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24.9.19

Do que é formado o espírito?

Neste vídeo contaremos com a ajuda de Allan Kardec para tentar responder se os espíritos são, afinal, materiais ou imateriais. Também adentraremos em conceitos da filosofia e da ciência para tentar compreender melhor a resposta desta questão.

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7.12.12

De Brahman ao último talo de erva

Texto de Mircea Eliade em "História das crenças e das ideias religiosas, vol. II” (Ed. Zahar) – trechos das pgs. 57 a 59. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. As notas ao final são minhas.

[Segundo a sanquia-ioga [1]], a substância (prakrti) é tão real e eterna como o espírito (purusa) [2]. Contudo, ao contrário do purusa, é dinâmica e criadora. Embora perfeitamente homogênea, essa substância primordial possui, por assim dizer, três “modos de ser” que lhe permitem manifestar-se de três maneiras diferentes, chamadas gunas: 1) sattva (modalidade da luminosidade e da inteligência); 2) rajas (modalidade da energia motora e da atividade mental); 3) tamas (modalidade da inércia estática e da obscuridade psicomental). Os gunas têm, portanto, por um lado, um caráter objetivo, já que constituem os fenômenos do mundo exterior, e, por outro lado, uma caráter subjetivo, uma vez que sustentam, alimentam e condicionam a vida psicomental.

[...] O Universo – objetivo e subjetivo – é apenas a transformação de uma etapa inicial da natureza, ahamkara (que quer dizer: massa unitária aperceptiva, desprovida ainda da experiência “pessoal” [3]), quando, pela primeira vez, na massa energética surgiu um pressentimento do ego [4]. Mediante um duplo processo de desenvolvimento, o ahamkara criou um duplo Universo: interior e exterior, esses dois “mundos” que têm entre si correspondências eletivas. Dessa maneira, o corpo do homem, assim como suas funções fisiológicas, seus sentidos, “estados de consciência” e até sua inteligência são, todos, criações de uma mesma e única substância: aquela que produziu o mundo físico e suas estruturas [5].

É oportuno observar a importância fundamental que o sanquia-ioga, como quase todos os sistemas indianos, atribui ao princípio da individualização pela “autoconsciência”. A gênese do mundo é um ato quase “psíquico”. Os fenômenos objetivos e psicofisiológicos têm uma matriz comum, sendo que a única diferença que os separa é a fórmula dos gunas, como o sattva predominando nos fenômenos psicomentais, o rajas nos fenômenos psicofisiológicos (paixão, atividade dos sentidos, etc.), enquanto os fenômenos do mundo material são constituídos pelos produtos cada vez mais densos e inertes do tamas (átomos, organismos vegetais e animais, etc.) [6].

Com esse fundamento fisiológico, compreende-se por que o sanuia-ioga considera toda experiência psíquica um simples processo “material”. A moral ressente-se disso: a bondade, por exemplo, não é uma qualidade do espírito, mas uma “purificação” da “matéria sutil” representada pela consciência [7]. Os gunas impregnam todo o Universo e estabelecem uma simpatia orgânica entre o homem e o cosmo [8]. De fato, a diferença entre o cosmo e o homem é apenas uma diferença de grau, e não de essência [9].

Graças ao seu “desenvolvimento” progressivo (parinama), a matéria produziu formas infinitas, cada vez mais compostas, cada vez mais variadas. Acredita o sanquia que uma Criação tão vasta, uma construção de formas e organismos a tal ponto complicada, exige uma justificativa e uma significação exteriores a ela mesma. Uma prakti primordial, informe e eternamente imóvel, pode ter um sentido. Mas o mundo, tal como o vemos, apresenta, ao contrário, um número apreciável de estruturas e formas distintas. A complexidade morfológica do cosmo é elevada pelo sanquia à categoria de argumento metafísico. Pois ensina-nos o bom senso que todo composto existe em função de outro composto [10]. Assim, por exemplo, a cama é um conjunto composto de várias partes, mas essa articulação provisória das partes é efetuada em função do homem (Samkhya-karika, 17).

O sanquia-ioga revela, assim, o caráter teleológico da Criação; se a Criação não tivesse por missão servir o espírito, seria absurda, despida de sentido. Tudo na natureza é “composto”; tudo deve, portanto, ter um “superintendente”, alguém que possa servir-se desses compostos. Esse “superintendente” não poderia ser a atividade mental nem os estados de consciência (também eles produtos extremamente complexos da prakti). Temos aí a primeira prova da existência do espírito: “o conhecimento da existência do espírito pela combinação para proveito de outrem” [11].

Ainda que o eu (purusa) seja encoberto pelas ilusões e confusões da Criação cósmica, a prakti é dinamizada por esse “instinto teleológico” inteiramente voltado para a libertação do purusa. Porque, “desde Brahman até o último talo de erva, a Criação existe em proveito do espírito até que tenha atingido o conhecimento supremo” (Samkhya-sutra, III, 47).

***

[1] Sistema de ioga que data da época dos Upanixades.

[2] As questões levantadas lidam com o famoso dualismo filosófico entre a substância material e a substância espiritual.

[3] Complementação do autor: Mas com a consciência obscura de ser um ego (donde a experessão ahamkara, aham = ego).

[4] No início, havia apenas o Grande Uno refletido na forma de um ser. Ao refletir, não encontrou nada além de si mesmo. Então, sua primeira palavra foi: “Isto sou eu”... (Upanixades)

[5] É precisamente aqui que a filosofia védica se une a concepções praticamente idênticas que datam do antigo Egito (hermetismo) e da Grécia antiga (Parmênides, e depois Plotino), para muitos séculos depois culminarem na bela síntese de Benedito de Espinosa: “uma substância não pode criar a si mesma”. Sem grandes adaptações, podemos encontrar noções próximas no taoismo e em certas vertentes do budismo. Mesmo o espiritismo não dista desta ideia tanto quanto imaginamos, se considerarmos que os espíritos foram muito claros ao afirmar: “os espíritos não são imateriais, mas formados por um tipo de matéria desconhecida, etérea” (questão #82 de O livro dos espíritos).

[6] John Wheeler, um físico americano, cunhou a expressão “o it que vem do bit”. Em suas palavras: “Cada it – cada partícula, cada campo de força e até mesmo o próprio continuum espaço-tempo – deriva inteiramente sua função, seu significado, sua própria existência – mesmo que em alguns contextos indiretamente – de respostas induzidas por equipamento a perguntas sim ou não, escolhas binárias, bits. O it que vem do bit simboliza a ideia de que cada item do mundo físico tem no fundo – bem no fundo, na maioria dos casos – uma fonte e uma explicação imateriais; que aquilo que chamamos de realidade vem em última análise da colocação de perguntas sim-não, e do registro de respostas evocadas por equipamento; em resumo, que todas as coisas físicas são informacional-teóricas na origem” (Citado em O universo inteligente, de James Gardner, publicado pela Cultrix/Pensamento).
O que isto quer dizer é que, além de existir um paralelo claro entre o pensamento de alguns físicos modernos e o pensamento dos filósofos védicos, mesmo o pensamento precisa “trabalhar com informações” – ou seja, mesmo o pensamento parece lidar com esta substância que forma tudo o que há a partir de si mesma.

[7] Para mim, o grande erro da sanquia-ioga é situar o espírito (purusa) como algo completamente dissociado de ahamkara, ou seja, da substância “material” primordial. Eu não compactuo com este dualismo extremo, e exatamente por isso posso ser considerado um espiritualista materialista, ou talvez fosse melhor dizer: um dualista de propriedade (ver Monismos e dualismos).

[8] Complementação do autor: Quando é o sattva que predomina, a consciência é calma, clara, compreensível, virtuosa; dominada pelo rajas, ela mostra-se agitada, incerta, instável; atormentada pelo tamas, é obscura, confusa, apaixonada, bestial (Yoga-sutra, 11, 15, 19).

[9] O que combina perfeitamente com a grande lei hermética: assim em cima, assim embaixo.

[10] Espinosa foi o apóstolo do bom senso.

[11] Acredito que Mircea tenha sido bastante infeliz na escolha de algumas palavras neste parágrafo, embora ele provavelmente só estivesse tentando “incorporar” o pensamento da filosofia do sanquia-ioga: (a) a missão da Criação não me parece ser de “servir” ao espírito, mas, pelo contrário, conforme nos contam os textos védicos: “quem compreende isso, torna-se, nesta Criação, um co-criador” – ora, e o que seria este isso, senão o próprio conhecimento de que nós também somos da raça dos deuses? (b) não há nenhuma “prova do espírito” ali, mas antes uma defesa de uma hipótese imaterial para o espírito, totalmente dissociado de tudo o que há, morando “nalgum canto inacessível do cosmo” – conforme já disse acima, repudio esta ideia.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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2.9.12

Monismos e dualismos

Assim como no caso dos teísmos e ateísmos, referentes a crença ou descrença numa divindade, e também ao que compreendemos pelo próprio conceito de “divindade”, há muitas confusões desnecessárias criadas em torno do mal entendimento do que cada um compreende pelo que quer que seja a mente, e da sua relação com o cérebro. Seria a mente gerada pelo cérebro, ou aquela quem tecla as teclas cerebrais, comandando o corpo? O que seria exatamente a subjetividade, algo real, ou uma ilusão persistente?

Tais questões residem no âmago da filosofia da mente e, apesar dos esforços de alguns dos maiores filósofos e cientistas do mundo, continuam sendo profundamente desconcertantes. Em geral os filósofos da mente não buscam fatos cientificamente investigáveis sobre ela [1], mas o que o conceito de mente em si envolve. Seu método inclui a exploração de conexões lógicas e conceituais existentes entre mente, comportamento e nossas várias capacidades mentais.

Para tentar auxiliar em classificar as definições e/ou visões distintas acerca da mente, os monismos, dualismos e suas variações conceituais, elaborei um pequeno glossário de termos abaixo, que é propositadamente curto – e, obviamente, não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas apenas de ajudar a resolver melhor alguns debates:

Monismo
Há várias doutrinas filosóficas que defendem o monismo. Embora elas tenham inúmeras diferenças entre si, o que nos interessa aqui é que todas elas concordam que existe apenas uma única substância responsável tanto pelo corpo quanto pela mente.
Seria muito simples dizer que todo monista crê que a mente e o corpo são inseparáveis, e não podem existir dissociados – no caso, a mente não existiria dissociada de um corpo. Poderíamos complementar a tese afirmando que todos os monistas são materialistas. Mas mesmo tais classificações poderiam ser apressadas...
Por exemplo, embora o grande Benedito Espinosa seja um monista, que crê que todas as substâncias do Cosmos derivam de uma única substância incriada, seu pensamento possuí alguns aspectos do dualismo de propriedade (que veremos abaixo), e pode se enquadrar mais definitivamente naquele caso. Além disso, por incrível que pareça, existe um polêmico cientista chamado Amit Goswami que consegue ser um monista materialista e ao mesmo tempo crer na possibilidade da mente sobreviver mesmo após a morte do corpo.
Para evitar maiores confusões, bastará aqui concluirmos que o monista crê que só existe uma substância no Cosmos, e que tanto a mente quanto o corpo são formados por ela.

Acreditam na existência da mente? Quase sempre sim.
Acreditam que a mente possa existir independente do cérebro? Algumas vezes sim (ver dualismo de propriedade).
Acreditam que a mente possa existir sem um corpo físico? Não, exceto no caso do “monismo quântico”.

“Monismo quântico”
Embora esta definição se refira exclusivamente as teorias do cientista indiano Amit Goswami, devo dizer que certos autores a classificariam dentro do chamado monismo idealista. Eu preferi falar do monismo idealista no dualismo de propriedade (que veremos abaixo), por achar que se enquadraria melhor naquela outra definição mais ampla.
Pois bem, como cientista a materialista, Goswami crê que a mente e o corpo são formados pela mesma substância, com a mesma propriedade material. Para Goswami, no entanto, nossa capacidade consciente de escolha, e a interferência fundamental que a consciência exerce nos processos da mecânica quântica, denotam que é a consciência quem “molda” o cérebro (e não o contrário). Além disso, suas teorias também abarcam a possibilidade da reencarnação e da imortalidade da consciência (alma), ao postularem que após a morte do corpo a consciência não é perdida, mas tampouco “vaga pelo ar”, e sim dá um “salto quântico” pelo espaço-tempo até a próxima possibilidade que seja criada para que uma consciência habite um cérebro – ou seja, a concepção de outro ser humano.
Esta teoria é obviamente muito controversa no meio acadêmico, e nem sequer podemos dizer aqui que o próprio Goswami a compreende inteiramente. Para maiores detalhes, recomendamos a leitura de seu livro A física da alma (publicado no Brasil pela Editora Aleph).

Acreditam na existência da mente? Sim.
Acreditam que a mente possa existir independente do cérebro? Não, porém a consciência molda o cérebro.
Acreditam que a mente possa existir sem um corpo físico? De certa forma sim, embora ela só se “manifeste” a partir do momento que encontra uma nova possibilidade para “habitar um corpo”.

Monismo eliminativo
Um materialista crê que tudo é formado por substância material, muito embora, caso seja bem informado, saberá que atualmente a ciência postula que apenas cerca de 4% da matéria do universo foi detectada, pois interage com a luz – enquanto os outros 96% são Matéria Escura e Energia Escura, e até hoje não foram detectadas em experimentos, nem uma partícula sequer.
Já os materialistas eliminativos, que sempre serão monistas por definição, são um tanto mais radicais que os materialistas: eles negam que sequer exista uma mente! Eles dizem que a mente poderia parecer óbvia para nós, mas, segundo o eliminativista, à medida que a ciência avança, pode-se revelar que mentes “não são mais reais do que seres mitológicos” [2].
Segundo eles, a explicação apropriada para o comportamento humano não envolve nada semelhante a mentes ou ao que supostamente se passa nelas, como pensamentos e sentimentos. A explicação correta de nossas “vontades” envolve apenas referências a eventos naturais, sem nenhuma relação ao que chamamos de mente – que pode ser nada mais do que uma ilusão persistente do cérebro.
Os monistas eliminativistas resolveram o problema difícil da consciência, que envolve a questão da subjetividade e do “eu” (por exemplo, a interpretação subjetiva da “vermelhidão” do vermelho; ou da “profundidade” com a qual um filho ama sua mãe), da forma mais simples e reducionista: negando que exista uma consciência subjetiva... Talvez o maior representante do monismo eliminativo seja o filósofo americano Daniel Dennet.

Acreditam na existência da mente? Não. Ou seja, não existe o que chamamos de subjetividade, e nossas escolhas são eventos naturais, das quais somos em realidade apenas “espectadores”, ou nem isso.
Acreditam que a mente possa existir independente do cérebro? Não.
Acreditam que a mente possa existir sem um corpo físico? Não.

Dualismo (de substância)
O dualismo é uma concepção filosófica ou teológica do mundo baseada na presença de dois princípios ou duas substâncias ou duas realidades opostas e inconciliáveis, irredutíveis entre si e incapazes de uma síntese final ou de recíproca subordinação. É dualista por excelência qualquer explicação metafísica do universo que suponha a existência de dois princípios ou realidades não subordináveis e irredutíveis entre si.
A ideia aparece na filosofia ocidental já nos escritos de Platão e Aristóteles, que afirmam, por diferentes razões, que a inteligência do homem (uma faculdade do espírito ou da alma) não pode ser assimilada ao seu corpo, nem entendida como uma realidade física.
Descartes foi o primeiro a assimilar claramente o espírito (substância imaterial) à consciência e distingui-lo do cérebro, que seria o suporte da inteligência. Chamou a mente de res cogitans ("coisa pensante") e o corpo de res extensa ("coisa extensa", isto é, que ocupa lugar no espaço). A ligação entre a mente e o corpo, segundo ele, seria feita através do tálamo, uma pequenina parte do cérebro [3]. Foi Descartes, portanto, quem primeiro formulou o problema do corpo-espírito do modo como se apresenta modernamente.
A maior parte dos dualistas é dualista de substância, o que se opõe em parte ao dualismo de propriedade, do qual falaremos na sequência.

Acreditam na existência da mente? Sim.
Acreditam que a mente possa existir independente do cérebro? Sim.
Acreditam que a mente possa existir sem um corpo físico? Quase sempre sim, particularmente entre os religiosos.

Dualismo de propriedade
Uma das posições mais sutis sobre a relação entre a mente consciente e o mundo material é o dualismo de propriedade, que também englobaria o chamado monismo idealista. Ele admite que os materialistas estão corretos ao supor que há apenas um tipo de substância – a substância física. Mas, a seu ver, as substâncias materiais podem ter propriedades físicas e mentais. Estas últimas seriam distintas das primeiras e não poderiam ser reduzidas a elas.
Sir John Eccles, neurologista vencedor do prêmio Nobel de medicina de 1963, foi talvez o mais ilustre cientista a argumentar em favor da separação entre a mente, a consciência (no caso, um processo da mente) e o cérebro. Ele dizia: "Nós, como pessoas que experienciam, não aceitamos tudo o que nos é fornecido por nosso instrumento, a máquina neuronal de nosso sistema sensorial e o cérebro, nós selecionamos tudo o que nos é fornecido de acordo com o interesse e a atenção, e modificamos as ações do cérebro, através do 'eu'".
Os dualistas de propriedade crêem que a matéria possa explicar o problema difícil da consciência, porém também acreditam que o mecanismo da subjetividade não possa ser explicado apenas com a matéria detectada no cérebro. Ou seja, na sua opinião, o entendimento atual da neurociência parece ser incapaz de nos descrever como seres que interpretam informações, e não somente como máquinas que se limitam a computar informações – neste sentido, eles se opõe diretamente a explicação do materialismo eliminativo, que basicamente compreende a mente como “a ilusão de uma máquina biológica”.
Até anos atrás poderiam ser chamados de lunáticos pelos acadêmicos, porém desde a descoberta científica de que provavelmente 96% da matéria do universo não foi detectada, pois não interage com a luz, fica um tanto complicado afirmar que “estão delirando”.
Conforme dissemos, mesmo Espinosa e os demais monistas idealistas podem se enquadrar nesta classificação, pois embora acreditem que exista somente uma substância, sua concepção leva a crer que ela tenha ao menos duas propriedades muito distintas – as propriedades físicas, e as mentais.
Note que o dualista de propriedade, embora concorde com o materialista que há apenas um tipo de substância (a material, o que faz dele também um materialista, porém não um materialista eliminativo), concorda com o dualista substancial que os fatos relativos às nossas mentes estão além da compreensão atual que temos dos fatos meramente físicos.

Acreditam na existência da mente? Sim.
Acreditam que a mente possa existir independente do cérebro? Sim.
Acreditam que a mente possa existir sem um corpo físico? Muitas vezes sim, particularmente entre os espiritualistas e ocultistas. Mas Espinosa, por exemplo, não acreditava nisso.

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Bibliografia recomendada
Wikipedia; Guia Zahar de Filosofia (Stephen Law); A física da alma (Amit Goswami); Ética (Espinosa); 25 Grandes Ideias (Robert Matthews – há um capítulo sobre a consciência); O cérebro espiritual (Dr. Mario Beauregard e Denyse O’Leary); O erro de Descartes (Antônio Damásio).

Observação (1): É preciso sempre lembrar que a ciência não é ideologia ou doutrina, não é materialista nem espiritualista, monista ou dualista, teísta ou ateísta. A ciência é tão somente o conhecimento da natureza detectável, e o estudo de seus mecanismos. Há muitos grandes cientistas da história que eram monistas ou dualistas.

Observação (2): Embora nem sempre fique claro em meus textos, como um dualista de propriedade, costumo defender este tipo de visão aqui no blog. Me coloco, portanto, em oposição total ao monismo (ou materialismo) eliminativo, embora isso não signifique que deixe de admirar a paixão com que alguns filósofos defendem tal visão, particularmente Daniel Dennet. Finalmente, embora sempre afirme ser um espiritualista, em realidade também não deixo de ser um materialista – se me entenderam bem até aqui, verão que tais conceitos não necessariamente se opõe entre si.

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[1] Embora a neurociência esteja avançando a passos largos na compreensão do processo de consciência, ao ponto de já sermos capazes de “decodificar” os comandos motores do cérebro, abrindo a possibilidade para que tetraplégicos voltem a caminhar (comandando exoesqueletos robóticos apenas por ondas celebrais), ainda estamos muito distantes de resolver o chamado problema difícil da consciência, que envolve a questão em torno da própria subjetividade e do “eu”.

[2] Notem que, ainda que seres mitológicos “existam apenas na mente”, isso nada tem a ver com a ideia de que a própria mente seja um mito!

[3] Hoje este conceito foi desacreditado, com os avanços da neurociência. Porém, é possível que o tálamo também seja, na realidade, uma espécie de “sensor” de ondas eletromagnéticas, o que supostamente explicaria a mediunidade.

Crédito da foto: Oliver Killig/dpa/Corbis (My Soul, Escultura de Katharine Dowson)

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13.1.10

Teorias conceituais

Fonte: Dicionário Céptico, em seu excelente artigo sobre teorias (utilizamos aqui apenas uma parte do artigo).

O termo 'teoria' pode ser compreendido tanto numa acepção 'forte' como numa acepção 'fraca'. Na acepção 'forte', uma teoria é um princípio ou conjunto de princípios para explicar, organizar, unificar, e/ou compreender o sentido de um conjunto de fenômenos. Na acepção 'fraca', uma teoria é uma crença ou especulação. Não-cientistas comumente usam o termo 'teoria' na acepção fraca para se referir a uma crença ou a uma especulação ou palpite baseados em informações ou conhecimento limitado, por exemplo, minha teoria sobre o sexo antes do casamento é... ou, minha teoria sobre por que os Yankees vencem tantos campeonatos é... Nós nos preocuparemos aqui apenas com teorias na acepção forte.

Poderíamos dividir as teorias em científicas e não-científicas. As últimas poderiam ser ainda divididas em empíricas e conceituais. (...)

Uma teoria conceitual é não-científica e não-empírica. Algumas teorias conceituais são explanatórias, por exemplo, teorias metafísicas como criacionismo, materialismo ou dualismo. Como todas as teorias conceituais, criacionismo, materialismo e dualismo não podem ser testadas empiricamente. Elas não são falseáveis nem tem nenhum valor preditivo. Cada teoria é logicamente coerente, isto é, não há nenhuma contradição lógica em acreditar que tudo o que é real é físico, nem há nada de contraditório em acreditar que existem duas realidades, uma física e outra espiritual. Não há nada de contraditório em acreditar que o universo teve um Criador, nem o ateísmo é inerentemente auto-contraditório. Cada teoria é consistente com o que nós sabemos sobre o mundo. Tudo o que pode ser explicado por espíritos ou realidades não-físicas, pode ser explicado pelo materialismo. Apesar de tudo, nem o materialismo nem o dualismo podem ser testados empiricamente; logo, nenhum pode ser confirmado empiricamente de nenhuma maneira significativa. Não há nada no universo que possa ser explicado por um Criador que não possa também ser explicado sem referência a um Criador. Por outro lado, teorias conceituais também não podem ser refutadas. Não há nenhuma forma de alguém provar que o teísmo ou o ateísmo, ou o materialismo ou o dualismo são falsos apelando para evidências empíricas. Além disso, tudo o que puder ser dito a respeito do valor e da validade do materialismo ou do ateísmo se aplicam igualmente às teorias do dualismo e do teísmo.

Algumas teorias conceituais são prescritivas, por exemplo, teorias éticas como o utilitarianismo. Elas declaram o que deve ser, ao invés de tentar explicar o que é.

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