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25.3.19

O Ritual das Cores

Neste vídeo finalmente praticaremos juntos um ritual mágico capaz de catalisar poderosos efeitos placebos de cura, mas não sem antes tentarmos compreender melhor o que diabos é um efeito placebo, e como um vencedor do prêmio nobel de Química, Linus Pauling, acabou criando o maior efeito placebo da história humana... Se você nunca praticou magia, esta é a sua chance de começar! (edição por Colossi Estúdio Gráfico)

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11.8.14

Conectados, parte 3

« continuando da parte 2

Placebo: se origina do latim placeo, placere, que significa agradar. Entende-se efeito placebo como a melhoria dos sintomas e/ou funções fisiológicas do organismo em resposta a fatores inespecíficos e aparentemente inertes (sugestão verbal ou visual, comprimidos inertes, cirurgia fictícia, etc.)


A arte de se estourar bolhas

Em 1970, Linus Pauling, célebre bioquímico americano, ganhador tanto do Nobel de Química quanto do Nobel da Paz, lançou um livro chamado Vitamin C and the Common Cold (A Vitamina C e o Resfriado Comum) que é até hoje o grande responsável pelo maior efeito placebo da história [1]. Pela tese de Pauling, a ingestão de altas doses diárias de vitamina C seria responsável não somente pelo tratamento de resfriados, como pela manutenção de uma “boa saúde” geral do organismo.

Somente em 1986 o professor A. Stewart Truswell, da Universidade de Sidney, publicou o resultado de 27 experimentos para validar a tese de Pauling, alguns realizados desde o início da década de 1970, e chegou a conclusão de que a ingestão de vitamina C, particularmente em altas doses (mais de 500mg/dia), não tinha nenhum efeito considerável no tratamento dos sintomas da gripe, tampouco na redução de sua duração. No entanto, 16 anos após o lançamento do livro de Pauling, a Indústria Farmacêutica já havia consolidado um mercado lucrativo com base nela – como era de se esperar, até hoje há inúmeros comerciais na TV falando sobre como a vitamina C auxilia a tratar resfriados...

Se até hoje você, como eu, toma vitamina C quando está com gripe, ainda que saiba que ela não tem efeito científico comprovado, é porque está tirando vantagem do efeito placebo para “convencer a sua mente” de que ela é um agente de cura. Neste caso, “crer na cura”, como já dizia Hipócrates, pode ser parte importante de um tratamento bem sucedido. Até hoje a ciência mal faz ideia do que é exatamente o efeito placebo [2], mas ele nos deixa ao menos uma importante lição – nós definitivamente somos, em maior ou menor grau, sugestionáveis.

Recentemente, um estudo científico publicado na revista da Academia Nacional de Ciências dos EUA provocou rebuliço no mundo online. Os pesquisadores se valeram do Facebook, provavelmente a maior rede social do mundo nos dias de hoje, para tentar comprovar como o que lemos em nosso próprio feed de notícias [3] pode afetar positivamente ou negativamente o nosso humor e estado de espírito em geral [4].

O estudo analisou 689.003 usuários (dentre os que usam o Facebook em inglês) cujos feeds foram propositalmente alterados para mostrar posts mais positivos ou negativos de seus amigos. O resultado? Quando o usuário via mais posts positivos em seu feed, escrevia mais comentários positivos. Quando via mais posts negativos, escrevia mais comentários negativos... A comunidade online se indignou principalmente pela invasão de privacidade deste tipo de pesquisa, já que ninguém soube que estava sendo “testado”. Entretanto, o que a pesquisa demonstrou é que, apesar de em menor escala, somos sugestionáveis também nas redes sociais. Ou, noutras palavras, a nossa dieta de informação define, muitas vezes, uma parte considerável do nosso estado de espírito.

Há algo próprio da chamada Web 2.0 que é ainda muito, muito mais grave do que a influência das notícias que os seus amigos postam no Facebook. Ocorre que nesta nova era da Web, a maior parte dos sites também se tornaram serviços e, desta forma, requerem que você se cadastre neles para os utilizar. Mas o cadastro é somente o primeiro passo. Em sites de compras como a Amazon, por exemplo, cada uma das suas compras passadas (e até mesmo cada item à venda pelo qual você já navegou um dia dentro da Amazon) pode servir de “base de dados” para lhe trazer sugestões sobre “o que comprar a seguir”.

No caso das compras, isto geralmente é bem anunciado nos termos de adesão do site, e ainda que 99% das pessoas jamais leia esses termos, fica até mesmo óbvio que suas compras passadas estão servindo de guia para os anúncios do site. No caso das redes sociais, particularmente do Facebook, nem sempre é fácil notar o que está sendo feito dos seus dados nos bastidores...

Um dos conceitos que foram vitais para o sucesso prolongado do Facebook é algo aparentemente muito simples: um botão, um botão de curtir (ou like button, em inglês).

Ora, computadores não podem ler sua mente, mas podem ler cada um dos cliques no botão de curtir que você deu, desde que começou a usar o Facebook. Com isso, o servidor consegue saber quais são os amigos e as páginas que você mais gosta dentro da rede social, e assim criar um filtro customizado para o seu feed de notícias. Aquela menina que posta fotos de biquíni quase toda semana, e que você sempre curte? Está no topo da lista do seu feed. Aquele amigo chato da época de colégio que só posta vídeos de música clássica, e que você nunca curtiu sequer uma vez? Está na lista dos excluídos do seu feed, e ainda que você continue amigo dele, em meio aos seus quase 500 amigos, a chance de ver qualquer postagem dele é ínfima, senão zero.

O que este tipo de atividade cria, na prática, são bolhas de conteúdo dentro do seu Facebook. De modo que, se um dia você finalmente arrumar um namoro sério, é bem provável que a sua namorada ache um tanto estranho o seu feed onde aparecerão diversas fotos de sua amiga de biquíni (dica: não mostre o seu feed a ela). E, da mesma forma, se um dia você por acaso ver Gustavo Dudamel regendo uma orquestra enquanto trocava de canal na TV a cabo, será um tanto improvável que fique uns minutinhos por lá e aprenda a apreciar música clássica, pois aqueles posts do seu amigo de infância nunca mais apareceram para você.

O que é mais nocivo nesta era das bolhas de conteúdo, no entanto, é que com o tempo, se você não tomar cuidado com o que anda curtindo em seu Facebook, é bem capaz de seu feed de notícias trazer tão somente as notícias de quem concorda com suas posições ideológicas, ou de quem gosta do mesmo tipo de música que você, ou vê os mesmos filmes e lê os mesmos livros.

No taoísmo, a filosofia da China antiga, aprendemos que os opostos são necessários para que nos tornemos aptos a enxergar o caminho do meio. Se formos analisar as ideologias políticas conforme o editor da Superinteressante [5], os esquerdistas extremos creem que a fonte de todo o bem é o Estado, enquanto que os direitistas extremos creem que esta fonte é o Mercado. Não é difícil perceber como um, na verdade, precisa do outro – um Mercado sem a regulação do Estado pode enveredar para um capitalismo tão consumista que extinguirá os recursos naturais necessários para a manutenção da humanidade na Terra; já um Estado que trancafie o Mercado numa prisão de burocracias sem fim fará com que a economia do país definhe, ferindo primeiramente os mais pobres, exatamente aqueles que gostaria de auxiliar.

Aos que conseguem transitar pelos extremos, aos que são capazes de enxergar os dois lados da moeda, está até mesmo óbvio que não há uma fonte única de bem absoluto, assim como tampouco há uma fonte de mal absoluto – o que há são ideias opostas, e a arte da Política consiste exatamente em se chegar a consensos que são capazes de atender os anseios da maioria, ao mesmo tempo em que levam em consideração as opiniões da minoria (sem a oprimir, sem a ridicularizar, sem a censurar).

Não é tão difícil assim de entender. No entanto, se nos últimos anos tudo o que você têm visto no seu feed de notícias do Facebook são opiniões radicais à favor de somente um lado, é bem capaz de você, como ser sugestionável que é, cair na falácia do “8 ou 80” (ou uma ideia está totalmente certa, ou totalmente errada), e demonizar um dos lados, enquanto crê que a sua forma de pensar é “evidentemente a mais correta, já que todos os meus amigos concordam”.

É preciso tomar cuidado, muito cuidado, com este tipo de “pensamento encapsulado em bolhas”, pois foi com ideias muito parecidas que os regimes mais autoritários e sanguinários da história política foram implementados. A Web precisa ser livre, realmente livre, e não somente mais uma sucursal das agências de marketing das multinacionais, ou das “ideologias enlatadas” do Grande Negócio Eleitoral.

De vez em quando, clique também no botão de curtir de uma ideia que não concorde, mas que esteja bem elaborada. De vez em quando, pratique a arte de se estourar bolhas... Lembre-se de que, assim como todos os demais seres humanos, você também pode estar errado.

» Em seguida, Aaron, o homem do amanhã...

***

[1] Saiba mais no artigo (em inglês) Vitamin C: Do High Doses Prevent Colds?, por Charles W. Marshall, Ph.D.

[2] Veja também o nosso artigo Placebo-Nocebo.

[3] Uma lista onde aparecem as publicações de nossos amigos e das páginas que seguimos no Facebook.

[4] Saiba mais no artigo Nossas Emoções Estão Surgindo em Bolhas Criadas Pelo Facebook, por Derek Mead.

[5] Denis Russo Burgierman. Não deixe de conferir o seu excelente artigo sobre o tema, A maldição do esquerdo-direitismo.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Linus Pauling em sua fazenda, em meados da década de 1980); [ao longo] Google Image Search.

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4.5.12

Comentário: que é o efeito placebo?

Comentário das respostas da pergunta “que é o efeito placebo?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Há muitos anos, diariamente, dezenas de pessoas chegam a outrora desconhecida cidade de Abadiânia, uma pequena cidade com cerca de 13mil habitantes, fincada bem no meio do Brasil, no interior de Goiás. Já seria interessante saber o que tantos brasileiros vão fazer nesse “fim de mundo”, mas a grande maioria dos que chegam vêm na realidade de outras partes do mundo – principalmente dos EUA e Europa. Abadiânia é a cidade onde o médium brasileiro João de Deus realiza seus atendimentos com cirurgias espirituais (e, nalguns casos, físicas) que visam o auxílio na cura de doenças variadas, muitas das quais não têm tratamento conhecido na medicina convencional.

Discovery Channel, National Geographic e BBC foram alguns dos canais de TV estrangeiros, bastante conceituados, que já realizaram filmagens e documentários acerca de João de Deus. Apesar de ser relativamente conhecido no próprio país, ao ponto de ter sido chamado para auxiliar no tratamento de câncer do ex-presidente Lula, e também do ator Reynaldo Gianecchini, o médium é muito mais famoso fora do país, tanto que mereceu uma visita exclusiva de Oprah Winfrey, provavelmente a apresentadora de TV mais famosa do mundo.

Filmadas por todos os ângulos, as cirurgias físicas de João de Deus causam um misto de espanto e certa repudia. Certamente não é todo dia que vemos uma pessoa sem qualquer formação médica fazer incisões profundas na pele das pessoas com facas de cozinha, “raspagem” de catarata em olhos abertos (com o mesmo instrumento, tudo filmado), e inserções de tesouras pelo orifício nasal. Em estudo da Associação Médica Brasileira, ficou comprovado que tais cirurgias são reais, e que os tecidos extraídos e “raspados” dos olhos são inteiramente compatíveis com a fisiologia dos pacientes. Mas, a pergunta que fica é: tais cirurgias curam alguma coisa?

Um dos espíritos que supostamente incorpora o médium, parte da “equipe de médicos espirituais” que o auxilia nas cirurgias, já respondeu que “as cirurgias físicas não servem para mais nada que não para que o paciente efetivamente creia que está sendo tratado”. Para os pacientes que já tinham fé no tratamento, nenhuma cirurgia física era necessária [1]... Ou seja: o próprio espírito admite que se trata de uma “encenação” criada para que a mente tenha fé no tratamento. A mente, sem dúvida, parece ser o agente que mais importa, o catalisador dos efeitos placebo – e, dessa forma, da cura.

E esta parece ser a questão chave para nosso entendimento do que vem a ser o efeito placebo. Não adiante associá-lo a processos inconscientes do cérebro que terminam por auxiliar e efetivar a cura de doenças: isso é apenas o processo de cura natural, não o efeito placebo. O efeito placebo, exatamente por se tratar de um efeito, tem de ter uma causa, e acredito que quase todos concordem que essa causa passa pela mente quando esta possui a crença consciente de que um tratamento lhe fará bem. Mas, ainda neste caso, o mistério permanece: se é a mente que catalisa o efeito placebo de acordo com sua crença na própria melhora, o que exatamente catalisa a crença?

Essa última pergunta pode ter uma resposta um tanto quanto óbvia para os espiritualistas, mas para muitos materialistas (alguns dos quais que sequer creem que exista a mente) ela é uma questão muito estranha. Mas isso não os impede de continuar estudando objetivamente a questão...

Na UFRJ, a bióloga Rafaela Campagnolli, doutora em neurofisiologia, concluiu um estudo de como o cérebro processa imagens de interações sociais positivas. Na pesquisa, um grupo de 36 universitários saudáveis observou 60 fotos, sendo 30 de adultos e crianças interagindo e 30 de pessoas alheias umas as outras, embora estivessem próximas. Enquanto observavam, suas reações cerebrais e faciais eram medidas por eletroencefalograma (mede atividade elétrica neuronal) e eletromiograma (mede a atividade elétrica dos músculos):

“É fato que os cérebros dos voluntários reagiram diferentemente às imagens de cada grupo. Diante das fotografias com interações sociais positivas, ocorreu aumento da atividade neuronal associada às emoções, e do músculo do sorriso espontâneo (zigomático). Isso quer dizer que elas impactaram mais os voluntários, foram mais relevantes emocionalmente” – explicou Rafaela [2].

Esse tipo de estudo visa reforçar uma crença já ancestral: a de que as emoções positivas auxiliam na cura de doenças e reestabelecimento da saúde, ao passo que as emoções negativas podem facilitar enormemente a morte, mesmo que de forma indireta. Gilberto Ururahy, diretor-médico da Med Rio Check Up, do alto de sua experiência de mais de 60mil check ups de saúde, declara: “A prática demonstra que um quadro de emoções negativas conduz à depressão e a outros males. Um dos grandes avanços da psiquiatria foi identificar que o cortisol (hormônio relacionado ao estresse) elevado e crônico é um caminho natural para a morte. Por outro lado, a emoção positiva é a mola da vida” [3].

Portanto, nossa ciência, moderna a objetiva, têm somente demonstrado o que já sabíamos, subjetivamente e filosoficamente, ao menos desde que Hipócrates fundou a medicina, milênios atrás. São mesmo as nossas forças naturais que curam nossas doenças, e até mesmo por isso nenhum médico sério jamais pôde prometer a cura, apenas o tratamento. É apenas a nossa mente, auxiliada pelos diversos tratamentos, quem poderá se livrar da doença, e retornar a saúde. Mas, há algo de subjetivo em nossa mente que incomoda profundamente os materialistas objetivos: algo que não pode ser devidamente catalogado de forma exata, tal qual se cataloga a porcentagem de sucesso dos tratamentos da última droga contra a depressão [4]... O que seria esse espírito, essa alma, esse “eu” que parece ter um ânimo próprio, essa vontade de melhora?

Tim Cridland, também conhecido como Zamora, o Rei da Tortura, é um americano com pinta de roqueiro que parece ter uma boa resposta para tal questão. Desde pequeno, Tim era fascinado pelas histórias de faquires e homens santos da Índia, que podiam se deitar em tábuas de pregos sem sentir dor alguma, e sem causar sangramentos na pele. Sabe-se lá onde ele encontrou “cursos de faquir”, mas o que se sabe é que hoje, após décadas de prática e disciplina inimagináveis para um ocidental, Tim se tornou provavelmente o maior faquir do Ocidente, com um controle da própria mente que beira o sobrenatural. Num episódio dos Superhumanos de Stan Lee, uma série do canal a cabo History que explora pessoas com “poderes sobre-humanos”, vemos Tim perfurar o braço de ponta a ponta com espetos de metal, um dos quais ele enfia através da boca aberta, saindo pelo pescoço [5]. O mais incrível não é nem o fato de ele não sentir dor (o que é comprovado por análise neuronal ao longo do programa), mas sim o fato de ele não sangrar, nem uma gota, nem mesmo na gengiva que, todos devem saber, é uma das partes do corpo que sangram mais facilmente.

O que isso tudo quer dizer? Que devemos abandonar a objetividade da medicina moderna, junto com nosso ceticismo, e admitir que existem homens santos, espíritos e deuses? Não exatamente. Uma coisa não necessariamente leva a outra, e as crenças e descrenças não deveriam vir em “pacotes fechados” – ou cremos em todo tipo de espírito e na eficácia dos tratamentos espirituais e alternativos, ou não cremos em nada disso. Não! Você pode muito bem continuar ateu ou agnóstico em relação ao chamado mundo espiritual, e ainda assim admitir que certas coisas estranhas que provêm dele são, de fato, reais.

Na conclusão final do estudo da AMB sobre João de Deus, é dito que “nem a crença entusiasmada ou a descrença renitente ajudarão os pacientes ou o desenvolvimento da medicina”, e eu acredito que devemos refletir com muita seriedade sobre isso. Que importa se céticos como James Randi oferecem milhões para qualquer um que prove que é efetivamente um paranormal? Gente como Tim Cridland e João de Deus parece não conhecer ou não estar interessada no dinheiro dos “céticos a priori”, que fazem esse tipo de “show” exatamente por já crer que não existam paranormais [6]. Randi foi certamente útil em desmascarar dezenas de charlatões pelo mundo todo, mas há que se ter em mente que nem todos são charlatões, por mais estanho que isso possa parecer para uma mente racional.

Você pode achar que os fenômenos realizados por tais paranormais – o cirurgião espiritual e o homem imune à dor – é suficientemente raro e extraordinário, e que dificilmente acharemos coisa parecida no resto do mundo, de modo que a “raridade” não permite um estudo objetivo... Mas, não, eles não são assim tão raros quanto possa parecer a priori: para cada cirurgia realizada por João de Deus, milhares de outras são realizadas com igual ou maior eficácia (independentemente de serem cirurgias físicas, e a maioria não é), somente no Brasil, por médiuns que não se interessaram em se tornar fenômenos de mídia; para cada “agulhada” que Tim Cridland dá no próprio corpo, há centenas de faquires indianos praticando algo muito parecido, todo santo dia, e ainda não se viu sangue algum.

E, ainda assim, perto dos fenômenos da mente, tais fenômenos físicos são como a brisa que antecede a tempestade. No fundo, talvez tudo se origine de alguma mente, afinal: jamais poderemos conhecer a realidade ignorando tudo aquilo o que se passa, se passou, e que poderá passar, bem atrás de nossos olhos abertos... O efeito placebo, que diabo seria ele senão um efeito da mente, esta grande desconhecida?

***

[1] A imensa maioria dos pacientes de João de Deus não passam por cirurgias físicas, e espera-se que elas sejam cada vez mais raras, já que apenas alguns dos espíritos que supostamente o incorporam defendem sua continuidade. Entretanto, não deixa de ser um fenômeno bastante estranho.

[2] O depoimento da Dra. Campagnolli foi retirado de uma matéria do O Globo de 25/12/2011 (O poder das emoções positivas – Caderno Saúde).

[3] Depoimento também retirado da matéria citada na nota acima.

[4] O que, em muitos casos, não nos traz resultados muito diferentes do tratamento com placebos.

[5] Não é tão horrível quanto parece, principalmente por não haver sangue, nem dor. Infelizmente só achei o episódio com áudio em inglês:

Poderíamos, quem sabe, inserir a legenda: Tim Cridland catalisando um efeito placebo em si mesmo, de modo que não sangre nem sinta dor. É óbvio que existem limites para a "magia" de Tim: uma agulha através do seu coração provavelmente o mataria na hora; Mas isso de forma alguma deveria diminuir nosso espanto em relação ao fenômeno, assim como nossa curiosidade genuína em procurar compreendê-lo.

[6] Neste meu artigo já relativamente conhecido, faço um contraponto entre as alegações de James Randi acerca do suposto “charlatanismo” do médium João de Deus, e o estudo estritamente científico da AMB sobre as cirurgias em si. Que cada um decida por si mesmo quem parece ter maior razão.


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Crédito das imagens: [topo] Heritage Images/Corbis (poster do século XIX anunciando as famosas pílulas da vida, supostamente criadas por Thomas Parr, que supostamente viveu até os 152 anos porque supostamente as tomava - um exemplo da extensão do efeito placebo na história recente); [ao longo] History Channel (trecho do programa sobre Tim Cridland)

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26.4.12

Um efeito estranho, parte 1

Texto de Mario Beauregard (Ph.D.) e Denyse O’Leary em "O cérebro espiritual” (Ed. Best Seller) – trechos das pgs. 181 a 184. Tradução de Alda Porto. As notas ao final são minhas.

Alguns afirmam que o efeito placebo é mítico, que só se aplica a crédulos, ou até que usá-lo é antiético [1]. Que tal isso? Os mitos populares sobre placebos incluem as ideias de que funcionam apenas durante três meses, ou que só determinado tipo de personalidade reage a eles. Não há limite específico algum para a maioria dos efeitos placebo, nem de “paciente que reage a placebo”.

Mas, acima de tudo, o efeito placebo tem sido uma dificuldade e um problema para estudos sobre [novas] drogas [...]. O jornalista científico Alun Anderson sugere: “Confiança e crença são muitas vezes vistas como negativas na ciência, e descarta-se o efeito placebo como uma espécie de ‘fraude’, porque depende da crença do paciente. Mas a verdadeira maravilha é que a fé pode funcionar”. Anderson identificou uma questão chave. Uma materialista talvez ache que o efeito placebo é uma espécie de fraude exatamente porque indica que a mente pode mudar o corpo [2].

Em consequência, as explicações materialistas do efeito placebo muitas vezes são incoerentes. Por exemplo, quando descrito como a maneira pela qual “o cérebro manipula a si mesmo” [3]. Como vimos, o efeito placebo é de fato disparado pelo estado mental do paciente. Em outras palavras, depende inteiramente do estado de crença dele. Um processo inconsciente iniciado pelo cérebro para manipular a si mesmo (ou qualquer outra parte do corpo) é um processo de cura natural, não o efeito placebo. Por exemplo, houvesse o cérebro dos pacientes que sofrem de doença de Parkinson conseguido manipular a si mesmo e assim curar-se, não se exigiria tratamento algum, placebo, farmacêutico, cirurgia simulada ou real [4].

[...] Desde que começaram os estudos controlados do placebo, uma questão econômica fundamental confundiu o estudo do verdadeiro papel de seu efeito na manutenção da saúde. Não se pode patentear a marca esperança. Se um dado remédio “não age melhor que o placebo”, é uma má notícia para os fabricantes desse medicamente, mesmo que 85% do grupo de controle e 85% do grupo experimental melhorem [5]. A opinião atual de que os estudos mentais são importantes, mas as drogas são poderosas, obstruiu o estudo correto do efeito placebo.

Grande parte de medicina pré-científica dependia do efeito placebo. O fato de esse efeito tantas vezes funcionar ajuda a entender porque muitas pessoas mais tradicionais relutam em abandonar a medicação pré-científica, apesar de suas doutrinas questionáveis e, muitas vezes, perigosas. Lamentavelmente, os clínicos pré-científicos com frequência atribuem seu poder às doutrinas que abraçaram, quando, na verdade, deveriam atribuí-lo aos efeitos que aprenderam por experiência e erro [6]. A pesquisa médica científica começa a ajudar a resolver o dilema aceitando a natureza mental do efeito placebo. Pode-se estudá-lo como um efeito autêntico e, com o poder direcionado, talvez até aumentado, o que é muito mais produtivo do que se continuássemos a tratá-lo apenas como uma chateação.

O perfeito entendimento do efeito placebo também pode evitar algumas óbvias polêmicas atuais. Por exemplo, talvez fosse mais fácil resolver as questões éticas que cercam o uso de células-tronco embrionárias no tratamento da doença de Parkinson se os efeitos placebos explicassem a maior parte do seu valor atribuído. De modo semelhante, tratamentos polêmicos em algumas partes do mundo envolvem as partes do corpo de espécies em risco de extinção. Esses tratamentos devem quase todo seu efeito à crença do paciente na eficácia do tratamento exótico. Uma clara demonstração desse fato pode ajudar nos esforços de conservação [7].

Como vimos, muitas aplicações clínicas fluem de uma visão não materialista da neurociência. Quando tratamos a mente como capaz de mudar o cérebro, podemos tratar doenças cujo tratamento antes era difícil ou impossível. Mas também precisamos de um modelo de como a mente age no cérebro.

» A seguir, o que se especula sobre a interação da mente com o cérebro...

***

[1] Este post é centrado no efeito placebo, um fenômeno muito conhecido e descrito pela medicina (inclusive a medicina dita convencional), mas que na prática é tão pouco compreendido quanto a própria mente humana, a grande catalisadora desse tipo de efeito (pelo que se acredita). Para saber mais, consulte este meu artigo: Placebo-nocebo.

[2] Para os materialistas eliminativos é consideravelmente mais complexo: se, como eles sugerem, a mente é apenas uma ilusão persistente, como exatamente ela muda o corpo?

[3] Jon-Kar Jubieta disse assim numa reunião sobre o efeito placebo, realizada pela Sociedade de Neurociência americana, em 2005: “Essas descobertas podem ter tremendo impacto na medicina, além de ajudar-nos a entender como o cérebro manipula a si mesmo”.

[4] O que ele está querendo dizer, e muitas vezes é mal compreendido, é que o efeito placebo não ocorre naturalmente, e sim como parte de um tratamento. É óbvio que, tal qual já dizia Hipócrates, “são nossas forças naturais que curam nossas doenças”, e nesse sentido a saúde sempre surgirá onde a doença não mais se faz presente. Mas, por outro lado, existe uma série de tratamentos não convencionais, associados pela medicina tradicional ao efeito placebo (ex: acupuntura, cirurgias espirituais, florais, reiki, etc.), que parecem efetivamente auxiliar na catalisação do efeito, de modo que, sem eles, o efeito não ocorreria, ou não ocorreria com a mesma eficiência.

[5] Ultimamente não é mais nenhuma novidade no ramo dos remédios para depressão que, conforme inúmeras pesquisas vêm demonstrando, na grande maioria dos casos eles não tenham nenhum efeito consideravelmente maior do que o “puro” efeito placebo, excluindo-se os casos de depressão severa, que têm medicamentos bastante específicos (e, nesses casos, sim, funcionam melhor do que placebos). A despeito disso, existem muitas pessoas no mundo desenvolvido que sofrem de depressão não severa, e compram mensalmente remédios caros que, na realidade, efetivamente funcionam tanto quanto pílulas de farinha.
Sobre o assunto, ver, por exemplo: revista Mente e cérebro (Scientific American/Duetto) nº226 – Antidepressivos são mesmo eficazes? (que foi matéria de capa); e revista Galileu (Globo) nº247 – Antidepressivos funcionam? Veja também esta entrevista com o psicólogo Irving Kirsch.

[6] Em outras palavras, o Dr. Beauregard não está nem um pouco interessado em explicações vagas para curas espirituais, como “Deus te curou” ou “o espírito da Senhora de Branco veio e te abençoou” – para ele, tais explicações são tão inúteis quanto a materialista (ver nota nº3 acima).

[7] Vamos citar um exemplo bem claro: chifres de rinoceronte são apreciados no Oriente como afrodisíacos, causando sua caça e risco de extinção (pois a carne não é sequer aproveitada). Ora, o chifre em pó conterá grandes quantidades de cálcio e fósforo, o que pode realmente aumentar o vigor de pessoas com deficiência desses minerais. Na posse desse conhecimento, algum antigo consumidor de chifres de rinoceronte em pó poderá, portanto, comprar vitaminas com cálcio e fósforo no lugar, auxiliando na preservação da espécie. Este é um caso onde já se tem uma boa ideia do que ocorre, mas muitos outros ainda caem na zona “nebulosa” do efeito placebo, e ainda não são compreendidos.

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Crédito da foto: Jed Share and Kaoru/Corbis (banca com venda de ervas e afrodisíacos em geral, no Marrocos)

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13.2.12

Que é o efeito placebo?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Hipócrates, “pai da medicina”, dizia que “nossas forças naturais, as que estão dentro de nós, serão as que curarão nossas doenças”. Ele acreditava que a cura estava ligada ao tempo e ao tratamento, mas não se podia prometê-la: nossa saúde dependia muito de nossa vontade de melhora.

Muitos tratamentos “alternativos”, como a acupuntura, despertam polêmica por não se saber exatamente como funcionam, ao menos no Ocidente. A melhora aparentemente inexplicável conquistada através de tratamentos complementares à medicina tradicional muitas vezes é creditada a “crença da melhora”, por vezes chamada de efeito placebo [1].

Não conhecemos muito acerca do efeito placebo, mas os cientistas dizem ser quase certo que passe pela mente humana. Nesse caso, falta explicar como a acupuntura veterinária obteve tanto sucesso nos últimos anos, mesmo no Ocidente [2]. Em suma: se mesmo os animais parecem se beneficiar do efeito placebo, o que seria este efeito exatamente?

[Mori] Já dizia o filósofo alemão Rolf que “todos os animais têm almas, [basta] olhar em seus olhos”. Ele se referia ao Urseele, a alma primeval, “o melhor que há em nós”. Há que se notar a propriedade e relevância dos pensamentos de Rolf, dado que ele era um cachorro, especificamente um terrier Airedale de dois anos de idade.

Ao contar esta história, não pretendo ridicularizar a acupuntura veterinária, pelo contrário, convido todos sim a conhecer melhor a saga de Rolf – Jan Bodeson publicou um livro recente sobre o tema, do qual há um excerto disponível em inglês mas, ainda mais relevante pelo contexto histórico é a obra de Henny Kindermann, publicada em 1922 sobre “O Pensamento a Fala dos Animais”, ou especificamente sobre Lola, filha de Rolf e também um prodígio. Uma tradução ao inglês está disponível completa pelo Projeto Gutenberg.

Logo no início, Kindermann comenta o então recente caso do cavalo Hans. Antes do canino Rolf, o equino Hans demonstrou impressionante capacidade matemática, até que em uma investigação histórica o psicólogo Carl Stumpf demonstrou que o cavalo só acertava a maior parte das respostas quando aqueles que faziam as perguntas sabiam quais seriam as respostas corretas e podiam ser vistos.

O cavalo não sabia aritmética de fato. Para comunicar as respostas ele batia seu casco no chão e apenas observava a pessoa fazendo as perguntas [3]. Pfungst, um perspicaz assistente de Stumpf, notou que pouco antes do número de batidas correto as pessoas exibiam – involuntariamente – maior tensão, até que no número exato de batidas a tensão era aliviada. O Esperto Hans percebia os sinais involuntários de linguagem corporal e parava de bater o casco, tornando-se um gênio que parecia saber tanto quanto os humanos que lhes faziam perguntas. Mas não mais.

A maior lição do que se tornou conhecido como “efeito Hans Esperto” é que os sinais corporais são exibidos involuntariamente. Mesmo após Pfungst descobrir como o cavalo conseguia fazer seu espetáculo, e mesmo ciente de que poderia estar sinalizando ao animal, ainda assim a linguagem corporal podia denunciar suas expectativas. O experimentador pode afetar o experimento das formas mais inesperadas e que devem ser levadas em consideração.

Isolar e controlar melhor estes fatores é sempre um desafio em qualquer experimento científico. Se ele é um problema com animais, é um ainda maior com humanos. Para lidar com isso, duas técnicas são especialmente importantes: a randomização, para impedir que dados sofram uma seleção involuntária, por exemplo; e os testes duplo-cego, onde tanto experimentadores quanto sujeitos desconhecem se são parte do grupo de controle ou não.

Assim, e finalmente chegamos ao ponto, para saber se a homeopatia ou a acupuntura realmente funcionam, pode-se imaginar que testes com animais sejam os mais seguros, mas como Rolf e Hans demonstram, não é o caso. O que sabemos sobre os animais geralmente passa pela interpretação de um ser humano. Mais importante que animais são protocolos rigorosos, randomizados, duplo-cegos, com amostras apropriadas.

Uma das mais extensas e recentes meta-análises sobre a homeopatia, levando em conta este rigor, concluiu justamente que os efeitos clínicos da homeopatia são compatíveis com efeitos placebo. Outro estudo especialmente revelador sobre a acupuntura demonstrou que não é preciso usar agulhas penetrando a pele, tampouco seguir as supostas linhas de energia no corpo que acupunturistas se orgulham em aprender: “acupuntura de faz-de-conta” com palitos de dente cutucando pontos aleatórios do corpo mostrou os mesmos efeitos benéficos. Efeitos placebo, por definição.

Há mesmo discussão sobre se o efeito placebo em geral seria tão poderoso: seu efeito seria maior justamente nas moléstias físicas relatadas subjetivamente pelos pacientes. Mudanças bioquímicas mais objetivas seriam menos acentuadas, sugerindo o efeito placebo como conhecido na literatura científica pode estar ainda sujeito a nuances experimentais tão básicas como o efeito Hans Esperto.

Neste contexto, não é surpresa que exista confusão e um ou outro estudo pretendendo demonstrar a validade desta ou daquela prática “alternativa”. E para quem ria do cão filósofo, bem, ninguém menos que Carl Sagan dedicou longas linhas às impressionantes habilidade lingüísticas de chimpanzés, no que hoje é uma linha de pesquisa vista com mais ceticismo – interpretada como resultado de efeitos não tão diferentes do Esperto Hans.

E Sagan ganhou um Pulitzer por tal livro. Enquanto cachorros, cavalos ou chimpanzés não escreverem livros sem a ajuda de nenhum facilitador humano e a homeopatia ou acupuntura não fornecerem cura comprovada para uma única doença que não possua remissão espontânea, eu recomendaria cautela.

[Del Debbio] A questão do Efeito Placebo é um dos assuntos que mais fascinam e, ao mesmo tempo, mais causam controvérsias entre a classe científica. Apesar de todo o conhecimento que a ciência hoje possui, o efeito placebo ainda permanece um mistério e todo artigo sobre ele ainda é bastante incompleto e controverso. Seu bom ou mau uso pode significar uma vida, principalmente enquanto seus efeitos são pouco conhecidos a fundo e seu funcionamento, isto é, como realmente age o caminho da cura, ainda é alvo de muitas especulações, especialmente se quisermos reduzi-lo apenas ao Plano Físico.

Hoje, a definição oficial é que o Placebo é uma substância inerte ou inativa, a que se atribuí certas propriedades (como as de cura de uma doença) e que, ingerida, pode produzir um efeito que suas propriedades não possuem. Muitas pessoas que ingerem, por exemplo, um pedaço de papel dobrado meticulosamente e contendo uma oração, revelam melhoras de uma doença, imaginando ter tomado um remédio feito especialmente para essa doença. No plano físico, não há explicação aparente. Pela lógica, a cura não deveria ter se realizado. Para os hermetistas, diz-se que a cura ocorreu no Plano Mental e Emocional, e se propagou até materializar-se no Plano Físico, resultando na cura.

Mas o placebo não existe apenas em forma de uma substância. Uma cirurgia espiritual kardecista ou a intervenção de uma entidade da Umbanda, por não poder ser testada pelos métodos científicos atuais, pode ser chamada de placebo. A pessoa operada sente o corte, sente a sutura e fica curada do mal que a afligia sem passar por uma cirurgia convencional. Tais casos, no entanto, são raros demais para serem exaustivamente testados em laboratório, mas temos muitos casos documentados como, por exemplo, o médium João de Deus.

Uma terapia também faz às vezes de um placebo, onde às técnicas dessa terapia se atribui um tipo de cura e isso realmente acaba acontecendo. As chamadas terapias alternativas, como os florais, os cristais, a radiestesia e muitas vezes a própria psicoterapia ainda são consideradas por uma grande parte da ala científica como um placebo, embora a cada dia existam mais e mais trabalhos científicos demonstrando a eficácia de técnicas como florais, acupuntura e Reiki, especialmente em animais.

A resposta placebo é uma pedra fundamental, infelizmente rejeitada na cura mente-corpo. Histórias de cura espontânea ou consideradas “milagrosas” são menosprezadas pela ciência, devido à nossa mente racional, como resultados não confiáveis, quando deveriam ser estudadas a fundo.

Em seu livro “A Psicobiologia de Cura Mente-Corpo”, Dr. Ernest Rossi diz que a premissa da ciência, neste caso, se aproxima de algo como "não é confiável, portanto não é real". Ele explica que, para uma parte da ciência, que tem uma abordagem focada na “venda de alopatia”, o efeito placebo é simplesmente um "fator aborrecido", quando o bem estar mental e emocional do paciente é tão importante quanto matar bactérias.

Se o chamado efeito Placebo realmente tem um papel fundamental no desempenho dos sistemas simpático, parassimpático e nos outros sistemas do organismo, a expectativa de cura pode ser considerada como uma espécie de “certificado de garantia” para o funcionamento do corpo como algo completo (como estudam os hermetistas). De acordo com a teoria espiritualista, o locus de cura está dentro do organismo do próprio indivíduo, bastando ver que algumas doenças, mesmo sem remédio, também se curam espontaneamente. Para outras, mais graves e que já estão plenamente manifestadas no Plano Físico, a cura só será atingida através de alopatia (a solução para este problema, infelizmente, deveria ter sido a prevenção e uma vida mais saudável e a doença é o karma que se adquire por estragar o corpo com maus hábitos, nesse caso). É importante salientar que não se pode generalizar de maneira nenhuma nessa questão, sendo cada caso um caso específico (o que, infelizmente, dificulta a avaliação em laboratórios, causando um círculo vicioso do qual estamos emergindo somente agora).


» Ver todos os posts desta série


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[1] Gostaria de deixar claro que não defendo os tratamentos alternativos em substituição aos tradicionais, mas não vejo nenhum problema em usá-los como tratamento complementar, dependendo de cada caso específico.

[2] Sobre o assunto, gostaria de citar o estudo da Associação Médica Brasileira - Acupuntura: bases científicas e aplicações; Assim como esta reportagem do Globo Repórter (30/06/2006), da TV Globo.

[3] No caso dos cachorros citados acima, eles “escreviam” através de batidas de uma das patas dianteiras, de onde seus donos associavam letras do alfabeto – de acordo com o número de batidas em sequencia.

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Crédito da foto: Portal ANDA/Globoesporte (retirada deste artigo da CRMV-AL)

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11.1.12

Neuroteologia, parte 2

« continuando da parte 1

A "neuroteologia", também conhecida como “bioteologia” ou neurociência espiritual, estuda os processos cognitivos que produzem experiências subjetivas tradicionalmente categorizadas como místicas (ou religiosas) e as relaciona com padrões de atividade no cérebro, tentando desvendar como e porque elas evoluíram nos humanos, bem como seus benefícios.

Ceticismo unidirecional

Em 1991 Susan Blackmore recebeu o CSICOP Distinguished Skeptic Award, uma espécie de “oscar do ceticismo”, mas nem sua fama de cética lhe fez pensar com mais cuidado nas declarações que fez após experimentar o capacete de deus. Afinal, seria muito bom que ele realmente funcionasse... Pelo menos para ela, do “time dos materialistas científicos”.

Mas, afinal, porque o ceticismo, a genuína dúvida científica, parece ocorrer em apenas um sentido? Porque o ceticismo da Academia é unidirecional? Como Susan e tantos outros “céticos distintos” caíram como patinhos no “conto do capacete” sem sequer parar para pensar nas inúmeras falhas do experimento? Diga-se de passagem, as mesmas falhas que o ceticismo genuíno aponta em pesquisas espiritualistas:

Subjetividade vs. objetividade
A descrição de uma experiência genuinamente mística ou religiosa não poderá nunca ser completa somente pelo uso da linguagem, das palavras, que nada mais são do que cascas de sentimentos. Sensações subjetivas, como reconhecer a “vermelhidão” da cor vermelha, o “adocicado” de um morango silvestre, a “dor na alma” de uma separação traumática, ou ainda o contato com uma realidade que transcende nossa compreensão, por sua própria natureza pertencem ao reino subjetivo, psicológico, que não parece ser compatível com a objetividade exigida pela experimentação científica moderna... Porém, ainda mesmo que ignoremos este primeiro item, passamos então para as falhas do experimento em si...

Não houve duplo-cego
Para evitarmos problemas com o sugestionabilidade da mente dos pacientes desse tipo de experimento, em que relatos subjetivos são a única “materialidade” dos resultados, é padrão que o experimento seja feito em duplo-cego, ou seja: (1) os pacientes da experiência em si e o grupo de controle [1] não podem saber nada ou quase nada acerca do que se trata o estudo; (2) os pacientes não podem saber se fazem parte do grupo experimental ou do grupo de controle; e (3) os condutores da experiência se separam em pares: o primeiro condutor, não informado acerca do objetivo do estudo, interage com os pacientes; o segundo condutor liga e desliga os campos magnéticos do capacete de deus sem informar ninguém – nem o primeiro condutor, nem quaisquer pacientes.
No caso dos experimentos do Dr. Parsinger através de décadas, ele mesmo ou colaboradores próximos conduziam o experimento, não havia duplo-cego algum.

Havia acesso a informações prévias dos pacientes
A grande maioria dos pacientes do experimento de Parsinger precisava preencher “fichas cadastrais” onde informavam acerca de experiências paranormais pregressas, o que fazia parte do seu “método” para avaliar se os seus lobos temporais eram “sensíveis” o suficiente para poderem ser afetados pelos campos do capacete de deus. Além destes, muitas personalidades reconhecidamente céticas passaram pelo experimento (como Dawkins e Blackmore), talvez numa tentativa do Dr. Parsinger de demonstrar que o efeito dos campos persistia independente da crença do paciente...
Ocorre que esses tais questionários prévios obviamente já sugestionavam a mente dos pacientes. Com ênfase no obviamente.

Havia uma “midiatização” dos experimentos
Desde meados da década de 80, quando Parsinger iniciou seus experimentos, a mídia “especializada” foi aos poucos se entusiasmando cada vez mais com o tal capacete de deus... Afinal, não se chamava “capacete de deus” a toa. Esse tipo de coisa interessa a mídia porque vende mais revistas e livros, interessa aos leigos por se tratar de um assunto que naturalmente desperta a curiosidade humana desde os primórdios da civilização; e, sobretudo, interessava ao Dr. Parsinger porque alavancava a sua fama no ramo científico, e provavelmente lhe rendia mais verbas para continuar a pesquisa.
Mas a “midiatização” não interessa a ciência genuína, que deve tentar permanecer o mais imparcial possível às expectativas alheias, até mesmo porque expectativas são subjetivas, e a ciência é objetiva.
Além disso, mesmo que os questionários prévios feitos aos pacientes fossem cada vez mais cuidadosos em não revelar a natureza exata dos experimentos, bastava pesquisar na internet, ou ler artigos na mídia científica, para saber exatamente o que Parsinger pesquisava.

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Em Dezembro de 2004, uma nota discreta da revista Nature News relatou que uma equipe de pesquisadores da Uppsala University, na Suécia, chefiada por Pehr Granqvist, reproduziu a experiência de Parsinger testando 89 universitários, alguns dos quais foram expostos efetivamente aos campos magnéticos, enquanto outros faziam parte apenas do grupo de controle. Além disso, a experiência foi feita em duplo-cego, sem questionários prévios aos pacientes e, certamente, sem nenhuma mídia “especializada” acompanhando cada passo dos experimentos.

Dentre os universitários haviam estudantes de teologia e psicologia, distribuídos indistintamente entre o grupo a ser experimentado e o grupo de controle. Durante a avaliação dos resultados, a equipe de Granqvist não conseguiu detectar que o magnetismo teve qualquer efeito perceptível. Não foram encontradas evidências de um efeito de “presença sentida” de campos magnéticos fracos. A característica que determinou significativamente os resultados foi a personalidade. Dos três indivíduos (de 89!) que relataram intensas experiências místicas, dois eram membros do grupo de controle (não receberam campo magnético algum). Os que foram classificados como altamente suscetíveis, com base em um questionário preenchido após o estudo ter sido concluído [2], relataram a ocorrência de experiências “estranhas” enquanto usavam o capacete, independente de o campo magnético estar ligado ou não.

A despeito da baixíssima divulgação desta pesquisa sueca, no meio científico o capacete de deus continuou sendo tratado como uma “hipótese com diversas falhas”, e então lentamente a mídia abandonou o Dr. Parsinger e seu capacete. Susan Blackmore pareceu bastante decepcionada:

“Quando fui ao laboratório de Parsinger e me submeti a seus procedimentos, vivi as mais extraordinárias experiências pelas quais já passei. Ficarei surpresa se acabarem se revelando um efeito placebo.”

No que tange a decepção de Susan, ao menos temos uma boa notícia para ela: a Academia tampouco faz vaga ideia do que vem a ser exatamente o efeito placebo [3].

No que tange a via única de seu ceticismo, que parece funcionar apenas contra os experimentos espiritualistas, podemos somente lamentar... Assim como lamentamos que toda a disciplina da “neuroteologia” seja muito mais uma pseudociência fincada no sonho da comprovação do materialismo científico, do que uma ciência genuína, que ao menos tente ser imparcial [4].

Pois o que não faltam são pesquisas científicas que recorrem a certas explicações espiritualistas – muitas delas “estranhas” a Academia –, mas que são muito bem conduzidas, muito mais do que as do Dr. Parsinger com seu capacete “miraculoso”. Não quer dizer que tenham provado nada, o problema é a falta de atenção que recebem da mídia científica, enquanto qualquer doutor afirmando que descobriu a Deus em um gene, em algum “módulo mental”, ou nos campos magnéticos de um capacete, ganhe todos os holofotes para si.

» Na continuação, alguns experimentos “estranhos”...

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Leitura recomendada: O cérebro espiritual, por Mario Beauregard (Ph. D.) e Denyse O’Leary. Editora Bestseller. Particularmente o Cap.4.

[1] Em experimentos científicos do tipo é comum a divisão do grupo a ser estudado em dois: um grupo passará efetivamente pela experiência em si, o outro é apenas um grupo de controle, onde o capacete de deus não terá campo magnético algum ligado. Assim é possível verificar o efeito placebo, ou o efeito que se deve teoricamente apenas a imaginação sugestionável dos pacientes, e não ao fato de estarem ou não usando um capacete que emite campos magnéticos.

[2] Ao contrário do Dr. Parsinger, que usava um método próprio para avaliar seus pacientes, a equipe de pesquisadores suecos usou métodos largamente utilizados por outros pesquisadores em todo mundo, tais como a escala de misticismo Hood e a escala de absorção de Tellegen.

[3] Ver meu artigo, “Placebo-nocebo”.

[4] Embora a imparcialidade científica total seja bem mais uma lenda do que uma realidade. Ver o que Miguel Nicolelis, um grande neurocientista brasileiro, tem a dizer sobre o assunto.

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Crédito das imagem: Arthur Ash/Corbis

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23.6.09

Placebo-Nocebo

Hipócrates, pai da medicina, dedicou sua vida ao estudo de formas racionais para o tratamento de doenças. Era avesso a superstição e as práticas de "barganha" com os deuses em busca de curas milagrosas. Dizia que "tudo acontece conforme a natureza", a cura "está ligada ao tempo e às vezes também às circunstâncias", e por isso mesmo nenhum médico poderia prometer cura, e sim tratamento: "Tuas forças naturais, as que estão dentro de ti, serão as que curarão suas doenças".

A medicina moderna, no entanto, parece ter a tendência a analisar o corpo como uma máquina. Fascinados pelos avanços da tecnologia, talvez tais médicos pensem que a maquinaria avançada possa fazer todo diagnóstico e tratamento quase que no "piloto automático", e que eles devem tão somente estar muito bem informados acerca das últimas descobertas das ciências médicas... Acupuntura? Homeopatia? Medicina-alternativa? Relação amorosa entre médico e paciente? Tudo isso se resume a pseudociências que não tem quase nenhum efeito no tratamento como um todo. Os poucos que admitem algum efeito, o colocam na conta do fenômeno placebo-nocebo.

Em qualquer tratamento farmacológico, os efeitos terapêuticos relacionam-se a dois tipos de fatores: específicos (dose, duração, via de administração, farmacodinâmica, farmacocinética, interações medicamentosas, etc.) e não específicos (história e evolução natural da doença, regressão à média, aspectos sócioambientais, variabilidade inter e intraindividual, desejo de melhora, expectativas e crenças no tratamento, relação médico-paciente, características não-farmacológicas do medicamento, etc). O fenômeno placebo-nocebo faz parte destes últimos.

Etimologicamente, o termo placebo se origina do latim placeo, placere, que significa agradar, enquanto o termo nocebo se origina do latim nocere, que significa inflingir dano. De forma generalizada, entende-se efeito ou resposta placebo como a melhoria dos sintomas e/ou funções fisiológicas do organismo em resposta a fatores supostamente inespecíficos e aparentemente inertes (sugestão verbal ou visual, comprimidos inertes, injeção de soro fisiológico, cirurgia fictícia, etc.), sendo atribuível, comumente, ao simbolismo que o tratamento exerce na expectativa positiva do paciente.

Para muitos céticos, basta taxar toda melhora ou cura efetiva conseguida através de tratamentos da medicina-alternativa como efeito placebo (como é mais conhecido o fenômeno) para se livrarem, como que num piscar de olhos, do problema de ter de explicar tais fenômenos fora do âmbito científico tradicional. Ora, mas não basta apenas classifica-los como placebo, é preciso compreender o que exatamente é o fenômeno em si. Do contrário, ficará parecendo, para quem tem a compreensão um pouco mais profunda, que os céticos estão apenas afirmando algo como: "Não fazemos a menor idéia de como isso ocorre, mas é um efeito que chamamos de placebo, e por enquanto basta-nos saber disso." - Ou seja, é a mesma coisa que não afirmar objetivamente nada.

Felizmente, também há céticos que se aprofundam um pouco mais no problema: "Médicos em um estudo eliminaram verrugas com sucesso, pintando-as com uma tinta colorida e inerte, e prometendo aos pacientes que as verrugas desapareceriam quando a cor se desgastasse. Em um estudo de asmáticos, pesquisadores descobriram que podiam produzir a dilatação das vias aéreas simplesmente dizendo às pessoas que elas estavam inalando um broncodilatador, mesmo quando não estavam. Pacientes sofrendo dores após a extração dos dentes sisos tiveram exatamente tanto alívio com uma falsa aplicação de ultrassom quanto com uma verdadeira, quando tanto o paciente quanto o terapeuta pensavam que a máquina estava ligada. Cinqüenta e dois por cento dos pacientes com colite tratados com placebos em 11 diferentes testes, relataram sentir-se melhor -- e 50 por cento dos intestinos inflamados realmente pareciam melhores quando avaliados com um sigmoidoscópio." - Tudo isso foi retirado de um artigo cético sobre o assunto.

Um dos maiores placebos da história é aquele que diz que a vitamina C evita resfriados. Quem não toma vitamina C para evitar resfriados? Quem não conhece alguém que toma? No entanto, tudo indica que qualquer melhora nesse sentido é causada muito mais por nossa crença na melhora do que por algum fator químico da própria vitamina C. Então, após todos esses anos, será que ninguém parou para se perguntar: "Então se a vitamina C não trata a gripe comum, o que diabos trata?"

Não sabemos exatamente como o fenômeno funciona, mas temos quase certeza que seu mecanismo passa pela mente. Nesse sentido, se faz necessário voltar os olhos para a milenar medicina oriental, e sua defesa de que praticamente toda doença tem origem na mente, ou no espírito, sendo o efeito físico apenas o estágio final de um processo que conhecemos muito pouco na chamada "medicina moderna". E não seria extremamente desconcertante descobrirmos que, talvez no final, a medicina altamente tecnológica esteja apenas queimando dinheiro em tratamentos avançados para doenças que poderiam ser evitadas de formas um tanto mais simples, humanas, econômicas? Ora, era Hipócrates quem dizia que são nossas própria forças quem curam nossas doenças, o tratamento visa principalmente, estimular nosso ânimo para a melhora... Ou, em outras palvaras, "mente sã, corpo são".

A acupuntura, por exemplo, é amplamente utilizada na veterinária. Porque ninguém questiona a acupuntura veterinária, mas questiona a acupuntura em humanos? O princípio do tratamento não é o mesmo? - Obviamente que a medicina-alternativa não serve para todo tratamento, e nem deve ser utilizada em substituição a convencional, mas em sua complementação. Na saúde pública brasileira, por exemplo, há relatos de experiências de substituição de analgésicos (para a dor) por seções de acupuntura, com enorme sucesso: os analgésicos saem muito mais caro, e se as pessoas conseguem deixar de sentir dor apenas com acupuntura, isso é uma economia imediata da verba pública. Além disso, a acupuntura tem bem menos contra-indicação do que a grande maioria dos remédios [1].

Patch Adams, um dos maiores médicos de nosso tempo, é provavelmente quase que ignorado nos grandes centros acadêmicos. Mas sua terapia do amor é uma enrome esperança para os que defendem que a medicina seja humanizada, e passe a utilizar a tecnologia em seu favor, e não continue como que sendo utilizada pela tecnologia, confundindo homens com máquinas. Seria injusto generalizar e afirmar que toda doença tem cunho psicológico, e que nosso humor é o único responsável por nossas enfermidades. Por outro lado, sabemos que a dor é vital para a melhora, e que sem a capacidade de sentir dor, provavelmente estaríamos extintos a muito tempo. Ora, existem dores de origem claramente física, como a dor decorrente de uma contratura muscular, ou de um vírus transmitido por um mosquito, por exemplo... Mas em relação a grande maioria das dores que nos acometem na vida, não podemos afirmar se são apenas físicas, ou emocionais - e, se forem primordialmente emocionais, psicológicas, mentais, é da mente que devemos tratar primeiro, e não do corpo. Do contrário, corremos o risco de ficarmos tal qual aqueles que tentam tapar a luz do Sol com a peneira, ou retirar água do poço com um balde furado.

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[1] Estudes recentes chegaram inclusive a resultados curiosos onde a acupuntura "falsa" obteve resultado mais positivo do que a medicina tradiconal, e tão positivo quanto a acupuntura "real". Fonte: Acupuntura "falsa" supera medicina comum em teste (Folha de S.Paulo).

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Artigos científicos recomendados:

» Bases psiconeurofisiológicas do fenômeno placebo-nocebo: evidências científicas que valorizam a humanização da relação médico-paciente.

» Acupuntura: bases científicas e aplicações.

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Crédito da foto: Wikipedia (Patch Adams)

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12.6.09

Uma breve história da magia, parte 3

continuando da parte 2...

Ritual da irradiação mental de certas cores para a auto-cura de certas enfermidades

Sei que havia prometido um ritual mágico na terceira e última parte desse breve estudo, mas é necessário que antes eu defina alguns conceitos:

1- Por ritual entendo, em última instância, uma série de procedimentos mentais que, de acordo com nossa definição de magia - "a ciência de se manipular símbolos, palavras ou imagens para se alcançar estados alterados de consciência" - visa a indução de nossa própria consciência a um estado alterado. Não é estritamente necessário o uso de indumentárias (físicas) como mantos, velas, imagens de santos, etc; Isso pôde ser comprovado inclusive por magistas renomados como o próprio Aleister Crowley, que já completou certos rituais, por força das necessidades, apenas pela disciplina da mente, por assim dizer. Obviamente que certos rituais são muito complexos para que nossas mentes consigam realiza-los sem nenhum auxílio de simbologia através de itens materiais, mas felizmente o ritual que apresento é muito simples e pode ser feito apenas com o pensamento corretamente direcionado.

2- Por irradiação mental entendo uma espécie de mentalização de certos símbolos, em certos contextos, e em certos graus de foco mental (quanto maior o foco, maior a eficácia, mas isso requer obviamente maior disciplina e experiência com a prática). Não se trata, certamente, de nenhum irradiação no sentido físico-científico do termo. Inclusive neste ritual em específico a irradiação estará direcionada ao próprio corpo do ativador do ritual.

3- Por cores entendo exatamente nossa interpretação simbólica das cores. Pela ciência sabemos que cores não existem, e sim espectros da luz, pois que tudo que chamamos de "cor" são frequências específicas de onda dos fótons (quantas de luz, ou do eletromagnetismo). Nossa interpretação - poderia-se dizer, subjetiva - dessas cores é essencialmente uma simbologia mental. Qual a vermelhidão do vermelho? Isso não pode ser medido objetivamente, depende da subjetividade de cada um. Além disso, para os daltônicos o vermelho certamente será algo muito distinto dos que não tem esse tipo de característica na visão. Disso se tira que o importante é o conceito que aplicamos mentalmente a uma cor, e não a cor em específico. Neste ritual o azul é o catalizador da cura, mas contanto que utilizem o mesmo conceito ao pensarem em qualquer outra cor, podem usa-la no lugar do azul sem problema algum (o azul seria apenas a cor tradicional utilizada para esse efeito, segundo a cromoterapia).

4- Por auto-cura entendo a própria capacidade natural da mente e do corpo de curarem a si próprios. Como dizia Hipócrates, pai da medicina: "tuas forças naturais, as que estão dentro de ti, serão as que curarão suas doenças". Por isso também nenhum médico promete cura, e sim tratamento. Este ritual visa o tratamento por "mentalizações de certos conceitos em forma de certas cores"; Não poderia ser resumido de melhor forma, acredito eu... A pergunta cética "é preciso acreditar para que funcione?" sequer faz sentido aqui, pois antes é preciso compreender para que funcione. É a própria compreensão de si mesmo, o próprio foco mental, que cataliza a cura. Se você já não acredita, de antemão, que o ritual possa trazer-lhe qualquer efeito benéfico, é melhor nem tentar realiza-lo. No entanto, talvez o estudo do efeito placebo, conceito científico, lhe traga maior luz sobre o que ocorre aqui - visto que, para a ciência, a mente tem o poder de cura quando acredita nesse poder; Falta-lhe, entretanto, a compreensão do mecanismo pelo qual o efeito placebo funciona exatamente.

5- Finalmente, vale dizer que aprendi esse ritual inicialmente com a médium Narci Castro de Souza (lembrem-se que minha definição de ritual mágico é abrangente, conforme dito anteriormente, e engloba desde o xamanismo às missas cristãs). Porém, adaptei-o a minha maneira, de modo que provavelmente pouco tem a ver com o original, exceto pela essência do que pretende realizar.

O ritual passo a passo
(Vale lembrar ainda que rituais mágicos não devem servir de "comprimido" para qualquer mero desconforto ou pequena enfermidade. Mesmo em se tratando de remédios físicos [como um anti-inflamatório], a dosagem exagerada fará com que o organismo não reaja mais a química do remédio; O mesmo ocorre na prática exagerada, e consequentemente sem o foco devido, de rituais mágicos)

A- De preferência, encontre um local (físico) tranquilo para a prática. Pode ser algum lugar sem ruídos de sua própria casa, algum jardim ou parque bucólico, uma praia vazia, etc. Não é necessário o uso de música, mas se está acostumado a usa-la para meditar ou relaxar, tanto melhor.

B- Feche os olhos e respire profundamente por algum tempo (depende de sua capacidade de relaxar, assim que conseguir esquecer "o mundo lá fora" por alguns instantes, estará bom). Imagine (mentalize com o devido foco mental) que está se transportando para um lugar de natureza exuberante, onde as "energias" que movem a natureza estão em estado puro. Se estiver em uma praia, imagine a essência de uma praia: a areia que erodiu ao longo de milhões de anos, a água mais pura e cristalina, o Sol que brilha e acalenta sem queimar, etc.

C- Imagine o céu em azul límpido, com núvens passageiras (aqui já estamos ativando a cor azul, como disse pode usar alguma outra, contanto que siga a essência do ritual - que é a irradiação da cor natural para dentro de si próprio). As aves que flutuam sem esforço nas brisas, e cantam para saudar o visitante conhecido (você mesmo). A mesma brisa que move as núvens e sustenta as aves também passa pelo seu corpo, e te envolve com a leveza de uma carícia.

D- Pense, brevemente, no motivo pelo qual está aqui: na enfermidade que deseja tratar. Lembre-se que na natureza não há garantia de cura, mas que ainda assim nos curamos inúmeras vezes de inúmeors males e enfermidades ao longo da vida. Pense: "tomara que esta seja mais uma vez". Então comece a respirar (apenas respirar ainda, sem exprirar) e imagine que o ar que respira é o próprio azul do céu, que desce e se irradia pelo seu corpo através da respiração.

E- Direcione este azul que entrou em seu corpo pela respiração para o local exato de sua enfermidade. Aqui, quanto maior for seu conhecimento biológico do corpo humano, e do mecanismo da respiração, tanto melhor. Se já estudou o que os remédios fazem para tratar certas enfermidades, imagine este azul como a essência da química curativa de tais remédios. Quanto maior a compreensão e conhecimento do que ocorre em um tratamento, melhor a eficácia do foco mental e da catalização do tratamento em si. Porém, o conceito essencial é o de que este azul, vindo diretamente do céu, está irradiando sobre sua enfermidade e absorvendo as células enfermas (ou a própria enfermidade em si), lentamente transformando-se em vermelho (novamente a cor não importa, o vermelho seria a enfermidade em si).

F- Agora expire, sem pressa, este vermelho. Imagine que a enfermidade é lentamente dissipada nas consecutivas respirações (do azul de tratamento) e expirações (do vermelho da enfermidade). O vermelho expelido não prejudica a natureza à volta, lentamente se dissipa ao se misturar com o ar. A enfermidade não deve ser encarada como punição, mas como um estado não natural do organismo, que em essência é naturalmente saudável. Viver traz enfermidades pois na natureza tudo se transforma, mas a essência da vida em si é saudável e infinita. Isso tudo são pensamentos que podem ser levados em consideração nessa hora.

G- Então agradeça a possibilidade de fazer uso das "energias" que movem a natureza. Agradeça aos animais que o saudaram, agradeça a possibilidade de viver. Então se despeça de todos que lá estão e imagine que está se transportando de volta ao local físico onde iniciou a meditação.

H- Abra os olhos e diga ou pense "graças a Deus", ou ainda "graças ao Cosmos", etc.

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Nota: se eventualmente algum evento estranho ao passo a passo descrito ocorrer durante o ritual, aproveite-o apenas na medida em que se sentir bem. Se em algum momento sentir-se mal, seja por influência do que for, interrompa o ritual imediatamente passando diretamente para o passo H. Se esse mal-estar ocorrer frequentemente durante outros rituais, você poderá simplesmente deixar de os realizar, ou procurar alguma casa de estudos ocultos, ou alguma igreja onde se sinta bem, até que isso não mais ocorra durante os rituais.

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Crédito da foto: Onne van der Wal/Corbis

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8.5.09

Reações a João de Deus

Quando soube de João de Deus pela primeira vez confesso que não fiquei muito entusiasmado. Meu interesse não era exatamente nas suas práticas de cirurgias espirituais, mas sim na "fama" que adquiriu fora do país: conheci-o antes através da Discovery Channel do que qualquer veículo nacional de mídia... E não para por aí: BBC, National Geographic, ABC e diversos outros canais estrangeiros já produziram diversas reportagens e documentários sobre ele. Não se trata de um "apelo à multidão", pois certamente não creio que apenas por que centenas de pessoas o visitam todos os dias ele seria um grande médium, ou mesmo que suas cirurgias espirituais realmente favorecessem a cura das enfermidades dos pacientes; Mas me parecia um caso curioso que um médium brasileiro houvesse alcançado certa "fama" antes fora do páis do que dentro, considerando-se que o espiritismo é muito mais difundido aqui do que lá fora. Além disso, obviamente o fato de João de Deus tratar de forma inteiramente gratuita me fez continuar a estuda-lo de forma séria.

Então soube que o médium se considera católico (às vezes, "incorporado" ele se diz espírita, mas na maioria das vezes se diz católico) e que admitia abertamente que as cirurgias físicas, invasivas, não faziam qualquer diferença no tratamento em si, que era totalmente fluido - tratava somente da "matéria espiritual" e não envolvia cortes (apenas em casos de catarata, as "raspagens de olho" fazem parte do tratamento em si, segundo o próprio médium). Ou seja: as cirurguas físicas serviam apenas para "aumentar a fé" dos pacientes, fazendo-os crer que o tratamento espiritual, invisível aos olhos, poderia funcionar (cabe lembrar que segundo o espiritismo cirurgias físicas e "incorporações" totais são amplamente descaconselhadas e não fazem parte dos estudos originais da doutrina, com Kardec).

Ah essa altura eu estava quase convencido que se tratava de charlatanismo: me parecia uma idéia idiota arriscar a saúde das pessoas apenas para que elas "possam ter maior fé no tratamento"... Inclusive considerando que João de Deus nunca cursou medicina, operava com aparelhagem tosca (ex: faca de cozinha), sem assepsia e sem anestesia! No entanto, pesquisando um pouco mais descobri que na verdade apenas uma pequena parte de seus pacientes faziam tais cirurgias, e as faziam porque pediam, não porque o médium recomendava que fizessem. Ou seja: os que não "conseguiam crer o suficiente" no tratamento espiritual, pediam por uma espécie da "placebo físico" para aumentar sua fé no tratamento. Além disso, em décadas desse tipo de operação, nunca houve caso de infecção ou piora grave de condições de saúde dos pacientes, ainda que isso desafiasse a ciência convencional.

Menos mal, pelo menos aos meus olhos o médium deixou de ser uma espécie de "açougueiro irresponsável" e passou a ser, talvez, um "pequeno charlatão" que visava apenas aumentar a fé das pessoas no tratamento espiritual (independente de ser efeito placebo ou não, fato é que o resultado de um tratamento em que temos fé tem maiores chances de ser positivo)... Mas, novamente, eu ainda não dispunha de informação suficiente - pesquisei sobre evidências das cirurgias físicas serem ou não fraudes. Para mim surpresa, encontrei um estudo da Associação Médica Brasileira atestando que as cirurgias eram reais! Apesar de inteiramente inconclusivo acerca da eficácia do tratamento em si, a AMB provou que as cirurgias não eram fraudes.

À partir da posse dessas informações, e considerando que não nutro pessoalmente nenhuma admiração especial ou repulsa para com João de Deus, me pareceu que utilizar esse estudo da AMB em discussões no orkut seria uma excelente maneira de verificar uma amostragem de moderados, em oposição aos radicais, como céticos que negam qualquer prática espiritualista de antemão, ou evangélicos que as relegam a "obra de Satanás"... O fato do médium se dizer católico era ainda um detalhe relevante para observar a reação dos católicos a tais informações.

Não vou citar nomes porque não vem ao caso (cada pessoa analisada será chamada por uma letra: "A", "B", "C", etc.). Abaixo segue um breve resumo da reação de certas pessoas as práticas de João de Deus e ao estudo da AMB que comprovou que as cirurgias são reais:

A
Caso clássico de cético com repulsa a quelquer prática espiritualista, que considera tudo "repugnante" e "obviamente fraudulento" de antemão. Apesar de ter conhecimentos avançados em ciência e filosofia, portou-se grosseiramente, apelando sempre que possível a ataques pessoais a minha pessoa (lembrando que eu estava apenas passando às informações adiante e deixava claro que não concordava com as cirurgias invasivas). Até o final do debate, sustentou que a pesquisa da AMB era também uma fraude, e que a totalidade dos canais estrangeiros que realizaram documentários sobre João de Deus estavam sendo "subornados" por agências de turismo que planejavam trazer europeus e americanos ao Brasil (mais precisamente a uma remota cidade do interior de Goiás). Mesmo a BBC, notoriamente um canal que prima pela isenção de suas fontes, ficou no mesmo "bolo de suborno".

B
A princípio parecia um cético mais moderado, mas quando "ouviu falar" em espiritismo partiu para o ataque pessoal, me acusando de ser apenas "mais um crente espírita" (além do que disse acima para "A", aqui também deixei claro que não sou espírita, minha religião é meu pensamento). Apesar de eu ter dito inúmeras vezes que não defendia a prática de cirurgia invasiva, até o fim do debate ignorou solenemente essa informação, e parecia convencido que eu era "um ardoroso defensor de João de Deus", e que ele era "meu herói". Pesa a seu favor pelo menos a atitude moderada de reconhecer que o estudo da AMB era válido e que as cirurgias eram de fato reais.

C
Uma reação genuinamente cética: admitiu que o estudo da AMB era válido sem "espernear" nem apelar a qualquer tipo de ataque pessoal. No entanto, fez questão de ressaltar o que a própria AMB diz: que o estudo é inconclusivo acerca da eficácia do tratamento em si. Atribuiu todo tipo de cura por tratamento espiritual ao efeito placebo, porém não soube seguir adiante de forma sólida quando lhe indaguei sobre "o que era exatamente o efeito placebo?". Apesar de obviamente ser desfavorável as práticas do médium, portou-se de forma exemplar dentro de um ceticismo genuíno e responsável.

D
Católico extremamente cético (se é que isso possa fazer sentido a você), a princípio ironizou e fez chacota acerca das informações trazidas, como é de seu costume em relação a qualquer temática espírita... Porém, talvez por ter descoberto que o médium se dizia católico, procurou investigar mais (nessa época não tinha achado ainda o estudo da AMB). Mesmo antes da comprovação da AMB, admitiu que "era um caso misterioso" e que a princípio não se tratava de charlatanismo (inclusive porque o médium não cobra pelo tratamento). Alguns meses depois, após analisar o estudo da AMB, admitiu que as cirurgias são mesmo reais e que "alguma coisa desconhecida da ciência convencional" estava ocorrendo. Não apelou para ataques pessoais, mas deixou como sempre bem claro que "não acredita em espíritos desencarnados".

E
Evangélico "semi-radical", ignorou por completo as informações e videos postados e resumiu o assunto dizendo que "era apenas mais um charlatão espírita"... Interessante que não tenha aproveitado a deixa para atribuir suas práticas a influência de Satanás na Terra.

F
Espírita admirador de João de Deus, que inclusive já foi tratado por ele e costuma postar avisando de eventuais documentários na TV brasileira (como o SBT Repórter), a princípio não gostou do meu post "João de Deus: Charlatão?", afirmando que "estava muito cético" e que "não destacava o aspecto moral e o amor emanado pelo médium e seus seguidores"; Expliquei que se tratava de um post direcionado a todos, espíritas e não-espíritas, céticos e não-céticos, e então ele admitiu "que pode ajudar, mas que duvidava muito que algum cético iria admitir que João de Deus operava milagres"... Na verdade nem mesmo eu afirmo que o médium "opera milagres", o que quer que ocorra em suas operações, deve ter uma explicação física plausível, apenas ainda não compreendida devidademente pela ciência convencional.

G
Livre-pensador e admirador da Logosofia, manteve-se à parte dos debates e apenas me aconselhou a "procurar saber por mim mesmo se as práticas espirituais do médium são reais e consistentes", e não "confiar em documentários e pesquisas apenas, ainda que sejam genuinamente científicas". Trata-se sem dúvida de um conselho válido. Quero aqui deixar claro que nunca visitei João de Deus pessoalmente e que não o defendo nem o repudio, e que porisso mesmo me pareceram honestas e pertinentes as análises acima.

Conclusão
Os médicos que realizaram o estudo pela Associação Médica Brasileira provavelmente não são espíritas, mas somente seu interesse em estudar a chamada medicina alternativa com maior cuidado já aponta uma tendência clara na medicina atual, de se tornar pelo menos um pouco mais receptiva a terapias complementares como acupuntura, homeopatia, "tratamento espiritual", etc.

O fato de terem comprovado que as cirurgias são reais de forma alguma prova como eficaz ou ineficaz o tratamento espiritual oferecido por João de Deus. Porém, pelo fato de ele atender gratuitamente e as pessoas o procurarem por livre e espontânea vontade, devemos evitar ataques sem base a sua idoneidade. Vale destacar novamente o estudo da AMB: "Nem a crença entusiasmada ou a descrença renitente ajudarão os pacientes ou o desenvolvimento da medicina".

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Crédito da foto: Revista Época.

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