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18.1.13

O último enigma, parte 2

« continuando da parte 1

Antes da luz

Não era comum ver um anjo arregalar os olhos. Parecia que aquela pergunta era em si um enigma até para o mais nobre dos seres de luz – mas após um curto momento o anjo se recompôs e respondeu ao sábio como quem transmite a verdade do mundo a um grupo de camponeses (ou, pelo menos, como quem acredita nisso):

“Ora, meu caro sábio, quem pode dizer de onde vem o sol? Decerto que este que agora pouco se despediu do dia veio do além horizonte, como tem feito desde que essa terra nasceu; Decerto é este o mesmo astro que cultiva nossos campos e aquece nossos corpos há anos e anos.

Mas no mundo, no mundo que nós anjos podemos perceber, existem incontáveis terras e incontáveis sóis... Um deles, no entanto, teve de preceder os demais. Um deles teve de vencer a tenebrosa escuridão do Grande Nada.

Um deles foi o primeiro explorador do vácuo que existia entre a não existência e a consciência. Um foi o Primeiro Sol, aquele que primeiro iluminou o mundo, mas que veio a ser ainda antes que a luz o fosse.

E o que havia antes da luz? Ó sábio ancião, isso é matéria escura até para os mais iluminados dentre os arautos desse grande Primeiro Sol, desse grande Deus!”.

As palavras do nobre arcanjo soavam ora doces e melodiosas, como uma leve sinfonia composta de brisas matinais, ora profundas e ameaçadoras, como um relâmpago que anuncia o trovão raivoso. Isso parecia irritar aquele que caminhava para a luz, mas que era ainda tão somente um demônio redimido:

“Porque insistes em invocar o nome dele como se fosse uma grande ameaça, uma grande punição que paira sobre aqueles que ainda não são capazes de o ver de certa maneira?

Eu lhe digo, nobre arcanjo, que eu mesmo já maldisse esse nome inúmeras vezes... Eu mesmo já me rebelei contra ele por não aceitar as injustiças que eram feitas em seu nome – e como foram terríveis e cruéis muitas delas!

Não preciso aqui citar algumas das mais santas guerras e das mais santas fogueiras de homens e mulheres acendidas em seu nome...

Os pretensos donos da verdade diziam que essa luz só se aproxima daqueles que seguem os mais estúpidos rituais e as mais ridículas leis... Sabe, eu fui inimigo dessa luz por muito tempo, até que eu descobri que não existe uma única verdade, e que com certeza não poderia ser esse, justamente esse, o deus responsável pelas blasfêmias que se realizavam em seu nome.

Eu encontrei a verdadeira luz, nobre arcanjo, e foi pela dor! Aquela que veio do Primeiro Sol, e que penetrou invicta aos corações mais obscurecidos... Essa luz ilumina a todos, e não somente aqueles que usam auréolas na cabeça.

Mas, sobretudo, ó arcanjo, eu aprendi a falar dele de maneira doce e suave, posto que ele é agora o meu melhor amigo.

Sou apenas um demônio, e tenho carregado esta pata de bode e este único chifre, mas se me permite, gostaria de lhe dar um conselho: Fales de maneira doce e gentil quando invocardes o nome de Deus, para que não faça com que aqueles que lhe ouvem, e ainda o desconhecem, corram apavorados desse todo poderoso juiz que surge da tua fala trovejante”.

Nalgum momento daquele extenso comentário do demônio, o anjo iluminado pareceu sombrear de raiva; mas, como é dado aos anjos, por fim se desculpou, com a voz ainda mais melodiosa do que outrora:

“Decerto posso lhe compreender, aspirante da luz. Eu mesmo um dia ouvi o nome dele e estremeci ante o poder – mas já faz muito tempo, e talvez eu tenha me esquecido disto.

Desculpas, peço, pois que não é minha intenção afastar os seres desta luz, mas, pelo contrário, atraí-los a ela...”.

Os seres do Além Mundo trocaram então olhares cordiais, no que o silêncio foi subitamente interrompido pelo sábio ancião:

“Nossa conversa se deteve no enigma do que haveria antes do Primeiro Sol; Talvez fosse deveras interessante perguntar agora aquele que não acredita neste sol o que haveria então ali, visto que uma diferente crença fatalmente nos leva a uma diferente opinião”.

E, nesse momento, todos se voltaram curiosos e de ouvidos abertos para o homem que era ateu...

» A seguir, "Doce curiosidade"

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Crédito da imagem: euphoricarythmia.com

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16.1.13

O último enigma, parte 1

Agora que lancei meu livro, Ad infinitum, posso lhes trazer aqui o que foi, na realidade, seu primeiro “esboço”, escrito cerca de 2 anos antes (embora não lembre mais ao certo, pois escrevi a mão num caderninho e não coloquei a data). Neste outro projeto, também temos 4 personagens que “discutem acerca do mundo”, mas aqui eles são mais mitológicos, mais fantásticos, mais enigmáticos...

Discutir o mundo

Era já um novo entardecer na Cidade da Encruzilhada, e tanto os pássaros quanto os mercadores pareciam ter se retirado há uns bons minutos, visto que naquele momento o céu inteiro parou em silêncio, como que numa bela arte renascentista.

“Como é belo ver o sol se despedir do horizonte” – pensou o homem que vinha pela estrada a pé – “Faz tempo desde a última vez que parei para dar adeus ao sol, tenho que me lembrar disso de vez em quando”.

A Cidade da Encruzilhada era assim chamada por ser o grande centro de comércio daquela região do mundo – muitos eram os caminhos que ali se encerravam ou entrecruzavam. Dessa forma, havia sido o local escolhido pelos quatro viajantes para o grande encontro...

O primeiro deles, que vimos há pouco a observar o entardecer, era o último dos quatro a cruzar os portais da cidade. Vinha numa passada ligeira com suas botas de couro já gastas, acusando-o ser um nômade já experiente.

Carregava apenas uma sacola de pano e uma capa acinzentada – a sacola vinha com algumas frutas e pães, assim como um cantil d’água, e a capa era para as chuvas. Completava-o uma bela túnica branca (no entanto, também já gasta e maltratada) e um fino cinto adornado por uma fivela de prata, de onde pendia um saco de couro com suas poucas moedas e pertences.

Pois bem, era precisamente esta figura que se aproximava do pequeno bosque, no entorno da cidade, onde eles iriam discutir o mundo.

Os outros lá já estavam: um era ancião de aparência inofensiva e olhar penetrante; outro, um ser bizarro de pele avermelhada, tinha um pequeno e solitário chifre brotando da fronte esquerda, e uma pata de bode que se encontrava no lugar de sua antiga perna direita; finalmente, tínhamos um belíssimo homem de pele glacial, tão alto que sua face parecia atrair os últimos raios e sol do fim do horizonte. Foi este último quem falou, com uma voz poderosa:

“Ora, ora, porque demoraste, filho do destino? Será que foi por conta do belo entardecer que vimos há pouco?” – indagou o ser angelical.

O último convidado riu-se enquanto sentava próximo aos amigos na relva – “Verdade, nobre arcanjo, não fosse por esta nossa conversa há muito planejada eu teria perdido este espetáculo”.

“Espetáculo? Ah! Espetáculo, dizes... Mas o que um ateu entende dos milagres da natureza? Acaso já ocorreu a você algum dia verificar de onde vem o sol do Oriente e por onde passeia após cruzar o Ocidente?” – prosseguiu o anjo.

O homem ateu não respondeu, apenas cumprimentou o sábio ancião e o demônio redimido (nossos últimos personagens a serem apresentados); Entretanto, uma leve tensão sacudia o ar, pois que na discussão que se seguiria, um enigma já havia sido lançado...

E o velho sábio, com sua fala mansa e serena, deu o primeiro empurrão na roda – “Pois bem, nobre arcanjo, tu dizes coisas bonitas acerca do mundo e dos seres. O sol é a luz do mundo, sem ele nada seríamos senão pequenas larvas a rastejar na fria escuridão... Acaso podes iniciar nossa pequena conversa? Acaso tu sabes de onde vem o sol?”.

» A seguir, "Antes da luz"

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Crédito da imagem: Jesper Lund

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4.1.13

Nuvens

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...

No ciclo de final de ano, todos procuram retornar as suas casas para as comemorações. Como minha casa fica perto das montanhas do litoral, e moro no planalto, voo muito de avião por estas épocas...

Há algo de espiritual em se voar (de avião ou não). Talvez ajude o fato de termos de esperar horas nos embarques e escalas, sentados em cadeiras semiconfortáveis e, principalmente, com bastante tempo de sobra para se ler algum livro. Quando se lê, se imagina. Há algo de espiritual em se imaginar (lendo um livro ou não).

Por exemplo, não sou adepto daqueles fetiches que os homens midiaticóides têm das aeromoças. Para mim elas estão apenas fazendo o seu trabalho, e me interessa mais sua gentileza que sua beleza... Imagino, isto sim, quando alguma garota bonita senta ao meu lado. Ambos viajando sozinhos – mas será que nalgum universo paralelo poderíamos ser amantes viajando juntos? Dizem que os físicos quânticos dizem que essas coisas podem acontecer. E eu acho que até podem, mas que isto nada tem a ver com a indeterminação da Natureza.

A priori, segundo Jesus Cristo, todos nós somos amantes que viajam juntos. A dificuldade está em imaginar a verdade dita, isto é: em vivenciá-la.

Outra coisa que me assalta a mente durante o voo são as turbulências. Antes tinha medo delas, acreditava que poderiam derrubar um avião... Talvez até possam, mas hoje prefiro acreditar que a grande parte delas é apenas um aceno dos silfos que vivem na alta atmosfera. Silfos, como devem saber, são os espíritos do ar... Seria realmente falta de educação atravessar sua casa com tamanha quantidade de metal e combustível e não dar sequer um aceno de volta. Eu também faço isto com a imaginação.

Algumas vezes os silfos também estão celebrando alguma coisa (talvez o final do ano deles?), e convidam as ondinas, sereias e até, nalgumas ocasiões, algumas das nereidas. Conforme construímos nossos aeroportos sem antes consultar seus locais de festividades, algumas vezes há o inconveniente de termos de pousar aviões em meio a tempestades (que é o que ocorre quanto silfos chamam os espíritos da água para o céu)...

Nesses momentos geralmente tememos por nossa vida. Dizem que o pouso em meio à chuva forte é muito perigoso, mas segundo as estatísticas é consideravelmente menos perigoso do que dirigir um automóvel nas mesmas circunstâncias (os gnomos mandaram dizer que sentem saudades de nossas antigas carruagens decoradas). Ainda assim por vezes cremos piamente que iremos morrer, como se a morte fosse algo muito diferente do que deitar a cabeça no travesseiro de nossa cama, à noite, e dormir.

Eu também chegava a temer por minha vida, mas isto foi somente até uma vez em que o avião em que estava arremeteu em meio aos prédios de São Paulo, isto é: abortou o pouso. Como isto nunca havia ocorrido comigo até então, deveria estar morrendo de medo. Mas não estava – simplesmente porque estava apertado para ir ao banheiro. Tudo o que pensava era quando o banheiro seria liberado, independente se o avião faria ou não algum pouso forçado. Por breves momentos, a vontade do número um foi mais forte do que o medo da morte...

Ah, metáforas, metáforas, o que seria de um escritor sem elas! Por exemplo, quando voamos a noite, por vezes é difícil distinguir onde termina a terra dos gnomos, e onde começa o reino dos silfos. Isto é: as luzes das cidadezinhas do planalto se confundem com as estrelas no céu, e por detrás é tudo muito escuro... Mas há uma certa beleza, uma certa metáfora, em imaginarmos que as estrelas do céu podem muito bem ser pequenas cidadezinhas do planalto cósmico, e que as luzes das casas podem marcar as estrelas que vivem em seu interior. Já disseram que todo homem e toda mulher é uma estrela. Os cães e gatos talvez sejam estrelas em formação (os gnomos mandaram dizer que preferem coelhos, mais silenciosos!).

Mesmo Bernardo Soares haveria de se tornar um pouco mais otimista se pudesse viajar da Rua dos Douradores para a Lapa, pelo espaço e pelo tempo, nalgum avião moderno. Não se sabe se acharia mais belas as praias ou as montanhas do Rio de Janeiro – gostaria de viajar ao seu lado só para saber.

Dizem que o avião foi inventado para que o homem pudesse se locomover rapidamente pelos continentes. Outros diriam que foi inventado para que bombas pudessem ser derrubadas em cidades (pequenas ou grandes). Eu já acredito que o avião foi inventado para que pudéssemos conhecer as nuvens.

Claro que todo bom montanhista já conheceu as nuvens, isto é: as observou de cima para baixo. E também é bem conhecido dos anais da história que todo homem, mulher ou criança, montanhista ou não, já percebeu as mais variadas formas sendo brevemente esculpidas pelos silfos em meio às nuvens. Mas o que quero dizer é que somente os primeiros homens voadores puderam atravessar as nuvens do alto, como águias e condores já o fazem há milênios.

Há algo de profundamente espiritual em se atravessar nuvens no reino dos silfos, principalmente quanto o sol está nascendo de manhã, e as salamandras vem surfando seus raios por entre as grandes montanhas brancas a flutuar em lugar algum. Digo, lugar algum, pois quando estamos passando por tal experiência não estamos mesmo um nenhum lugar – exceto, quem sabe, nalgum reino da imaginação.

O homem inventou o avião, mas seria incapaz de inventar as nuvens. Estranho de se pensar: talvez seja isto o que Deus seja afinal... Não as nuvens, nem sequer a escultura que os silfos fizeram delas, mas a experiência de se contemplar uma nuvem em pleno céu, quando já estamos no céu.

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Crédito da foto: Richard Carlson

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3.12.12

Christ crucified

(translated by the author from the original portuguese tale, “Cristo crucificado”)

You, who walked through this world of men when men where little more than beastly beasts; you, who came from afar, from where even the light takes time to travel; you, who have been in the enlightened realm, the home of lasting peace, and even then decided to return… For us!

You, who have been watching the foundation of the first tribe, and also of the first civilization. You, who have been a friend of men for so many ages. You, who have been taking care of our fire, so that it doesn’t be extinguished by the cold winds of the obscure nights. You: our friend, and a friend of the sun. You are that which is most precious in our existence and, even then, you are just one of us…

Not God, but just one more from the race of gods. Not God, but just one more from the race of men. Not God, but just a being who came from somewhere in infinity, and now fly besides the angels of heaven.

We hunted you when we saw you in the sky. We harpooned you down, to the same level of thought, to our fetid marsh of rampant desires. We cut your wings and made you scream in agony, and what did you showed us? The other face!

Nevertheless, you were born man again, you grown again as a man, you lived the life of a man. You ran among the world’s sheep as a young shepherd that some lunatic saw among the hills by the afternoon’s ending. You kneeled in front of the great sages of the Orient and told them: “teach me”, but they answered: “no, you teach us, messenger!”

Not a prophet, but just someone who saw this sphere spin for so many ages. Not a messiah, but just someone who now goes anywhere he wants along the Cosmos. Not a magician, but just someone who makes us recall love. Not a witchdoctor, but just someone who makes us find the health of our own souls once again. In the end: not a King, but an Emperor of the spirit.

Nevertheless, we spitted into your message of light. We lashed you and told you to be gone from here. And to make sure that you were wrong in your vain hope for an age of love, we let your own people, your beloved people, choose between you, oh bleeding lamb, and Barabbas, that dirty murderer, inciter of rebellions and killings. And they didn’t choose you, they let you bleed until the end…

We, the emperors of earth, the conquerors of realms, the Coliseum’s mob, we crucified you and banished you from our lives. At your left we left a thief, at your right another one, and we only let in some women to give you farewell because we all knew how much you cried in that cross. You still had the boldness to ask the Cosmos for forgiveness, saying that we didn’t knew what we were doing. But we all knew; we knew exactly what was being done on that day!

But that was only the beginning of our revenge. Later, we raised a glorious Church of the Chosen upon the dismembered bodies of each of your beloved disciples. They preached your message saying that the Realm of God covered every place, among broken branches and bellow small rocks along the roads… And we told them that no: “All roads lead to Rome, and only the Church of Rome could save them from eternal damnation!”

You came to tell us that the existence is a party made by the Cosmos, and that everything that we needed to quest for was love. But we said to you that every being is born a sinner, that some obscure ancestor had bitten some rotten apple at some fabulous grove, and that because of it we crucified you: so that you could pay for the shadowy sin of all of us, of all mankind!

And there was a day when our Church controlled the thoughts of one half of all men. We, that crucified you and clapped when you were bleeding, drop by drop, we made your moment of supreme agony, your Calvary, our greatest image of glory. At the entrance of each one of our Golden Temples, raised among the poverty and miserability of men, we showed the Christ Crucified in all of its greatness…

Nevertheless, you still lie crucified to this day, and to this day they still forget you and cry out among the mob: “Save Barabbas!”

So I ask you, my friend: when you will finally come out of that cross? When there will finally be established a realm of life, and no more of death, into this land? When you will finally resurrect from the dead, as to bring back all of those disciples of long ago, and all of your friends who have been loving you in the night prayers, and saving your teachings in hidden brush strokes and vessels buried at the deserts?

When you will take away the three hideous spikes from this colossal cross, and will come comfort us again? Or maybe it’s us who will need to climb into your cross, to free you, and bring you definitely to our heart?

There is still light down here, there is still light everywhere… You conquered the night of every soul… Only you, oh invincible one!

for Moore.

received by raph at 2011.

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Image credits: J. H. Williams III (Promethea, comics by Alan Moore)

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30.11.12

Abrindo portas na mente, parte final

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

« continuando da parte 2

Uma semana depois, retornava ao consultório de Kátia. Naquela altura, já tinha elaborado boa parte do que havia relembrado uma semana antes, e me considerava praticamente “curado”. Não sabia exatamente o porque, mas uma intuição me dizia que “já estava bom”, que não seria mais necessário, nem recomendável, insistir em abrir mais portas da mente, em adentrar ainda outras vidas antigas... Mas Kátia não concordou, achava que era necessário prosseguir com o tratamento [1]:

Ao abrir a mesma porta imaginária, estranhamente vi um castelo, cercado por uma cidade medieval, mas em vista aérea... O que depois vim a perceber que se tratava de minha chegada a Terra, o renascimento!
Logo após vi água, mar, e um imenso casco de navio cortando a imensidão azul e provocando pequenas ondas que surgiam para logo depois desaparecerem. Estava observando o barco no qual eu era encarregado por cortar o Mediterrâneo. Tinha por volta de 30 anos, bigodinhos pontudos e ridículos (que vira no espelho), uma roupa aparentemente típica da época do renascimento europeu. E tinha um longo chapéu também, apenas evitava usa-lo quando na proa para não voar para longe...
Era empregado de uma companhia de comércio marítimo, e após algum tempo como marujo me tornei encarregado de um barco inteiro. Eu adorava velejar, ver aquelas velas imensas e decoradas com símbolos serem acariciadas pelo vento... E o mar, sobretudo amava o mar!

A impressão que tive é que passei toda uma vida a observar o mar, a navegar dentre pequenas cidades do Mediterrâneo, vivendo do comércio de alimentos e especiarias variadas. Parecia um conto de fadas a primeira vista, mas como sempre, as aparências enganam...

Infelizmente não era uma vida só de alegria. Eu havia me casado moço, e pouco antes de ganhar aquela função importante, já havia gerado seis filhos, e outros dois nasceriam depois... Mas eu usava todo meu tempo no trabalho, nas viagens, no comércio... Nunca tive muita disposição para amparar minha esposa e assistir meus filhos crescerem de perto, aquilo não me atraía, apenas o mar era meu refúgio naquele tempo.
Então minha esposa morreu doente. Eu a havia amado bastante, principalmente no início de nossa relação. Dessa vez ao menos eu soube dar valor a esse tipo de amor... Mas não fui exatamente um bom pai. Após sua morte, deixei as crianças numa espécie de orfanato, e as mantinha muito bem com o dinheiro que ganhava no comércio, apenas não lhes dava amor e atenção, exatamente o que uma criança mais precisa...
E o tempo passou, e chegava a hora de me aposentar, mas isso aconteceu antes do que eu esperava, fui simplesmente demitido de um dia para o outro. Não me faltava dinheiro, mas sentia muitas saudades do mar... E meus filhos não eram mais do que amigos distantes, já crescidos e com suas próprias vidas, e eu os entendia muito bem, claro, não tinha o que exigir deles.

Na hora da morte, constatei mais uma vez o valor do amor:

Graças a Deus, minha única filha, e ao que parece a que mais me amara, me aceitou em sua casa, e passei o final da vida aos seus cuidados. Eu aprendi a gostar dela, é claro, e a partir daí passei a lamentar meu egoísmo em relação as minhas crianças... Mas ainda havia tempo para me reabilitar: nesses anos passei a me aproximar dos meus filhos com cautela, e eles de certa forma me aceitaram. Poderia ter sido bem melhor, é claro, mas pelo menos ainda houve tempo para uma reavaliação das minhas escolhas.
E quando morri de complicações intestinais, lá estavam minha filha e mais dois filhos que puderam comparecer a sua casa no dia final. Eu morri sem tanta dor assim, pois na passagem já estava sendo auxiliado por um grupo de espíritos amigos. Minha filha, principalmente, chorou muito minha morte, ela realmente sempre me amou, e eu só lamentava por essa falha por tantos anos de minha vida, e o desperdício da oportunidade de ter criado meus filhos mais próximos de mim.

Embora não soubesse exatamente quem eram, sentia em minha alma que aqueles que vieram me buscar eram conhecidos, e não desconhecidos como os que me visitaram na vida ateniense. Isso parecia fazer toda a diferença do mundo: um ser que lamentava minha morte na Terra, que se lembraria de mim, e que deu sentido a uma vida inteira; e amigos do outro lado, amigos de outras épocas, outras vidas... O que mais eu poderia desejar? Estava começando a achar que valeria a pena continuar visitando minhas vidas passadas.

Mas isto durou pouco. Pouco antes das memórias se encerrarem, tive um pequeno vislumbre do motivo de ter vivido toda aquela vida velejando pelo Mediterrâneo... Lembrei-me, num breve relance, da vida imediatamente anterior, de ter sido um dos guerreiros cruzados, que acreditava piamente que estava seguindo aos desígnios de Cristo e da Igreja Católica ao invadir, pilhar e assassinar nas terras árabes, na dita “terra santa”. Este relance foi o suficiente para que eu desistisse de prosseguir adiante na investigação de minhas memórias.

Uma vida inteira de contemplação no mar, porque? Para que? Ora, porque, ao contrário do que os filmes de Hollywood podem fazer crer, espadas não cortavam homens como se corta manteiga, e não se mata com a mesma facilidade que um herói do cinema. Lutar nas guerras medievais mais parecia um açougue do inferno, com sangue por todo lado, gemidos de dor aterrorizantes, e cenas surreais – como procurar por amigos feridos ou mortos em meio a pilhas de corpos apodrecendo dentro de metal. Hoje, apesar de tudo, ainda se mata a distância; mas matar ao lado, isto sim, era o terror [2].

E, este sim, foi motivo suficiente para que eu interrompesse o tratamento com a Kátia, o que não me arrependo nem um pouco; embora também não me arrependa de ter iniciado o tratamento, pois acredito que tenha me auxiliado, nesta vida, de muitas formas:

Provavelmente não farei mais regressões, mas eu sabia que seria assim. Havia curiosidade, havia medo, hoje só há mesmo uma profunda fé, uma fé renovada, de que não existe nada melhor do que existir, de que não estou sozinho, e nada pode ferir aquele que ama, pois o amor é uma energia poderosíssima, escudo contra todo o mal, e combustível para qualquer realização verdadeira nessa esteira temporal, onde vidas não passam de momentos, e onde a luz irradiada dos confins do Cosmos nos aponta o caminho, sempre...

***

[1] Se por um lado, é óbvio que seria do interesse dela prosseguir com o tratamento – afinal, nenhuma terapeuta sobrevive de uma seção única por paciente –, por outro ela tinha razão no sentido de que meu tratamento psicológico ainda deveria prosseguir. O caso é que não necessariamente deveria prosseguir com mais regressões, pois elas nem sempre são somente benéficas, como veremos na sequencia do texto.

[2] É preciso explicar que tais lembranças hoje são totalmente indiretas, isto é: já as imagino como se fossem a história de uma outra pessoa, e não de mim mesmo. Isto é bem diferente do que senti no rápido vislumbre emocional, já no fim da regressão – é deste tipo de trauma que procurei me afastar. É este também boa parte do motivo do meu grande temor em me aproximar do meu Eu Superior, pois é exatamente Ele quem comporta todas as lembranças – as boas, e as ruins. Felizmente ainda O encontrei em outras oportunidades, quando estava mais preparado para encará-Lo... Mas isso é uma outra história.

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Crédito da imagem: Paul Edmondson/Corbis

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29.11.12

Atalanta fugidia

Dizem que foi uma caçadora virgem que transpassava seus pretendentes com sua lança, mas os mitos não contaram esta outra história acerca de Atalanta:

Na primeira vez que a viu, Hipomene duvidou dos próprios olhos. Não era o fato de uma mulher, totalmente nua, haver vencido grandes guerreiros numa corrida, que o deixara espantado. Espantado estava Hipomene com a beleza de Atalanta, que parecia resumir toda a beleza da Natureza, e de todas as mulheres do mundo, em um único corpo, esguio como a água dos riachos, misterioso como a lua cheia em meio à noite obscura.

Todos aqueles que perderam a corrida nunca mais foram os mesmos: tornaram-se melancólicos e tristonhos, e desistiram das guerras e da vida. Antes seus olhos brilhavam com a glória prometida em seus sonhos e devaneios, agora eram escravos dos vinhos, das tavernas e das cortesãs. Como não conseguiram alcançar Atalanta, passaram a buscá-la em todas as mulheres do mundo, como se, ao possuírem uma por uma, estivessem de certa forma a possuir a própria caçadora, filha dos ursos... Ante tal horrendo exemplo de vidas perdidas, Hipomene abdicou do duelo com Atalanta.

Passou a estudar sobre ela em mitos ainda mais antigos que o seu. De tanto buscar pela inspiração, acabou tendo alguma sorte mais tarde em sua vida, quando os primeiros cabelos brancos já eram vistos a escorrer pela fronte... Numa noite, enquanto seguia as passadas de Atalanta, munido de sua lanterna, de um cajado e dos óculos de Benedito (um amigo), chegou a uma estranha floresta que nunca havia visto, embora nem estivesse assim tão distante do reino de seu pai.

De suas árvores frondosas, de carvalho ancestral, pendiam frutos que lembravam maçãs, mas eram dourados, e pareciam brilhar no escuro, de modo que por vezes Hipomene os confundia com as próprias estrelas. Ao chão, viu diversos frutos que pareciam já maduros, e tinham uma cor acinzentada – estes não brilhavam mais...

Ao agachar para pegar um deles, espantou-se com seu peso – mais pareciam esculturas de maçãs, só que de ferro, ou algum material ainda mais pesado! Foi neste momento que Afrodite apareceu, como se o estivesse seguindo desde o início de sua aventura.

Que deseja nesta floresta, filho de Megareu?” – perguntou a deusa do amor.

“Quem dera eu soubesse ao certo, ò deusa... Apenas busco por esta inspiração, por sentir uma vez mais aquilo que senti quanto era jovem, ao ver a bela Atalanta correr nua pelos campos, deixando aos homens para trás”.

“Você deseja alcançar a musa fugidia? Você deseja ser um artista, filho de Megareu?”.

“Sim!” – respondeu, emocionado, Hipomene. Então Afrodite trepou numa das árvores (que só permitiam que deusas de seu porte as escalassem) e lhe trouxe três frutos dourados, além de um conselho:

“Vai, seja célere filho de Megareu, que fora das árvores tais frutos não tardam a se tornarem Chumbo. Vai e os coloca no caminho de sua musa, a fim de seduzi-la para ti. Vai agora mesmo!”.

E Hipomene, seguindo a intuição que Afrodite havia camuflado em meio as suas palavras, calculou tudo ainda naquela noite. Seguindo um teorema ainda mais antigo do que aquele atribuído a Pitágoras, colocou dois dos frutos nas extremidades de uma longa hipotenusa e, sabendo que os deuses adoram geometria, colocou-se no ângulo reto formado por seu triângulo, com o terceiro fruto nas mãos, aguardando a chegada de Atalanta...

Mas infelizmente sua musa não era muito boa de cálculos, e acabou por levar horas e horas para lhe encontrar, de modo que, quando chegou, o sol já se precipitava a nascer, e o fruto nas mãos de Hipomene estava amadurecendo, de forma que ele mal conseguia segurá-lo nas mãos.

“São precisos três frutos dourados para realizar minha transformação. Como se atreve a me ludibriar e me fazer chegar aqui, se tudo que me oferta é Chumbo?” – avisou a deusa nua, com uma imensa lança em riste, no alto da cabeça, carregada em sua mão esquerda, e apontada para o coração do pobre Hipomene.

“Me desculpe! Eu desisto, eu desisto; mas me poupe a vida!”.

“Sua vida já está selada, ó aspirante a Arte. O que nos resta saber é se irá renascer ou não”.

Aquelas palavras calaram fundo na alma de Hipomene. Então, subitamente, ele finalmente compreendeu... Largou o fruto de Chumbo ao chão e, como um cordeiro sorridente, caminhou à frente.

Quando Atalanta o transpassou pelo coração com sua lança, ainda pôde ver os primeiros raios de sol a refletirem em sua lâmina... Antes de desfalecer, ainda achou estranho como seu coração, arrancado do corpo, mais parecia um outro pequeno sol na extremidade daquela lança. Ele parecia cintilar, brilhar, parecia um coração de Ouro...

***

Ao despertar, já era dia, e Atalanta não se via. Via-se apenas uma imensa mariposa, que voou de um arbusto próximo até sua mão. Assim Hipomene soube: havia alcançado sua inspiração, havia se tornado um com ela, havia finalmente transformado tudo que era Chumbo em Ouro...

Deixou o cajado, os óculos e a lanterna para o próximo aspirante desta aventura, pois a sua havia terminado, e já não necessitava de nada além do que já trazia em sua alma.


raph’12

***

Naqueles dias do belo acordar das forças espirituais, os sentidos e o espírito não tinham, com rigor, domínios separados, já que em deus algum faltava a humanidade inteira (Schiller, acerca da mitologia grega)

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Parte da série Esta outra história

Crédito da imagem: escultura de Vilhelm Bissen (Atalanta)

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27.11.12

Abrindo portas na mente, parte 2

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

« continuando da parte 1

Eu era criança e tinha a visão de uma criança. A mesa a minha frente era enorme, exatamente como seria para uma criança. Eu mesmo, nesta vida, me lembro bem de como a pia do banheiro da minha casa era tão alta que, quando eu tinha de escovar os dentes, precisava subir num banquinho. Foi uma associação direta, visual, com esse tipo de lembrança...

Em torno da grande mesa, via as pernas das pessoas andando para cá e para lá. Parece que havia um bolo, ou coisa parecida, sendo feito pelas serviçais da minha casa. Minha família era nobre, e era um dia tradicional, haveria uma festa à tarde em minha casa. Podia ver que tinha muitos irmãos.

Pois bem, há muitos que desejariam ter sido grandes reis ou nobres em suas vidas passadas, como se isto fosse indicativo de alguma espécie de “superioridade”... Ledo engano, são exatamente estes que, muitas vezes, se enveredaram pelas vidas mais corruptas e distantes do amor, não muito diferente de como ocorre ainda hoje com todas as famílias que possuem muitos bens materiais – muitas coisas com que se preocupar, e se esquecer do amor. Quando o amor, ou melhor, a potencialidade de amar, esta sim, é tudo o que viemos aqui desenvolver, passo a passo, vida após vida.

E esta criança, que havia nascido nalguma região da atual França, nalgum tempo entre 120 a.C. e 105 a.C., pelos meus cálculos [1], podia perceber claramente esta falta de afeto numa grande família nobre. Preferiu migrar em direção à península grega, mesmo contra a recomendação dos pais (isto provavelmente nunca muda), e se estabelecer, como escriba, na grande Atenas, o centro da cultura mundial – ou, pelo menos, o mundo conforme a visão de um jovem europeu da época:

Cheguei lá após as vidas de Sócrates e Platão, daí eu ter ido também por causa da fama da cidade. Primeiramente fui a um templo bem tradicional onde uma mulher, o oráculo, me disse que só eu posso seguir meu próprio caminho, não adiantava tentar achar a um sábio, um guia, ou mestre, pois ninguém poderia trilhar meu próprio caminho além de mim. Depois me vi conseguindo trabalho como escriba, e talvez com a ajuda de uma carta de meu pai, que por certo era um homem influente.

Se depois, ao relembrar tais memórias com a razão da vida atual, fiquei feliz em saber que já era um “sujeito letrado” desde esta época, na prática isto não me ajudou muito, pois me faltava ainda a sabedoria que as letras não ensinam... Quando Atenas foi “finalmente anexada” pelos romanos, não houve guerra nem destruição na cidade em si; mas nas imediações, nas pequenas zonas rurais em seu entorno, houve morte e carnificina, estupros e todo tipo de horror que acompanha a sina dos inocentes que tiveram o azar de estar no caminho das hordas de soldados.

Pois é, ocorre que o tal sujeito letrado tinha um grande amor nos arredores de Atenas – que poderia ter sido salva, quem sabe, se tivesse sido “assumida” e trazida para residir em sua casa, na segurança da cidade:

Depois me vi já mais velho, provavelmente acima dos 30 ou 40, e percebi que havia me apaixonado por uma camponesa... Até o dia em que vi Atenas sendo invadida por soldados, e eram romanos, com certeza. Eles passaram a controlar a cidade, era o período da tutela romana... Mas eu nem me importava, pois ao que parecia eles atacaram antes os campos, e eu sabia que aquela camponesa havia sido morta. Então eu pensei que se eu tivesse assumido meu amor por ela talvez ela estivesse ainda viva, e isso doeu demais. Daí eu comecei a frequentar festas e me relacionar com diversas mulheres. Passei a me autocastigar, e não tomar mais conta da minha própria saúde como deveria. Comecei a beber bastante...

De que me valia haver “nascido nobre” agora? Provavelmente, foi à prepotência adquirida através desta “nobreza” que me impediu de assumir um amor “não tão nobre”. Os preconceitos que temos hoje, o desejo de ser “superior”, é algo tão antigo, tão antigo... E mais antiga ainda é a cerveja, e o vinho, e os inúmeros entorpecentes que nos têm servido como “rotas de fuga da realidade”. Quantas vidas teremos desperdiçado assim?

Me vi morrendo com 50 para 60 anos [2], num quarto com minhas serviçais e meus amigos. Então eu lamentei profundamente por não ter amado nessa vida tanto quando poderia ter amado. Aprendi muitas coisas, mas não pude aprender a ser sábio sobre mim mesmo, e não pude amar como gostaria. Vi duas luzes chegando, os seres que me levariam de volta. Não os conhecia, e isso me deixava muito apreensivo. Mas fiquei mais tranquilo ao saber que iria para um lugar onde poderia tentar aprender tudo aquilo que ficou faltando dessa vida... Então, eu subi...

Somente muitos anos depois, ao ver documentários e estudar sobre as experiências de quase morte (EQMs [3]), é que pude reparar que os relatos de “pontos de vista flutuando no teto, vendo o corpo abaixo, numa cama” eram surpreendentemente parecidos com tais “visões de morte” que tive na regressão. De fato, não existe vida após a morte, mas vida após a vida, por tudo o que estudei e “vivenciei”, provavelmente exista.

Antes de prosseguirmos, gostaria de tecer duas considerações finais acerca desta experiência de morte: (a) Me parece ser muito, muito importante, ter familiares, amigos e conhecidos, no momento da morte. Isto é uma pena, pois em nossa era morremos sozinhos, em hospitais, entubados e ligados a máquinas. Naquela época, e durante muitos séculos, a morte não era assim tão assustadora [4], e as famílias compareciam aos momentos finais do moribundo, que muitas vezes morria em casa, na mesma cama em que dormia todas as noites; e (b) Se tem uma coisa que parece ser intransponível, é o acesso as memórias que ocorreram entre vidas, no chamado plano espiritual. Mesmo nas centenas de casos de crianças que lembram vidas passadas, estudados minuciosamente por Ian Stevensson [5], que eu saiba não se viu um único relato do período entre vidas. Um mistério, um mistério!

» Na continuação, guerras e navegações...

***

[1] Baseados na época em que, segundo a História, Atenas foi invadida pelos romanos (após uma revolta contra o domínio do Império, cerca de 88 a.C.). Eu não me lembro de ter estado atento a estes eventos em específico antes de ter realizado a regressão, mas é possível que tenha estudado isto, por alto, muitos anos antes, nas aulas de história do colégio. Em todo caso, já conhecia Atenas (e Sócrates, Platão, etc.) nesta época, de modo que certamente fiquei em dúvida se tais memórias não poderiam ser produção de uma “imaginação que tentava reconstruir uma Atenas antiga”. Por fim, considerando outras vidas relembradas (estas sim, que nada tinham a ver com qualquer assunto que estivesse lendo ou estudando na época), acabei considerando que mesmo esta vida, em que estive em Atenas (conforme será explicado na sequencia do texto), foi uma “vida real”.

[2] É preciso considerar que a minha tentativa de “conferir uma idade” as fases desta vida foi baseada na razão desta vida atual, moderna, onde uma pessoa que aparenta ter de 50 para 60 anos muitas vezes pode ser até mais velha. Naquela época antiga, pelo contrário, talvez alguém com 40 anos já aparentasse ter mais de 50 (por nossa visão atual).

[3] Sobre o assunto, recomendo a série Quase morte.

[4] Ver o artigo O sexo e a morte.

[5] Ver a série Caso Parmod.

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Crédito da foto: SOPA RF/SOPA/Corbis

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21.11.12

Abrindo portas na mente, parte 1

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Até hoje me lembro de quando finalmente me dei conta do que havia se passado realmente. Estava então no meio da viagem entre Copacabana e a Gávea, onde morava, no Rio de Janeiro, e meditando sobre aquilo tudo. Até aquele momento, tudo o que se passou na minha primeira regressão a vidas passadas, nesta vida, havia sido assimilado como algo corriqueiro – não havia nada para se temer, nem duvidar, ou causar qualquer espanto... Foi ali, naquele ônibus, que minha razão finalmente alcançou e abarcou toda aquela experiência, tentando racionalizar o que talvez estivesse para sempre além da racionalização, e da linguagem.

Regredir, viajar pelos portais do tempo e do espaço, certamente foi minha maior experiência espiritual, e a mais estranha das festas estranhas. Até então, havia relutado em aborda-la aqui, mas acredito que esta série não estaria completa sem este relato [1].

Não é mesmo recomendado regredir sem ter uma excelente razão, e eu talvez tivesse as minhas... Havia finalmente concordado em fazer terapia, pela insistência de meu pai, que sempre me conheceu muito bem. Estava há cerca de um mês gripado, e não me lembro de ter ficado doente por tanto tempo em outra fase desta vida [2]. Alguma coisa, de fato, estava errada comigo, mas nem eu mesmo sabia o que. Aceitei, dessa forma, iniciar uma terapia com a Kátia, uma terapeuta holística e espiritualista, que se não me engano me foi indicada por alguém da minha família. Eu só não imaginava que já iria passar por uma experiência de regressão de memória a vidas passadas já na primeira sessão [3]...

Antes de prosseguir, gostaria de passar brevemente sobre o problema psicológico que eu acreditava estar tratando, e o problema que eu tinha realmente. Não irei entrar em maiores detalhes, pois este relato não é sobre mim, e sim sobre a experiência em si:

Muito bem, em suma, eu tinha um problema que hoje costumo chamar de “complexo de santo”. Acreditava que devia me sacrificar para ser um “menino santinho”, sem namorar, sem muita vida boêmia (em pleno Rio de Janeiro!), e me dedicando com afinco a espiritualidade (foi pouco antes desta época que comecei a escrever sobe o tema [4]). No final das contas, e após as regressões, descobri duas coisas que guardei fundo na memória e na alma, até hoje: (a) Que na verdade meu “problema” com namoros advinha de traumas antigos, de outras vidas, com certas falhas minhas na formação de famílias e cuidado com meus filhos; e (b) Que em realidade toda aquela história de “ser santinho” era somente o meu ego tentando construir para si mesmo um “patamar de santidade” – em outras palavras, estava querendo “ser santinho” por mim, e não pelos outros. Essas lições foram (espero) assimiladas, mas são problemas que, decerto, ainda permearão esta e muitas outras vidas.

Agora podemos voltar à terapia em si. O consultório da Dra. Kátia parecia bastante comum, com um sofá para ela, um sofá maior, ou divã, para o paciente se deitar confortavelmente, um tapete felpudo, e baixa luminosidade. Devo dizer que a experiência em si foi tão impactante, que hoje mal me lembro das feições da Kátia, e por isso nem vou descrevê-las aqui [5].

O procedimento padrão do início da regressão era uma espécie de meditação “guiada” pela terapeuta, que me dava indicações sobre o que procurar imaginar, tentando “destravar” minha mente e alça-la em estados alterados de consciência. Uma das coisas extraordinárias da experiência é que eu permaneci consciente o tempo todo, embora certamente não num estado normal, desses do dia a dia. Somente muitos anos depois dessa experiência que fui chegar a estados similares, quando comecei a desenvolver minha mediunidade. Infelizmente, não tenho mais contato com a Kátia, e não faço ideia de qual “ramo” ou “técnica” terapêutica ela utilizou.

Mas fato é que funcionou muito bem... Após me imaginar voando pelos céus num grande balão, e deixando o solo cada vez mais distante de mim, entrei nalgum estado estranho, onde meu corpo inteiro parecia “ondular”, quase como se fosse feito de luz, e não mais de átomos com massa. Foi então que as lembranças iniciaram. Isto aqui faz parte de algumas anotações que fiz na época, dias depois das regressões:

Assim que ela indicou a idealização de um longo corredor de diversas portas, e me mandou abrir uma delas, eu comecei a regredir... Após um certo clarão de luz, me vi num monte, a grama era bem verde e a frente havia uma depressão que revelava uma extenso rio e algumas árvores. Sempre sendo guiado pelas perguntas da terapeuta, vi perto do rio uma pessoa, provavelmente um guia espiritual, que me esperava. Eu sabia que ele tinha a resposta que eu procurava, mas eu não podia andar até lá porque alguma coisa no meu peito me impedia, uma dor física mesmo, um mal estar tremendo que me fixava onde estava. Mesmo assim pude ver que usava sandálias de couro amarradas até a canela e uma túnica de cinza bem claro. Meu cabelo era castanho e dava até os ombros. Devia ter por volta de 30 anos... De resto não consegui ver mais nada.

O que acho interessante complementar aqui, sobre esta experiência inicial: (a) As lembranças eram lembranças mesmo, e não visões, ou algo como vídeo ou trechos de cinema. O que conseguia observar, era através dos meus próprios olhos (na época, sabe-se lá qual), e isto significa que não podia me ver realmente, ou seja: via apenas parte do meu vestuário, as mechas de cabelo que caiam sobre a face, meus pés e mãos, etc; (b) O registro desse tipo de memória é icônico, simbólico [6], e me parece que as lembranças mais profundas e facilmente acessáveis são aquelas revestidas de alta carga emocional – sejam lembranças boas, felizes, ou traumáticas; (c) Aquele que achei ser meu guia espiritual era, em realidade, eu mesmo, ou melhor, o meu Eu Superior, aquela entidade que parece ser capaz de lembrar perfeitamente de todas as minhas vidas e, portanto, de todas as minhas escolhas, boas ou ruins. Até hoje, se me lembro bem, esta “sensação” que me impedia de me aproximar desta entidade foi, em realidade, o maior medo que já senti nesta vida. Mas só fui compreender isso tudo anos depois, quando consegui me aproximar um pouco mais deste Eu divino [7].

Então “pulei” a uma época em que devia ter uns 8 para 10 anos...

» Na continuação, um escriba na antiga Atenas...

***

[1] Em todo caso, devo revelar muito pouco acerca de minhas vidas passadas, já que devem (ou deveriam) interessar somente a mim. Este relato está totalmente focado na experiência de regressão em si.

[2] E nunca mais fiquei mais do que alguns dias gripado, após a regressão.

[3] Decerto não seria algo indicado, mas talvez a Kátia tenha “sentido” que seria algo seguro naquele momento, e no contexto do meu tipo de problema psicológico (falo dele na sequencia do texto).

[4] Ver o conto O mensageiro dos céus, para ter uma ideia de como tudo começou...

[5] Muito do que experienciei nas regressões foi lembrado perfeitamente por muitos anos, mas nalgum momento comecei a esquecer, aos poucos, de fatos e imagens isoladas. Hoje este relato só é possível por que deixei algumas coisas anotadas na época, em 1999 (alguns trechos do texto acima foram retirados diretamente dessas anotações, geralmente estarão em itálico).

[6] Sir Charles Scott Sherrington traz uma definição muito precisa dessa questão, em seu livro Man on his nature, onde ele imagina a mente como um “tear encantado” a tecer padrões mutáveis porém sempre significativos – tecendo padrões de sentido: “Esses padrões de sentido transcenderiam programas ou padrões puramente formais ou computistas e dariam margem à qualidade essencialmente pessoal que é inerente a reminiscência, inerente a toda mnesis, gnosis e práxis. [...] Padrões pessoais, padrões para o indivíduo, teriam de possuir a forma de scripts ou partituras – assim como padrões abstratos, padrões para computador, têm de estar na forma de esquemas ou programas. Portanto, acima do nível de programas cerebrais, precisamos conceber um nível de scripts e partituras cerebrais. [...] A experiência não é possível antes de ser organizada iconicamente; a ação não é possível se não for organizada iconicamente. ‘O registro cerebral’ de tudo – tudo o que é vivo – tem de ser icônico. Essa é a forma final do registro cerebral, muito embora o feitio preliminar possa ser moldado como cômputo ou programa. A forma final de representação cerebral tem de ser, ou admitir, a ‘arte’ – o cenário e a melodia artística da experiência e da ação.”

[7] Alguns ocultistas chamam a isto de S.A.G.

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Crédito da imagem: Paul Anderson/Images.com/Corbis

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12.11.12

O voo da arara

Alguns sonhos parecem como que deslocados no tempo... E algumas vidas, também...

Era uma vida cheia de trabalho nos portos, e cheia de contemplação no mar. Cuidava de um grande barco de uma companhia espanhola, saia de Málaga e perambulava pelo Mediterrâneo, algumas vezes alcançando a Turquia, antes de retornar. Seu barco estava quase sempre estocado de alimentos ou moedas, mas pouquíssimos livros – se conseguisse ler durante os solavancos das ondas sem enjoar, já teria terminado toda a obra de Platão.

Mas o que mais fazia era sentar na proa, nas horas vagas, e contemplar... Todo aquele mar, a separar civilizações tão antigas, lhe transmitia imensa paz. Sentia-se triste por ver tão pouco os filhos e a mulher em Málaga, mas prometera a si mesmo que iria se aposentar alguns anos antes, para que pudesse conviver ao menos com sua filha caçula, a sétima, a primeira mulher.

Ainda assim, os sonhos sempre lhe atormentavam. Eram como uma lembrança antiga, de grandes batalhas entoadas em nome de Deus, mas que mais pareciam um açougue no Inferno. Seria ele mesmo um desses cruzados que foram derramar sangue árabe muito longe de casa? Como poderia ser, se desde que se entendia por gente havia sido um legítimo espanhol? Se nunca havia pego uma espada, mas apenas o leme de um barco? O que seriam afinal tais sonhos, se perguntava enquanto contemplava o sol se pôr por detrás de Creta.

Naquela noite sonhou um sonho bem diferente. Ouviu centenas de piares de pássaros e, ao subir na proa, viu que se tratava de pequenos pássaros azuis rechonchudos, de uma espécie que nunca havia visto antes. Alguns deles seguravam com as patas, em conjunto, um livro estranho. Ao abri-lo, viu que se tratava de uma coleção de pinturas de rostos e bustos, muito familiares por sinal... De alguma forma, neste sonho, soube que se tratava dele mesmo, em outras épocas. Antes da sua própria imagem em Málaga, vinha o guerreiro cruzado; mas se interessou mais pela imagem à direita e, quando olhou para ela, desmaiou.

Despertou numa imensa carruagem de vários cômodos que estava, por alguma estranhíssima magia, a correr por debaixo da terra... Surpreendentemente, achou aquilo tudo normal, e desceu com os outros quando a carruagem parou. Todos tinham vestes estranhas, e embora parecessem arrumados para alguma grande ocasião, nenhum homem usava peruca... Deu de ombros e os seguiu pelo que pareceram escadarias de um imenso templo subterrâneo. Ao chegar no alto, olhou para o portal que dizia: “Ave Paulista”. Seria um imperador romano desconhecido?

Estava num imenso pavimento onde carruagens estranhas, grandes e pequenas, rápidas e barulhentas, se moviam para cá e para lá. E, na via em que estava, todas as pessoas também se moviam, para cá e para lá... Achou aquilo tudo tão cômico que mal reparou nas grandes torres que cercavam a paisagem e, de tão altas, impediam que visse o sol. “Será que estou no céu? Mas as pessoas aqui parecem tão atarefadas, e não vejo nenhum pomar”, pensou consigo mesmo.

Decidiu seguir duas meninas que passavam por perto, pois elas pareciam menos atarefadas. Conseguia ouvir seus pensamentos antes das palavras familiares que pronunciavam, mas que não conseguia entender inteiramente – parecia espanhol ou português, e ao mesmo tempo nem tanto... Mesmo assim, entre um e outro pensamento, percebeu que falavam de sexo e afins. Isto não era estranho, estanho era o fato de ambas falarem em ter relações com homens e com mulheres! “Estranho, se me lembro bem, o padre disse que esse tipo de gente não estaria no céu”...

Seguiu-as até a entrada de uma imensa biblioteca. Nunca havia visto tantos livros juntos, nem com tantas cores diferentes. Procurou por “Filosofia” e achou as obras de Platão que ainda não havia lido. Decididamente estavam escritas em português, mas pegou de uma, Fedro, e começou a tentar ler. Foi então que viu: um imenso pássaro de penas vermelhas e bico encurvado, belíssimo, empoleirado no alto da estante ao seu lado. Era um pássaro falante ou, pelo menos, pensante:

“Crá! Crá! O que está fazendo aqui, meu rapaz? Esta não é a sua época!”

“Isto aqui não é o céu?” – estava começando a pensar que poderia ser, pois o céu certamente teria bibliotecas como aquela.

“Crá! Isto aqui é o seu próprio mundo, mas no futuro!”

“Futuro? Mas, e o que diabos eu estou fazendo aqui?”

“Ora, sendo você mesmo, no futuro... Crá!”

“Mas, eu já estou morto? Então isto não é o céu, mas o purgatório?” – decididamente, se o purgatório tinha uma biblioteca daquelas, o céu seria realmente maravilhoso!

“Crá! Crá! Meu rapaz, é hora de ir, é hora de voar de volta. Você está somente sonhando um sonho inadequado, onde já se viu!”

E o imenso pássaro o agarrou pelos ombros com as patas e, sem machucá-lo nem um pouquinho, voou por entre as prateleiras de livros lustrosos, através da entrada, e para o céu azul... Foi então que olhou para baixo e viu que estava na maior cidade do mundo! Antes de desmaiar novamente, ainda encontrou forças para um último diálogo:

“Espere! Me diga ao menos que tipo de pássaro é você?

“Crá! A’rara! A’rara’pyrang! Mas você vai me conhecer como arara vermelha...”

“Mas, e onde você vive? É perto de Málaga?”

“Não, meu rapaz, é muito distante de Málaga. Um oceano distante! Crá! Crá!”

“E que terra é essa? A Atlântida?”

“Quem sabe, quem sabe? Crá! Crá! Esta é a terra que iremos, eu e você, morar um dia...”

Foi então que percebeu que aquele pássaro era uma amiga... Mas, antes que pudesse perguntar de onde exatamente a conhecia, o voo da arara se fez completo, e ele mergulhou de volta, dentro de si mesmo, de volta para seu velho barco, e contemplação.

Acordou com um sorriso nos lábios, só não se lembrava exatamente porque...


para A’rara Brasil.


raph’12

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Crédito da foto: Edu Fortes

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6.11.12

O recitador

Numa noite quente, enquanto retornava de seu passeio pelo deserto, Yeshua reencontrou o rabino andarilho, que um dia havia lhe convidado para sua sinagoga. Parecia cintilante em meio aquela noite sem tantas estrelas, uma alma entusiasmada sempre parecia mais com um oásis em meio a tanta secura...

Andarilho – Rabi! Rabi! Finalmente encontrei-o novamente. Estive perdido, com saudades de tua luz, então decidi abandonar as sinagogas e rumar para o deserto, atrás de tuas pegadas!

Mensageiro – Mas porque abandonou sua sinagoga?

Andarilho – Os textos antigos me escravizavam, eu quero uma nova religião, uma nova interpretação. Eu quero ser livre como tu e teus pescadores, me ajude a ser também um pescador de almas.

Mensageiro – Mas rabi, existe um lugar para cada um de nós neste grande deserto, e cada um de nós deve fazer sua parte para que ele um dia se torne um pomar.

Andarilho – Não me chame de rabi, tu que és o Rabi da Alma, e agora eu sei disso... Todos aqueles textos antigos, de nada nos servem mais, tu veio renovar à tudo, tu veio trazer uma nova lei; Tu nos oferta a Verdade, e os livros de minha sinagoga são incapazes de transmiti-la.

Mensageiro – E você acha que eu vim negar a lei antiga, apagar o texto e escrever um outro? Rabi, rabi, eis o que ocorre: a Verdade já está nos textos, e espalhada pelos ventos, pelas pedras e os galhos secos, mas nós temos dificuldade em interpretá-la, em criarmos olhos de enxergar, e compreender... Vou demonstrar o que quero dizer: você conhece a história de como Moshê guiou nosso povo para longe do jugo do Faraó?

Andarilho – Sim, claro... Mas peço encarecidamente que me rememore, pois algo me diz que, saindo de tua boca, será uma nova história, um novo êxodo...

Assim, Yeshua começou a recitar:

Mensageiro – Moshê foi encontrado no Nilo, o rio sagrado, pela filha do Faraó. Admirada pela presença de um filho das águas, decidiu educá-lo como um príncipe dentro da metrópole. Mas, apesar de sábio, Moshê cresceu inquieto, turbulento, como a água que deseja sair da represa...
Diz-se que, ao ver um feitor egípcio açoitando um escravo israelita, foi tomado de imensa compaixão para com o escravizado, e por uma cólera avassaladora contra seu opressor. Matou-o com um pensamento.
Assim, apesar de príncipe do Egito, foi obrigado a fugir da metrópole, para escapar da pena de morte do Faraó. Agradeceu a mãe, e iniciou um longo exílio pelo deserto, levando consigo boa parte dos escravos israelitas. Agora, eram todos livres, e ele era o seu santo pastor pelas areias escaldantes e as noites frias.
Diz-se que o Faraó mudou de ideia, e mandou legiões de soldados em seu encalço, para que os trouxessem de volta a sua metrópole. Moshê pensou que sua mãe poderia estar com saudades dele, mas não poderia retomar uma vida onde houvessem escravos  e opressores por toda a parte – e decidiu apertar o passo, embora não soubesse ao certo para onde fugir de tantos soldados.
Numa dessas noites, enquanto caminhava ao redor da aldeia, como eu mesmo costumo fazer, eis que Moshê se depara com um pequeno arbusto em chamas, a iluminar sua noite como a mais bela das estrelas. Seu fogo não findava, pois parecia ser o gerador de si mesmo. Moshê criou olhos de enxergar, e compreendeu a mensagem que Jeová havia lhe transmitido. Alegrou-se: agora, finalmente, sabia para onde lavar seu povo!
Diz-se que, antes que pudesse adentrar aos territórios prometidos por Jeová, foi encontrado e encurralado pelos soldados do Faraó. E lá estava Moshê, com seu povo liberto, e duas opções: arriscar a travessia do Mar Vermelho, ou render-se ao desejo do Faraó.
Moshê decidiu arriscar um milagre. Levantou, com toda convicção e vontade, seu longo cajado; e, quando o pousou ao solo, veio uma ventania, com nuvens esvoaçantes, que dividiu ao próprio mar a sua frente em duas imensas colunas, cada qual com 36 carpas douradas a nadar tranquilamente em direção à outra margem, como que apontando o caminho, e dizendo: “Venha Moshê, traga contigo todo o teu povo liberto, agora basta dar o primeiro passo”...
E ele, inspirando longamente, tomou da coragem final e adentrou, com seu povo, ao mar. Assim, na medida em que caminhavam dentre as colunas, eram abençoados e elevados, de modo que os soldados que vinham atrás, mesmo com suas carruagens e camelos, escorregavam e tropeçavam uns nos outros, até que metade foi levada pelas águas, quando as colunas desceram.
Diz-se que a outra metade retornou e, contando a notícia ao Faraó, fez com que este enlouquecesse ante sua ausência. Mas Moshê havia vencido, e era livre, finalmente livre. Com a ajuda de seu povo, plantou na Terra Prometida um imenso bosque; e diz-se também que, até hoje, todo aquele com a vontade suficiente para atravessar o deserto, e mergulhar ao mar, é recebido por este povo liberto e alegre, na outra margem da Alma do Mundo.
Isto foi o que compreendi da história da fuga de Moshê do Egito...

O outro rabi tinha lágrimas nos olhos, transbordando de luz irradiada:

Andarilho – Deus te ilumine em todos os teus passos, no deserto ou acima do mar, tu és um recitador divino!

Mensageiro – Mas tudo o que fiz foi ler o mesmo texto que você leu, ó rabi. Agora que sabe do mesmo que sei, vai e retorna a sua sinagoga, e trata de os ensinar tudo isso... Pois eu vim trazer a este mundo todo o tipo de luz que tenho visto na casa de meu Pai. Mas algumas luzes são cintilantes demais para que sejam expostas de uma vez ao mundo. Você, que tem olhos para enxergar, e não ficar cego, será aquele que guardará este segredo, até que um dia este deserto esteja suficientemente ungido e umidificado, para que a luz possa ser exposta, a fim de que o povo do futuro também possa, como Moshê, rebelar-se contra seu Faraó, meditar no deserto, atravessar o mar, e atingir sua própria terra de boa aventurança.
Vá em paz, ó rabi!


(escrito com base na interpretação compartilhada por Rafael Chiconeli no III Simpósio de Hermetismo, em São Paulo, Novembro de 2012)


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Este conto é uma continuação direta de "O filho da vida". A série se concluí em "O amante".

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Crédito da foto: RelaXimages/Corbis

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