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3.4.18

Viviane Mosé fala sobre a sociedade em rede

Ontem tive o privilégio de ver ao vivo, na Câmara Municipal de Campo Grande/MS, a palestra do maior pensador vivo do país, que por acaso é uma mulher, e se chama Viviane Mosé.

Iniciando seu discurso há 100 mil anos, desde o surgimento da consciência humana, passando pela descoberta de nossa mortalidade, pela agricultura e pela invenção de imprensa, Mosé chega enfim a grande revolução de nosso tempo, a internet, com todo o seu potencial maravilhoso e todas as suas revelações monstruosas de nós mesmos: uma sociedade deprimida em busca de algum rumo, em geral dominada pelos discursos fáceis, radicais, mas que tem a sua frente a imensa tarefa de aprender a viver em rede, a educar e ser educada, e a abandonar uma visão excessivamente racional da vida em prol de uma presença emocional, aqui e agora...

Tudo isso tentou falar a filósofa e poetisa de um fôlego só. Estejam preparados, não é vídeo para se ver sem prestar atenção. Se trata de um verdadeiro vendaval filosófico:

Obs.: Ela começa a falar em 00:14:50. Infelizmente o Facebook não permite inserção de tempo inicial num vídeo compartilhado desta forma.


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22.11.11

Intoxicados, parte 1

Droga é toda e qualquer substância, natural ou sintética, que quando introduzida no organismo, modifica suas funções de forma considerável; Particularmente alterações nos sentidos, no caso dos entorpecentes.

Um drama persistente

Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774) é um romance de Johann Wolfgang von Goethe. Marco inicial do romantismo, considerado por muitos como uma obra-prima da literatura mundial, é uma das primeiras obras do autor, de tom autobiográfico. Werther – o protagonista – é marcado por uma paixão profunda e tempestuosa, marcada pelo fim trágico. Com seu suicídio, devido ao amor aparentemente não correspondido, Goethe põe um pouco de sua vida na obra, pois ele também vivera um amor não correspondido, apesar de, evidentemente, não ter cometido o ato de se matar. Em todo caso, tão profundamente descrito foi o drama e o suicídio do jovem Werther, que nos anos seguintes a publicação, diversas pessoas se mataram de forma semelhante na Alemanha e, em vários casos, um exemplar do livro era encontrado ao lado do corpo.

É sempre complexo lidar com os momentos em que a vida simplesmente parece não se desenrolar da maneira que esperávamos, que gostaríamos, particularmente nos casos de sentimentos não correspondidos. Sem dúvida que, quando éramos caçadores nômades, tais angústias provavelmente sequer tinham espaço em nossa mente: era preciso sobreviver, não havia muito tempo para refletir sobre a vida... Estranho de se pensar: foi exatamente quanto nos assentamos em grandes e luxuosas cidades, quando tínhamos comida fresca na geladeira e acesso fácil ao conhecimento elaborado da natureza, que passamos a nos angustiar com a vida. Será que a vida foi feita para vivermos sem exatamente pensarmos sobre ela?

Paradoxalmente, ao termos tempo de sobra para refletir sobre nossa própria vida, por vezes acabamos por, ao invés de celebrá-la e aproveitar o tempo livre para viver, criar uma enorme dramaturgia que insiste em tornar tudo cinza e melancólico, ao nos reafirmar que, ao contrário do que pensávamos, a vida não transcorre sempre da maneira que gostaríamos... Se é assim, vale a pena viver? A grande ironia é que o “mal do século”, a depressão, quase que sempre se caracteriza por um medo persistente da morte. Então, por nos angustiarmos com a vida, principalmente por temer a morte, acabamos por deixar de aproveitar este precioso momento do existir. Então, parafraseando o Dalai Lama, vivemos como se não fôssemos morrer, mas com grande medo da morte, e por fim morremos como se não houvéssemos sequer vivido, pois que foi uma vida de medo.

A primeira causa de morte por atos de violência no mundo não são os acidentes de trânsito, os homicídios nem os conflitos armados, mas o suicídio. Esse dado desconcertante foi revelado em 2002, numa reunião da Organização Mundial de Saúde (OMS) em Bruxelas. Ao lê-las (aparentemente pela primeira vez) para os convidados da cerimônia, o então primeiro-ministro da Bélgica, Guy Verhofstadt, não conteve o susto e, quebrando o protocolo, indagou incrédulo: “É isso mesmo?”. Sim, é isso mesmo, a pós-modernidade tem nos relegado esta herança macabra, em que uns optam por findar sua dramaturgia encerrando a própria vida, enquanto outros optam por viverem como se nem mesmo estivessem por aqui...

Ao longo do tempo, muitos encontraram refúgio dessa angústia na anestesia da própria alma... A lista das substâncias que deveriam vencer as depressões, mas que sempre ajudaram apenas alguns afetados, é muito longa. No decorrer dos séculos, os médicos testaram quase tudo o que influenciava o cérebro de alguma forma. O ópio já era considerado na antiga China um meio eficaz contra as doenças do ânimo. O “tratamento com ópio” devia curar a melancolia, mas devido ao seu enorme risco de vício, ao longo dos séculos as pessoas desistiram da droga (mas nem todas), sendo que ela há muito deixou de ser compreendida como um remédio para a angústia.

Em 1802, um médico londrino recomendava um pesado Borgonha contra a melancolia. A cannabis e a cocaína também eram comumente utilizadas no século 19 como medicamento. Nos anos 50, entraram em voga as anfetaminas estimulantes. Em 1953, causou sensação uma notícia que dizia que o medicamento utilizado para tuberculose, a iproniazida, também tinha efeito antidepressivo. Alguns anos mais tarde, porém, ele foi tirado do mercado, pois pode causar graves efeitos colaterais no organismo. De lá para cá, entretanto, temos observado uma grande corrida da indústria farmacêutica mundial em busca de antidepressivos cada vez mais eficazes e com menos efeitos colaterais... Ou, pelo menos, é o que o grande mercado da melancolia gostaria que vocês acreditassem.

Em 2008, o psicólogo Irving Kirsch, da universidade britânica de Hull, examinou os documentos americanos da autorização de quatro novos depressivos. Os produtos, aparentemente ajudavam apenas pacientes com depressão grave. À primeira vista, parecia que as substâncias mitigavam os sintomas da patologia independentemente de sua gravidade. Ora, formas mais amenas de melancolia costumam regredir naturalmente após certo tempo. Essas “curas espontâneas” são tanto mais comuns quanto mais leves forem os estados depressivos. Nos estudos de Kirsch comprovou-se que nos estágios de depressão leve, faz pouquíssima diferença se os pacientes usaram antidepressivos ou placebo (por exemplo, pílulas de farinha). Somente em depressões mais sérias a diferença estatística entre o preparado e o placebo se torna realmente relevante.

Não quero aqui, obviamente, dizer que depressivos devem deixar de se medicar. Muito pelo contrário, estou, como Kirsch, enaltecendo que os remédios são de grande auxílio, contanto que o paciente esteja efetivamente depressivo... A indústria farmacêutica é, ironicamente, junto com a indústria do comércio ilegal de drogas, um dos grandes mercados mundiais, provavelmente com as taxas de lucro mais elevadas – ao lado da indústria de armamentos. Estamos, pois, vivendo na era do culto ao lucro, capitaneada pelo deus do consumo. Não é nenhuma surpresa, portanto, que o seu grande profeta, o deus da tarja-preta, surja como o grande agente de barganhas por todas as partes do mundo capitalista.

É fácil compreender: se as indústrias deixam de visar apenas o auxílio à cura efetiva, e passam a dar prioridade às margens de lucro, me parece óbvio que seja cada vez mais comum às pessoas serem diagnosticadas apressadamente como depressivas. E, igualmente compreensível, que cada vez mais remédios antidepressivos sejam facilmente recomendados, mesmo nos casos em que não têm eficácia muito distante de uma pílula de farinha... Cada vez mais, o tratamento psicoterápico, tão essencial, é relegado a uma mera medição mecânica onde supostamente se mede um estado de tristeza e se receita antidepressivos X ou Y como tratamento. Cada vez mais, somos que tratados como máquinas complexas que, por alguma estranha razão, estão preferindo se anestesiar a encarar a própria melancolia, e viverem como se não estivessem mais aqui... Para o deus tarja-preta, no entanto, tudo está perfeitamente bem, contanto que não se matem, contanto que não parem de comprar suas maravilhosas “pílulas de felicidade comprimida”.

Mas, as estatísticas da OMS não mentem: não tem dado certo. As máquinas tristes continuam se matando, continuam preferindo se desligar a enfrentar o drama persistente da vida... Talvez fosse a hora de voltarmos a uma medicina de vida, e não de anestesia da vida. A um entendimento de que somos, afinal, seres, e não máquinas, por mais que isso contrarie o materialismo em voga. No fim, o que parece nos salvar da angústia do mundo é algo que sempre esteve dentro de nós mesmos, mas que em nossa dramaturgia encenada cuidadosamente para que continuássemos a buscar algo lá fora, e não aqui dentro, acabamos por ignorar, e a viver como se não tivéssemos uma alma para tomar conta.

Tomar conta de uma alma é uma grande responsabilidade. Requer a compreensão dos eventos da vida que podemos mudar e, sobretudo, daqueles que não podemos. Requer o olhar para si mesmo, e encarar de frente os momentos de tristeza... Não como o jovem Werther, que apostou toda a sua felicidade, toda a sua vida, no sentimento de outro alguém, mas como todo ser que está em via de desenvolvimento, e de lenta aquisição de sabedoria, e que aposta toda a sua vida na própria vida, na existência em si, neste divino momento, e apenas nele.

Há outros, porém, que foram ainda mais iludidos: que aprenderam a se entorpecer, e se tornarem insensíveis para a melancolia, ainda antes que ela viesse...

» Na continuação – o grande dilema do combate às drogas: reprimir ou tratar?

***

Bibliografia
As informações científicas e estatísticas do artigo foram retiradas dos artigos Antidepressivos são mesmo eficazes?, pelo psicólogo e jornalista Jochen Paulus, que foi matéria de capa da revista Scientific American – Mente & Cérebro #226 (Duetto); e Escalada do suicídio, pela jornalista científica Luciana Christante, autora do blog Efeito Adverso.

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Crédito da imagem: Corbis

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2.3.09

O caso da consciência 333, parte 2

continuando da parte 1...

O dr. Dennet ficou pasmo (se é que ele podia descrever tal sensação nesses termos, visto que nunca a havia realmente sentido antes). "Envolvimento com militares, esse caso poderá arruinar minha carreira" - foi a primeira coisa que lhe surgiu a mente... Trêmulo, pensou em tomar alguns comprimidos de emergência para evitar qualquer stress momentâneo, mas achou por bem primeiramente encerrar aquela seção, e mesmo o tratamento do paciente Parnia como um todo:

"Parnia, você chegou além do meu limite. Não posso continuar arriscando minha carreira no tratamento de indivíduo tão anarquista (nessa era essa era uma grande ofensa) quanto você... Iremos encerrar o tratamento ainda hoje, e peço encarecidamente que não comente com ninguém que algum dia fui seu psicanalista virtual!"

A consciência 333 ficou estranhamente calma, e falou ao doutor:

"Sabe dr. Dennet, devo lhe confessar uma coisa: realmente faz quase um ano que venho evitando tomar as pilúlas PG que me receitou. No início fiquei verdadeiramente apreensivo quanto a isso, pois que me parecia uma estupidez me arriscar a entrar em depressão, principalmente aqui na Terra onde esse mal é visto como algo ultrapassado, digno dos maiores alucinados nos arcabouços de contenção... Mas, sabe o que me deu a maior coragem em seguir adiante e interromper o tratamento?"

Vendo que o doutor estava tão exaltado que mal esboçou qualquer reação a pergunta, respondeu a si mesmo:

"Houve a quase um ano nosso encontro pessoal anual para discutir o tratamento e seus custos para o próximo ano. Eu sempre suspeitei de uma coisa, mas só a pude confirmar quando tive a oportunidade de conversar com o senhor pessoalmente, olhando em seus olhos - A verdade é que você nunca esteve especificamente interessado em que eu melhorasse. O senhor aceitou me tratar porque percebeu a oportunidade de tratar de alguém que foi famoso na infância, um homo sapiens geração 7 de alta cognição, e esperava que com seu 'tratamento infalível' a base das novas pílulas PG eu voltasse ao meu 'equilíbrio' e aceitasse voltar a MSGoogle-Academics, e consequentemente ao noticíario extra-planetário, o que lhe garantiria no mínimo a maior fama que poderia almejar em sua vida... Mesmo que seja uma vida a base de amplificadores genéticos, de quase 4 séculos de duração..."

"Ora, isso eu não nego. Será crime almejar ser bem sucedido na carreira? Será crime esperar que um jovem tão promissor como você pudesse aceitar finalmente que todo seu potencial cognitivo fosse devidamente explorado pela Scientia?" - Agora mais calmo, o doutor pode participar do diálogo.

"Dr. Dennet, me desculpe, mas exatamente de que carreira estamos falando?"

"Parnia, você sabe muito bem: psicoterapia."

"Uma pena doutor, pois que eu saiba a psicoterapia faz parte do tratamento de pacientes com problemas psicológicos que os aflingem e atrapalham em sua vida. Para ser um psicoterapeuta deve-se, portanto, não só estimar sempre a melhora constante e gradual de seus pacientes, como ama-los e estimula-los em qualquer caminho que lhes traga felicidade. Uma pena que nenhum desses conceitos foi compreendido pelo senhor. Uma pena que a única 'felicidade' que conhece é aquela que vem através de uma pilúla. Boa sorte doutor, ainda que viva 4 séculos, o senhor vai precisar dela..."

E desligou o holocomunicador.

***

Nota: o objetivo deste conto não é estimular pacientes em estado de depressão a deixar de tomar anti-depressivos. Se tudo o que você compreendeu desse conto foi isso, talvez seja melhor o ler novamente. Não vivemos numa "era científica-materialista" no contexto do conto, e felizmente ainda temos livre-arbítrio o suficiente para sermos capazes de discutir se nossa consciência é apenas fruto de uma configuração exótica do cérebro, ou algo mais profundo...

Crédito da foto: Mª Eugênia M. Guimarães

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1.3.09

O caso da consciência 333, parte 1

Era a última seção do dia 265/611ec (lê-se dia 265 do ano terrestre 611 da Era Científica) e o doutor Dennet já estava ávido para encerrar o dia de trabalho, afinal já estava atendendo pacientes em seu consultório virtual a quase 4 horas seguidas - "Que estranho, estou me sentindo descontente com o trabalho de novo, preciso lembrar de duplicar a dose semanal de PG447 (lê-se proteínas G de estímulo a sensações de prazer relacionadas ao trabalho)" - pensou, para logo após compreender o porque do mal-estar: teria de atender novamente o caso do paciente Parnia, o caso da consciência 333.

As consciências eram então classificadas por extensos códigos, mas normalmente apenas os 3 últimos dígitos eram usados para classificações de pacientes de consultóros psiquiátricos. Isto é, os dígitos associados ao nome de registro na sociedade. Parnia333 era filho de Greenfield012, e fora gerado por configuração genética classe A a cerca de 25 anos terrestres... Era dono de uma cognição impressionante. Quando jovem fora noticiado na imprensa galáxica como primeiro homo sapiens de geração 7 da MSGoogle-Genetics a conseguir resolver equações quânticas de nível gama aos 6 anos, e conseguir elaborar construções virtuais em 9 dimensões aos 15 (os outos que conseguiram tais feitos não foram completamente gerados em laboratórios certificados, e portanto não constavam nos registros da Scientia); Porém, infelizmente, talvez a exemplo dos outros "candidatos a gênio", recusou-se a cumprir o programa de Ensino a Excepcionais da MSGoogle-Academics, e foi excluído do noticiário... Em sua cidade, muitos dizem que foi esse o principal motivo de seu quadro psiquiátrico de felicidade ter se agravado, ao ponto de hoje estar próximo da depressão, algo absolutamente impensável na era atual.

Sua mãe, Greenfield, já havia relatado ao dr. Dennet que em repetidas semanas houvera reparado que Parnia havia simplesmente desintegrado as pílulas PG (anti-depressivas e de estúmulo ao amor-próprio e contentamento social) que o tratamento prescrevia que tomasse. Quando finalmente sua mãe teve coragem de tocar no assunto, ele apenas se limitou a dizer "que não queria que pílulas determinassem sua vida. Se era verdade que a consciência humana tendia a depressão se fosse deixada sem controle químico, ele queria conhecer essa depressão, queria 'saborea-la', queria ter o controle de suas próprias decisões." - A tendência a experiência anti-científica do livre-arbítrio era ainda comum nas colônias planetárias distantes, onde ainda praticavam-se crendices arcaicas de outras eras. Mas que isso ocorresse na própria Terra, e ainda, em um homo sapiens de geração 7, era impensável para o dr. Dennet. Em suma, talvez fosse essa série de eventos que estivesse lhe causando certo desconforto. Mas teria de continuar a atender Parnia, não queria "desistir" de um paciente, sua reputação na Scientia dependia inteiramente disso.

"Olá doutor" - Disse Parnia no holocomunicador, com uma expressão intrigante, misto de tristeza e alegria inexplicáveis para os conceitos do dr. Dennet.

"Olá Parnia. Aqui consta que seu quadro continua perigosamente próximo a depressão... Você seguiu minha recomendação de tentar a transferência de consciência para um corpo feminino, talvez a interação hormonal ou o simples efeito de novidade tivesse algum efeito mais aprofundado que as pílulas PG que tenho certeza que está tomando regularmente, não?"

"Oh sim doutor, eu tentei a transferência por duas semanas. Foi algo bem interessante, sem dúvida. Ocorre que eu não sou bissexual como a maioria, então não pude aprofundar o tratamento a nível de experiência sexual, se é que me entende..."

"Parnia, Parnia... Você de fato é um espécime raro. Existe por acaso alguma característica genética ou memética em sua consciência que se assemelhe 'a alguma maioria'?"

"Genética ou memética não doutor... Mas confesso que desde que experimentei parar com as seções de refreamento da Pineal, assim como as seções de eletromagnetismo fluido para supressão de flutuações quânticas nas sinapses cerebrais, tenho compreendido muito mais acerca das outras dimensões que visualzei quanto ainda jovem..."

"O que?!" - pululou o dr. Dennet visivelmente exaltado - "Você tem idéia do que é isso? O desligamento continuado desse tipo de tratamento deve ser explicitamente permitido pela Scientia e só ocorre em casos raríssimos! Você por acaso está agindo de maneira anti-científica, contra a lei?"

"Ora doutor, ir contra a lei não é mesma coisa que ir contra a ciência... Até mesmo porque tenho uma visão um pouco diferente do que seja a ciência, pelo menos da visão da maior parte das pessoas. A começar pelo fato de crer que algumas novas descobertas serão alcançadas em laboratórios fora do padrão da Scientia, alguns deles pertencentes a Mobilização Linux de colônias a alguns anos-luz da Terra. Mas o fato é que consegui uma autorização da lei para interromper o tratamento, portanto estou inteiramente dentro da lei."

"Como conseguiu esse tipo de autorização, Parnia?"

"Eu consegui manter contato cognitivo de classe beta com consciências extra-corpóreas, não catalogadas no sistema da Scientia. O grupamento militar ExxonBlackwater ficou bastante alarmado quando consegui trazer provas de que certos segredos militares foram transmitidos a mim por esse tipo de contato, tanto que me liberou do tratamento de refreamento da Pineal, que sempre foi o principal obstáculo para que eu continuasse a ter esse tipo de experiência... anti-científica, como bem sabe..."

continua...

***

Crédito do desenho: Santiago Ramón y Cajal

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21.8.07

A trupe dos fantasmas dramáticos

Além da vida, só há estagnação, o nada. Morte não existe, a sua volta sempre foi tudo assim, uma sinfonia eterna de vida abundante. A vida não se controla, não se manipula... Muitos foram os que tentaram governar as vidas dos outros, mas esses foram tão pequenos e ignorantes que sequer olharam para si mesmos; Ou teriam percebido que ninguém governa, ou pensa, por ninguém. E são muito poucos os que o conseguem fazer por si mesmos... Melhor se aquietar e tentar compreender a própria vida, que já há de se fazer muito para desvendar e, quem sabe um dia, governar a nós mesmos.

Não há que se ter medo da vida, há apenas de se agir com o tempo que nos é dado, escolher com o discernimento que podemos alcançar até aqui; E amar o resultado, sempre tão imprevisível, deliciosamente desconhecido, mas que há incontáveis eras tem só nos feito evoluir. Progredir sempre, tal é a lei.

Não há que se ter dó, nem pena, nem tristeza, por tudo o que ocorre aos que estão a nossa volta. Pois que se, desde o início, tudo não houvesse propósito, tudo não fosse cuidadosamente organizado, nada haveria de ter progredido, e o futuro seria sempre mais caótico e tenebroso que o passado... Mas não, não foi assim, não é assim, então porque imaginamos que todo o infortúnio é uma tragédia? Algo para motivo de pena?

A tragédia do ser, e do mundo, é a estagnação... É o pensamento contido pelo dogma, a desistência de se querer ir mais além, além da estrela mais distante, além do campo quântico mais incompreensível. Mas na vida tudo é mudança, tudo é dinâmico, sem que nada se perca realmente. Tudo se transforma, principalmente a dor!

Não há que se dramatizar a existência, como se fossemos os personagens principais de uma história escrita apenas para nós, e onde ninguém mais pudesse demonstrar pesar e sofrimento, apenas os astros principais. Reconheça que você não é nem nunca foi o roteirista de sua própria saga... Deixe o drama para o teatro e as demais artes, pois que ali ele serve para destacar algo de belo, seja na luz ou na escuridão. Em nossas vidas, o drama de nada serve, a não ser para retardar o progresso que deveria estar ocorrendo nesse exato instante, mas que dá lugar a uma trupe de fantasmas dramáticos, cuidadosamente ensaiados para nos manter presos ao próprio umbigo.

Sigamos a frente. Sem medo, sem dó, sem drama. Com a face plena, fitando o caminho à seguir, e com a alma transbordando de entusiasmo por tudo aquilo que nos falta aprender...

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