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13.6.13

A educação de Casanova, parte 2

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 1


2.

Ele, como sempre, agiu como se não estivesse a sua frente um homem desesperado, mas tão somente como se minha presença fosse um evento dentre tantos outros da vida, mais ou menos importantes, e que para ele eram como se fossem uma mesma coisa, uma coisa pequena... Ele estava acostumado ao fogo, e perto dele quase tudo era algo pequeno:

“Você deve estar se perguntando porque eu lhe trouxe aqui, meu amigo. Não é um ambiente interessante?”.

Obviamente isto era parte da aula, então dei de ombros e concordei, embora ele soubesse que eu estava sendo irônico, pois seus olhos percebiam cada nuance das coisas mais pequeninas. Assim ele prosseguiu:

“Veja ali aquele menino. Não deve ter nem seus 18 anos, embora eu não acredite em idade... Vê que ali junto dele há um grupo de homens mais velhos? Com certeza o convidaram para sua iniciação sexual. E ele, entretanto, nasceu noutra época, vindo de outra Mansão, e aqueles homens pensam que o estão dando um presente, quando não estão. Isto é tão frequente por esses dias, Giacomo”.

“Não entendo, o menino pode ser ainda virgem, este não é um belo presente?”.

“Noutras épocas, meu amigo, quando não existiam outras alternativas para meninos terem uma iniciação quente com alguma mulher experiente. Mas hoje isto não é mais necessário... Quantos jovens como ele se iniciam em lugares como este? Muito poucos, muitos poucos, Giacomo. O mundo muda, nada fica parado”.

“Ainda assim, isto não é um presente?”.

“Para os que ofertam, certamente, já que receberam o mesmo presente de seus pais. Mas nem sempre o que passamos na juventude servirá igualmente para nossos filhos. Nossos filhos não são nossos filhos, mas os filhos da ânsia da vida por si mesma. Vem através de nós, mas são como presentes de um Outro... Somente eles podem decidir o que servirá para sua felicidade, pois os pais já habitam este mundo há muito tempo, estão já entediados e enrijecidos. Ou não é disso que reclamava há pouco?”.

“Mas eu não tive filhos, ou pelo menos não fui o pai deles...”.

“Somos convidados pela vida há muitas formas de fecundidade, Giacomo. Tudo o que amamos pode ser fecundado, pode ser parte de nossa prole. Mas isto não importa agora, o que estava querendo dizer é que o menino não busca somente perder a virgindade, ele é um desses novos românticos que nasceram para reacreditar no Amor.”

Não me diga que ele vai se apaixonar pela primeira puta que encontrar pela frente?”.

“Não pela primeira, ele vai escolher dentre todas as do recinto. Provavelmente a mais inocente, pois a inocência atrai a inocência. Só que a inocência não dura muito num cabaré de Beyazit, e o amor não poderá fluir por este rio... Então, não será um presente, mas antes um infortúnio. É claro que, no fim das contas, um infortúnio também pode ser um grande presente”.

“Então vai ser como eu, no início, que me apaixonava pelas prostitutas de Veneza e as convidava para navegar nas gôndolas?”.

“Não meu amigo. O mundo mudou”.

Chegaram às bebidas. Asik continuava um grande apreciador do çay, mas eu preferi um vinho doce, pois minha existência vinha demasiado amarga. Nunca tinha o visto bêbado, mas ele sempre me dizia que já estava inebriado de amor, e que se inebriar ainda mais seria desnecessário... Não que não bebesse vinho, apenas nunca ficava bêbado. Parece que bebia apenas porque os demais bebiam, e ele sempre procurou não se destacar na multidão...

Ora, era óbvio que o mundo havia mudado, mas seja lá como for, não haveria de ser uma mudança tão grande assim. Como havia dito, as felicidades e tristezas ainda se intercalavam umas as outras, cercadas pelo grande tédio... Eu queria saber mais, afinal Asik quase nunca se entediava, mas ele não me deu chances de perguntar:

“Veja aquele empresário da ilha do Oriente. Está já velho, mas insiste em fazer o mesmo que fazia enquanto jovem. É casado, bem sucedido nos negócios, e gerou alguns filhos... Mas sua família é sua empresa, e sua rotina familiar é composta de reuniões, grandes lucros e festas com mulheres compradas”.

“E que mal há nisso, afinal? Deixe-o curtir os momentos que lhe restam nesta vida”.

“Mal? Não há nenhum mal, Giacomo. Faz o que queres, há de ser o todo da Lei. Mas quando as pequenas vontades se dissociam do Amor, não há fecundidade, apenas estagnação... Ele não conta mais do que 40 anos, ainda viverá muito tempo, mas já é velho. Eu não acredito em idade, acredito em velhice e juventude!”.

Quando olhei melhor, vi que o homem tinha um olhar parecido com o meu. Mesmo por detrás dos olhos puxados, estávamos igualmente entediados. A única diferença entre nós naquele momento é que ele apalpava os seios fartos de uma bela moça. Mas nem querer apalpar os seios fartos de uma bela moça eu queria... Eu queria algo mais do que isso. Eu estava um tanto encrencado, pois seios fartos sempre foram o suficiente para me alegrar...

“E a mulher dele, o que faz? Cuida dos filhos?”.

“Não. Ela teve o azar de nascer nesta última geração em que os homens ainda pensavam como os homens de antigamente. Então ela encarou a liberdade feminina com o pensamento de um homem, mas com os pudores antigos das mulheres antigas. Como não tem coragem de se deitar com um homem de programa, seus programas são somente jantares românticos e, as vezes, uma sessão de cinema”.

“Está me dizendo que enquanto o marido viaja o mundo a negócios traçando putas de várias etnias distintas, ela permanece em casa e contrata amantes somente para que tenha com quem sair a noite?”.

“Exato”.

“E não vai nem para cama com eles?”.

“Não”.

“É por isso que digo que o casamento é uma maldição... Aliás, até hoje não compreendo porque foi se casar, Asik!”.

“Meu amigo, e quem lhe disse que eu acredito no casamento?”.


***

Esta foi a segunda parte de A educação de Casanova, por raph em 2013.
Comece a ler do início | Veja a terceira parte


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12.6.13

A educação de Casanova, parte 1

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.


Vou começar com esta confissão: o que tenho feito no curso da minha vida, quer seja bom ou mal, tem sido feito livremente; sou um agente livre.


1.

Eu poderia jurar que fazia séculos que não punha os pés nesta cidade. Tudo tem mudado no mundo, mas as felicidades e os prazeres continuam passageiros e fugazes, as grandes infelicidades continuam a atemorizar os homens, e de resto há somente este grande e tenebroso tédio nos intervalos entre umas e outras. Até algum tempo atrás, e já não me lembro mais quanto, eu me encontrava livre desta pequena tristeza, tão jovem quanto sempre fora, tão sedutor quanto um misterioso viajante. Mas ultimamente tenho envelhecido, meus pensamentos e minha alma vão tornando-se rígidos e enrugados, e meus olhares nada mais despertam nas mulheres...

Como, afinal, despertar alguma paixão nalguma bela jovem ou nem tão jovem, se eu mesmo padeço deste tédio que acomete a tudo e a todos na civilização moderna. Há pouco chamei-o “grande e tenebroso”, e me contradisse quando falei em “pequena tristeza”. Ora, uma grande infelicidade ainda pode ser mais interessante, pois após uma queda vem a fase em que ficamos novamente de pé, e após uma desilusão amorosa podemos contar com uma doce ilusão totalmente nova! Melhor seria uma grande infelicidade, uma grande tragédia, do que este tédio... Será que é por isso que os homens consideram se casar?

Esta vista do mar de Mármora continua tão bela quanto me lembrava. Os homens aprenderam a construir estas grandes torres, cada vez maiores, mas em matéria de beleza e sedução, ainda têm muito o que aprender com a natureza. E eu que sempre fora um agente livre, um mar esguio a banhar as mulheres seminuas ou nuas no verão, mas que desaparecia no inverno... E agora, agora um mar represado, entediado. Mas não se apiedem de mim, não estou aqui para chorar minhas mágoas, e sim para me curar.

Dizia Hipócrates que são nossas próprias forças internas quem realizam a cura, e que o médico é tão somente o agente que nos leva ao reencontro conosco mesmo. Acho que é precisamente isto que ocorre. Casanova, o grande Casanova, não come mais ninguém, e nem parece entusiasmado em comer mais ninguém... Ó, lástima, será necessário mesmo um grande médico do amor para me conduzir novamente ao meu próprio coração. Vim de tão longe atrás deste homem.

Beyazit é o bairro onde ele marcou o encontro. Não é preciso ser um especialista nas artes amorosas para perceber que se trata de um dos poucos bairros da cidade onde há prostituição. Além do que é já noitinha, isto tudo só pode ser um grande deboche da parte dele... Quem quer que tenha acreditado que fiz amor com 122 mil mulheres e prostitutas ao longo de uma única vida é muito ingênuo ou gosta de mitologia! Mas o pior é ver tantos jovens se divertindo, tantos homens ainda com esta grande vontade de procriar a espécie, e tantas mulheres os analisando e criteriosamente escolhendo aquele de maior potencial... E eu aqui, entediado, entediado até mesmo com Darwin!

Vejam bem, mulheres, não estou dizendo que todas as mulheres de Beyazit são prostitutas. Nesta rua mesmo, há apenas algumas. Os homens, por outro lado, são quase todos prostitutos... Eles se vendem para o próprio desejo desenfreado, em troca de um pouco de prazer. Eu atuava com maior refinamento e dignidade. Negociava com meu próprio desejo em prol de obter o maior prazer possível. O grande segredo de Casanova era este: “o desejo só é mantido vivo quando não é totalmente satisfeito”. Então, meu refinamento estava em me satisfazer aos poucos. Dizem que eram as mulheres que se apaixonavam perdidamente por mim, mas não: eu é que me apaixonava por elas, e as desejava ardentemente. Mas nunca satisfazia totalmente meu desejo, e era dessa forma que o mantinha vivo. Eu só poderia ser um grande amante, afinal, se as desejasse mais do que elas mesmo me desejavam.

E agora, nada, só o tédio... Não tenho mais desejo de nada, então como irei satisfazer uma mulher? As mulheres não são tão facilmente satisfeitas como os homens... Há homens que se satisfazem em copular com um corpo escultural. As mulheres, em sua maioria, percebem um pouco mais da alma. E eu, envelhecido, entediado, meio triste, não quero nem saber do que foi feito da escultura da minha alma a essa altura...

Preciso de um grande artista, um exímio escultor, ou ainda de um sábio restaurador. Meu amigo é tudo isto e muito mais. Casanova virou mito, mas aprendeu tudo o que sabe, ou quase tudo, deste homem árabe, que nunca precisou viajar pelos continentes para conhecer a alma dos homens e, sobretudo, das mulheres. Eu, é claro, fui por muito tempo um herege na arte do amor. Ele, pelo contrário, praticamente escreveu a bíblia de tal arte, não com uma pena ou caneta, mas com o próprio corpo e a própria alma e o olhar, o olhar!

Se um dia aprender a olhar como ele, me dou por satisfeito. Há homens que olham mulheres vestidas e as despem com o olhar. Ele não, ele veste as mulheres com o seu olhar, as preenche por todos os poros, e vira facilmente o centro de sua atenção. Caso queira, é claro... Nunca vou entender por que diabos se casou. Privar as mulheres de sua arte, concentrando-se sempre na mesma, é um desperdício, um grande egoísmo!

Se não satisfiz 100 mil, pelo menos que tenham sido mil. Ainda é melhor do que apenas uma. Ele escreveu a bíblia do amor, mas eu sou o seu grande apóstolo, o evangelizador! Eu trago a boa nova e a boa nova é um grande prazer, fugidio, mas que é genuíno... Melhor dar um pouco de prazer para mil do que muito prazer para somente uma. Além do que, o prazer nunca dura tanto afinal, do contrário não saberíamos distingui-lo das pequenas alegrias.

Eu entro pela porta apertada do cabaré. Quantos cabarés iguais não adentrei em minha existência! Os olhares mortos das prostitutas já cansadas, os olhares ainda mais entediados dos homens que se regozijam em se envolver com corpos sem que haja necessidade de se preocupar com as almas, as bebidas destiladas e a música de fundo... Tudo meio escuro e frio, com pinceladas de acinzentado aqui e ali, e uns poucos ainda iludidos querendo encontrar o amor de suas vidas neste tipo de ambiente. É tudo isto já uma lição de meu amigo, um lição merecida devo dizer, pois que não há como negar que eu mesmo já recorri a este tipo de ambiente muitas vezes, quando ainda não havia aprendido a refrear meu próprio desejo.

Lá está ele, com seu olhar de fogo. Se ele uma vez me ensinou a ser como as labaredas, terá de me curar, me transformar pelo fogo uma vez mais... Eu puxo uma cadeira e me sento à mesa. Olhando fundo na sua alma, pronuncio seu nome, quase como uma súplica:

“Asik, eu me desvirtuei, preciso novamente do seu aconselhamento”.


***

Esta foi a primeira parte de A educação de Casanova, por raph em 2013.
Veja a segunda parte

***

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30.5.13

Relâmpagos

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Da janela entreaberta do quarto, vi um relâmpago antes de ir dormir.

Era como se um milhão de vagalumes se alinhassem imperfeitamente e então algum deus desse o sinal para que iluminassem, em uníssono, a vasta escuridão noturna; Era como alguma espécie de orgasmo do crepúsculo; Como um exímio samurai a nos matar antes que pudéssemos ver nosso próprio sangue escorrer ou nosso cadáver tombar ao solo – tudo o que havia a ser lembrado era o derradeiro movimento estático de sua lâmina cortando o espaço escuro...

Os que têm certo asco de mitologia dizem que os antigos eram supersticiosos imbecis que acreditavam que algum gigante seminu morava no Céu e enviava relâmpagos para Terra a fim de nos assustar.

Eu não estava assustado. É o trovão o que nos assusta, e tem sido assim desde antes da civilização; Mas aqueles relâmpagos estavam tão, tão distantes, que o seu som não chegava. Eu vi somente as pinceladas de luz envolta em nuvens, eu não estava assustado.

Me aproximei da janela e a abri lentamente. Tinha sono, mas aquele baile elétrico a desvelar o horizonte oculto da noite havia me hipnotizado!

Os cientistas já descobriram e computaram o que é, objetivamente, um relâmpago. Mas eu já havia desligado o computador, e o Grande Google estava inacessível as minhas indagações. Ademais, tudo o que poderia ser computado acerca dos relâmpagos, todos os dados científicos colhidos pela meteorologia, nada disso iria me responder exatamente o que eu estava sentindo naquela noite antes de ir dormir.

Quem disse que todos os antigos acreditavam nessa lenda do deus que arremessa relâmpagos? Talvez fosse uma história que eles contavam para atemorizar as crianças em torno da fogueira; Talvez fosse um código simbólico para alertar sobre a imprevisibilidade de tais eventos... Afinal, após milhares de anos, nós mal sabemos dizer em que dia do mês que vem vai relampejar novamente.

O acaso natural ou o acaso do mau humor de um gigante seminu que vive acima das nuvens – tanto faz, é o mesmo acaso.

Um dia um sujeito chamado Laplace postulou que se um demônio pudesse saber da posição e movimento exatos de todas as partículas do Cosmos, então poderia saber perfeitamente de todo o futuro – nada mais seria acaso para o seu vasto intelecto.

Ora, talvez seja isto exatamente a natureza de Satanás, um demônio que já sabe de tudo o que há para saber, e por isso enlouqueceu?

Felizmente a física quântica comprovou que tal demônio não poderia saber tanto...

Mas afinal, o que os antigos não sabiam é que dentro de nosso cérebro as sensações e reações se convertem em pequeninos relâmpagos que realizam um baile neuronal incessante.

Isto me conectou, de certa forma, aqueles relâmpagos distantes que também dançavam uma valsa silenciosa.

Sejam os relâmpagos distantes no Céu, sejam estes que viajam dentro do meu crânio, nenhum deles pode me explicar o que é exatamente ver um relâmpago antes de ir dormir, pela janela entreaberta do quarto.

Então, assim confuso e espantado, fui dormir.

E em meus sonhos, não haveria nada que pudesse me impedir de ser, eu mesmo, um gigante seminu a atirar lanças de luz pela imensidão...

***

Crédito das imagens: [topo] Rob Matheson/Corbis; [ao longo] Joel Robison (Zeus/Jupiter)

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23.5.13

O amante

Numa noite fria da Galileia, enquanto acampavam próximos a Magdala, Yeshua teve um sonho com o Anjo do Senhor:

Anjo – É chegada a hora de encontrar-te com aquela que fala conosco.

Mensageiro – A essênia?

Anjo – Tu já cruzaste com ela, mas não em sonho. Esta que vê em teus sonhos pertence somente a tua imaginação. A outra de que falo é ainda mais sábia do que imaginas. Tu foste o mensageiro das coisas do Alto, mas será ela quem fará tua mensagem chegar ao mundo todo...

Yehsua acordou subitamente com um raio de sol nascente lhe cegando os olhos. Enquanto ainda se habituava de volta ao mundo dos despertos, disse aos demais: “Amigos, levantem-se. Devemos aproveitar a manhã, nosso próximo destino será a própria aldeia de Magdala”.

“O que iremos fazer em Magdala, mestre?” – perguntou Shimon (aquele a quem Yehsua chamou Kepha). “Iremos nos encontrar com um mestre essênio, e o convidar para o nosso grupo” – tendo dito isso, fez com que todos se entusiasmassem com aquele dia, particularmente Shimon, que sempre teve curiosidade em conhecer mais sobre os essênios.

***

Chegaram na pequena Magdala, nada mais do que uma antiga torre em ruínas perto da costa, onde um dia houve um agrupamento de essênios, mas que naquele tempo estava mais para um agrupamento de pescadores e mercadores.

Não foi sequer necessário perguntar pela essênia. Uma bela mulher, de pele morena e cabelos negros, contrastando com sua longa veste branca que ajudava a ornar um corpo sinuoso, aproximou-se do grupo de Yeshua. Ela logo disse o seu nome, “Miriam”.

Yeshua parecia aturdido (não se sabe se por sua beleza ou por sua presença), então Shimon falou em seu lugar:

Shimon – Olá mulher. Acaso sabe de algum essênio que ainda tenha permanecido em Magdala?

Miriam – Em realidade todos se foram. Foram buscar um local ainda mais afastado do mundo dos homens, onde não existe propriedade nem a necessidade de pagar tributos a César. Mas vocês têm sorte, pois que hoje há um deles que retornou a aldeia em visita.

Shimon – Mas nós buscamos por um mestre essênio, um Mestre da Justiça.

Miriam – Quem veio é também Mestre da Justiça.

Shimon – E onde está?

Miriam – Está diante dos seus olhos, ó caminhante.

Shimon (confuso) – Mas como? Eu só vejo uma mulher na minha frente!

Não foi preciso que Miriam de Magdala explicasse, foi o próprio Yeshua quem interrompeu a conversa, já recobrado da espécie de transe em que tinha entrado repentinamente:

Mensageiro – Kepha, meu caro amigo, não seja rude... Acaso não sabe que entre os essênios mesmo as mulheres podem ser mestras?

***

Já se passavam três dias desdê que a comitiva de Yeshua havia se hospedado na antiga torre de Magdala. Os discípulos começavam a ficar impacientes, não somente pelo fato de que não havia muito o que se fazer naquela aldeia, mas sobretudo pelo fato de seu mestre passar quase todo o tempo conversando a sós com a Mestre da Justiça. Ora eram vistos no entorno da aldeia, ora muito distantes, caminhando juntos sob a sombra de um pequeno bosque que crescia na direção da costa...

Mensageiro – Então você é aquela garotinha que encontrei há anos quando me dirigia ao Oriente. Inacreditável como cresceu, e neste caso me refiro a sua alma e sua sabedoria.

Miriam – É muito gentil, Yeshua. Mas, ainda que minha sabedoria crescesse muito além da torre de Magdala, jamais haveria de alcançar o Céu, como você parece fazer todos os dias.

Mensageiro – Se consigo alcançar o Céu, não sou como você que vê aos anjos ainda acordada...

Miriam – Você não precisa ver aos anjos. Eles vêm somente para nos ensinar, e não há nada que tenham para lhe ensinar, Yeshua.

Mensageiro – Bobagem; há sempre o que se aprender, mesmo entre os que sabem menos do que nós. Ainda que este fosse o caso dos anjos, mas não é... Há alguns anjos que sabem muito mais do que outros, e há alguns que sabem muito mais do que eu. Foi exatamente um destes que me enviou até você há quase três dias atrás...

Miriam – E os anjos que vejo raramente são desta falange, Yeshua. Veja bem, eu sei que o Pai e a Mãe estão espalhados por todas as coisas, naquela pedra ali, naquele outro galho partido acolá. Mas eu ainda não participo deste casamento, ainda não fui convidada a presenciar esta cerimônia, ainda não trouxe o Céu para a Terra. Você quem se aventurou nas terras do Alto e retornou, Yeshua, me conte dessas maravilhas!

Mensageiro – Você quer a história verdadeira?

Miriam – Se acha que mereço a verdade, me conte a verdade...

Mensageiro – No início, eu era levado à força. O Pai surgia como um pássaro raivoso, embora eu não pudesse vê-lo. Tudo que sentia eram suas garras: uma me segurava pelo pescoço e impedia que eu fugisse, e a outra se enterrava em minha cabeça... Era então que a dor se iniciava. Era como se eu explodisse e me separasse em milhares de pedaços, para só então renascer em sua Casa. Lá o Anjo do Senhor me falava do que vim fazer neste mundo, enquanto uma grande luz pairava por todo o ambiente. Nesta época em me rebelei, eu não suportava mais toda aquela luz, e sussurrei em meio às lágrimas que escorriam: “Pai, afasta de mim este cálice”.
Então passei alguns anos da minha infância pretendendo não ser o que sou, mas com o tempo me arrependi, pois percebi que o mundo precisava de um pouco daquela luz, e talvez eu fosse mesmo aquele quem deveria trazer a mensagem, refletir um pouco dela para aqui embaixo... Mas não sabia se eu era o único, e por isso rumei para o Oriente...

Miriam – Existiram outros como você?

Mensageiro – Sem dúvida, muitos, muitos outros! Mais sábios e mais antigos... Mas parece que o grande plano do Céu era reunir toda a sabedoria antiga nalguma espécie de ensinamento simples que pudesse ser transmitido a todos, e não apenas aos mestres e aos príncipes.
Após muito sofrer e muito duvidar, eu finalmente compreendi o que o Pai queria de mim, foi então que descobri o que sou... Não sou eu quem vai divulgar tais ensinamentos pelo mundo, Miriam, eu sou apenas um mensageiro.

Miriam (entristecida) – Foi o que os anjos me contaram... Então, é verdade... Então, não lhe resta muito tempo junto conosco, junto comigo?

Mensageiro – Miriam, Miriam, não chore para que eu não chore junto contigo. Saiba que o Pai veio até mim como uma brisa suave de primavera, e me encheu de entusiasmo e de sentido!
Eu me pus de pé e agora estou aqui entre vocês para realizar o que precisa ser realizado. E quando eu me for, será você quem divulgará minha mensagem. A tarefa não foi dada a um homem, mas a uma mulher – a única capaz de fecundar um novo pensamento na alma dos homens.

Miriam – Mas você não é um homem nem uma mulher, Yeshua. Sua natureza nos transcende... É como se a própria terra houvesse sido fecundada pela chuva, para que nascesse um ser como você... Se eu serei aquela quem divulgará sua mensagem, ao menos isto eu tenho de saber: O que, afinal, é você?

Mensageiro – Um coração. Um amante de tudo o que há, foi e ainda está para ser... Eu sou um coração, Miriam, e todo o sangue do mundo passa pela minha alma...

 

FIM

 

Este é o fim da série de contos Mensageiro dos Céus,
que havia iniciado em 1996. Gostaria de agradecer
a todas as brisas de primavera
que tornaram isto possível...

raph’13

***

Este conto é uma continuação direta de "O recitador".

***

Crédito da foto: worldwidehealth.com

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6.5.13

Ainda é cedo

Noutro dia fui ver Somos tão jovens, filme que conta a trajetória musical inicial de Renato Russo e retrata com certa competência o estado espiritual de sua juventude em Brasília. O filme propositadamente se encerra antes de ter de falar das fases mais tristes de sua vida, e portanto deveria ser apenas mais um fim de tarde agradável no cinema... E era, até o finalzinho do filme, quando Renato canta Ainda é cedo. Apesar de ser uma cena de certo teor emocional, não parecia justificar o fato de eu haver chorado em pequenas cascatas ao longo de boa parte da música. Havia algo a mais que eu não havia identificado ainda... Algo que parecia estar mais profundo dentro de mim.

Eu gosto muito de fingir que este blog é impessoal – e tenho certeza que há muitos que acreditam. Mas, na prática, nunca foi, é apenas fingimento mesmo.

Não sei se estavam por aqui em 2006, quando ele começou, mas alguns de vocês devem saber que eu comecei este blog em homenagem a uma amiga. O nome dela é Flávia Lopes, e ela é poetisa.

Se hoje mesmo eu ainda conto nos dedos os poetas que conheço pessoalmente, antes de haver o blog e a própria massificação do acesso a internet no país, eu conhecia somente ela. E quem é poeta sabe: você pode ter pais, familiares, amigos próximos, mas somente outro poeta poderá entender de certos assuntos existenciais. Somente um poeta pode servir a uma certa carência de todo poeta, que é poder se comunicar com os outros sem as palavras, essas cascas de sentimento...

Eu me comunicava com ela sem as palavras. À noite, no telhado do seu prédio na Tijuca (no Rio de Janeiro; ela morava numa cobertura de um prédio antigo de onde dava para passear no telhado), contemplávamos tanto as estrelas quanto os gatos e transeuntes das calçadas – tudo nos interessava, mas nada precisava realmente ser dito.

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo [1]

***

Flávia era grande fã de Renato Russo e sua trupe, eu só fui virar fã de verdade anos depois de sua morte. Então é isto que o tempo me fez: começar este blog, e virar fã da Legião Urbana; e ambos são fruto direto do tempo que já não há: o tempo de visitar minha amiga, seja a noite ou de dia.

Dizem que inventamos essas histórias de vida após a morte para suportar a dor da perda de alguém querido, mas me custa identificar onde exatamente isto nos ajuda, se não podemos realmente visitar quem lá está, e retornar, exatamente como eu fazia quando passava pela Tijuca. A Tijuca onde minha amiga mora está hoje inacessível para mim...

Se eu creio que ela ainda existe? Claro que sim, mas isto não me serve exatamente de conforto. Não é isto o que me conforta, se querem saber.

Não me conforta, pois não sei o que ela anda lendo, nem quais gatos ela cria hoje, nem mesmo que tipo de videogame ela anda jogando do outro lado do véu. Serão games mais modernos, ou aqueles clássicos que jogávamos na sua casa? Isto que eu não sei!

A questão não é, portanto, se ela ainda se lembrará do meu nome quando me encontrar noutro canto do Cosmos. A questão é que ela será muito diferente, e eu também, pois estamos sempre mudando, sempre morrendo e renascendo. E terá passado muito tempo, então quem seremos nós um para o outro?

Seremos ainda poetas? Talvez... O que me conforta é saber que pelo menos o time de futebol ela irá manter. Então, como nossa única briga foi por causa de futebol (e prometemos nunca mais brigar por causa disso), eu espero poder encontrar com ela para pode instigá-la e brigarmos outra vez (e quebrar a promessa): “E o seu time hein? Meia vida depois, ainda sempre vice!”.

De resto, o que sobra? Só a saudade, e palavras escritas em sangue...

Ela fazia muitos planos
Eu só queria estar ali
Sempre ao lado dela

Sei que ela terminou
O que eu não comecei
E o que ela descobriu
Eu aprendi também, eu sei

E eu dizia: - Ainda é cedo
cedo, cedo, cedo, cedo... [2]

***

Eu não me importo em ocultar que muito da minha poesia é escrito com sangue:

Já se perguntou, amiga, o que aqui fazemos?
Nesse telhado, de frente para o luar,
E os espaços infinitos entre as estrelas,
E os espaços finitos entre todos nós...
Já se perguntou, alguma vez,
O que será que estamos a observar?

(...) Será que existe o telhado?
Será que existe essa conversa?
Será que existem gatos a pular?
Ou, antes de tudo isso,
Existem amigos, e amizades,
Existem seres conscientes de si,
E consciências etéreas, esvoaçantes...
Indetectáveis senão pelo amor, e pela dor,
De observar ao mais belo luar
Sem ter minha amiga para conversar? [3]

Na poesia, mesmo as cascas de sentimento parecem conseguir trazer algum resquício metafísico do sentimento, da sensação, da intuição, do amor e da alma do mundo... Ou pelo menos foi tudo isto que aprendi com minha amiga.

No filme de Renato, a personagem que é sua melhor amiga, e para quem ele supostamente compõe Ainda é cedo, se trata na realidade de um amálgama das três melhores amigas da sua juventude. Além de tudo, ela ainda está lá, ela reaparece.

No meu caso, será um pouco mais complicado. Por isso chorei daquela maneira no cinema, hoje sei. E por isso continuarei chorando sempre que calhar de relembrar minha amiga, hoje também sei. Mas ainda que seja tão dolorido tudo isso, há um alento, uma consolação, que não tem absolutamente nada a ver com vida após a morte...

Tem a ver com esta vida, que necessita ser vivida intensamente, como se não houvesse o amanhã que na verdade não há. Conforme os estoicos diziam: é preciso viver atento ao chamado do Barqueiro. Isto que vivemos aqui é somente a aventura de um náufrago em meio ao Oceano. É preciso estar atento, pois o Barco ainda irá velejar para muitas outras ilhas, e cruzar com muitos outros faróis a iluminar a neblina espessa. E não somos somente nós a navegar: cada um está a seguir o seu caminho!

Se ainda sofro com a ferida aberta da saudade? Sofro, e choro, e sangro!

Mas é melhor amar e perder que nunca haver sequer amado. É melhor ter uma poetisa somente na memória do que não a ter em canto algum, por antes nunca a haver conhecido... E que privilégio, que privilégio foi a ter conhecido!

De resto, o que sobra? Apenas a selvageria e a compaixão...

Depois de ter-lhe revelado tanto,
O que eu tenho,
Para minha causa?
Para meus prantos?
O que eu toquei,
O que eu senti?
Entre suas muitas faces?
Escondidas dentre mil mentiras?

(...) Depois de procurar todo esse tempo,
O que eu chorei,
O que eu quebrei?
A não ser meu ser incomodado,
A não ser minhas marés de vaidade?
Envoltas por poemas e livros,
Dentre selvageria e compaixão. [4]

***

Outra coisa que passa pela minha mente de vez em quando é uma pergunta estúpida: “Se eu pudesse trocar todo este blog, e tudo o que consegui com ele, pela vida de minha amiga, eu trocaria?”.

Sim, é uma pergunta estúpida e os estoicos também já sabiam disso: há coisas que nos cabe decidir, e há outras, muitas outras, que estão além da nossa capacidade de escolha...

Esta pergunta não tem resposta, pois a Natureza é simplesmente como é, e o tempo, passado ou futuro ou eterno, é apenas este momento e o que fazemos dele...

E eu sei meu amor, que disciplina é liberdade, e compaixão é fortaleza, e ter bondade é ter coragem, e também sei que lá em casa há um poço de águas tão límpidas e cristalinas. Mas, ainda assim, eu trocaria... Se pudesse, trocaria, e nem pensaria muito sobre o assunto.

Como ti, amiga, continuarei buscando. Continuarei buscando... Afinal, ainda é cedo...

Busco um canto
em que todas as crenças,
se consumam,
e todas as raças
se despatriotizem,
e todas as doenças
se extinguam,
e todos os  braços
se encontrem.

Busco um canto
em que a paz
se solidifique,
em que os sábios
não se corrompam,
e que as luzes
jamais apaguem.

Busco um canto
em que toda humanidade
em uníssono,
acompanhe,
e que a melodia,
atravesse séculos
de progressos e sangue,
e nos traga de volta
o dom da eternidade. [5]


Sou poeta e cronista - o lirismo é a amálgama destes dedos, confronta a vicissitude de meus passos. Conheci, desde a infância, o poder incutido na alma das palavras, como moldá-las, seduzindo cada frase, ora liberta e sem destino, repentina, ora trabalhada. Se me privassem de tal dom, necessidade ou vício, decerto enlouqueceria... (Flávia Lopes)  

***

[1] Tempo perdido (trecho), Legião Urbana.

[2] Ainda é cedo (trecho), Legião Urbana.

[3] A conversa (que não houve) (trecho), Rafael Arrais.

[4] Poema sem título (trecho), Flávia Lopes.

[5] Eternidade (trecho), Flávia Lopes.

Um conto por raph’13

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Crédito das imagens: [topo] Divulgação (Somos tão jovens); [ao longo] Flávio (o último namorado dela, e também meu amigo).

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2.4.13

A terra do espantalho crucificado

Dizem que os cruzados queriam retomar a Terra Santa, pela força das armas, em honra ao seu Deus. Mas nem todos seguiram até Jerusalém armados – houve crianças que se dispuseram a libertar sua terra sacra pela força da inocência...

Não se deve subestimar os mitos – os fatos do espírito encenados no mundo. Por vezes, a encenação se torna uma tanto quanto real ou, pelo menos, o tanto quanto é possível “ser real” além da realidade da mente.

Ensinaram a essas crianças os mitos errados. As que não morreram de fome, sede ou doenças pelo caminho, naufragaram no Mediterrâneo ou foram vendidas como escravos por vendilhões pouco entusiasmados com a sua mitologia.

Faz tempo que o homem busca a Deus, seu Reino, ou alguma “santa terra” pelo horizonte... Antes de Maomé, os árabes já circundavam a Ka’bah de Meca. O deus daquela pedra é ainda mais antigo que Allah. De fato, desde a pré-história, toda pedra posta de pé representava algum deus. Desde El Shadai (“o deus da montanha”) até o monólito de 2001 – tudo isso são símbolos que tentam dar conta de falar do que não pode ser dito.

E o que se faz quando um povo é expulso de sua terra estreita, com seus deuses de pedra? Foge-se para o deserto e se atravessa o Mar Vermelho – Moisés foi apenas mais um destes...

Dizem que o povo judeu nunca consegue se estabelecer por muito tempo num mesmo local. Que sua Terra Santa e seu Templo estão sempre sob constante ameaça de invasões e guerras... Besteira! Todo verdadeiro judeu já subiu ao seu próprio Monte Sinai e recebeu sua própria Tábua Sagrada.

Nela, se lê em letras que não devem ser lidas:

“Israel é todo o mundo”.

***

E não obstante, há aqueles que ainda creem que Deus se esconde nalgum palmo de terra ou debaixo do azulejo de algum templo antigo... E não obstante, há aqueles que creem que seu Cordeiro ainda jaz crucificado, a espera da libertação pela força (das armas) – e, dessa maneira, ainda hoje, na Terra Santa, a turba angustiada ainda clama pelo Cristo, mas o que sai de suas bocas (sem que percebam) é um brado de guerra:

“Salvem Barrabás! Salvem Barrabás!”.

O Cristo já saiu da cruz há tempos, e foi libertar aquelas crianças que o perseguiam pela força de sua inocência – pois que nenhum inocente deve ser escravizado...

E não obstante, naquela sacra terra ainda se ergue uma gigantesca cruz com um espantalho crucificado. É este deus, “o deus espantalho”, que os homens ignorantes lutam para libertar.

Mas naquele que teve olhos para enxergar, o Cristo já está liberto, dançando livre por sua terra, por Israel (que é todo o mundo), e dando piruetas dentre os torvelhinhos que também giram, como tudo o mais, dentro do espírito...


raph’13

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Crédito da imagem: Google Image Search/Anônimo

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4.3.13

Pássaros

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Aqui perto de casa existe uma rua cheia de árvores de copas esféricas, embora nenhuma esfera viva seja ou precise ser perfeita... Todos os dias eu atravesso ela para poder ir tomar café. Eu a chamo de Rua dos Pensadores, embora a prefeitura tenha lhe dado outro nome.

Uma vez tomei um baita susto: um pássaro enfurecido veio bicar minha cabeça. Acho que nunca vi um pássaro voar na minha direção, geralmente eles fogem da gente... Aquele não, aquele tinha alguma razão para arriscar a vida e dar bicadas na cabeça de um gigante. Se algum dia eu tive vontade de esganar um pássaro, ela passou rapidamente.

Ainda bem, porque depois acabei compreendendo: era um pássaro defendendo o seu ninho. A Natureza, em sua guerra da fome e da morte, privilegia a vida acima de tudo. Não fosse assim, o pássaro iria abandonar seu ninho ao primeiro sinal de perigo, e só voltar se fosse perfeitamente seguro. No entanto, existem animais, como uma espécie de polvo, que dão a vida por sua cria. Existem ainda outros animais, como uma espécie de inseto, que dão a vida ainda no ato da cópula. “Sexo mortal”? Ou “criação da vida”?

Não é a toa que o Abujamra sempre pergunta duas vezes aos entrevistados do seu programa (Provocações, na TV Cultura): “O que é a vida?”. Eu acho que ele tem esperança de que um dia alguém responda. Na primeira ou na segunda pergunta? Em nenhuma das duas. Quem quer que saiba responder isso, não precisará de palavras.

A vida é uma deusa alada que anseia por si mesma, ad infinitum. Seu combustível é o amor, e ele nunca se esgota. Sua vontade é o mistério: inefável, inalcançável... Há muitos eclesiásticos e cientistas que tentaram trepar pela árvore que cresce na Rua dos Pensadores e roubar um ou outro ovo do ninho deste pássaro. Mas não viram ovo algum!

Não sabemos quem ou o que criou a vida. Não sabemos criar vida, apenas copiar uma ou outra pequena parte daquilo que é chamado “orgânico”. E há muitos eclesiásticos que bradam assim, ainda trepados no tronco colossal: “Nós já vimos o que está no ninho. Temos agora todas as respostas!”; Enquanto há céticos que dizem isto: “Não há ninho algum. Larguem esta infantilidade! Trepar em árvores é coisa de criança.”

Dizia o poeta libanês que “nossos filhos são os filhos da ânsia da vida por si mesma”... É isto: as crianças quem sabem o que havia no ninho, na Mansão do Amanhã, e por isso elas gostam tanto de trepar em árvores. Mas depois nós as ensinamos a serem “sérias”, e elas se esquecem de tudo, ou quase tudo.

Tenho uma certa dificuldade em seguir doutrinas. Algumas delas são bem profundas, e isto está muito bom. Mas eu posso simplesmente reconhecer sua profundidade, e aprender o que há para se aprender dela. O que não posso é ficar ancorado nesta ou naquela doutrina.

Há algumas coisas que somente os pássaros e as crianças sabem, e todos estes seguidores de doutrinas, todos estes que acreditam que alguma palavra infalível resolverá a questão da vida para eles, jamais saberão de toda esta brincadeira.

O ninho que eu defendo, incondicionalmente, como o pássaro louco que vai bicar o gigante, é o ninho da liberdade!

No topo de todas as árvores do mundo há um ninho semelhante. Mas somente as crianças os viram, de relance, em meio ao pique esconde. Há pássaros que vêm e vão, de vez em quando, entre eras, para semear a Terra com as sementes de cada ninho desses...

Na Rua dos Pensadores os ninhos não têm ovos, mas sementes de um novo pensamento. Se um pássaro louco vier lhe bicar, não fique revoltado: às vezes, ele pode estar apenas lhe trazendo uma nova experiência.

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Crédito da foto: Templer/Corbis

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14.2.13

Condutoras

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...

“Só podia ser mulher! Nessas horas eu sou machista...”.

Quem disse isso foi uma mulher. Ela estava dirigindo o carro, e eu era o carona. No cruzamento, alguma outra mulher conduzia seu carro sem muita pressa, o que é sempre um incômodo para o mundo do fast food.

Mas eu não estou aqui para falar de fast food, e sim de machismo. Já pararam para pensar? – São as mães, são as mulheres, primordialmente, quem ensinam seus filhos e filhas a serem machistas. Ou, pelo menos, a maioria pouco faz para evitar a sedução do pensamento machista na maior parte das sociedades do mundo.

Em comerciais de TV (inclusive de carros), músicas pop, novelas, e até mesmo na literatura softcore altamente vendável: o machismo ainda está por toda a parte. Mas é claro que as coisas mudaram: hoje em dia, na maior parte do mundo civilizado, as mulheres tem alma, podem escolher com quem vão se casar, tem direito ao voto, e estão a caminho de ganhar quase tanto quanto os homens pela mesma função no trabalho. Dizem até que no ensino superior já ultrapassaram os homens há algum tempo, ao menos em porcentagem de inscritos... Então, qual é o problema?

O problema está na origem do machismo, isto é, na origem do mundo patriarcal. Como alguns devem saber, há muito, muito tempo, a maioria das sociedades tribais era matriarcal, pois eram as mulheres, as sacerdotisas, quem “dominavam” os mistérios da vida, e da Deusa Mãe. Era somente através delas que novos seres humanos chegavam a Terra, e por isso parecia justo que fossem elas as responsáveis por organizar e celebrar os cultos e rituais religiosos.

Então chegou a agricultura. No início, deu ainda mais poder as mulheres: afinal, elas já cuidavam de organizar a tribo enquanto os caçadores-coletores se arriscavam no meio selvagem. Agora cuidavam também da plantação e do estoque de grãos. Estocar comida, isto sim, era algo inédito na história humana. Infelizmente, nem todas as tribos tinham a mesma habilidade para tal função.

Em épocas de fome, tribos de nômades pensaram assim: “Porque me arriscar a caçar na selva, se posso simplesmente invadir aquela tribo onde há vasos cheios de comida estocada, e somente mulheres cuidando dela?”. Os caçadores nômades passaram a invadir tribos estabelecidas, e foi então que o mundo viu o surgimento do primeiro exército: um grupo de caçadores passou a ser pago em comida, para proteger a comida.

Ainda que todo soldado sirva, idealmente, para manter a paz, na prática foi com violência e sangue, muito sangue derramado, que ela vem sendo mantida desde então. O matriarcado não fazia mais sentido num mundo violento. A Deusa Mãe tornou-se submissa ao Deus Pai. Freyja tornou-se apenas a esposa de Wotan.

O machismo está, portanto, intimamente ligado à violência, a ideia de que “os homens são fortes e lhe protegem, mas não os irrite porque eles são mais fortes que você”. Então, se na teoria o machismo pode parecer somente algo engraçado que aparece de vez em quando na TV, na prática o que ele gera são estatísticas alarmantes de violência doméstica e estupros. E isto não aparecia na TV até pouco tempo, mas mesmo o que aparece é somente a ponta do iceberg...

No entanto, isto não responde a pergunta: “se o machismo é tão nocivo as mulheres, porque grande parte delas, quem sabe a maioria, é machista?”.

Neste caso, precisaremos recorrer a mitologia: Enquanto boa parte das deusas perdeu sua força ancestral, o gênero feminino conseguiu se manter no pensamento masculino como uma espécie de joia preciosa, de troféu... A musa que dá inspiração aos artistas, a princesa que precisa ser resgatada de algum monstro vil (e que é ela mesma o prêmio da aventura), a miss que, com sua beleza, reina sobre homens e mulheres.

E, conforme os mitos não existem, mas existem sempre, isto significa que existem ainda neste momento. Talvez por isso muitas mulheres aceitem o machismo. Elas podem até saber, ainda que inconscientemente, que correm algum risco de serem estupradas ou esbofeteadas ocasionalmente num mundo de homens machistas, mas talvez aceitem o risco pela possibilidade de serem, elas mesmas, o grande prêmio cobiçado por todos!

Qual mulher machista, afinal, não quer ser a musa, a princesa prometida ao grande herói, a miss universo, a mais bela de todo o mundo, de todo o Cosmos?

E isto só é possível num mundo machista. Num mundo machista as mulheres que são mais cobiçadas não são exatamente aquelas donas do próprio nariz, senhoras de si, livres pensadoras, mas sim aquelas que esperam, tal qual a princesa do castelo, pelo príncipe encantado. Num mundo machista estamos atrás de mulheres-troféu. E as mulheres machistas, afinal, querem muito ser este troféu tão adorado.

Infelizmente para elas, e felizmente para os que desejam um novo mundo, a grande maioria das mulheres não alcança tal posto... Um dia, quem sabe, elas cansem das dietas milagrosas e da obsessão pela estética, e se voltem para dentro, e descubram a si mesmas, e rasguem esta ridícula veste de princesa que as limitam por todos os lados. Quem sabe, um dia, as mulheres aceitem a celulite e algum tanto de culote.

Neste dia o machismo estará em sérios apuros. Neste dia a Deusa Mãe, e a sensibilidade, e o amor e respeito a Natureza, e o amor e respeito a integridade da mulher, estarão em vias de retomar seu lugar no mundo. Não um lugar de dominância, acima do Deus Pai, pois neste novo mundo Deus poderá ser, finalmente, Pai e Mãe!

E, em toda essa história, teremos citado apenas uma lenda, um mito efetivamente falso: As mulheres são melhores condutoras de automóveis que os homens, e já faz algum tempo. Se duvidam, pesquisem pelo preço do seguro para homens, e para mulheres.

O que falta a mulher é, portanto, ser a condutora da própria vida. Os homens, afinal, não as deixaram num mundo tão maravilhoso assim. O príncipe encantado, e seu Reino Encantado, podem existir no futuro, não hoje.

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Crédito da foto: Tomas Rodriguez/Corbis

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25.1.13

O último enigma, parte 4

« continuando da parte 3

O dogma e a paixão

“Devo confessar que é deveras divertido ouvir as suas indagações acerca da existência, ó seres do mundo...” – sorriu o anjo glacial – “Mas atentem que tais incursões a terras tão distantes de sua própria realidade de nada adiantam se antes vocês não se colocarem em humilde posição diante deste todo grandioso que é o universo: o mundo e o além-mundo.

Acaso assim tivessem feito desde o início de suas dúvidas, teriam hoje mais competência para estudar o que ainda estão longe de conhecer. Pois que se assim o fosse, saberiam que desde o início de tudo houve um Criador Primordial. E quanto mais conhecessem este Criador, quanto mais saberiam de enigmas dos quais nem sequer podem hoje sonhar em solucionar!”.

“Ora, meu caro arcanjo, não sei se pretende me confundir com tais afirmações. Eu já disse que não acredito nem desacredito em Deus, mas tenho a convicção de que poderemos sim decifrar a todos esses enigmas, ou a maioria deles, sem o auxílio de um Ser Todo Poderoso!

Ora, como poderia acreditar que para estudarmos e aprendermos sobre as coisas, nós antes teríamos de crer nalgum Criador? Acaso não foi exatamente o dogma medieval que nos deixou cegos para a ciência e o estudo dos astros, até há bem pouco tempo atrás?” – desafiou o homem que diziam ser ateu.

“Você é muito presunçoso de sua própria capacidade enquanto homem e somente homem, ser ateu...” – prosseguiu o anjo como quem pretendesse falar a uma criança – “Acaso não acha que nós anjos, a serviço do próprio Criador, não tivemos nossa parcela de contribuição em suas recentes descobertas? Ora, é claro que um dogma capaz de deixar os seres tão cegos a ponto de serem incapazes de admitir que é o Sol o astro fixo no centro, e não a Terra, a despeito de tudo o que tem sido observado pelos amantes das lunetas, será um dogma problemático...

Mas antes educar aos seres com dogmas do que deixá-los a mercê da selvageria e ignorância humana... Antes manter uma civilização às escuras do que arriscar que este mundo termine num colossal campo de batalha entre bárbaros ignorantes!”.

Já há algum tempo o demônio de um só chifre sentia-se incomodado com o raciocínio do ser alado, mas foi após esta explanação que se deu ao direito de ousar interrompê-lo:

“E eu aqui intercedo, nobre arcanjo, para lembrá-lo de que até hoje não se sabe de nenhum dogma que tenha sido efetivamente mais positivo do que negativo para a evolução dos homens.

Querer que os homens aceitem máximas religiosas, pretendendo que isso por si só os garanta uma boa conduta, é o mesmo que oferecer a esmola ao esfomeado, mas não ensiná-lo a plantar o próprio alimento... Acaso esqueceste de que o livre-arbítrio foi concedido aos homens exatamente para que eles investiguem e descubram a verdade por eles mesmos? Ou seja, sem que alguém chegue para eles com uma verdade gravada nalguma tábua e lhes diga: ‘Esta agora é a nova verdade do mundo!’. Meu caro arcanjo, deixe que os homens gravem suas própria tábuas”.

Ao que o anjo glacial, agora sombreado, respondeu:

“Me surpreende ouvir tamanha besteira de um demônio que encontrou a luz, ó ser infernal! Não és tu agora um aspirante das terras superiores: Não és tu aquele que aceitou a Deus e se redimiu?”.

“Aceitei a Deus?” – de volta ao demônio – “Não fui eu quem aceitei a Deus, foi ele quem me aceitou, quando clamei desesperado com vergonha da minha própria escuridão, pedindo uma nova chance!

Sim, meus caros, estava eu atolado no charco dos desejos desenfreados, na lama dos setores inferiores do mundo, onde tudo cheira a podridão e esquecimento, e o remorso é o pesado arauto da consciência... Pois ainda que não lembremos sequer da ínfima parcela de nossos atos na ignorância da luz, de algo lembramos, e isto nos dói profundamente.

E a dor não passa jamais, exceto quando compreendemos finalmente que estamos no caminho circular, que não chega a lugar algum, e clamamos por ajuda... Foram os anjos do alto, os misericordiosos das falanges de resgate e cura, estes que me retiraram do charco, que me cuidaram, e que possibilitaram que um novo ser nascesse no fundo de mim mesmo.

E ainda que eu tenha um longo débito com as leis do Criador, por tudo de mal que havia feito, por ignorância, aos seres, a natureza e a mim mesmo, ainda assim ele me aceitou de volta!

E se hoje eu tenho ainda que pagar por todos esses anos na escuridão, minha vergonha se foi, e minha alma se torna mais leve a cada nova manhã. Pois que hoje eu sei: estou no caminho certo, o único que segue a frente.

Digo mais, nobre arcanjo... Não foram os dogmas que me salvaram, mas minha própria consciência, que bem ou mal, sempre soube exatamente de cada pequeno passo meu, em direção a luz, ou a escuridão. Ela nunca desistiu de tentar me mudar, pois que guarda alguma espécie de substância, de marca ou sinal, do Criador.

Eu mudei por amor, pelo amor que vem do alto, e tal como os raios solares, jamais deixou de penetrar mesmo nos corações mais sombrios.

Como explicar o que ele fez por mim? Como justificar minha crença aos outros? Muito bem, afirmo que minha crença não é uma crença baseada num dogma ou numa santíssima tábua, meus amigos... Eu acredito e compreendo a um Deus, como quem compreende e aceita estar apaixonado!

Como explicar ou ensinar a paixão? Apenas pretendo servir de exemplo, para que outros se apaixonem também, e possam me seguir neste caminho. Assim andaremos juntos, sabe-se lá até onde...”.

***

Foi aqui que terminei de escrever no caderninho.

Não me arrependo de haver desistido deste formato, pois embora o aspecto mitológico e fantástico possa ser atraente, acredito que haveria me limitado muito. Não poderia falar de assuntos da modernidade, pois o diálogo discorre nalgum tempo não muito após o Renascimento. Além disso, os personagens parecem caricatos demais para serem verossímeis (e isto nada tem a ver com serem anjos, demônios, etc.).

Em Ad infinitum, quero crer que tenha conseguido tornar os personagens mais verossímeis, menos caricatos, e de pensamento mais aprofundado. Pelo que tenho ouvido até aqui dos que iniciaram a leitura, parece que tive algum grau de sucesso.

» Ad infinitum está à venda na versão impressa e eBook, somente pelo Clube de Autores.

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Crédito da imagem: Anônimo

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22.1.13

O último enigma, parte 3

« continuando da parte 2

Doce curiosidade

O último convidado daquela discussão, o qual os demais chamavam de ateu, começou por esquivar-se daquele enigma que o sábio havia lhe endereçado:

“Sua palavras soaram muito sábias agora há pouco, ó ancião. Sem dúvida, diferentes pontos de vista são nada mais que diferentes opiniões.

Vocês me chamam de ateu, mas eu não sei o que isso significa exatamente. Assim como não sei o que significa ser um ‘não ateu’... Ora, eu sei das coisas do mundo, ou melhor: sei algumas coisas das infinitas coisas do mundo. Foi isto que vim aqui discutir.

Me parece que você voa muito alto quando de indaga sobre o que havia antes desta luz, meu caro sábio... Ora, o anjo e o demônio podem até saber sobre tal assunto, pois que vivem além deste mundo, mas o que nós que aqui habitamos pretendemos saber de um enigma tão distante de nossa realidade?”.

O ancião, incomodado com sua esquiva, retrucou:

“Meu querido, se não queria discutir sobre assunto tão distante, que não houvesse comparecido a este encontro, posto que o combinado seria discutirmos o mundo, este mundo. E, para fazê-lo, começamos de seu início, para eventualmente viajarmos mesmo muito adiante dele...

Mas, afinal, como não fazê-lo? Como ignorar certos enigmas se é exatamente isto que pretendemos ser – decifradores?”.

Neste momento o último convidado levantou-se, em postura acusadora:

“Pretendemos tal coisa? Ora, meu caro sábio, você já viveu muitas primaveras para que houvesse se esquecido da primeira de todas as sabedorias... Não foi acaso um outro sábio quem disse a máxima antiga: ‘tudo que sei é que nada sei’?”.

“E o que sabemos, o que sabemos meu caro?” – prosseguiu o ancião – “Sabemos pouco ou muito pouco, sabemos menos que o cego mais cego, pois que mesmo o cego pôde um dia enxergar ou, ao menos, escutar o trovejar das tempestades escuras; Mas nós que nem sequer além deste mundo enxergamos ou escutamos, queremos saber sobre o que havia antes dele, queremos enxergar antes de existir a luz!

Somos ousados, ó ateu. Mas o somos porque temos vontade para ser, porque amamos o saber. Longe de nós saber tudo, pois o que nos impulsiona é precisamente esta doce curiosidade do saber”.

Ante esta resplendorosa resposta, o homem que era chamado de ateu soltou um largo sorriso e se calou, visto que percebera ser a vez do nobre arcanjo retornar com sua explanação...

» A seguir, "O dogma e a paixão"

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Crédito da imagem: Anônimo

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