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18.10.12

Franciscano

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...

Encontrei uma criança que abençoa as pessoas...

Estou de férias num hotel fazenda no sul de Minas Gerais, dentre a Serra da Mantiqueira, e a encontrei num almoço. A mãe a carregava no colo e nos avisou: “Ele abençoa, querem ser abençoados?”.

Uma amiga avisou que queria, e o garotinho, de não mais do que uns 2 ou 3 anos, levantou a mão pequenina e pousou sobre a fronte dela, para logo após levantar a mão e dizer: “Dá dá!”. Logo após rodou a mesa, no colo da mãe, abençoando a todos.

Uma gracinha, muitos diriam... Também diriam que provavelmente a mãe é evangélica. E provavelmente era mesmo. Na nossa mesa todos eram católicos (exceto eu e minha esposa, que somos, poderíamos dizer, espiritualistas). Ninguém comentou ou quis saber nada sobre as raízes religiosas daquele tipo de benção infantil. Ficou apenas no “uma gracinha” mesmo.

Nos dias de hoje há um certo asco da chamada afirmação evangélica. Sejam jogadores da seleção brasileira que apontam para o céu a cada gol, sejam políticos da chamada bancada evangélica tentando introduzir leis antilaicas no país, sejam os shows da fé que reúnem milhares de pessoas em plena “aceitação do Senhor”, etc. As pessoas não evangélicas ficam assustadas.

Fato é que, bem ou mal, a renovação carismática está a pleno vapor no Brasil e em boa parte da América Latina. É claro que os pastores da madrugada na TV, que pediam 10% e agora pedem “tudo o que se puder doar a Deus”, trazem bons motivos para uma postura crítica e desconfiada de todos nós (inclusive os protestantes). Porém, será que todos os evangélicos são como zumbis que doam tudo a sua Igreja? Se fosse assim, seu dinheiro já teria acabado... Aquele casal tinha dinheiro para pagar diárias de um bom hotel fazenda no sul de Minas Gerais. Algum dinheiro deve ter sobrado.

Em todo caso, uma criança que abençoa não era nenhuma novidade para mim. A única novidade é que ela fingia ser um pastor mirim... Pois, ao menos para mim, todas as crianças nos abençoam. Abençoam com o olhar, com o sorriso, a espontaneidade, e a fragrância que trouxeram consigo da Casa do Amanhã.

Quando vejo uma criança, penso em todas as potencialidades, em toda a dose maciça de sonho e imaginação que carregam consigo. É claro que ainda irão enfrentar a castração da escola e da sociedade, é claro que muito pouco de seu sonho irá sobreviver, mas nada disso me impede de admirar aquele brilho que ainda são capazes de carregar consigo. Toda criança é um milagre em potencial.

Jesus também adorava as crianças, mas não parecia ter a necessidade de ensiná-las a abençoar ninguém... Foi Jesus quem nos relembrou de alguns ensinamentos que todas as crianças trazem consigo, embora muitas se esqueçam, na medida em que moram muito tempo neste mundo:

Todos são filhos de Deus; Todos somos deuses; Amemos ao próximo como a nós mesmos, como a um deus.

Mas então vieram os eclesiásticos, os legisladores da fé. Eles introduziram suas reformas, seus adendos, que não me parecem ter adicionado nada ao sonho original:

Todos são filhos de Deus, mas somente os que aceitarem Nosso Senhor Jesus Cristo obterão a Salvação (seja o que isto for); Todos somos deuses, mas somente através do pastor podemos contatar Deus; Amemos ao próximo como a nós mesmos, como a um deus, mas não esqueçamos que o homossexualismo é uma abominação, etc.

Na entrada da cidade há uma estátua de São Francisco de Assis. Trata-se do primeiro santo ecológico e, em todo caso, provavelmente do maior de todos os santos católicos, ou pelo menos aquele que mais se aproximou de Jesus... Os evangélicos não gostam de santos nem de imagens, sua interpretação dos testamentos arcaicos é um tanto quanto radical. São Francisco não é Baal, e mesmo Baal, coitado, era só um deus da Mesopotâmia que calhou de virar um bode expiatório bíblico. Mas Martinho Lutero viu uma Igreja em decadência, e encontrou no texto bíblico a única fonte realmente confiável para a religação a Deus.

Não foi exatamente assim com Francisco. O santo de Assis achou a Deus dentro de si mesmo, e não num livro. E passou a chamar de irmãos os próprios sinais e atributos divinos: Irmã Brisa, Irmão Vento, Irmã Lua, Irmão Sol, etc. Para Francisco, as plantas e flores, os rios e os lagos, os pássaros no céu e os peixes no mar, e os homens e mulheres, e as crianças, todos eram milagres em plena reforma.

Não coube nenhum adendo ao seu exemplo de vida. Sua reforma antecedeu a de Lutero, e deixou claro, escancarado, o imenso abismo que há entre a Casa do Padre e a Casa do Amanhã.

Se relembrei o que relembrei, é porque também sou um pássaro, a cantarolar, nos ombros de Francisco...

Brother Sun, Sister Moon (Donovan). Retirado do filme homônimo, de Franco Zeffirelli.

***

Crédito da foto: Dany (este sou eu numa pequena igreja dedicada a Francisco)

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20.9.12

Uma caixa estranha

Havia um povo muito antigo que vivia há muitas gerações de antepassados numa ilha perdida em meio a um grande oceano desconhecido. Não se sabe como, um dia uma caixa estranha chegou, flutuando, até uma de suas praias...

(a) Amigo, veja está caixa: ela é muito estranha!

(b) Mas de onde veio isso, amigo?

(a) Chegou do mar... Não consegui abrir para ver o que tem dentro, e também não quis estragar com minha machadinha. Mas veja o que ocorre quando chaqualho...

(b) Minha nossa, o que foi isso?

(a) Não sei, mas não pareceu um tipo de canto estranho? Embora não tenha tambores.

(b) Mas de onde vem essa cantoria? O que diz essa música esquisita?

(a) Não sei, amigo, mas parece ser de algum outro povo.

(b) Não seja insano, amigo, é sabido que só existe o nosso povo no mundo, e que nada há além do oceano desconhecido. Não me diga que acredita nesses mitos de “outros povos” além do oceano?

(a) Não sei se creio em “outros povos”, amigo. Mas, independente disso, como acha que esta música pôde sair desta caixa?

(b) Ora, isto é simples... Você não a chaqualha e, por algum momento, o canto é cantado, e depois desaparece?

(a) Sim, é exatamente o que acontece.

(b) Pois então: é óbvio que alguns gnomos entraram dentro da caixa, e estão a pregar uma peça em você... Quando se cansarem da brincadeira, vão sair da caixa e deixá-la vazia, e então a cantoria estranha vai acabar...

(a) Mas então porque não abrimos a caixa a pauladas, para forçarmos os gnomos a sair?

(b) Isso seria pecado! O Grande Patriarca nos disse que não deveríamos nos meter com os gnomos.

(a) Mas amigo, você já viu um gnomo?

(b) Não, mas um amigo meu disse que viu alguns. Logo depois ficou louco e falava desses “mitos de outros povos”... O Grande Patriarca disse que os gnomos entraram a força na sua cabeça, pelos ouvidos, e não queriam sair.

(a) E o que fizeram com ele?

(b) Ora, o recomendado: levaram a fogueira, para que fosse purificado. Nesses casos guardamos os ossos de recordação.

(a) Então coloquemos fogo nessa estranha caixa, e vejamos se os gnomos não aparecem!

(b) Acho que... Isto poderia ser feito, não é pecado.

(a) Veja bem, iniciei a fogueira, vou jogar a caixa lá... Esperemos!

(b) E então?

(a) Nada! Não vi nenhum gnomo fugindo... Vamos apagar o fogo e chaqualhar a caixa...

(b) Viu, agora ela não canta mais nenhum canto esquisito.

(a) É verdade... Malditos gnomos, fugiram sem que pudéssemos notar.


raph’12

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Crédito da imagem: Matthew Heptinstall (flickrhivemind.net)

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4.9.12

Palavras de Iemanjá dos Navegantes

Há muitas aldeias no mundo
E eu que sinto como o oceano
Fluo e conecto a todas elas
Fluo e preencho o ser humano

Por muito tempo, há muito tempo, criei caçadores ferozes
E amamentei a cada um deles em meu seio;
Por muito tempo, como os navegantes do mar
Despedia-me de meus filhos antes de cada caçada
E chorava junto as suas mães
Por todo caçador que não pôde retornar

Quantas feras, quantos monstros, quanto sangue
Há no horizonte além das aldeias
Foi para cruzar tal horizonte, e capturar tais feras pelos matagais
Que muitas mulheres choraram por seus homens:
Os caçadores ancestrais

E quando meus filhos aprenderam a plantar sementes
Sorrimos eu e o sol, e cuidamos para que minha noite
Desse sempre lugar ao seu dia
E que as estações fluíssem como as correntes do mar
Sempre circulando, e circulando...
A todas as aldeias conectando

Há muitas aldeias no mundo
E eu que trago as chuvas para o chão
Fluo e amamento todas as suas raízes
Fluo e faço o milagre da plantação

Por muito tempo, há muito tempo, cuidamos deste pomar
E fomos não somente mães, mas rainhas xamãs;
Por muito tempo, como os navegantes da mente
Aguardava minhas filhas em sonhos de luz
E chorava de saudade quando vinham a despertar
Pouco antes de o sol nascer, além do mar...

Mas então veio a bonança, e com ela as verduras e os grãos
E as primeiras grandes aldeias, onde nem todos necessitavam caçar;
Houve alguns que acreditaram estar no Céu
Onde todos se davam as mãos...

Mas então vieram também os outros caçadores
Perdidos a vagar pelo horizonte selvagem
Que entravam nas grandes aldeias
Para saquear e matar
Aqueles que não podiam revidar

E quando os outros perdidos se ofereceram para proteger as grandes aldeias
Choramos eu e o sol, e cuidamos para que minha noite
Viesse a refrescar brevemente aos banhos de sangue
Que os primeiros exércitos de homens infligiam uns aos outros
E a própria vida como um todo

Sei disso, pois estou tanto na primeira divisão do óvulo
Quanto na última gota de sangue a se esvair de seus templos...
Quantos cadáveres se amontoaram desde então
Nos campo de batalhas, no entorno das aldeias
E mesmo longe delas, na imensidão?

Há muitas aldeias no mundo
E eu que sou substância como o espírito
Fluo e desperto toda a poesia
Fluo e amo a todos vocês:
Caçadores e xamãs;
Amo-os como mulher
Como mãe
Como todo um oceano
Na mais profunda calmaria

Odoya, Odoya, Iemanjá dos navegantes, senhora do coração, sereia do mar!


Um conto inspirado em Iemanjá. Através de raph em 2012.

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» Parte da série "Voz dos Orixás"

Crédito da imagem: Google Image Search

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20.8.12

O filho da vida

Numa noite fria um homem letrado veio tratar com Yeshua, que o recebeu em sua tenda, animado por poder conversar com um sacerdote. Seu nome era Nicodemus...

Sacerdote – Shalom, rabi.

Mensageiro – Está errado: tu que és o rabi, e eu é que estou em paz.

Sacerdote – Mas como pode estar em paz, vendo seu povo sofrendo, oprimido?

Mensageiro – E quem não sofre nesta vida?

Sacerdote – Mas nós judeus temos sofrido em demasiado. Onde está Adonai para libertar nosso povo? Dizem que você trouxe-nos sinais de que é seu enviado, seu filho... Então me diga, onde está este Senhor Ausente?

Yeshua apanhou um galho seco do solo onde foi montada a tenda...

Mensageiro – Você vê a vida aqui?

Sacerdote – Não, isto é apenas um galho seco.

Mensageiro – Esta é a diferença. Tu achas que teu senhor está aqui e ali, e eu o percebo em todo lugar, para onde quer que olhe estou sempre coberto por seu perfume. Este galho seco um dia abrigou vida, e agora se torna inerte novamente, porém não menos sagrado. Eis o meu sinal e a minha mensagem, rabi: tudo é sagrado, tudo vibra e nada está parado. Quem há de ter iniciado esta roda senão aquele quem proclamas ausente?

Sacerdote – E porque não o convoca então? Quero vê-lo!

Mensageiro – Ele já está aqui. Ainda mais perto de tua alma do que teu próprio olho.

Sacerdote – Mas não o vejo, não o vejo! Se o vê, diga-te então que nos ajude, que nos lidere, que expulse os opressores de nossa terra...

Mensageiro – Mas como pode alguém retirar a moeda ou o trigo da balança, sem que torne a transação injusta para o vendedor ou o comprador? Tu desejas um Senhor dos Exércitos, mas como pode um general marchar contra o seu próprio exército?

Sacerdote – O que está dizendo, rabi? E acaso Adonai também defende aos opressores?

Mensageiro – E como poderia existir um exército de homens que não pertença ao Senhor da Vida? Não é sua culpa que os homens busquem a morte, e não a vida. Em verdade lhe digo, ó Nicodemus, que Nosso Pai não é um general, mas um semeador... E nós somos as sementes! Algumas há que germinaram em solo fértil, enquanto outras encontraram o solo seco, e viveram vidas de galhos secos. Porém, há sempre a oportunidade de aproveitar as chuvas que antecedem a primavera.

Sacerdote – Eu não compreendo... Se este de quem fala é o senhor dos romanos, não pode ser Adonai. Você é filho de um falso deus, um deus ausente, um deus traidor. Quem é você afinal?

E dizem que aquela foi a primeira vez que o viram exaltado:

Mensageiro – Ó Nicodemus, porque tanto proclamas ser um conhecedor das coisas celestes, se mal compreende das coisas do mundo? A quem pretende ensinar com esta alma cega? Tu acusas Nosso Pai de ser ausente, e, no entanto, ele é tão ausente quanto à luz das estrelas é ausente da noite! Tu acusas Nosso Pai de ser traidor, quando não há no mundo quem ele possa trair, visto que não fez promessa alguma! Tu me acusas de ser filho de um deus falso, quando ele é a fonte única de todos os Elohim, que são a essência de tudo o que há de belo e verdadeiro no mundo!
Saia desta tenda, Nicodemus, e volte para seus manuais de palavras vazias e sem vida. De nada adianta conhecer as palavras se você não percebe o baile da vida a escorar pelo ombro, o vento que sopra onde quer, e não atende ao chamado de almas secas.

Mas, antes de sair, Nicodemus virou-se e perguntou:

Sacerdote – E como tu fazes para falar com esse tal deus? Quem sabe um dia eu consiga falar com ele, para que possa fazer por nosso povo o que você se recusa a pedir...

Mensageiro – Em verdade lhe digo, hipócrita, que ele fala na única linguagem que não és ainda capaz de compreender sequer duas palavras: o amor. E, caso te perguntem como eu sei de tudo isso, diga-lhes que eu sou o Filho da Vida.


raph’12

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Este conto é uma continuação direta de "O zelote", e continua em "O recitador".

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Crédito da foto: Janis Christie/Corbis

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11.8.12

Irmandade

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


“Minha religião é meu pensamento”.

Foi à primeira vez que ouvi isso de outra pessoa, e foi de uma amiga. Estávamos visitando uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil sobre a Amazônia; e não me lembro nem ao certo o que estávamos conversando, mas tocava no assunto da tolerância religiosa, da tolerância às opções de caminhos escolhidas pelas almas alheias; e minha querida amiga me disse isso.

E ela disse do jeito certo, do jeito que eu gostaria de ter ouvido. Ela não disse “conforme você costuma dizer, minha religião também é meu pensamento”, nem tampouco “gosto muito daquilo que você diz, que sua religião é seu pensamento”. Ela disse somente isto: “minha religião é meu pensamento”. Lindo! Em seu olhar, ela pareceu ter compreendido a mensagem... Eu fui apenas quem a recebeu e passou adiante.

Já faz muito tempo que, quando me perguntam sobre qual seria a minha religião, eu tenho esta “reposta pronta”. Mas poucos a compreendem, não por culpa deles, nem minha, mas simplesmente porque pouco se dão conta de que a religião não é como escolher um time de futebol, ou então dizer assim: “não gosto de futebol, sou ateu para o futebol”. Mas alto lá, é possível ser ateu e religioso!

O religare, o religio, a religião, é à vontade de caminhar adiante rumo a uma espécie de reconexão com nossas origens, com o mistério de onde um dia saímos como seres ignorantes, e para onde pretendemos retornar como seres conscientes. Jesus disse, no Evangelho de Tomé, que “o Reino de Deus está espalhado pela Terra, mas os homens não o vêem”. Carl Sagan disse, em seu Cosmos, “que nós desejamos compreender nossa origem, e que podemos, pois somos feitos de material estelar, somos uma forma do Cosmos compreender a si mesmo...”; Escolha seu caminho: Jesus, Sagan; Deus, o Cosmos; Ou tantos outros caminhos – o importante é continuar caminhando.

“Mas isso não se faz com o pensamento, e sim com a fé, ou a razão, ou a filosofia, etc.” – Será mesmo? Pois eu digo que o único animal sagrado que o nosso pensamento ainda não capturou foi o Amor, mas continuaremos tentando. Nós queremos pensar em Deus, nós queremos pensar no Cosmos, nós queremos pensar no Amor. E porque temer? Admita então: “minha religião é meu pensamento”.

Mas fale para si, e apenas para si, como minha amiga falou. Pois eu não quero ditar regras, nem muito menos preceitos morais, e menos ainda pretender lhe dizer que este caminho é melhor do que aquele. Sim, existem cientistas que não crêem em Deus. E existem religiosos que não crêem na ciência. E existem filósofos que gostam de questionar a absolutamente tudo. Mas quem não crê no Amor? Quem, dentre todas as almas no mundo, não crê que existe um sistema, e que o percebemos, e que necessitamos saber dele, cada vez mais? Só não mergulhou no mundo quem está morto em vida, represado pelo dogma – o dogma da crença, ou da descrença. Não importa ao pensamento crer ou descrer, e sim experienciar, estar aqui, existir para o mundo! 

“Nada é mais útil ao homem do que o próprio homem”.

Foi o que disse o grande Espinosa. Para ele, o ser humano poderia ser a coisa mais preciosa na vida de outro ser humano, particularmente quando possuíam afinidade de pensamento. Uma afinidade de tal modo específica que, de certo modo, alguns poderiam mesmo se comportar e caminhar juntos, como uma só mente, um só corpo... Apenas esta comunidade, esta Eclésia do Amor, é digna de nota – as demais sempre serão apenas igrejas.

Por isso tudo eu fico extremamente grato, e realizado, por encontrar certa ressonância do que se passa no meu pensamento também pelo pensamento alheio. É exatamente assim, uma palavra por vez, uma frase, um conjunto de signos, cascas de sentimento, um pensamento a se refletir adiante, um artigo, um conto, um poema por vez, que procuro, quem sabe, melhorar a vizinhança. Seria esta a minha Verdadeira Vontade, diria um outro amigo...

Mas de nada adiantaria toda a sabedoria do mundo, sem o Amor. De nada adiantaria todos os manuais de natação, se não houvéssemos já mergulhado. De nada adiantaria todas as equações da física, se não nos espantássemos mais com a inconcebível natureza da Natureza.

Vivamos, não apenas sobrevivamos. Sejamos uma irmandade, não apenas uma comunidade. E caminhemos à frente, sem medo do que pode lá haver, sem ansiedade pelo que o horizonte pode estar nos escondendo... O horizonte está em todo lugar. O pensamento permeia o Amor como as águas de um oceano a uma enorme ilha rochosa, que um dia ainda será a praia mais bela de todo o Cosmos.


Minha religião é meu pensamento
Minha vida é minha bíblia
Minha igreja é meu coração
Deus é nosso amor

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Crédito da imagem: Tony Hallas/Science Faction/Corbis

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31.7.12

Intervista, parte 3

Esta é uma "entrevista de mim mesmo" que escrevi em 1999 e agora trago para este blog. Continuando da parte 2:


Você se considera alguém esperançoso?

-Como assim? No sentido de ter esperança em que?

-Na vida, no mundo, nas coisas em geral...

-Ah sim... Pois bem, neste sentido posso dizer que não tenho esperança alguma, pelo menos não como as outras pessoas têm.

-Ora, mais uma resposta enigmática, como era de se esperar...

-(sorri) Você gostaria que eu explicasse melhor?
 
-Claro! E não se preocupe porque temos bastante tempo ainda.

-(sorri mais uma vez) Eu estava querendo dizer que as pessoas me parecem ter muita esperança, muito mais do que eu tenho por assim dizer... Elas têm, por exemplo, a esperança de serem amadas, bem sucedidas e felizes, mas para isso contam mesmo apenas com sua esperança. Elas querem ser amadas sem se preocupar em amar a elas mesmas, ou a sua vida e seus amigos, ou a quem quer que seja. Querem receber carinho, mas desde cedo aprendem que demonstrar carinho é uma coisa vulgar, que demonstra sua fraqueza, e as impede de serem bem vistas pelos homens que criaram tais regras. Elas na verdade não estão nem aí para tais regras, elas querem é ser amadas, mas como elas tem tanta esperança, seguem as regras porque acham que vão ser amadas de qualquer jeito.
Porque seguindo as regras elas tem a esperança de serem bem sucedidas, de terem um grande imóvel, os melhores carros, os companheiros mais bonitos ou famosos, e de poderem viajar para onde quiserem uma vez ao ano pelo menos... Elas acreditam que conseguirão isso apenas seguindo as regras, e que além de conseguir tudo isso, ainda serão amadas, muito amadas; e, portanto, felizes. Elas têm tanta esperança que acham que tudo isso irá verdadeiramente cair do céu em cima delas.
Não se preocupam em fazer o que gostam, nem em desenvolver um gosto pessoal, elas apenas seguem as regras, e fazem o que quer que vá transforma-las em pessoas bem sucedidas, gostam do que tem de gostar para serem tais pessoas; e, incrivelmente, elas têm a esperança de serem muito felizes, e ainda muito amadas, vivendo dessa maneira.

-Sim, sim, você está querendo dizer que os meios de comunicação, aliados a lei do consumismo capitalista e ao que é considerado politicamente correto, escravizam as pessoas em vidas sem rumo pessoal ou sentido próprio?

-Meu Deus, eu não quero dizer nada disso! Veja bem, eu não estou querendo ser irônico, e as pessoas não estão escravizadas! Ora, é muito fácil pensar assim, que alguma elite multimilionária simplesmente controla toda a forma ocidental de pensar. Não é nada disso... As pessoas vivem assim porque querem realmente, porque estão acomodadas e com medo de tentar algo novo, como sempre... Na realidade, esse algo novo é muito antigo, a verdade da vida sempre esteve oculta dentre o mundo, e são muito poucos os que conseguem desmascará-la.

-A verdade está atrás de uma máscara?

-Claro, não só a verdade do mundo, mas a nossa própria verdade. Quantos de nós não usam máscaras para se adequarem ao mundo que nos é apresentado, escondendo nosso amor, nossa criatividade, nossa vontade de dançar, para sermos considerados homens normais?
A verdade está mascarada porque as pessoas não se preocupam em retirar sua máscara, não porque tenham medo da verdade... Alguns até têm medo, mas acredito que a grande maioria esteja mesmo é acomodada. Sabe porque? Porque a grande maioria tem muita esperança! Esperança de que essa máscara caia sozinha, sem que eles tenham que se arriscar a desvendar a si mesmas, e ao mundo...
Quando andamos pelas ruas movimentadas das cidades grandes, queremos conversar com as pessoas, mesmo que não sejam tão bonitas; sempre encontramos alguém que nos chame a atenção, num bar, na praia ou no ônibus... Pensamos diversas coisas, como seria aquela pessoa? Será que não poderíamos ser bons amigos? Ao menos viajar juntos ou conversar por algumas horas...
Porque as cidades são mesmo um caos, mas somente porque nos sentimos sozinhos mesmo em meio a uma multidão. Nas escolas não aprendemos a nos comunicar, não nos foi ensinada uma boa maneira de conversar, trocar idéias e comentários. O que importa é defender nossa opinião, 99% do tempo fazemos isso... Se gostamos de um filme é bom que as pessoas também gostem, para termos certeza de que o filme é realmente bom. Se as pessoas não gostam, talvez o filme não seja tudo aquilo que imaginamos, afinal...
E, portanto, ficou entendido que não devemos nos comunicar com qualquer um, principalmente pelas ruas e caminhos da vida. Vai que a pessoa não concorda com nossa opinião?

-Você está dizendo que as pessoas não se comunicam porque têm medo de que discordem de sua opinião?

-Não exatamente, elas não têm medo de que discordem de sua opinião, elas têm medo do novo! Têm medo de que sua definição da vida seja falsa, e que alguém na rua lhes convença disso. Elas não têm medo dos que discordam de sua opinião, pois aí vão continuar se divertindo, defendendo sua própria opinião, muitas vezes sem nem ouvir ou dar crédito a opinião alheia... Elas dão valor às opiniões mais populares, mais bem aceitas na sociedade, nas regras do que é correto, e se mascaram atrás delas. Se as pessoas divergem de sua opinião, ela pode então discutir, brigar, guerrear com elas, até que sua opinião impere sobre as outras.
Mas elas não têm problema nenhum com isso, pois em verdade estão duelando protegidas por suas máscaras maravilhosas, que as mantém longe do desconhecido, do que é novo. Na realidade as pessoas têm mais problemas em se comunicar com aquele que aceita qualquer opinião, elas não entendem esse alguém, pois ele está olhando, e falando, com a pessoa verdadeira, aquela por detrás da máscara... E isso tudo é muito novo para elas, muito provocativo e original, e elas não querem entender isso, pois acham que já entendem de tudo.

-Então as pessoas têm mesmo é a esperança de que essas tais máscaras maravilhosas as protejam para sempre do novo, e, portanto, jamais terem de encarar desmascaradas ao desconhecido?

-Me parece que é isso... Elas não querem encarar a verdade. Talvez não seja nem culpa delas, mas de tantas outras que viveram antes de nós, e criaram tais regras brutais. Mas enfim, as pessoas parecem ter mesmo muita esperança, pois acham que vão conseguir enxergar ao mundo inteiro com sua visão tão curta, e ainda por cima encoberta por uma máscara!

-Interessante, interessante... (pensa por algum tempo) Mas agora eu tenho uma última pergunta: Se a esperança não serve de nada a essas pessoas, o que será do futuro?

-Não! Desculpe se não soube me explicar... (preocupado) Na verdade estava mais preocupado em não parecer irônico... Eu não quis dizer que a esperança não serve de nada, apenas que somos nós mesmos quem construímos a esperança.
Eu explico: A humanidade se tornou uma especialista em padronizar as coisas. Ela diz que esperança é ter fé em algo melhor, numa vida melhor. Daí ela inventa a palavra “esperança” e publica em seus dicionários monstruosos que esperança é isso que foi dito acima. Mas se esquece de que tem de ensinar as crianças sobre tais verdades, pois senão corre o risco de que elas interpretem tais definições de dicionário ao pé da letra, e então padronizem a coisa toda...
Por acaso as pessoas sabem o que é ter fé? Então como vão saber o que é ter esperança? Ora, a gente não nasce com fé, ou pelo menos se nascemos com ela, não vamos conseguir mais fé num shopping center ou comprando com cartão de crédito. Nós construímos essa fé, e consequentemente a nossa esperança, ao nos dedicarmos a achar a verdade pelo mundo... Porque a verdade foi massacrada por tanta ignorância através dos tempos, e sua única saída foi se esconder também, pois essa foi à única maneira de não ser totalmente arruinada pelos preconceitos e inquisições patrocinados pelos homens mascarados, distantes de si mesmos...
Mas a verdade não foi embora, e, portanto, ainda existem caminhos a serem seguidos, e decerto ainda existe esperança. Mas veja bem: Só se conquista a esperança ao desbravar o desconhecido, ao ter a coragem de seguir tais caminhos por onde tão poucos passaram, mais por onde todos um dia inevitavelmente terão de passar. A cada passo sua esperança irá aumentar, a cada recuo, ela irá se abalar, mas em realidade você nunca terá esperança! A esperança não é uma moeda que se perde ou ganha, ela é uma força poderosa destinada a nos levar daqui para mundos muito melhores. Você não ganha esperança, mas pode correr para ela, sem medo, sem máscaras, e abraça-la de coração!
Irá abraçar a si mesmo, e depois a todos aqueles que passam angustiados pelas ruas, e mostrar para eles que o homem pode sim jogar a máscara fora, e então se preparar para aceitar toda a verdade, todo o amor, e toda a felicidade decorrentes de tal ato.

***

Por algum motivo, na época eu não prossegui com esta entrevista... Talvez, quem sabe, por ter se tornado pessoal demais – afinal, seria hipócrita se dissesse a vocês que eu mesmo não carrego mais máscara alguma. Mas o que me interessa em retornar até 1999, revisitando esse texto, é tentar reconhecer quem eu era, e não sou mais...

Este é um belo exercício, que recomendo a todos. As máscaras são trocadas, e nem sequer percebemos, até que temos uma fantasia totalmente nova posta diante do espelho. Somente o folião por detrás da fantasia, o dançarino, o poeta, o espírito, é quem permanece – este grande ser oculto, para o qual tenho dedicado todas as minhas cascas de sentimento.

raph

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Crédito da imagem: WIN-Images/Corbis

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26.7.12

Intervista, parte 2

Esta é uma "entrevista de mim mesmo" que escrevi em 1999 e agora trago para este blog. Continuando da parte 1:


Você ama?

-Claro que amo. Agradeço todos os dias por isso.

-(sorri) Eu adoraria pular para a próxima pergunta e poupar tempo, mas ainda preciso saber... O que você ama?

-Ora, se eu amo, amo o tudo. Amo tudo o que existe...

-Era o que eu temia...

-Tudo bem, eu também não estou habituado a encarar o amor dessa forma. Talvez por ser assustador, infinito. Mas se eu sinto que amo, e isso só mesmo eu posso dizer, posso apenas amar ao tudo, já que essa é a finalidade do amor.

-Então você não odeia ninguém, ou nada? Nem os políticos corruptos ou torturadores da guerra?

-Uma coisa não leva a outra... Mas eu posso dizer que não tenho nada contra eles, e até me dedico a gostar deles. Mas gostar de sua essência, que é a mesma presente em cada um de nós. Não posso amar o que eles fazem, naturalmente, pois seria extremamente contraditório.
Amar ao todo significa amar a essência que é o universo, cada um de nós. É amar a energia que molda e move a existência a cada segundo de nossas vidas. No que cada um de nós usa tal energia vai de acordo com nossa liberdade, mas não importa o que façamos, seremos sempre seres maravilhosos e dignos de amor... Uns estão sujos de tanta ignorância e brutalidade, mas outros são leves e cintilantes, da mais pura beleza.

-Tudo bem, o seu amor é uma espécie de amor religioso... Mas você não acha que precisamos de mais do que isso para compreender e aceitar as pessoas?

-(ri) É fácil para você enquadrar as coisas e classifica-las, afinal esse é o seu trabalho, não o culpo. Acontece que meu amor não é apenas religioso, pois eu não gosto só de um velhinho que mora no alto do céu e dita a existência... Esse arquétipo não existe, o que existe é a ignorância das pessoas para com essa energia que criou o tudo, e constantemente se mostra presente em nossas vidas, a cada segundo, como já disse.
O que eu amo é aquilo que criou e moldou nosso mundo, que rege as leis da natureza, que mantém nossos átomos unidos e não nos deixa simplesmente dispersar numa nuvem caótica de partículas... É o algo mais que estava aqui antes mesmo do aqui existir. É a inteligência máxima, que não quis que fôssemos robôs e nos deu o direito de escolher nosso próprio rumo. Que nos deu o direito de observar o mundo, amar, aprender e evoluir por nossos próprios passos... E, além disso tudo, é também a folha que cai anunciando o outono, a criança que brinca e nos faz recordar e sorrir, o criminoso que se regenera e nos faz ter esperança de dias melhores, ou mesmo o sábio, que no fim da vida ainda encontra forças e determinação para ensinar, e aliviar nosso medo do penoso fim. Isso tudo, mais ou menos, é o que eu amo.

-Bonito, bonito... Mas você disse a pouco que odiar não era uma consequência de não amar...

-Sim, claro... Odiar não é exatamente o oposto de amar, acho eu. Quero dizer, você pode odiar as ações de certo alguém, mas não o alguém em si, já que todos somos livres para errar e aprender, corrigindo a nós mesmos. Não poderemos cometer todos os erros possíveis, muito menos alcançar todos os acertos, por isso mesmo é tão vital que amemos não só as pessoas, mas nossa própria história, para que aprendamos com nossos acertos e erros, visando não repetir os últimos, e evoluir com os primeiros...

-(confuso) Hmm... O que seria o oposto de amar então?

-Veja bem, amando ao tudo, estaremos transportando energia, conhecimento, e muitas outras coisas que não podemos explicar ao certo ainda, para nossa memória, ou nosso ser. Quando você olha para uma árvore sob a luz da manhã, poderá se encantar com aquele cilindro de madeira que sustenta pequenas gotas de verde que se agitam para lá e para cá quando as brisas passam... Retornando a mesma árvore à noite, você perceberá que o brilho verde deu lugar a uma penumbra semiprateada, refletindo a lua, e que o tronco está tão escuro que mais parece um arauto negro de aspecto retorcido... Você pode preferir a árvore da manhã, ou a da noite, mas de qualquer jeito a árvore continuará sendo somente uma árvore. Você só poderá saber qual das duas prefere se observar com carinho e atenção, se gostar do que vê, se lhe interessar o que aprendeu da natureza visível da árvore. E quando você tiver observado o suficiente para entender isso tudo, e amar o que viu, ainda lhe restarão uma infinidade de outras coisas para aprender, pois que viu somente uma das faces da árvore...
Imagine quanta coisa não poderá descobrir mais de uma árvore? Quantos segredos não lhe reservam essa empreitada? Isso é amar uma árvore, amar todas as árvores, e consequentemente transporta-las para o seu próprio ser, para que quando você estiver numa cidade de puro concreto, ou sob o sol punitivo de um deserto, você possa recordar do ar puro e da sombra fresca, características das árvores... Se fizer direito, poderá se sentir realmente feliz na cidade ou no deserto, tal que saberá que existem coisas tão belas, coisas que ama, dentro de si próprio.
Melhor ainda seria amar a areia e a imensidão do deserto, ou os arabescos e muros cinzentos da cidade, já que daí se encontraria maravilhado em qualquer lugar. Agora, odiar a areia ou os muros não lhe fará deixar de lembrar das árvores... Portanto você pode ainda não entender que o tudo é produto da mesma energia e inteligência, e pode mesmo acreditar que ama uma parte e odeia outras, quando na verdade se ilude totalmente.
O oposto do tudo é o nada absoluto, o grande e abominável nada. O oposto do amor talvez seja melhor definido na indiferença ou mesmo na ignorância do mundo a volta, posto que quando não nos interessamos por nada, não nos sensibilizamos com as árvores nem gostamos de cidades ou desertos, somos poços de imenso vazio, angustiados e profundamente solitários, sem nada nem ninguém dentro de nós mesmos a nos confortar, a nos auxiliar em nossa evolução e aprendizado, que necessariamente irá nos colocar a prova no decurso de nossas vidas. Não amar é estar morto em vida, mas talvez mesmo no poço mais negro, mais profundo, ainda exista um pouco dessa energia que faz o mundo girar, e a civilização crescer.

» A entrevista concluí em breve...

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Crédito da imagem: Anônimo

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18.7.12

O zelote

Na primeira vez que o olhou nos olhos, quando passava pelas aldeias de Ezron, Yehudhah sentiu como se estivesse na presença de um verdadeiro rei. Seu olhar exalava tanta confiança, tanta força e determinação, que teve a certeza de que aquele seria o homem quem uniria os judeus e os libertaria do jugo de Roma... Mas, quando Yeshua falou, tudo que saia de sua boca eram ensinamentos de amor, paz e sabedoria. "Isto será muito bom" - pensou, na época - "mas somente após termos conquistado nosso território de volta".

Não obstante, seu mestre parecia ver nele alguma espécie de sábio, e não um guerreiro. Apesar de ser conhecido por toda Judeia como um artista dos punhais, um exímio assassino de romanos, para Yeshua ele era um amigo próximo, um confidente, um dos poucos há quem ele levava para caminhar a sós pelo deserto, enquanto refletia sobre o que fazer a seguir... Yeshua iria libertar a Judeia, disso ele não tinha dúvidas, mas por vezes se perguntava se levariam décadas para reunir um bom exército, e não apenas alguns poucos anos, como ele ansiava.

Naquele final de tarde, afastados dos outros seguidores, observando os desertos ao longe, ele caminhava junto com seu mestre, que cantarolava em alguma língua ao mesmo tempo estranha e familiar, da qual ele conseguia compreender somente um trecho, algo como: "Vá, vá para o deserto, o vento esconderá a trilha, a noite está para chegar, vá agora, meu irmão, vá para o deserto"... Ele não compreendia, não suportava mais esperar, tomou coragem e o interrompeu no meio do canto:

Yehudhah - Me desculpe mestre, mas eu tenho uma pergunta.

Mestre - Diga, meu amigo.

Yehudhah - Quando me juntei a você, você me disse que estava juntando um exército para libertarmos a Judeia. E eu confiei em você, pois sei quando alguém mente para mim se posso ver seus olhos, e você não mentiu, você nunca mente para mim... Mas eu não entendo, que espécie de exército estamos formando? Até agora temos apenas alguns poucos que sabem manejar um punhal adequadamente, e todos os outros são fracos, e alguns até doentes. Poderiam até se tornar soldados, quem sabe, mas o treinamento deveria ter começado já. Você quer que eu os treine todos os dias ao nascer do sol? É a melhor hora, quando aprendem mais.

Mestre - Meu amigo, eu não preciso de soldados...

Yehudhah - Mas, como assim? E como diabos iremos nos libertar?

Mestre - Yehudhah, e acaso algum soldado poderá nos fazer livres?

Yehudhah - Você me disse que seria o zelote que nos libertaria! Você me prometeu...

Mestre - Meu amigo, eu falei a verdade: eu serei um zelote da alma.

Yehudhah - Da alma? Mas como cuidaremos de nossa alma se Roma nos domina? Primeiro precisamos expulsar os romanos, depois cuidamos da alma!

Mestre - Yehudhah, acaso o deserto não lhe ensinou há essa altura? Acaso o sangue dos inocentes que degolou não lhe fez enxergar? Primeiro a alma, meu amigo, primeiro a alma... Mesmo que reuníssemos o maior exército da Judeia, e ainda que degolássemos cada soldado romano, no fim teríamos apenas substituído César por algum outro imperador opressor, e nada terá realmente sido modificado no mundo.

Yehudhah - Mas você será o imperador da Judeia, o rei dos Judeus! E você não irá oprimir, e sim ensinar tudo isso que nos tem ensinado; E então não serão alguns poucos pobres coitados a lhe ouvir, mas todos os rabinos e sacerdotes, todos os grandes mercadores e generais, todos irão reconhecer sua majestade, como eu reconheci.

Mestre - Você me reconheceu pois, como você mesmo disse: sabe olhar fundo nos olhos da alma. Você sabe que eu falo a verdade, pois então confie em mim, meu amigo... Não haverá luta nem matança. Eu não estou convidando pescadores e marceneiros para serem transpassados pelas lanças romanas. Para vencer esta guerra, apenas uma morte será necessária, e eu conto com você para isso: você é parte essencial do plano.

Yehudhah - Mas como? E que plano é esse, mestre?

Mestre - Dia virá que nossa mensagem, embora pacífica, chegará aos ouvidos daqueles que não compreendem a paz, e temem a união do povo. Você sabe como eles resolvem isso: mandam seus soldados e suas lanças. Mas será mais simples entregar o líder dos agitadores, o zelote da alma...

Yehudhah - Não! Jamais, eu não deixarei que morra na mão dos romanos!

Mestre - Mas se o corpo morre, tampouco fará alguma diferença. O que importa é a guerra da alma, a modificação do pensamento dos homens. Se o pensamento não muda, o que está a volta continuará igual, enquanto alguns corpos caem mortos, e outros se erguem em seu lugar... Se eu morrer, terá sido apenas meu corpo, Yehudhah, pois minha alma e minha mensagem continuarão no mundo por ainda muito tempo, no pensamento daqueles que compreenderam parte do que vim dizer. Contemple, meu amigo, onde está situado o meu exército...

E Yeshua, colocando-se entre ele e o sol poente, pareceu se transfigurar em inúmeras figuras de luz, a carregar belíssimas espadas pontiagudas, e armaduras reluzentes. Eles não estavam ali, não eram homens como ele, disso tinha toda certeza, mas por um momento lhe pareceu que esteve a vida toda a lutar por um mísero pedaço de terra, por um canto da Judeia, enquanto que existiam tantas outras terras por serem exploradas e conquistadas, ali ao lado, do lado de dentro, no vasto reino da própria alma... Yehudhah então disse: "Eu farei o que me pedir" - porém, ao mesmo tempo, também pensou para consigo mesmo - "Mas jamais lhe condenarei a morte, e cuidarei para que ainda viva deste lado, e ainda cantarole no deserto, por longos anos...".


raph’12

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Este conto é uma continuação direta de "O traçador de círculos", e continua em "O filho da vida".

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Crédito da foto: John and Lisa Merrill/Corbis

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17.7.12

Intervista, parte 1

Esta é uma "entrevista de mim mesmo" que escrevi em 1999 e agora trago para este blog. Achei que seria mais interessante usar o título "Intervista", já que todos que olham para o espelho por algum tempo, acabam por encontrar uma vista de si mesmos:


-Muito bem, aproveitando este tempo que dispomos, vamos iniciar logo essa entrevista. Começarei com uma pergunta bem simples...

Quem é você?

-(arregala os olhos surpreso) Essa é a sua ideia de pergunta simples?

-Qual o problema com ela? Basta responder seu nome, o que faz, onde mora... Coisas assim...

-(sorri) Quer dizer que por saber tais coisas você poderá me dizer quem eu sou?

-Bem... Se quiser pular essa não tem problema. Eu já sei quem você é de qualquer jeito.

-Para você saber quem eu sou, antes teria de saber quem é você mesmo; E, por  consequência, quem são todos os outros.

-Tudo bem, eu não sei sobre os outros, mas seu nome é...

-(interrompe) Não, não é meu nome quem lhe dirá quem eu sou. Não é meu nome nem meu sobrenome, muito menos meu signo, tampouco minha data de nascimento, ou mesmo o lugar onde nasci. Não será minha casa, nem meus pais, nem meus amigos, nem meu gato, nem minha agenda ou plano de saúde. Minha carteira de identidade não lhe dará muitas pistas, e todos esses outros códigos que presumem nos resumir a uma reles sequência de números também não lhe serão de nenhuma utilidade...

-Entendi o que quer dizer, apenas seu interior me dirá quem você é. O coração, a alma, coisas desse tipo não?

-Talvez lhe dêem uma pequena pista. Talvez se você me ouvir por mais alguns anos, prestando atenção em tudo o que falo, faço e penso. No que gosto e no que não gosto, no que acredito e no que amo... Talvez depois de anos você tenha uma pista de quem eu sou de verdade. E então achará uma pista sobre quem é você da mesma forma.

-Depois de anos? Então só quem vive junto pode conhecer um ao outro?

-Claro, mas em realidade todos vivemos juntos, estamos juntos nesse planeta a milhares de anos, estamos muito próximos, o suficiente para podermos observar um ao outro e aprender com isso sobre nós mesmos... Quem somos, o que fazemos, ou ao menos o que deveríamos fazer. O que procuramos? Poderemos achar? E se acharmos, o que vem depois? Até onde, ou até quando, penetraremos no mistério da vida?

-(sorri com leve ironia) Você está começando a me convencer de que não era uma pergunta tão simples afinal...

-As perguntas nunca são simples como achamos que são, apenas as respostas o são; Mas, quando não sabemos as respostas, tendemos a complicar as perguntas também. Como saber o que somos, se não sabemos do que somos feitos exatamente, muito menos de onde viemos, ainda menos quanto tempo temos. Só se pode definir alguma coisa depois de se ter compreensão total sobre ela... Antigamente achávamos que os raios que caiam do céu nos dias chuvosos eram lançados por deuses raivosos, hoje usamos esses mesmos raios para ver TV, ligar lâmpadas, acessar a internet, e tantas outras coisas... Talvez ainda venhamos a utilizar esses raios para outras coisas mais, isso porque nós temos apenas uma pista do que vem a ser um raio, e não podemos prever até onde ele nos levará. Eu só tenho uma pista sobre mim.
Eu sei que eu acordo geralmente de manhã, e só às vezes me lembro do que aconteceu comigo enquanto dormia, e mesmo quando me lembro acho tão estranho que não consigo associar com a minha realidade desperta. Mas eu continuo tentando, sabendo que vou sentir fome algumas vezes ao dia, sabendo que vou desejar alguma coisa, que vou amar e até mesmo odiar, que vou sorrir e infelizmente chorar, que vou, sobretudo, aprender; Mas nunca será o bastante, e quando a lua vier e me obrigar a me distanciar da minha realidade de novo, ainda não farei à mínima ideia do que irá acontecer. Acredito, e estudo, muitas coisas, muitas formas de se pensar esse mundo, essa realidade que nos é apresentada, mas são muitos os caminhos, e nunca sabemos quantos são e para onde exatamente nos levam...
Portanto eu não posso mesmo lhe dizer quem sou, pois eu não sei para onde estou indo, apenas sei que tenho de caminhar, pois essa questão é exatamente o que me impele a seguir sempre em frente, e a tentar o melhor caminho. Eu não sei quem sou, mas daria tudo, aliás, estou dando o máximo de mim para saber. Porque se um dia eu finalmente descobrir, talvez não tenha mais de caminhar, e talvez possa ainda ajudar os outros em seus caminhos... Mas até lá provavelmente ainda falta muito, e o que me preocupa nesse momento não é chegar, mas saber caminhar da melhor maneira. Então quem serei eu? Rei ou mendigo? Santo ou devasso? Amado ou odiado? Como eu posso saber? Que diferença isso faz?

-Sim, concordo com o que diz... Mas você me deixa um tanto confuso quando afirma que se descobrir quem é, saberá quem eu sou, e quem são todos nós...

-Talvez não saiba, talvez saber não venha a ser a questão; Talvez ser seja o verbo mais indicado. Porque saber que estou vivo aqui nesse planeta, que sou um cidadão e devo me dedicar a auxiliar o progresso de meu país, não me diz muita coisa. Na verdade todos pensam da mesma forma, todos estão aqui para isso, e tentam viver suas vidas da melhor forma... Mas então, porque todos não somos iguais? Porque uns roubam e outros doam? Porque uns são chefes e outros subordinados? Porque uns querem ser artistas e outros médicos? Acho que apesar de tudo isso todos continuamos a ser profundamente iguais. Acho que nossa profissão ou sexo, ou cor da pele, ou o que quer que seja, não nos diferenciará nem um pouco. Talvez diferencie uma vírgula, mas todos somos livros extremamente iguais, extremamente bem escritos, o problema todo vem da nossa incompetência para a leitura de nós mesmos.
Nós vemos que alguns livros têm uma vírgula fora do lugar, ou uma frase com o predicado antes do sujeito, e nos convencemos de que somos histórias diferentes. Mas nossas histórias sempre se repetem, com os mesmos inícios e finais, os mesmos temas e elementos, às vezes até os mesmos personagens... No entanto poucos se dão conta disso, então cada um passa a viver isolado em sua própria história, em seu próprio mundo. Nós temos apenas um planeta, e mais ainda, temos apenas uma raça pensante nesse planeta. Somos só nós aqui, os seres humanos, e somos todos personagens do mesmíssimo livro, a mesma história, sempre...
Talvez uns sejam mais cômicos, outros mais poéticos, outros mais voltados para o terror, mas a história é a mesma, e quem a está escrevendo somos nós. Não podemos deixa-la chata e repetitiva, temos de descobrir novos caminhos, novas formas de narrativa, talvez até novos personagens para ela. E será mesmo muito difícil conhecer ela toda, porque quando chegamos aqui ela já estava no meio, então só nos resta ajudar a escrevê-la o melhor que pudermos.
Mas uma coisa é extremamente importante compreender: Nossa história tem muitos, muitos personagens, e estão errados aqueles que acreditam serem os únicos personagens de sua história... Uma história de um personagem só pode ser muito monótona, quando não algo pior; Mas a nossa história, a história do ser humano, é um conto maravilhoso, um livro que não me canso de folhear, e é exatamente para isso que estou aqui vivo, apesar de não fazer ideia exata do por que.

» A entrevista continua em breve...

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Crédito da imagem: Sung-IL Kim/Sung-Il Kim/Corbis

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8.7.12

Estrelas

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Aqui estou novamente, num vagão de metrô da Cidade Maravilhosa...

Basta ir morar por algum tempo (meses, anos?) longe de uma grande cidade, do tipo que tem metrôs lotados, para voltar a se espantar novamente, quando retornamos a nossa antiga casa: “Nossa, se entrasse mais alguém por aquela porta, eu acho que teria sido esmagado neste poste no meio do vagão!”.

Há tanta gente em tão pouco espaço, que quando você planeja pegar o metrô do Rio em horário “nobre”, precisa realmente elaborar uma estratégia... “Se entro pela esquerda, preciso garantir minha posição próximo à porta direita, ou seria a esquerda?” – Um momento de indecisão, e é capaz de você passar do ponto sem ter tempo de sair...

Mas é entre as estações, com o trem percorrendo os corredores escuros por debaixo da metrópole, que os pensamentos mais profundos me assaltam: “Quantas histórias distintas neste mesmo vagão, quantas formas de ver o mundo... Aquele cara está com o olhar fixo nos seios daquela garota, será que ela também sabe dos seios lindos que tem? (me parecem naturais); Aquela outra ali tem pinta de nerd... Nossa, ela está lendo Game of Thrones na tela do celular, isso que é dedicação! E ali, no outro canto, aquele grupo de turistas alemães escolheu uma péssima hora para fazer turismo pelo Centro...” – Mas todos eles estão pensando. Não há aperto suficiente neste vagão que impeça alguém de pensar.

Muitos certamente estão voltando do trabalho e, invariavelmente, dedicam uma boa parte do seu tempo de reflexão a pensar no dinheiro: quanto têm, quanto almejam ter, quantas dívidas a pagar, etc. Isto tudo, sem dúvida, passou por sua educação: se não foram os pais ou familiares a lhes alertar que “tempo é dinheiro”, certamente foi a orientadora vocacional. A primeira função das orientadoras vocacionais é tentar convencer o maior número possível de jovens mentes promissoras a ingressar numa carreira “promissora”, que “pague bem”. Ultimamente, por falta de mão de obra qualificada, o empresariado brasileiro tem quase que implorado para tais orientadores: “Pelo amor de Deus, manda alguém para exatas”.

Ciências exatas! Pode ser chato de aprender, principalmente se você não gostar, mas o que importa é que “dão dinheiro” (alguns cientistas teóricos podem discordar)... Melhor seria, entretanto, se na escola alguém nos explicasse, antes de iniciar a primeira aula de química ou física: “Meus caros, vocês podem não gostar desse decoreba sem fim de fórmulas que irão vomitar sobre vocês nos anos seguintes, mas, por favor, lembrem-se ao menos disso: somos formados por elementos químicos que só podem ser gerados nos núcleos estelares! Compartilhamos a história de nossos genes com todas as espécies animais da Terra, desde as bactérias aos roedores que sobreviveram à extinção dos dinossauros... A vibração dos nossos átomos, esses que formam nosso corpo inteiro, seguem as mesmas leis dos átomos que formam pedregulhos em Marte, ou supernovas há milhões de anos-luz de nossa galáxia. Há luz por todo o lugar! Tudo bem, agora podem entrar no decoreba... Boa sorte”.

Então saberiam ao menos que, conforme as estrelas, também somos pedaços do universo capazes de produzir luz. Sim, pois todo homem é uma estrela, e toda mulher também: sua luz é seu pensamento, quando conectado ao Infinito!

E a filosofia? Bem, esta nem é mais ensinada na maioria dos colégios. Por toda parte, os “arautos da estagnação”, estes que gostariam que você não pensasse, espalharam o boato de que a “filosofia é difícil e muito, muito chata; seria melhor estudar ciências exatas, que às vezes não são assim tão chatas”. Existem, quem sabe, dois tipos de pensadores: os que usam o pensamento para manter a “ordem estabelecida”, para estes é interessante que somente alguns poucos “doutrinados” aprendam a pensar, e mesmo assim desde que não pensem em nada que possa ir contra a tal “ordem estabelecida”; existem outros pensadores, no entanto, que acreditam que todos deveriam ser livres para pensar no que quiser, e cada vez mais abrangentemente e profundamente – a estes os “estagnados” de cada época taxaram de loucos, hereges, subversivos, bruxos ou, como está tão na moda: irracionais.

Talvez a filosofia não dê mesmo dinheiro, mas certamente te ajudará a entender o porque de tantos viverem correndo atrás do dinheiro, e não da felicidade, que por vezes se perde em meio a “sobrevivência”... Pegue todos os livros da seção de autoajuda desta megastore: não equivalem a um livreto de Epicuro sobre a felicidade [1]. Com a filosofia, a verdadeira autoajuda, se aprende a viver, não somente sobreviver. Para tal, não necessitamos de tanto dinheiro assim, só do necessário (para Epicuro, um pedaço de queijo ocasional era um banquete).

Que falar das religiões então? Tudo bem, todos poderiam continuar sendo batizados antes de terem opção de escolha, assim como seus pais já escolheram seus times de futebol, em todo caso... Mas, antes da primeira missa de Domingo após os, quem sabe, 12 anos, alguém de espírito livre deveria lhes alertar: “Vá e ouça tudo o que o padre tem a dizer, mas, ainda que suas palavras sejam reconfortantes, e ainda que você não possa dialogar, dialogue consigo mesmo – duvide, questione, elabore, experimente. Não faça de sua vida religiosa mais um decoreba eclesiástico!”. O único problema é que um sujeito assim seria expulso da Igreja...

E quem seria hoje Nosso Senhor Jesus Cristo? Um socialista radical? Um hacker anônimo? Um psicólogo dos Médicos Sem Fronteiras? Aquele mendigo que mora nas escadas da paróquia? Ou mais uma dessas estrelas do céu, que insistem em irradiar sua luz antiga, para aqueles que têm alma para às admirar? Ou, quem sabe ainda, mais uma dessas estrelas espremidas neste vagão de metrô?


para Maria Luiza

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[1] Carta a Meneceu.

Crédito da foto: Claudio Lara (Metrô Rio)

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