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19.2.14

A educação de Casanova, parte 5

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 4


5.

Acordei numa viela estreita com o som das buzinas dos carros. Certamente não estava mais em Beyazit, e nem mesmo naquele continente, a julgar pelo inglês tipicamente americano, tipicamente apressado, que ecoava pela noitinha daquele lugar.

Que lugar? A dúvida prevaleceu somente até que eu deixasse a viela e contemplasse a Las Vegas Boulevard, com todos os seus neons, toda a sua alegria e toda a sua superficialidade. Pessoas vinham de todos os cantos do mundo se divertir e apostar em Las Vegas, mas o que era feito por lá, ficava lá... Eram como pequenas vidas breves que ocorriam no espaço de uma semana de turismo e de desejos desenfreados.

Mas o que diabos Asik tramava, o que queria me ensinar me enviando para tal lugar? Seria um teste? Será que ele acreditava que o velho Giacomo, o entediado, ainda estava no controle? Será que ele realmente achava que eu iria novamente me entregar aquela vida? Não vou negar que esta suposta desconfiança me deixava um tanto chateado – isso não era o costume de meu amigo.

Então ele se aproximou, sem que eu pudesse percebê-lo, e encostou levemente em meu ombro:

“Hola, Giacomo, bem vindo aos prados de neon!”

“Porque fez a Deusa me trazer até aqui? E porque aqui? E porque este chapéu de cowboy ridículo?”

“Ora, Giacomo, se me fosse conveniente apresentar-me como místico em todas as paragens, andaria sempre vestido com meu manto. Mas hoje em dia as pessoas não acreditam mais em místicos, então eu uso este chapéu, para que acreditem em mim, para que me chamem de ‘normal’ e me deixem em paz...”

“E qual é a lição que vim aprender aqui? Ou por acaso ainda não acredita que o velho Giacomo se foi?”

“Ora, meu velho amigo, lições aprendemos todos os dias, mas isto não significa que devemos abandonar quem fomos... Somos o que somos hoje exatamente por havermos sido o que fomos ontem. Não há nada por ser abandonado, nenhuma culpa intransponível, nenhuma fera por demais monstruosa. Todas as lições que aprendi até hoje, ao menos as que me serviram de alguma ajuda, foram lições de domesticação – domesticação das feras interiores!”

(era impressionante como o pensamento de Asik estava sempre pelo menos duas ou três voltas à frente do meu)

“Bem, neste caso fico feliz que não esteja duvidando de meu progresso na Grande Arte da Putaria. Mas, ainda me resta uma enorme dúvida acerca do que exatamente viemos fazer nesta Boulevard?”

Asik então apenas respondeu, “Ver os ursos dançantes, ora essa”, e em seguida chamou um taxi, no qual entramos e seguimos até uma distinta casa de festas a cerca de três ou quatro quilômetros da Boulevard.

Eu estava, é claro, um tanto curioso e cheio de questões acerca dos tais “ursos dançantes”, mas sabia que seria inútil tentar tirar mais alguma informação de meu amigo. Se havia uma coisa que ele prezava, era guardar mistério acerca dos eventos aos quais me conduzia...

Chegamos enfim num largo salão com um pequeno palco num canto, e cerca de quarenta ou cinquenta cadeiras e algumas mesas cheias de drinks e salgadinhos finos. Estava ainda vazio, e toda a informação que pude conseguir era a ilustração de uma cabeça de urso rechonchuda e circular, que mais parecia um personagem de desenhos animados infantis, e se encontrava acima do palco – seria uma festa para crianças?

“Não, não serão crianças que virão aqui a esta hora da noite, Giacomo” – disse Asik, prevendo meus pensamentos quando fiquei encarando a ilustração – “mas em todo caso devemos nos esconder ali naquele canto, pois que tampouco se trava de um evento para homens, ou mitos masculinos.”

E, enquanto nos escondíamos atrás de uma pilastra circular, o portão principal da casa de festas foi aberto (só então percebi que havíamos entrado sem convite) e dezenas de mulheres, algumas jovens, outras nem tanto, mas todas muito bem trajadas, adentraram o salão e se acomodaram, alegres, nas cadeiras.

Uma delas parecia ser a mais festejada de todas, atraindo todos os olhares para o seu vestido azul escuro com um decote que faria o velho Giacomo quase saltar do esconderijo em sua direção... Mas o que diabos era aquilo, afinal, uma festa de aniversário somente para mulheres? Tive de encerrar aquele mistério ali mesmo:

“Asik, meu amigo, o que diabos essas mulheres vieram fazer aqui? O que isso tem a ver com ursos?”

“Dançantes! Ursos dançantes, meu caro Giacomo... Viemos contemplar a maior festa dos casamentos de Las Vegas, a que ocorre ainda antes, a despedida de solteira!”


***

Esta foi a quinta parte de A educação de Casanova, por raph em 2014.
Comece a ler do início | Veja a sexta parte


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5.2.14

Encontrando Eu

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).


Noutro conto anterior desta série eu falei, de forma um tanto breve, sobre o meu encontro com o meu Eu [1], e agora chegou o momento de relatar com maiores detalhes este e os outros dois encontros que eu tive com tal entidade nesta vida, ao menos até o dia de hoje...

I

Na primeira vez que o vi, estava em realidade “viajando” dentro de minha própria mente, e o meu primeiro impulso foi o de considerá-lo alguma espécie de guia espiritual que apareceu para me guiar pelo percurso.

No entanto, bastou eu me aproximar mais (o “cenário mental” era o de uma área plana e gramada, se é que isso tem alguma importância) para tomar um dos maiores sustos da minha vida e perceber que em realidade estava, de uma forma um tanto estranha, encarando a mim mesmo e, ao mesmo tempo, encarando tudo o que eu sou, muito, muito além do que o meu ego acredita ser nesta vida – gota de inúmeras outras.

O que a distância parecia uma pessoa, de mais perto lembrava mais uma carcaça humana com uma luz tão forte em seu interior, que a irradiava para fora, principalmente pelas cavidades dos olhos e da boca. A imagem moderna mais próxima que já encontrei disto que presenciei em minha mente foi vista numa série de desenho animado baseada na mitologia oriental em geral: Avatar, A Lenda de Aang (talvez já tenham visto também, e vão saber de qual tipo de imagem estou falando) [2].

Conforme descrevi no outro conto, eu mal consegui me aproximar de Eu, e mesmo os poucos momentos em que o encarei me trouxeram, na época, o maior medo que já havia me lembrado de haver sentido. Não se tratava de um medo racional ou de um medo de ser ferido ou morto fisicamente, mas um medo que vinha do fundo da alma: o medo de saber de tudo o que fui e de tudo o que fiz, de bom ou de mal, em inúmeras vidas, e talvez ir até muito além disso... Enfim, é o tipo de coisa que as palavras, essas cascas de sentimento, não conseguem transmitir. Um PUTA MEDO talvez fosse a tradução mais correta.

Essa experiência que ocorreu durante a minha primeira regressão de memória foi tão forte, embora brevíssima, que até hoje lembro mais dela do que do restante da regressão (apesar de o restante ter sido um tanto impactante, conforme falo no outro conto). Fato é que, apesar de eu ter ficado petrificado de medo ante Eu, a mesma força que me mantinha paralisado carregava uma semente de curiosidade, uma vontade oculta de, quem sabe numa próxima vez, conseguir me aproximar mais, conseguir ter a coragem genuína de vê-lo face a face. O que sei é que não seria fácil, e que dependia somente de mim mesmo conseguir agir de outra forma, se me fosse dada outra oportunidade para tal encontro divino.


II

É então que se passam alguns anos e eu o encontro novamente num sonho. Não me lembro exatamente do ano, mas na verdade me lembro dele como se fosse ontem... Eu só sei que ele ocorreu em algum momento entre os anos 1999 e 2003 porque anotei sobre a regressão em 1999, e até 2003 dormia no mesmo apartamento onde tive o sonho, na zona sul do Rio de Janeiro.

No sonho, eu me aventurava numa torre escura, medieval, como alguma espécie de espião, ou simplesmente um curioso. Como todo sonho, a forma tem bem menos importância que a simbologia, e a simbologia tem ainda menos importância do que os sentimentos vivenciados. Eu tenho quase certeza que teria me esquecido deste sonho, como me esqueço de quase todos, se não fosse pelo desfecho dele...

Voltando ao sonho: Eu subia pelos degraus antigos e espiralados desta torre com a sensação avassaladora de que estava me aventurando em terreno proibido, e que os segredos que ela encerrava estavam ocultos por um bom motivo – mas mesmo assim eu, como grande curioso, me arriscava na busca por os desvelar.

Em dado momento cheguei onde aparentemente queria chegar, uma sala relativamente grande cheia de estantes de madeira velha com grandes livros e tomos empoeirados. Pelo fato de ter lido muitos livros de J.R.R. Tolkien e de haver jogado Role Playing Games, provavelmente as imagens mentais foram influenciadas pela chamada Fantasia Medieval, mas fato é que, em essência, eu estava ali, em terreno proibido, tendo acesso a segredos e informações que não eram acessíveis a qualquer um. Era um misto de excitação e medo de ser pego.

Medo? Para que falar nele de novo, não é mesmo? Eis que, quando estava lendo as primeiras linhas do primeiro tomo que retirei da estante mais próxima, surge um velho num manto negro na entrada da sala, de barbas e cabelos grandes e muito brancos, e um olhar raivoso.

Por um breve momento, ainda antes que ele esboçasse qualquer reação, pude reconhecê-lo: era Eu, novamente Eu, e todo aquele “aparato simbólico” do parágrafo anterior era tão somente minha imaginação tentando dar forma humana ao que está além de toda forma...

“SAIA IMEDIATAMENTE DAQUI”, foi o que a entidade gritou (sem usar a boca, como é comum nos sonhos). E, no momento seguinte eu estava correndo, desesperadamente, até que quase me choquei com a porta da cozinha!

Sim, eu havia não somente acordado e saltado da cama, como saído do meu quarto e atravessado todo o corredor do apartamento até quase me esborrachar na porta fechada da cozinha. E, sim, eu já não estava mais sonhando... Nunca tive outro sonho tão intenso em toda esta vida.


III

Finalmente, o último encontro que tive com Eu foi há poucos anos atrás, num Centro Espírita da cidade onde moro atualmente, Campo Grande.

Neste Centro Espírita, aos finais de semana há um encontro chamado Oficina dos Sentimentos, onde as práticas lembram muito mais uma terapia de grupo, com alguma meditação transcendental, do que os rituais espíritas mais conhecidos. Pois bem, e foi exatamente numa dessas meditações, cujo tema eu já nem me lembro mais qual era [3], que encontrei Eu novamente.

Era um belo cenário natural, que eu normalmente “evoco” em minha mente durante os rituais espiritualistas em geral, com montes e planícies verdejantes, uma cachoeira a distância e um pequeno córrego a atravessar a paisagem. Eu estava no topo de um monte e percebi que Eu estava no outro, distante o suficiente para que eu o pudesse observar, desta vez sem nenhum grande medo. Eu o reconheci prontamente, e aquela primeira curiosidade, aquela vontade genuína de caminhar em sua direção, floresceu novamente em meu coração.

A entidade sorriu, e apontou para o espaço gramado que separava o seu monte do meu. Ali havia um caminho, sinuoso, que parecia simbolizar que ainda precisaria dar muitos passos para que pudesse, finalmente, o ver face a face, sem medo, sem dúvidas ou certezas.

E todo o medo que eu senti em nosso primeiro encontro agora aparecia na mesma intensidade, só que em outra forma, em outra sensação – uma sensação de entusiasmo, entusiasmo, entusiasmo! Valia a pena viver, e seguir naquela via sinuosa, contanto que soubesse que, a cada passo, o momento de nosso encontro se aproximava. Um passo de cada vez.

Há muitas informações desencontradas acerca do que é exatamente este Eu. Dentre outros problemas em descrevê-lo objetivamente, há o fato de que o Eu é também eu mesmo, de modo que existe o “meu eu” e o “seu eu” e o “eu de cada um”. Mas eu não usei maiúsculas sem uma boa razão: ocorre que o “eu de cada um” é também uma parte, um reflexo no espelho, da Luz do Sol, do Eu Maior, do Ser que preenche e dá vida a todos os seres do Cosmos, e do próprio Cosmos.

E a sensação que se sente ante este encontro com a Vida, e com a ânsia da Vida por si mesma, é algo que foge tanto da linguagem que qualquer tentativa de captura-la seria tão frutífera como tentar capturar um raio solar com as mãos...

Um PUTA ENTUSIASMO talvez fosse a tradução mais correta.


***

Entusiasmo (do grego en + theos, literalmente “em Deus”) originalmente significava inspiração ou possessão por uma entidade divina ou pela presença de Deus. Atualmente, pode ser entendido como um estado de grande arrebatamento e alegria.

***

Tu que és eu mesmo, além de tudo meu;
Sem natureza, inominado, ateu;
Que quando o mais se esfuma, ficas no crisol;
Tu que és o segredo e o coração do Sol;

Tu que és a escondida fonte do universo;
Tu solitário, real fogo no bastão imerso;
Sempre abrasando; tu que és a só semente;
De liberdade, vida, amor e luz eternamente;

Tu, além da visão e da palavra;
Tu eu invoco; e assim meu fogo lavra!
Tu eu invoco, minha vida, meu farol,
Tu que és o segredo e o coração do Sol

E aquele arcano dos arcanos santo
Do qual eu sou veículo e sou manto
Demonstra teu terrível, doce brilho:
Aparece, como é lei, neste teu filho!

O Ofício do Hino, Aleister Crowley (trad. Marcelo Ramos Motta)

***

Senhor, tu és meu amante, meu anseio, minha fonte eterna, meu Sol, e eu sou teu reflexo. O dia de meu despertar espiritual foi aquele em que eu vi, e soube que eu vi, todas as coisas em Deus, e Deus em todas as coisas.

Mechthild von Magdeburg, mística católica alemã

***

[1] Ver Abrindo portas na mente (o encontro é descrito nos trechos finais da primeira parte).

[2] A imagem que ilustra este conto foi retirada desta série animada.

[3] Cada encontro tinha um tema geralmente atrelado a um sentimento. Poderíamos estar meditando sobre “a raiva” ou “o amor”, coisas assim.

Crédito da imagem: Avatar, A Lenda de Aang (Divulgação)

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19.1.14

Esperando Jesus, parte 2

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

« continuando da parte 1

É claro que eu me recusei a participar dos “turnos” da vigília pela madrugada. Se eu bem compreendi na época, muitos dos jovens que participavam das vigílias nos retiros consideravam, não se sabe se simbolicamente ou literalmente, que Jesus poderia aparecer a eles, seja às 3h ou 4h da matina, e dizer algo como:

“Oi, fico feliz que tenham me aguardado, eu finalmente retornei ao mundo!”

O que me pareceu puro absurdo naquela época, entretanto, foi melhor compreendido quando cheguei a conhecer, muitos anos depois, a entrevista de Joseph Campbell, um dos maiores estudiosos de mitologia do século passado, para Bill Moyers. Esta célebre entrevista rendeu um livro e também uma série de vídeos, dentre os quais retirei a passagem abaixo, que trago aqui como forma de ilustrar melhor o que eu quero dizer:

Queremos pensar em Deus. Deus é um pensamento. Deus é uma ideia. Mas a sua referência é algo que transcende o pensamento. Ele existe além da existência... Além da categoria de ser ou não ser. Ele existe ou não? Nem existe, nem não existe. Qualquer deus, qualquer mitologia ou qualquer religião são verdadeiros nesse sentido... Assim como uma metáfora do mistério humano e cósmico.

Quem pensa que sabe, não sabe. Quem sabe que não sabe, este sim, sabe. Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana?

Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental.

Portanto, embora muitos dos jovens naquele retiro talvez acreditassem realmente que Jesus poderia chegar na capela durante a madrugada, literalmente em carne e osso, ainda assim esta crença não merece ser alvo do deboche costumeiro dos descrentes (incluindo a mim mesmo, na época).

Pois que, se pensarmos no Cristo como uma metáfora para o nosso eu angélico, que anseia por domesticar seu lado animal (não acho que a crucificação seja necessária, mas enfim) e renascer como um ser mais humano, que deixou de olhar para o pântano dos desejos desenfreados, e agora mira na senda do Paraíso (com ou sem piscinas), então temos que esperar pelo Cristo nas madrugadas é não somente um ritual belíssimo, como potencialmente transformador. Muito mais profundo do que apenas confessar pecados e repetir orações decoradas...

E, se anteriormente tais jovens viviam de crenças literais, não importa tanto assim, pois o importante é a experiência. Da teoria eles podem ler e compreender melhor depois, mas a experiência religiosa é o que conta, e isto eles já estavam tendo desde cedo – neste sentido posso compreender perfeitamente como a prática dos rituais católicos também ajuda a moldar uma alma mais aberta para a luz do Alto, e mais predisposta a ser incendiada pelo Amor. Não vejo porque se ter vergonha de haver participado deste tipo de ritual (embora certamente na época eu pensasse de outra forma).

Na manhã do outro dia fui “carinhosamente” levantado da cama pelas canções religiosas. Eram três jovens percorrendo todos os quartos e acordando todo mundo. Dois deles dedilhavam seus violões, enquanto outra cantava, felizmente, até com bastante afinação. Nem me lembro da hora que acordei – uma das características interessantes desses retiros espirituais é que facilmente perdemos a noção da hora (e, naquela época, vale lembrar, ninguém tinha celular).

Eram canções que se estendiam pelo café da manhã, almoço, e até o início da última tarde de orações na igrejinha. Ainda me lembro de alguns refrãos até hoje...

Eis que faço novas todas as coisas,
Que faço novas todas as coisas,
Que faço novas todas as coisas! [1]

Voa Jesus pequeno pássaro,
Vamos cantar seu louvor,
Aleluia, aleluia, aleluia! [2]

Embora eu tivesse estranhado a proibição de usar a piscina, a estranha obsessão com pecados, e até mesmo o conselho de se tomar banho de água fria para “evitar a vontade da masturbação” [3], foi durante toda aquela cantoria, divina cantoria, que pude compreender um pouco melhor toda a alegria que brota da experiência religiosa genuína.

Eu certamente não entraria para algum grupo católico e dificilmente tão cedo iria participar de outro retiro daquele tipo (e até hoje não participei), mas isto não significa que eu não houvesse compreendido, de alguma forma, o porquê daqueles jovens haverem escolhido aquela doutrina e aquelas práticas religiosas – havia, certamente, uma grande alma em toda aquela música cantada em voz de dentro; e como disse um poeta, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

Mas isto não foi tudo. Talvez todo este relato nem merecesse estar aqui se não fosse pelo que presenciei nas orações da última tarde. Ao contrário da tarde anterior, quando houve muitas palestras, esta foi inteiramente dedicada ao ritual e as orações. Eu certamente mal me lembro dos rituais hoje em dia, mas há algo que dificilmente esquecerei: as católicas (sim, porque acredito que eram todas mulheres) que oravam e oravam e oravam, intensamente, até entrarem nalguma espécie de transe e simplesmente desabarem no chão!

Eu vi meninas chaparem, literalmente, a cabeça no chão, após um momento de transe intenso, e serem deixadas ali, deitadas, até que acordassem por conta própria logo depois...

Como observei bem que nenhuma delas se machucou com gravidade, embora certamente fosse o caso de haver pelo menos um certo derramamento de sangue, depois fui perguntar a uma amiga da minha prima sobre como nenhuma delas se machucou. Ela respondeu apenas que:

A gente não se machuca não. O Espírito Santo segura a gente e nos protege”.

Bem, eu certamente não vi o Espírito Santo amortecer a queda de nenhuma delas, mas certamente foi impressionante ouvir todos aqueles estrondos no piso de madeira da igrejinha e depois não ver nem uma gota de sangue no chão.

De resto, findara a tarde e todos retornamos para o Rio no mesmo ônibus com o qual chegamos em Secretário. Felizmente não fez tanto calor naquele final de tarde, e eu até consegui voltar sentado ao lado de uma das amigas da minha prima em quem eu estava de olho...

Mas não rolou nada, eu era muito tímido, e em todo caso nunca gostei muito de banho de água fria.

***

[1] Refrão da letra de Paulo Roberto. Talvez lhe interesse ouvir para ter uma ideia do tipo de experiência que vivenciamos por lá:

[2] Trecho da música do grupo Canção Nova (com pequenas alterações).

[3] Conselho este que eu nunca segui (independente da masturbação), a não ser quando o chuveiro elétrico pifou, ou durante os apagões.

***

Crédito da foto: Rádio Catedral

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17.1.14

Esperando Jesus, parte 1

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Após algumas horas num ônibus sem ar condicionado, enfrentando o trânsito usual da saída do Rio de Janeiro para a região serrana, a visão daquela enorme piscina com água azul a refletir o sol de quase meio-dia era a imagem do Paraíso naquele exato momento.

Isto foi há cerca de 20 anos, em 1994, quando eu ainda era um adolescente viajando a convite de minha prima católica com o seu grupo da Igreja. Era um retiro católico formado na maior parte por jovens da Zona Sul carioca. Teoricamente não havia perigo algum, e seria uma excelente oportunidade para conhecer mais do catolicismo. Mesmo assim, houve quem dissesse, na minha família, para “ter cuidado com a lavagem cerebral”...

Eu nunca tive educação religiosa, e mesmo assim sempre me interessei muito por religião. Mas é preciso deixar claro que religião não é o mesmo que igreja: religação a Deus é uma coisa bem distinta de “uma comunidade dos eleitos de Deus”. Eu não buscava nenhuma “salvação”, desta forma, tampouco algum “céu prometido”; queria apenas conhecer a Deus, e a melhor forma sempre me pareceu ser a via da contemplação e da observação de todos aqueles que já estavam aqui antes de mim a buscá-lo – afinal, alguém deve ter achado algum atalho que eu ainda não conhecia.

Mas o atalho para o mergulho naquela piscina me foi barrado. Quando perguntei a uma amiga da minha prima se a gente podia colocar roupa de banho para mergulhar ainda antes do almoço, ela respondeu assim:

“Está doido? Isto aqui é um retiro espiritual; aqui ninguém pode ficar com pouca roupa, e daí ninguém pode mergulhar!”

Eu então pensei comigo mesmo, “Tudo bem, tudo bem, só vamos ficar aqui de hoje para amanhã, não pode ser tão ruim assim”...

Após o almoço simples, mas bastante saboroso, houve uma reunião na pequena igrejinha. Ao todo, o sítio em Secretário, cidadezinha próxima de Itaipava, no meio do caminho entre o Rio e Juiz de Fora, devia contar com cerca de 50 a 60 jovens católicos em retiro (além de mim), e uns 5 a 10 padres e/ou coordenadores. Alguns destes últimos também eram palestrantes, e usaram algumas horas daquele início de tarde para falar sobre passagens da Bíblia, a vida de Jesus, o amor, a fé, etc. – enfim, nenhuma novidade até ali.

Quando as palestras encerraram, entretanto, ocorreu algo curioso: os jovens se reuniram em pequenos grupos de 5 ou 6 pessoas e começaram a conversar entre si sobre a vida de cada um. Isto eu achei bem interessante, pois como era muito tímido, me dava uma oportunidade de “quebrar o gelo” com aquele pessoal na maioria desconhecido até então.

O problema foi quando apareceu um dos padres no nosso grupo, e começou a perguntar sobre “o problema de cada um”. O que se seguiu foi uma espécie de terapia em grupo, onde cada um falava sobre suas inseguranças e angústias, etc. Foi quando finalmente chegou a minha vez:

“Mas, seu padre, eu não tenho problema nenhum, ou pelo menos não me lembro de nenhum em especial para falar agora”.

“Tem certeza, meu filho?” – respondeu o padre com um olhar inquisitivo – “Você não sabe que todos somos pecadores? Confesse-nos um dos seus pecados; confie em mim, vai ser melhor resolver isso logo, e com as bênçãos de Deus!”

Mas a minha prima não me disse de nada daquilo, eu não estava preparado para aquela espécie de terapia – na verdade praticamente um confessionário. Eu nunca havia ido à igreja alguma me confessar e sinceramente não prestava atenção especial a nenhum dos meus pecados...

Assim, como insisti em não me “confessar”, passei a ser malvisto pelo padre e pelos outros jovens do grupo. Achei aquilo tudo péssimo, pois como era bem tímido na época, já começava a imaginar os comentários que se seguiriam, “Sabe o Rafael, primo da Alessandra [1]? Pois é, veio até aqui e não teve coragem de se confessar!”

Muito tempo depois, relembrando o ocorrido, refleti sobre como o ato de confessar, e a certa obsessão com os pecados, é parte tão importante do dia a dia espiritual da maioria dos católicos (eu quero dizer, católicos praticantes). Nunca me pareceu lógica, filosófica ou espiritualmente, a ideia de que Jesus veio a Terra para pagar por nossos pecados na cruz. Ainda que fizesse sentido que alguém pudesse redimir os pecados de outro alguém (e eu não acho que faz sentido algum), o que seria dos novos pecados? Ou será que Jesus teria de retornar a Terra, de tempos em tempos, para ser novamente crucificado e nos redimir? A ideia sempre me pareceu estranha, realmente estranha!

Mas me agradava a ideia de que poderíamos nos redimir de nosso pecados nos confessando. Na verdade a origem etimológica da palavra “pecado” vem de um conceito de “errar o alvo”. E, quem erra o alvo, pode sempre tentar de novo, contanto que não desista deste alvo. O problema não é bem errar, mas insistir no erro, e fingir que está tentando acertar apenas se confessando como quem conversa com um poste (ou um bode [2]), e recitando orações decoradas para “se redimir”.

Ora, sem a alma não dá, não há espiritualidade genuína sem que a alma esteja presente em cada desejo, em cada vontade, até que elas se tornem a boa ação. E a maior das boas ações é a reforma de si mesmo, a alquimia interna, a construção do Céu em nossa própria consciência: um pensamento de cada vez. Acertar um alvo, para então mirar o próximo, ad infinitum!

Em todo caso, na época eu não tinha esta maturidade toda, e optei por me afastar um pouco do grupo e ir caminhar pelos montes em volta da área do sítio, contando vacas e bois nos outros montes próximos, ouvindo o piar dos passarinhos e o som do vento a escorar pelos ombros e pelo gramado que insistia bravamente em crescer em cada palmo de terra... Até que veio o pôr do sol, e eu achei por bem retornar para o quarto onde iria dormir naquela noite.

Foi quando botei os pés no quarto de duas beliches, onde dormiria com três outros jovens (todos homens, é claro), que me deparei com a pergunta mais insólita de todo o retiro:

“Oi, aí está você fujão! Não pense que vai se safar da vigília hoje hein? Me diga aí, você prefere esperar Jesus das 3h até às 3:30h, ou das 4:30h às 5h?”


» Na continuação, Jesus pela madrugada, belas músicas, e orações intensas!

***

[1] Todos os nomes, afora o meu, são fictícios.

[2] Nas cerimônias hebraicas do Yom Kipur, dois bodes eram levados, juntamente a um touro, ao lugar de sacrifício. No templo os sacerdotes sorteavam um dos bodes. Um era queimado em holocausto no altar de sacrifício com o touro. O segundo tornava-se o bode expiatório, pois o sacerdote punha suas mãos sobre a cabeça do animal e confessava os pecados do povo de Israel. Posteriormente, o bode era deixado ao relento na natureza selvagem, levando consigo os pecados de toda a gente.
Na teologia cristã, a história do bode expiatório é interpretada como uma prefiguração simbólica do autossacrifício de Jesus, que chama a si os pecados da humanidade, tendo sido expulso da cidade por ordem dos sacerdotes.

***

Crédito da imagem: William Holman Hunt ("O Bode Expiatório")

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16.12.13

A identidade da luz

Esta história se passa na época em que Shams de Tabriz, célebre místico sufi, havia abandonado Konya rumo a Damasco, voltando a ser um andarilho anônimo. Também participam dela Sultan Walad, filho de Rumi, assim como o jovem estrangeiro, que era um buscador espiritual vindo da França, e o velho teólogo. Não há necessidade de sabermos seus nomes.

Shams havia ganho todas as rodadas do jogo de dados com o jovem estrangeiro, e como isto valia algum dinheiro – não que Shams necessitasse dele –, o jovem estava a ponto de lhe atacar com sua adaga, pois estava certo de estar sendo trapaceado pelo andarilho desconhecido.

É nesse momento que Sultan Walad, primogênito de Jalal ud-Din Rumi, o maior dos poetas sufis e fundador da ordem dos dervixes rodopiantes, adentra a taverna e deposita dois potes cheios de moedas de ouro e prata aos pés de Shams, implorando – em nome do pai – que ele retornasse a Konya.

Foi então que o jovem estrangeiro guardou sua adaga e, se prostrando a sua frente – como se fosse, ele também, um pote – pediu para ser seu discípulo. O jovem havia tomado ciência da magnitude espiritual daquele andarilho que jogara dados em sua companhia. “Certamente foi com ajuda divina que ele ganhou todas as rolagens”, pensou.

Shams, entretanto, pediu que Walad guardasse todo aquele ouro e prata com ele e que o aguardasse de manhã na entrada da taverna, pois ele aceitaria o convite de seu grande amigo.

“E quanto a mim”, perguntou o jovem, “poderei ser seu discípulo? Poderei acompanhá-lo até Konya?”

“Não, pois você terá muito o quê fazer noutro lugar. Mas pode me acompanhar na contemplação da luz da lua.”

E eles saíram da taverna e se embrenharam em uma viela estreita que dava numa praça aberta com alguns arbustos e um velho poço no centro. A luz da lua cheia era tão forte que um leve esbranquiçado pairava sobre todas as coisas da noitinha, e as estrelas pareciam mais tênues.

Shams parou em frente a beirada do poço e, se esticando um pouco, fitou a escuridão abaixo.

“O que você está observando aí embaixo?”

“Venha ver, está para acontecer em breve...”

E então, após alguns minutos de escuridão, uma luz tênue começou a irradiar das águas do poço. Era o reflexo da lua!

O jovem estrangeiro sentiu uma emoção estranha ao encontrar a lua cheia no fundo daquele poço, mas sua emoção foi bruscamente interrompida pelo aconselhamento de um velho teólogo que os havia seguido até ali:

“Bah! Você, andarilho louco, não passa de um infiel, e ainda quer corromper aos jovens... Muito cuidado, meu caro estrangeiro, pois o objeto de nosso louvor deve ser a lua, que está lá no alto da noite, e não o seu reflexo, embrenhado em tal escuridão. Sua infidelidade nasce de um engano, e eu lhe perdoo. Mas não há perdão para você, andarilho, que Allah o castigue!”

E, como Shams não esboçou reação alguma, o velho retornou bamboleando pela rua, e seus resmungos foram se tornando cada vez mais baixinhos, trazidos pela brisa, até que sumiram por completo.

O jovem estrangeiro ficou indeciso sobre em quem confiar. Aquele andarilho místico parecia um feiticeiro, e ele se sentia atraído por sua presença. Mas, seria esta atração fruto de sua magnitude espiritual, ou de sua magia sedutora?

“Antes que me pergunte, devo dizer que o velho estava certo: não devemos confundir a lua com seu reflexo.”

“Mas, então, o que foi isso? Um teste?” – indagou o jovem, crendo que havia falhado...

“Teste? Não eu não faço testes, eu apenas contemplo o mundo. Olhe para o poço mais um momento”.

E, enquanto o jovem observava o reflexo da lua nas águas do poço, Shams cantarolou um breve poema. Ele dizia mais ou menos assim:

Se olhar a sua volta,
poderá encontrar a face de Deus
em cada pequena coisa.
Ele não se esconde numa igreja, mesquita ou sinagoga,
mas se espalha sobre tudo que há.

Ninguém vive após vê-lo face a face.
Ninguém morre após vê-lo face a face.
Aquele que o encontra, permanece com ele
na Eternidade!

Enquanto refletia e se emocionava com tais palavras, o estrangeiro pôde perceber que a imagem da lua refletida começou a arder em chamas alaranjadas e etéreas... Era como se estivesse sonhando... Mas, quando o fogo cresceu e ameaçou jorrar para fora do poço tal qual uma erupção vulcânica, ele se assustou e se jogou ao chão, acovardado.

“Não se preocupe, isto é normal. Ninguém nasce preparado para morrer neste fogo. Nossa vida é um aprendizado para esta morte. Um dia você conseguirá, como eu, de bom grado ser imolado por essas labaredas.”

“Mas, o que era todo aquele fogo? De onde veio essa luz toda?”

“Dos reflexos. A lua que vê no fundo do poço é somente um pálido reflexo da lua verdadeira, que reside no céu. Porém, mesmo esta lua do céu é ainda tão somente um espelho para o sol. É o fogo do sol o que viu, meu rapaz, e sua luz têm a mesma origem e a mesma identidade de todas as outras luzes do mundo; e o Amado está, dessa forma, sempre a nossa volta.

Você está preparado para vê-lo face a face?”

“Não, mas você me ensina?”

E foi isto o que Shams lhe respondeu:

“Retorna à Europa; visita os buscadores de lá, seja o seu líder e recorde-se de nós em suas orações. Não há nada que possa lhe ensinar com palavras que já não tenha sido despertado em seu coração. Busque o fogo, meu amigo, que ele sempre esteve lá, ardendo no poço de sua alma...

Vai e incendeia o mundo!”


raph’13

***

» Saiba mais sobre Shams de Tabriz em Rumi - A dança da alma.

Crédito da imagem: eyesofodysseus

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7.10.13

Autoescola

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Hoje tive de acordar cedo para ir a autoescola com o meu Manual de formação de condutor veicular debaixo do braço.

Dizem que o CONTRAN, o Conselho Nacional de Trânsito, é o “órgão máximo” do trânsito no país. Cada faixa amarela pintada no meio fio das calçadas, cada placa de parada obrigatória, cada gesto executado pelos guardas de trânsito foram pensados e definidos por tal Conselho através de um Código: o Código de Trânsito Brasileiro (C.T.B.).

Mas ainda que eu saiba do significado de cada placa, de regulamentação ou advertência ou indicação, e ainda que eu saiba de cada uma das centenas de infrações previstas e de quantos pontos tiram da carteira, ainda que soubesse de cada um dos itens obrigatórios para automotores, da diferença entre a distância de segmento e a distância de parada, ou mesmo o que diabo faz um canister, tudo isto, por si só, não me serviria sequer para retirar o meu carro da sua vaga na garagem...

Perdi a chance de haver tirado minha carteira há muitos anos atrás. Li tanto Platão, Lao Tse e Bhagavad Gita que, subitamente, tirar a carteira já não era nem a décima segunda prioridade da minha vida. Não precisava mais me preocupar em “ser mais homem” pelo fato de saber dirigir. Até hoje, quando chegamos no supermercado e eu salto do carona, enquanto minha esposa salta do motorista, surgem aqueles olhares do tipo, “Nossa, a mulher dele é motorista, vai ver ele deixa ela dirigir o carro fora do expediente”.

Na verdade eu deixo ela dirigir o carro sempre, e não tenho a menor pretensão de dirigir um dia melhor do que ela, que tem anos de prática a mais do que eu. Agradeço por ter alguém que me completa na vida, e também por não ligar, mesmo, para o que os outros pensam do fato de eu sempre saltar do motorista.

Ainda assim aprender a dirigir pode ser uma experiência filosófica por si só. Tenho amigos que tiraram a carteira quando as 45 horas de aulas teóricas sequer existiam. E eu disse há pouco que toda a teoria do mundo não me ensinaria, por si só, a prática da direção. É a mais pura verdade.

No entanto, a prática crua, sem um ensino teórico inicial, tampouco me parece ser uma boa solução... Ora, há muitos que frequentam as aulas teóricas somente pela obrigação de frequentar, não se atentam aos motivos ocultos por detrás de cada lei e de cada recomendação do Código de nosso trânsito. Eu, como filósofo, não poderia deixar de nota-los.

Pegue o sinal amarelo do semáforo, por exemplo: “indica atenção, devendo o condutor parar o veículo”. Penso eu que o sinal amarelo do semáforo diz muito sobre nós enquanto seres humanos.

Esqueçamos a madrugada, quando existem bons motivos para não se parar o carro: no dia a dia do trânsito, a grande maioria dos motoristas, ao invés de frear o veículo ao avistar o sinal amarelo, acelera ainda mais, para ganhar, quem sabe, dois ou três minutos, por serem gastos no próximo congestionamento (geralmente um pouco mais a frente).

Diz no Código que os cruzamentos são, de longe, o local mais perigoso do trânsito, e onde ocorrem a maioria dos acidentes. Um acidente de trânsito, ainda que não acarrete mortes ou ferimentos graves, ainda que não acarrete ferimento algum, no mínimo vai acarretar a perda de várias dezenas de minutos pela espera da polícia, registro da ocorrência, acionamento do seguro, etc. Ainda assim, a grande maioria prefere arriscar e fincar o pé no acelerador no momento em que veem um sinal amarelo.

É como se o motorista dissesse, na verdade, assim: “seja esperto e acelere para ganhar tempo, você deve estar com pressa não?”.

Um dia visitei Brasília e fiquei boquiaberto com o fato de lá ser comum os carros pararem para os pedestres atravessarem nas ruas de pouco movimento, ainda que fora da faixa. Me perguntei quanto tempo e quantas gerações seriam necessárias para que a população de Rio e São Paulo fosse educada da mesma forma. Não é quase um milagre isto que ocorre em Brasília?

Há uma filosofia no C.T.B. que me parece muito interessante: os elementos mais frágeis do trânsito tem preferência de passagem sobre os mais fortes. É assim que os pedestres tem preferência sobre todos os demais, tirando os trens, porque um trem demora muito tempo para frear e as viagens seriam inviáveis se os trens tivessem de parar para dar passagem aos pedestres a atravessar os trilhos. E também, penso eu, porque um trem nada mais é do que um conjunto de pedestres viajando em comboio.

Outro dia sonhei que Lao Tse havia deixado de lado o seu carro de bois e resolveu atravessar a cidade num carro popular...

Sempre que via um pedestre esperando para atravessar a rua, ele freava, não importa aonde nem quem vinha atrás.

Ora, quem vinha atrás apressado o xingava dos nomes mais chulos, mas ele estava mais interessado no olhar de gratidão daquele que obtinha sua chance de travessia.

Com o tempo, os pedestres se reuniram e compraram um ônibus de turismo para que Lao Tse pudesse mostrar a cidade aos que chegavam. E sempre que via um de nós querendo atravessar, parava e nos saudava. Os turistas, que já não estavam assim tão apressados, foram se encantando pela gentileza daquele distinto condutor.

Passaram os anos e ele se tornou uma celebridade local (para o seu profundo desgosto). Até em capa de jornal apareceu. Depois resolveram lhe dar um trem para que ele fizesse uma viagem por todo o Brasil, saindo de Manaus e chegando na Central do Brasil (lembre-se de que era um sonho)...

Não era trem bala. De fato, a viagem lavava meses, pois Lao Tse gostava de parar em cada cidadezinha e conversar com seus habitantes, conhecer a comida, jogar dama nas pracinhas... Ainda assim muita gente gostava da viagem, quem não era aposentado tirava todo o mês de férias para acompanhar um trecho dela, sem saber ao certo onde teria de parar para pegar um ônibus e um avião para casa.

Dizem que no território nacional a velocidade máxima de qualquer automotor é de 110 quilômetros por hora, mas Lao Tse era um maquinista especial, e ganhou do Imperador de Jade um trem de pura luz.

No final do sonho, todos viajaram com ele para a Eternidade. Foi aí que eu acordei.

Ainda não sei dirigir, mas na teoria, ah! na teoria eu já dei várias voltas pelo mundo.

***

Crédito da imagem: Google Image Search

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16.9.13

A educação de Casanova, parte 4

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 3


4.

Quando me recobrei de minhas reflexões ardentes, Asik já havia saído e a casa noturna já estava por fechar. Quase não reparava mais no cheiro de tristeza embriagada que pairava pelo ar viciado, nem me deixava carregar pelos olhares entediados dos demais... Meu amigo, meu grande amigo, havia me embriagado novamente com seu doce licor de vida, de pura e ardente vida!

Havia me deixado este bilhete, escrito num turco como era ainda usado séculos atrás:

“Bem vindo de volta a aventura, Giacomo. Aproveite a noite em Beyazit e, se for do seu agrado, rume para a Praça da Liberdade”.

Fiz o que a mensagem havia sugerido, porém sem nenhuma pressa ou angústia, pois já não me sentia apressado nem tinha nenhum senso de urgência para coisa alguma. Interessante como, quando estamos entediados e nada na vida nos interessa, ainda assim temos pressa de fazer alguma coisa, sabe-se lá o que! E, quando o tédio passa, quando enfim podemos realizar algo, sermos produtivos, mudar o mundo, que seja, subitamente não há mais nenhuma razão para se apressar...

Assim, como um indígena a apreciar as brisas que chegam dos vales e florestas, segui pelas vielas daquele bairro nem tão nobre nem tão vil, com as casas e prédios mais belos que via em décadas – simplesmente porque meus olhos estavam novamente atentos.

Vi grupos de amigos fumando narguilé na calçada oposta. Suas risadas, olhares e piadas soavam mais adocicados que o aroma dos fumos. Olhei-os como quem observa crianças a brincar pelo parque, tão livres e inocentes quanto sua consciência os permitia, e sorri, e meu sorriso era também um agradecimento por também haver feito tantos amigos ao longo dos séculos. Nenhum mito sobreviveria por tanto tempo sem amigos...

Caía uma garoa fina, finíssima, ou talvez fosse somente o efeito refrescante de se estar novamente são, ainda que embriagado e solitário numa viela mal iluminada de um bairro nem assim tão seguro de Istambul. Haveria de ser assaltado? Ofereceria meu coração, nesta noite ele é uma pedra preciosa a espera de ser levada!

Do lado oposto vinha um casal aos beijos. Subitamente o rapaz parou e atentou para minha pessoa. Veja esta: eu com medo de assalto e os outros com medo de serem assaltados por mim. Vamos parar com todo este medo, não vale a pena viver com medo, e se a morte quiser vir, que venha... Será breve e depois, bem ou mal, não teremos mais medo afinal de contas. Mesmo no Inferno eu só teria medo do que minha consciência poderia fazer de mim, só teria medo de me entediar novamente, e viver cego uma vez mais, na vida ou na morte. Não! Quero que esta embriaguez seja duradoura, quero chegar a Praça da Liberdade e prosseguir nesta aventura...

Passei pelo casal e acenei com um sorriso e um leve movimento de mão direita. O jovem casal era belíssimo, e a noite também, e não se importaram de sorrir de volta para mim, para logo após voltarem aos beijos apaixonados... Há tempos eu poderia marcar o rosto de menina tão bela, para tentar conquista-la noutro dia, como um troféu. Hoje, nesta noite aquecida pelo fogo de Asik, isto era totalmente desnecessário – bastava amar a vida para me imaginar como aquele belo rapaz a dar uns bons amassos na bela rapariga, como dizia o poeta de Lisboa. Nesta noite não era necessário nada mais do que a imaginação, e eu me sentia como um semideus.

A garoa passou e o suave lençol acinzentado da noite turca se moveu para outras paragens. No alto, por entre os pequenos prédios de Beyazit, a lua minguante mostrava-se, imponente, junto a estrela da manhã. A configuração rara lembrava a bandeira de inúmeras nações da região, inclusive aquela em que eu me encontrava naquele momento. Eu poderia me perguntar se isso significava alguma coisa, mas não o fiz: o céu noturno falava por si só, e a sua canção era divinamente silenciosa.

Mais alguns passos, algumas poucas quadras, e chegava na Praça. Ali, onde tantos jovens turcos se dirigiam para a Universidade, encontrei-a pouco antes do nascer do sol: seus véus brancos esvoaçantes foram carregados pelo vento, seu corpo estava frondosamente nu, rechonchudo com inimagináveis curvas, nádegas imensas, seios enormes e convidativos.

Corri, corri e me atirei neles, como um recém-nascido anseia amamentar. Bebi de seu leite aos borbotões, e ele tinha gosto de poeira de estrelas, do nascer de rosas e do escoar dos rios, de ciclos ininterruptos de estações e da formação e extermínio dos planetas. Bebi, e me embriaguei ainda mais. Eu, um mero aprendiz da arte de Asik, porém alimentado pela Mãe, adormeci como um bebê e sonhei que cavalgava o Cosmos inteiro no dorso de uma estrela cadente.


***

Esta foi a quarta parte de A educação de Casanova, por raph em 2013.
Comece a ler do início | Veja a quinta parte


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10.9.13

Estranho

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Há um tempo em que refletimos tanto sobre a existência que nos tornamos estranhos.

Eu mesmo sou mais estranho do que pensam. É preciso conviver comigo por longos períodos para perceber. Como Raulzito, não falo de amor quase nada – mas penso no amor a toda hora. Como Raulzito, não fico sorrindo ao seu lado – mas posso muito bem estar te amando, de maneira até mesmo muito séria! E tudo isto é mesmo muito estranho.

As vezes assisto ao Pânico na TV, as vezes ouço música no rádio, as vezes até mesmo como um quarteirão com queijo no McDonald’s... Não quero me distanciar tanto deste mundo, pois sei que sempre serei parte dele, e me distanciar seria me iludir; e deixar de ser estranho para ser apenas esquisito.

Ó Bernardo Soares, sou estranho, mas não esquisito!

Esquisito seria apenas me deleitar com as exibições espontâneas de bundas na TV, ouvir as rimas fáceis da rádio e me contentar apenas com elas, comer sanduíche todo santo dia... Estranho é reconhecer o machismo do mundo e procurar modificá-lo sem me alistar numa guerra; aceitar que existem gostos musicais os mais variados e que isto se desenvolve ao tempo de cada um; e admitir que há pessoas suficientemente sedentárias não somente em seu estômago, mas principalmente em seu pensamento.

Como mudar isso tudo? Sei lá como mudar isso tudo! Eu estou mais interessado nos 96% do universo que não interagem com a luz, na dualidade mente-corpo, em entender o que diabos é a consciência e como é possível que os hindus tenham imaginado esta quantidade exorbitante de deuses... Depois, se sobrar um tempo, procuro utilizar o que descobri de tanto mistério para melhorar a vizinhança.

Mas se eu estiver pensando em como Álvaro de Campos pôde compor poemas tão ruins ao lado das maiores pérolas da pátria da língua portuguesa, enquanto como uma batata frita caprichada no óleo, e uma garota na mesa ao lado me paquera imaginando que eu seja somente um pouco mais velho que ela, eu retorno o olhar... Porque isto devemos saber: todos os olhares de amor devem ser retornados, é por isso que o homo sapiens povoou o globo inteiro!

E não quer dizer que eu deva esquecer a poesia e ir dar em cima da garota da mesa ao lado, pois tudo tem o seu momento e não me arrependo nem lamento a minha juventude...

Outro dia Stephen Hawking comparou o corpo ao hardware e a mente ao software. Como cientista acadêmico, Hawking optou por ignorar a hipótese espiritualista, da mesma forma que até hoje ignoram Wallace e se lembram somente de Darwin. Já eu, como espiritualista estranho, não preciso ignorar a ciência nem sou forçado a isso pelo julgamento alheio – dentre outras coisas porque quero mais que o julgamento alheio se foda (mas curtam minha página no Facebook, ok).

Se a mente é o software, é de se supor por analogia que um dia construiremos finalmente uma máquina autoconsciente, capaz de interpretar e não somente computar. Acaso isto ocorra enquanto ainda estiver habitando este meu corpo de trinta e poucos anos, posso até mudar de ideia, mas ainda que meu corpo seja mumificado vivo, dificilmente estarei ainda nele se e quando uma máquina for capaz de interpretar a poesia de Pessoa.

Mas eu também gosto de analogias. Se a mente é o software, precisamos ir atrás dos sistemas operacionais... Preso em sua cadeira de rodas, a mente de Hawking, como sugere o nome, voa como um falcão por todo o Cosmos. Ainda assim, ela usa alguma espécie de sistema operacional não compatível com os aplicativos místicos – do tipo que não travam com números infinitos.

Vejam bem: se construirmos uma nave espacial capaz de viajar a velocidade da luz, a maior velocidade possível segundo o manual da Academia, ainda que voássemos em linha reta, quem sabe, mirando a galáxia mais próxima, haveriam galáxias tão distantes, tão distantes, que jamais alcançaríamos. Mesmo voando junto a luz, jamais! Pois há partes deste universo que se expandiram em velocidades maiores que a da luz, quando ele era ainda um minúsculo recém-nascido menor do que uma batatinha frita...

Então, meus caros acadêmicos, eu lhes pergunto: “Qual parte do Infinito ainda não entenderam?”.

Eu não entendi nenhuma parte, por isso parei de pensar sobre o assunto, e passei a sentir o assunto!

E assim, como Raulzito mitológico, como um legítimo místico, passei a considerar que todos nós, todos nós, compartilhamos e compartilharemos os mesmos sorrisos dos encontros e as mesmas lágrimas das despedidas.

E que o assassino compartilha sua existência com a vítima, e o juiz com o acusado, o vitorioso com o derrotado, o cientista com o espiritualista, o ateu com o religioso, o jovem com o velho, o homem com a mulher, a mãe com os filhos e os amantes com todos, todos os amados.

E a vida com todas as vidas, todas as formas do Cosmos conhecer a si mesmo, ontem e hoje e enquanto existir luz em meio ao vácuo do espaço-tempo...

É isto que todos os místicos sabem, e calam. Finjam que eu não disse nada disso. Finjam que sou somente mais um desses estranhos delirantes.

Mas finjam com convicção!

***

Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robinson

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19.7.13

Manifestações

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


A primeira manifestação da noite ocorreu dentro do ônibus.

Era um ônibus de integração do metrô carioca. Estávamos parados já há uns 20 minutos na rua em frente ao Jardim Botânico, e eu já havia analisado minuciosamente todos os painéis com fotografias ampliadas da exposição do Sebastião Salgado. Eu via aqueles indígenas em "trajes de festa" e pensava como em muitos pontos o sistema tribal nunca deixou de existir, apenas "evoluiu" e, quem sabe, se corrompeu.

A manifestação do ônibus opôs a tribo dos "classe média com pressa de chegar em casa" a tribo dos "funcionários do metrô que seguem as regras a risca". Geralmente essa tribo "classe média" até gosta muito que outras tribos sigam as regras a risca, mas não poder abrir a porta do ônibus fora do ponto após 20 minutos parados no mesmo lugar já era demais. Vencemos nossa manifestação (afinal, eu era da tribo "classe média" também) e pudemos saltar livres e faceiros para seguir a pé até a Gávea.

A Gávea foi onde cresci, cercado de montanhas e com vista para uma das maiores favelas urbanas do mundo (também conhecida como Comunidade da Rocinha). Segundo algum grande poeta do século passado, "o Céu era ter uma cobertura na Gávea". Eu concordo plenamente, mas dificilmente um dia terei uma, visto que desde que eu era moleque a Gávea passou de um bairro de classe média para um baixo de ricaços. Eu estava, portanto, fora da minha tribo...

No Shopping imponente da Marquês, entrei para tomar um café antes de ir encontrar com uma amiga nas manifestações na porta do prédio onde reside o governador Cabral, no Leblon (o Leblon já há muito tempo é um bairro da tribo dos ricaços; tirando aqueles que ainda residem com os avós, quem sabe). Lá dentro constatei que a conversa dos anciãos da tribo se referia, sobretudo, ao medo "da tribo da Rocinha haver descido"... É que o trânsito estava ainda totalmente parado, e havia boatos de uma "outra manifestação" na frente da Rocinha que estava trancando todas as vias que fluem para a Barra da Tijuca (que é praticamente outro país dentro da cidade do Rio de Janeiro).

Este "medo da descida da favela" tem rondado o imaginário da elite tribal há muitos anos. De fato, nunca ocorreu da maneira que temiam. O máximo que houve foi uma procissão pacífica (de algumas semanas atrás) até a porta do Cabral, e que tampouco recebeu qualquer resposta do governador na época. Mas fato é que alguma "eletricidade urbana" fluía e pairava pelo ar. Alguma espécie de estranhamento e de medo do novo se mesclava ao velho pensamento do "investimento conservador" em se manter tudo do jeito como está para ver como fica. Ocorre que os jovens nunca foram muito adeptos desse tipo de pensamento, e é sobretudo graças a eles que os pensamentos se renovam entre as gerações.

Eu fui caminhando até o Leblon e por muitas vezes agradeci aos céus por não ter um carro.

Chegando perto da praia, me deparei com uma fila indiana de cerca de dez policiais em trajes cinematográficos, que estavam ali parados de pé ao lado de uma árvore, impassíveis e muito sérios. Eu fiquei imaginando o que iria ocorrer mais tarde naquele dia, e também fiquei considerando quais seriam minhas "rotas de fuga" preferíveis se alguma algazarra lacrimogênea fosse eclodida. Aquela rua certamente não seria parte de minha rota... Em todo caso, fiz uma cara de "leitor feliz da Veja" e passei pelos policiais em direção ao mar.

No posto doze, em frente ao prédio do Cabral, encontrei minha amiga e seu namorado, e ficamos observando as projeções de vídeos dos manifestantes na fachada de outro prédio praiano que, convenientemente, era branco. Vimos muitas daquelas máscaras dos quadrinhos do Alan Moore. Não sei se leram, mas o personagem que usa a tal máscara não é exatamente "bonzinho", nem muito menos crê que uma manifestação totalmente pacífica é combustível suficiente para mudanças mais profundas na estrutura política de uma cidade ou país. E aquelas eram máscaras brancas, mas a minha volta eu via seres encapuzados assustadores por si mesmos, com máscaras totalmente negras, com seus sorrisos cromados refletindo a luz das câmeras fotográficas que disparavam sem parar. Era óbvio que estes seriam aqueles que entrariam em conflito com os policiais.

Lá no alto do céu havia dois helicópteros filmando tudo. Em algum canal que nunca desliga, toda a tribo de ricaços e classe média podia assistir a tudo como num filme... Mas havia também os cinegrafistas NINJAs, que filmavam in loco com câmeras de celular e transmitiam tudo ao vivo e online (com visão de videogame). Na internet, todos podiam agora ver o que realmente ocorria nesse tipo de manifestação, sem o "filtro interpretativo" do canal que nunca desliga.

Em dado momento, minha amiga me levou para conhecer a "fronteira" entre os manifestantes e a fila de policiais cinematográficos. Perto das grades reparei que havia uma aglomeração de observadores e repórteres que estavam todos interessados somente nessa área onde as agressões verbais são fartas e o conflito é iminente... Estranho ninguém filmar a gente de todas as tribos e idades (embora majoritariamente jovem, inclusive na alma) que rondavam o local e não estavam tão interessadas em passar horas gritando em frente aos policiais. Estranho ninguém captar o som das músicas animadas e das cirandas que ocorriam a poucos metros dali. Estranho ninguém haver tirado foto das "patricinhas" com suas máscaras de gás de última geração, perfeitamente trajadas para a ocasião (e que pareciam ser rebentas rebeldes das próprias tribos do Leblon).

Quando cansamos fomos beber um chopp no Jobi, que é um bar tradicionalíssimo do quarteirão imediatamente atrás do Cabral. É tanta "tradição" que um copo de chopp chega a custar mais do que uma garrafa de cerveja noutros bairros "menos tradicionais", por isso bebi somente um chopp mesmo... Quando estávamos pensando em voltar a Gávea, vimos os manifestantes numa animada procissão a contornar a esquina, circulando o quarteirão do governador. Não conseguimos resistir aos gritos de "vem para a rua" e os seguimos até o outro lado da barricada formada pela polícia cinematográfica.

Nessas horas as declarações do Eduardo Galeano na praça Catalunya, na Espanha, não saiam da minha mente. De fato, o entusiasmo dos jovens, ver aquele povo "com os deuses adentrados pela alma", era um forma de resgate do estado original da tribo, uma forma de "descorrupção", literalmente.

"Este mundo de merda está grávido de um outro", e somente compreende a verdade de tal declaração quem caminha novamente entre os jovens, seja por fora ou por dentro de si mesmo...

Mas como o namorado da minha amiga era fanático por futebol, fomos até a Gávea ver um jogo pela TV. E assim prosseguiu a minha noite revolucionária até quando, já bem mais trade, sintonizei no canal que nunca desliga e fiquei observando, através do helicóptero, os seres de máscaras negras colocando fogo nas ruas e atirando algumas pedras em algumas vidraças específicas.

Uma tribo disse que são arruaceiros e saqueadores. Outra tribo disse que estavam atacando alvos específicos: o banco que financiou o estádio superfaturado, a grife que usa trabalho "semiescravo" dos bolivianos paulistas, etc. (mas ninguém soube explicar o motivo ideológico de uma loja de bebidas haver sido saqueada). Enquanto discutiam tudo isso, fiquei pensando em como os helicópteros filmavam tudo e transmitiam madrugada adentro, sem nunca deligar, enquanto a política cinematográfica continuava parada no lugar.

Vai ver naquele horário o filme policial já tinha acabado.

Os manifestantes pediam pela dismilitarização da polícia. Eu já seria mais prático, pediria logo pelo fim da cenografia policial, e também da cenografia política do governo do tal Cabral, que até hoje ninguém sabe onde mora exatamente...

***

Crédito da imagem: Google Image Search (Black Bloc)

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11.7.13

A educação de Casanova, parte 3

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 2


3.

Era uma noite nem tão fria nem tão quente, em meio ao cheiro de destilados e perfumes nem tão caros nem tão baratos, sob uma iluminação levemente obscura, levemente rubra, e eu conseguia ouvir claramente a tudo o que Asik me dizia, ainda em meio ao som ambiente de conversas irrelevantes e músicas de décadas atrás. Asik falava diretamente da Alma, por isso jamais passaria desapercebido para aqueles que, como eu, já haviam estado lá:

“'O que Deus uniu, o homem não separe'... Dizem isto em seus altares dourados, mas no entanto vivem separados e desconectados uns dos outros, e mantém seus juramentos mais como uma forma de contrato nupcial; um contrato de aparências sociais! Giacomo, me perdoe, mas eu nunca acreditei em nada disso”.

“No entanto continua casado todos esses anos”.

“Mas de onde tirou essa ideia? Eu nunca fiz nenhum juramento a Deus, ele nunca exigiu isso de mim. Nunca houve cerimônia alguma dentro de qualquer igreja, somente fora; e uma longa e bela cerimônia que vem sendo encenada por nós dois a cada momento de nossas vidas. Giacomo, eu me casei com o Agora, eu me casei com o Amor de um pelo outro, reencenado eternamente a cada momento. Eu não sou e nem acredito em 'ser casado', mas eu acredito em estar amando, eu acredito em viver no Amor, eu acredito no vir a ser eterno”.

“Como pode ser isto Asik, se ela não está aqui neste momento? O que ela diria de estarmos os dois numa casa como esta, num prostíbulo obscuro em meio a Beyazit?”.

“Não sei o que ela diria, pois não tenho como entrar dentro dela para pensar como ela. Tenho apenas como ser Um com ela, e sentir o mesmo que ela sente, e o mesmo que toda a Natureza sente por todos nós; mas não tenho como pensar como ela, nem como modificar ou controlar ou censurar o que ela pensa, pois que ela é, como eu, como nós, uma livre pensadora.

E que importa eu haver marcado esta nossa conversa no restaurante mais nobre do bairro mais nobre de toda Istambul? O fato de não haver dançarinas seminuas em cima das mesas não significa que eu não possa estar pensando nelas. E eis uma coisa impossível de se saber, Giacomo: o que diabos outra pessoa está imaginando neste ou em qualquer outro momento; ou seja, o que está vendo com a mente, além do que haveria de ver somente com os olhos”.

“Belo, belíssimo como sempre meu amigo. Não sei onde aprendeu a encantar suas palavras com tamanha luz, mas elas talvez sejam belas na teoria, e nem tanto na prática. Afinal, há de convir que é bem mais provável que pense em certas coisas eróticas e indecentes quando belas formas femininas rebolam para cá e para lá há não mais do que alguns metros dos seus olhos sempre atentos”.

“Pois então vou lhe contar meu segredo, Giacomo. O ‘encantamento’ de minhas palavras e de meus pensamentos veio exatamente da indecência, do erotismo, da Grande Putaria! Eu pratico a Arte da Putaria, meu amigo, mas com erotismo, nunca com vulgaridade; com indecência concreta e original, jamais com decência dissimulada. Afinal, como bem sabe, eu tenho sido um assíduo observador apaixonado da Natureza, e se não fosse já pelos coelhos em sua procriação silenciosa ou pelos grunhidos dos lobos selvagens a acasalar na mata noturna, teria sido pela divina safadeza dos bonobos, estes macaquinhos adoráveis que nos ensinam tanto sobre nós mesmos, e sobre o sexo, e sobre a infatigável ânsia da Vida por ela mesma, por ainda mais e mais e mais e mais... Vida!”.

“Eu acredito em você. Suas palavras, como sempre, são como poções mágicas que dilaceram lentamente o meu tédio e minha apatia, como pequenas ondas a dissolver o calcário escuro que se forma na casca que encobre nossas almas. Mas o fato de acreditar em você não significa que eu seja como você, que consegue passar tantos e tantos anos amarrado a uma única mulher... Como isso é possível, como pode não querer se libertar disto de vez em quando?”.

“Giacomo, meu caro, onde tem aprendido essa linguagem vulgar? Terá sido nessa nova Europa que, apesar de já grávida de outra Europa, ainda guarda os preconceitos e as ideias fossilizadas da antiga?

Quem lhe disse que estou amarrado a alguém? Ainda que cordas estivessem me atando a qualquer mulher que fosse, em minha mente eu estaria ainda livre para pensar e imaginar qualquer outra mulher, real ou imaginária, natural ou lendária... O que uma mísera corda pode fazer contra a imaginação de quem pensa por si mesmo?

Mas eu não estou nem nunca estive amarrado, e esta é precisamente a razão de ainda estar casado no Amor, apesar de nunca haver sido casado. Pois que cordas são tão prejudiciais quanto duas árvores que foram plantadas uma próxima demais da outra, e cujas raízes emaranhadas disputam os mesmos nutrientes do solo. Ora, nós temos uma imensidão a nossa volta, e espaço mais do que suficiente para que todas as raízes encontrem os seus próprios nutrientes sem ter de roubar os nutrientes das demais árvores. Somente assim, algo afastadas umas das outras, as árvores conseguem crescer firmes e sadias, e estender seus inúmeros galhos em direção aos Céus, e beber sua Luz direto da Fonte”.

E assim, sendo transformado pelo fogo de Asik, meu coração acelerava uma vez mais, e o meu tédio ia indo embora... Subitamente, me interessava novamente pelos seios fartos daquela uma, e pelas nádegas suculentas e rebolativas daquela outra.

Porém, estranho de se pensar – eu estava me excitando novamente somente por partes de mulheres, e não por mulheres inteiras. Subitamente, me questionava se não havia, por longos e longos anos, buscado o Amor apenas nestas partes femininas ‘esquartejadas’ pelos olhos: uma imensa bunda, os seios torneados da moda, as coxas de uma amazona ou o quadril inimaginável de uma modelo digital.

Afinal, antigamente eu me excitava com o fato das mulheres esconderem seus corpos em longas saias vitorianas, exatamente por que assim imaginava como elas poderiam ser; mas então percebi que fui ludibriado e tive minha imaginação assaltada por belíssimas formas femininas a estampar os anúncios das novelas e dos outdoors deste mundo moderno. Me ocorreu então que eu não me excitava mais com esta ‘mulher frankenstein’ formada por várias partes desconexas de outras mulheres.

Havia me afastado não somente da Alma, mas do Corpo. Eu não estava entediado com as mulheres, afinal de contas, estava mesmo é entediado com minha própria imaginação viciada e empobrecida. Subitamente, mesmo eu podia começar a compreender como meu amigo Asik conseguia se manter ‘casado no Amor’, pois que cada dia lhe trazia um novo espírito e novíssimos pensamentos e fantasias, ainda que a mulher pudesse ser a mesma, e ainda que ele fosse o mesmo, no fundo estavam sempre se modificando, no fundo pensavam por si mesmos e imaginavam o que bem queriam imaginar, muito além dos outdoors e dos comerciais.

Foi assim que comecei a vencer meu tédio e a me reconectar a Grande Arte da Putaria.


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Esta foi a terceira parte de A educação de Casanova, por raph em 2013.
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