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4.6.15

Mergulhando em corações, parte 1

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).


Há anos atrás Marcos estava meio desiludido com toda a sua busca espiritual. Havia nascido no Brasil, mas morado no Japão, nos EUA e noutros cantos deste planetinha, até que resolveu “se aposentar do trabalho formal” e viajar para a Índia, em busca da fonte original de tantos textos sagrados que havia lido ao longo da juventude.

Marcos estava num restaurante indiano, não propriamente “afogando as mágoas”, pois dificilmente se acha bebida alcóolica por lá [1], mas antes, quem sabe, finalmente encarando a própria tristeza. Faltava ainda algo em sua busca, algo essencial...

Dizem que quando o discípulo está pronto, o mestre aparece, e foi exatamente neste restaurante que Marcos encontrou Atmaji conversando com amigos, admiradores e discípulos. Marcos entrou na roda, e nunca mais saiu... Virou um dos discípulos de Atmaji, e ainda hoje vive entre o Oriente e o Brasil. É através de seu mestre que prossegue firme em seu caminho de autoconhecimento e autorrealização, seja acordado ou sonhando.

A diferença é que não existe mais Marcos. Desde que foi iniciado no ashram [2] de Atmaji, aquele que era Marcos vem, passo a passo, se transformando em Abhishek Ji. Não se trata só da mudança do nome mundano para o nome divino – lentamente, ele mesmo também morre para o seu eu anterior, e renasce como alguém destinado a iluminação.

Atmaji é, quem sabe, décadas mais velho que Abhishek, mas já alcançou a iluminação há muitos anos. Fora farmacêutico e praticante de diversos tipos de yoga, mas após haver alcançado a iluminação, fez como outros mestres, e resolveu dedicar o restante dos seus dias neste planetinha para tentar auxiliar os demais a se iluminarem junto com ele...

Foi assim que ele concordou em acompanhar Abhishek numa viagem pelo Brasil e, eventualmente, até a sua cidade natal, Campo Grande/MS, que curiosamente é a mesma cidade em que eu vivo hoje. Afinal, não estaria lhes contando toda essa história se não houvesse eu mesmo os encontrado por essas bandas de cá.

***

Para nós que seguimos na trilha espiritual através do estudo de diversas religiões, doutrinas, filosofias e mitologias diferentes, quase que como “turistas de egrégoras”, a melhor coisa é poder contar com amigos na caminhada. No caso, foi através de amigos tanto do Mayhem [3] quanto de um grupo que se reúne para entoar mantras hindus e sufis que eu fiquei sabendo da tal Festa Indiana do sábado a noite, que por acaso era organizada por Abhishek e pelos donos do espaço de meditação e yoga onde ela seria realizada.

A primeira coisa que notei ao chegar com a Vânia, uma amiga do Mayhem, foi a bela decoração do lugar. A festa seria num espaço aberto, onde montaram uma tenda (também aberta) com um longo tapete, cheio de almofadas decoradas, sofás e bancos longos de madeira, tudo no estilo indiano. As pessoas podiam ficar sentadas no tapete, nas almofadas ou nos bancos, e apreciar a miríade de pequenas velas, vasos de plantas e estatuetas de deuses hindus. Atrás das cadeiras onde sentariam Atmaji e seu discípulo brasileiro, podíamos admirar um belo pôster de Krishna e Radha, sua amante.

Lá me acomodei no espaço de um dos longos bancos, próximo a Marcelo, outro amigo do Mayhem, e ao grupo dos mantras. O interessante é que havia encontrado MarciAisha (que era quem organizava a entoação de mantras semanal num studio de dança árabe) exatamente através de minhas traduções de Rumi, o poeta sufi persa. MarciAisha me procurou nas redes sociais querendo saber mais sobre Rumi, e assim ficamos amigos... Pois bem, e eu estava lá naquela festa principalmente por conta de outra tradução que venho tocando neste ano, a do Bhagavad Gita [4].

Ou seja, a minha ideia era mais me “ambientar” neste universo do hinduísmo, e ter uma experiência direta com seus cantos, sua dança, e seus seguidores. Para falar a verdade, não imaginava que o tal “guru iluminado” fosse acrescentar muito a minha noite naquela festa, mas logo veria que estava muito enganado...

Assim que Atmaji e Abhishek chegaram, boa parte das cerca de 60 pessoas da festa foi ao seu encontro para abraçarem e tirarem fotos com o mestre indiano. Após algum tempo, foi nossa vez de nos aproximar... Foi MarciAisha (que já o conhecia) quem me apresentou a Abhishek, e após conversarmos rapidamente sobre viagens de trens na Índia e traduções do Gita em inglês, chegou a minha vez de ser apresentado ao mestre.

Ora, eu definitivamente não chamo muita gente de mestre. Que eu me lembre, nesta vida encontrei pessoalmente somente dois: o Professor Hermógenes, com quem dialoguei algumas vezes no Rio de Janeiro (onde nasci), e Marcio Lupion, de quem vi somente uma palestra uma vez (e foi o suficiente)... Mas quando me aproximei de Atmaji e olhei seus olhos por detrás das lentes de seus óculos, fui repentinamente inundado de uma doce e perene alegria. Era como se ele, como os demais mestres que havia tido o privilégio de encontrar, vivesse num outro tempo, num mundo mais próximo da essência das coisas do que de seu fluxo constante e ilusório.

Ele juntou minhas mãos com as dele e, num inglês tipicamente indiano, me perguntou meu nome, onde nasci e há quanto tempo morava em Campo Grande. Eu respondi tudo em meio às risadinhas que me surgiam a boca, só por estar por ali ao seu lado. Depois nos abraçamos... Eu tive vontade de ficar abraçado por muito tempo, e ele não esboçava nenhuma reação de encerrar tal abraço. No fim das contas, fui eu quem ficou meio sem jeito e me apartei...

Em seguida, vieram outros conversar com Atmaji, e eu fiquei me perguntando, “Por que era tão importante ele saber onde nasci e há quanto tempo moro aqui?”.


» Na continuação, um mergulho no Coração do Mundo...

***

[1] Embora isso possa estar mudando.

[2] Ashram, na antiga Índia, era um eremitério hindu onde os sábios viviam em paz e tranquilidade no meio da natureza. Hoje, o termo ashram é, normalmente, usado para designar uma comunidade formada intencionalmente com o intuito de promover a evolução espiritual dos seus membros, frequentemente orientado por um místico ou líder religioso.

[3] O Projeto Mayhem é basicamente um grupo de colaboradores, leitores, estudantes e simpatizantes do Teoria da Conspiração, o portal ocultista de Marcelo Del Debbio. Deu tão certo que hoje existem grupos em muitas cidades do país.

[4] A quem possa interessar, o livro de Rumi já foi lançado; já o Bhagavad Gita continua sendo traduzido...

» Saiba mais sobre Atmaji em seu site (em inglês): upanisha.org

Crédito das fotos: Om Namastê (o espaço onde foi realizada a festa)

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19.3.15

A educação de Casanova, parte final

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 9


10.

Quando se está a deriva em águas profundas, nunca se sabe até onde as correntes marinhas podem nos levar. Eu tentei nadar em direção a Janaína, mas subitamente percebi, enroscadas em meus tornozelos, as amarras que me atavam as profundezas. Neste momento tive medo, muito medo, mas criei coragem e olhei uma vez mais em direção à superfície, onde minha amada já desaparecia junto com os últimos reflexos da lua. Não sei bem como, mas mesmo lá no fundo, gritei com toda a vontade do meu pensamento:

“Meu amor, me ajude!”

E percebi, deslizando pelas águas fundas, um estranho brilho reluzente de alguma espécie de lâmina... Mas isto foi só por um breve momento, depois fui tragado pelas profundezas...

Lá no fundo, escuro como a noite eterna, vislumbrei e relembrei não somente quem havia sido, mas todos os homens que fui, desde antes das civilizações mais antigas de que a história já teve notícia.

Me vi como uma espécie de símio que ainda mal conseguia se colocar de pé. Meu plano de visão era totalmente terrestre, e eu ainda tinha de caçar os animais, ainda tinha de me alimentar de carne crua e cheia de sangue...Como podíamos viver sem contemplar as estrelas? Como sobrevivemos a tudo isso? Como, mesmo após tanto tempo, ainda aceitamos em nós alguns destes ecos animalescos do passado?

Ainda assim, em meio a tanto sangue e violência bestial, pude vislumbrar o despertar inesquecível do amor, da divina putaria... Pude ver como guardava a melhor parte da caçada para ofertar a uma fêmea ancestral. Pude ver como aquele jogo todo garantia que toda uma espécie pudesse não somente sobreviver num mundo selvagem, como lentamente, bem lentamente, aprender a caminhar de pé, e ver o céu, o sol, a lua, e todas, todas as estrelas da noite sem fim!

E subitamente, ao compreender como uma lótus tão bela podia nascer de um lamaçal tão denso, abri os olhos e percebi os parcos reflexos na lâmina cravada no fundo do mar. Aquela espada estranha era o presente de Janaína, mas a luz que conseguia adentrar tamanha profundidade era o presente do sol. Me senti seguro e reconfortado, mesmo indo tão fundo em mim – não há nada mais fundo do que Deus.

Criei forças para apanhar a lâmina, e com ela dilacerei todas as amarras que me prendiam ao passado. E, ao finalmente me livrar delas, tive uma clara revelação de tudo o quanto foi amor, e tudo o quanto foi bestialidade, não só na minha história, como em toda a história humana. Mas então já não sabia mais quem eu era, “Casanova” era agora tão somente um nome, uma casca que se desprendeu de algo muito maior, maior do que o mundo, maior do que qualquer coisa que alguém já pensou, imaginou ou calculou... A imagem daquilo que é lembrado para sempre, o eixo no qual gira tudo o que é, foi ou será...

Como um herói épico renascido, um mito renovado, nadei para a superfície do oceano, e me ancorei novamente no Campo do Leblon. Aquela praia continuava sendo a mesma, como qualquer outra praia do mundo, mas agora eu já não era o mesmo, agora eu enxergava as coisas como são.

Vinha nascendo a manhã, e Janaína havia desparecido por completo. Pouco importa, eu tinha todo o tempo do mundo para reencontrá-la... Finquei sua espada na areia (talvez alguém mais venha a precisar dela) e me sentei para observar o movimento do Cosmos:

Na beirinha, algumas crianças brincavam de construir castelos de areia e colecionar conchas. Os pescadores já vinham com suas redes e suas jangadas, apressados, mas a gurizada criava seus próprios barquinhos com as folhas secas que trouxeram das florestas.

Os pescadores arremessavam suas redes e conseguiam alguns peixes. Os barquinhos eram esfacelados pelas ondas, assim como os castelos... Mas as crianças não se importavam, elas já tinham inventado outras brincadeiras há essa altura.

Quanto milagre para um dia!

De fato, à partir daquele dia, não se passou um só momento em que não me sentisse profundamente excitado pelo simples fato de o vento passar, e as relvas farfalharem, e eu poder escutar a brisa, e sentir toda essa dança de vida que a grama faz.

Assim, nesta tranquilidade que se basta em si mesma, lembrei do que Dunia havia me segredado aos ouvidos, e que lhes disse que não poderia falar... Bem, agora eu posso, agora esta história está no fim, e não sou mais responsável por ela. Eis o segredo:

“Ninguém é capaz de gozar de olhos abertos.”

 

FIM

 

***

Esta foi a décima e última parte de A educação de Casanova, por raph em 2015.
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26.2.15

A educação de Casanova, parte 9

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 8


9.

O crepúsculo tomava rapidamente o céu do Campo do Leblon, mas meus olhos estavam perdidos, enfeitiçados pela pele sideral de Janaína. Seu corpo era tão negro quanto a noite, tão escultural quanto a arte renascentista de meu tempo, e tão excitante quanto o florescimento da primavera. As gotas salgadas que escorriam por entre seus volumosos seios nus, no entanto, disputavam minha atenção com a estranha máscara que cobria seu rosto: uma espécie de rede de onde pendiam inúmeras joias iluminadas, ou talvez fossem estrelas...

O mar estava calmo e soturno, de modo que ela nem precisou sair inteiramente dele. Como uma sereia, manteve somente metade do corpo na superfície, e acenou para mim. Em uma de suas mãos, havia um pequeno espelho, que ela parecia querer me entregar.

Retirei meus sapatos e larguei na areia, dobrei ainda mais a bainha da minha calça, e me encaminhei lentamente, pé ante pé, para aquele mar morno, que guardava lembranças do sol recém-saído de cena. A essa altura a beleza de Janaína era quase insuportável aos olhos. Eu gostaria de poder fazer um elogio digno dela, mas aparentemente ela não entendia a minha língua – quem sabe não entendesse língua alguma, quem sabe a própria linguagem lhe fosse inteiramente inútil.

Finalmente estava ao seu lado, sentindo a sua fragrância marinha, um cheiro qualquer de vida abundante, de fecundidade infinita... Meu coração batia aos solavancos; eu tinha minha cota de amores mortais, mas jamais havia me apaixonado assim por algo divino.

Mesmo por entre a rede estelar que cobria sua face, eu podia sentir que ela sorria. Mas o seu sorriso era ao mesmo tempo algo doce e assustador. Não parecia significar somente uma simpatia pela vida, mas antes um desejo de que a vida caminhasse a frente, sempre a frente... Janaína me estendeu seu espelho, e eu compreendi que ela me convidava para uma grande aventura, talvez a maior delas – uma jornada da qual ninguém poderia retornar igual a como partiu, ocorreria necessariamente uma espécie de “modificação”...

As palavras do velho pescador ressoavam na minha mente, “Para um sujeito qualquer, o encanto dessa moça é muito, muito perigoso!”

Mas retomei minha coragem ao lembrar de que não estava naquela praia à toa, aquilo tudo também fazia parte da reeducação conduzida por meu amigo Asik, ou quem sabe fosse uma ideia exclusiva de sua amada Dunia, mas não importava, em todo caso eu estava no caminho certo, o caminho para a alma...

Tomei o espelho de suas mãos e olhei para o meu próprio reflexo nele. A princípio não pude ver muita coisa, pois o vidro estava muito enferrujado, mas logo Janaína tomou um pouco da água do mar em suas mãos e jogou sobre ele, e pude ver claramente a mim mesmo, naquela bela noite quente, ao mesmo tempo cheio de curiosidade e de angústia... A curiosidade falou mais alto, a curiosidade sempre fala mais alto...

Mergulhei em meus próprios olhos, e era como se houvesse mergulhado no próprio mar, no próprio oceano que separava o Campo do Leblon da terra natal de Janaína – tão distante, e tão próxima!

Lá no fundo submarino, a primeira coisa que vi foi a mim mesmo nos bordéis italianos, há muito tempo, exercendo com maestria minha arte de sedução. Então eu pude rever toda a minha glória sexual, e subitamente pude compreender que aquilo tudo havia sido tão somente um primeiro passo na via do amor. Era verdade que Casanova havia desejado e amado, a sua maneira, cada uma das mulheres que penetrou, mas também me era claro e cristalino, naquele momento no fundo do mar, como minhas penetrações haviam sido superficiais, como havia me dado por satisfeito em me manter somente nas margens da alma, sem jamais mergulhar no fundo do coração de mulher alguma, tampouco no subterrâneo de mim mesmo...

Mas eu não sabia, eu não tinha como saber... Ó Asik, ó Dunia, ó Janaína, me desculpem, eu não tinha como saber! Se soubesse, por um momento, o quão vasto era este oceano dentro de meus olhos, teria contemplado tal espelho há muitos séculos atrás. Enfim, vivemos decerto um dia de cada vez.

Olhei para a superfície das águas, e vi a beleza de minha amada em todo o seu esplendor. Mesmo do alto do céu, a própria lua conseguia trazer o reflexo do sol a escuridão submarina. Então eu pude me reconfortar inteiramente: não havia nada a temer, nem nada a duvidar, não havia por onde pudesse realmente mergulhar para fora dos deuses...


***

Esta foi a nona parte de A educação de Casanova, por raph em 2015.
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17.2.15

A educação de Casanova, parte 8

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 7


8.

Seguindo o conselho de Duniazade, me aproveitei de uma migração de pássaros peregrinos para atravessar, pelos céus, todo o longo caminho que um dia os primeiros desbravadores desta grande Atlântida tiveram de percorrer, por entre planícies, terras secas e rios caudalosos, imensas cordilheiras e verdejantes florestas, até chegar a uma distinta cidade cravejada entre belas praias e montanhas onduladas, guardada por um deus convidativo, sempre de braços abertos.

De fato, cheguei bem a tempo da grande festa, encenada e reencenada desde tempos imemoriais... Quem diria que os nossos bailes de máscaras tão contidos, tão hipócritas, um dia se tornariam este tilintar incessante de vida por dentre vielas e avenidas. Quem diria que ainda haveria deuses antigos dispostos a carregar seus carros navais em procissão, e deuses dos quais nunca tínhamos ouvido falar na própria Europa!

Finalmente libreto do meu grande tédio, e reeducado na Grande Arte do Amor por meu amigo Asik, eu tinha novamente olhos de enxergar, e assim enxergava com toda a clareza que não foram meus irmãos exploradores os responsáveis por tamanha algazarra – nem navegantes portugueses, nem espanhóis, franceses ou holandeses. Quem trouxe todo aquele ritmo, todos aqueles toques de tambor, todos aqueles sorrisos, foram exatamente os acorrentados à força, os que foram expulsos de suas terras, de suas famílias e seus deuses, os que foram humilhados e explorados, e depois liberados à sua própria sorte... Apesar de tanto sofrimento, foram eles quem riram no final, foi a sua alma e a sua cultura que prevaleceu!

Talvez isso explicasse porque aquele deus estava finalmente de braços abertos, livre de sua horrenda cruz: talvez os seres dessa terra tenham sido influenciados pelos deuses do outro lado do oceano, e compreendido enfim que não havia nem nunca houve um “pecado original” a ser pago, e que a cada um cabe cuidar de sua própria alma... Talvez isso explicasse porque, nos dias ligeiros desta grande festa, todos os deuses e todos os homens e mulheres, e todos os santos e crianças, dançavam e pulavam juntos no ritmo do coração do mundo...

Por debaixo de belos aquedutos e ao lado de frondosas linhas de palmeiras-reais, eu pude ver muitos deles mascarados, mas suas máscaras em nada lembravam as de meus tempos de jovem sedutor em Veneza. Lá, elas serviam tão somente para adornar ainda mais aos egos, enquanto que aqui nesta terra tropical elas serviam realmente para substituir ao ego inteiramente, como faziam os romanos e os gregos antigos. Por alguns dias, em meio a um calor escaldante, todos os mascarados e mascaradas que desciam às ruas eram como parte de uma mesma família... Por alguns dias, os seres todos desta bela cidade encenavam um verdadeiro céu na terra...

Que bom poder haver chegado exatamente nesta época. Era tudo novo, belo e quente, mas algo me dizia que não era somente para festejar a vida que Dunia havia me indicado esta direção migratória. Afinal, a mitologia desta história trata de deuses, mas sobretudo de homens e mulheres, e todo o amor possível entre os seres. E, de fato, foi quando finalmente cheguei próximo a praia, voltada para aquele grandioso oceano por onde passaram tantos escravos carregando seus deuses no fundo da alma, que a vi de relance, mergulhando próximo ao horizonte, quase junto ao sol que já ia se pondo. Ao meu lado, havia um velho pescador negro que já ia recolhendo a sua rede. Foi a primeira pessoa com quem falei no Campo do Leblon:

“Quem é ela?”

“Ora seu moço, e você a viu?”

“Vi. Como não ver uma pérola negra em meio a esse mar esverdeado?”

“Você não é um turista qualquer não né moço? Sabe que vou lhe falar: para um sujeito qualquer, o encanto dessa moça é muito, muito perigoso!”

“Não sei se eu sou ou não um turista qualquer... Não tenho dinheiro, mas não preciso mais dele. Há muito tempo que sou um turista da alma, e trafego por entre o coração dos homens, mas principalmente das mulheres...”

“Então seu moço, você é mais ou menos como ela. Eu nunca me meti a tratar com ela por medo de ser enfeitiçado e carregado para o fundo do mar. Mas você não parece ser do tipo que tem medo algum do fundo do mar... Talvez ela lhe dê alguma bola afinal.”

“Obrigado pelo conselho meu amigo. Eu acho que estou já apaixonado. Meu Deus, já faz tanto tempo que nem me lembrava como era... Mas, me diga, pois quero ter alguma chance de ser ao menos um amigo, por qual nome ela é conhecida nessas praias de cá?”

“Desde que me conheço por gente, ela sempre foi assim, negra e bela, e nós sempre a chamamos Janaína...”


***

Esta foi a oitava parte de A educação de Casanova, por raph em 2015.
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19.9.14

Caixas quebradas

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Há quase dez anos atrás eu vivenciei um instant karma, ou um carma instantâneo.

Somente quem passou por isso, e crê em carma, pode saber como é. Em todo caso, outro dia tentei descrever nas redes sociais, comentando uma notícia que tinha a ver com o tema:

Um dia eu fiquei muito revoltado com a minha mulher. Acabei dando um soco na lateral do armário, e toda a minha coleção de CDs de música caiu junto com uma prateleira que se deslocou da parte superior. Naquele momento eu pensei comigo mesmo: instant karma! Até hoje, quando vejo as caixas quebradas dos meus CDs ao abrir o armário, lembro da importante lição que aprendi da Natureza naquele dia...

A notícia em questão era uma notícia do blog do psiquiatra Jairo Bauer, onde ele trazia dados de um estudo realizado nos EUA que chegou a aterradora conclusão de que um em cada cinco americanos agredia a sua parceira.

Como era um canto das redes sociais frequentado por feministas, elas logo tratarem de me alertar:

Pesquisas indicam que o soco no armário é só o começo, depois você poderá estar dando um soco na cara da sua mulher, o que provavelmente é o que gostaria de ter feito!

Posso lhe garantir que o trauma que sua mulher passou não se compara as caixas quebradas dos seus CDs de música!

Vocês podem pensar que eu fiquei chateado com esse tipo de reação... Muito pelo contrário, é o tipo de reação que deveria se esperar de mulheres feministas que estão bem informadas sobre o quadro da violência doméstica no Brasil e no mundo. Melhor pecar pelo exagero do julgamento apressado do que pela leniência da maioria, que costuma dizer que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

Mas talvez tivesse ajudado se eu houvesse explicado melhor o que eu senti exatamente naquele dia, há quase dez anos atrás...

Como eu estava com uma raiva muito súbita da minha mulher, achei por bem sair do quarto onde estávamos discutindo e ir para outro, e foi assim que entrei no quarto em que soquei a lateral do armário. Ora, é óbvio que eu soquei o armário por estar com raiva, é óbvio que se esta raiva não fosse tratada, compreendida e, quem sabe, domesticada, nalgum dia o alvo do meu soco poderia realmente ser o rosto da minha mulher – e isto é muito grave!

Mas não foi sem a ajuda do instant karma que eu consegui chegar a tal conclusão. Na verdade, eu não dou a mínima para as caixas quebradas dos CDs. De fato, se quisesse eu poderia ter comprado outros CDs. O que me interessa nas caixas quebradas é o símbolo que elas representam, e que me trazem a lembrança daquela vivência:

Quando vi toda a minha coleção de CDs no chão, foi como se ouvisse uma mensagem da Natureza: “Você tem certeza de que quer prosseguir neste caminho? Daqui para frente será só amor corrompido, e cada vez mais corrompido”.

Até hoje, toda vez que abro meu armário e troco de roupa, me lembro daquela mensagem da Natureza.


Um estudo do Ipea estima que, entre 2009 e 2011, o Brasil registrou 16,9 mil feminicídios, ou seja, “mortes de mulheres por conflito de gênero”, especialmente em casos de agressão realizadas por parceiros íntimos. Esse número indica uma taxa de 5,8 casos para cada grupo de 100 mil mulheres. Neste país, a cada uma hora e meia, em média, morre uma mulher vítima da violência do seu companheiro.

Nos EUA, recentemente, imagens do circuito interno de um hotel flagraram um astro do futebol americano agredindo a sua esposa dentro do elevador. As imagens mostram que ela desmaiou com um único soco, que a fez bater com a cabeça no corrimão de aço do elevador. Alguns andares depois, o jogador a arrasta para fora do elevador e espera ela acordar, enquanto um funcionário do hotel tem o cuidado de segurar a porta para que não se fechasse nas pernas dela.

Devido a enorme pressão popular por conta da divulgação das imagens na web, o Baltimore Ravens, time pelo qual jogava, decidiu demiti-lo, enquanto a liga de futebol americano, a NFL, o suspendeu indefinidamente. Agressões de jogadores as suas esposas ocorrem há anos nos EUA, dificilmente tal caso teria esse desfecho não fosse pela divulgação das imagens.

Mesmo assim, esta foi a mensagem que a esposa agredida divulgou na web, no dia seguinte a agressão:

Tirar algo do homem que amo e que ele se dedicou por toda a vida apenas para ganhar audiência é horrível. Essa é nossa vida! Por que vocês não entendem? Se a intenção era nos machucar, nos envergonhar, nos fazer sentir solitários, tirar toda nossa felicidade, vocês tiverem sucesso.


Esses foram apenas alguns dados estatísticos que refletem o atual estágio de nossa sociedade. Aqui, nos EUA e em boa parte do dito mundo civilizado.

Já foi muito pior, é claro. Não muitos anos atrás a alegação de “legítima defesa da honra” ainda salvava muitos maridos homicidas da condenação pelos seus crimes. Após o caso Doca Street isso mudou. Mas ainda precisamos mudar muito, muito mais!

A própria Lei Maria da Penha, um marco na legislação brasileira, só conseguiu reduzir ligeiramente a mortalidade das mulheres nos primeiros anos após a sua implementação. Hoje a curva da violência doméstica letal já retornou aos mesmos patamares do período anterior a Lei.

Mas ao menos hoje em dia tal assunto não é mais varrido para debaixo do tapete. Ao menos hoje em dia muitos homens e mulheres, feministas ou não, já têm plena compreensão da devastação que a violência doméstica causa em nossa sociedade e em nossas relações, na maioria das vezes, silenciosamente.

O macho é educado para ser viril, para não chorar, para sustentar a casa, etc. Mas o macho também é educado para proteger suas famílias, seus filhos e, sobretudo, para nunca, em hipótese alguma, agredir uma mulher ou uma criança. Como podemos ver, a visão dos machos sobre a própria educação é um tanto quanto seletiva. Muitos provavelmente ainda achariam uma tragédia muito maior chorar em público do que ser visto agredindo a mulher... A educação dos machos falhou, é o que milhares de estatísticas demonstram.

Eu gostaria muito que todo o “homem macho” pudesse um dia sentir, vivenciar, o instant karma que eu passei. Eu gostaria de fazê-los compreender que este tal caminho de “ser muito macho” é uma dos caminhos mais nocivos e corruptores que o ser humano já inventou. Corruptor de almas, nocivo a própria vida.

Eu gostaria, enfim, que todos pudessem um dia ver a si mesmos como eu me vi naquelas caixas quebradas, que em realidade também eram o reflexo de uma alma que vinha se rachando...

Mas eu me consertei a tempo. Espero que outros tenham a mesma sorte. Mas, enquanto a sorte não vem, espero também que as suas companheiras compreendam, cada vez mais, que o amor não tem nada, absolutamente nada, a ver com qualquer tipo de violência.


Segundo a falsa ideia de que não é possível reformar a sua própria natureza, o homem se julga dispensado de empregar esforços para se corrigir dos defeitos em que de boa-vontade se compraz, ou que exigiriam muita perseverança para serem extirpados. É assim, por exemplo, que o indivíduo, propenso a raiva, quase sempre se desculpa com o seu temperamento. Em vez de se confessar culpado, culpa seu organismo, acusando a Deus por suas próprias faltas. (Hahnemann)

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Conversation

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24.7.14

Algoritmos

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Outro dia vi um sujeito, no metrô, usando uma cédula de dois reais como marca página de seu livro.

Imediatamente me veio a mente que o dinheiro não deveria ser usado desta forma. "Nossa, imagina se ele deixa cair sem querer!". Nós somos acostumados a dar grande valor ao dinheiro. Porém, é até estranho de se pensar, mas aquela cédula nada mais era do que um papel impresso. Ligeiramente mais fino e flexível do que um marcador de página, mas com uma imagem consideravelmente mais elaborada. Bem, um dia ainda podem criar um marcador de página que tenha a mesma imagem de uma cédula de dois reais – neste caso, restaria somente a diferença da grossura e da flexibilidade.

Quando usávamos moedas de ouro, há muito tempo atrás, era a própria moeda que tinha valor. Com o tempo, acabou ficando mais simples usarmos papeis impressos, com gravuras multicolores, para não termos de carregas sacos cheios de moedas (inclusive pelo metrô). Ocorre que tais cédulas costumavam ser rastreadas, isto é, terem uma equivalência direta ao ouro que estaria depositado nalgum cofre do respectivo Estado que imprimiu as cédulas. Mas isto durou somente até os Estados Unidos precisarem de "mais dinheiro do que tinham realmente" para continuar gastando com sua guerra no Vietnã. A "brilhante" solução foi abandonar o lastro material em ouro, e simplesmente continuar imprimindo cédulas multicolores. "Sim, não temos mais como comprovar que estes valores existem, mas se somos a Superpotência do mundo, podemos simplesmente dizer que eles existem, e se tudo correr bem vai todo mundo acreditar".

Deu muito certo. O sistema econômico da pós-modernidade é, desta forma, um grandioso sistema de crenças. Vivemos de grandes bolhas especulativas, que quando estouram revelam pequenas bolhas especulativas por dentro delas. Esperemos que ninguém nunca estoure as bolhas pequenas, pois pode ser chocante descobrirmos que, no fim, o valor que damos ao dinheiro é realmente uma crença – algo que existe somente na nossa cabeça.

Mas, afinal, e o que existe além daquilo que existe somente na nossa cabeça?

Provavelmente a natureza exista, mesmo fora da nossa cabeça. O problema é que, com o que temos feito com a natureza de nosso planeta, em nome de alguma estranha ideia de "empreendedorismo infinito", podemos chegar num ponto em que nossa existência conjunta com esta natureza fique insustentável. A natureza vai continuar existindo, mesmo aqui neste planeta – o que não temos certeza é se ainda teremos cabeças e olhos humanos para a contemplar.

Sabemos hoje que, se todo o planeta já tivesse o mesmo padrão de consumo dos cidadãos dos Estados Unidos, seriam necessários recursos naturais de cerca de três planetas e meio para fechar a conta. E ainda assim eles não estão satisfeitos. Por que ter somente um carro? Por que não ter uma máquina de lavar louça? Por que não trocar de celular a cada seis meses? "Sim, sabemos que tudo isto pode fazer mal pro planeta, mas se não continuarmos consumindo, pode ser ruim para a economia. Nosso PIB pode ficar abaixo da meta!"

É assim que, a despeito do que nos disseram sobre a democracia na escola, no final das contas parece mesmo é que somos governados por algoritmos de lucro. Há empresas tão, tão grandes, que possuem tais algoritmos em suas "metas anuais"; e são eles que determinam o que deve ser feito para maximizar os lucros. Não é a ideia de um ou outro empresário, mas uma construção coletiva. Um ideia que cresceu tanto que assumiu "vida própria". Não são os grandes empresários, os CEOs, quem governam as multinacionais, são os algoritmos de lucro.

Assim, com tanto lucro, também fica muito simples investir na política, no Grande Negócio Eleitoral. Algumas grandes empresas, como petrolíferas e empreiteiras multinacionais, financiam campanhas dos candidatos que têm alguma chance de vencer eleições. As eleições do Grande Negócio Eleitoral são caras, muito caras. Assim, somente quem tem muito, muito dinheiro, tem alguma chance de vencer. Isto porque somente quem tem como financiar grandes agentes de marketing tem alguma chance de convencer as pessoas (as filosofias e ideologias já não convencem mais ninguém, o marketing sim). Desta forma, o sistema é montado para que somente algumas poucas empresas, muito grandes e muito ricas, possam colocar seus candidatos no poder.

E assim, seguindo o plano à risca, conseguem manter a roda girando, e cada vez mais rápido, até que o mundo acabe... Não faz muito sentido, quem é que pensou que poderia dar certo?

Aí é que está: algoritmos não pensam. Algoritmos foram pensados, e quem os pensou pode nem estar mais aqui para ver como as coisas, quem sabe, não estejam enveredando para um caminho viável, digamos assim.

"Ora, mais pode ser que nem todos pereçam, que sobrem alguns poucos, e que não sejamos totalmente extintos; e então poderemos reconstruir tudo de novo."

Mas então, se já sabemos que não dará certo, por que continuar insistindo neste modelo? Por que o medo de buscar algo novo? O máximo que pode ocorrer é nos extinguirmos um pouco mais rápido, em meio a algumas guerras e conflitos que escapem de controle...

Pelo menos não teremos sido hipócritas. Pelo menos teremos sido honestos, até o fim.

Portanto, se algum país invade outro em busca de petróleo, sejamos honestos, e não inventemos que ali havia "uma luta pela democracia".

E se multinacionais vêm comprar nossas fontes de água doce, sejamos honestos, e não inventemos que elas estão apenas "investindo no mercado interno".

E se nossos gadgets mais avançados são construídos por trabalhadores escravos ou semiescravos, sejamos honestos, e não inventemos que isto se dá somente para que "a livre concorrência deixe o mercado sadio".

E se um de nossos candidatos vence a eleição com um financiamento de campanha um pouco mais robusto do que o outro, sejamos honestos, e não inventemos que havia ali "um embate de ideologias", nem muito menos que vivamos numa época de "democracia plena".

É este o meu manifesto. O manifesto pelo fim da hipocrisia.

***

Crédito da imagem: ABM/Corbis

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1.7.14

A educação de Casanova, parte 7

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 6


7.

Ainda ficamos por lá algumas horas, até que todas estivessem saciadas e dessem a noite por encerrada – para o alívio dos ursos dançarinos, que já mal conseguiam se manter rígidos... E todas foram embora, menos uma, envolta num vestido vermelho, azul e roxo, esvoaçante, que parecia ser formado por mil e um véus.

Então, ela se levantou e caminhou em nossa direção. Ela sabia de nossa presença todo o tempo! Eu deveria parecer surpreso, mas alguma coisa nela me era estranhamente familiar... Não sei se era o perfume do oeste, ou o seu olhar árabe, que parecia conter inúmeros oásis e seus desertos, mas algo em minha alma me confidenciou que se tratava da distinta amante de meu amigo.

“Sua mulher?” – eu perguntei a Asik.

“Eu a amo, mas ela não é minha.”

Sim, com isso meu amigo quis dizer que não havia o conceito de propriedade no amor que eles partilhavam. Eu já havia tido lições demais, e pelo menos isto eu aprendi, pelo menos isto!

Mesmo assim, havia ainda tantas dúvidas, tantas curiosidades acerca dela e da relação dos dois. Mas, ante tamanha beleza bronzeada pelo sol do oriente, eu não tive outra reação que não emudecer, e esperar que ela se apresentasse.

“Meu nome é Duniazade, mas pode me chamar de Dunia” – disse, estendendo a mão para que a beijasse, e nela havia dúzias de pequenas mandalas tatuadas, que mais pareciam algum código para antigos rituais de amor...

“Quando lhe vi, me pareceu familiar... Você já esteve em Veneza?”

“Nunca, mas me convide e um dia irei. O que lhe pareceu familiar não fui eu, Giacomo, mas o reflexo de Asik em mim.”

“Como assim?”

“Nós nos amamos profundamente, de modo que já não há, entre nossos corações, uma distância tão grande. Assim, de certa forma, é como se entre eu e ele, não houvesse nem um “eu”, nem um “ele”.”

“Me perdoe, mas como pode ser isso? Você estava aqui hoje e noutra noite eu e Asik estávamos em Beyazit, num caba...” – eu interrompi subitamente o que iria dizer, embora na verdade não houvesse razão para tal, foi tão somente um velho hábito compartilhado pelos homens, que ainda não havia ido embora...

“Num cabaré, Giacomo. E ela soube de tudo o que ocorreu por lá, pois temos muita curiosidade sobre as experiências um do outro, e sobre as amizades que cultivamos. Tudo o que tange os caminhos dos corações humanos nos interessa, cada pequeno olhar amoroso não nos passa desapercebido. O que alimenta nossas almas é este desejo de um pelo outro, e de todos por todos, é a esperança de um novo amanhã, de que o parto de um novo mundo finalmente se concretize...” – completou Asik.

Mas vocês não sentem desejos? Não traem?

“Meu amigo,” – prosseguiu – “sentimos muitos desejos, e cada vez mais intensos. Mas muitos dos desejos de outrora, superficiais, bestiais, já foram domesticados. Nós jamais trairíamos um ao outro por conta de uma noite de sexo, se é a sua dúvida. Mesmo esse termo que usam, “traição”, denota alguma espécie de “promessa” ou “contrato nupcial”, e já lhe esclareci que não acreditamos neste tipo de coisa. Em todos esses séculos, já tivemos experiências com outros seres, isto é bem verdade, mas perto de nosso amor, elas são como pequenos córregos fluindo para o oceano. No fim, tudo deságua na Alma do mundo, e nós somos parte desta corredeira, nós afluímos junto como o amor de todos, mas é em nossa união, em nosso entrelaçamento, que vislumbramos ao grande plano da Vida, e não trocaríamos tal experiência por nada nesse mundo!”

“E como é esse plano, o que os deuses lhes dizem quando estão conectados neste amor?”

Foi neste momento que Dunia se aproximou e sussurrou parte da resposta em meus ouvidos. E foram poucas palavras, mas que não podem ser transmitidas, já que palavras são tão somente cascas de sentimentos, e palavras de amor são como fagulhas da eternidade, que brilham intensas como explosões solares, mas que só podem ser compreendidas por quem sente parte desse calor.

Meus amigos, afinal, viveram por muitas eras, e já haviam caminhado por muitos desertos e muitas ruínas de civilizações, assim como por muitas novas plantações, e promessas de eras vindouras. Continuar ao seu lado seria como ser carregado no colo por algum anjo, e já era tempo de eu recomeçar a caminhar com minhas próprias pernas.

E, se eles já estavam tão adiantados no caminho, em nenhum momento os invejei, pois sabia que haviam passado pelos mesmos espinhais e deixado seu rastro de sangue em muitos espinhos. Asik havia me reeducado na Grande Arte da Putaria – ou Grande Arte do Amor, pois nomes são apenas nomes –, e agora era a minha vez de me aventurar novamente, de peito aberto, neste grande campo onde a Vida encena e reencena sua dança ancestral.

“Adeus, meus amigos, e até breve... Mas, vocês têm alguma sugestão para onde poderei ir a seguir?”

“Rume para o sul, Giacomo, para além do Amazonas. Soube que há uma grande festa por lá” – respondeu Dunia.


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Esta foi a sétima parte de A educação de Casanova, por raph em 2014.
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24.6.14

A educação de Casanova, parte 6

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 5


6.

Após alguns minutos dois dos “ursos dançantes” adentraram o palco, com suas máscaras enormes e redondas, que mais lembravam a cara sorridente de um ursinho de desenho animado. Além delas, não usavam muito mais roupa, e mesmo estes trajes colantes pareciam destinados a ser despidos na sequência – o que de fato não demorou muito...

Com seus falos semi-enrijecidos e já totalmente nus (exceto pelas cabeças de urso), eles abandonaram o palco e passaram a desfilar por entre as mesas e cadeiras cheias de fêmeas absolutamente descontroladas. Era ensurdecedor, de muitas maneiras diferentes!

Eu não sei dizer ao certo o que exatamente aquela visão, aquela experiência de estar ali observando tudo aquilo, causou em mim... Certamente não eram os falos, que iam se enrijecendo com muitas apalpadas e chupões regados a muito chantilly, o que me excitava – eu sempre preferi as cavernas e pequenas fendas úmidas do que os grandes picos, então realmente não era isto –, mas então, o que era?

Contemplar todos aqueles olhares femininos, focados diretamente nos paus duros dos “ursos dançantes”, alguns totalmente confiantes, outros totalmente tímidos, de canto de olho, e tantos outros no meio termo entre os dois, chamou minha atenção para uma faceta feminina que eu certamente nunca havia observado. Seria para isso que Asik havia se dado ao trabalho de me trazer até aquela “festa”?

“Então, isto sim é algo de novo. Novo e excitante, não?” – cochichou meu amigo.

Mas eu ainda não conseguia responder. De fato, era óbvio que algo me incomodava naquela dança de ursos, mas eu não conseguia pôr em palavras; no que Asik me auxiliou:

“Sim, são seres sexuais frequentando Casas de Putaria, de forma muito parecida com a que temos visto nos últimos séculos, só que com uma diferença, ou melhor, uma inversão: as “putas” são os rapazes mascarados de pênis grandes; e os “endinheirados”, os “nobres abastados”, os “governantes”, são elas, são elas, Giacomo! Quanto tempo nós não esperamos por isto, meu caro?”

“Esperar por isto? Isto? Pois não lhe parece que elas estão a agir exatamente como nós temos agido? Não estão acometidas dos nossos desvios, nossos enganos, nossa ignorância e bestialidade? Foi para isso que serviu a dita revolução sexual, para que elas acabassem como nós, como homens?”

Foi neste momento que ele gargalhou. E quando Asik gargalhava assim, dava para saber que alguma lição estava para ser aprendida, pois ele nunca gargalhava propriamente da ignorância alheia, mas de uma sabedoria que estava prestes a se ver livre dos preconceitos que a desbotavam...

“Giacomo, meu caro, e você preferia o que, santinhas? Você acha mesmo que, após conquistarem os direitos que conquistaram no último século, elas não poderiam se divertir como nós? Não poderiam se desvirtuar como nós? Não poderiam chupar o seu tanto de picas como nós temos chupado o nosso tanto de bucetas?

(e quanto mais o fogo se aproximava dele, mais sua voz se elevava, e mais palavrões grosseiros saiam de sua boca divina)

Pois me diga, amigo, se o que pensa sobre o que vemos aqui não é ainda um resquício da sombra que se acometeu sobre você nos últimos anos? Não era isso que sempre desejou ver desde os seus tempos em Veneza? Mulheres livres, livres sim! Livres de verdade, para fazerem o que bem entenderem de seus corpos e suas almas e sua vida, inclusive lamber cacetes cheios de chantilly até não poderem mais! E não há aqui mais nenhum deus raivoso para as julgar, Giacomo, o velho barbudo não foi convidado!

Pois o que diabos elas podem fazer aqui neste salão que os bonobos já não tenham feito nas matas, e nós homens em cada canto habitado do planeta? Há alguma maldade intrínseca aqui, meu amigo, ou não seria o seu próprio olho que está gasto com as pregações de outrora?

Esfregue-os, Giacomo. Limpe-os. Abra sua alma. Rompa tais pensamentos. Deixe que o seu chumbo os leve para o fundo do mar, e nade para além da superfície, até esta praia dourada... E, então, olha para esta festa, olha para esta Grande Putaria, e me diga o que vê.

Me diga se algum urso dançarino compareceu aqui por falta de opções em sua vida, ou porque foi oprimido por um grupo dominante, ou porque foi traficado como escravo, ou porque foi coibido pela violência. Não! Não, Giacomo, elas estão aqui se divertindo com eles, elas estão aqui os chupando e apalpando, mas elas não lhes forçaram, e não foram violentas...

Aqui o Amor floresce, ainda bestial, mas liberto. Só há Amor quando a violência foi posta de lado, foi esquecida!”

E então, observando todas aquelas fêmeas maravilhosas e libertas, que não eram santas e certamente não precisavam ser, eu concebi brevemente em minha alma a dimensão do que ocorria – o início de um incêndio, um incêndio de pura liberdade.

Fazia séculos que eu não me sentia tão excitado com a vida, e com as mulheres. Era tempo de Casanova voltar as suas aventuras de conquista!


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Esta foi a sexta parte de A educação de Casanova, por raph em 2014.
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4.4.14

A Confraria dos Espelhos

Somente a visão da entrada da gruta lhe causava arrepios. Fazia anos, ou talvez vidas e eras, que ele não retornava aquele lugar, e no entanto a relva em seu entorno e até mesmo as pequenas pedras ainda lhe pareciam estranhamente familiares. A verdade é que nunca seria capaz de realmente esquecer, pois que foi naquela pequena fenda de montanha que ele finalmente abandonou as sombras da Caverna, e conheceu o Sol. O mesmo local ainda lhe trazia, ao mesmo tempo, toda a tristeza e toda a alegria do mundo.

"Não importa, eu vim aqui realizar a minha missão" – pensou, e logo após penetrou na escuridão...

Como seus olhos já não estavam mais habituados a enxergar nas sombras, empunhava a sua espada, a mesma com a qual desferiu o golpe mortal no Guardião da Passagem, e alcançou a liberdade. Hoje ela não era mais um instrumento de morte, mas um artefato mágico – uma espada que gerava a sua própria luz. Apesar de tênue e azulada, era esta a luz que permitia que ele pudesse se guiar terra adentro, rumo ao coração das sombras, há muito abandonado, mas que hoje era novamente o seu destino.

De vez em quando encontrava um ou outro andarilho escalador, desgastado e solitário, a gemer e choramingar pelo caminho. Isso lhe trazia de volta as emoções de outrora, todas as dúvidas e sofrimentos, todos os temores e descompassos da alma, que acreditara terem se aniquilado, mas que em verdade sempre estiveram ainda lá, nos porões do inconsciente.

"Anjo! Anjo! Me diga quanto falta, por favor!" – gritou um coitado desesperado a tatear, quase cego, o chão da caverna.

"Tenha perseverança, confie em si mesmo... Não há nada a temer nem a duvidar, há luz e amor em todo lugar, sempre houve e sempre haverá. Mesmo eu consegui chegar ao Alto, tenho certeza de que um dia também conseguirá." – lhe respondeu, tentando escolher as melhores palavras que lhe vinham a mente naquele momento.

"Mas quanto falta? Quanto falta? Ora, me ajude, me ajude! Me disseram que vocês nos ajudariam ao final da subida..."

"Exato meu amigo, e é esta a minha missão atual. Mas de nada adiantaria eu lhe carregar para o Alto se você ainda não tem olhos para enxergar na Claridade. Eu apenas lhe tornaria cego. Confie em mim, em breve sua jornada se tornará mais fácil e menos sofrida, e todos os paradoxos serão reconciliados!"

E abandonou, com o coração doído, aquele ser que mais parecia um reflexo dele mesmo, há muito tempo atrás... "E, de certa forma, talvez todos sejamos reflexos uns dos outros" – pensou consigo mesmo enquanto a escuridão o abraçava cada vez mais...

Foi quando o ar já estava denso e úmido, e quando as paredes de pedra não mais lhe permitiam descer, que ele encontrou o sinal na parede rochosa. Era ali que ele deveria esperar o sinal das trombetas. Era quase insuportável permanecer naquela escuridão abafada, e a cada respiração seus pulmões ardiam com o ar fétido de desejos desenfreados, como espectros que pairavam por todos os recantos daquele mundo subterrâneo. Mas devia esperar, iria esperar – era esta a sua grande missão!

No cinto trazia uma pequena bolsa de pano contendo a relíquia que os seus irmãos da Confraria lhe haviam confiado. Ao sinal das trombetas, tudo o que deveria fazer era retirar o objeto da bolsa e apontá-lo em direção ao pequeno facho de luz que ainda insistia em penetrar o subterrâneo e vencer toda aquela escuridão. Não era uma luz qualquer, mas de uma frequência que somente os olhos mais treinados conseguiam perceber. Todos os longos anos que passou aprendendo com seus mestres na Confraria talvez pudessem mesmo se resumir a uma espécie de "educação dos olhos" para enxergar aquela luz...

Então, repentinamente as trombetas ecoaram fundo por toda a Caverna, e enquanto os andarilhos perdidos tapavam os ouvidos para se protegerem daquele som ensurdecedor, ele soube que era o momento: retirou o pequeno espelho do cinto e, o colocando ante o facho solar, pôde enfim vislumbrar a todos os seus outros irmãos da Confraria dos Espelhos posicionados noutras partes da Caverna, cada um refletindo a luz um do outro, de modo a iluminar toda aquela escuridão – como há muitas eras não se via!

E, ainda que por um breve momento, todos os andarilhos e todos os escravos de Abaixo puderam vislumbrar todas as matizes de cor das pinturas ancestrais que salpicavam por todos os cantos e paredes, mas que antes lhes passavam desapercebidas. E assim todas as grandes histórias, todos os grandes heróis de outrora e todos os mitos eternos foram uma vez mais vislumbrados.

Era assim, exatamente assim, que os seus irmãos faziam para trazer mais agentes para a Confraria. Muitos eram convocados e muitos ouviam as trombetas e vislumbravam as antigas pinturas e os símbolos das rochas, mas somente alguns tomavam coragem para prosseguir até o Alto. Não importa: passo a passo, eles ainda tinham todo o tempo do mundo...


raph’14

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Crédito da foto: Stephen Alvarez/National Geographic Stock/Caters News

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24.3.14

O Santuário Silencioso

Estamos transeuntes neste mundo, andarilhos formados por pequeninas fagulhas de estrelas ao léu. Tudo girando, tudo transformando, tudo nesta linda algazarra, tudo neste baile eterno de luz.

Estranhos se cruzam pela rua... Mas quem poderia dizer se este ou aquele pedaço de carbono não são amigos de longa data, viajantes da noite cósmica, crias de supernovas espalhafatosas? Quem sabe eles não queiram retornar, recordar, reconhecer... Quem sabe não queiram saber mais sobre si mesmos?

Que estranho e divino parentesco esse entre tais fagulhas cósmicas a bailar incessantemente e ocultamente por entre os corpos desses dois estranhos que se cruzam pela rua, e pouco percebem, e sequer sabem o nome um do outro!

"Prazer, meu nome é João."

"Pois não, meu nome é Maria."

Mas não, não são desses nomes que estou falando... Falo do nome oculto por detrás dos nomes, o meu nome – você sabe qual é o meu nome?


Não diga agora... Antes vamos nos lembrar de quantas cores tanta luz nos traz a este mundo cinzento. Preto, branco, azul, vermelho, violeta, marrom claro, verde limão, laranja, laranja do manto dos monges, laranja do manto de Buda!

E, para os amigos de Francisco, este laranja era um cinza gasto, um marrom quase sem marrom algum, e ainda assim, era tão grandioso quanto o outro laranja... E tais cores nada mais são que vibrações da mesma luz branca, sempre branca. Tudo absolutamente branco, ou tudo absolutamente negro, tanto faz - não há absoluto para nós que sabemos interpretar a luz. Não há absoluto, pois não há como se ter ideia exata desse tal "absoluto". Tudo o que há são universos de partículas – nós – a observar um universo maior. Você saberia dizer o meu nome?

Não pense, meu amigo, que o que está acima não seja como o que está abaixo. Não pense que um buraco negro, um resquício de supernova, não seja irmão deste pequeno pedaço de carbono que dança contigo em cada passo do seu caminho...

Não pense que há qualquer coisa que já não esteja em mim. Não pense que o meu nome não englobe todos os demais nomes. Não pense pequeno de mim!

Mas não use este nome como barreira, como fronteira, como casulo... Use-o como chave, a chave-mestra de todas as portas do Cosmos!

E, no momento em que o for pronunciar, no momento em que for responder a esse enigma, saiba que estará respondendo somente a mim, saiba que o meu perfume será sentido apenas por ti – e então, diga em silêncio:

"O meu nome é o seu nome, ó Ser Maior, que entre eu e você, não há nem um 'eu', nem um 'você'..."

"Você alcançou o Santuário Silencioso, meu semelhante. Agora, se prepara, há toda uma nova viagem por paragens distantes, campos cheios de rios e córregos que fluem para dentro... Suba em minha carruagem, e me deixa conduzir."


raph’14

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Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robinson

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