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1.3.18

Uma crítica a Academia

Texto por Roberto Leon Ponczek, trechos da obra Deus, ou seja, a Natureza (SciELO). Os comentários ao final são meus.


De que serve a transmissão de pacotes de informações prontas, em hora e local marcados, se a maior parte do tempo o aprendiz permanece desatento às forças vitais que o cercam a cada instante? Esse adestramento para processar fórmulas preestabelecidas é muitas vezes confundido com conhecimento. Assim, torna-se necessária uma descentralidade do local convencional de aprendizado, como a sala de aula e os mestres com hora marcada. A descentralidade do universo [conforme defendida por Spinoza] requer também a descentralidade do aprendizado, e de seus instrumentos clássicos que, muitas vezes, ao invés de facilitar, constituem-se em instransponíveis barreiras ao livre fluir do verdadeiro conhecimento. Desta forma, estaríamos passando do paradigma de uma “pedagogia pensada e centralizadora do sujeito” para uma novo paradigma da “pedagogia filosofante, pensante e não apenas pensada”.

Outro ponto que carece ser questionado é o fato da maioria das escolas e academias ocidentais do pós-guerra querer transformar seus aprendizes em bibliotecas ambulantes, pretendendo que suas mentes sejam extensas memórias de arquivos bibliográficos. Cada vez menos ensina-se a pensar, e cada vez mais, em arquivar dados e referências bibliográficas. Os livros tornam-se obstáculos a serem transpostos, e os mestres seus oraculares intérpretes.

Julgo que, pelo contrário, o aprendiz deve ser estimulado a pensar sobre um texto, a dialogar com seus autores, sem para tal ter de recorrer a bibliotecas de dimensões babilônicas, respaldando-se numa bateria de referências, e perdendo-se num labirinto de citações de comentadores terceirizados. Consumou-se nas academias o hábito de exigir que o aprendiz respalde seu entendimento sobre um determinado texto, com a opinião de um sem-número de especialistas, como se seu primeiro entendimento intuitivo, possivelmente ainda não lapidado, não merecesse crédito, necessitando de álibis ou testemunhas para ser validado.

Entendo, inspirado em Spinoza, que é este conhecimento primeiro, e possivelmente ainda tosco, que servirá como um primeiro martelo com o qual se forjará uma segunda ferramenta mais lapidada, e assim sucessivamente. Um mestre esclarecido não descartará o conhecimento de seu aprendiz, ou criticará a precariedade de suas referências, por mais rudimentares que sejam. Existem artigos científicos com referências bibliográficas maiores que o próprio texto, como se isso fosse prova de embasamento teórico e metodológico!

Muitas vezes os trabalhos acadêmicos são julgados por sua bibliografia, e não pelo seu valor intrínseco. A leitura desses textos é quase sempre maçante, desencorajando qualquer um de seguir por suas labirínticas notas de rodapé e referências. Nem mesmo o autor deste texto, que ora o leitor tem em mãos, se desvencilhou totalmente da camisa de força imposta pelas normas acadêmicas... Gostaria, em breve, de poder escrever outro livro sem notas de rodapé e sem referências!

Jorge Luis Borges, em seu magistral conto Funes, o memorioso, relata a existência de um indivíduo capaz de memorizar todos os fatos e textos de jornais ocorridos ao longo de sua vida sem, contudo, ser capaz de relacioná-los entre si. Funes torna sua existência um arquivo morto de fatos irrelevantes, pois são textos irrelevantes, ideias ou eventos que não têm relação com o mundo que lhe deu origem, conferindo-lhes uma temporalidade. Nossos aprendizes são, muitas vezes, adestrados para serem os Funes da ciência.

Também não posso me calar diante da febre metodológica que assola, como epidemia, extensos setores das academias, induzindo os estudantes a escolherem trabalhos cada vez mais estreitos, para que caibam em um método dado a priori. Os alunos são desestimulados a abordar temas multidisciplinares, ou até mesmo interdisciplinares, e instados a seguir por estreitas trilhas monotemáticas que se encaixem em alguma metodologia preestabelecida. Será o método o soberano que deve determinar a extensão do tema, ou é a vastidão do tema que deve alargar o método? Afinal, uma bela foto deve ser recortada para que caiba no álbum, ou este é que deve ser adequado às dimensões da foto?

[...] As disciplinas científicas assim enquadradas nas academias comparam-se a castelos medievais cercados por fossos onde vicejam os crocodilos guardiões do feudo. As pontes levadiças são erguidas e abaixadas para permitir apenas a entrada e a saída dos súditos do castelo. A academia se divide assim em vários cantões feudais, cada qual concessionário de uma franquia temática, guardada a sete chaves em seu castelo unidisciplinar, delimitado pelo fosso do método e seus atentos guardiões. Professores e estudantes são orientados a permanecer nesses domínios rigidamente circunscritos, e aqueles que inadvertidamente querem cruzá-los, fatalmente serão abocanhados pelos afiados guardiões do castelo.

Na prática isso equivale a uma espécie de sentença de excomunhão velada a partir da qual os professores transgressores não conseguem bolsas de pesquisa ou de estudo para seus orientados, publicações em revistas importantes, ou ganhar qualquer tipo de concurso público. Criam-se, nas academias, autênticas franquias cada qual delimitando rigidamente como deve ser redigido, divulgado e ensaiado o “seu” tema franqueado. Não é incomum essas franquias temáticas desenvolverem extensos tentáculos que se alastram pelas agências de fomento, bancas examinadoras de teses e concursos, além dos conselhos editoriais das revistas especializadas.

[...] Para contabilizar e fiscalizar a produção acadêmica do corpo docente, tais como artigos, livros e demais trabalhos, criou-se um sistema de avaliação numérica (o Qualis, da Capes), como se a qualidade de um texto ou a originalidade de uma ideia pudessem ser mensuradas por números. Este sistema, que é sistematicamente utilizado pelos zelosos guardiões do castelo, fez surgir uma nova geração de professores especializados em construir seus currículos de acordo com esses cânones numéricos, extraindo a máxima pontuação possível.

Este livro, que ora o leitor folheia, em alguns aspectos trafega na contramão de quase tudo que se faz nas academias. Nele não há fronteiras rígidas entre as várias disciplinas, como a Matemática, a Física e a Pedagogia, e elas se entrelaçam desrespeitando deliberadamente os recortes metodológicos, cultuados como dogmas intocáveis pela academia. O livro é longo demais para os padrões atuais, pois hoje vários autores preferem se associar em coautoria para escrever artigos curtos produzidos em série, contabilizando, nas agências de fomento, um título para cada um.

[...] Na vertente contrária, esta é a obra de um único autor solitário que a produziu num longo período de gestação, praticamente recluso em sua casa de campo, totalizando em seu favor apenas um único trabalho em vários anos. Quando nas academias brasileiras vive-se hoje uma febre delirante por publicação e pontuação, este texto foi pensado e escrito sem compromissos de espécie alguma com grupos de pesquisa financiados pelas agências fomentadoras e sem preocupação de pontuação em plataformas oficiais de curriculae vitae. Apesar da inquisição velada e de todas as dificuldades impostas pelas academias, preferi pensar sem fossos nem recortes, estabelecendo relações e organicidade entre as várias disciplinas de saber que devem se entrelaçar para chegar ao autêntico e verdadeiro conhecimento científico.


Comentários
“Na contramão de quase tudo que se faz nas academias”, como bem definido pelo autor, o professor de Física e grande estudioso de Filosofia e conhecimentos gerais nos traz uma obra monumental que não apenas associa de forma profunda o pensamento de Spinoza às buscas existenciais e científicas de Einstein, como se arrisca a afirmar, com suas próprias palavras, onde eles parecem ter acertado e onde parecem ter errado, sempre se embasando no conhecimento científico mais atual, como a Mecânica Quântica.

Não é fácil, decerto, esmiuçar de forma tão aprofundada os axiomas “lógicos e geométricos” da Ética de Spinoza, mas eu penso que Ponczek acabou por nos presentear com uma das análises mais profundas e honestas da obra do grande pensador holandês, e de todo o fruto que ela gerou no mundo. Que isso tenha sido feito dentro do atual mundo acadêmico, é quase um milagre. Por isso preferi trazer a vocês essa crítica embasada e honesta de um acadêmico que se sente profundamente angustiado com o estado atual de nosso ensino. Ponczek é, antes de mais nada, um professor, e um professor deseja ensinar seres que interpretam o mundo, não máquinas enciclopédicas, autômatos recitadores de Wikipédia.

Recomendo a todos os admiradores de Spinoza, de Einstein ou, simplesmente, dos grandes conhecimentos da humanidade, que confiram a sua obra, um e-book em download gratuito na Amazon.

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Crédito da imagem: Ponczek (foto achada no Facebook, não lá muito acadêmica...)

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8.4.16

Anjos Fósseis, por Alan Moore (parte 2)

« continuando da parte 1

Por Alan Moore. Tradução de Daniel Lopes, revisão de Rafael Arrais.

Outra clara distinção entre os magos dos séculos XVI e XIX encontra-se em sua relação com a narrativa de suas épocas. Os irmãos da recém-criada Golden Dawn teriam se inspirado muito mais por puro romance em torno da magia que por qualquer outro aspecto, com S. L. McGregor Mathers seduzido pelo desejo de fazer da sua vida uma fantasia como Zanoni de Bulwer Lytton. Convenceu Moina a se referir a ele como "Zan", alegam. Woodford e Wescott, por outro lado, ansiosos por fazerem parte de uma ordem que tinha ainda mais parafernália que a Maçonaria Rosacruciana, de alguma forma fizeram contato com os fabulosos (literalmente) graus da Geltische Dammerung, que significa algo como “hora dourada do chá”. Traziam em mãos seus diplomas de Nárnia, tirados direto do outro lado do guarda roupa. Ou lá estava Alex Crowley, tentando forçosamente convencer sua turminha a chama-lo por Alastor, de Shelley, como algum autonomeado Goth de Nottingham chamado Dave insistindo que seu nome de vampiro era Armand. Ou, pouco tempo depois, havia todo o tipo de bruxaria de culto antiquíssimo, todo tipo de coven de linhagem de sangue despertando como os filhos do dragão onde quer que os escritos de Gerald Gardner estivessem disponíveis. Os ocultistas do século XIX todos pareciam querer ser o tio do Aladdin em uma eterna pantomima. Viver o sonho.

John Dee, do contrário, foi talvez mais premeditadamente consciente que qualquer outra pessoa de sua época. Mais focado e com mais propósito. Ele não precisou procurar por antecedentes nas ficções e mitologias disponíveis, porque John Dee não estava de maneira alguma para brincadeira. Ele inspirou as grandes ficções mágicas de seu tempo, e não o contrário. O Próspero de Shakespeare. Fausto de Marlowe. O jocoso Alquimista de Ben Johnson. A magia de Dee era uma força viva e progressiva, integral em seu tempo, em vez de um espécime extinto e empalhado, sem relevância em histórias e contos de fadas. Tinha em mãos um novo e excitante capítulo, escrito inteiramente em tempo presente, com a aventura mágica em andamento. Por comparação, os ocultistas que o seguiram no decorrer de uns três séculos tiveram no máximo um elaborado apêndice, ou talvez uma bibliografia. Uma liga conservadora, murmurando em sincronia os ritos de um homem morto. Versões covers. Karaokê da feitiçaria. A magia, uma vez dada por vencida ou usurpada de sua função social perdeu sua razão de ser, o astro da noite viu-se em meio ao teatro vazio, de cortinas misteriosas. Cestos empoeirados de vestidos velhos, inescrutáveis adereços para peças canceladas. Na falta de um papel, cresceu incerta de suas motivações, a magia pareceu não ter recursos a não ser bancar o bom cãozinho e seguir o script, resguardando cada último gesto e suspiro, com sua performance esvaziada por hora congelou-se, embrulhou-se; habilmente se reempacotando para a posteridade inglesa.

Quão lamentável então, que tenha sido este momento na história da magia, com conteúdo e função perdidos por trás de um ritual sobrecarregado de pormenores embutidos, que muito fala e pouco faz, precisamente aquele que as últimas ordens decidiram por cristalizar. Sem uma meta ou missão pré-definidas, nenhum conforto vendável, os ocultistas do século XIX parecem ter dado demasiada atenção a um pomposo papel de presente. Possivelmente inaptos a conceber qualquer grupo que não fosse estruturado de maneira hierárquica como nas lojas das quais estavam habituados, Mathers e Wescott obedientemente importaram todos os bens de família maçônicos quando foram mobilhar a sua recém nascida ordem. Todos os trajes, graus e utensílios. A mentalidade de uma ordem secreta elitizada. Crowley, é claro, pegou toda essa bagagem pesada e ostentosa quando puxou seu barco para fundar a O.T.O., e todas as outras ordens desde então, mesmo em suas pretensas empreitadas iconoclastas como a I.O.T., parecem ter adotado o mesmo padrão do auge da era vitoriana. Armadilhas suficientemente sensacionalistas, intrincadas o bastante para chamar a atenção para o que os críticos maldosos poderiam perceber como um vácuo de quaisquer resultados práticos, qualquer efeito sobre a condição humana.

A décima quarta (e talvez última?) edição da estimada Revista Kaos, de Joel Biroco, trazia uma reprodução de uma pintura, um surpreendente, afetuoso e assustador trabalho nas belas pinceladas de Marjorie Cameron, ruiva assustadora, companheira de lar de Dennis Hopper e Dean Stockwell, reputada dama escarlate, queridinha telemita. Entretanto, quase tão intrigante quanto o trabalho em si é o título: Anjo Fóssil, com suas contraditórias conjurações de algo maravilhoso, inefável e transitório combinadas com isso que é por definição morto, inerte e petrificado. Haverá aí uma metáfora conveniente, tão sóbria quanto instrutiva? Não poderiam todas as ordens magísticas, com suas doutrinas e dogmas, serem interpretadas como os restos imóveis calcificados de algo antes intangível e cheio de graça, vivo e mutável? Como energias, como inspirações e ideias que dançavam de mente em mente, evoluindo pelo menos até que a primeira fração de calcário de ritual e repetição as tenham congelado em seu percurso, paralisando-as no meio do caminho para alguma realização,  algum gesto incompleto? Iluminações de trilobitas. Anjos fósseis.

Algo incipiente e etéreo, uma vez desperto brevemente, como uma pedra saltando pela superfície de nossa cultura, deixando sua leve e tênue marca no barro humano, uma impressão digital que moldamos em concreto com um aparente resquício de conteúdo capaz de nos fazer ajoelhar por décadas, séculos, milênios. Recite as tranquilizantes e familiares cantigas de ninar ou encantamentos palavra por palavra, e cuidadosamente reencene a velha e amada historinha e talvez algo aconteça, como já aconteceu antes. Se amarrarmos um carretel e papel alumínio em uma caixa de papelão fazendo a parecer vagamente um rádio talvez John Frumm apareça e traga helicópteros de volta? As ordens secretas, tendo feito um fetiche de todo tipo de cerimônia que surgiu ou se passou há meio século atrás, sentam como Miss Haversham e se perguntam se os insetos no bolo de casamento de alguma maneira confirmam o Livro da Lei.

Uma vez mais, nada disso tem a intenção de negar a contribuição que as várias ordens e seu trabalho fizeram ao campo da magia, mas meramente observar que essa contribuição admitidamente considerável, é amplamente, de natureza enclausurante em sua preservação do ritual e folclore do passado, ou mesmo que sua elegante síntese de ensinamentos discrepantes é sua principal (e talvez única) conquista. Diante de tais realizações, entretanto, o persistente legado da cultura ocultista do século XIX parece em sua maioria uma antítese à continuidade saudável, proliferação e viabilização da magia, que, como uma tecnologia, com certeza já ultrapassou o datado vaso ornamentado vitoriano e está precisando urgentemente de um transplante. Toda a mobília artificial Maçônica e alicerce implementados por Wescott e Mathers, bastando querer para ser capaz de imaginar outra estrutura válida, tornou-se, para a nossa época, uma limitação e impedimento para o fomento da magia. Resquícios enganosos, faixas cerimoniais apertadas que pressionam qualquer crescimento, restringem todo o pensamento, limitam os caminhos nos quais concebemos ou podemos conceber magia. Imitando os construtos do passado, pensando em termos não necessariamente aplicáveis hoje – que talvez de fato nunca tenham sido – parecem ter deixado o ocultismo moderno totalmente incapaz de visualizar qualquer método diferente no qual possa organizar-se. Inapto a imaginar qualquer progresso, qualquer evolução, qualquer futuro, o que é provavelmente a garantia para que não tenha mesmo nenhum.

Se com frequência a Golden Dawn é o modelo vigente, um exemplar radiante da perfeita ordem de sucesso, isso certamente se dá porque seu segmento incluía muitos escritores renomados de evidente habilidade e valor, que apenas por serem membros, prestigiaram-na com mais credibilidade do que ela jamais teria, graças a eles. O brilhante John Coulthart sugeriu que provavelmente a Golden Dawn era estimadamente reconhecida como uma sociedade literária, onde escrivãos de boa vontade procuraram por uma magia que poderiam encontrar evidência demonstrável, que já estavam vivas e em funcionamento em seu próprio trabalho, onde não tinham a visão ofuscada por quaisquer cerimônias, todo aquele fantástico kit. Um autor que mais claramente contribuiu com algo de valor legítimo para a magia por meio de sua própria ficção do que quaisquer trabalhos na ordem foi Arthur Machen. Ainda que admitindo seu deslumbramento em todo o mistério e maravilha na cerimônia da ordem secreta, Machen sentiu-se compelido a incluir quando escrevia sobre a Golden Dawn em sua autobiografia, Things Near and Far, que “para quem buscava qualquer coisa vital dentro da ordem secreta, qualquer coisa que valha algo para qualquer ser racional, não havia nada lá, ou menos que nada... A sociedade enquanto grupo era pura e tolamente preocupada com impotentes e imbecis Abracadabras. Não conheciam nada de nada e se preocupavam mais com um ritual impressionante e sonora terminologia.” Astutamente, Machen notou a aparente relação inversa entre o conteúdo genuíno e o barroco, a forma elaborada que caracterizavam as ordens dessa natureza, uma crítica tão relevante hoje quanto era em 1923.

O território da magia, largamente abandonado como sendo muito perigoso desde a época de Dee e Kelley, foi definido e reclamado (quando isso foi seguro de se fazer) pelos entusiastas ocultistas do século XIX, pela classe média suburbana, que transformaram o ressecado e negligenciado arbusto em uma série de jardins ornamentais maravilhosamente elaborados. Elementos decorativos, estátuas e pagodes bastante intrigantes, idealizados a partir de um produtivo passado pastoril. Deuses em estado terminal reclinados em seu leito de azaleias.

O problema é que jardineiros algumas vezes brigam. Disputas por fronteira. Vendetas e despejos de inquilinos, sob a luz da lua. Uma vez que estas invejáveis propriedades são ocupadas, são com frequência cagadas por novas famílias problemáticas, novas intrigas. Atêm-se às velhas placas de identificação, mantêm-se o mesmo endereço, mas deixam o lugar se acabar, permitindo que seu terreno caia em estado de calamidade. Lesmas deslizando-se, ervas daninhas crescendo entre vinte e duas pétalas de rosa. Nos anos 90 do século XIX, a paisagem do jardim da magia era porcamente mantida com preguiçosos e desleixados loteamentos subaproveitados e mal drenados, pintura descascando nas casas de verão egípcias cafonas, agora meros estábulos onde paranoicos vigilantes rurais ficam acordados a noite toda, mimando suas espingardas e esperando vândalos adolescentes. Não há produto sequer que mereça ser mencionado. As flores não têm perfume e não mais encantam. Você sabe, eram todos aqueles caprichados lamens e tábuas xadrez enoquianas aqui e ali, e agora vejam só. As desgrenhadas sebes com sua topiária Goética tão seca quanto palha, ripas de madeira apodrecidas naquele gazebo de estilo Rosacruziano. No que isso tudo pode resultar é com toda certeza um incêndio.

Não, francamente. Terra arrasada. Tem-se aos montes pra indicar. Imagine a cara que tinha quando a moda dos robes e estandartes pegou. Perder a vida e o sustento era inevitável, é claro, algum dano colateral no setor de negócios, mas com certeza seria legitimamente belo. As vigas do templo desmoronando em chamas faiscantes. “Esqueça-me! Salve os manuscritos cifrados!” Entre as incontáveis Missas Gnósticas, juramentos, evocações e banimentos, havia qualquer coisa que os distraíssem de um alerta de incêndio? Ninguém tinha certeza de como eles evacuariam a câmara interna, nem saberiam quantos ainda estariam lá dentro. Finalmente surgem contos de bravuras voluntariosas de cortar o coração. “Ele voltou pra resgatar o desenho do LAM, e não conseguimos pará-lo.” Em seguida, um momento de silencio, para refletir. Enterra-se o morto, apontam-se os sucessores. Rompe-se o selo de Hymenaeus Gamma. Um olhar triste sobre nossos acres enegrecidos. Leve isso um dia de cada vez, doce Jesus. Infle nossas narinas, nos mantenha unidos. De alguma maneira iremos suportar.

E agora? Terra arrasada, é claro, é rica em nitratos e provê uma base para agricultura de corte e queimada. No pó carbonizado, o broto verde da recuperação. A vida floresce indiscriminadamente, agitando-se em solo negro. Poderíamos ceder essa majestosa relva de volta para a natureza. Por que não? Pense nisso como ecologia astral, o reclame de um cinturão verde psíquico sob o pavimento rachado do ocultismo vitoriano, como um encorajamento para o crescimento de uma biodiversidade metafísica. Considerada como um princípio organizador para a operação mágica, a complexa e autogeradora estrutura fractal de uma selva pareceria tão viável em cada pequena porção quanto qualquer imposição ilegítima de uma ordem de piso de loja xadrez; pareceria, de fato, consideravelmente mais natural e vital. Afinal, o tráfego de ideias que é a essência e a seiva da magia é mais efetivo hoje em dia em arbustos-telégrafos de um tipo ou outro, em vez de segredos ritualísticos solenemente alcançados após anos de tentativas, CSEs [certificados de educação secundária] de Hogwarts. Não será essa floresta tropical o modo de interação, na verdade, a configuração padrão do ocultismo ocidental para os dias de hoje? Por que não sair e admitir isso, demolir todos esses clubes que não servem nem como ornamento, abraçar a lógica dos cipós? Dinamitar as barragens, liberar a enchente, deixar a nova vida florescer nos ameaçados e moribundos habitats de outrora.

» Continua na parte 3

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Crédito da foto: Google Image Search/Lex Records (Alan Moore)

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31.3.16

Anjos Fósseis, por Alan Moore (parte 1)

Introdução
A lenda dos quadrinhos, Alan Moore, é o autor de diversos títulos memoráveis, tais quais Watchmen, A Liga Extraordinária, V de Vingança e Do Inferno. Desde o seu aniversário de 40 anos, Moore se autoproclamou um mago. Mas é preciso cuidado para compreender a sua visão da magia, que ele uma vez definiu como “uma ciência da linguagem, do uso de símbolos para induzir alterações na consciência”. Alan vê uma conexão íntima entre a magia e a criatividade artística, o que foi explorado de forma magistral na sua série Promethea.

Recentemente publicamos no blog uma tradução da sua entrevista, A arte da magia, concedida a revista britânica Pagan Dawn. Conforme se tratou da série de posts com mais visualizações nos últimos tempos, resolvemos traduzir também o seu monumental Fossil Angels [Anjos Fósseis].

Fossil Angels é uma espécie de “ensaio-manifesto” que trata basicamente do estado da magia e espiritualidade no mundo atual, onde Alan traz críticas ácidas e contundentes a todos os demais magos e místicos, juntamente com conselhos preciosos e um otimismo implícito em relação a um possível futuro mais pleno de espiritualidade, tudo permeado com a mais fina ironia, numa linguagem por vezes rude e brutal, por vezes impregnada do bom humor britânico.

O ensaio foi escrito em 2002 para a edição #15 da revista KAOS, que de fato jamais chegou a ser lançada. Após quase uma década, foi finalmente divulgado online em 2010, por admiradores de Moore (claro, com o seu devido consentimento).

Trata-se de um ensaio longo, que será publicado aqui no blog em diversas partes. Conforme tivemos algumas pessoas auxiliando na tradução, vamos postar os créditos específicos sempre ao início de cada parte.

E agora, com vocês, Mr. Alan Moore, o Grande Mago...


Anjos Fósseis, parte 1
Por Alan Moore. Tradução de Daniel Lopes, revisão de Rafael Arrais.

Consideremos o mundo da magia. Uma dispersão de ordens ocultas que, quando não estão tentando refutar a ascendência uma da outra, estão criogenicamente suspensas em suas rotinas ritualísticas, seu jogo de ditames de Aiwaz, ou algo perdido em um spam canalizado de uma expansão de Dungeons & Dragons, mapeando um novo universo infalsificável e então completamente sem valor até que demonstrassem que tem tanto a ver quanto uma unha pintada de esmalte preto na garra de um dragão antigo. Transmissões autoconscientes de entidades afligidas por síndrome de Tourette, de horrores glossolálicos de Hammer [companhia cinematográfica britânica]. Alguidares oraculares [scrying bowls] de alguma forma recebendo trailers do canal Sci-Fi. Muito longe dos caciques ocultos, e por esta razão, muito longe dos índios ocultos.

Além disso, passando pelos portões rangentes das ilustres sociedades, dilapidados tolos de 50 anos que deram início aos planos para um palácio celestial, mas inevitavelmente terminaram com o Bates Motel, enquanto lá fora se estende a multidão. Os embusteiros da psique. O rugido incoerente de nossa hermética torcida em casa, os anouraques Akashicos, os metidos a Wiccans e o Templo UV dos quarenta psíquicos-qualquer-coisa fazendo fila para a última franquia do reino das fadas, reino dos irrecuperáveis hobbituados. Vila Potter.

Como exatamente isso confirma o Aeon de Horus, Aeon de qualquer coisa se não de mais consumismo, de política de gangsters, do materialismo levado ao limite da mente? Isso que parece ser um lugar comum quase universal de aceitação de ideais conservadores é na verdade sinal de uma desgovernada Thelema? O Cthulhu está voltando em algum momento próximo ou são as maldições bárbaras da escuridão lá fora onde os iluministas tentam achar seus traseiros com uma lanterna? O ocultismo ocidental contemporâneo conseguiu realizar algo mensurável fora da sessão mediúnica [séance parlour]? A magia tem algum outro uso definido para a espécie humana além de oferecer a oportunidade de se fantasiar? Putas Tântricas e vigários da noite temática de Thelema. Pentagramas em seus olhos. “Esta noite, Matthew, eu serei o Logos do Aeon”. A magia demonstrou algum propósito, justificando sua existência de modo como a arte ou a ciência ou a agricultura justificaram as suas? Em resumo, alguém tem alguma pista do que estamos fazendo, e precisamente por que estamos fazendo?

Certamente, a Magia nem sempre foi divorciada de maneira tão aparente de toda função humana imediata. Sua origem paleolítica no xamanismo com certeza representou, naquele momento, a única forma de mediação com um universo vasto e hostil sobre o qual até então exercíamos muito pouco entendimento ou controle. Em tais circunstancias é fácil conceber magia como representando inicialmente uma realidade de parada única numa loja de conveniência pela estrada. Uma visão de mundo em que todas as outras vertentes da nossa existência – caça, procriação, lidar com os elementos ou pinturas nas paredes das cavernas – foram agrupadas. A ciência de tudo, sua relevância para as preocupações comuns dos mamíferos, tanto óbvias quanto inegáveis.

Essa função de uma “filosofia natural” com tudo incluso, obtida ao longo da ascensão da civilização clássica, ainda pode ser vista, embora de maneira mais latente, até o século XVI, quando as ciências mundana e oculta não eram tão dissociáveis como são hoje. Seria surpreendente, por exemplo, se John Dee não cedesse seu conhecimento de astrologia matizando sua inestimável contribuição para a arte da navegação ou vice-versa. Não até que a Idade da Razão gradualmente pervertesse nossa crença e contato com os deuses que proveram nossos predecessores e nosso inexperiente senso de racionalidade identificasse o sobrenatural como um mero órgão vestigial no corpo humano, obsoleto e possivelmente doente, que deve ser rapidamente extraído.

A ciência, crescida à parte da magia, dotada da magia, cria impulsiva, sua forma mais prática e portanto materialmente proveitosa de aplicação, muito cedo decidiu que o ritual e a alfaia simbólica de sua cultura parental alquímica era redundante, um estorvo e um constrangimento. Inflado em seu novo jaleco branco, com esferográficas ostentadas como medalhas em seu peito, a ciência envergonhou-se de seus companheiros (história, geografia, por exemplo) flagrados fazendo compras com a mãe, com todo o seu resmungo e cantoria. Seu terceiro mamilo. Melhor esconder sua loucura em algum lugar seguro, alguma Fraggle Rock [gíria inglesa para uma ala psiquiátrica em que os encarcerados tomam altas dosagens de medicamentos fortes] para velhos e perturbados paradigmas.

A cisão que isso causou na família de ideias humana parece irrevogável, com duas partes do que antes era um organismo separado pelo reducionismo, uma "ciência de tudo" inclusiva se tornou duas visões separadas, cada uma aparentemente em acirrada e viciosa oposição em relação à outra. A ciência, no processo deste amargo divórcio, pode-se dizer que perdeu contato com seu componente ético, com base moral necessária para prevenir a reprodução de monstros. A magia, por outro lado, perdeu todo o seu propósito e utilidade demonstrável, como muitos pais quando os filhos crescem e vão embora. Como preencher o vazio? A resposta é, seja falando da magia ou do mundano, lastimando por pais e mães com ninhos vazios, com toda probabilidade, “com ritual e nostalgia”.

O ressurgimento da magia do século XIX, com sua natureza retrospectiva e essencialmente romântica, parecia estar abençoado com esses dois fatores em abundância. Embora seja difícil não notar as contribuições feitas para a magia enquanto campo de conhecimento, tais como, Eliphas Levi ou os vários magos da Golden Dawn, é tão difícil quanto deixar de argumentar que essas contribuições foram esmagadoramente sucintas, na medida em que aspiravam criar uma síntese da tradição já existente, em formalizar as mais variadas sabedorias dos antigos.

Não é desmerecer essa considerável realização se observarmos que esta magia, durante décadas, carecia de propósito imediato, o que levou a pressa pioneira que caracterizou, por exemplo, o trabalho de Dee e Kelly. No desenvolvimento de seu sistema Enoquiano, a magia tardia da renascença poderia ser tipificada como experimental e de urgência criativa, voltada para o futuro. Em comparação, os ocultistas do século XIX parecem ter quase deslocado a magia para um passado reverenciado, tornando-a uma trilha de exibição de museu, um acervo, com eles mesmos como curadores.

Tinham todas as vestes e adereços, que cheiravam a reencenações históricas em grupo, uma sociedade serafínica do nó selado, com uma marcha ligeiramente menos boba. O preocupante consenso de valores de direita e o número de baixas às sacudidas e tropeços, por outro lado, provavelmente eram idênticos. Os ritos das elevadas ordens magísticas e as bebedeiras homicidas das bandas tributo de Cromwell são também similares na medida em que ambas comovem se justapostas ao cruel e implacável mecanismo da realidade industrial. Belas varinhas pintadas, obsessivas e genuínas ponteiras, levantadas contra o lúgubre progresso das chaminés. O quanto disso não pode ser mais acuradamente descrito como fantasias compensatórias da era da máquina? RPGs que só servem para evidenciar o fato brutal que essas atividades não têm mais relevância humana na contemporaneidade. Uma melancólica recriação dos momentos eróticos há muito passados de um impotente.

» Continua na parte 2

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Crédito da foto: Kazam Media/REX Shutterstock (Alan Moore)

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13.10.15

Sheldrake contra a ortodoxia científica

Entre 2007 e 2008, quando participava de produtivos fóruns de discussão online sobre fé e razão no saudoso Orkut, acabei dialogando com um sujeito (que chamarei aqui de Flávio, embora não seja o nome real, pois não se trata de pessoa pública) que tinha uma fé cristã tão arraigada que acreditava piamente que tudo o que ocorria no universo era uma ação direta de Deus.

Me lembro de haver perguntado ao Flávio assim: "Mas se eu estou aqui digitando e discordando de você, pois creio que guardo uma certa liberdade própria, então seria Deus que estaria me fazendo digitar cada tecla do meu teclado e enviar esse texto para você?"... Flávio respondeu que sim. Esse tipo de negação total de qualquer espécie de liberdade ou livre-arbítrio sempre me pareceu um tanto radical, embora não admirasse menos a fé de Flávio por conta disso, visto que ele sempre me tratou educadamente, apesar de discordar do meu pensamento.

O mesmo tipo de espanto eu senti ao me deparar com os materialistas mais radicais, ou poderia-se dizer, mais fiéis a premissa básica do materialismo. Filósofos como o americano Daniel Dennett defendem que a consciência não existe, e aquilo que entendemos pelo "ato de se estar consciente" não passa de uma ilusão cerebral. Materialistas eliminativos como Dennett creem piamente que todas as nossas escolhas são fruto de reações químicas em nosso cérebro, e que os cerca de 4% da matéria e energia detectadas no universo são suficientes para explicar todos os processos conscientes.

Eu continuo até hoje espantado com o fato da mente humana conseguir chegar a extremos de crença como os dois citados acima, e até já escrevi um artigo sobre isso...

Mas felizmente existem mentes mais céticas e curiosas, que ainda creem não somente em sua própria liberdade de conhecer e questionar o mundo, como conseguem fazer isso através do próprio método científico. Nesta palestra para o TED, o biólogo britânico Rupert Sheldrake questiona diretamente os maiores dogmas do materialismo científico, e critica a Academia por limitar o escopo da ciência moderna ao se manter presa a dogmas do século XIX. O mais interessante é que Sheldrake não é um "cientista qualquer": possui mais de 80 artigos científicos publicados (inclusive na Nature), além de 10 livros (um deles o monumental Ciência sem Dogmas, que ele menciona no vídeo) e diversos artigos que ainda hoje aparecem com certa regularidade em reconhecidos jornais ingleses.

Talvez por isso tal palestra tenha sido "banida" do canal do TED no YouTube, devido a pressão de cientistas mais ortodoxos, digamos assim. É claro que isso só fez o interesse pelo que Sheldrake diz nela aumentar enormemente, de modo que somente um dos "espelhos" dela no YouTube já se aproxima de um milhão de visualizações.

Antes de escutarem ao que ele tem a dizer, no entanto, vale lembrar duas coisas: (1) A intenção de Sheldrake não é substituir o dogma materialista por algum dogma religioso, tanto pelo contrário – a despeito do que dizem por aí, as suas teorias também vão contra visões de mundo muito mais antigas do que o materialismo do século XIX; (2) O fato de Sheldrake chegar a questionar consensos estabelecidos, como até mesmo se a velocidade da luz é realmente constante, não significa que ele tenha razão em sua crítica, apenas levanta uma via de pesquisa que pode eventualmente nos trazer uma visão mais abrangente das "leis naturais" – o que é certamente mais de acordo com a ciência genuína do que termos a velocidade da luz estabelecida "por decreto", como ocorre hoje.

E agora, com vocês, o homem que desafiou a Academia:

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Crédito da imagem: Google Image Search/Red Ice Radio

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30.9.14

Deus tá vendo essa zoeira!

É este o slogan de um dos jogos de cartas mais polêmicos dos últimos tempos, o Pequenas Igrejas, Grandes Negócios.

Quando ouvi falar a primeira vez deste projeto, foi da boca do seu próprio criador, meu amigo Marcelo Del Debbio. O Marcelo, como muitos devem saber, é um dos divulgadores de ocultismo e espiritualidade mais conhecidos do país, assim como um dos críticos mais veementes da “picaretagem” de alguns dos ditos espiritualistas de todos os credos.

A primeira coisa que pensei foi que a temática do jogo parecia ser, em geral, um ataque meio gratuito aos evangélicos. Tive medo de que o resultado final fosse um tanto generalista e enfiasse todos os evangélicos no mesmo saco. Obviamente, para muitos evangélicos “picaretas”, é exatamente isso o que pensam do jogo desde o primeiro momento em que souberam dele.

Mas o resultado final não foi bem esse... Antes de chegarmos lá, é preciso lembrar que o sistema do jogo já vinha sendo bolado há cerca de quatro anos pelo Marcelo e o seu amigo, Norson Botrel, ambos designers de jogos de RPG há muitos anos. Porém, na hora de finalizar tudo e efetivamente criar as ilustrações, imprimir as cartas, etc., eles tiveram de pedir ajuda a diversos outros amigos...

As ilustrações ficaram a cargo do Roe Mesquita, o design e o projeto gráfico, com Rodrigo Grola, e o marketing e a edição dos vídeos de divulgação com o PH Alves (do Conversa entre Adeptus). Todo esse pessoal é muito gente boa e também faz parte da comunidade espiritualista que se criou em torno do blog do Marcelo, o Teoria da Conspiração, mas ainda faltava um elemento essencial: Como pagar o trabalho dessa gente toda? Como pagar a impressão dos primeiros baralhos?

Foi aí que o Marcelo decidiu recorrer ao crowdfunding, usando o site Catarse. No crowdfunding, um projeto qualquer é apresentado com uma meta de financiamento (em reais) e, geralmente, uma série de bônus para aqueles que doarem valores maiores. No caso do Pequenas Igrejas, Grandes Negócios (PIGN), a meta mínima para a produção do jogo era de 29 mil reais. A cada 5 mil reais extras arrecadados, eram prometidos novas cartas e suplementos disponíveis desde o lançamento. Se o financiamento total ultrapassasse a última marca da lista, 75 mil reais, eles ainda prometiam entregar sleeves (embalagens plásticas) para cada carta do baralho a quem houvesse investido acima de certo valor.

Ao final de cerca de 2 meses de crowdfunding, o PIGN se tornou um dos projetos mais bem sucedidos do Catarse, tendo arrecadado quase 93 mil reais! Eu mesmo fui um dos 12 que doaram os valores mais altos disponíveis (400 reais, nem tanto se comparado a outros projetos do Catarse), e garanti uma carta com o meu pastor no jogo, o Bispo Sinésio!

Há algumas semanas atrás a minha edição do jogo chegou por correio, com assinaturas de diversos integrantes do projeto, e com quase 400 cartas, incluindo todas as cartas bônus disponíveis... A grande questão então passou a ser: será que eu usaria esse jogo apenas para ficar rindo das cartas, ou será que daria para jogá-lo realmente? Bem, com a ajuda do pessoal que segue o blog do Marcelo aqui na minha cidade, consegui jogar algumas partidas bem divertidas...

Na verdade o jogo é bem mais do que uma simples crítica bem humorada a “picaretagem” de alguns ditos espiritualistas. Ele realmente funciona como jogo, e acredito que não deveríamos esperar menos de designers como o Marcelo e o Norson. Como não sou exatamente um especialista em jogos de cartas do tipo (eles mesmos dizem que se inspiraram em Magic: The Gathering, BANG!, UNO e Munchkin para criar o mix de regras), não posso afirmar que se trata “do melhor jogo de cartas de todos os tempos”, mas certamente é um jogo tão divertido de jogar quanto o Munchkin (o que mais conheço da lista anterior), com a vantagem de ser ambientado num “universo brasileiro” – ou melhor, “num mundo onde as igrejas são usadas por pessoas trapaceiras e inescrupulosas para lavar dinheiro do crime, vender porcarias inúteis, explorar a boa fé de pessoas ignorantes e obter poder político; um universo muito diferente da nossa realidade, onde as igrejas são centros comunitários de ajuda ao próximo, gerenciadas por baluartes do bom caratismo”.

O que nos traz de volta a questão inicial: será que o PIGN coloca num mesmo saco tanto os “picaretas” quanto os verdadeiros espiritualistas? Na verdade, não, nem de longe... Para começar, apesar do jogo se focar, como o próprio título diz, nas igrejas, a verdade é que há críticas a “picaretas” de várias vertentes religiosas – para citar dois exemplos, temos no baralho os pastores “Mãe Binah” e “ET Bilu Bilu”, que estão longe de se referirem a pastores evangélicos do “mundo real”.

Além disso, em nenhum momento é citado o nome de Jesus. Não que isso por si só fizesse alguma diferença, mas não deixa de ser revelador o respeito que mantiveram ao seu nome. Em PIGN, encontramos “Jezuis”, e não “Jesus”.

Por fim, o que mais achei curioso no jogo é que todas as cartas de ataque (o objetivo do jogo é acabar com a reputação dos pastores adversários, daí existirem as “cartas de ataque”) se referem a notícias que foram vinculadas na mídia real (independente de serem verdadeiras ou não, mas o absurdo todo é que a grande maioria é verdadeira).

Assim, quando atacamos nossos amigos na mesa de jogo usando cartas como “Igreja é dona do maior complexo de saunas gays da Europa” (carta #215), “Religioso afirma que sexo ilícito é causa dos terremotos” (#187), “Pastor ex-gay quer criar ‘Conselho estadual para a defesa dos direitos héteros’” (#192), “Barak Obama está possuído pelo demônio, afirma pastor que faz exorcismo por Skype” (#162), ou ainda “Ex-obreira fica grávida do Diabo e dá à luz 3 caveiras de plástico!” (#31), ficamos nos perguntando se este jogo chegou mesmo a conseguir ser mais absurdo do que a nossa realidade – e então, ao menos nos resta o consolo: Deus tá vendo essa zoeira!

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» O PIGN pode ser adquirido na loja online da Daemon Editora

Crédito das imagens: Divulgação/PIGN

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28.11.13

Banksy!

Banksy é o pseudônimo de um dos maiores grafiteiros da história, provavelmente nascido na Inglaterra. Sua arte de rua é uma crítica inteligente e, por vezes, bastante ácida, da moderna sociedade de consumo e do atual sistema financeiro mundial. É um autoproclamado vândalo que nunca atirou uma pedra sequer em vidraça alguma. Há uma pequena chance de que Banksy seja somente uma única pessoa...

Nós criamos uma galeria em nossa página do Facebook com algumas de suas obras mais interessantes e sugestivas:

Veja a galeria com a arte de Banksy

***

Abaixo traremos algumas citações atribuídas a Banksy [1]:


Eu vou falar o que penso, então isto não vai ser nada demorado.

Ao contrário do que dizem por aí, o grafite não é a mais baixa forma de arte. Embora seja necessário se esgueirar pela noite e mentir para a mãe, grafitar é, na verdade, uma das mais honestas formas de arte disponíveis. Não existe elitismo ou badalação, o grafite fica exposto nos melhores muros e paredes que a cidade tem a oferecer e ninguém fica de fora por causa do preço do ingresso.

Um muro sempre foi o melhor lugar para divulgar o seu trabalho.

As pessoas que mandam nas cidades não entendem o grafite porque acham que nada tem o direito de existir se não gerar lucro, o que torna a opinião delas desprezível.

Essas pessoas dizem que o grafite assusta o público e é um símbolo do declínio da sociedade. O perigo, porém, só existe na cabeça de três tipos de indivíduos: políticos, publicitários e grafiteiros.

Quem realmente desfigura nossos bairros são as empresas que rabiscam slogans gigantes em prédios e ônibus tentando fazer com que nos sintamos inadequados se não comprarmos seus produtos. Elas acreditam ter o direito de gritar sua mensagem na cara de todo mundo em qualquer superfície disponível, sem que ninguém tenha o direito de resposta. Bem, elas começaram a briga e a parede é a arma escolhida para revidar.

Algumas pessoas se tornam policiais porque querem fazer do mundo um lugar melhor. Algumas pessoas se tornam vândalos porque querem fazer do mundo um lugar visualmente melhor.

***

Imagine uma cidade em que o grafite não é ilegal, uma cidade em que qualquer um pode desenhar onde quiser. Onde cada rua seja inundada de milhões de cores e frases curtas. Onde esperar no ponto de ônibus não seja uma coisa chata. Uma cidade que pareça uma festa para a qual todos foram convidados, não apenas as autoridades e os figurões dos grandes empreendimentos.

Imagine uma cidade como esta e não encoste na parede – a tinta está fresca.

***

A raça humana promove o tipo mais estúpido e injusto de corrida. Muitos dos corredores não calçam um tênis decente nem têm acesso a água potável.

Alguns já nascem largando muito na frente, recebem toda a ajuda possível ao longo do trajeto e ainda assim os fiscais de prova parecem estar ao lado deles.

Não surpreende que muitos desistam de competir, preferindo se sentar na arquibancada, comer porcarias e gritar que foi tudo marmelada.

O que a corrida humana precisa é de muito mais nudistas invadindo a pista.

***

Apenas quando a última árvore
Tiver sido cortada
E o último rio
Tiver secado até o fio
O homem finalmente entenderá
Que não se pode comer dinheiro
E que recitar velhos provérbios
Faz vocês parecer um babaca

***

Uma carta recebida pelo site do Banksy:

Não sei quem é você ou quantos de você existem, mas estou escrevendo para pedir que pare de pintar no lugar onde moramos. Especialmente na rua xxxxxx, em Hackney (Grande Londres). Eu e meu irmão nascemos aqui e moramos aqui nossas vidas inteiras, mas nos últimos tempos tantos yuppies e estudantes estão se mudando para cá que não temos mais dinheiro para comprar uma casa no lugar em que crescemos.

Seus grafites são sem dúvida parte do que faz esses babacas acharem que nosso bairro é descolado. Você obviamente não é daqui e, depois que os preços dos imóveis subirem, é possível que você vá para outro lugar. Faça um favor para todos nós e vá pintar suas coisas em algum outro lugar, como Brixton.

Daniel (sobrenome não informado)

***

As pessoas ou me amam, ou me odeiam ou realmente não dão a mínima (Banksy).

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[1] Todas retiradas de Banksy: Guerra e Spray (Intrínseca). Tradução de Rogério Durst.

Crédito da imagem: Banksy

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25.5.12

Antes que acabe a liberdade

Antes que acabe a liberdade (de verdade) na mídia brasileira, onde cada grupo parece ter o rabo preso num patrocinador ou corruptor diferente, o humorista mais genial da nova geração faz aqui o seu manisfesto:

Indiretas Já - paródia de Roda Viva, conforme era cantada por Chico Buarque e MPB-4 nos festivais musicais dos anos 60. Trecho do programa Comédia MTV, com Marcelo Adnet e companhia.

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Vamos ser sinceros: estivesse Adnet em qualquer outra grande emissora, poderia ganhar muito mais, mas algo assim jamais teria ido ao ar...


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11.10.11

Allan Kardec: racista? (parte 2)

« continuando da parte 1

Segunda e última parte de um artigo que pretende analisar a costumeira crítica a Allan Kardec, codificador da doutrina espírita, onde se afirma que ele era racista, baseando-se principalmente em trechos de A Gênese, a quinta e última obra fundamental do espiritismo. Não deixe de ler a primeira parte antes de prosseguir (link acima).

Podemos afirmar que o espiritismo é uma doutrina racista?
Certamente que não, pois essa seria uma grande generalização apressada.

Primeiro, porque o espiritismo não é criação de Kardec, e ele foi apenas seu codificador e organizador. Apesar dos 5 livros fundamentais da doutrina possuírem inúmeros comentários do próprio Kardec, foi baseado nas respostas dos espíritos as suas perguntas que Kardec organizou a doutrina espírita. Desse modo, ainda que se seja cético em relação a existência de espíritos, ou da possibilidade de que possamos nos comunicar de forma plenamente inteligível com eles, o máximo que se pode dizer é que as respostas dos espíritos são fruto do imaginário monumental de 3 jovens médiuns (de 14, 16 e 18 anos, respectivamente), as quais ditaram praticamente a totalidade das respostas.

Em todo caso, não é culpa dos espíritos (ou das 3 médiuns) que Kardec tenha interpretado suas respostas dessa forma. É muito comum ao ser humano interpretar de forma incompleta, errônea ou até distorcida as informações que lhe chegam de um, digamos, plano mais elevado. Kardec não foi o primeiro a interpretar a luz de uma forma difusa, e os textos sagrados da humanidade nos trazem inúmeros exemplos até mesmo muito piores (ex: o livro do Levítico, do Antigo Testamento).

Segundo, o espiritismo não é um “kardecismo”, e o próprio Kardec incentivou que esta doutrina, da qual ele foi mero codificador, fosse constantemente reavaliada e reinterpretada a luz de novas descobertas e compreensões mais elaboradas não somente no campo da ciência, como no da filosofia e da moral. Portanto, se Kardec era racista, e se hoje como espíritas ou espiritualistas nos damos conta disso, tanto melhor: identificamos então uma falha na doutrina, e cabe a nós corrigi-la, passo a passo, sempre em frente. Kardec não era infalível, nem nunca pretendeu ser... Era antes, como todos nós, humano.

Seriam os “povos selvagens” intelectualmente inferiores?
Tudo indica que não, e é esse o grande erro na interpretação de Kardec. Ora, não podemos confundir adiantamento tecnológico, econômico ou político com adiantamento intelectual ou moral a um nível “racial”. Sabemos que crianças selvagens, que se perderam nas selvas e foram criadas por animais como lobos (conforme o famoso exemplo de Amala e Kamala), quando “recuperadas” e inseridas de volta ao convívio com seres humanos, jamais deixam de se comportar como animais, sendo que na grande maioria das vezes sequer foram capazes de aprender a se comunicar (muito menos a ler e escrever). Da mesma forma que tanto crianças brancas quanto negras se parecerão muito quando criadas por animais em meio a selva, se forem criadas por pais amorosos e responsáveis, e educadas em grandes centros de ensino, não há absolutamente nenhuma teoria científica ou estudo estatístico que nos afirme que as negras, por exemplo, não se desenvolverão intelectualmente tanto quanto as brancas.

Dessa forma, por mais que nas ciências ocultas devamos considerar que em sua maioria os povos são formados por grandes egrégoras espirituais, nada impede que um espírito em grau moral e intelectual adiantadíssimo não encarne dentre os povos ditos “selvagens” [4] . De fato, teremos muitos exemplos de grandes sábios que encarnaram em meio a tais povos. Um deles, inclusive, nos deixou por escrito um registro histórico de seu grau de sabedoria. Vejamos o que o Chefe Seattle tinha a dizer ao então presidente americano, quando este lhe ofereceu uma oferta em dinheiro pela compra de suas terras (apenas um trecho):

“O Presidente em Washington diz que deseja comprar a nossa terra. Mas como pode comprar ou vender o céu, a terra? Essa ideia é estranha para nós. Cada parte dessa terra é sagrada para o meu povo. Cada agulha de pinheiro brilhante. Cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura. Cada característica é sagrada na memória e na experiência do meu povo.

Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores são nossas irmãs. O urso, o veado, a grande águia são nossos irmãos. Cada reflexo na água cristalina dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz do meu pai. Os rios são nossos irmãos. Eles levam nossas canoas e alimentam nossos filhos [5].”

Conclusão
Kardec era um homem de seu tempo, mas isso não deve ser usado como desculpa para que levemos em menor consideração alguns dos seus erros de interpretação. De fato, quando o criticarmos diretamente neste ponto, estamos somente agindo de acordo com o que ele mesmo defendia como filósofo, cético e cientista – o que muitos detratores corriqueiramente se esquecem.

Se esta crítica, muitas vezes acompanhada de julgamentos ferozes e generalizações apressadas, é o máximo que os detratores do espiritismo conseguiram encontrar de errado na doutrina (ao menos no campo moral e humanista, pois se espíritos existem ou não, é uma outra história...), deveremos como espíritas ou simpatizantes nos sentir agraciados por seguirmos uma filosofia tão abrangente e extensiva, e com tão poucas falhas... E mesmo as falhas existentes, estas poderemos também reavaliar, reconsiderar, reformar!

O espiritismo não foi criado ou divulgado para se ancorar em textos seculares, pois esta seria a origem do dogma, e como cientista e livre-pensador, Kardec era claramente contrário a quaisquer espécies de dogma... Kardec fez centenas de perguntas aos espíritos, mas houveram perguntas com respostas mal interpretadas tanto quanto outras tantas que nem os espíritos souberam responder. Isso significa, obviamente, que o espiritismo não está pronto e acabado, e que cabe a nós continuarmos a codificá-lo, quebrando preconceitos e nos livrando da ignorância, um passo de cada vez [6].

O Espiritismo não teme a luz; ele a chama sobre suas doutrinas, porque quer ser aceito livremente pela razão. Longe de temer, pela fé dos Espíritas, a leitura das obras que o combatem, diz: Lede tudo; o pró e o contra, e fazei a escolha com o conhecimento de causa (Allan Kardec).

O Espiritismo, restituindo ao Espírito o seu verdadeiro papel na criação, constatando a superioridade da inteligência sobre a matéria, apaga naturalmente todas as distinções estabelecidas entre os homens segundo as vantagens corpóreas e mundanas, sobre as quais o orgulho fundou castas e os estúpidos preconceitos de cor. O Espiritismo, alargando o círculo da família pela pluralidade das existências, estabelece entre os homens uma fraternidade mais racional do que aquela que não tem por base senão os frágeis laços da matéria, porque esses laços são perecíveis, ao passo que os do Espírito são eternos (Revista Espírita 1861, pág. 297-298).

***

[4] Apesar de raro, não é impossível que um espírito de uma determinada cultura e etnia (e suas egrégoras) reencarne na vida seguinte numa cultura diversa. Em seus estudos de crianças que lembram vidas passadas, Ian Stevensson encontrou um ou outro caso do tipo, e a "simpatia" do espírito por sua cultura anterior era geralmente tão evidente que eles faziam de tudo para "retornar" a região de sua etnia na vida anterior. Também há casos mais dramáticos, infelizmente, quando todo um povo é dizimado, e os espíritos reencarnantes são obrigados a se "deslocar" para outros povos.

[5] Veja aqui um resumo mais extenso da Carta do Chefe Seattle, um dos grandes textos espiritualistas da humanidade...

[6] Se você é espírita, talvez se entusiasme mais por essa extensiva e detalhada defesa que Paulo da Silva Neto Sobrinho faz a Kardec em relação a acusação de racismo. No entanto, não posso afirmar que se trate de um texto totalmente imparcial, como espero que tenha sido o meu - na medida em que espero, igualmente, um julgamento imparcial de cada leitor.

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Crédito da imagem: Reed Kaestner/Corbis

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10.10.11

Allan Kardec: racista? (parte 1)

Este artigo pretende analisar a costumeira crítica a Allan Kardec, codificador da doutrina espírita, onde se afirma que ele era racista, baseando-se principalmente em trechos de A Gênese, a quinta e última obra fundamental do espiritismo. A análise pretende ser imparcial (apesar de eu ser um espiritualista), se não acredita, leia até o fim antes de julgar. Se você ainda não conhece o espiritismo a fundo, recomendo primeiramente que leia esta série de artigos onde resumo a essência da doutrina, e depois retorne...

A crítica quanto à tendência racista de Allan Kardec se baseia principalmente em trechos do Capítulo XI de “A Gênese”, mais precisamente onde ele analisa a hipótese sobre a origem dos corpos humanos, e sobre como o espírito poderia, hipoteticamente, exercer influência em sua formação de acordo com sua “antiguidade ou adiantamento espiritual”.

A primeira análise que devemos fazer é em relação à validade desse tipo de crítica, e para tal nada melhor que primeiramente ler o trecho citado (Cap. IX, 30 a 32, os grifos em negrito são do texto original):

“Se bem que os primeiros homens devessem ser pouco adiantados, pela mesma razão que os fazia encarnarem-se em corpos muito imperfeitos, devia haver entre eles diferenças sensíveis, nos seus caracteres e aptidões. Os Espíritos semelhantes naturalmente se agruparam pela analogia e pela simpatia. A Terra achou-se assim povoada por diferentes categorias de Espíritos, mais ou menos aptos ou rebeldes no progresso. Os corpos recebem a característica do Espírito, e esses corpos se procriam segundo seu tipo respectivo; daí resultam diferentes raças, no físico como no moral [1]. Os Espíritos semelhantes, continuando a se encarnar de preferência no meio de seus semelhantes, perpetuam o caráter distintivo físico e moral das raças e dos povos, o qual não se perde após muito tempo, pela sua fusão e pelo progresso dos Espíritos.

Podem-se comparar os Espíritos que vieram povoar a Terra a grupos de imigrantes de origens diversas, que vão se estabelecer numa terra virgem [2]. Ali encontram a madeira e a pedra para fazer suas habitações, e cada uma dá à sua um feitio diferente, conforme seu grau de saber, e seu gênio particular. Ali se agrupam pela analogia de origens e de gostos; esses grupos acabam por formar tribos, depois povos, cada um com seus costumes e caráter próprio.

O progresso não foi, pois, uniforme em toda a espécie humana; as raças mais inteligentes naturalmente progrediram mais que as outras, sem contar que os Espíritos, recentemente nascidos na vida espiritual, vindo a se encarnar sobre a Terra desde que chegaram em primeiro lugar, tornam mais sensíveis a diferença do progresso. Com efeito, seria impossível atribuir a mesma antiguidade de criação aos selvagens que mal se distinguem dos macacos, que aos chineses, e ainda menos aos europeus civilizados.

Esses Espíritos de selvagens, entretanto, pertencem também à humanidade; atingirão um dia o nível de seus irmãos mais velhos, mas certamente isso não se dará no corpo da mesma raça física, impróprio a um certo desenvolvimento intelectual e moral. Quando o instrumento não estiver mais em relação ao desenvolvimento, emigrarão de tal ambiente para se encarnar num grau superior, e assim por diante até que hajam conquistado todos os graus terrestres, depois do que deixarão a Terra para passar a mundos mais e mais adiantados.”

Agora passemos a análise do trecho citado tendo em mente a crítica mencionada:

Podemos afirmar que Kardec era racista?
Sim, sem dúvida. Inclusive pelo trecho que consta grafado em negrito desde o original. Está muito claro que, apesar de Kardec não ser nem de longe racista no sentido espiritual – pois que considerava que todos os espíritos, desde bactérias e animais irracionais, até os primatas e “selvagens”, poderiam eventualmente alcançar o estágio de “adiantamento moral e intelectual” do “ser humano moderno” –, no sentido corpóreo (físico), que é afinal de contas onde se efetua a crítica, ele era claramente racista a partir do pressuposto de que existiam “raças físicas” diversas, o que fica muito claro tanto no texto em geral quanto na frase grafada.

Hoje sabemos que racismo é ignorância. A ciência comprovou que não existem raças humanas (derradeiramente através do Projeto Genoma). O que chamamos de “raça” se resume a uma diferença da tonalidade da cor de nossa pele: em comparação com a pele de outros primatas, a pele humana possui menor pelagem. A cor do pelo e da pele é determinada pela presença de pigmentos, chamados melaninas. A maioria dos autores acredita que o escurecimento da pele foi uma adaptação que evoluiu como uma defesa contra a radiação solar ultravioleta (UV); a melanina é uma substância eficaz contra esta radiação. A cor da pele, em humanos atuais, pode variar desde o castanho escuro até ao rosa pálido [3].

Podemos condenar Kardec por ser racista?
Talvez... Tanto quanto poderíamos condenar um filósofo da Grécia antiga por não se revoltar contra a escravatura, tanto quanto poderíamos condenar o grande pensador alemão, Schopenhauer, por ser um machista convicto que relegava o papel das mulheres na sociedade a um “segundo plano”, tanto quanto poderíamos condenar praticamente qualquer francês de sua época por ser igualmente racista, visto que ainda durante sua geração a escravidão ainda era legal em inúmeros países e colônias. E, de fato, era ainda muito comum que as crianças europeias da época fossem educadas para pensar que os escravos (em sua maioria negros descendentes de partes “supostamente selvagens” da África) possuíam intelecto notadamente inferior.

Em suma, Kardec parecia realmente convicto que povos selvagens do continente africano, da China e da Austrália, dentre outros, possuíam capacidade intelectual e moral inferior a dos europeus e suas colônias mais ricas, mas isso era não obstante um pensamento difundido em toda a França e Europa, mesmo entre os intelectuais, como era o caso de Kardec. Prova de que nem sempre, ou quase nunca, podemos nos colocar em posição de julgar qual povo é mais ou menos adiantado.

» Na segunda e última parte, analisaremos se o espiritismo pode ser considerado uma doutrina racista, e também se os povos "selvagens" seriam realmente intelectualmente inferiores...

***

[1] Aqui Kardec faz referência ao item #11 do mesmo capítulo, que resumidamente afirma que são os próprios espíritos quem auxiliam na fabricação de seus corpos, de acordo com o adiantamento de seu intelecto para tal. De modo que, segundo a hipótese de Kardec, espíritos de elevado intelecto tendem a conceber (ou auxiliar na concepção) corpos mais “aperfeiçoados e belos”.

[2] Muitos não sabem, mas o espiritismo não fala apenas da reencarnação de homo sapiens na Terra, como da evolução espiritual de bactérias até espécies hipoteticamente muito mais avançadas que o homo sapiens, assim como em transmigrações de espíritos entre planetas, de modo que o ciclo de reencarnação não está limitado a uma única espécie, e tampouco a um mesmo planeta. Nota-se, entretanto, que a transmigração entre planetas é espiritual e não corpórea (física).

[3] Os zoólogos geralmente consideram a raça um sinônimo das subespécies, caracterizada pela comprovada existência de linhagens distintas dentro das espécies, portanto, para a delimitação de subespécies ou raças a diferenciação genética é uma condição essencial, ainda que não suficiente. Na espécie homo sapiens - a espécie humana - a variabilidade genética representa 3 a 5% da variabilidade total, nos sub-grupos continentais, o que caracteriza, definitivamente, a ausência de diferenciação genética. Portanto, inexistem raças humanas do ponto de vista biopolítico matematicamente convencionado pela maioria.

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Crédito da imagem: Divulgação (FEB/Domínio público)

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28.6.11

Esperando a Nave-Mãe

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

« Este conto é uma continuação direta de “Fotografando auras”

Quando subi a escada de madeira que dava na sobreloja do endereço que Inês havia me passado – a tal “casa esotérica” onde encontraria Carla e poderia iniciar meu “desenvolvimento na paranormalidade” – confesso que não estava nem um pouco assustado... Esse sempre foi o meu trunfo e minha maldição ao lidar com assuntos “do outro mundo”: minha curiosidade sempre foi muito maior do que meu temor ante o assunto.

Mas, quando cheguei na pequena sala de espera, que mais parecia de um consultório ondontológico, tive uma decepção e um temor. A decepção foi ter encontrado apenas um garoto mais ou menos da minha idade sentado numa cadeira – esperava encontrar algumas “esotéricas bonitinhas”, não nego. O temor foi devido ao ar de assombro com que o jovem me encarou, ele parecia estar com tanto medo de mim, ou de “sei lá o que” que envolvia estar naquele ambiente, que eu mesmo acabei absorvendo um pouco daquele medo para mim.

Quando ia me dirigir a ele para perguntar sobre Carla, ela abriu uma porta que dava para a única outra sala da sobreloja, e me convidou a entrar. Carla era bem mais jovem e bonita do que Inês, mas nesse caso isso era algo estranho para mim – como poderia “ela ser a guru, e a outra a assistente”? Como podem ver, eu não tinha muita experiência no ramo, somente muitos anos depois descobri que em assuntos espirituais a idade não é garantia nem documento de nada.

Mas, ao menos nesse caso, tanto Inês quanto Carla pareciam estar igualmente “confusas”... Minha conversa com Carla foi tão estranha que eu hoje mal lembro exatamente sobre o que conversamos. Tudo que me lembro foi que ela eventualmente me alertou para “a chegada das naves” e para como “deveríamos estar preparados para deixar a Terra de um dia para o outro”. Aquilo me deixou tão confuso que tudo que pude fazer foi concordar com a maior parte do que ela me disse, e tentar compreender melhor se aquilo fazia algum sentido posteriormente, lendo o livro que ela me indicou...

De saída, passei numa livraria próxima onde o livro estava à venda. Chama “Projeto Evacuação Mundial” e foi escrito por Ergom Abraham, que normalmente é referido como “professor Ergom”, apesar se eu não saber até hoje o que exatamente ele ensina. Por sorte, o livro é tão fantástico e absurdo, que resolvi guardá-lo para a posteridade, do contrário não poderia trazer a vocês tantos detalhes sobre ele agora. Ele está aqui do meu lado, vou citar algumas passagens:

“Este livro é carinhosamente dedicado a Todos os Membros da “L.I.V.R.E.” – Legião Intergaláctica dos Voluntários Reais Espaciais, presentes no Planeta (trecho da Dedicatória, o primeiro que se lê no livro)”.

“De Jesus o Cristo:
Deve haver paz na Terra. Deve haver fim às guerras e ao ódio entre irmãos. Os milhões que vêm de outros mundos, de galáxias distantes para ajudar a trazer Paz à Terra, têm meu firme apoio e respaldo para todos os seus esforços [...] Eu sou Sananda e esta é minha mensagem ao mundo (trecho do Prólogo, onde temos o comunicado do comandante espacial Sananda, ou seja, Jesus Cristo)”.

“Vários milhões de voluntários universais caminham sobre a Terra: estão cheios de luz, completos em sua dedicação e consagração ao Governo Celestial, à Hierarquia Solar e a Confederação Intergaláctica, na salvaguarda do planeta. Os mais elevados Concílios Celestiais decretaram que aqueles eleitos sejam pessoalmente recolhidos a Terra, temporariamente postos em uma frequência superior dentro de nosso território, para ali serem preparados física e espiritualmente para as missões e operações a serem efetuadas (trecho de uma das mensagens de Ashtar, o comandante da Nave-Mãe que virá a Terra buscar “os eleitos”)”.

“Com quase um ano de antecipação, fui informada de que regressaríamos das reuniões com o Comando, com “algo para levar e usar” [...] Algumas trarão colares, outros anéis, broches, porém todos com pedras de cristal engastadas. O que importa nesses objetos não é a forma, mas sim o fato de que sejam levados e, de algum modo, colocados sobre o corpo (depoimento da médium Eve Carney, onde alerta sobre os “presentes” que os extraterrestres lhes darão, estranhamente seriam presentes um tanto quanto “terrenos”)”.


Vamos resumir rapidamente do que se trata o livro: Os tempos “estão chegados”, uma “nova era” se aproxima e ela não trará a princípio boas notícias para nosso planeta. Grandes desastres naturais e guerras causadas pela ignorância humana vão transformar a Terra em um inferno. Porém, alguns “eleitos” e “iniciados nos mistérios do Comando Ashtar” serão selecionados para escaparam do apocalipse terreno na Nave-Mãe do Comandante Ashtar e outras naves de sua frota. A esses seres “evoluídos espiritualmente” espera-se que a esperança da raça humana persista, e que possam povoar outros mundos, ou talvez este mesmo, quando retornarem para arrumar a bagunça que os “não eleitos” tiverem causado a Terra.

Antes que me perguntem: sim, a Nave-Mãe viria fisicamente ao planeta. E o “arrebatamento” seria também físico – nada de um intercâmbio de espíritos desencarnados, conforme relatos espíritas nos trazem, seria um evento puramente FÍSICO.

Agora o que eu achei do assunto? Bem, não posso afirmar a priori que o Comandante Ashtar e sua Nave-Mãe não existam, pois a ausência da evidência não é a evidência da ausência. Além disso, como os alienígenas se comunicam através de contatos com médiuns na Terra, e como eu acredito que a mediunidade exista, não poderia negar a priori a possibilidade desse tipo de contato. Dito isso, existem obviamente vários problemas graves com a teoria de Ergom:

A. Se a “evacuação mundial” será física, e não espiritual, porque até hoje nenhum seguidor de Ashtar nos trouxe uma prova física de sua existência? Não precisava ser uma de suas naves a descer em frente à Casa Branca nem nada desse tipo, bastaria um artefato, um desses “colares” e “broches” que seriam entregues, contendo quem sabe um tipo de cristal inexistente na Terra. Mas não há nenhum tipo de evidência física.

B. Se “os tempos são chegados” e é preciso que as pessoas tenham fé na vinda da Nave-Mãe, para que sejam salvas, porque então não trazer uma evidência física? Esse tipo de coisa traria muito mais seguidores, muitos mais “candidatos à salvação”, do que apenas mensagens mediúnicas publicadas em livros esotéricos.

C. Porque diabos Jesus Cristo, ou o Comandante Sananda, sendo o regente interplanetário deste setor da galáxia (incluindo a Terra), iria simplesmente enviar uma nave para resgatar alguns poucos eleitos? Porque não enviar uma nave que pudesse trazer a tecnologia necessária para salvar a Terra das catástrofes vindouras? Porque não descer ele mesmo nessa nave, ou quem sabe o Comandante Ashtar, para que pudessem instruir nossos governos ao que deveria ser feito para salvar o planeta? Porque, enfim, deixar bilhões morrerem (incluindo os animais que não tem nada a ver com a história), para salvar alguns milhares?

D. Porque toda essa história se parece tanto com a crença bíblica de Céu e Inferno? Há no livro inúmeras referências ao “apocalipse bíblico” e as “muitas moradas” relatadas por Jesus... Mas, se toda essa história é apenas uma “versão futurista” do mito do fim do mundo, caímos de volta na fragilidade de muitas de suas afirmações. Eu poderia me estender sobre isso aqui, mas creio que basta lembrar de uma coisa: “Como poderemos ser nalguma felizes no Céu sabendo que boa parte dos seres da Terra, incluindo amigos próximos e familiares, estarão ardendo em um Lago de Enxofre?”.

A minha ideia de Céu não se parece com um Reino de Ócio nem com um “planeta novo a nossa espera”... O Céu se faz quando todos os seres se amam e auxiliam mutuamente. No Céu só poderemos entrar de mãos dadas, e se nalgum dia chegarmos lá antes de nossos irmãos, tudo o que desejaríamos seria retornar e ajudar os que aqui ficaram – pois isso seria a atitude natural de um ser amoroso.

Então, eu sinto muito, Ergom, e eu sinto muito, Comandante Ashtar, mas se quiserem pousar sua Nave-Mãe e “salvar seus eleitos”, que sejam bem vindos. Mas eu, eu ficarei. Ficarei para ajudar o planeta... E acho que isso resume o que tinha para dizer acerca do “Projeto Evacuação Mundial”.

Nunca mais voltei aquela “casa esotérica”, mas tem uma coisa que não me foge a memória... O garoto, o pobre garoto... Será que ele vive até hoje angustiado, esperando pela Nave-Mãe que não chega? Será que ele realmente se acha um paranormal?

Também não me perguntem o que o Comando Ashtar tem a ver com as fotografias Kirlian, até hoje não descobri... Felizmente, no entanto, nem todas as minhas festas estranhas foram tão sem sentido.

***

Vejam também:

» Entrevista com Ergom, onde ele se defende das acusações de “elitismo” em sua teoria.

» Algumas fotos (falsas) de Nibiru, o planeta que traria uma “mudança de era” ao orbitar muito próximo da Terra (Ergom infelizmente participou da fraude, desvelada no site Ceticismo Aberto).

***

Crédito da foto: Markus Ram

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9.8.10

Pornografia científica

Texto de Eva Jablonka e Marion J. Lamb em "Evolução em quatro dimensões" (editora Cia. das Letras) – Trechos das pgs.443 a 446. Tradução de Claudio Angelo. As notas ao final são minhas.

[Alguns trechos do livro trazem um diálogo entre dois personagens fictícios, I.M. é uma espécie de crítico das idéias expostas no livro, enquanto que M.E. é uma espécie de heterônimo que reúne o pensamento de ambas as autoras:]

I.M.: Então quais são as implicações morais da visão de vocês [1]?

M.E.: Biólogos que abordam a hereditariedade e a evolução de maneiras diferentes em geral têm valores e objetivos sociais parecidos. A maioria se opõe ao racismo; a maioria quer um mundo melhor e mais justo, e assim por diante. O grande problema é a imagem pública das diversas idéias biológicas [2]. Como muitos biólogos enfatizam o aspecto genético do comportamento humano, seus pontos de vista muitas vezes são interpretados de forma a levar à crença generalizada de que comportamentos comuns (em geral repreensíveis) são “genéticos”, “naturais” e, como doenças monogenéticas simples, inevitáveis. Isso é bobagem, mas é a maneira como as ideais dos biólogos são percebidas, e a maioria deles não faz nada para mudar essa percepção [3].
Uma visão mais ampla da hereditariedade e da evolução torna explícitos a riqueza de possibilidades abertas diante de nós e o fato de que nossas atividades, como indivíduos ou grupos, constroem o mundo em que vivemos [4]. Especificamente, reconhecer que temos uma história e podemos planejar o nosso futuro, que somos capazes de construir mundos imaginários compartilhados e explorá-los e persegui-los sistematicamente expande em muito a nossa liberdade. A plasticidade do comportamento humano é imensa. Com base no conhecimento atual, ninguém pode negar o poder da construção social histórica e explicar o status quo comportamental e social apenas em termos de genes e memes. Não podemos transferir o poder e a responsabilidade explanatórios para essas entidades!

I.M.: Isso é uma critica da sociobiologia humana, não é?

M.E.: Isso é uma crítica de “persona pública” dessa disciplina, o que em grande parte é culpa dos sociobiólogos. Queremos ser justas e claras: a maioria dos sociobiólogos não acredita que sejamos escravos dos nossos genes. O problema é que alguns deles tendem a promover uma imagem pública vulgar de “tendências” geneticamente determinadas [5]. Para isso eles ridicularizam seus oponentes, erguendo espantalhos e destruindo-os em triunfo, interpretando cada padrão de comportamento, da piada ao estupro, como manifestação de uma adaptação evoluída selecionada em algum momento do passado. O livro A natural history of rape [Uma história natural do estupro], de Thornhill e Palmer, é um exemplo perfeito desse gênero.
Eles não afirmam não ser possível sobrepujar a manifestação de um comportamento como a propensão ao estupro, mas sugerem que isso é muito difícil por se tratar de um comportamento embutido num módulo mental que evoluiu [6]. Nem é preciso dizer que não existe nem sombra de evidências para essas alegações evolutivas. São apenas histórias inventadas [just so stories].
[...] Eles estão sugerindo que é impossível mudar a tendência comportamental por meio de educação e mudança social? Com certeza os defensores dessas visões diriam que não. Diriam que, ao contrário, esses fatores ajudam a saber como moldar a sociedade e educar as pessoas para que elas superem os problemas associados ao lado desagradável de nossos comportamentos evoluídos. Mas ninguém nos diz como construir uma sociedade na qual tendências ao estupro evoluídas geneticamente não possam se manifestar. Essas pessoas e suas obras não trazem nada de significativo além de descrições suculentas e vendáveis de comportamentos sexuais e um punhado de platitudes sobre como evitar ou controlar impulsos inadequados – por exemplo, dando cursos de comportamento sexual a adolescentes do sexo masculino antes que eles aprendam a dirigir ou aconselhando mulheres jovens a se vestirem com discrição (ninguém defendeu ainda a adoção do cinto de castidade masculino).
Há pouco conteúdo real nessa pornografia “científica” soft. Este é um exemplo extremo, claro; Nem todas as histórias sociobiológicas humanas são tão vazias. O problema é que a oposição a elas não é tão forte quanto deveria ser nas fileiras de sociobiólogos mais sérios. [...] E suas versões vulgarizadas são muito populares.

I.M.: Porque elas são tão populares? Que tipo de necessidade elas satisfazem? Talvez isso possa dar uma pista sobre o tipo de visão de mundo que elas refletem.

M.E.: É provável que não exista só uma resposta. Talvez elas satisfaçam uma necessidade de pensar em termos de causas únicas, como na física clássica. Como as leis de Newton explicam os movimentos dos corpos celestes, os genes mendelianos explicariam o comportamento humano. A complexidade é explicada de uma forma simples e científica. Mas há um outro lado nesse fascínio com os genes. Os genes são vistos como elos com nosso passado distante, com os nossos ancestrais, que nos governam de uma maneira irracional e misteriosa.
Há algo de muito romântico nessa noção – na eterna força escura e profunda dos genes a nos guiar [7]. E essa combinação peculiar do romântico com o científico é incorporada a muitas das histórias evolutivas dos sociobiólogos. Talvez seja isso o que torne essas explicações baseadas nos genes tão atraentes para as pessoas [8].

***

[1] A teoria exposta pelas autoras ao longo do livro identifica quatro “dimensões” – quatro sistemas de herança que desempenham um papel na evolução: a genética, a epigenética (ou transmissão de características celulares, alheias ao DNA), a comportamental e a simbólica (transmissão através da linguagem e de outras formas de comunicação). Elas argumentam que esses sistemas são capazes de fornecer variações sobre as quais a seleção natural pode agir. Veja também meu comentário em outro trecho do livro publicado neste blog – “Astrologia genética”.

[2] É interessante como eu, que nem sou cientista, muitas vezes sou confundido com um em discussões online, apenas porque me mantenho algo informado sobre a divulgação científica mais atual. Talvez seja sorte em escolher os autores certos, mas acredito que no geral as pessoas mal se esforçam para ler sobre ciência – ao primeiro cientista (ou pseudo-cientista) que lhes traz uma teoria que combine com sua visão de mundo, dão-se já por satisfeitas... É mais ou menos por isso que muitos crêem piamente que os memes de Dawkins explicam a evolução não-física, quando em realidade os memes são muito mais entidades místicas do que elementos genuinamente científicos.

[3] Ou seja: quem não gosta de vender livros? Escreva o que o povo quer ler, ou invente uma nova teoria mirabolante baseada em genes, e venderá bem... Ocorre que raramente essa prática auxilia no desenvolvimento de nosso conhecimento e nossa ciência em geral, por razões óbvias.

[4] Não posso deixar de citar o Chefe Seattle: “Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.”

[5] Esta é a atual ilusão persistente do determinismo. Anteriormente este papel já coube a deusa Fortuna (e mitos similares), depois a “mão de Deus”, depois aos governantes totalitários (que se diziam infalíveis e/ou representantes divinos), e hoje cai na conta do genecentrismo. Isso é mais sério do que parece, pois somos “educados” pela mídia a pensar que os genes determinam muito do que somos ou iremos ser, embora nem científico isso seja (e mesmo que fosse, a ciência tampouco é infalível).

[6] O pior de tudo é que essas teorias se valem de conceitos de psicologia evolutiva que podem fazer sentido, mas que devem ser analisados de maneira bem mais ampla e profunda... Por exemplo, em “A pré-história da mente” o arqueólogo Steven Mithen argumenta que os hominídeos pré-humanos apresentaram variadas gradações de módulos de inteligência – a inteligência geral, a naturalista, a técnica e a social. Porém, somente nos homo sapiens esses módulos da mente se unificaram em um único grande conjunto, de modo a possibilitar o surgimento da cultura, da arte e da religião humanas. Desnecessário dizer que o estudo de Mithen é muito mais profundo do que essas teorias de “módulos do estupro”.

[7] Eis que, mesmo num mundo científico-materialista, o lado misterioso, os antigos mitos e arquétipos continuam forçando-se adentro da imaginação humana. Ocorre que pode ser bastante perigoso lidar com eles no campo errado – não se trata de uma ciência exata e racional, mas de uma experiência que deve ser compreendida em seu contexto correto. Obviamente que a maior parte de nós já se perdeu desse contexto há muito tempo; mesmo os que se dizem religiosos muitas vezes rezam na verdade para o deus do consumo, e são tão materialistas quanto muitos ateus.

[8] “O gene da fé”, “o gene da racionalidade”, “o gene do bom humor”, “o gene da homossexualidade”, etc. – e o que seria tudo isso senão um politeísmo genecêntrico? Mas, se a “ciência” diz que sim, quem dirá que não?

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Crédito da foto: Divulgação/"This Ain't Star Trek XXX"

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