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19.6.15

Retratos de Fé

Normalmente não damos muita atenção as produções dos canais de TV públicos, mas sua qualidade vem gradualmente melhorando... Prova disso é a série Retratos de Fé, da TV Brasil.

Esta série consiste de episódios de pouco mais de 20 minutos onde há um espaço aberto para que os mais variados grupos religiosos possam transmitir a sua mensagem de fé e expressar o que há de sagrado em sua doutrina de forma direta, sem nenhum tipo de mediação ou interferência ideológica. A cada semana, um episódio aborda um determinado credo, cujos seguidores entrevistados podem se expressar livremente na tela, apresentando suas concepções, crenças, cerimônias, vivências e manifestações religiosas, num verdadeiro aprofundamento religioso. Vejamos um trailer da série:

O que achei mais interessante nesta série é que ela é realmente ecumênica, abrindo espaço tanto para vertentes cristãs evangélicas as mais diversas (como a Bola de Neve e a Igreja Quadrangular) até as crenças mais antigas e ancestrais (como as tradições indígenas e os cultos de origem africana). Para terem uma ideia, há até mesmo um episódio sobre Wicca, e outro exclusivo para Ateus e Agnósticos, numa abordagem realmente livre de preconceitos... Para assistir todos os episódios da série online e gratuitamente, basta acessar o site da série e escolher o que deseja ver.

Para episódios inéditos, basta sintonizar na TV Brasil toda a quinta-feira às 20h (horário de Brasília), com reprises aos sábados, às 10h.

***

Crédito da imagem: Retratos de Fé/TV Brasil/Divulgação (filmagens do primeiro episódio, sobre o Islamismo no Brasil)

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22.9.13

A surpreendente resposta de Papa Franciso a um ateu

Segue abaixo a transcrição da Carta Aberta de Papa Franciso ao Jornalista Eugenio Scalfari. A carta do Papa pretende ser uma resposta a duas cartas abertas que Scalfari escreveu a Francisco e publicou nos dias 7 de Julho e 7 de Agosto de 2013 no editorial do La Repubblica, jornal italiano do qual é fundador e colunista. Em ambas, Scalfari formula - como alguém que tem uma cultura iluminista e não procura a Deus - “perguntas de um não crente ao papa jesuíta chamado Francisco”. Pois “aqui e hoje não sou um jornalista - escreve Scalfari - sou um não crente que há anos está interessado e apaixonado pela pregação de Jesus de Nazaré, filho de Maria e de José [...]. Tenho uma cultura iluminista e não procuro a Deus. Acho que Deus seja uma invenção consoladora e ilusória da mente dos homens”.

A resposta de Francisco é surpreendente e praticamente inaugura um diálogo direto e profundo, até recentemente impensável, entre a Santa Sé e os ateus humanistas e moderados. A forma com que Francisco consegue acolher e responder as questões de Scalfari, sem pretender impor sua fé e muito menos condenar o ceticismo do jornalista, é certamente uma aula de embate de ideias, onde as pedras, longe de se chocarem e arrancarem lascas uma das outras, produzem faíscas luminosas e, quem sabe até, um fogo até então desconhecido...

Não irei comentar ao final do texto, como costumo fazer com textos de autores selecionados que trago a este blog, mas no entanto gostaria muito que lessem este trecho abaixo, de autoria do grande estudioso de mitologia do século passado, Joseph Campbell, que foi retirado do monumental O Poder do Mito. Após lerem o trecho, terão plenas condições de analisar o que diz o Papa Francisco de forma ainda mais profunda, até onde as palavras podem chegar:

Deus é um pensamento. Deus é uma idéia. Mas a sua referência é algo que transcende o pensamento. Ele existe além da existência... Além da categoria de ser ou não ser. Ele existe ou não? Nem existe, nem não existe. Qualquer deus, qualquer mitologia ou qualquer religião são verdadeiros nesse sentido... Assim como uma metáfora do mistério humano e cósmico. Quem pensa que sabe, não sabe. Quem sabe que não sabe, este sim, sabe.

Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana? Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental.

* * *

E finalmente, a carta de Francisco, na íntegra (retirada do vatican.va):

Vaticano, 4 de Setembro de 2013

Prezado Dr. Scalfari,

Com viva cordialidade queria, através desta, procurar, ainda que apenas em linhas gerais, responder à carta que houve por bem dirigir-me, nas páginas do jornal La Repubblica de 7 de Julho, com uma série de reflexões pessoais, que haveria de desenvolver nas páginas do mesmo jornal do dia 7 de Agosto.

Começo por lhe agradecer a solicitude que teve em ler a Encíclica Lumen fidei. De facto, esta – na intenção do meu amado Predecessor, Bento XVI, que a idealizou e em grande parte redigiu e de quem a herdei com imensa gratidão – tem em vista não só confirmar na fé em Jesus Cristo aqueles que nela já que se reconhecem, mas também suscitar um diálogo sincero e rigoroso com quem, como o senhor, se define «um não-crente há muitos anos interessado e fascinado pela pregação de Jesus de Nazaré».

Parece-me, pois, muito positivo, tanto para nós individualmente como para a sociedade em que vivemos, determo-nos a dialogar sobre uma realidade tão importante como é a fé, que faz apelo à pregação e à figura de Jesus.

Em particular, penso que há hoje duas circunstâncias que tornam obrigatório e precioso este diálogo. Aliás o mesmo constitui – como se sabe – um dos objectivos principais do Concílio Vaticano II, querido por João XXIII, e do ministério dos Papas, que desde então até aos nossos dias – cada um com a própria sensibilidade e contribuição – têm caminhado pelo sulco traçado pelo referido Concílio.

A primeira circunstância – como lembram as páginas iniciais da Encíclica – decorre do facto de, ao longo dos séculos da modernidade, se ter assistido a um paradoxo: a fé cristã, cuja novidade e incidência na vida do homem foram expressas, desde o início, precisamente através do símbolo da luz, tem sido muitas vezes rotulada como a obscuridade da superstição, que se opõe à luz da razão. E assim se chegou à incomunicabilidade entre a Igreja e a cultura de inspiração cristã, por um lado, e a cultura moderna de traça iluminista, por outro. Chegou o tempo – o próprio Vaticano II inaugurou a estação – de um diálogo aberto e sem preconceitos, que reabra as portas para um encontro sério e fecundo.

A segunda circunstância, para quem procura ser fiel ao dom de seguir Jesus na luz da fé, decorre do facto de este diálogo não constituir um acessório secundário da existência do crente; antes, pelo contrário, é sua expressão íntima e indispensável. A este respeito, deixe-me citar-lhe uma declaração, na minha opinião muito importante, da Encíclica: dado que a verdade testemunhada pela fé é a do amor – como lá se sublinha – «resulta claramente que a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro. O crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui. Longe de nos endurecer, a segurança da fé põe-nos a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos» (n. 34). Este é o espírito que me anima nas palavras que lhe escrevo.

A fé, para mim, nasceu do encontro com Jesus: um encontro pessoal, que tocou o meu coração e deu uma direcção e um sentido novo à minha existência; mas, ao mesmo tempo, um encontro que se tornou possível pela comunidade de fé em que vivi e graças à qual encontrei o acesso ao entendimento da Sagrada Escritura, à vida nova que flui, como jorros de água, de Jesus através dos sacramentos, à fraternidade com todos e ao serviço dos pobres, verdadeira imagem do Senhor. Sem a Igreja – creia-me! –, eu não teria podido encontrar Jesus, embora ciente de que este dom imenso da fé está guardado em frágeis vasos de barro que é a nossa humanidade.

Ora, é precisamente a partir desta experiência pessoal de fé vivida na Igreja que me sinto à vontade para perscrutar as suas perguntas e procurar, juntamente com o senhor, as estradas ao longo das quais possamos talvez começar a fazer um pedaço de caminho juntos.

Desculpe, se não sigo passo a passo as argumentações que propôs no editorial de 7 de Julho. Parece-me mais frutuoso – ou pelo menos está mais de acordo com o meu génio – ir de certo modo ao coração das suas considerações. Não entro sequer na modalidade de exposição que segue a Encíclica e na qual o senhor entrevê a falta duma secção dedicada especificamente à experiência histórica de Jesus de Nazaré.

Para começar, limito-me a observar que uma tal análise não é secundária. Trata-se efectivamente – seguindo aliás a lógica que guia o desenrolar da Encíclica – de deter a atenção sobre o significado daquilo que Jesus disse e fez e assim, em última instância, sobre aquilo que Jesus foi e é para nós. De facto, as Cartas de Paulo e o Evangelho de João, especialmente referidos na Encíclica, estão construídos sobre o sólido fundamento do ministério messiânico de Jesus de Nazaré, cuja resolução chega ao seu auge na páscoa de morte e ressurreição.

Por isso, é preciso confrontar-se com Jesus – diria – na dimensão concreta e tosca da sua história, tal como nos é narrada sobretudo pelo mais antigo dos Evangelhos, o de Marcos. Aí se constata que o «escândalo», que as palavras e a actividade de Jesus provocam ao seu redor, deriva da sua extraordinária «autoridade» – termo este, atestado já desde o Evangelho de Marcos mas que não é fácil de traduzir em italiano. A palavra grega é exousia, que literalmente se refere àquilo que «provém do ser» que se é. Trata-se portanto, não de algo exterior ou forçado, mas de algo que brota de dentro e se impõe por si mesmo. Realmente Jesus impressiona, desinstala, reforma a partir – Ele mesmo o disse – da sua relação com Deus, que trata familiarmente por Abbá, o qual Lhe confere esta «autoridade» para que Ele a aplique a favor dos homens.

Assim, Jesus prega «como alguém que tem autoridade», cura, chama os discípulos para O seguirem, perdoa... Todas estas coisas, no Antigo Testamento, são prerrogativa de Deus, e só Deus. A pergunta, que mais vezes reaparece no Evangelho de Marcos – «Quem é este que... ?» – e que diz respeito à identidade de Jesus, nasce da constatação de uma autoridade diferente da do mundo, uma autoridade que não tem como finalidade exercer um poder sobre os outros mas servi-los, dar-lhes liberdade e plenitude de vida. E isto até ao ponto de arriscar a sua própria vida, até experimentar a incompreensão, a traição, a rejeição, até ser condenado à morte, até cair no estado de abandono na cruz. Mas Jesus permanece fiel a Deus até ao fim.

E é precisamente então – como exclama o centurião romano ao pé da cruz, no Evangelho de Marcos – que, paradoxalmente, Jesus Se mostra como o Filho de Deus! Filho de um Deus que é amor e que quer, com todo o seu ser, que o homem, todo o homem, se descubra e viva, também ele, como seu verdadeiro filho. Para a fé cristã, isto é certificado pelo facto de que Jesus ressuscitou: não para triunfar sobre aqueles que O rejeitaram, mas para atestar que o amor de Deus é mais forte do que a morte, o perdão de Deus é mais forte do que todo o pecado, e que vale a pena gastar a própria vida, até ao fim, para testemunhar este dom imenso.

A fé cristã acredita nisto: Jesus é o Filho de Deus que veio dar a sua vida para abrir a todos o caminho do amor. Por isso, ilustre Dr. Scalfari, tem razão quando vê, na encarnação do Filho de Deus, o perno da fé cristã. Já Tertuliano escrevia: «caro cardo salutis – a carne [de Cristo] é o perno da salvação». É que a encarnação, ou seja, o facto de o Filho de Deus ter tomado a nossa carne e compartilhado alegrias e sofrimentos, vitórias e derrotas da nossa existência até ao grito da cruz, vivendo tudo no amor e na fidelidade ao Abbá, testemunha o amor incrível que Deus tem por cada homem, o valor inestimável que lhe reconhece. Por isso, cada um de nós é chamado a assumir o olhar e a opção de amor de Jesus, a entrar no seu modo de ser, pensar e agir. Esta é a fé, com todas as suas expressões que são descritas concretamente na Encíclica.

* * *

Além disso, no mesmo editorial de 7 de Julho, o senhor pergunta-me como entender esta originalidade da fé cristã, assente precisamente na encarnação do Filho de Deus, face a outras crenças que por sua vez gravitam em torno da transcendência absoluta de Deus.

Eu diria que a sua originalidade está precisamente no facto de que a fé nos faz participar, em Jesus, na relação que Ele mesmo tem com Deus que é Abbá e, nesta luz, participar na relação que Ele tem com todos os outros homens, incluindo os inimigos, sob o signo do amor. Por outras palavras, a filiação de Jesus, como no-la apresenta a fé cristã, não é revelada para marcar uma separação intransponível entre Jesus e todos os outros, mas para nos dizer que, n’Ele, todos somos chamados a ser filhos do único Pai e irmãos entre nós. A singularidade de Jesus visa a comunicação, não a exclusão.

Claro, daqui segue-se também – e não é pouco – a distinção entre a esfera religiosa e a esfera política, que está sancionada no «dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César", afirmada com nitidez por Jesus e sobre a qual, laboriosamente, se construiu a história do Ocidente. De facto, a Igreja é chamada a semear o fermento e o sal do Evangelho, ou seja, o amor e a misericórdia de Deus que envolvem todos os homens, apontando para a meta escatológica e definitiva do nosso destino, enquanto à sociedade civil e política cabe a árdua tarefa de articular e encarnar na justiça e na solidariedade, no direito e na paz, uma vida cada vez mais humana. Para quem vive a fé cristã, isto não significa fuga do mundo nem vontade de qualquer hegemonia, mas serviço ao homem, ao homem todo e a todos os homens, a partir das periferias da história e mantendo desperto o sentido da esperança que impele a realizar o bem em todas as circunstâncias e com o olhar sempre fixo no além.

Na conclusão de seu primeiro artigo, o senhor pergunta-me ainda o que dizer aos irmãos judeus sobre a promessa que Deus lhes fez: terá ela caído completamente no vazio? Trata-se de uma questão – pode crer – que nos interpela radicalmente como cristãos, porque, com a ajuda de Deus, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II redescobrimos que o povo judeu continua a ser, para nós, a raiz santa donde germinou Jesus. Na amizade que cultivei durante todos estes anos com os irmãos judeus, na Argentina, também eu muitas vezes questionei a Deus na oração, especialmente quando a mente se detinha na recordação da experiência terrível do Holocausto. O que lhe posso dizer – com palavras do apóstolo Paulo – é que nunca esmoreceu a fidelidade de Deus à aliança estabelecida com Israel e que, através das terríveis provações destes séculos, os judeus conservaram a sua fé em Deus. E nunca lhes agradeceremos suficientemente por isso, não só como Igreja, mas também como humanidade. Além disso, perseverando eles precisamente na sua fé no Deus da aliança, lembram a todos, inclusive a nós cristãos, o facto de que permanecemos, como peregrinos, à espera do regresso do Senhor e, por conseguinte, devemos manter-nos sempre abertos a Ele, sem nos fecharmos jamais no que já conseguimos.

E assim chego às três perguntas que me coloca no artigo de 7 de Agosto.

Parece-me que, nas duas primeiras, aquilo que lhe está a peito é entender a atitude da Igreja com quem não partilha a fé em Jesus. Antes de mais nada, pergunta-me se o Deus dos cristãos perdoa a quem não acredita nem procura acreditar. Admitido como dado fundamental que a misericórdia de Deus não tem limites quando alguém se Lhe dirige com coração sincero e contrito, para quem não crê em Deus a questão está em obedecer à própria consciência: acontece o pecado, mesmo para aqueles que não têm fé, quando se vai contra a consciência. De fato, ouvir e obedecer a esta significa decidir-se diante do que é percebido como bem ou como mal; e é sobre esta decisão que se joga a bondade ou a maldade das nossas acções.

Em segundo lugar, o senhor pergunta-me se é um erro ou um pecado pensar que não existe nada absoluto e, consequentemente, também não há uma verdade absoluta mas apenas uma série de verdades relativas e subjectivas. Para começar, eu não falaria – nem mesmo para aqueles que acreditam – de verdade «absoluta» dando ao termo absoluto o sentido daquilo que está desligado, que carece de qualquer relação, porque a verdade, segundo a fé cristã, é o amor de Deus por nós em Jesus Cristo. Portanto, a verdade é uma relação! E tanto é assim, que cada um de nós capta a verdade e exprime-a a partir de si mesmo: da sua história e cultura, da situação em que vive, etc. Isto não quer dizer que a verdade seja variável e subjectiva. Longe disso! Significa, sim, que ela se nos dá sempre e só como um caminho e uma vida. Porventura não disse o próprio Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida»? Por outras palavras, sendo a verdade, em última análise, uma só coisa com o amor, requer a humildade e a abertura para ser buscada, acolhida e expressa. Concluindo, é preciso entendermo-nos bem sobre os termos e, para sair dos estrangulamentos duma contraposição... absoluta, talvez seja necessário reformular em profundidade a questão. Penso que isto seja hoje absolutamente necessário para se estabelecer aquele diálogo sereno e construtivo que eu almejava ao início deste meu texto.

Na última questão, pergunta-me se, com o desaparecimento do homem da terra, desaparecerá também o pensamento capaz de pensar Deus. É certo que a grandeza do homem está em ser capaz de pensar Deus, isto é, em poder viver uma relação consciente e responsável com Ele. Mas, a relação é entre duas realidades. Deus – tal é o meu pensamento e a minha experiência, mas são muitos os que, ontem e hoje, os compartilham! - não é uma ideia, ainda que muito elevada, fruto do pensamento do homem; Deus é realidade com o «R» maiúsculo. Jesus no-Lo revela – e vive em relação com Ele – como um Pai de bondade e misericórdia infinitas. Por isso, Deus não depende do nosso pensamento. Aliás, mesmo quando acabar a vida do homem sobre a terra – e, segundo a fé cristã, este mundo tal como o conhecemos está destinado em todo o caso a perecer –, não deixará de existir o homem; e com ele, de um modo que ignoramos, o próprio universo também não. A Escritura fala de «um novo céu e uma nova terra» e afirma que, no final – num onde e quando que nos ultrapassam mas para os quais, na fé, tendemos com desejo e expectativa – Deus será «tudo em todos».

E assim concluo, ilustre Dr. Scalfari, estas minhas reflexões, suscitadas por tudo o que me quis comunicar e perguntar. Receba-as como uma tentativa de resposta, provisória mas sincera e confiante, ao convite que vislumbrei para fazermos um pedaço de estrada juntos. A Igreja – creia-me! – apesar de todas as lentidões, infidelidades, erros e pecados que possa ter cometido e pode ainda cometer nos que a compõem, não tem outro sentido e finalidade que não seja viver e testemunhar Jesus: Ele, que foi enviado pelo Abbá para «anunciar a Boa-Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista, mandar em liberdade os oprimidos, proclamar um ano favorável da parte do Senhor» (Lc 4,18-19 ).

Com fraterna amizade,

Franciscus PP.

 

* * *

Crédito da imagem: Google Image Search

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10.6.13

Moisés e o pastor

Eu quero fogo, fogo ardente!

Trecho do Projeto Rumi:

Moisés ouviu um pastor a rezar enquanto vinha pela estrada:

“Deus, onde está você? Eu quero lhe ajudar, consertar seus sapatos e pentear seus cabelos. Eu quero lavar suas roupas e retirar os piolhos um por um. Eu quero lhe trazer leite e beijar suas pequenas mãos e pés quando for hora de ir para a cama. Eu quero varrer seu quarto e mantê-lo arrumado. Deus, minhas ovelhas e meus bodes são seus...

Tudo que posso dizer enquanto lembro de ti é aaaiiiiiiiiiiiiii e aaahhhhhhhhhhhhhh.”

Moisés não pôde mais aguentar:

“Com quem você está falando?”

“Aquele que nos criou e que moldou a terra e o céu.”

“Não fale sobre sapatos e meias com Deus! E o que é algo como suas pequenas mãos? Esta intimidade é uma blasfêmia que faz parecer que está a prosear com um de seus tios. Apenas algo que cresce precisa de leite. Apenas alguém com pés precisa de sapatos. Deus não precisa de nada disso!”

O pastor se arrependeu, rasgou suas roupas e saiu a vaguear pelo deserto.
Uma revelação súbita veio a Moisés:

Você me separou de um dos meus.
Você veio como um profeta para unir ou para dividir?
Eu conferi a cada ser uma forma individual e única
de ver e conhecer e repassar este conhecimento.

O que lhe parece errado é o certo para ele.
O que é veneno para um é mel para algum outro.
Pureza ou impureza, preguiça ou diligência na devoção,
isto nada significa para mim. Eu estou além de tudo isto.

As formas de devoção não devem ser classificadas como melhores
ou piores. Hindus rezam como hindus. Os drávidas
muçulmanos na Índia fazem o que fazem. Tudo isto é louvor,
e tudo isto está bom. Eu não sou glorificado em atos de louvor.

São os que me louvam! Esses que me interessam!
Eu não ouço as palavras em suas rezas.
Eu olho para dentro e vejo sua humildade.
A submissão da alma aberta é a realidade.
Esqueça a fraseologia! Eu quero fogo, fogo ardente.

Sejam amigos de sua alma ardente.
Aqueles que se preocupam com as boas maneiras e os bons comportamentos são de um tipo.
Amantes que ardem neste fogo são doutro.
Não imponha taxa de propriedade a uma vila incendiada.
Não censure o amante.

A forma “errada” de que ele fala é melhor do que uma centena das formas “corretas” dos outros.
Dentro da Caaba [1]
não importa em que direção você aponta
seu tapete de oração!

O mergulhador do oceano não necessita de sapatos de neve!
A religião do amor não tem código ou doutrina;
Apenas Deus.

Então o rubi não possui nada gravado!
Ele não necessita de marcações...

Deus começou a falar para Moisés
de mistérios ainda mais profundos, de visões e palavras
que não podem ser ditas aqui.

Moisés deixou a si mesmo
e retornou. Ele foi até a eternidade
e retornou aqui. Isto ocorreu muitas vezes.

É tolice minha tentar falar sobre isto.
Se eu dissesse alguma coisa deste assunto,
isso iria desenraizar a inteligência humana.

[...]


Comentário

Não importa se você reza para um Pai ou uma Mãe, para o corvo ou a coruja, o lobo astuto ou o touro feroz; Não importa se você vê a Divindade na Cruz, num quadro, na pradaria ou na noite estelar; Não importa nem mesmo se você crê na Divindade...
Pois que, se você crê no Amor, temos algo em comum. Temos o essencial. Vamos começar por aqui esta nossa dança:
Pé ante pé, vamos bailar, juntos, até a Eternidade.

A religião do Amor não tem código ou doutrina. Apenas Deus. E não é preciso crer nele para ouvir o som de sua flauta, ou ensaiar os primeiros passos desta nossa dança...
“Deus” é, afinal, apenas uma palavra. O Amor é a música. O Amor envolve-nos nesta dança.

Tudo começa no coração. Tudo acaba no coração.
Nada disto tem um fim.

[...]

***

[1] Reverenciada pelos muçulmanos em Meca, é considerada pelos devotos do Islã como o lugar mais sagrado do mundo. A Caaba é uma construção cúbica de 15,2m de altura, cercada por muros de 10,6m e 12,2m de altura. Ela está permanentemente coberta por uma manta escura com bordados dourados que é regularmente substituída. Em seu exterior, encravada em uma moldura de prata, encontra-se a Hajar el Aswad ("Pedra Negra"), uma pedra escura, de cerca de 50cm de diâmetro, que é uma das relíquias mais sagradas do islã. Ela é, provavelmente, o resto de um meteorito.
A Caaba é o centro das peregrinações (hajj) e é para onde o devoto muçulmano volta-se para as suas preces diárias (salat). Quando o profeta Maomé repudiou todos os deuses pagãos e proclamou um deus único, Alá poupou a Caaba e a transformou, de um centro de peregrinação pagã, em um centro da nova fé. No período pagão, a Caaba provavelmente simbolizava o sistema solar, abrigando 360 ídolos, sendo assim uma representação zodiacal. O edifício foi restaurado diversas vezes; a construção atual é datada do séc. VII, substituindo a mais antiga que foi destruída no cerco de Meca (683 d.C.).

Crédito da imagem: Google Image Search

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2.2.13

Citações (11)

Algumas citações minhas e de outros autores. Elas geralmente já terão aparecido anteriormente na página do Textos para Reflexão no Facebook...


Neste mundo há espaço, e há tempo, tanto para que o mais sábio dos mestres evolua, quanto para o mais ignorante dos discípulos. Quando a sabedoria chega, enfim, não há mais discípulos na ignorância. E, de fato, nem mestres... Em cima do Pé de Feijão mágico há um Céu, e em cima do Céu há uma festa onde todos, mestres e discípulos, entrarão de mãos dadas.

Os convites estão chegando...

***

Paganismo: Vem do latim paganus, que significava "camponês", "rústico", "alguém que mora em aldeias". Desde muito cedo, nas primeiras cidades, houveram elites sacerdotais que tentaram ditar qual doutrina religiosa seria dominante, e desde esta época todos aqueles "vindos de fora" eram geralmente considerados inferiores, rústicos, camponeses, seres da periferia - pagãos. Na origem, nenhum pagão chamava a si mesmo de pagão, assim como nenhum gnóstico chamava a si mesmo de gnóstico, mas geralmente de cristão.

***

Igreja: O termo grego ekklesia originalmente se referia a principal assembleia da democracia ateniense, na Grécia antiga. Já a palavra latina, ecclesia, de etimologia muito próxima, originalmente significava “um curral, ou abrigo de ovelhas”. Em sua origem etimológica, portanto, a palavra que hoje chamamos “igreja” não necessariamente tinha cunho religioso algum. Mas é a partir do cristianismo que é feita esta associação de “abrigo de ovelhas” com uma comunidade onde os fiéis são as ovelhas e os eclesiásticos, os pastores. O que os pastores têm prometido, é que mediante a fé (fidelidade a Deus), aquele grupo comunitário alcançará, eventualmente, a salvação. Daí a ideia, para muitos de nós equivocada, de que possa existir “uma comunidade dos escolhidos de Deus”, que se salvam, enquanto todos os demais são condenados a arder num lago de enxofre por toda a eternidade.

***

Não há como não haver uma festa celestial para cada um de nós quando, finalmente, alcança o Céu.

Isto é, dentro de nós mesmos...

Joseph Campbell, grande estudioso de mitologia do século passado, uma vez concluiu que "o Éden não foi nem será, o Éden é".

É assim que vejo este mito universal... Primeiro foi preciso que comecemos o fruto do conhecimento do bem e do mal, que fossemos expulsos do estágio animal e ignorante, para então retornar aquele estágio de pureza, só que desta vez conscientemente... Não por intervenção divina, mas por mérito próprio.

Eu sei que nem todos creem nisso, mas para mim é uma crença libertadora.

A existência pode ser uma festa. O Éden pode ser aqui e agora; e, as vezes, até mesmo eu consigo dançar no ritmo de sua música...

***

É muito difícil que as pessoas entendam que um milagre (conforme a maioria das pessoas compreende um milagre, pelo menos) seria uma injustiça de Deus para com os seres que vivem em igualdade dentro das leis naturais. Interceder por um ou outro em detrimento dos demais é injusto.

Mas isso não significa que a oração seja inútil, imagino. Penso que a oração serve para que o próprio ser que ora solidifique sua fé, e doe de si mesmo para o outro ser pelo qual está orando. Não que nossa própria energia seja maior que a de Deus, mas as vezes as pessoas "se fecham" para a energia que preenche todo o Cosmos, e orando por alguém, quem sabe não a ajudemos a "se abrir".

Acho que a maior oração que podemos fazer por alguém é amar alguém. E, neste caso, nenhuma palavra (decorada ou não) sequer precisa ser dita para que nossa oração de amor funcione...

***

Seria a "escalada do crime" um efeito da "escalada do ateísmo"? Tem gente que gosta de dizer isso a tarde na TV aberta...

Mas, vamos refletir um pouco:
Se os cristãos dizem que os ateus são uma grande minoria, significa que a maioria dos criminosos é cristã. Ora, na verdade, o que faz um criminoso não é sua orientação religiosa ou não religiosa, mas sua moral. Se todo cristão fosse automaticamente um ser de "elevada moral", o paraíso já haveria chegado há tempos.

Eu, que também me considero cristão, não acredito que isto seja a garantia para que eu seja uma pessoa boa. Eu serei uma pessoa boa se for, enfim, uma pessoa boa.

***

Chico dizia que "o telefone só toca de lá para cá". E há muitos espiritualistas que condenam a possibilidade de "ligarmos de cá para lá". Só que Kardec, por exemplo, cansou de fazer ligações assim. Chico decerto teve suas razões para dizer o que disse. Lembrem da quantidade de gente que ia visitá-lo somente pelas mensagens que chegavam, imaginem se ainda se achassem no direito de pedir ao Chico para "ligar para os parentes do lado de lá". Ou seja, há que se analisar o contexto em que Chico se manifestou. Mas, sobretudo, há que se tomar cuidado com a conta das ligações que pretendemos fazer.

(escrito com o auxílio de uma arara)

***

"Não digo: eu descobri essa terra porquê meus olhos caíram sobre ela, portanto a possuo. Ela existe desde sempre, antes de mim." 
(Davi Yanomami ; pajé e líder do povo Yanomami)

"Para nós indígenas, a palavra é de grande valor. É através das histórias contadas pelos mais velhos que mantemos viva a nossa identidade e firme a memória da nossa história, o uso e o cuidado com a nossa terra sagrada. Mas, descobrimos nesses 500 anos de colonização que para os não-índios a palavra não vale nada." 
(Carta do Ororubá; IV Assembléia Geral do povo Xukuru do Ororubá)

"Eu não fico deitado sem pensar." 
(Rupawê; velho sábio do povo Xavante, do Mato Grosso)

***

Fábio de Melo, católico, dá uma lição sobre como "descrer sem desmerecer"...

***

Crédito da imagem: Berndnaut Smilde

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19.11.12

Carta a um evangélico

Olá Sr. Evangélico, aqui quem fala sou eu, o Sr. Espiritualista.

Antes de mais nada, preciso lembrar-lhe de que somos irmãos, ou pelo menos não há nada explícito em nossas doutrinas que afirme o contrário...

Vejamos, então, a questão da espiritualidade africana. Tenho visto o senhor dizer que os orixás são demônios e que toda macumba é necessariamente coisa do Capeta... No entanto, é preciso que saiba: para o pessoal lá dos terreiros, macumba é só um instrumento musical, tipo reco-reco, sabe como é? Nem tem tanta importância assim, o som dos tambores é bem mais importante no ritual deles; E, já que falamos nos rituais, são coisas bem antigas, bem antigas mesmo! Muito antes dos termos “demônio” e “Capeta” terem sido inventados, já se faziam rituais para os orixás na África. Se ler um pouco de ciência e antropologia, saberá o que os cientistas já dão por quase certo: que viemos todos da África, o homo sapiens surgiu em algum ponto entre a parte sul e central do continente mãe.

O próprio deus bíblico deve muito ao deus que era cultuado na Mesopotâmia por povos que já eram bisnetos milenares dos primeiros africanos que batiam tambores em homenagem a Natureza. Sem El, Javé não seria muito mais do que o espírito ancestral de alguma tribo de hebreus perambulando por Canaã. Javé foi cultuado como um patriarca de homens, El foi compreendido como um deus cósmico, criador de tudo o que há [1]... Mais ou menos como Olorun, que criou o mundo, mas está tão acima de nosso plano de existência que não há nenhum xamã africano que tenha tido coragem de tratar diretamente com ele [2].

Foi muita engenhosidade dos hebreus esta que associou Javé a El, e com isso criou a ideia de um deus cósmico que, não obstante, poderia ser contatado como qualquer outro grande patriarca. O problema é supor que somente os rabinos podiam contatá-lo... Não foi exatamente por isto que Lutero lutou toda sua vida? Para que as pessoas comuns pudessem ler os textos sagrados e conhecer a Deus por si mesmas, sem a intermediação de Roma? Pois bem, pois os nossos irmãos africanos já falavam com Deus há muito mais tempo que a gente, e nem precisavam de livros para isso.

Quer dizer que todo o ritual que evoca orixás é coisa do bem? Claro que não, mas a maioria é. Maçãs podres, temos em qualquer pomar, e tenho certeza de que mesmo o neopentecostalismo tem as suas... Ou o senhor acha que abençoar talismãs com óleo ungido, ou derrubar fileiras inteiras de pessoas ao chão, é algo perfeitamente baseado nas Escrituras?

Tudo bem, vamos ser honestos: o que achamos um barato é essa tal experiência religiosa. Decerto Pentecostes foi uma loucura do Espírito Santo, mas quem garante que foi a primeira? Se até hoje os senhores procuram falar a língua dos anjos, porque encrencar com o caboclo que fala a língua dos espíritos da Natureza? Por mim, anjos e rios, cachoeiras e carruagens de fogo, florestas e sarças ardentes, se foram vistas pelas mentes que creem, se fizeram o bem para elas, que mal há? Onde o senhor vê o Capeta nessa história toda?

Por mim, se existe um ser assim, condenado a ser mal por toda a eternidade, ele não iria atuar sobre os verdadeiramente religiosos, mas antes optar pela via mais simples: tentar aqueles que já não creem, que não se dedicam, que nunca se arriscaram realmente a mergulhar neste Oceano de Amor que permeia todo o espaço e todos os tempos...

Me perdoe, eu tenho certeza que não é o seu caso, mas acaso nunca viu um cristaozão desses que bate no peito dentro da Igreja e diz: “Sou de Cristo!”, mas que começa a falar mal da sogra 5 minutos depois de terminar a oratória do pastor? De que adianta se achar um grande cristão ao chutar imagens de santos e orixás por aí, se ao chegar em casa chuta o seu cachorro e esbofeteia sua esposa? Será que Cristo falou numa espada para matar os infiéis, ou em oferecer a outra face para o agressor?

Os índios das Américas, coitados, também nunca tinham ouvido falar em Cristo. Os colonizadores europeus não deram muitas escolhas para eles: ou se convertiam, ou eram exterminados [3]. Até mesmo muitos que disseram ter se convertido foram exterminados do mesmo jeito, pois não serviam para o trabalho escravo... E o que há de cristão nisso tudo? Nas Cruzadas, o general francês perguntou ao representante do Papa como iriam identificar os cristãos dos não cristãos, na invasão de uma cidade onde cristãos, judeus e cátaros viviam em harmonia; Ele apenas disse isto: “Matem todos, que Deus escolherá os seus”... Ao que lhe pergunto: e quais deles não eram “de Deus”?

Ainda hoje, no Centro-Oeste do Brasil, há tribos indígenas sendo evangelizadas. Evangelizar não é o problema, pois ao menos estão dando a oportunidade para que esses indígenas se tornem parte de alguma outra comunidade que não a sua, e não vivam isolados, como párias, em um país construído sobre a invasão e o extermínio de suas terras ancestrais... O problema, este sim, é proibi-los de pintar o corpo de vermelho. “Vermelho é a cor do Capeta!”, seus colegas dizem... Mas, e o que diabos os índios tem a ver com o Capeta? Na maioria das mitologias indígenas, sequer existe um ser representante do mal, quanto mais um anjo caído... Eles nem sabem o que é um anjo! Se não podem se pintar de vermelho, vão se pintar de branco? Ou de verde? Ou lilás? Convenhamos, isso não faz o menor sentido.

Vamos tentar ser mais seguidores de El, e menos seguidores de Javé. Javé era um espírito ancestral, e precisava de barganhas e favores, e tinha ciúmes dos cultos de espíritos e deuses alheios, como foi o caso com Baal. Mas El não, El não tinha um oposto, pois o Tudo não tem oposto – o Nada não existe.

Dessa forma, se existe um Capeta, seria injustiça da parte de Deus que ele pudesse controlar a mente dos seres puros, corrompendo-os... Acho que faz mais lógica, além de estar mais de acordo com o que vemos na Natureza e na psicologia humana, considerarmos que o mal existe na alma de cada um de nós, e que é somente lá, precisamente lá, que precisamos fazer uso desta espada de que Cristo falou...

Para cortar a trave que obstruí nosso próprio coração. Para que nossa luz de amor transborde, e englobe os irmãos a nossa volta. Para que evangelizemos realmente uma boa nova, uma notícia de uma nova era, de uma nova sociedade, uma nova espiritualidade, uma nova religião... Assim, quem sabe, também poderemos ler, dentro de nossa alma, conectada a Alma do Mundo: “também eu sou da raça dos deuses, também eu trago o Pai dentro de mim, também eu farei tudo aquilo que o Cristo realizou, e talvez até mais”. E nem sequer precisaremos de um livro para guardar tal Verdade.

Cristo salva, afinal, todos aqueles que o encontram dentro de si mesmos... Mas Cristo é apenas uma palavra. O que salva é a fé, e não há fé mais profunda do que a fé no Amor. Pense nisso meu amigo, meu irmão. Pense, e reflita esta boa nova adiante!

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[1] Maiores detalhes na série A roda dos deuses (esta teoria não é minha, mas de Mircea Eliade, um dos maiores especialistas em mitologia do séc. XX).

[2] Na mitologia Iorubá, talvez a de maior influência no Brasil, Olorun ou Olodumare é o criador do universo e mora no Orun (Céu). Embora reconhecido como Ser Supremo, não existe um culto ou templo que lhe é dedicado exclusivamente. Os orixás são os seus representantes em Aiye (Terra).

[3] Michel de Montaigne dá sua opinião, bem mais embasada do que a minha, nesta série de Reflexões sobre o sexo.

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Crédito das imagens: [topo] Mark Keathley (Dance of Grace); [ao longo] Stephen Frink/Science Faction/Corbis

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1.10.12

Os intolerantes

O vídeo a seguir faz parte de uma ópera teatral sobre a história do personagem Alabê de Jerusalém, uma "entidade" que viveu há cerca de 2000 anos na África, e foi contemporâneo de Jesus. Na verdade, se trata de um espetáclo baseado em mais de 20 anos de pesquisas dos antigos mitos africanos, e provavelmente a "grande obra" da vida do músico carioca Altay Veloso, que inclusive chegou a viajar, durante seus anos de pesquisa, a Jerusalém, à Nigéria, a Angola e à Bahia.

Este trecho em específico me parece bastante adequado ao blog, pois se trata de uma crítica "amorosa" a intolerância e ao preconceito religioso, particularmente contra os religiosos ligados as culturas africanas, como é o caso, no Brasil, dos praticantes da Umbanda Sagrada, Candomblé e Tambor de Mina (dentre outras já quase extintas)...

Eu só gostaria de fazer uma ressalva ao trecho do refrão do canto inicial, que diz: "Às vezes corações que creem em Deus, são mais duros que os ateus. E jogam pedra sobre as catedrais dos meus deuses Yorubás". Ora, se vamos criticar a intolerância, devemos levar em consideração que o preconceito que afirma que "ateus são duros de coração, ou frios de sentimentos", é tão somente mais um preconceito mesmo...

Assim como há doutrinas religiosas que sequer "necessitam" da crença em Deus, como o jainismo e algumas vertentes do budismo, o fato de alguém ser ateu não necessariamente indica que esta pessoa é "fria e calculista". Na verdade, há muitos ateus plenos de espiritualidade, a começar por Carl Sagan (na verdade, um agnóstico), que em certos momentos de seu Cosmos mais parece um "profeta da Natureza".

Feita esta consideração, podemos agora apreciar, de alma aberta, aos ecos da antiga sabedoria africana:

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Alguns trechos recitados ou cantados no vídeo:

"Ah, meu Deus! Assisto com muita tristeza a pena da aspereza dilacerando a beleza de uma linda sinfonia. A aguarrás de juizes, ciumentos inflexíveis, descolorindo as matizes de uma linda pintura, só porque não gostam da assinatura?"

"E vai com uma bailarina, com a inocência de menina, dançando em volta do sol, a Grande Mãe Terra. Enquanto muitas nações, governos, religiões ensaiam a dança da guerra."

"Na verdade a bola azul quase nunca foi amada; é sempre penalizada. Tem um trabalho enorme, dedicação e talento para preparar a mistura, juntar os seus elementos para dar forma às criaturas, e elas, depois de paridas, desconhecem a matriarca e dizem, mal agradecidas: que a carne é fraca."

"E quando o planeta gera um Avatá, um iluminado assim como o Nazareno, tem logo quem se apresenta com conhecimento profundo e diz logo: não é desse mundo, só pode ser extraterreno."

"Ah, é difícil entender porque é que o homem, até hoje, cospe no prato que come. Algumas religiões, não sei por qual motivo, dizem que a Terra é um território com vocação pra purgatório, não passa de sanatório... E que nós só seremos felizes longe dela, bem distante, lá onde os delirantes chamam de paraíso."

"Olha, eu vou dizer de coração. Na minha simples, dia após dia, me perdoem a liberdade, mas religião de verdade, mais parecida com a que Jesus queria, talvez seja sentimento de ecologia. Para esse sentimento não tem fronteiras e só reza um mandamento: preservação das espécies com urgência, sem adiamento."

"Hoje, ela pensa nas plantas, nos rios, no mar, nos bichos. Amanhã, com certeza, com a mesma dedicação e capricho, pensará com muito cuidado nos meninos abandonados."

"Ah, se ela tivesse mais força para sustentar sua zanga, evitaria, com certeza a fome cruel de Ruanda. Não tinha maturidade, ainda era uma menina, quando a impertinência sangrou, com a bola de fogo, a pobre Hiroshima. Mas ela cresce, se instala como uma prece no coração das crianças. Tenho muitas esperanças..."

"Eu tenho toda a certeza que nosso planeta um dia, mesmo cansado, exausto, terá toda a garantia e guardado por uma geração vigia, nunca mais verá a espada fria no Holocausto."

"A intolerância, repito, é a mais triste das doenças. Não tem dó, não tem clemência. Deixa tantas cicatrizes nas pessoas, nos países, até as religiões, guardiãs da Luz Celeste, abandonam seus archotes para empunhar cassetete. E o que, na verdade, refresca o rosto de Deus, é um leque, que tem uma haste de Calvino e outra de Alan Kardec."

"Na outra haste, as brisas, que vêm das terras de Shivas, são uma, dos franciscanos, e outra, dos beduínos. Não precisa ir muito longe... Jesus nasce entre os rabinos."

"Às vezes corações que crêem em Deus, são mais duros que os ateus. E jogam pedra sobre as catedrais dos meus deuses Yorubás. Não sabem que a nossa terra é uma casa na aldeia, religiões na Terra são archotes que clareiam."

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Crédito da imagem: James C. Lewis (Olorun, ou Olorum, princípio criador da mitologia dos Yorubás)

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23.7.12

A Reforma bem explicada

Texto de Geoffrey Blainey em "Uma breve história do cristianismo” (Ed. Fundamento) – trechos das pgs. 217 a 222. Tradução de Capelo Traduções. As notas ao final são minhas.

Como resumir um século e meio de turbulência religiosa que marcou a ascensão do protestantismo? Como tirar conclusões das incontáveis lutas, armadas ou não, da impressão de uma avalanche de textos inflamados, da morte de alguns rebeldes na fogueira ou da santificação de outros, e da reviravolta provocada na vida religiosa de milhões de pessoas, muitas das quais silenciosamente reprovavam as mudanças que eram obrigadas a aceitar? [1]

A distância entre a nossa era e aquela, entre as atitudes de então e de agora diante da morte, é enorme. A morte despertava forte interesse, pois frequentemente interrompia a juventude e chegava de repente, com sofrimento. Assim, as pessoas pareciam mentalmente mais preparadas para ela. Tal como custamos a entender aquele interesse pela morte e pela religião, os antigos provavelmente se espantariam com a nossa fascinação por dinheiro, por bens materiais e por viagens ao exterior com objetivos que não a peregrinação.

[...] A Reforma lançou algumas sementes da democracia moderna, embora sem saber como e quando iriam germinar. Enquanto a tradição católica se baseava na hierarquia – na autoridade dos papas, cardeais e bispos – os protestantes enfatizavam a leitura da Bíblia e o relacionamento do indivíduo com Deus. Os protestantes batizados podiam ser os sacerdotes de si mesmos; não precisavam de padres ou bispos como intermediários em seu contato com Deus [2].

Lutero se referia a isso como “o sacerdócio de todos os crentes”, e seu espírito democrático permeou as seitas protestantes que surgiram depois. Com a Bíblia em linguagem acessível, o protestantismo favorecia o debate e a discussão, que representam o cerne da democracia. Acima de tudo, calvinistas, luteranos, batistas, unitaristas, presbiterianos e outras congregações independentes administravam as próprias igrejas e selecionavam os sacerdotes.

[...] A abordagem democrática teria efeitos surpreendentes, em especial nos Estados Unidos. A Reforma desestimulava o uso do latim, na época o idioma internacional. Assim, proporcionou uma era gloriosa ao inglês, ao alemão e a outros idiomas nacionais. Nesse sentido, houve uma promoção mútua, entre nacionalismo e protestantismo. As mudanças religiosas promoveram também a educação. Lutero, Zuínglio e Calvino – saídos de três universidades diferentes – acreditavam que todos devem saber ler, e que a Bíblia é leitura obrigatória. “Estou profundamente comovido”, Lutero escreveu em 1530, ao saber que tantos alemães liam a Bíblia.

Os católicos reagiram, e começaram a promover com mais vigor a educação. No decorrer dos três séculos seguintes, porém, talvez nenhum país católico tenha alcançado o nível de alfabetização dos países protestantes. O surgimento da democracia popular, na segunda metade do século 19, dependia da disseminação do conhecimento [3].

[...] Os cerca de 125 anos seguintes ao surgimento da Reforma foram um período de graves conflitos em boa parte da Europa. “Guerras religiosas” é um rótulo bastante comum para o que aconteceu então. Na verdade, o sentimento religioso intensificou muitas batalhas, além de desestimular a ideia de qualquer acordo durante as negociações de paz, mas seria injusto apontar a Reforma como fator decisivo para as guerras. O período de violência começou com disputas entre monarcas católicos, não motivadas pela religião; eles estavam preocupados demais com as próprias guerras, para dedicar muita energia à anulação do movimento protestante [4].

O longo período de guerras intermitentes foi afetado também pelo surgimento de novas armas. O canhão e o mosquete tornaram as guerras ainda mais mortais e os monarcas, mais poderosos. Eles, e não os reformadores religiosos, planejavam, financiavam e orientavam a maior parte das guerras. Os estudiosos que hoje se dedicam ao assunto não consideram a hostilidade religiosa como a causa principal das guerras na Europa; segundo eles, a religião pode ter sido “um disfarce para outros motivos”. A ser mantido o rótulo “guerras religiosas”, seria apropriado chamar a Segunda Guerra Mundial, com sua base ateísta e o enorme número de vítimas, de “guerra da descrença”. A rotulagem simplista de grandes eventos mais complica do que explica.

Religião não era uma questão de escolha, mas de obrigação. [...] Em parte, os governantes [de países protestantes] exigiam unidade social e religiosa por acreditarem que o território ficaria mais seguro. Era crença geral um reino ou uma república tornarem-se alvos fáceis, se não tivessem coesão religiosa.

Um aspecto que nos intriga atualmente é o fato de a tolerância não figurar, naquela época, como objetivo no universo de cristãos, hindus, budistas, chineses, astecas ou incas. A ampla tolerância religiosa é quase uma invenção dos tempos modernos [5] – praticamente impensável, séculos atrás. O importante era sustentar a visão religiosa apropriada, e não a liberdade de rejeitá-la. O direito de desobedecer ao governo e à Igreja, o direito de ser livre em matéria de consciência, são preceitos que surgiram muito lentamente, depois das fortes tensões provocadas pela Reforma [6].

A mais ousada tentativa de liberdade religiosa foi feita na Holanda, [...] que era o país mais próspero da Europa, abrigando um notável cadeia de postos comerciais que se estendia de Nova York – então chamada Nova Amsterdã – a portos distantes, como Jacarta e Malaca, no sudeste da Ásia. [...] Em Amsterdã, então a cidade com o maior número de habitantes judeus da Europa ocidental – muitos expulsos de Portugal – as sinagogas se multiplicaram.

Por algum tempo, Maryland e Rhode Island talvez tenham sido os locais mais tolerantes de todas as regiões onde se falava inglês. Em 1634, os primeiros colonizadores britânicos aportaram em Maryland, e 15 anos depois uma lei local concedia liberdade religiosa a todas as denominações cristãs, embora os judeus não estivessem formalmente incluídos [7]. [...] Com ou sem intenção, os provocadores da Reforma lançaram a pedra fundamental da tolerância religiosa.

***

[1] Um dos motivos do sucesso de Blainey em sua série de livros sobre história (vários deles, best-sellers mundo afora), em minha opinião, é a sua humildade em expor a história de um ponto de vista de quem, como nós, já não vive mais nas épocas citadas – e não pretender expor a história “como foi”, mas sim “como a interpretamos atualmente”. O outro motivo é que ele simplesmente escreve muito bem.

[2] Quanta distância entre os protestantes originais e os de hoje em dia!

[3] A despeito do que são e do que foram os protestantes, dificilmente os seus críticos se lembram, atualmente, que a nossa educação secular deve, e muito, ao fogo iniciado por Lutero.

[4] Grosso modo, toda e qualquer guerra entre nações jamais foi iniciada propriamente por um “conflito religioso ou doutrinário”, e sim pela pura e simples disputa por riquezas e territórios. Mas muitos “historiadores” não gostariam que você pensasse dessa forma, e para eles (ao contrário de Blainey), o termo “guerra religiosa” pode fazer todo o sentido do mundo.

[5] Eu diria: uma conquista da evolução da consciência humana.

[6] E, mais uma vez, qual o ateu atual que lembra de que foi Lutero quem iniciou esta divina chama de liberdade?

[7] O próprio sonho americano partia desse pressuposto de liberdade. Nalgum dia distante, os Estados Unidos já foram vistos como a terra da tolerância e da liberdade de pensamento, e foi exatamente por isso que atraíram tantas grandes mentes, que colaboraram (e muito) para a construção da potência econômica que o país veio a se tornar no final do século XX.

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Crédito da imagem: F.W. Wehle/Corbis ("Lutero em seu estudo")

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17.5.12

Comentário: sem Deus, tudo é permitido?

Comentário das respostas da pergunta “sem Deus, tudo é permitido?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Estamos mais acostumados a presenciar casos de preconceito dos religiosos para com os ateus. Normalmente as explicações incluem “ora, mas ele não tem Deus no coração” e coisas do tipo; acho que todos aqui já sabem do que estou falando...

Pois bem, comigo ocorreu algo como o oposto disso, de certa forma: durante os meses em que esta série se estendeu, eu tive a felicidade de ler o mais novo livro do filósofo suíço Alain de Botton, Religião para ateus [1]. Ora, eu sempre adorei os livros de Botton, e nunca me preocupei em saber se ele era ou não ateu... Da mesma forma, nunca me preocupei em saber se o funcionário de uma livraria que frequento era ou não ateu. Ele sempre me atendeu bem, mas era impossível não notar a forma meio “distante” com a qual ele lidava comigo, particularmente quanto estava folheando livros das estantes de espiritismo e ocultismo. Eu pensava que ele era evangélico ou coisa do tipo, sabe como é: nós espiritualistas estamos mais do que acostumados com esse tipo de preconceito. Normal.

Pois é, tal funcionário por acaso era agnóstico, e seu “distanciamento” não tinha nada a ver com o preconceito por eu ser espiritualista, mas sim por uma pura pressuposição de que era eu quem devia ter preconceito para com ele... Engraçado como são as relações humanas: bastaram cinco minutos de conversa sobre o livro de Botton, e ambos percebemos que nenhum dos dois tinha a menor necessidade de “temer” o preconceito do outro. Na verdade, nenhum dos dois tinha preconceito algum, pelo contrário: tinham certo cuidado, certo “distanciamento”, exatamente por considerar a possibilidade do outro ser preconceituoso. Cinco minutos de conversa: quem dera fosse tão simples resolver o preconceito do mundo assim...

O problema é que a maior parte das pessoas infelizmente não costuma frequentar muito a livraria, elas preferem que alguma autoridade leia os livros para elas, e resuma o que achou. Mas livros são apenas conjuntos de palavras, o que importa é o que conseguem fazer com aqueles que os leem. Livros não mudam o mundo, as pessoas que os leem é que mudam o mundo.

***

Você pode achar que um espiritualista ou ocultista não tem muito sobre o que conversar com um cientista ou cético. Pior ainda seria ambos dialogarem sobre Deus: “perda de tempo total”... Se este é o seu pensamento sobre a questão, permita-me trazer-lhe aqui um diálogo meu com um amigo que foi professor universitário de física e matemática (hoje está aposentado, mas é vice-diretor de um colégio de Viçosa/MG). Este amigo se autointitula “livre pensador, cético, racionalista, humanista, estóico, epicurista, anarquista e ateísta” – você acha que eu não teria nada a falar com ele sobre Deus?

O diálogo começou quando eu comentei sobe um post seu numa rede social. No post ele mostrava parte da resposta para uma pergunta de uma provável jovem estudante: “Acho que estou apaixonada de novo, o quão estou fodida?”. Para essa pergunta, tão corriqueira da juventude (com fodida e tudo), meu amigo me trouxe uma belíssima resposta do qual destaco apenas um trecho: “Você ganhou o prêmio de estar experimentando a sensação mais maravilhosa que a vida pode propiciar. Você já está no céu sem ter morrido. O resto não importa”.

Foi a partir daí que comecei a dialogar com meu amigo, que vou chamar aqui de Wolf:

Raph – Se Deus for o nosso amor, não será preciso esperar a morte para chegar ao céu, nem temer inferno algum.

Wolf – O amor a Deus é um amor platônico. O amor completo, além dos aspectos agape e philia, também envolve o eros, que, em geral, não se devota a Deus. Além disso, o amor a Deus não é sensivelmente correspondido. Você pode ter a intelecção de que Deus o ama, mas você não tem essa sensação, como você pode ter do amor de outra pessoa. Assim, o céu que o amor de Deus pode propiciar é um céu intelectual. O céu que uma paixão amorosa humana propicia, além de intelectual, é também sensorial.

Raph – Pois é eu quis dizer literalmente isso: se Deus for o nosso amor, se tudo o que associamos ao amor, ao amor puro, mesmo que sexual, seja Deus. É mais um jogo de palavras, cada um entende a palavra "Deus" do seu modo, para o bem ou para o mal (poderia dizer, talvez, "se o Sagrado for nosso amor")... Mas eu toquei nisso porque achei bonito o que disse: "Você já está no céu sem ter morrido".

Wolf – Sim, se considerarmos que Deus significa, simplesmente, "amor", então quem está apaixonado está com Deus no coração. Nesse caso, Deus não é um ser. Essa é uma concepção que me agrada. Quando alguém diz "fica com Deus" ou "vai com Deus", está dizendo "fica com amor" ou "vai com amor". Realmente, é disso que a humanidade precisa. Para tal vale ler o "Tao Te Ching" de Lao Tsé.

Raph – Exato, quem sabe o Tao não seja o Amor: Deus em movimento... Mas vamos aprofundar um pouco mais: quem sabe se o motivo de tantos terem medo de se apaixonar não tenha algo a ver com esse entendimento de Deus como agente de barganha: "eu Te amo, Pai, e em troca ganho isto ou aquilo" (por ex: "a salvação").

Nas relações amorosas, às vezes as pessoas parecem pensar assim, só que quando percebem que nem sempre recebem "amor de volta", ficam com medo de amar. Mas, se o amor for sua própria recompensa, não deveriam se preocupar com barganhas, mas simplesmente com o exercício do amor.

Lao Tsé não espera nada em troca, o simples fato de refletir sobre o Tao o faz feliz. É como contemplar as estrelas: ninguém espera uma estrela cadente de presente, para guardar em casa - apenas as admira.

Wolf – Gosto dessa linha. A questão é a seguinte: o esquema da natureza fez com que a vida tenha surgido e, para que ela continue, desenvolveu-se o sexo, do qual o amor, qualquer amor, é uma sublimação. Então o amor é, assim considerando, o supremo objetivo da natureza. Ele é o caminho para que o esquema funcione e a evolução progrida, pois não há evolução sem reprodução. Note que não falo "projeto" e sim "esquema", pois não há plano nenhum nisso, por parte de ninguém. É o que aconteceu de acontecer. E se o que podemos chamar de "Deus" seja, simplesmente, uma personalização abstrata desse esquema, como o concebia Einstein e Espinosa, que não viam em Deus uma pessoa, e, nem mesmo, um ser, então crer em Deus e amá-lo nada mais é do que se amoldar a esse esquema. Como portadores do livre arbítrio, que nos retirou, em parte, do esquema cego e nos concedeu a liberdade de escolha, podemos escolher a salvação, que é, justamente, aderir ao amor, ou a perdição, que é negá-lo. Esse tipo de exegese eu aceito.

***

Claro que isso não quer dizer que estamos totalmente de acordo acerca do que seja Deus, ou o Amor, mas pelo menos deixou de haver este “distanciamento”, este “deus-barreira”, entre nós. Mas, talvez ainda falte uma explicação mais profunda acerca do que quero dizer aqui:

Se Deus é pensado como um Ser, ou apenas como um Ser, racionalmente e intuitivamente chegaremos a dilemas sem volta, a paradoxos irreconciliáveis, e invariavelmente dia chegaremos numa certa descrença. Mas, então, será o início, e não o fim... Pois quando finalmente percebermos que Deus é Substância, a Substância que não pode criar a si mesma [2], o Uno que formou tudo o que há através do Movimento, então teremos a genuína experiência de estarmos encharcados por seu Oceano onde quer que cheguemos, em todos os momentos da existência...

Então começaremos a compreender que todos somos parte dele, e todos estamos conectados numa longa teia de luz. E saberemos que é o Amor, só o Amor, a essência de seu Movimento. Então passaremos a amar, pelo prazer de amar, pois o Amor é sua própria recompensa, e quanto mais arde em nossa alma, mais combustível há para que o fogo cresça ainda mais, cada vez mais...

E não teremos nada pelo que crer ou descrer, nem nada a temer. Teremos dado o primeiro passo no caminho, e depois do primeiro já saberemos que a época da escuridão da alma ficou para trás. Será o início da vida, e o fim da sobrevivência.

Mas nada disso se aprende lendo palavras - o Amor não é uma palavra, tampouco Deus.


Se esse conhecimento pudesse ser obtido simplesmente pelo que dizem outros homens, não seria necessário entregar-se a tanto trabalho e esforço, e ninguém se sacrificaria tanto nessa busca. Alguém vai à beira do mar e só vê água salgada, tubarões e peixes. Ele diz: "onde está essa pérola de que falam? Talvez não haja pérola alguma". Como seria possível obter a pérola simplesmente olhando o mar? Mesmo que tivesse de esvaziar o mar cem mil vezes com uma taça, a pérola jamais seria encontrada.

É preciso um mergulhador para encontrá-la...

(...)

Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.

(Jalal ad-Din Rumi)

***

[1] Neste livro provocativo (e muito corajoso), Botton defende que à sociedade secular têm muito o quê aprender com os aspectos positivos das grandes instituições religiosas. Ele praticamente inaugura o ateísmo 2.0: uma forma mais tolerante, mais filosófica que eclesiástica (ou antieclesiástica, o que no fundo não é tão diferente, tal como o ódio não é o oposto do amor), de ateísmo.

[2] Espinosa foi quem melhor elaborou a questão para a modernidade, em sua monumental Ética. Porém, tais ideias acerca do Uno, da Substância-Primeira, datam de épocas muito mais antigas, tendo aparecido no hermetismo, na filosofia pré-socrática (particularmente em Parmênides), nos estoicismo e no neoplatonismo. Mesmo no taoismo, não é possível ignorar a abordagem da questão, ainda que de forma poética.

***

E aqui terminam, finalmente, as reflexões sobre a espiritualidade e a ciência. Não esqueçam: a luz que reflete numa alma jamais será a mesma luz, por isso é tão importante que sejamos como uma teia de luz. Para que nenhuma ideia de amor, nem mesmo a mais pequenina, se perca...


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Crédito das imagens: todas foram vistas nas redes sociais, portanto não sei dos autores (será que algum deles ficaria chateado?)

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14.5.12

Cangoma a chamar

(atenção: este é um artigo musical, tenha ouvidos atentos)

Shhh... Escute, você ouve este som etéreo, distante? Perecem, parecem tambores... Tambores, e um lamento estranhamente alegre...

O último dia 13 de maio de 2012 foi um dia muito especial. Não pelo dia em si, mas pelo que simbolizou: a união da comemoração do fim legal da escravidão no Brasil, e a celebração do dia das mães. Além de terem caído num mesmo dia, este dia foi um domingo, pois no Brasil se comemora o dia das mães sempre no segundo domingo de maio. Ora, em muitas casas de umbanda, ou casas espíritas e espiritualistas que são simpáticas a umbanda, se realiza uma festa no domingo mais próximo do dia que simboliza a libertação dos escravos no país – ou seja, além de neste ano a festa poder ter sido realizada no próprio domingo em si, ainda foi dia das mães.

Para compreender a importância disso, é preciso retornar alguns séculos no tempo e visualizar a barbárie que os povos europeus, ditos civilizados, realizaram na África. A escravidão não significava apenas o roubo dos adultos mais saudáveis e promissores de um reino ou grupo étnico africano, mas a separação de mães e filhos, e filhos e mães: a pura devastação daquilo que nos é tão sagrado, a família. Deste modo, podemos supor que não era tanto por saudades de sua terra que os escravos choravam, nem tanto por serem açoitados e tratados como animais selvagens, mas antes por terem deixado pais, mães, esposas e até mesmo filhos, em sua terra natal – para jamais os verem novamente, nem sequer receber cartas.

Pensemos nisso quando reclamamos de nossa dor de dente, do time de futebol que perdeu a final do campeonato, ou daquele concurso público em que não passamos, e deixamos de ganhar alguns milhares de reais a mais do que já ganhamos... Os que vieram da África, esses sim tiveram razão do que reclamar.

Mas, como foi... Como foi então que os negros puderam enxugar suas lágrimas, e amenizar sua dor? Como poderia ter sido, que não através do espírito? Pois eles não poderiam sequer escrever cartas que pudessem atravessar o oceano, mas sabiam que enquanto remavam ao Brasil, tinham a Senhora do Mar abaixo, e o Senhor dos Ventos acima – os orixás ainda estavam com eles, e a espiritualidade foi sua ponte entre o Brasil e a África, ponte esta que jaz firme até hoje.

Foi isto mesmo: nós os retiramos de sua terra, os açoitamos e dissemos que nos pertenciam, pois sequer tinham alma... E o com o que eles nos retribuíram? Axé, danças e tambores...

A festa que se realiza no 13 de maio é a festa dos pretos velhos. Pense nisso: hoje a ciência sabe que toda a humanidade migrou da África para o restante do globo, a África é a mãe dos homo sapiens, a nossa mãe. Se um genuíno preto velho é um desses espíritos antigos, é bem capaz de fazer parte do grupo espiritual mais antigo da Terra – a despeito dos outros que migraram de outras casas. Kardec nos alertou que “os espíritos falam apenas do que sabem”, e ele tinha razão; Porém, alguns dos pretos velhos que aparecem para papear em tais festas podem saber muito, muito mesmo, pois são tão antigos quanto os primeiros xamãs, e tão sábios quanto os primeiros filósofos.

E há ainda aqueles espíritos que, cansados de toda a formalidade e prepotência que se encontra em outras doutrinas ditas civilizadas, resolvem aparecer como pretos velhos, de barba branca e encaracolada, olhos profundos como o mar, voz adocicada como a primavera, e arqueados pelos séculos em suas bengalas imaginárias. Sabe-se que o grande Bezerra de Meneses volta e meia aparece como um destes pretos velhos, quem sabe quantos sábios de outrora não preferem se utilizar deste mesmo símbolo, e permanecerem anônimos nas danças de tambor?

Lai ê, lai ê, lai á, disse levanta povo... Ouvem alguma coisa agora? Acho que está vindo lá do fundo...

Vissungos eram os cantos dos escravos utilizados nas lavras de diamante e ouro, ao redor da região de Diamantina, em Minas Gerais. Alguns de seus cantos atestam como o fim da escravidão no Brasil foi muito mais legal do que real, e como foi ser liberto em uma terra que não era a sua, que não era a Mãe África. Embora alguns dos legisladores brasileiros, e alguns dos artistas e pensadores da época, fossem genuinamente simpáticos aos ex-escravos, a maioria não era, e todos sabemos quantas gerações foram necessárias para que eles fossem aceitos como cidadãos, como seres que têm alma e, portanto, direitos.

Mas a alma de alguns deles era imensa, tão imensa que jamais foi embora, e sorrateiramente infiltrou-se em nossa cultura, nossa religião, nosso pensamento... Já disseram que os orixás eram demônios, mas como demônios poderiam compor canções tão belas quanto os cantos dos escravos de Minas, da Bahia, do Rio, do Maranhão?

Clementina de Jesus foi uma grande cantora tardia que, do alto de seus 60 e poucos anos, ainda assim teve o tempo e a vitalidade para nos deixar alguns clássicos da música popular brasileira. Clementina, como neta de uma escrava, cantava com propriedade.

Foi sua voz quem nos resgatou um dos mais belos vissungos de Minas, e que, por ser tão belo e profundo, nos serve como um verdadeiro mantra para a libertação... A libertação dos preconceitos, a libertação da ignorância, a libertação do ego, para que um dia, como os pretos velhos, possamos apenas dançar ao som do tambor, da cangoma [1], e nos esquecer, por um breve momento, de toda a dor do mundo...

Tava durumindo
Cangoma me chamou
Disse: levanta povo,
Cativeiro já acabou!

Agora sim, todos estamos a ouvir... Vamos então cantar, e fazer desse canto um hino de liberdade... Até que todo cativeiro fique para trás, e a nossa frente, apenas a Mãe África, e milhares de pretos velhos a nos saudar.

Áudio de Cangoma me chamou – Mawaca (em 2:00 ouve-se a voz de Clementina, uma gravação inserida na música).

» Veja também Mawaca cantando ao vivo este mantra (do DVD "Para todo canto").

» Ouça Clementina de Jesus no original (esta versão é obviamente muito mais próxima do que se ouvia em Minas).

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Sentido e escrito por raph, branco de pele, africano de dna, iluminado na alma por alguma luz que não sabe dizer a cor...

[1] Há um tambor grande chamado de cangoma ou angoma. Esse tambor avisa, no registro da canção, o fim da escravidão, como os sinos das igrejas que tocavam avisando e marcando os momentos importantes da vida da comunidade.

Crédito das imagens: Google Image Search

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2.5.12

Ateísmo 2.0: Alain de Botton fala no TED

Em "Religião para ateus", um livro provocativo (e muito corajoso), o filósofo suiço Alain de Botton, que se declara ateu, defende que à sociedade secular têm muito o quê aprender com os aspectos positivos das grandes instituições religiosas. Aspectos esses que podem muito bem sobreviver mesmo quando Deus é deixado de lado. Nesta palestra memorável no TED, ele nos traz um breve e espirituoso resumo sobre as ideias que relata em seu livro:

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» Veja mais posts sobre Alain de Botton em nosso blog (incluindo alguns trechos do livro)

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