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4.10.18

Filosofia para os jovens

Pretendo com este texto pensar uma filosofia para os jovens do nosso século. Considerem que escrevo uma filosofia para os jovens e não uma filosofia para jovens. Vamos apresentar as esperanças, decepções e possibilidades de ação que possuem os jovens hoje.

Quais são os problemas que a juventude enfrenta? Quais as dificuldades em ser jovem? Três questões se mostram:

Estudos e Ascensão Social
Menos de um século atrás, uma estimativa nos diria que apenas 10% dos jovens chegavam ao ensino superior. Os 90% restante compunham a classe trabalhadora e pobre. Frequentar a universidade e possuir um diploma era um diferenciador social. Mas isso mudou.

Hoje, em países desenvolvidos, estima-se que mais de 80% dos jovens vão para o ensino superior. Em países em desenvolvimento, como o Brasil, apenas 50%. É uma diferença considerável, mas ainda assim um crescimento em relação às décadas anteriores.

Porém, se antes o diploma representava o meio de ascensão social, hoje já não é mais assim. Com a democratização da universidade, o mercado não foi capaz de acolher a todos. Passou-se a exigir níveis ainda mais altos e especializados de formação: inúmeras pós-graduações, estudos e experiência no exterior etc.

Sabemos que os jovens da camada pobre e média que recentemente conseguiram o diploma não conseguem acompanhar a crescente exigência. Jovens de periferia não podem passar uma ou duas décadas estudando e viajando o mundo porque tem preocupações mais imediatas, como conseguir um emprego para sobreviver. Deste modo, os mecanismos de diferenciação de classe permanecem.

Se o nível da educação média aumentou, isso não foi acompanhado por um aumento das oportunidades. Consequentemente, a educação adentrou a lógica de mercado. Vista como um investimento – o maior investimento da sua vida, diriam alguns – instituições encontraram a oportunidade de venderem cursos e diplomas dos mais variados, que funcionariam como um passaporte para a tal ascensão social. O que nem sempre se confirma.

Há hoje muitos jovens com estudos, diplomas e formações, mas sem um real espaço para eles na sociedade.

Adolescência Prolongada
Completar 18 anos, servir o exército, conseguir um emprego, casar-se, comprar uma casa e construir sua família. Para as gerações anteriores este era o caminho comum e alcançável pelos jovens em poucos anos. Mas hoje também não é mais assim.

Primeiramente, pelo alto custo da vida moderna. Por exemplo, comprar uma casa é impossível para jovens que mal conseguem alugar um apartamento compartilhado com os amigos num grande centro urbano. Isto, somado às faltas de boas oportunidades de trabalho, faz com que os jovens passem dos seus 30 anos e ainda permaneçam economicamente dependentes dos seus pais. O que não é sem frustração para pais e filhos.

Como consequência, há a chamada adolescência prolongada, que não é nada mais do que a falta de ritos de passagem para a vida adulta.

Nas sociedades antigas sempre existiram os ritos que marcavam a passagem dos jovens à vida adulta. No caso dos meninos, até algumas décadas atrás era o serviço militar para a classe trabalhadora e a formação universitária para a classe média. Para as meninas era o casamento e a maternidade. Felizmente, o movimento feminista questionou isso por seu inerente machismo.

No entanto, o fracasso contemporâneo da sociedade em introduzir o jovem na vida adulta, seja pela educação ou pelo trabalho, impede que algum rito de passagem seja realizado. Com a adolescência prolongada, a única diferença entre jovens de 15 e 35 anos hoje é que os últimos geralmente tem mais dinheiro para comprar PlayStations.

Jovenismo
Não só há uma adolescência prolongada, como também uma grande recusa dos adultos em envelhecer. Sobretudo fisicamente.

Nas sociedades antigas, os velhos eram vistos como sábios. O arquétipo do ancião reflete alguém que adquiriu sabedoria por muitos anos. Mas não é assim num mundo de constantes revoluções tecnológicas. Se o saber do velho era algo que antes podia instruir os jovens, hoje os idosos se mostram incapazes de se situar no mundo. Há na verdade uma inversão. Os velhos que precisam dos jovens até para as coisas mais banais, como pagar suas contas no banco.

Cresce assim a ideia de que a vida é para os jovens. É preciso ser jovem e ter disposição para aproveitar a vida e seus prazeres. Sobretudo da beleza, vista como um atributo finito da juventude, e que se tenta prolongá-la ao máximo.

Os próprios idosos aderem a esse discurso quando se fala da importância de se manterem ativos e saudáveis até o fim da vida. A doença e o enfraquecimento da velhice são vistos como moralmente reprováveis, como se fosse uma questão de escolha pessoal, e não uma contingência natural da vida.

E quem lucra com isso é a indústria da beleza. Massificação de cosméticos e processos cirúrgicos, vídeos de dicas de maquiagem com milhares de visualização, profissionais do fitness com mais seguidores que as próprias estrelas do cinema. Todos buscando uma mesma coisa: retardar a marcha do tempo e cultuar os atributos da juventude, a beleza e a energia.

O grande desafio dessa geração não será manter a juventude eterna, mas, depois que tudo falhar, conseguir aceitar em paz o envelhecimento e o fim do jovenismo.

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Se o cenário parece desolador, é porque já estamos fazendo filosofia.

Essa é a diferença entre autoajuda e filosofia. A primeira tenta fazer com que você ignore a realidade e permaneça confiante e positivo. A segunda nos convoca a olhar com seriedade para o buraco em que nos metemos, e pensar como podemos sair dele.

Não há soluções fáceis. Mas essa é a vantagem da juventude. Ela tem a disposição e a coragem de mudar o mundo, enquanto a maturidade nos faz aceitar as pequenas conquistas que conseguimos para nos sentirmos satisfeitos. Pois aproveitemos então a insatisfação da juventude para pensar numa saída filosófica que:

  1. Questione o sistema educacional mercantilista, que transformou o saber numa feira para vender diplomas, muitas vezes inúteis;
  2. Compreenda que nossa vida não pode ser guiada pelo mesmo modelo das gerações anteriores, e que um novo tipo de existência social precisa ser inventado;
  3. Que saiba gozar dos prazeres, mas saiba que eles têm seu fim. E os maiores prazeres não estão na beleza de um corpo enquanto jovem, mas no amor por uma vida inteira.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: MD Duran/Unsplash

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31.7.18

Por que estudar filosofia? (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre como pode ser altamente prejudicial a sua saúde mental acreditar por muito tempo na gente que fala que filosofia é só algo chato, difícil de ler, e que não serve para nada. No entanto, lhe darei dicas preciosas para que não faça como eu, e leia Platão antes de se aventurar por Kant... No fim das contas, veremos que a filosofia serve para algo essencial em nossa vida: aprender a pensar por si mesmo.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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3.4.18

Viviane Mosé fala sobre a sociedade em rede

Ontem tive o privilégio de ver ao vivo, na Câmara Municipal de Campo Grande/MS, a palestra do maior pensador vivo do país, que por acaso é uma mulher, e se chama Viviane Mosé.

Iniciando seu discurso há 100 mil anos, desde o surgimento da consciência humana, passando pela descoberta de nossa mortalidade, pela agricultura e pela invenção de imprensa, Mosé chega enfim a grande revolução de nosso tempo, a internet, com todo o seu potencial maravilhoso e todas as suas revelações monstruosas de nós mesmos: uma sociedade deprimida em busca de algum rumo, em geral dominada pelos discursos fáceis, radicais, mas que tem a sua frente a imensa tarefa de aprender a viver em rede, a educar e ser educada, e a abandonar uma visão excessivamente racional da vida em prol de uma presença emocional, aqui e agora...

Tudo isso tentou falar a filósofa e poetisa de um fôlego só. Estejam preparados, não é vídeo para se ver sem prestar atenção. Se trata de um verdadeiro vendaval filosófico:

Obs.: Ela começa a falar em 00:14:50. Infelizmente o Facebook não permite inserção de tempo inicial num vídeo compartilhado desta forma.


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1.3.18

Uma crítica a Academia

Texto por Roberto Leon Ponczek, trechos da obra Deus, ou seja, a Natureza (SciELO). Os comentários ao final são meus.


De que serve a transmissão de pacotes de informações prontas, em hora e local marcados, se a maior parte do tempo o aprendiz permanece desatento às forças vitais que o cercam a cada instante? Esse adestramento para processar fórmulas preestabelecidas é muitas vezes confundido com conhecimento. Assim, torna-se necessária uma descentralidade do local convencional de aprendizado, como a sala de aula e os mestres com hora marcada. A descentralidade do universo [conforme defendida por Spinoza] requer também a descentralidade do aprendizado, e de seus instrumentos clássicos que, muitas vezes, ao invés de facilitar, constituem-se em instransponíveis barreiras ao livre fluir do verdadeiro conhecimento. Desta forma, estaríamos passando do paradigma de uma “pedagogia pensada e centralizadora do sujeito” para uma novo paradigma da “pedagogia filosofante, pensante e não apenas pensada”.

Outro ponto que carece ser questionado é o fato da maioria das escolas e academias ocidentais do pós-guerra querer transformar seus aprendizes em bibliotecas ambulantes, pretendendo que suas mentes sejam extensas memórias de arquivos bibliográficos. Cada vez menos ensina-se a pensar, e cada vez mais, em arquivar dados e referências bibliográficas. Os livros tornam-se obstáculos a serem transpostos, e os mestres seus oraculares intérpretes.

Julgo que, pelo contrário, o aprendiz deve ser estimulado a pensar sobre um texto, a dialogar com seus autores, sem para tal ter de recorrer a bibliotecas de dimensões babilônicas, respaldando-se numa bateria de referências, e perdendo-se num labirinto de citações de comentadores terceirizados. Consumou-se nas academias o hábito de exigir que o aprendiz respalde seu entendimento sobre um determinado texto, com a opinião de um sem-número de especialistas, como se seu primeiro entendimento intuitivo, possivelmente ainda não lapidado, não merecesse crédito, necessitando de álibis ou testemunhas para ser validado.

Entendo, inspirado em Spinoza, que é este conhecimento primeiro, e possivelmente ainda tosco, que servirá como um primeiro martelo com o qual se forjará uma segunda ferramenta mais lapidada, e assim sucessivamente. Um mestre esclarecido não descartará o conhecimento de seu aprendiz, ou criticará a precariedade de suas referências, por mais rudimentares que sejam. Existem artigos científicos com referências bibliográficas maiores que o próprio texto, como se isso fosse prova de embasamento teórico e metodológico!

Muitas vezes os trabalhos acadêmicos são julgados por sua bibliografia, e não pelo seu valor intrínseco. A leitura desses textos é quase sempre maçante, desencorajando qualquer um de seguir por suas labirínticas notas de rodapé e referências. Nem mesmo o autor deste texto, que ora o leitor tem em mãos, se desvencilhou totalmente da camisa de força imposta pelas normas acadêmicas... Gostaria, em breve, de poder escrever outro livro sem notas de rodapé e sem referências!

Jorge Luis Borges, em seu magistral conto Funes, o memorioso, relata a existência de um indivíduo capaz de memorizar todos os fatos e textos de jornais ocorridos ao longo de sua vida sem, contudo, ser capaz de relacioná-los entre si. Funes torna sua existência um arquivo morto de fatos irrelevantes, pois são textos irrelevantes, ideias ou eventos que não têm relação com o mundo que lhe deu origem, conferindo-lhes uma temporalidade. Nossos aprendizes são, muitas vezes, adestrados para serem os Funes da ciência.

Também não posso me calar diante da febre metodológica que assola, como epidemia, extensos setores das academias, induzindo os estudantes a escolherem trabalhos cada vez mais estreitos, para que caibam em um método dado a priori. Os alunos são desestimulados a abordar temas multidisciplinares, ou até mesmo interdisciplinares, e instados a seguir por estreitas trilhas monotemáticas que se encaixem em alguma metodologia preestabelecida. Será o método o soberano que deve determinar a extensão do tema, ou é a vastidão do tema que deve alargar o método? Afinal, uma bela foto deve ser recortada para que caiba no álbum, ou este é que deve ser adequado às dimensões da foto?

[...] As disciplinas científicas assim enquadradas nas academias comparam-se a castelos medievais cercados por fossos onde vicejam os crocodilos guardiões do feudo. As pontes levadiças são erguidas e abaixadas para permitir apenas a entrada e a saída dos súditos do castelo. A academia se divide assim em vários cantões feudais, cada qual concessionário de uma franquia temática, guardada a sete chaves em seu castelo unidisciplinar, delimitado pelo fosso do método e seus atentos guardiões. Professores e estudantes são orientados a permanecer nesses domínios rigidamente circunscritos, e aqueles que inadvertidamente querem cruzá-los, fatalmente serão abocanhados pelos afiados guardiões do castelo.

Na prática isso equivale a uma espécie de sentença de excomunhão velada a partir da qual os professores transgressores não conseguem bolsas de pesquisa ou de estudo para seus orientados, publicações em revistas importantes, ou ganhar qualquer tipo de concurso público. Criam-se, nas academias, autênticas franquias cada qual delimitando rigidamente como deve ser redigido, divulgado e ensaiado o “seu” tema franqueado. Não é incomum essas franquias temáticas desenvolverem extensos tentáculos que se alastram pelas agências de fomento, bancas examinadoras de teses e concursos, além dos conselhos editoriais das revistas especializadas.

[...] Para contabilizar e fiscalizar a produção acadêmica do corpo docente, tais como artigos, livros e demais trabalhos, criou-se um sistema de avaliação numérica (o Qualis, da Capes), como se a qualidade de um texto ou a originalidade de uma ideia pudessem ser mensuradas por números. Este sistema, que é sistematicamente utilizado pelos zelosos guardiões do castelo, fez surgir uma nova geração de professores especializados em construir seus currículos de acordo com esses cânones numéricos, extraindo a máxima pontuação possível.

Este livro, que ora o leitor folheia, em alguns aspectos trafega na contramão de quase tudo que se faz nas academias. Nele não há fronteiras rígidas entre as várias disciplinas, como a Matemática, a Física e a Pedagogia, e elas se entrelaçam desrespeitando deliberadamente os recortes metodológicos, cultuados como dogmas intocáveis pela academia. O livro é longo demais para os padrões atuais, pois hoje vários autores preferem se associar em coautoria para escrever artigos curtos produzidos em série, contabilizando, nas agências de fomento, um título para cada um.

[...] Na vertente contrária, esta é a obra de um único autor solitário que a produziu num longo período de gestação, praticamente recluso em sua casa de campo, totalizando em seu favor apenas um único trabalho em vários anos. Quando nas academias brasileiras vive-se hoje uma febre delirante por publicação e pontuação, este texto foi pensado e escrito sem compromissos de espécie alguma com grupos de pesquisa financiados pelas agências fomentadoras e sem preocupação de pontuação em plataformas oficiais de curriculae vitae. Apesar da inquisição velada e de todas as dificuldades impostas pelas academias, preferi pensar sem fossos nem recortes, estabelecendo relações e organicidade entre as várias disciplinas de saber que devem se entrelaçar para chegar ao autêntico e verdadeiro conhecimento científico.


Comentários
“Na contramão de quase tudo que se faz nas academias”, como bem definido pelo autor, o professor de Física e grande estudioso de Filosofia e conhecimentos gerais nos traz uma obra monumental que não apenas associa de forma profunda o pensamento de Spinoza às buscas existenciais e científicas de Einstein, como se arrisca a afirmar, com suas próprias palavras, onde eles parecem ter acertado e onde parecem ter errado, sempre se embasando no conhecimento científico mais atual, como a Mecânica Quântica.

Não é fácil, decerto, esmiuçar de forma tão aprofundada os axiomas “lógicos e geométricos” da Ética de Spinoza, mas eu penso que Ponczek acabou por nos presentear com uma das análises mais profundas e honestas da obra do grande pensador holandês, e de todo o fruto que ela gerou no mundo. Que isso tenha sido feito dentro do atual mundo acadêmico, é quase um milagre. Por isso preferi trazer a vocês essa crítica embasada e honesta de um acadêmico que se sente profundamente angustiado com o estado atual de nosso ensino. Ponczek é, antes de mais nada, um professor, e um professor deseja ensinar seres que interpretam o mundo, não máquinas enciclopédicas, autômatos recitadores de Wikipédia.

Recomendo a todos os admiradores de Spinoza, de Einstein ou, simplesmente, dos grandes conhecimentos da humanidade, que confiram a sua obra, um e-book em download gratuito na Amazon.

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Crédito da imagem: Ponczek (foto achada no Facebook, não lá muito acadêmica...)

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26.12.17

Como me tornei terapeuta

Sendo um psicanalista, as pessoas costumam me perguntar o que é necessário para se tornar um também. Neste texto pretendo responder a essa pergunta, compartilhar um pouco do meu próprio trajeto, e dizer por que a psicanálise pode ser interessante para você caso também queira ser um terapeuta.

Primeiramente, a profissão de psicanalista não é regulamentada pelo governo. Não há um diploma ou uma instituição que possa garantir este título, embora existam cursos e sociedades que ofereçam uma formação profissional ao aspirante a terapeuta. Eu diria que, para ser um bom psicanalista, cursos e diplomas são tão necessários quanto para um bom jardineiro. Obviamente, seu aprimoramento técnico e criativo irá lhe auxiliar na arte da jardinagem, mas o que lhe faz um verdadeiro jardineiro é o quão belo você consegue manter o seu jardim. Na psicanálise não é diferente.

Sigmund Freud propôs a formação do psicanalista baseada no tripé análise pessoal, supervisão e estudo teórico. Como vocês podem perceber, não há uma grade curricular obrigatória, estipulação de carga horária mínima ou qual instituição está apta a conceder o título. Pelo contrário, como Jacques Lacan dizia, “o analista só se autoriza por si mesmo”. O caráter – digamos – anárquico de nossa formação nos confere um interessante diferencial.

Considerando que um percurso é sempre singular a cada sujeito, a psicanálise entende que não há normativas quanto ao que seria um “verdadeiro percurso analítico”. Cada analista deve inventar o seu próprio caminho, a sua própria formação, respeitando apenas os critérios básicos de legitimidade do tripé proposto por Freud.

Certamente esse modelo mais liberal de formação, em que cada um deve buscar por si próprio construir uma trajetória de vida que lhe torne apto a ser um bom analista, parece à primeira vista propício aos charlatães. É por isso que o analista deve se colocar à prova na sociedade. Se sua autorização é uma auto-rização, o reconhecimento do psicanalista não deve se resumir às quatro paredes do seu consultório, mas ele deve estar na pólis.

Se você procura um terapeuta, não vá a qualquer um apenas porque você recebeu seu cartãozinho. Procure profissionais que você já tem algum nível de conhecimento para confiar o importante trabalho que vocês irão desenvolver. Afinal, é de sua vida que estamos tratando. Mesmo quando for uma indicação, procure conhecer esse profissional através de artigos ou vídeos que ele produziu, qual sua formação acadêmica, o que ele tem feito. Ou seja, o que seu terapeuta pode transmitir de sua trajetória pessoal.

E como funciona o tripé psicanalítico?

1. Estudo teórico: Todo analista deve estudar a psicanálise. Obviamente. A partir de Lacan surgiram as escolas de psicanálise. Uma escola não oferece um curso ou um diploma de psicanalista. Estar numa escola não autoriza ninguém a ser analista. A escola é uma instituição em que analistas e estudantes de psicanálise podem se reunir para discutir o seu campo, trocar ensinamentos e avançar as investigações psicanalíticas.

Porém, a formação teórica não se resume ao estudo realizado na escola. Um analista não deve conhecer apenas a psicanálise, mas também a sua interlocução com outros campos. Contam aqui graduações acadêmicas, seminários de filosofia, conhecimentos de religião, atividade política, e por aí vai. Não são propriamente os diplomas que contam, mas a maestria particular que cada um desenvolve a partir de seus variados estudos. Não há uma receita universal, mas cada analista terá suas próprias particularidades e afeições.

Podemos apenas universalizar que o analista tem uma formação contínua: ele jamais deve parar seus estudos, como se os tivesse concluído, mas deve estar sempre avançando em suas investigações, mantendo-se atualizado quanto às transformações do mundo, esteja filiado a uma instituição ou de maneira independente.

2. Supervisão: Durante os primeiros anos da formação, é importante que o aspirante a analista esteja amparado por outro analista mais experiente. Pode-se encontrar um supervisor numa escola, mas não necessariamente. Com seu supervisor, o estudante poderá discutir seus primeiros casos clínicos, esclarecer dúvidas, tornar-se ciente de suas dificuldades pessoais, até que com o passar do tempo possa prescindir dele. Porém, mesmo analistas mais antigos e experientes jamais prescindem de eventualmente reunirem-se com outros analistas para discutir as questões clínicas, ainda que com menor frequência por terem adquirido maior autonomia.

3. Análise pessoal: Chegamos finalmente ao mais importante do tripé. Estudo contínuo e supervisão são fundamentais, mas é a análise pessoal que torna alguém propriamente um analista. Um terapeuta jamais se resumirá a uma função técnica, alguém que coleciona métodos para simplesmente aplicá-los. Trata-se de uma arte. De uma maestria adquirida com o tempo. O analista é, antes de qualquer coisa, analista de si mesmo.

É preciso que se atravesse a própria análise, que seja capaz de mergulhar em sua própria intimidade com sinceridade, para poder se tornar analista de outra pessoa. Só assim nos tornamos capazes de suportar as angústias de um outro ser humano, quando conhecemos suficientemente as nossas próprias. Como eu disse antes, não importam os diplomas e conhecimentos de um jardineiro se ele não é capaz de cuidar de um belo jardim. Quem não enfrentou a própria análise ainda não está apto a analisar outras pessoas.

Não existe autoanálise. Esse é o fracasso da autoajuda. Sozinho consigo mesmo, o sujeito é capaz de criar as mais diferentes racionalizações, fugas, mentiras para não se haver com aquilo que lhe é mais verdadeiro. Pois a verdade geralmente é incômoda demais ao ego. É preciso que a análise seja um discurso dirigido a um outro, e que esse outro esteja ali para pontuar o que não se deve ignorar. Só existe análise com um psicanalista. Terapia com um terapeuta.

***

Existem muitos caminhos terapêuticos. Dentro da psicologia mesmo existem diferentes abordagens. Por que então a psicanálise?

Não há uma resposta absoluta para essa pergunta. Cada pessoa terá suas diferentes preferências e filiações teórico-políticas. Posso responder apenas porque a psicanálise fez mais sentido para mim. Talvez outro caminho possa fazer mais sentido para a sua história.

Meu primeiro contato com a psicanálise foi ainda criança, por volta dos 10 anos, quando fui levado a um analista por meus pais. Anos depois, quando entrei na faculdade de psicologia, eu já sabia que a psicanálise, embora também ensinada nos cursos de psicologia, não se reduz a última. Psicologia e psicanálise são campos diferentes, com profissionalidades diferentes, ambas aptas ao exercício terapêutico.

O psicólogo é uma profissão regulamentada, adquirida apenas através de um curso de graduação. Existem muitas atuações para um psicólogo, a depender de suas variadas especializações. O psicanalista, por sua vez, é uma função a qual exercemos. Particularmente, eu adquiri as duas formações. Mas nem todo psicanalista vem da psicologia. Alguns se tornam psicanalistas após um curso de medicina, filosofia ou, comumente, outras ciências humanas.

Minha escolha pela psicologia se deu por considerá-la uma ciência abrangente para conhecer as diferentes interseccionalidades que lidam com o ser humano, tema que sempre me intrigou bastante. Mas desde o primeiro período da graduação jamais abandonei outros estudos. Para falar a verdade, muitas vezes passava mais tempo na seção de filosofia das livrarias que propriamente na seção de psicologia.

Foi por volta da metade da graduação que comecei a estagiar com um professor que era psicólogo e psicanalista. Com ele iniciei na clínica, recebendo pacientes, e desde então nunca mais parei. Quanto ao estudo teórico, dediquei-me a uma intensa atividade acadêmica durante e após a graduação. Mas minha formação analítica ocorreu, como era de se esperar, em minha própria análise.

Foi durante a faculdade que retomei também a minha análise pessoal, pausada após uma significativa melhora daquelas questões que me levaram a um analista quando ainda era criança. Dando prosseguimento quando mais velho, foi ouvindo a mim mesmo, minhas incongruências, divisões, conflitos, paradoxos, angústias, que comecei a desenvolver um saber que não está nos livros ou nas teorias. Trata-se de um saber de si, um saber da vida, algo que os franceses chamam de savoir-faire, um saber-fazer. Isto é, saber fazer com a própria vida.

Porque não existem regras prontas para a vida. Há muitas teorias, técnicas e filosofias que podemos tomar conhecimento por livros, por aulas ou pela internet. Mas nenhum saber externo pode dizer a verdade sobre nós. É preciso conhecê-la aos poucos, ouvir a si próprio numa escuta aberta, numa paixão pela verdade, ainda que muitas vezes ela possa ser dolorosa ao ego. Se você tem essa coragem, a psicanálise é para você.

Entrar numa análise é desejar conhecer as profundezas daquilo que a maioria decide apenas ignorar. As saídas superficiais podem parecer mais simples. Antidepressivos, ansiolíticos e toda uma gama de drogas que, ainda que em muitos casos sejam necessárias, estão longe do uso banalizado que se adquiriu atualmente. Ou prazeres superficiais, fugazes, que, mesmo com eles, ainda sentimos a vida vazia de sentido, valor ou desejo.

Imagine que você possa ter uma vida satisfeita que independa do uso de drogas psiquiátricas, que sabemos trazer restrições à vida e efeitos colaterais. Que você possa encontrar algo que lhe faça vibrar. Valorizar o que é importante para você e desprender-se do que lhe faz mal. Viver sem estar limitado por medos incompreensíveis ou restrições absurdas.

Eu diria que os ganhos de uma análise são incomparáveis. Não por propaganda, mas por minha própria experiência. Se eu não tivesse feito análise, certamente teria uma vida muito diferente da que tenho hoje. Talvez precisasse de drogas psiquiátricas para viver e funcionar socialmente, estaria atormentado por fantasmas familiares, medos e inseguranças quanto a vida, diante de questões que pude trabalhar de um outro modo na análise.

Estamos acostumados a esperar soluções muito fantásticas para nossos problemas. Encontramos por aí propagandas de mudanças radicais para a vida: largar o emprego e viajar o mundo, ter uma experiência sexual muito perigosa, encontrar o amor da sua vida e tudo se tornar perfeito a partir de então, iniciar uma nova dieta revolucionária que mudará o seu corpo. Tudo muito espetacular. Também muito ideológico.

Mas às vezes você não precisa de muita coisa. E a psicanálise está aí para demonstrar isso. Só colocar umas palavras no lugar que fica tudo bem. É falar, escutar-se e também se calar. Porque a vida é muitas vezes inconsistente, absurda, frustrante. Mas acompanhada por amores, sonhos, realizações e alegrias. Basta encontrar a sua medida.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Gerome Viavant/unsplash (arte de Alexander Milov para o Burning Man)

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19.10.16

As cartas de Rilke

Introdução
Para um poeta que dedicou boa parte da vida a escrita, Rainer Maria Rilke nos deixou uma obra poética relativamente curta. Apesar de haver capturado a imaginação de músicos, filósofos, artistas, escritores, e até mesmo de membros das castas mais nobres de sua época, ao ponto de ser considerado o maior poeta da língua alemã do século XX, tudo levava a crer que, tal qual Fernando Pessoa, Rilke deixou vasta obra por publicar após sua morte. Foi isso que Ulrich Baer, especialista em sua obra, foi investigar – e desta investigação surgiram milhares de cartas que Rilke trocou durante toda a vida com correspondentes de toda a parte da Europa, e até mesmo fora dela. A seleção das melhores passagens destas cartas, traduzida do alemão por Milton Camargo Mota, é o que compõe o excelente e intrigante Cartas do poeta sobre a vida, da Marins Fontes, livro do qual trago alguns trechos abaixo:

Não pense que quem procura consolá-lo vive sem esforço em meio às palavras simples e serenas que às vezes confortam você. A vida dele tem muita tribulação e tristeza e permanece muito aquém da sua. Mas, se fosse diferente, ele jamais poderia ter encontrado tais palavras...

Da vida
Nós, seres do aqui e agora, não estamos satisfeitos por um só momento no mundo do tempo, nem presos a ele; nós sempre vamos além e além, até os de outrora, até nossa origem e àqueles que parecem vir depois de nós. Nesse mundo “aberto” ao máximo, não se pode dizer que todos são “contemporâneos”, pois juto a revogação do tempo acarreta que todos são. A transitoriedade cai em toda parte num profundo ser.

E, assim, todas as formas do aqui não devem ser usadas apenas dentro de limites temporais, mas, tanto quanto possível, devem ser postas naqueles significados superiores de que participamos. Mas não no sentido cristão; ao contrário, numa consciência puramente terrena, profundamente terrena, jubilosamente terrena, é nossa tarefa introduzir o [que foi] visto e tocado aqui no círculo mais vasto, o mais vasto de todos. Não em um além, cuja sombra escurece a Terra, mas em um todo, no Todo.

A natureza e as coisas de nosso entorno e uso são preliminares e transitórias, mas são, enquanto estamos aqui, nossa posse e nossa amizade, cúmplices de nosso sofrimento e alegria, tal como elas já foram os confidentes de nossos antepassados. É essencial, portanto, não apenas não caluniar e rebaixar as coisas do aqui, mas também pelo caráter provisório que elas compartilham conosco, compreender e transformar esses fenômenos e coisas com o mais íntimo entendimento.

Transformar? Sim, pois é nossa tarefa gravar em nós essa terra provisória, efêmera, de forma tão profunda, tão sofrida e tão apaixonada que sua essência de novo ressuscita “invisível” dentro de nós. Somos as abelhas do invisível. Apaixonados colhemos o mel do visível, para acumulá-lo no grande favo de ouro do Invisível.

Da convivência
Sou da opinião de que o “casamento” como tal não merece tanta ênfase quanto acumulou pelo desenvolvimento convencional de sua natureza. A ninguém ocorre a ideia de exigir de um indivíduo que seja “feliz” – mas, quando alguém se casa, todos ficam muito espantados por ele não ser feliz! (E, além do mais, não é nem um pouco importante ser feliz, seja como solteiro ou casado). Em vários aspectos, o casamento é uma simplificação das condições de vida, e a união decerto soma as forças e vontades de dois jovens, de modo que, em conjunto, eles parecem alcançar mais longe no futuro do que antes. Só que isso são meras impressões, das quais não se pode viver.

Antes de tudo, o casamento é uma nova tarefa e uma nova seriedade – uma nova demanda e um desafio à força e à bondade de cada participante, e um novo grande perigo para ambos. Pelo que sinto, não se trata de no casamento criar uma rápida união pela demolição de todas as fronteiras. Ao contrário, o bom casamento é aquele em que um designa o outro como guardião de sua solidão e lhe demonstra a maior confiança que ele tem a conceder.

Uma vida conjunta de duas pessoas é uma impossibilidade e, quando ela todavia parece existir, é uma limitação, um acordo mútuo, que priva uma parte ou ambas de sua mais plena liberdade e desenvolvimento. Mas, contanto que se reconheça que mesmo entre as pessoas mais próximas subsistem distâncias infinitas, pode se estabelecer entre elas uma coabitação maravilhosa, tão logo consigam amar a vastidão entre elas que lhes dá a possibilidade de se verem um ao outro em sua forma total e diante de um céu imenso!

Por tal motivo, isto também deve servir como critério para a rejeição ou a escolha: a possibilidade de desejar velar pela solidão de outra pessoa e de estar inclinado a colocar essa mesma pessoa nos portões de nossa própria profundidade, da qual ela só tomará conhecimento graças àquilo que emerge da grande escuridão, festivamente trajado.

Do trabalho (ou missão)
Antes que tivessem conhecimento autêntico do trabalho, as pessoas inventaram a distração como um desprendimento e um oposto do falso trabalho. Ah, se tivessem esperado, se tivessem tido um pouco mais de paciência, então o verdadeiro trabalho teria estado um pouco mais ao seu alcance, e elas teriam percebido que o trabalho não pode ter um oposto, assim como o mundo não pode ter, nem deus, nem viva alma. Pois ele é tudo, e o que ele não é – é nada e lugar nenhum.

Da infância
A infância – o que ela realmente foi? O que foi ela, a infância? Não se pode indagar sobre ela senão com essa atônita pergunta – o que foi ela? Aquele arder, aquele espantar-se, aquele contínuo não-poder-fazer-de-outro-modo, aquele doce, profundo, irradiante sentir-as-lágrimas-aflorarem? O que foi isso?

A maioria das pessoas absolutamente não sabe como o mundo é belo e quanto esplendor se revela nas menores coisas, em alguma flor, uma pedra, uma casca de árvore ou uma folha de bétula. Os adultos, que têm negócios e preocupações e se atormentam com puras mesquinharias, aos poucos perdem totalmente o olhar para essas riquezas, que as crianças, se boas e atentas, logo notam e amam de todo o coração. E, contudo, seria a coisa mais sublime se quanto a isso todo mundo permanecesse sempre como crianças boas e atentas, ingênuas e pias no sentimento, e não perdesse a capacidade de se alegrar de modo tão intenso com uma folha de bétula ou uma pena de pavão ou a asa gralha-cinzenta como com uma cordilheira ou um palácio suntuoso.

O pequeno não é pequeno, tal como o grande não é grande. Uma beleza grande e eterna atravessa o mundo todo e se distribui de modo justo sobre as coisas pequenas e grandes, pois, no que é importante e essencial, não há injustiça em lugar algum sobre a Terra.

Da escola
Todo saber que a escola precisa oferecer deve ser dado com afeto e generosidade, sem restrição e reservas, sem intenção e por um indivíduo apaixonado. Nela, todas as disciplinas deveriam tratar da vida, como o único tema que está por trás de todos os outros. Então, todas elas, em seus limites mais externos, nunca cessariam de tocar os grandes contextos que geram religião inesgotavelmente.

Das profundezas de nosso interior
De fato é assim: cada um, nas profundezas de seu interior, é como uma igreja, e as paredes estão adornadas com solenes afrescos. Na primeira infância, em que o esplendor ainda está exposto, é muito escuro lá dentro para se ver as imagens, e, quando o salão aos poucos vai ganhando luz, vêm as loucuras adolescentes, os falsos anseios e a vergonha sedenta e cobrem de cal parede após parede. E algumas pessoas avançam longe vida adentro e a atravessam sem suspeitar do antigo esplendor sob a sóbria pobreza.

Mas bem-aventurado aquele que o sente, encontra-o e secretamente o desvela. Ele se dá um presente. E volta ao lar de si mesmo.

Da arte
Arte significa não saber que o mundo já é, e fazer um. Não destruir nada que se encontra, mas simplesmente não achar nada pronto. Nada mais que possibilidades. Nada mais que desejos. E, de repente, ser realização, ser verão, ter sol. Sem que se fale disso, involuntariamente. Nunca ter terminado. Nunca ter o sétimo dia. Nunca ver que tudo é bom.

Insatisfação é juventude.

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Crédito da foto: Google Image Search/Leonid Pasternak (o poeta)

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22.6.15

Olhos Azuis

Foi numa escola da pacata cidade de Riceville, no interior do estado de Iowa, nos Estados Unidos, que um dos experimentos sociológicos mais impactantes e esclarecedores do século passado foi primeiramente implementado em crianças, e nem mesmo Jane Elliott poderia prever a forma como ele moldaria as vidas de todos naquela classe infantil.

Era 5 de abril de 1968, e o célebre ativista dos direitos humanos, Martin Luther King Jr., acabara de ser assassinado no dia anterior. Jane pensou em como poderia ensinar sobre os efeitos devastadores do racismo na sociedade americana da época, e elaborou um experimento que duraria todo o dia de aula, onde as crianças (todas elas brancas, como Jane) seriam obrigadas a sentir na pele, ainda que de forma branda e temporária, o que significava exatamente ser um negro na sociedade da época.

Jane decidiu que as crianças de olhos castanhos seriam "inferiores", e deveriam usar uma espécie de colar pelo resto do dia de aula. Então, a professora passou o resto do dia incentivando os alunos de olhos azuis ou verdes, e descriminando os que usavam os colares... Ela mesma não sabia o que poderia ocorrer, mas aquele dia se tornou ao mesmo tempo traumático e inesquecível para boa parte dos seus alunos.

Desde então Jane teve de conviver com a raiva da maioria dos moradores da cidade, seus filhos foram importunados por boa parte da vida escolar, o restaurante dos seus pais fechou as portas por falta de clientes etc. Mas Jane não se arrependeu, não desistiu, pois ela compreendeu que havia tocado fundo na ferida, e que precisava seguir em frente se quisesse realmente fazer alguma diferença na conscientização das pessoas para este problema que, tantas vezes, é ignorado ou tratado como "algo de menor importância", ao menos pelo grupo dominante.

No documentário Blue Eyed (Olhos Azuis), que podemos assistir abaixo na íntegra, vemos como décadas depois o experimento de Jane ainda continua atual e impactante, mesmo quando aplicado a "adultos brancos de olhos azuis", em plena Nova York... Na cerca de uma hora e meia de filme, vemos como muitos adultos da classe dominante jamais tiveram alguma ideia de como é passar uma tarde sendo tratado como "inferior". Acredito que toda a experiência por que passaram foi muito importante para que passassem a enxergar o racismo pelo que ele realmente é, em essência: uma grandiosa e persistente ignorância.

Mas a grande questão é, "Terá mudado alguma coisa de 1968 para cá?". Sim, mudou, e para melhor, como deve ser... No entanto, como infelizmente costuma ocorrer, se trata de uma mudança lenta, lenta demais. Poderíamos erguer um céu de irmandade e tolerância neste mundo, mas para tal ainda falta nos livrarmos das travas da ignorância, uma reflexão de cada vez. Para você, também pode começar hoje:

Ao final da Segunda Guerra, quando eles limpavam os campos de concentração na Alemanha, um ministro luterano disse: "Quando se voltaram contra os judeus, eu não era judeu e não fiz nada. Quando se voltaram contra os homossexuais, eu não era homossexual e não fiz nada. Voltaram-se conta os ciganos e também não fiz nada. Quando se voltaram contra mim, não havia mais ninguém para me defender." Pensem sobre isso... (Jane Elliott)

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Crédito da foto: Google Image Search/Divulgação (Jane Elliott)

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30.3.15

A Nova Acrópole

Se este blog acaso também fosse uma instituição de ensino, ele seria algo muito parecido com a Nova Acrópole...

Nascida em 1957, pelas mãos de Jorge Angel Livraga Rizzi, um jovem filósofo de ascendência italiana, em Buenos Aires, Argentina, e hoje presente em mais de 50 países nos 5 continentes, Nova Acrópole é a manifestação renovada de um antigo sonho humano: “Desvendar os mistérios do homem e do universo”.

Esses são os 3 princípios fundamentais que norteiam o trabalho da Nova Acrópole:

1. Promover um ideal de fraternidade internacional, baseado no respeito à dignidade humana, além das diferenças raciais, de sexo, culturais, religiosas, sociais etc.

2. Fomentar o amor à sabedoria através do estudo comparado de filosofias, religiões, ciências e artes, para promover o conhecimento do ser humano, das leis da Natureza e do Universo.

3. Desenvolver o melhor do potencial humano, promovendo a realização do ser humano como indivíduo e sua integração à sociedade e à natureza, como elemento ativo e consciente para melhorar o mundo.

Estes princípios, apesar da atualização de sua grafia, são em essência os mesmos que orientaram muitas escolas filosóficas do passado, como a Academia de Platão, na antiga Grécia, a Escola Eclética de Alexandria, no Egito, ou outras, ainda mais antigas ou recentes, na velha Índia, na China e em diversas partes do globo.

Hoje, em um mundo em crise, marcado por disputas e enfrentamentos, em grande medida frutos de nossa educação, voltada mais para a competição e a conquista de conforto pessoal do que, antes, para o humanismo e a solidariedade, um trabalho como o que realiza a Nova Acrópole se mostra mais necessário do que nunca.

A filosofia, como ensinada pelos grandes mestres de todos os tempos, foi, e ainda é, um caminho, através do qual podemos alcançar a união entre todos os povos. E isso é possível quando, por meio do conhecimento de nós mesmos, podemos desenvolver nossas potencialidades, compreendendo a finalidade da vida e aprendendo a conhecer e respeitar a todos, apesar da diversidade cultural e de opiniões que caracterizam a humanidade.

Por meio da filosofia, aprendemos que antigas ideias como amor, respeito, fraternidade, união e felicidade são muito mais do que palavras bonitas para ocasiões especiais. Elas estão na essência da busca humana. Elas constituem, em grande medida, a própria razão de sermos humanos. E formam, assim, parte do grande mistério da vida.

***

O texto acima, retirado da revista especial que celebrava os 30 anos da chegada da Nova Acrópole no Brasil, em 2014, parece assustadoramente próximo a tudo o que tenho tentado transmitir neste blog desde 2006.

Mesmo tendo descoberto a Nova Acrópole somente poucas semanas atrás, já fiquei muito impressionado com a qualidade de suas palestras gratuitas [1], tanto as que constam no YouTube quanto a que fui ver, pessoalmente, aqui onde moro, em Campo Grande/MS.

Recomendo enormemente que busquem por uma sede da Nova Acrópole em suas cidades, caso exista [2], e procurem assistir as palestras gratuitas para, eventualmente, se inscreverem nos diversos cursos disponíveis, usualmente dentro da filosofia, mas com referências a inúmeros assuntos espiritualistas que vocês têm visto neste blog ao longo dos anos [3]...

Os cursos não são gratuitos, mas a Nova Acrópole é uma instituição sem fins lucrativos, de modo que eles provavelmente irão custar menos de 15 reais a hora de aula. Em todo caso, muitas sedes costumam oferecer ao menos uma palestra gratuita por mês.

Abaixo, ainda segue um vídeo institucional produzido pela sede de Brasília (provavelmente a mais atuante no país). Boas aulas!

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[1] Ver, por exemplo, O Amor segundo Gibran, com a palestrante Lucia Helena Galvão.

[2] Me explicaram que, devido as dimensões do Brasil, a Nova Acrópole “se dividiu em duas regiões” por aqui. Dessa forma existem dois sites onde podem buscar pelos endereços das sedes: www.acropole.org.br (Centro-Oeste, Norte e Nordeste) e www.nova-acropole.org.br (Bahia, Sul e Sudeste).

[3] Basta conferirem, por exemplo, os livros que se encontram à venda na Livraria Giordano Bruno (administrada por eles).

Crédito da imagem: Nova Acrópole/Divulgação

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10.12.14

Malala - uma menina, entre muitas

Em homenagem à Malala Yousafzai, vencedora do Prêmio Nobel da Paz 2014, mais de 40 meninas de 12 países, incluindo Paquistão, Etiópia, Zâmbia, Ruanda, Brasil, Nicarágua e Filipinas reproduziram seu mais famoso discurso pela educação de todas as meninas do mundo, proferido na ONU.

Yolanda, moradora do Capão Redondo, em São Paulo, é uma das estrelas do filme Uma menina, entre muitas. O filme foi produzido pela Plan Brasil, organização não governamental que desenvolve programas e projetos com o objetivo de capacitar e empoderar crianças e suas comunidades para transformar a sua realidade.

Com vocês, as palavras de Malala, mais uma recém-chegada da mansão do amanhã:

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Crédito da foto: Google Image Search (Malala Yousafzai)

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15.2.13

Ad infinitum: Amala e Kamala são uma farsa?

Este é um comentário adicional acerca do meu livro: Ad infinitum.

Um leitor me alertou para estudos recentes, de 2007 [1], que afirmam que o caso das crianças selvagens indianas, Amala e Kamala [2], seria na realidade uma farsa elaborada pelo reverendo cristão (Singh) que as mantinha em seu orfanato em Midnapore. Eis o que tenho a dizer sobre isto, já que este caso é citado em meu livro:

Segundo estudos recentes, a história das meninas Amala e Kamala, "criadas por lobos" na Índia, pode ser uma farsa.
Apesar de não haver lido o estudo (se encontra num livro publicado apenas em francês), fontes da Wikipedia trazem informações que parecem apontar para um estudo realmente aprofundado. Parecem indicar, enfim, que o caso de Amala e Kamala se trata mesmo de uma farsa. Ainda que o objetivo do Reverendo Singh talvez tenha sido puramente altruísta (trazer recursos para seu orfanato, embora eu mesmo duvide que tenha sido apenas para caridade), isto não invalida a fraude em si.

Ainda que seja, não significa que não tenham ocorrido casos do tipo no mundo, ou que todos os relatos de "crianças selvagens" sejam falsos.
De fato, apesar de o caso de Amala e Kamala ser um dos mais famosos, ele está distante de ser o único. Provavelmente, os casos reais serão menos fantásticos e mais deprimentes, como pais alcoólatras do leste europeu que abandonam seus filhos, literalmente, na casinha do cachorro, e outras histórias ainda mais lamentáveis...

Mas mesmo que TODOS os relatos sejam falsos, isto não anula a lógica que pretendia ser demonstrada com a história.
Felizmente, no que tange a lógica e a filosofia do meu livro, ainda que todos os casos de crianças selvagens relatados na história sejam fraudes, isto não invalida a tese que pretendia ser demonstrada quanto citei o caso de Amala e Kamala.

Isto é: que nós somos seres de potencialidades que precisam ser despertadas na juventude, do contrário perderemos a oportunidade de despertá-las nesta vida.
Isto é algo que todo educador sabe: as crianças vêm a este mundo com plenas capacidades de desenvolvimento, mas são extremamente dependentes dos pais e de uma boa educação para que consigam desenvolver suas potencialidades. Conforme o exemplo de Mozart, citado também em meu livro: se seu pai não houvesse lhe apresentado um piano quando ele ainda era bem jovem, ele certamente não teria sido um menino prodígio, e talvez nem sequer fosse músico. Isto não significaria, no entanto, que Mozart não houvesse nascido com a potencialidade latente para a música – ela apenas não haveria sido desperta há tempo.

"Um ser humano criado por lobos será pouco mais que um lobo. Mas um lobo, ainda que criado por nossos melhores educadores, não tem a potencialidade de ser, cognitivamente, como nós".
Esta é a associação da potencialidade com a cognição de cada espécie. O lobo, que é inferior ao ser humano na capacidade de cognição, jamais poderia alcançar a cognição do ser humano mais ignorante, ainda que fosse o mais “genial” dos lobos, e ainda que fosse educado por nossos melhores adestradores. Apesar de todo animal ser um ser de potencialidades, as potencialidades da cognição humana só podem ser despertas na espécie humana [3].

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[1] Um cirurgião francês, Serge Aroles, publicou em 2007 um livro onde analisa em profundidade diversos casos de crianças selvagens relatados na história. Seu livro se chama L'Enigme des enfants-loup (algo como O enigma das crianças selvagens, sem versão em português).

[2] O caso de Amala e Kamala é descrito neste artigo do meu blog: Os pequenos selvagens.

[3] Apesar de eu não citar isto no livro, poderíamos usar esta lógica como uma crítica a algumas ideias superficiais no âmbito da reencarnação: se um ser humano pudesse reencarnar num lobo, ou num cachorro, algum adestrador já haveria conseguido ensinar algum desses animais a se comunicar de forma avançada. Entenda-se como uma anedota.

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Crédito da imagem: Ayon/Raph.

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6.10.12

Mudando o paradigma da educação

Esta é uma animação da palestra do pensador da educação, Sir Ken Robinson, conforme proferida ao RSA (com a caridosa dublagem de Alexandre Gomes, do blog Brasil Acadêmico).

A educação não está em crise apenas na América Latina, como em todo o resto do mundo. Estamos vivendo no início da era da informação, e nossas crianças estão sendo "bombardeadas" pela maior quantidade de estímulos da história da infância humana... Neste cenário, não é de se surpreender que elas não se interessem pelas "aulas chatas", e sejam diagnosticadas com o transtorno de déficit de atenção (TDA ou TDAH). Segundo Robinson, "anestesiar" nossos filhos com remédios não trata da questão principal, mas pode ter sérias consequências para nosso futuro.

Nos EUA, como na Europa, como no Brasil, é preciso mudar urgentemente as escolas, para que não formem "máquinas pensantes", para que não assassinem a criatividade, para que não obstruam o pensamento livre. A mudança já se faz perceber, mas depende de nós a acelerar enquanto há tempo:

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24.9.12

Conversa Alheia: Verdadeira Vontade, Educação e Homossexualidade

Com vocês, mais um episódio do Conversa Alheia, onde alguns blogueiros e livres-pensadores falam sobre o que quer que lhes venha a mente...

Episódio #5: Verdadeira Vontade, Educação e Homossexualidade.
Igor Teo, Rodrigo Ferreira, Raph Arrais e Josinei Lopes falam sobre seguir os próprios sonhos, a situação da educação no Brasil e tentam combater o preconceito.

Citado no programa:
Conversa Alheia: Loucura, Sociedade, Coringa e Batman
Educação proibida
Homossexualidade na pós-modernidade
Levítico: Pedras não faltarão

Igor Teo:
Gostaríamos de comunicar que consideramos concluída a primeira fase do nosso projeto de "podcast". Faz mais de um mês que estamos trabalhando na criação de um modelo de programa, fazendo testes após testes em diferentes publicações, recebendo críticas das mais diversas, e consideramos que hoje alcançamos o objetivo que esperávamos.
Portanto, iniciaremos uma nova fase, onde talvez o intervalo entre postagens aumente, mas também contaremos com convidados especiais.
Agradecemos sua audiência, e esperamos que continue acompanhando nosso trabalho.

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» Ouça aos demais episódios no canal do Conversa Alheia no YouTube

» Para baixar os vídeos do YouTube, você pode usar o complemento Ant Video Downloader (para Firefox)


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19.9.12

A educação proibida

A escola pública completou 200 anos de existência e é considerada a principal forma de acesso dos jovens a educação. Hoje em dia, a escola e a educação são conceitos amplamente discutidos em fóruns acadêmicos, políticas públicas, instituições educativas, meios de comunicação e espaços da sociedade civil. Desde sua origem, a instrução escolar tem sido caracterizada por estruturas e práticas que hoje são consideradas, em sua maioria, já obsoletas. Elas não acompanham as necessidades do Século XXI. Seu principal erro se encontra no paradigma que não considerar a natureza do aluno, a liberdade do pensamento e a importância do amor nos vínculos humanos, assim como no desenvolvimento individual e coletivo. Este documentário, rodado em 8 países da América Latina, com 90 entrevistas de educadores modernos, procura apontar um novo rumo para o futuro da educação, além de apontar os graves defeitos do sistema atual. Com vocês, A Educação Proibida:

"Acreditamos que a Educação está proibida. Não por culpa das famílias, das crianças ou dos docentes. Todos proibimos a Educação. Cada vez que você escolhe olhar para outro lado, em vez de escutar. Cada vez que escolhemos a meta, em lugar do trajeto. Cada vez que deixamos tudo igual, em vez de experimentar algo novo. Seja professor, seja aluno, seja pai, seja quem for, ajude-nos... A Educação tem que avançar, tem que crescer, tem que mudar. Encontrar-nos com os outros, conhecer e explorar suas experiências, trocar ideias e levá-las a nossa realidade. Essa é a nossa proposta, e começa hoje mesmo."

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Comentário
É preciso suavizar o corte, deixar que novas rodas percorram os velhor sulcos, e não mais procurar reproduzir seres com uma mesma opinião e visão de mundo (como se isso fosse possível, em todo caso), pois seres são almas, e não autômatos ou robôs. De nada valerá para as crianças e os jovens, estes recém chegados da Mansão do Amanhã, ouvirem de seus "mestres" a mesma repetição das informações de outrora - isso eles podem buscar na internet. Importa é despertar a paixão pelo conhecimento e, neste processo, procurar aprender junto com eles, junto com o futuro onde, cada vez mais, haverá liberdade para pensar e amar o que se bem entende.

Conforme nos alertou Gibran, "nenhum homem poderá revelar-vos nada senão o que já está meio adormecido na aurora do vosso entendimento". Temos então, ido e voltado a este mundo, e somente assim se explica como as novas ideias vêm. É preciso fugir do veneno que os acomodados vem sugando da História, e não mais escrever de novo o que já estava escrito, não mais copiar o que já não se sustenta de pé, mas apontar para o horizonte e reescrever uma Nova História, e depois outra, e ainda outra, de acordo com as necessidades de cada época...

É hora de nos prepararmos para despertar neste Céu de Liberdade: bem aqui, contanto que o saibamos erguer, contando que saibamos cuidar ainda antes de ensinar. Contanto que, como Sócrates, deixemos que nossos jovens pensem como bem entendam, e atuemos não como "mestres", mas como sábios - a incentivar o amor pelo saber.

Obs: Vocês podem pensar que o documentário traz "ideias novas e revolucionárias", mas estão longe disso. Na verdade, são ideias que têm sido postas em prática pelas escolas logosóficas há décadas. A mudança de paradigma, portano, nem sequer teria de "reescrever o novo ensino do zero", pois isso diversas instituições, como a logosófica, já têm realizado e experimentado ao redor do globo. Basta, portanto, a vontade para impelementar a mudança - mas, e qual é o "político" que vê com bons olhos um eleitorado jovem que "sabe pensar por si mesmo"?

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» Vejam também: O homem que brincava com a Natureza

Crédito da foto: John-Francis Bourke/Corbis

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12.9.12

O homem que brincava com a Natureza

Esta é a história de um físico lendário, ensinado por seu pai desde muito cedo a perceber o que as coisas realmente são, e não somente "o nome delas". Mas um filho que, não obstante, após muitos anos de intenso estudo científico numa das melhores universidades americanas, não conseguiu explicar ao pai alguns dos mistérios da inconcebível natureza da Natureza.

Este mesmo cientista, com sua enorme facilidade para desvelar segredos atômicos, foi um dos colaboradores da concepção da arma mais letal da humanidade. Sua diferença para tantos outros, entretanto, é que ele conhecia o suficiente de arte, de poesia, de "humanas", para não ignorar os dilemas morais envolvidos. Por certo momento da vida, em sua depressão profunda, pensou "que era inútil construir uma ponte, ou um edifício, ou qualquer coisa, pois tudo seria destruído muito em breve numa guerra atômica"...

Então, algum tempo depois, a criança voltou a "brincar de física", e desistiu de realizar "coisas importantes". Em sua brincadeira, livrou-se daquela tristeza nuclear, e se tornou uma lenda... Um átomo não têm "um saco de fótons", mas a mente de Richard Feynman deveria ter alguma luz especial, guardada entre sua grande racionalidade, e sua tenativa genuína de se encaminhar para a arte – a arte de conhecer o mundo:

BBC Horizon com Richard Feynman (1981), parte 1 de 4

Ver parte 2 de 4 | Ver parte 3 de 4 | Ver parte 4 de 4

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Crédito da foto: Divulgação (Google Image Search)

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23.7.12

A Reforma bem explicada

Texto de Geoffrey Blainey em "Uma breve história do cristianismo” (Ed. Fundamento) – trechos das pgs. 217 a 222. Tradução de Capelo Traduções. As notas ao final são minhas.

Como resumir um século e meio de turbulência religiosa que marcou a ascensão do protestantismo? Como tirar conclusões das incontáveis lutas, armadas ou não, da impressão de uma avalanche de textos inflamados, da morte de alguns rebeldes na fogueira ou da santificação de outros, e da reviravolta provocada na vida religiosa de milhões de pessoas, muitas das quais silenciosamente reprovavam as mudanças que eram obrigadas a aceitar? [1]

A distância entre a nossa era e aquela, entre as atitudes de então e de agora diante da morte, é enorme. A morte despertava forte interesse, pois frequentemente interrompia a juventude e chegava de repente, com sofrimento. Assim, as pessoas pareciam mentalmente mais preparadas para ela. Tal como custamos a entender aquele interesse pela morte e pela religião, os antigos provavelmente se espantariam com a nossa fascinação por dinheiro, por bens materiais e por viagens ao exterior com objetivos que não a peregrinação.

[...] A Reforma lançou algumas sementes da democracia moderna, embora sem saber como e quando iriam germinar. Enquanto a tradição católica se baseava na hierarquia – na autoridade dos papas, cardeais e bispos – os protestantes enfatizavam a leitura da Bíblia e o relacionamento do indivíduo com Deus. Os protestantes batizados podiam ser os sacerdotes de si mesmos; não precisavam de padres ou bispos como intermediários em seu contato com Deus [2].

Lutero se referia a isso como “o sacerdócio de todos os crentes”, e seu espírito democrático permeou as seitas protestantes que surgiram depois. Com a Bíblia em linguagem acessível, o protestantismo favorecia o debate e a discussão, que representam o cerne da democracia. Acima de tudo, calvinistas, luteranos, batistas, unitaristas, presbiterianos e outras congregações independentes administravam as próprias igrejas e selecionavam os sacerdotes.

[...] A abordagem democrática teria efeitos surpreendentes, em especial nos Estados Unidos. A Reforma desestimulava o uso do latim, na época o idioma internacional. Assim, proporcionou uma era gloriosa ao inglês, ao alemão e a outros idiomas nacionais. Nesse sentido, houve uma promoção mútua, entre nacionalismo e protestantismo. As mudanças religiosas promoveram também a educação. Lutero, Zuínglio e Calvino – saídos de três universidades diferentes – acreditavam que todos devem saber ler, e que a Bíblia é leitura obrigatória. “Estou profundamente comovido”, Lutero escreveu em 1530, ao saber que tantos alemães liam a Bíblia.

Os católicos reagiram, e começaram a promover com mais vigor a educação. No decorrer dos três séculos seguintes, porém, talvez nenhum país católico tenha alcançado o nível de alfabetização dos países protestantes. O surgimento da democracia popular, na segunda metade do século 19, dependia da disseminação do conhecimento [3].

[...] Os cerca de 125 anos seguintes ao surgimento da Reforma foram um período de graves conflitos em boa parte da Europa. “Guerras religiosas” é um rótulo bastante comum para o que aconteceu então. Na verdade, o sentimento religioso intensificou muitas batalhas, além de desestimular a ideia de qualquer acordo durante as negociações de paz, mas seria injusto apontar a Reforma como fator decisivo para as guerras. O período de violência começou com disputas entre monarcas católicos, não motivadas pela religião; eles estavam preocupados demais com as próprias guerras, para dedicar muita energia à anulação do movimento protestante [4].

O longo período de guerras intermitentes foi afetado também pelo surgimento de novas armas. O canhão e o mosquete tornaram as guerras ainda mais mortais e os monarcas, mais poderosos. Eles, e não os reformadores religiosos, planejavam, financiavam e orientavam a maior parte das guerras. Os estudiosos que hoje se dedicam ao assunto não consideram a hostilidade religiosa como a causa principal das guerras na Europa; segundo eles, a religião pode ter sido “um disfarce para outros motivos”. A ser mantido o rótulo “guerras religiosas”, seria apropriado chamar a Segunda Guerra Mundial, com sua base ateísta e o enorme número de vítimas, de “guerra da descrença”. A rotulagem simplista de grandes eventos mais complica do que explica.

Religião não era uma questão de escolha, mas de obrigação. [...] Em parte, os governantes [de países protestantes] exigiam unidade social e religiosa por acreditarem que o território ficaria mais seguro. Era crença geral um reino ou uma república tornarem-se alvos fáceis, se não tivessem coesão religiosa.

Um aspecto que nos intriga atualmente é o fato de a tolerância não figurar, naquela época, como objetivo no universo de cristãos, hindus, budistas, chineses, astecas ou incas. A ampla tolerância religiosa é quase uma invenção dos tempos modernos [5] – praticamente impensável, séculos atrás. O importante era sustentar a visão religiosa apropriada, e não a liberdade de rejeitá-la. O direito de desobedecer ao governo e à Igreja, o direito de ser livre em matéria de consciência, são preceitos que surgiram muito lentamente, depois das fortes tensões provocadas pela Reforma [6].

A mais ousada tentativa de liberdade religiosa foi feita na Holanda, [...] que era o país mais próspero da Europa, abrigando um notável cadeia de postos comerciais que se estendia de Nova York – então chamada Nova Amsterdã – a portos distantes, como Jacarta e Malaca, no sudeste da Ásia. [...] Em Amsterdã, então a cidade com o maior número de habitantes judeus da Europa ocidental – muitos expulsos de Portugal – as sinagogas se multiplicaram.

Por algum tempo, Maryland e Rhode Island talvez tenham sido os locais mais tolerantes de todas as regiões onde se falava inglês. Em 1634, os primeiros colonizadores britânicos aportaram em Maryland, e 15 anos depois uma lei local concedia liberdade religiosa a todas as denominações cristãs, embora os judeus não estivessem formalmente incluídos [7]. [...] Com ou sem intenção, os provocadores da Reforma lançaram a pedra fundamental da tolerância religiosa.

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[1] Um dos motivos do sucesso de Blainey em sua série de livros sobre história (vários deles, best-sellers mundo afora), em minha opinião, é a sua humildade em expor a história de um ponto de vista de quem, como nós, já não vive mais nas épocas citadas – e não pretender expor a história “como foi”, mas sim “como a interpretamos atualmente”. O outro motivo é que ele simplesmente escreve muito bem.

[2] Quanta distância entre os protestantes originais e os de hoje em dia!

[3] A despeito do que são e do que foram os protestantes, dificilmente os seus críticos se lembram, atualmente, que a nossa educação secular deve, e muito, ao fogo iniciado por Lutero.

[4] Grosso modo, toda e qualquer guerra entre nações jamais foi iniciada propriamente por um “conflito religioso ou doutrinário”, e sim pela pura e simples disputa por riquezas e territórios. Mas muitos “historiadores” não gostariam que você pensasse dessa forma, e para eles (ao contrário de Blainey), o termo “guerra religiosa” pode fazer todo o sentido do mundo.

[5] Eu diria: uma conquista da evolução da consciência humana.

[6] E, mais uma vez, qual o ateu atual que lembra de que foi Lutero quem iniciou esta divina chama de liberdade?

[7] O próprio sonho americano partia desse pressuposto de liberdade. Nalgum dia distante, os Estados Unidos já foram vistos como a terra da tolerância e da liberdade de pensamento, e foi exatamente por isso que atraíram tantas grandes mentes, que colaboraram (e muito) para a construção da potência econômica que o país veio a se tornar no final do século XX.

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Crédito da imagem: F.W. Wehle/Corbis ("Lutero em seu estudo")

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8.7.12

Estrelas

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Aqui estou novamente, num vagão de metrô da Cidade Maravilhosa...

Basta ir morar por algum tempo (meses, anos?) longe de uma grande cidade, do tipo que tem metrôs lotados, para voltar a se espantar novamente, quando retornamos a nossa antiga casa: “Nossa, se entrasse mais alguém por aquela porta, eu acho que teria sido esmagado neste poste no meio do vagão!”.

Há tanta gente em tão pouco espaço, que quando você planeja pegar o metrô do Rio em horário “nobre”, precisa realmente elaborar uma estratégia... “Se entro pela esquerda, preciso garantir minha posição próximo à porta direita, ou seria a esquerda?” – Um momento de indecisão, e é capaz de você passar do ponto sem ter tempo de sair...

Mas é entre as estações, com o trem percorrendo os corredores escuros por debaixo da metrópole, que os pensamentos mais profundos me assaltam: “Quantas histórias distintas neste mesmo vagão, quantas formas de ver o mundo... Aquele cara está com o olhar fixo nos seios daquela garota, será que ela também sabe dos seios lindos que tem? (me parecem naturais); Aquela outra ali tem pinta de nerd... Nossa, ela está lendo Game of Thrones na tela do celular, isso que é dedicação! E ali, no outro canto, aquele grupo de turistas alemães escolheu uma péssima hora para fazer turismo pelo Centro...” – Mas todos eles estão pensando. Não há aperto suficiente neste vagão que impeça alguém de pensar.

Muitos certamente estão voltando do trabalho e, invariavelmente, dedicam uma boa parte do seu tempo de reflexão a pensar no dinheiro: quanto têm, quanto almejam ter, quantas dívidas a pagar, etc. Isto tudo, sem dúvida, passou por sua educação: se não foram os pais ou familiares a lhes alertar que “tempo é dinheiro”, certamente foi a orientadora vocacional. A primeira função das orientadoras vocacionais é tentar convencer o maior número possível de jovens mentes promissoras a ingressar numa carreira “promissora”, que “pague bem”. Ultimamente, por falta de mão de obra qualificada, o empresariado brasileiro tem quase que implorado para tais orientadores: “Pelo amor de Deus, manda alguém para exatas”.

Ciências exatas! Pode ser chato de aprender, principalmente se você não gostar, mas o que importa é que “dão dinheiro” (alguns cientistas teóricos podem discordar)... Melhor seria, entretanto, se na escola alguém nos explicasse, antes de iniciar a primeira aula de química ou física: “Meus caros, vocês podem não gostar desse decoreba sem fim de fórmulas que irão vomitar sobre vocês nos anos seguintes, mas, por favor, lembrem-se ao menos disso: somos formados por elementos químicos que só podem ser gerados nos núcleos estelares! Compartilhamos a história de nossos genes com todas as espécies animais da Terra, desde as bactérias aos roedores que sobreviveram à extinção dos dinossauros... A vibração dos nossos átomos, esses que formam nosso corpo inteiro, seguem as mesmas leis dos átomos que formam pedregulhos em Marte, ou supernovas há milhões de anos-luz de nossa galáxia. Há luz por todo o lugar! Tudo bem, agora podem entrar no decoreba... Boa sorte”.

Então saberiam ao menos que, conforme as estrelas, também somos pedaços do universo capazes de produzir luz. Sim, pois todo homem é uma estrela, e toda mulher também: sua luz é seu pensamento, quando conectado ao Infinito!

E a filosofia? Bem, esta nem é mais ensinada na maioria dos colégios. Por toda parte, os “arautos da estagnação”, estes que gostariam que você não pensasse, espalharam o boato de que a “filosofia é difícil e muito, muito chata; seria melhor estudar ciências exatas, que às vezes não são assim tão chatas”. Existem, quem sabe, dois tipos de pensadores: os que usam o pensamento para manter a “ordem estabelecida”, para estes é interessante que somente alguns poucos “doutrinados” aprendam a pensar, e mesmo assim desde que não pensem em nada que possa ir contra a tal “ordem estabelecida”; existem outros pensadores, no entanto, que acreditam que todos deveriam ser livres para pensar no que quiser, e cada vez mais abrangentemente e profundamente – a estes os “estagnados” de cada época taxaram de loucos, hereges, subversivos, bruxos ou, como está tão na moda: irracionais.

Talvez a filosofia não dê mesmo dinheiro, mas certamente te ajudará a entender o porque de tantos viverem correndo atrás do dinheiro, e não da felicidade, que por vezes se perde em meio a “sobrevivência”... Pegue todos os livros da seção de autoajuda desta megastore: não equivalem a um livreto de Epicuro sobre a felicidade [1]. Com a filosofia, a verdadeira autoajuda, se aprende a viver, não somente sobreviver. Para tal, não necessitamos de tanto dinheiro assim, só do necessário (para Epicuro, um pedaço de queijo ocasional era um banquete).

Que falar das religiões então? Tudo bem, todos poderiam continuar sendo batizados antes de terem opção de escolha, assim como seus pais já escolheram seus times de futebol, em todo caso... Mas, antes da primeira missa de Domingo após os, quem sabe, 12 anos, alguém de espírito livre deveria lhes alertar: “Vá e ouça tudo o que o padre tem a dizer, mas, ainda que suas palavras sejam reconfortantes, e ainda que você não possa dialogar, dialogue consigo mesmo – duvide, questione, elabore, experimente. Não faça de sua vida religiosa mais um decoreba eclesiástico!”. O único problema é que um sujeito assim seria expulso da Igreja...

E quem seria hoje Nosso Senhor Jesus Cristo? Um socialista radical? Um hacker anônimo? Um psicólogo dos Médicos Sem Fronteiras? Aquele mendigo que mora nas escadas da paróquia? Ou mais uma dessas estrelas do céu, que insistem em irradiar sua luz antiga, para aqueles que têm alma para às admirar? Ou, quem sabe ainda, mais uma dessas estrelas espremidas neste vagão de metrô?


para Maria Luiza

***

[1] Carta a Meneceu.

Crédito da foto: Claudio Lara (Metrô Rio)

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20.4.12

Antes que se apague a chama

Eu queria lhes apresentar um amigo...

Foi um dos maiores educadores que já se viu e, no entanto, diz-se que seu primeiro trabalho foi de auxiliar da mãe, Phaenarete, que era parteira. Ainda assim, ao observar um parto complicado da mãe, já demonstrou a extensão de seu pensamento: “Minha mãe não irá criar o bebê, apenas auxiliá-lo a nascer, e tentar diminuir a dor do parto. Porém, se ela não realizar o parto, talvez ambos, a mulher e seu filho, morram... Eu também serei um parteiro, um parteiro do conhecimento que jaz na alma das pessoas, mas, por ignorância dele, elas não se dedicam devidamente ao seu nascimento. Eu os ajudarei fazer nascer sua sabedoria.”

Este era Sócrates, o maior dos filósofos, a luz perene de Atenas. Ele que serviu sua cidade-estado como quem serve a um ideal maior do que ele próprio, uma paideia, uma cultura universal condensada e absorvida pela cultura de um só povo, uns 70 mil que, não obstante, influenciaram a linguagem e as ideias de todo o Ocidente. E, servindo a tal pátria, lutou em diversas guerras como soldado, felizmente escapando ileso de todas elas. Ao fim da carreira de soldado, poderia haver se aposentado da vida, mas foi aí, pelo contrário, que sua vida de sábio e educador começou.

Tendo consultado o oráculo em Delfos e recebido a inquietante resposta de que era “o homem mais sábio de toda Grécia”, prontamente dedicou-se a abordar outros homens ditos sábios, na esperança de provar que o oráculo estava errado. Como, para sua surpresa, descobriu que todos aqueles que se julgavam sábios, em realidade não o eram, passou a perseguir a sabedoria – que ele mesmo julgava não possuir – noutro mundo.

Sócrates buscou aos jovens, e os jovens buscaram a Sócrates, como as abelhas buscam as flores, e as flores as abelhas. Sabiam, de alguma forma oculta, que necessitavam uns dos outros: os jovens precisavam de um parteiro para que sua própria sabedoria florescesse, e o filósofo, em seu papel de parteiro do conhecimento, necessitava do contato direto com o fogo das almas recém-chegadas ao mundo, antes que sua chama houvesse sido apagada pelos hábitos moribundos da estagnação dos homens ignorantes.

Precisamente por isso, mais do que por ter professado servir a um Deus desconhecido, foi Sócrates acusado e sentenciado a morte por seu próprio povo: corromper aos jovens. Ora, mas não poderia ter sido diferente – aqueles que haviam se acostumado com o musgo e o breu das cavernas, jamais poderiam suportar aqueles jovens falando sobre uma luz, uma divina luz, a irradiar sob os campos da superfície das mentes libertas do claustro.

Sócrates demarcou a alternância do entendimento da justiça, da ética e da política como elementos de um conjunto de regras de convívio social, para a era da justiça, da ética e da política a serem realizadas primeiramente na própria alma, a juíza de si própria, num conflito perene para que deixasse de ser escrava de seus próprios instintos inferiores, de sua ignorância, e se reacendesse em chamas, no fogo que veio do Alto, e do qual ainda poderiam se lembrar – como ideias inatas de um Grande Bem.

Não é culpa do velho atarracado com seus olhos de touro que a Igreja tenha, muitos séculos depois, se apropriado deste conceito e determinado que ele seria deste ou daquele jeito: um Céu Eterno, contrapondo um Inferno Eterno. O Céu de Sócrates era, antes de tudo, o Céu da liberdade, da amizade, da fraternidade, do amor ao saber. Não poderia jamais ser delimitado por dogmas ou manuais de como seria exatamente tal região, até mesmo porque, para o filósofo, tal Céu estava por ser erigido em alguma época futura, onde todos os jovens houvessem feito o parto de sua própria sabedoria, sua própria potencialidade, com a ajuda do grande parteiro, ou de outros que viriam após ele... O Deus de Sócrates estava no futuro, mas sua chama atingia o passado.

Ao ser condenado por ingestão de cicuta, seus amigos mais próximos lhe imploraram que fugisse da cidade para viver no exílio. Sócrates, porém, os fez tentar compreender: não havia cidade para onde fugir, Atenas era sua paideia, e sua paideia era todo o mundo. Havia ali permanecido desde o nascimento, e por 70 longos anos, não somente porque pensava estar no centro físico do mundo conhecido, mas principalmente porque acreditava ser ali o centro espiritual de todo o horizonte. Foi em Atenas, e com ideias, que Sócrates lutou toda sua guerra... Fugir, naquele momento, seria o mesmo que debandar de uma batalha enquanto soldado, somente por medo de perecer em combate. Sócrates não tinha medo da morte, mas antes da desonra, algo que poderia fazer com que todo o seu pensamento, e tantos e tantos partos, houvessem sido em vão.

Mas, ainda mais do que isso, Sócrates sabia de um outro mundo, aquele mundo onde a chama que observara na memória dos jovens ardia em puro esplendor e essência. Por boa parte da vida procurou fazer com que os jovens enxergassem tal mundo antes que a chama se apagasse por completo... Agora, era a sua vez de chegar, uma vez mais, ao mundo das essências. Se estaria em melhor posição que aqueles que permaneceriam no mundo das sombras, deixou que cada um decidisse por si só.

“Levou a taça aos lábios e com toda a naturalidade, sem vacilar um nada, bebeu até à última gota.

Até esse momento, quase todos tínhamos conseguido reter as lágrimas; porém quando o vimos beber, e que havia bebido tudo, ninguém mais aguentou. Eu também não me contive: chorei à lágrima viva. Cobrindo a cabeça, lastimei o meu infortúnio; sim, não era por desgraça que eu chorava, mas a minha própria sorte, por ver de que espécie de amigo me veria privado. Critão levantou-se antes de mim, por não poder reter as lágrimas. Apolodoro, que desde o começo não havia parado de chorar, pôs se a urrar, comovendo seu pranto e lamentações até o íntimo todos os presentes, com exceção do próprio Sócrates.

- Que é isso, gente incompreensível? Perguntou. Mandei sair às mulheres, para evitar esses exageros. Sempre soube que só se deve morrer com palavras de bom agouro. Acalmai-vos! Sede homens!

Ouvindo-o falar dessa maneira, sentimo-nos envergonhados e paramos de chorar. E ele, sem deixar de andar, ao sentir as pernas pesadas, deitou-se de costas, como recomendara o homem [que lhe deu] o veneno. Este, a intervalos, apalpava-lhe os pés e as pernas. Depois, apertando com mais força os pés, perguntou se sentia alguma coisa. Respondeu que não. De seguida, sem deixar de comprimir-lhe a perna, do artelho para cima, mostrou-nos que começava a ficar frio e a enrijecer. Apalpando-o mais uma vez, declarou-nos que no momento em que aquilo chegasse ao coração, ele partiria. Já se lhe tinha esfriado quase todo o baixo-ventre, quando, descobrindo o rosto – pois o havia tapado antes – disse, e foram suas últimas palavras:

- Critão (exclamou ele), devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!

"Assim farei!", respondeu Critão. Vê se queres dizer mais alguma coisa. A essa pergunta, já não respondeu. Decorrido mais algum tempo, deu um estremeção. O homem o descobriu; tinha o olhar parado. Percebendo isso, Critão fechou-lhe os olhos e a boca.

Tal foi o fim do nosso amigo, Equécrates, do homem, podemos afirmá-lo, que entre todos os que nos foi dado conhecer, era o melhor e também o mais sábio e mais justo.” (Fédon – Platão)

Feliz foi Sócrates, o filósofo que viveu entre amigos, e não entre discípulos.

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Crédito da imagem: Sven Hagolani/Corbis

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