” [1] incorporado na médium que ministra o curso de correntes magnéticas [2] do qual eu participei, e estava então na sua penúltima aula, quando temos a oportunidade de fazer perguntas diretamente a um espírito de luz [3], ou pelo menos ao mentor de uma médium já experiente.

Não sei bem porque, mas mesmo entre os estudantes mais experientes, quase ninguém pergunta sobre questões mais abrangentes, a grande maioria aproveita para perguntar sobre questões pessoais, sobre o futuro, sobre os “mortos”, sobre pedidos de ajuda a Deus, etc., ou seja – exatamente o tipo de pergunta que um espírito de luz não irá responder, pois sabe que cabe somente ao ser em si julgar o que deve fazer de sua existência, assim como cabe aos “mortos” se dirigirem aos “vivos”, e não o contrário. Mas isso não é uma crítica, apenas uma constatação.

Sem grandes expectativas acerca da resposta, que imaginei ser mesmo breve, quando me aproximei da médium incorporada e ela me dirigiu a atenção, perguntei:

“Olá minha irmã. Gostaria de fazer uma pergunta sobre vocês, e não sobre mim. Gostaria de saber qual a religião de vocês. E gostaria de saber se vocês têm uma resposta para o motivo de tantos de nós guerrearem e se matarem por causa de religião. Você teria um conselho sobre como eu poderia, através do que escrevo, ajudar a aproximar as pessoas de religiões contrárias?”

O espírito, do qual sequer sei o nome, e que até então falava com um sotaque quase incompreensível, me respondeu com um longo e inesquecível ensinamento, do qual entendi cada palavra de forma cristalina:

“Meu filho, nós não temos religião. Nós seguimos a Deus. Quem segue a Deus não se preocupa em ter religião, apenas realiza a Deus dentro de si [4].

Quando Siddharta Gautama [5] viu as pessoas sofrendo fora de seu palácio, ele não se tornou um peregrino para fundar o Budismo. Ele tão somente seguiu a Deus. O Deus que via refletido nos outros, e que acabou por realizar dentro de si.

Todo o sábio, todo o ascencionado, apenas realizou a Deus dentro de si mesmo, para então realizá-lo também no mundo, através de suas ações de amor.

Quando os hindus investigaram seus deuses, acabaram por encontrar a Brahma, o criador do universo, e alguns também conseguiram realizar a Brahma dentro de si. Outros criaram as castas, e dividiram os irmãos segundo a lei do homem, mas contra a lei de Deus. Para Deus não existem castas, meu filho.

Esses que brigam uns com os outros por causa de religião, brigam em nome de Deus, mas não brigam com Deus. Deus não está presente em brigas, Deus não poderá nunca se realizar em quem maltrata um irmão.

Mas, para chegar à realização de Deus dentro de si, é preciso do outro. É preciso essa troca (nesse momento ela colocou a mão um pouco acima de meu coração, e trouxe minha mão para a mesma região do corpo da médium – nesse momento a sensação peculiar de “fluxo de energia” se intensificou bastante).

Por isso, meu filho, somos todos irmãos, estamos todos ligados. O Deus de um só pode ser o Deus de todos, e a realização de um é também a realização de todos, é uma festa no céu.

Para acabar com essas brigas de religião, basta ensinar aos seres sobre Deus. Não o “deus” que eles pensam ter encontrado, mas esse Deus cósmico que preenche a cada um de nós. Quando todos realizarem a Deus dentro de si, não será mais preciso ter religião.

Vai em paz meu filho. (nesse momento, ao me despedir, eu beijei as mãos da médium, e o espírito, comandando seu corpo, retribuiu – beijando também as minhas mãos)”

Sim, foi inesquecível...

Eu bem sei que cada espírito, assim como cada ser encarnado, fala apenas do que sabe, e nada mais. Exatamente por isso, analiso a comunicação com os espíritos não pelos nomes que evocam (Deus, Jesus, Ave Maria, etc.) ou pelas “frases prontas” que repetem (na maioria, repetições dos evangelhos), mas pela real profundidade espiritual do que dizem.

Apesar de um espírito classificado como “caboclo” ter demonstrado conhecimento de budismo e hinduísmo, e ter falado de forma tão bela sobre Deus, ele não disse exatamente nada de novo. O que me importou, entretanto, foi à forma como ele disse o que disse. Infelizmente não sou hábil o bastante com as palavras, essas cascas de sentimento, para lhes passar exatamente a forma com que isso foi dito... Por isso também se diz que o caminho espiritual deve ser trilhado por cada um, individualmente, pois é impossível transmitir aos outros experiências deste tipo.

No entanto, este conto é tão somente minha tentativa de transmitir a você uma parte do que senti [6] naquele momento.

***

[1] Diz-se que um espírito é “caboclo” quando em suas últimas encarnações pertenceu a tribos indígenas. Eles se distinguem, independente da evolução espiritual, pela alta familiaridade com a natureza, e a dificuldade de compreender e se comunicar sobre assuntos modernos, urbanos.
Também vale lembrar que a prática de incorporação vem da Umbanda Sagrada, e não do Espiritismo. Ou seja, o centro espírita onde isso ocorreu é um centro ecumênico, e não ortodoxo.

[2] Eurípedes Barsanufo foi um grande educador, jornalista e espírita da virada do século 19 para o 20. O curso de Correntes Magnéticas é publicado pela editora Auta de Souza, e segue as técnicas iniciadas por Eurípedes décadas atrás.

[3] Essa classificação da literatura espírita é na maior parte das vezes julgada erroneamente por não-espíritas. Quando se diz que um espírito “é de luz”, se quer dizer que ele demonstra ter grande sabedoria e espiritualidade, e não que ele é alguma espécie de arcanjo, ou alguém em posição superior aos demais espíritos. E muito menos que a “luz” tem qualquer referência a sua cor de pele, até mesmo porque espíritos não têm pele.

[4] A palavra religião vem do latim re-ligare e significa “religação a Deus ou ao Cosmos”. Já a palavra igreja vem do grego ekklesia (ou do latim ecclesia) e significa “comunidade dos escolhidos por Deus”. Acredito que, no contexto do que o espírito disse, o significado ficaria melhor traduzido como “nós não temos igreja” – entretanto, achei melhor manter a resposta conforme foi ditada originalmente, inclusive para o título deste conto, até mesmo porque eu mesmo esqueci de usar “igreja” (ao invés de “religião”) em minha pergunta. Em todo caso, mais importante do que se ater as palavras, é se ater aos significados.

[5] Trata-se do Buda. Devo confessar que originalmente pensei em perguntar sobre o conhecimento dos espíritos das religiões orientais, como o Budismo e o Hinduísmo. Não sei se o espírito “leu minha mente”, mas terminou por incluir esse conhecimento em sua resposta, tornando-a ainda mais inesquecível para mim.

[6] A compreensão espiritual não se dá apenas pelo que vemos e ouvimos, mas pelo que realmente sentimos através de nosso espírito, de forma abrangente. Entenda quem tiver ouvidos para entender.

***

Crédito da foto: Laura Monteiro

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10.11.09

O poder do amor

Era mais de meia-noite numa comunidade barra pesada do Rio de Janeiro. Não que os moradores não soubessem que se tratava mesmo era de uma favela, mas é que o nome comunidade descrevia melhor a sua casa. Em todo caso, todos estavam atentos aos barulhos de tiro e sirenes de polícia eventuais de toda madrugada, era mais uma comunidade da cidade em guerra com outra comunidade. O Rio tem essa característica peculiar de unir as pessoas na praia e nos campos de futebol, e então separá-las, ao ponto de torná-las inimigas mortais, quando estão no topo de seus respectivos morros.

Mas um morro é algo fácil de subir, o difícil é conseguir passar pelos garotos de fuzil após a hora do toque de recolher. Flordelis sabia que o toque já tinha passado a muito tempo, que era mais seguro estar em casa dormindo ou assistindo TV, mas mesmo assim ela preferiu arriscar subir o morro. Era uma aposta: a sua vida pela vida de algum garoto de fuzil que conseguisse retirar da guerra. Nenhuma aposta parece arriscada o suficiente para quem traz o amor consigo.

Fernando [1] era um dos garotos de fuzil. Nem sempre carregou um fuzil. Quando fez 10 anos o chefe do tráfego no morro ofereceu uma “semanada” para que ele ficasse toda a noite de olho nas vias de subida da comunidade, e se visse algum policial ou sujeito estranho, deveria avisar pelo rádio. Fernando foi subindo na carreira do tráfego de drogas, graças a sua capacidade e inteligência, e também graças aos garotos e garotas da zona sul que vinham quase todo dia trazer dinheiro pro seu chefe. Ainda assim, era uma profissão arriscada, e ele sabia que naquele dia, 7 anos depois, talvez não carregasse mais um fuzil por muito tempo. Mal sabia o garoto o que o destino lhe reservara.

“Fernando, tem uma dona lá embaixo querendo falar contigo... É uma tal de Flordelis.”

“Manda essa maluca vazar daqui, não sabe que tamô em guerra?”

“Já falei Fernando, a dona é maluca mesmo. Disse que não sai de jeito nenhum enquanto não falar contigo.”

“Vamô ver se ela não sai...”

Fernando desceu a encosta até a ruela onde estava Flordelis, e deu cinco tiros de fuzil pro alto. As balas caíram no matagal e não acertaram ninguém, mas Flordelis não esboçou reação. Continuou olhando firme em seus olhos, expressão determinada e um leve sorriso nos lábios.

“Dona, sai fora daqui, senão vai acabar morta se houver invasão!”

“Eu só saio se falar contigo.”

“O que diabos você quer falar comigo? Já disse que sou bandido mesmo, não tem outra vida pra mim dona...”

“Mas eu te amo, e vou te tirar dessa vida. Vou te mostrar uma outra vida.”

Fernando permaneceu imóvel, quase em estado de choque. Seus amigos de fuzil preferiram deixá-lo lá com a tal Flordelis, eles não entendiam muito esse negócio de amor...

E nem Fernando. Ele nunca havia considerado que poderia estar conectado dessa forma a uma pessoa desconhecida. Amor, conhecia só o de mãe, o de irmão, e olhe lá. Depois que passou a andar de fuzil na mão, mesmo sua mãe e seus irmãos passaram a lhe ver com outros olhos, o mesmo tipo de olhar que via todos os dias vindo das pessoas do asfalto. O olhar da desconfiança. O olhar da desconecção. Fernando achava que a sociedade era sua inimiga.

Mas aquela palavra, vinda daquela mulher, tinha poder. O poder do amor. O poder de mudar vidas para sempre. Desde aquela noite, Fernando baixou o fuzil, e nunca mais o levantou. Foi o primeiro garoto adotado pela mãe Flordelis, e logo em seguida já tinha identidade, CPF, e emprego. Depois entrou na faculdade de direito e hoje está se formando.

Depois dele, Flordelis ainda adotou dezenas de crianças, desde bebês a adolescentes, e hoje vive às custas de muita batalha junto a seu marido, e da ajuda de alguns empresários e pessoas de bem.

Este conto é baseado em uma história real. Já Flordelis é totalmente real [2]. É um ser humano que ajuda e educa outros seres humanos para a vida, porque os ama... Talvez não tenhamos a capacidade de amar como ela, mas podemos aprender algo com a sua história: que o amor pode unir qualquer coisa, mesmo aquelas que pareciam para sempre desconectadas. E que não é ignorando os outros seres humanos, mas lhe dando as mãos, que vamos conseguir efetivamente mudar alguma coisa para melhor. Isso não é piegas ou clichê, porque o verdadeiro amor nunca foi piegas e nunca foi clichê.  

***

[1] Nome fictício, porque existem pessoas que crêem que criminosos nunca se recuperam.

[2] O filme “Flordelis – Basta uma palavra para mudar” conta a história real de uma mulher, moradora da favela do Jacarezinho, no Rio, que adotou 37 crianças e as criou junto de seus quatro filhos biológicos. Mas além da óbvia complexidade em se ter 41 filhos dentro de casa, Flordelis enfrentou outras adversidades em sua jornada, retratadas no filme e narradas por ela mesma. O elenco incluí diversos atores famosos, todos trabalharam de graça. Parte da renda arrecadada servirá para ajudar o trabalho de Floredelis. Veja o trailer abaixo:

Veja ela também no programa da Hebe Camargo, do SBT.

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Crédito da foto: Rodrigo Alves

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19.9.09

A angústia de viver

Foi no nascer do sol que Richard finalmente alcançou o topo do monte Shiva, nas imediações de um pequena cidade no interior da Índia, para a esperada conversa com o sábio que habitava a região a muitos anos, e que não tinha nome, pois em cada morada que batia a porta pedindo comida, era chamado por um nome diferente – e não se importava.

Richard era um empresário do ramo de informática, muito bem sucedido profissionalmente. Muito mal sucedido no entendimento de si mesmo. Richard um dia acreditou que o objetivo de sua vida era criar uma grande empresa de software, conhecida em todo mundo, e ficar milionário... Tudo isso ele conseguiu, mas não podia compreender o sentido de toda essa jornada – uma pergunta lhe inquietava:

"Qual o objetivo da vida afinal?” – foi à pergunta que ele fez ao sábio ancião assim que o encontrou, varrendo a varanda de sua casa. O homem parece ter gostado do modo direto pelo qual aquele ocidental intrometeu-se em seus afazeres diários, com uma indagação tão profundamente simples. Encostou sua vassoura e respondeu-o:

"Porque você veio de sua casa até a Índia?"

"Para tentar resolver essa angústia dentro de mim mesmo..."

"E acha que vai conseguir?"

"Não sei, gostaria de tentar... Acho que essas coisas se resolvem passo a passo."

"E qual é o próximo passo?"

"Não sei, achei que iria me dizer..."

"E por acaso alguém pode saber em qual direção o ramo de árvore irá crescer?"

"Como assim?"

"Você, como eu, é apenas uma pequena semente jogada ao solo. Nós não sabemos para que direção nossos galhos irão crescer, nem que folhas e frutos iremos produzir. Sabemos apenas que nos alimentamos do sol, e tentamos chegar até ele... Mas também somos filhos da terra, e nossas raízes nos mantém atados ao solo."

"Mas e daí? E se chegarmos ao sol? Depois teremos um universo pela frente... Qual o objetivo de tudo isso? Aonde tudo vai dar?"

"Qual o objetivo? Pergunte a natureza. Pergunte por que a luz viaja junto ao tempo para permitir a vida. Pergunte por que os ventos sopram sem cessar. Pergunte por que as bactérias viraram peixes, e depois decidiram habitar a terra, e depois se transformarem em homens. Pergunte a algum físico ou biólogo que poderá lhe dizer muito mais sobre todo esse mecanismo cósmico, muito melhor do que eu que estudei apenas a mim mesmo..."

"Mas disseram-me que você é um grande sábio, que conhece muitos segredos da alma e do lado oculto das coisas. Você me diz que sabe quase nada... Então, como pode viver com essa angústia?"

"Pois eu lhe digo, meu amigo, que é exatamente essa angústia que me faz viver. Viver cada vez mais, viver em todos os momentos o espetáculo que se arma para aqueles que não tem medo de mergulharem em si próprios."

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30.4.09

O sexto deus

Era um planeta minúsculo, não mais do que 100 km quadrados, a vagar em torno de alguma estrela de alguma galáxia do universo. Mas os deuses que o habitavam não se importavam com o restante do cosmos, estavam bem atribulados com suas existências imortais. Nesse distinto mundo, contavam-se ao todo seis deuses:

O primeiro deus era o Legislador. Era quem determinava as relações entre os demais deuses, cuidando para que ninguém fosse injustiçado. Ele recebia um imposto dos demais por seu trabalho, de acordo com as condições de cada um.

O segundo deus era o Lorde. Foi quem primeiro descobriu a única mina de ouro que existia em seu planetóide, e portanto a proclamou como sua posse. Era com o ouro do Lorde que a economia girava, e obviamente ele ficava com a maior parte dele (“para o caso de alguma crise”, explicava).

O terceiro deus era o Mercador. Era o responsável pelo giro financeiro do mundo. Através dele todos os outros deuses podiam comprar e vender mercadorias, de modo que todos ficavam satisfeitos de poder fazer alguma coisa com o ouro que recebiam. O Mercador sobrevivia da taxação de todas as transações comerciais. Muitos diziam que ele certamente teria mais ouro que o próprio Lorde, embora ninguém soubesse onde o escondia...

O quarto deus era o Minerador. Foi quem primeiro descobriu as técnicas para se extrair o ouro da terra, a convite do Lorde. Desde então trabalhou incansavelmente para extrair a maior quantidade de ouro possível, visto que seu pagamento equivalia a uma percentagem do que conseguia extrair. Obviamente que a maior parte ficava com o próprio Lorde.

O quinto deus era o Agricultor. Era ele quem conhecia os segredos das plantações de árvores frutíferas, folhas e legumes em geral. Apesar de imortais, todos os deuses precisavam comer para se manterem saudáveis. Estranhamente, o Agricultor era quem recebia menos ouro pelo seu trabalho, já que quase todos os outros deuses (menos o sexto) valorizavam mais o ouro do que a própria saúde. Dessa forma as frutas e verduras eram vendidas por preços ínfimos.

O sexto deus era o Sábio. Ele se recusava a trabalhar para outros deuses, e como era amigo do Agricultor, aprendeu com ele o necessário para plantar as próprias sementes. Tirando seu amigo, todos os outros deuses eram inimigos do Sábio: O Legislador não gostava dele porque quase nunca tinha qualquer imposto a pagar (já que não tinha renda alguma); O Lorde o ignorava solenemente porque abominava seu discurso de que “o ouro não é tão importante quanto à sabedoria”; O Mercador o tratava como um reles mendigo porque nunca tinha ouro suficiente para comprar qualquer mercadoria; Já o Minerador nunca havia compreendido como o Sábio podia viver sem o fascínio pelo ouro.

Então veio uma catástrofe mundial: o ouro que havia na montanha do Lorde acabou! Não havia mais nada para se extrair, e o ouro que já havia sido extraído estava adornando as mansões e os cofres secretos dos deuses mais abastados... Mas não havia mais como pagar pelos trabalhos do Minerador ou pelas frutas e verduras do Agricultor!

De um dia para o outro, todos eram tão mendigos quanto o Sábio. Porém, ao contrário do sexto deus, que dedicou sua imortalidade a estudar a si mesmo, eles haviam relegado a existência ao estudo do ouro, e de tudo que ele podia comprar e adornar – tudo que de nada mais serviria a eles...

Após confabularem entre si, para evitar um colapso mundial de seu sistema de existência, foram humildemente pedir conselho ao sexto deus, que fora chamado a fazenda de seu amigo Agricultor. O Legislador falou por todos:

“Sabes que sou responsável por manter nosso sistema justo para todos. Sempre me pareceu que o sistema de mérito pelo trabalho era o mais adequado, e que todo mérito deveria ser pago em ouro... Mas o ouro acabou e não sabemos mais com o que pagar nossos irmãos. Tu sempre fostes alienado de nosso sistema, nunca concordou com ele. Por isso viemos lhe pedir conselho sobre o que fazer agora. Acaso durante todo esse tempo tendes pensado em um novo sistema para o mundo? Acaso havia previsto que o ouro acabaria?”

“Eu nunca previ que o ouro acabaria, mas fico satisfeito que finalmente acabou. Tu dizes que eu era contra o sistema de mérito, mas não é verdade: sou contra o pagamento em ouro. Durante todo esse tempo tenho pensado numa melhor forma de pagar pelo mérito alheio.” – Respondeu o Sábio.

“E achastes uma forma melhor?” – Prosseguiu aflito o Mercador.

“Não. Mas o que importa é que tenho sobrevivido esse tempo todo sem participar do sistema de vocês graças ao que o Agricultor me ensinou. E ele não me ensinou apenas a plantar sementes... Ensinou também a plantar amizades. Não tenho, depois de todo esse tempo, uma resposta simples para nosso sistema futuro. Mas tenho uma resposta simples para o que me manteve contente e mentalmente produtivo durante todos esses ciclos: sementes e amizade.”

raph'09


» Veja também a continuação deste conto, "O sétimo deus"

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Crédito da imagem: Divânia

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29.4.09

O rabi

Essa é a narrativa da conversa que o jovem Ayatsu teve com o Mensageiro dos Céus no topo de uma colina na Índia, no final da tarde após a morte do velho monge que um dia havia estado em Jerusalém, e que era o mestre de ambos no budismo...

Ayatsu – Nosso mestre dizia que era nosso professor apenas nos ensinamentos de Buda, mas que você era o rabino de todos nós... O que isso quer dizer?

Mensageiro – De onde caminhei antes de chegar aqui, rabino significa “professor”; Espero ser um bom rabino, para poder passar tudo aquilo que aprendi de outros mestres, e do reino de Deus.

Ayatsu – O reino de Deus! Gostaria de saber mais sobre isso... É verdade que quando atingimos o nirvana nos livramos da roda de encarnações e podemos entrar no reino de Deus?

Mensageiro – Qualquer um que nascer de novo pode entrar no reino de Deus.

Ayatsu – Ora, mas e todos nós não nascemos de novo? Então, você encontrou o reino de Deus, sabe onde fica?

Mensageiro (ele olhou de forma enigmática para Ayatsu, e levantou uma pequena pedra do chão) – Você vê o reino de Deus aqui?

Ayatsu – Não, isso é apenas uma pedra!

Mensageiro (ele suspirou e lançou a pedra longe, e ela rolou colina abaixo até cair em um pequeno lago) – Então você ainda não sabe onde fica o reino de Deus...

Ayatsu (confuso) – Mas, não entendo o que quer dizer. E eu estudei anos com meu mestre. Eu sei ler e escrever, conheço os segredos da meditação... E não entendi. Você não veio ensinar a todos nós? Não vai retornar a sua terra e ensinar o povo de Jeová? Como você espera que eles compreendam algo?

Mensageiro – Mas Buda não veio e ensinou-nos sobre o nirvana e sobre o reinado de nós mesmos? (Ayatsu concordou) Pois eu vim falar também de coisas celestiais, e haverão poucos que as entenderão e passarão adiante, exatamente como nosso mestre que ensinou-nos apenas o que pode ensinar. É assim que o reino de Deus se instaura no mundo, pois todos devemos entrar nele de mãos dadas.

Ayatsu – Mas nem todos vem estudar nos mosteiros, com os sábios. A maioria prefere tratar de assuntos de ouro e guerras, e todas essas coisas mundanas... Eles não vão aceitar esse novo conhecimento. Eles vão preferir continuar como estão. Eles podem mesmo te expulsar de sua terra... Você não teme isso?

Mensageiro – E eu não vim apenas trazer uma mensagem do reino de Deus? Como poderei ser expulso se aqui não está minha terra? Na verdade lhe digo que cada um compreende o que pode compreender. Se o reino de Deus ficasse abaixo do mar, os peixes seriam nossos mestres. Se ficasse acima das nuvens, as aves seriam nossas sacerdotisas. Mas, se o reinado se faz no coração, o único caminho até ele é o amor.

raph'09

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Este conto é continuação direta do "O mensageiro dos céus", e continua em "O pescador de almas".

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Crédito da foto: huminiak

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28.4.09

O mensageiro dos céus

Há quase dois milênios atrás, um sexagenário budista indiano, que tinha um grande número de seguidores estudantes da doutrina de Buda, resolveu viajar até o oriente médio. O senhor só iria levar consigo suas roupas, seu cajado de madeira e um seguidor ainda jovem... Poucos na localidade sabiam o que iria o velho monge fazer tão longe, mas alguns especulavam que ele seguia uma mensagem dos espíritos; Iria atravessar enormes distâncias em nome da fé: a mensagem dizia que o mensageiro dos céus, o filho de deus, estava entre os povos do mundo; E logo iria se revelar, mudando para sempre o coração entristecido e desorientado da humanidade.

Ayatsu foi o escolhido para acompanhar o monge. Era ainda jovem e vibrava com o glorioso destino de conhecer o filho de Deus! Após anos de andanças, os dois finalmente chegaram à cidade de Jerusalém. Lá encontraram um outro velho budista, que havia vindo do Nepal anteriormente. O outro monge disse que havia desistido da procura; Afinal, era impossível achar um único homem numa região tão extensa... Depois voltou para sua terra natal.

Após algum tempo de reflexão, o monge teve uma idéia e a seguiu: montou uma tenda numa das entradas da cidade e mandou Ayatsu espalhar a notícia de que naquela tenda recrutavam-se pobres e pastores para trabalhos de empregaria em casas abastadas. No outro dia formava-se uma pequena fila fora da barraca. O monge disse a Ayatsu que iria se ajoelhar e reverenciar cada um dos que entrassem pela tenda como o filho de Deus, mas só uma reação específica indicaria ser aquele o homem dos céus.

Durante aquele dia e outros, e semanas, e meses, nenhum homem reagiu da forma adequada... E finalmente o monge se deu por vencido e decidiu retornar a Índia. Ayatsu tentava imaginar que tipo de reação indicaria ser o filho de Deus: brilhar como o Sol? Levitar? Fazer algum milagre?

Depois de anos voltaram a Índia. O monge já estava conformado e não esperava mesmo encontrar o mensageiro dos céus. Porém, numa ensolarada manhã, um homem de aparência judia, barba e cabelos acastanhados, olhos verdes e trajando roupas leves e de cores quentes apareceu na entrada do mosteiro. Ele falou:

"Eu vim aprender sua religião. Não procuro nada senão teu conhecimento."

Extasiado, o velho monge ajoelhou-se ante o homem; E o homem, inconformado com a atitude do monge, ajoelhou-se também. O monge então encostou sua cabeça no chão, e foi imediatamente acompanhado. Com enorme alegria em seu coração, o budista olhou nos olhos do desconhecido e bradou:

"Tu és o senhor de todos nós, o mensageiro dos céus!"

Com a face plena de paz, o homem respondeu:

"Não, nada além do que você ou qualquer homem do mundo, todos nós trazemos um pouco de Deus em nosso interior. Todos somos filhos de Deus. O que eu fiz foi olhar em meu coração e descobrir a verdade sobre todas as coisas maravilhosas que compõe a divina criação, o tudo."

raph'96

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Este texto "chegou" para mim de maneira inesperada. Em meados de 1996 eu era apenas um jovem universitário que gostava de quadrinhos, esportes e RPG - nunca tive qualquer tipo de educação religiosa, a não ser as intuições que trouxe comigo desde o nascimento (imagino)... No entanto, não lembro bem o que assistia na TV, peguei uma carta impressa de condomínio, uma caneta, e na parte de traz do papel (que estava em branco) escrevi a mão esse conto que acabou de ler (não estou dizendo que psicografei o texto, apenas estava estranhamente inspirado).

Fato é que, de lá para cá, obviamente a temática de meus textos mudou consideravelmente (embora não tenha deixado de escrever sobre fantasia). Se hoje tenho esse blog, um livro de filosofia espiritualista e mais de uma centena de poesias escritas, é porque de certa forma tudo se iniciou naquele dia em que escrevi esse conto - em que deixei ele chegar, por assim dizer. Para mim pessoalmente ele é importante por inúmeras razões: pelos comentários que recebeu, pelas pessoas que o leram, pelos lugares onde foi lido, etc. Mas acima de tudo ele iniciou um ciclo pessoal, por assim dizer. Ciclo este que se renovou com o conto que vem na sequência deste:

» Leia o próximo conto desta série, O Rabi

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Este conto também se encontra traduzido para o inglês: "The messenger of the skies"

Crédito da foto: Wikipedia (cristianismo arcaico)

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2.3.09

O caso da consciência 333, parte 2

continuando da parte 1...

O dr. Dennet ficou pasmo (se é que ele podia descrever tal sensação nesses termos, visto que nunca a havia realmente sentido antes). "Envolvimento com militares, esse caso poderá arruinar minha carreira" - foi a primeira coisa que lhe surgiu a mente... Trêmulo, pensou em tomar alguns comprimidos de emergência para evitar qualquer stress momentâneo, mas achou por bem primeiramente encerrar aquela seção, e mesmo o tratamento do paciente Parnia como um todo:

"Parnia, você chegou além do meu limite. Não posso continuar arriscando minha carreira no tratamento de indivíduo tão anarquista (nessa era essa era uma grande ofensa) quanto você... Iremos encerrar o tratamento ainda hoje, e peço encarecidamente que não comente com ninguém que algum dia fui seu psicanalista virtual!"

A consciência 333 ficou estranhamente calma, e falou ao doutor:

"Sabe dr. Dennet, devo lhe confessar uma coisa: realmente faz quase um ano que venho evitando tomar as pilúlas PG que me receitou. No início fiquei verdadeiramente apreensivo quanto a isso, pois que me parecia uma estupidez me arriscar a entrar em depressão, principalmente aqui na Terra onde esse mal é visto como algo ultrapassado, digno dos maiores alucinados nos arcabouços de contenção... Mas, sabe o que me deu a maior coragem em seguir adiante e interromper o tratamento?"

Vendo que o doutor estava tão exaltado que mal esboçou qualquer reação a pergunta, respondeu a si mesmo:

"Houve a quase um ano nosso encontro pessoal anual para discutir o tratamento e seus custos para o próximo ano. Eu sempre suspeitei de uma coisa, mas só a pude confirmar quando tive a oportunidade de conversar com o senhor pessoalmente, olhando em seus olhos - A verdade é que você nunca esteve especificamente interessado em que eu melhorasse. O senhor aceitou me tratar porque percebeu a oportunidade de tratar de alguém que foi famoso na infância, um homo sapiens geração 7 de alta cognição, e esperava que com seu 'tratamento infalível' a base das novas pílulas PG eu voltasse ao meu 'equilíbrio' e aceitasse voltar a MSGoogle-Academics, e consequentemente ao noticíario extra-planetário, o que lhe garantiria no mínimo a maior fama que poderia almejar em sua vida... Mesmo que seja uma vida a base de amplificadores genéticos, de quase 4 séculos de duração..."

"Ora, isso eu não nego. Será crime almejar ser bem sucedido na carreira? Será crime esperar que um jovem tão promissor como você pudesse aceitar finalmente que todo seu potencial cognitivo fosse devidamente explorado pela Scientia?" - Agora mais calmo, o doutor pode participar do diálogo.

"Dr. Dennet, me desculpe, mas exatamente de que carreira estamos falando?"

"Parnia, você sabe muito bem: psicoterapia."

"Uma pena doutor, pois que eu saiba a psicoterapia faz parte do tratamento de pacientes com problemas psicológicos que os aflingem e atrapalham em sua vida. Para ser um psicoterapeuta deve-se, portanto, não só estimar sempre a melhora constante e gradual de seus pacientes, como ama-los e estimula-los em qualquer caminho que lhes traga felicidade. Uma pena que nenhum desses conceitos foi compreendido pelo senhor. Uma pena que a única 'felicidade' que conhece é aquela que vem através de uma pilúla. Boa sorte doutor, ainda que viva 4 séculos, o senhor vai precisar dela..."

E desligou o holocomunicador.

***

Nota: o objetivo deste conto não é estimular pacientes em estado de depressão a deixar de tomar anti-depressivos. Se tudo o que você compreendeu desse conto foi isso, talvez seja melhor o ler novamente. Não vivemos numa "era científica-materialista" no contexto do conto, e felizmente ainda temos livre-arbítrio o suficiente para sermos capazes de discutir se nossa consciência é apenas fruto de uma configuração exótica do cérebro, ou algo mais profundo...

Crédito da foto: Mª Eugênia M. Guimarães

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1.3.09

O caso da consciência 333, parte 1

Era a última seção do dia 265/611ec (lê-se dia 265 do ano terrestre 611 da Era Científica) e o doutor Dennet já estava ávido para encerrar o dia de trabalho, afinal já estava atendendo pacientes em seu consultório virtual a quase 4 horas seguidas - "Que estranho, estou me sentindo descontente com o trabalho de novo, preciso lembrar de duplicar a dose semanal de PG447 (lê-se proteínas G de estímulo a sensações de prazer relacionadas ao trabalho)" - pensou, para logo após compreender o porque do mal-estar: teria de atender novamente o caso do paciente Parnia, o caso da consciência 333.

As consciências eram então classificadas por extensos códigos, mas normalmente apenas os 3 últimos dígitos eram usados para classificações de pacientes de consultóros psiquiátricos. Isto é, os dígitos associados ao nome de registro na sociedade. Parnia333 era filho de Greenfield012, e fora gerado por configuração genética classe A a cerca de 25 anos terrestres... Era dono de uma cognição impressionante. Quando jovem fora noticiado na imprensa galáxica como primeiro homo sapiens de geração 7 da MSGoogle-Genetics a conseguir resolver equações quânticas de nível gama aos 6 anos, e conseguir elaborar construções virtuais em 9 dimensões aos 15 (os outos que conseguiram tais feitos não foram completamente gerados em laboratórios certificados, e portanto não constavam nos registros da Scientia); Porém, infelizmente, talvez a exemplo dos outros "candidatos a gênio", recusou-se a cumprir o programa de Ensino a Excepcionais da MSGoogle-Academics, e foi excluído do noticiário... Em sua cidade, muitos dizem que foi esse o principal motivo de seu quadro psiquiátrico de felicidade ter se agravado, ao ponto de hoje estar próximo da depressão, algo absolutamente impensável na era atual.

Sua mãe, Greenfield, já havia relatado ao dr. Dennet que em repetidas semanas houvera reparado que Parnia havia simplesmente desintegrado as pílulas PG (anti-depressivas e de estúmulo ao amor-próprio e contentamento social) que o tratamento prescrevia que tomasse. Quando finalmente sua mãe teve coragem de tocar no assunto, ele apenas se limitou a dizer "que não queria que pílulas determinassem sua vida. Se era verdade que a consciência humana tendia a depressão se fosse deixada sem controle químico, ele queria conhecer essa depressão, queria 'saborea-la', queria ter o controle de suas próprias decisões." - A tendência a experiência anti-científica do livre-arbítrio era ainda comum nas colônias planetárias distantes, onde ainda praticavam-se crendices arcaicas de outras eras. Mas que isso ocorresse na própria Terra, e ainda, em um homo sapiens de geração 7, era impensável para o dr. Dennet. Em suma, talvez fosse essa série de eventos que estivesse lhe causando certo desconforto. Mas teria de continuar a atender Parnia, não queria "desistir" de um paciente, sua reputação na Scientia dependia inteiramente disso.

"Olá doutor" - Disse Parnia no holocomunicador, com uma expressão intrigante, misto de tristeza e alegria inexplicáveis para os conceitos do dr. Dennet.

"Olá Parnia. Aqui consta que seu quadro continua perigosamente próximo a depressão... Você seguiu minha recomendação de tentar a transferência de consciência para um corpo feminino, talvez a interação hormonal ou o simples efeito de novidade tivesse algum efeito mais aprofundado que as pílulas PG que tenho certeza que está tomando regularmente, não?"

"Oh sim doutor, eu tentei a transferência por duas semanas. Foi algo bem interessante, sem dúvida. Ocorre que eu não sou bissexual como a maioria, então não pude aprofundar o tratamento a nível de experiência sexual, se é que me entende..."

"Parnia, Parnia... Você de fato é um espécime raro. Existe por acaso alguma característica genética ou memética em sua consciência que se assemelhe 'a alguma maioria'?"

"Genética ou memética não doutor... Mas confesso que desde que experimentei parar com as seções de refreamento da Pineal, assim como as seções de eletromagnetismo fluido para supressão de flutuações quânticas nas sinapses cerebrais, tenho compreendido muito mais acerca das outras dimensões que visualzei quanto ainda jovem..."

"O que?!" - pululou o dr. Dennet visivelmente exaltado - "Você tem idéia do que é isso? O desligamento continuado desse tipo de tratamento deve ser explicitamente permitido pela Scientia e só ocorre em casos raríssimos! Você por acaso está agindo de maneira anti-científica, contra a lei?"

"Ora doutor, ir contra a lei não é mesma coisa que ir contra a ciência... Até mesmo porque tenho uma visão um pouco diferente do que seja a ciência, pelo menos da visão da maior parte das pessoas. A começar pelo fato de crer que algumas novas descobertas serão alcançadas em laboratórios fora do padrão da Scientia, alguns deles pertencentes a Mobilização Linux de colônias a alguns anos-luz da Terra. Mas o fato é que consegui uma autorização da lei para interromper o tratamento, portanto estou inteiramente dentro da lei."

"Como conseguiu esse tipo de autorização, Parnia?"

"Eu consegui manter contato cognitivo de classe beta com consciências extra-corpóreas, não catalogadas no sistema da Scientia. O grupamento militar ExxonBlackwater ficou bastante alarmado quando consegui trazer provas de que certos segredos militares foram transmitidos a mim por esse tipo de contato, tanto que me liberou do tratamento de refreamento da Pineal, que sempre foi o principal obstáculo para que eu continuasse a ter esse tipo de experiência... anti-científica, como bem sabe..."

continua...

***

Crédito do desenho: Santiago Ramón y Cajal

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4.2.09

O valor da vida

Era um dia tranquilo no terreiro de Pai Tomás. Seus seguidores, umbandistas, contavam orgulhosos que em décadas de trabalhos com entidades, nunca houve um único trabalho que visasse prejudicar a alguém. Apesar do preconceito de muitos para com sua religião, os umbandistas do terreiro de Pai Tomás estavam tranquilos consigo mesmos, não se preocupavam com a crença e a descrença alheia, e sempre respondiam com sorridelas quando perguntados "se eram macumbeiros": "Faço macumba sim, mas minha macumba é do bem, irmão."

No entanto, após as festividades e oferendas de frutas aos orixás, lá pelo final da tarde, uma picape estacionou na entrada do terreiro - Era daquelas importadas, e com vidro escuro, talvez fosse até blindada, quem sabe? - O fato é que de dentro do carro saltou um homem visivelmente aflito, de olhar frio, bem vestido, e ele "exigia" ver o Pai Tomás o mais breve possível.

Ninguém ofereceu resistência, todos que vinham conversar com Pai Tomás eram atendidos, apesar de que aquela era a primeira vez que alguém chegara de picape importada nas redondezas do terreiro. "Deve ser maluco, graças ao bom Exu não foi assaltado passando por essas bandas" - pensavam os seguidores, na grande maioria bem mais humildes que o sapato lustroso do visitante.

Este, ao finalmente deparar-se com Pai Tomás, disse exaltado:

"Olá, me disseram que o senhor é de confiança, que o trabalho aqui é poderoso mesmo... Posso confirar?"

"Cada um confia no que quer. Mas, já que está aqui, me diga qual é esse trabalho de que precisa, pois pode ser que possa lhe ajudar" - respondeu-lhe o ancião, com um leve sorriso por traz da negra barba branca.

"Eu preciso de trabalho de morte, para matar!" - e retirando a carteira do bolso, preossegiui - "Dinheiro não é problema. Um sujeito me ferrou nos negócios, preciso mata-lo, não vou descansar enquanto não estiver bem morto e enterrado. Que morra de doença ou acidente, se o "exu" não te ajudar, pode matar do jeito tradicional, contanto que ele morra!"

Pai Tomás então analisou o sujeito com seu olhar pacato, olhou fundo em seus olhos, até o ponto de quase assustá-lo e fazê-lo retornar de onde veio, e disse lentamente dentre uma e outra baforda de cachimbo pelo ar:

"Você me parece tão cansado meu filho. Façamos o seguinte: o senhor fica aqui até mais tarde, que lhe daremos banho, colocaremos pote de canjica na cabeça para ver se dá uma limpeza nessa confusão toda aí, daí o senhor dorme, e quando estiver de saída, eu te digo quanto vai custar o trabalho."

Todos acharam estranho Pai Tomás não ter recusado prontamente um trabalho tão sombrio. Sentiam repulsa daquele homem amargurado, obssecado pela morte de outra pessoa, mas mesmo assim seguiram com os banhos e o tratamento... Ao final, o sujeito acabou dormindo por quase duas horas, e quando acordou, se dirigiu ao Pai Tomás sorridente:

"O Pai tinha razão, estou bem mais tranquilo agora, quase fico relaxado em saber que aquele crápula vai pagar pelo que fez. Mas, enfim, quanto é que isso vai custar? Não se preocupe que eu sei que esses "trabalhos" são os olhos da cara, eu sou sujeito rico!"

O ancião, amigo de orixás e entidades de luz, fitou-o brevemente e respondeu:

"O senhor volta para casa e pensa durante a noite: quanto vale a sua vida? Daí assim que tiver esse valor, o da sua vida, o senhor volta e me traz, que vai ser o valor do trabalho."

 

Não se sabe se o sujeito rico conseguiu eliminar quem desejava, o fato é que nunca mais foi ter com Pai Tomás.

 

***

Conto baseado em supostos fatos reais relatados pelo amigo Daniel. Os nomes são fictícios.

Crédito da foto: Paula Sacchetta

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15.2.07

O artista

Dentre aquela imensidão natureza, de uma curva a outra do mundo, as plantas se esgueiravam pelo solo, as frutas se sacudiam nas copas das árvores, e os pássaros celebravam a vida, numa sinfonia cuidadosamente orquestrada...

E todos ouviram os passos, o couro que rasgava a trilha, tão diferente, tão estranho, que viram de longe. O vento encerrou sua dança, como uma criança ao avistar uma formiga... Tão pequenina, e tão audaz.

O homem artista, que ainda antes era um ser humano, abriu sua maleta no alto do monte, dela retirando uma pequena tela e um pincel imaginário... Olhou, olhou, e olhou. Ah, e as plantas, as árvores, o vento, até mesmo as formigas ajudaram! Tecendo uma música tal sublime, que o homem só podia mesmo ouvir lá dentro de seu coração...

E aquela tela, tão branca, tão vazia, recebia generosas gotas, as lágrimas que escorriam bravamente de um canto qualquer da alma artista. Dentre a tinta aparentemente transparente, cores surgiam como que passes de mágica. Não sabíamos se era o homem que chorava o quadro, ou o quadro que refletia ao homem.

Naquele ritmo, o homem foi sendo artista... Tanto amor, tanta alegria, que enfim resultou numa autêntica obra de arte. Todos foram ver aquela imagem invisível, que camuflada entre uma superfície sem cor nem tom, só mesmo podia ser vista pelo homem artista e sua inspiração.

Mas a natureza voltou a seus afazeres, o homem não... Permaneceu absorto em posição de aprendiz, e assim foi durante toda uma eternidade...

raph'99

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8.12.06

Vida abundante

O astrônomo queria saber o que havia no início desse universo, e com seu super telescópio, passou dias e noites, e semanas e meses, apenas observando os céus noturnos, em busca de algum resquício de luz da grande explosão que iniciou isso tudo, o Big Bang.

E quando mais achava pistas sobre ele, mas tempo passava no telescópio... Até que um dia foi recompensado, encontrara no passado distante, a milhões de anos-luz, o nascimento de uma pequena estrela nos confins de nossa própria galáxia. De uma explosão de luz, viu que do nascimento incandescente daquele pequeno sol, milhares de pequenos fragmentos foram arremessados no espaço sem fim... Um desses fragmentos era um asteróide, mas não um asteróide qualquer, porque o astrônomo sonhou que ele era parte dessa pedra viajante.

Ou talvez estivesse no sonho de alguém, mas o fato é que viu todo o percurso daquele pequeno pedaço de rocha pelo espaço... Observou muitas outras estrelas, outros sóis e seus planetas, luas, anéis de Saturno, e milhares de outros asteróides, cada qual em sua própria rota, determinada por sabe lá quem ou o que...

Até que avistou um imenso ponto negro no espaço, realmente mais negro do que o próprio espaço em si, totalmente escuro, pois que nem a luz lhe escapava. Era assutador, impossível saber o que havia em seu horizonte interno, pois sugava toda a luz, e ainda não haviam inventado um telescópio que enxergasse onde não há luz alguma... Mas nesse momento soube da inevitabilidade de sua aproximação do arauto da destruição, era impossível que aquele pequeno asteróide tivesse forças para sobrepujar a atração mortal do imenso buraco negro.

No entanto, quando estava mais próximo de sua entrada, pareceu tranquilizar-se, como quem pensa da seguinte forma: "se por acaso foi o nascimento de uma estrela que me arremessou no espaço, talvez não seja de todo mal que eu me perca para sempre na carcaça mortal de uma de suas irmãs". O buraco negro nada mais era do que uma estrela muito mais antiga que já havia entrado em processo de auto destruição, levando tudo a sua volta consigo, até mesmo a luz, mas não a esperança...

Pois que após vagar por incontáveis séculos pelo universo sem fim, o pequeno asteróide e seu astrônomo aprenderam uma lição. "Aqui existe vida, vida abundante, vida infinita. Enquanto uns se perdem nos horizontes escuros de um buraco negro, muitos outros são arremessados no espaço a todo momento, numa inexplicável, onipotente demonstração de amor."

E desse modo pleno de confiança, adentrou no escuro absoluto... Menos de um momento depois, já se via vagando pelo nosso sistema solar, em direção a terceira pedra do nosso sol, a mãe azul, Terra. Não sabia o que havia ocorrido dentro do buraco negro, mas sabia sim que persistia, ainda que numa outra forma, um asteróide muito maior, com diversas outras inteligências em estado bruto... "Nada se perde, tudo se transforma."

Queimou ao entrar em contato com nossa atmosfera, e caiu incandescente... Mas dor, dor não sentia... Sentia uma imensa alegria, como a de quem encontra uma casa nova para morar. E, caindo em algum lugar do Egito, a milhões de anos atrás, se transformou numa imensa montanha, e depois numa das árvores que crescia na base dela, e depois em um pequeno réptil, um gatopardo, um gorila, um homem das cavernas e, finalmente, um homem!

Então o astrônomo acordou de súbito, houvera cochilado durante suas observações sem fim. Imediatamente pensou: "nunca sonhei um sonho tão real." E dali em diante, passou a se preocupar mais consigo mesmo do que com o universo distante... De algum modo, sentia que era ele em si, parte desse universo, e olhar para dentro de si era como olhar para as regiões mais longínquas do cosmos.

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30.11.06

Onde estão seus móveis?

Havia um sábio no Egito que era visitado por todo tipo de celebridade e empresários na décade de 80. Mattew era um desses jovens quase milionários que ainda buscava um ideal de vida, e resolveu pegar o avião da empresa de seu pai, a qual também fazia parte ele mesmo na área de finanças, e seguir para o templo do guru.

Chegando lá, teve de esperar algumas horas para ser atentido, visto que o sábio não atendia as pessoas por ordem de grandeza material... Quando finalmente chegou a sua vez, Mattew adentrou a sala onde o guru aconselhava os seres, achando que seria tão luxuosa quanto o resto do templo. Mas lá dentro, havia apenas algumas velas em cima de um toco de madeira, uma pequena pilha de livros antigos empilhados num canto, um jarro dágua com alguns copos de barro ao lado, e um semi ancião sentado em um longo tapete cheio de mandalas bordadas.

Interessante foi que Mattew nem esperou o sábio a sua frente iniciar a conversa:

"Ora, mas como o senhor atende as pessoas o dia todo praticamente sentado no chão... Porque não pediu para alguém lhe trazer alguns móveis do saguão ao lado?"

No que o guru olhou bem fundo nos olhos de Mattew, e assim permaneceu até o fim da conversa:

"Mais esses móveis não são meus, são os móveis desse templo de luz que gentilmente me sede esta sala para que eu possa aconselhar e curar a alma das pessoas angustiadas e perdidas... Com o que já fico imensamente agradecido."

"Mas e por acaso sua casa não fica próxima daqui?"

"Sim, de fato ela fica muito próxima realmente..."

"E então, onde estão os seus móveis? Poderia trazer ao menos uma cadeira para não ter se ficar aí no chão."

"Mas eu não tenho móveis."

"Como? Não tem móveis? Mas como assim, você quer dizer que sua casa também não tem móvel algum?"

"Permita-lhe perguntar portanto, porque você mesmo não trouxe as cadeiras de sua casa para nossa conversa?"

Mattew soltou uma leve gargalhada e respondeu:

"Ora, mas não lhe avisaram? Eu estou em trânsito, vim lá dos Estados Unidos somente para ver o senhor..."

E o sábio respondeu, ao que Mattew não teve com o que retrucar:

"Pois eu também estou em trânsito! E sempre levo minha casa comigo mesmo, pois que não sei aonde a vida irá me levar amanhã."

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28.11.06

Conversa de bar

Já era noite na cidade e como de costume a boêmia se encontrava nos bares para dançar, beber, seduzir e conversar. Alan e Carlos conheciam-se apenas de vista, mas por alguma razão no final da festa passaram a conversar sobre filosofia, ou mesmo filosofar (bem talvez eles tivessem bebido um pouco além da conta, não é a toa que a "filosofia de butequim" é um dos ramos mais difundidos da arte).

Conversa vai e conversa vem, depois de terem passado por filósofos modernos, acabaram como sempre caindo na grécia antiga. Interessante, ambos gostavam de Epicuro (nem todos entendem a simplicidade de se viver feliz, porisso a surpresa usual )... Mas Carlos teceu aquele tipo de comentário que pode encerrar uma conversa num momento: "Sim, puxa como é belo o pensamento de Epicuro, uma pena que não acreditasse em Deus." - Ora, mas Alan era ateu, como muitos filósofos aliás, e já se sentia triste por ter de encerrar a conversa, principalmente devido ao "uma pena": "Bem, mas eu também não acredito em deus."

Houve uma leve tensão no ar, mas para a surpresa de Alan seu agora talvez quase amigo respondeu: "Ah tudo bem, é que... Bom, eu acredito Nele, ou melhor, tenho certeza, então acho que Deus adicionaria muito na filosofia de Epicuro... Principalmente porque na época a idéia de Deus não era limitadora como na idade média." - Alan achou interessante poder continuar uma conversa como aquela, sem ser "censurado" por não acreditar em algo que a maioria acredita.

Conversa vem e conversa vai, Alan começou a ficar curioso para saber como alguém que acreditava em Deus podia ser tão "mente aberta" e sem preconceitos para com muitos assuntos e muitos filósofos... Até que teve vontade de dizer, e realmente disse: "Sabe, para alguém que tem certeza de deus, até que você está aberto a muitas idéias novas. Certeza é uma palavra forte, como você pode dizer que tem essa certeza toda?" - Carlos simplesmente disse: "Ora não sei. Bem eu sei que já nasci com essa certeza, mas não sei muito bem explicar ela."

"Mas e você não conversa com deus? Não tem medo de ir para o inferno ou coisa assim?"

"Não. Bem se Deus quisesse que fossemos perfeitos desdê a criação, não nos teria criado assim tão imperfeitos não é mesmo? Mas fácil teria sido criar robôs que já viriam programados para sempre trilhar os caminhos iluminados e sempre fazer as escolhas corretas... Eu não tenho medo de ir para o inferno, porque para mim não existe inferno, apenas ignorânica. Se tenho medo, tenho medo de repetir erros e fazer escolhas erradas, mas mesmo assim na vida ou na morte, tudo tem conserto."

"Mas então você não é daqueles que conversa com deus todo dia antes de ir dormir? Tipo, acredita que ele aparece para nós? Acredita que Jesus era deus?"

"Claro que Jesus não era Deus. Jesus foi o maior homem a passar pela Terra, mas entre o homem e Deus ainda existe uma extensa distância a percorrer. Deus não precisa aparecer nem conversar conosco, já que tudo na existência segue suas leis que foram determinadas ainda na criação do cosmos, acredito... Mas também não acho importante o fenômeno, o milagre. O importante é estar no caminho certo na vida, e se reconfortar com a idéia de que existiu sim um Ser antes do universo, e que se nos criou só poderia ter uma intenção de amor, já que o próprio ato de criar é um ato de amor."

"Interessante, mas se para você deus não interfere em nada em nossas vidas, se não pode fazer milagres por nós, se não pode nos julgar e nos mandar para o céu ou o inferno, então deus não exerce nenhum influência em sua realidade... Existe apenas a idéia, ou a certeza, a crença, de que ele existe. E que diferença isso faz?"

"Meu caro Alan, será que ainda se lembra de primeira vez que beijou sua mulher? Ou da primeira vez que fez amor com ela? Ou quando teve a certeza dentro de si que a amava, embora essa certeza fosse tão invisível quanto tantas outras?"

"Sim, bem eu ainda a amo."

"Pois é, e que diferença isso faz?"

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