Pular para conteúdo
16.10.18

Como sobreviver ao segundo turno (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo vamos nos arriscar a falar de Política e diálogo em tempos de cólera e polarização. Veremos como a divisão entre Direita e Esquerda tem origens nas ideias dos filósofos Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau, e faremos uma breve reflexão sobre Liberdade e Segurança. Ao final, ainda trago a minha teoria acerca do pêndulo hermético, e de como ele parece explicar porque o Brasil já não consegue mais achar o seu centro político.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , , , , , , ,

15.6.15

Entre a esquerda e a direita: os comentários (parte 4)

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo responderam minhas perguntas, e agora estou comentando os assuntos abordados. Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

Uma questão de escala
É interessante como muitas vezes o significado de uma palavra, sua etimologia original, se perde ou se altera com o passar dos séculos e das sociedades. Talvez o exemplo mais claro disso seja o que ocorreu com o termo “candidato”.

Na Roma antiga, um candidato a um cargo público precisava se dispor a passar por uma espécie de ritual, onde ele atravessava uma praça pública vestindo tão somente um manto branco. Era um ato simbólico, é claro, mas sua simbologia era muito instrutiva: a brancura do manto (candidus) simbolizava a pureza de sua moral e de seu caráter, o que era essencial para administrar os assuntos públicos. Era tão óbvio há milênios quanto hoje: nenhum cidadão vai querer eleger um mau caráter, um corrupto, para gerir uma cidade-estado ou um país, até mesmo porque isso significa, basicamente, gerir o dinheiro dos impostos pago por todos, ou quase todos.

Ora, é evidente que, tanto na Roma antiga quanto nas democracias atuais, qualquer candidato vai buscar ocultar os seus “pontos fracos”, e enaltecer suas habilidades de bom governante. Isto está bom, é assim que fazemos quando queremos convencer aos outros das nossas qualidades, até mesmo numa entrevista de emprego...

O grande problema surge quando, ao invés de contar somente com a sua lábia, inteligência e oratória, ao invés de se apresentar somente com um manto branco em praça pública, o tal candidato passa a dispor de um conglomerado de agências de marketing e propaganda política, chefiadas por marqueteiros profissionais, verdadeiros magos do convencimento alheio, ao custo de muitos, muitos milhões de reais.

É dessa forma que, se após eleito o candidato talvez possa, quem sabe, atuar de forma livre (contanto que retribua as “doações” das empresas a sua campanha, é claro), é cada vez mais claro e evidente que, nos programas da TV, e até mesmo nos debates ao vivo, não é o próprio candidato quem fala, mas a sua “equipe de marketing” quem fala por ele. E assim chegamos a candidatos que são verdadeiras caricaturas de si mesmos, e que, uma vez chegando ao poder, assumem finalmente as suas personalidades reais (ou quase sempre, dependendo das estatísticas de aprovação nas pesquisas pós-eleições).

Assim sustentamos um sistema perverso de corrupção da democracia, um sistema que se retroalimenta, e se torna cada vez mais perigoso: um candidato precisa gastar milhões em sua campanha para convencer o eleitorado de que ele é o melhor (pois não há, de fato, outra opção para se vencer eleições majoritárias no Brasil e em muitos outros países); para conseguir tantos milhões, o candidato ou o seu partido político precisam convencer muitas grandes empresas de que eles têm uma boa chance de vencer (pois as grandes empresas jamais “doam” aos que não têm chance alguma, ou você pensou que se tratava de alguma ideologia?); para justificarem o gasto milionário em “doações eleitorais”, as grandes empresas precisam analisar cuidadosamente quais contratos superfaturados podem conseguir “lá na frente”, assim justificando seus investim... ops, suas “doações”, desculpem...

Finalmente, após as eleições as grandes empresas vão de vento em popa nos negócios, já que “a sorte lhes sorriu” e os candidatos em que “apostaram” acabaram vencendo. Logo, nas próximas eleições, as “doações” podem ser ainda mais substanciais, o que torna o custo das eleições em geral cada vez maior, e a chance de vencer um candidato realmente “puro”, como teoricamente eram os romanos antigos, vai se aproximando muito rapidamente de zero.

Portanto, a única forma de encerrar esse ciclo vicioso do Grande Negócio Eleitoral é reduzir drasticamente a escala do negócio como um todo: as eleições devem ser muito, muito mais baratas; e muito, muito mais amadoras!


Uma questão de lógica
Jan Larsson é um dos marqueteiros mais experientes do cenário político sueco; ocorre que isso jamais fez dele um administrador de campanhas suntuosas, cheias de propagandas pirotécnicas e curtas metragens exuberantes onde basicamente mais se atacam aos adversários do que se propõem políticas para melhorar o país. Ele tem bons conselhos para nós:

“Exatamente pelo fato de as campanhas publicitárias serem uma ferramenta tão cara e tão poderosa, é preciso ser cuidadoso e não exagerar na sua utilização.”

Até 2013, campanhas publicitárias de partidos políticos na TV eram proibidas na Suécia. Em 2014, pela primeira vez, fizeram uma experiência: no canal 4 da TV comercial, o eleitorado assiste a breves comerciais políticos de cerca de 40 segundos de duração, veiculados entre anúncios de margarina e barras de chocolate... Os comerciais são curtinhos mesmo, até mesmo porque os partidos não teriam recursos para filmar anúncios mais longos.

Na Suécia, o financiamento privado não passa de cerca de 30% do custo das campanhas, praticamente o oposto do que ocorre por aqui. Será que isso pode ser perigoso para nós? Vejamos o que diz Larsson:

“Seria um absurdo da minha parte expressar opiniões pessoais sobre a democracia brasileira, mas naturalmente é preciso tomar muito cuidado ao permitir que o dinheiro controle a informação. Especialmente quando não se tem um sistema rígido para controlar quem financia os partidos políticos. Se a distribuição de recursos para os partidos é justa, então todos têm as mesmas oportunidades. Mas quando você permite que grandes empresas e organizações controlem o financiamento dos partidos, põe-se em risco uma coisa extremamente fundamental, que se chama democracia.”

E é assim que, enquanto na “Suécia tropical” temos eleições cada vez mais caras e suntuosas, onde até mesmo grandes humoristas trazem seu show para as propagandas políticas, na Suécia real, tanto o oposto, os comerciais são curtos e semiamadores, e todo o embate político se dá nos debates televisivos (onde se evita a todo custo os ataques pessoais, pois os eleitores não suportam isso) e no “corpo a corpo” dos militantes, que muitas vezes chegam até a emprestar seus megafones aos militantes adversários, já que todos eles estão nas ruas antes para fazer prevalecer a democracia do que somente para vencer uma eleição.

Então me digam, honestamente, onde os mantos brancos sairiam de suas vitórias eleitorais mais sujos e maltrapilhos, num país recém-saído da miséria, onde as eleições são caríssimas, ou num país rico onde as eleições são baratas? Para mim, pelo menos, parece ser uma pura e simples questão de lógica.

» Em breve, “Gérard, por que não vem pegar uma praia?”

***

» Ver os posts mais recentes desta série

Crédito da imagem: Wikipedia (vestuário usado na Roma antiga)

Marcadores: , , ,

21.5.15

Entre a esquerda e a direita: os comentários (parte 3)

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo responderam minhas perguntas, e agora estou comentando os assuntos abordados. Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

“Não há almoço grátis”
Recentemente, o ex-diretor de abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, investigado na operação Lava Jato e signatário de acordo de delação premiada, deu o seguinte depoimento a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga os desvios bilionários da estatal:

“Não existe doação de empresas que depois essas empresas não queiram recuperar o que foi doado. Se ela doa R$ 5 milhões, ela vai querer recuperar R$ 20 milhões lá na frente... Não há almoço grátis.”

O que parece óbvio, claro e cristalino até mesmo para os mais desinformados acerca do nosso sistema eleitoral, no entanto, é muito mais grave do que parece. Doações empresariais são o investimento mais lucrativo do mercado, e o lucro compensa em muito o risco envolvido no negócio... Costa falou em empresas doando 5 e ganhando 20, ou seja, 4 vezes mais do que o valor doado, mas a realidade é muito mais lucrativa!

O estudo “The Spoils of Victory” (“Despojos da Vitória”), feito por pesquisadores de três universidades dos EUA, concluiu que as empresas que financiaram candidatos a deputado federal do PT nas eleições de 2006 receberam entre 14 e 39 vezes o valor doado por meio de contratos com o poder público nos anos subsequentes.

A pesquisa, publicada em 2014, cruza os dados oficiais de doações para as campanhas e os contratos obtidos pelas empresas nos anos seguintes – sem levar em conta eventuais pagamentos ilegais. Segundo os autores, não foi possível estender o estudo para governos anteriores por falta de dados públicos confiáveis.

Taylor Boas, um dos autores do estudo, explica que nos países em desenvolvimento os problemas envolvendo doações de campanha se agravam porque eles têm poucas leis de regulamentação da atividade. Segundo Boas, “No Brasil o limite para a doação corporativa é de 2% de seu faturamento bruto anual. Isso é um valor muito alto já que estamos falando de grandes empresas”.

E não é que as grandes empresas financiadoras tenham qualquer tipo de alinhamento ideológico com este ou aquele partido. Maior exemplo disso foi a atuação da JBS-Friboi, uma das maiores do mundo no ramo de alimentos, na campanha presidencial de 2014: não satisfeita em doar para um só candidato, resolveu doar de uma vez só para todos os que tinham alguma chance de vencer, ou seja, Dilma Rousseff, Aécio Neves e Marina Silva. Não há, de fato, nenhuma ideologia envolvida neste processo – afinal, não à toa, a JBS foi na última década uma das grandes beneficiadas pelos empréstimos do BNDES a juros nível “ajuda de custo do papai”.

Ora, o próprio escândalo envolvendo a Petrobrás, outro daqueles que a grande mídia gosta de chamar de “maior caso de corrupção da história do país” (desta vez, porém, muito provavelmente com razão), está intimamente relacionado com o financiamento de campanhas eleitorais. E, como muitos devem saber, não se trata mais de financiamento não declarado a Receita Federal – o famigerado “caixa 2” –, mas doações perfeitamente legais e declaradas, ou seja, “caixa 1” mesmo... A questão é que a origem do dinheiro em si é ilegal, fruto de propinas gordas vindas de cartéis de empreiteiras.

Com tanto “crédito na praça”, não é de surpreender que o custo total das últimas eleições, em 2014, tenha batido o recorde histórico, e chegado a R$ 5 bilhões. Nós temos que olhar para esse número, infelizmente, não pelo seu valor atual, mas pelo que vai custar aos Cofres Públicos em “benefícios” a todas as empresas que tiveram a sorte de doar para os candidatos vencedores (afora, é claro, as que doaram para todos os candidatos)... Ou seja, no final das contas, quem paga pelo custo crescente de nossas eleições, no médio e longo prazos, somos eu, você, todos nós.


O Grande Negócio Eleitoral
É precisamente isso que eu chamo de Grande Negócio Eleitoral. Eu não sei quanto a você, mas neste ponto eu sou mesmo radical: não vejo como uma empresa possa ter quaisquer motivos para financiar campanhas políticas que não a possibilidade de lucro futuro. É muito simples: empresas não apoiam ideologias, elas investem.

Por conta desta minha percepção solidificada por inúmeros exemplos que venho analisando nos últimos anos, sou defensor ardoroso do fim do financiamento empresarial para campanhas eleitorais, e obviamente não sou o único... Faz mais de um ano que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a CNBB, a UNE, a CUT e outros movimentos sociais enviaram ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) desautorizando as doações empresariais para campanhas.

Ora, quando o julgamento já estava vencido em favor da ação, com 6 votos favoráveis dos ministros do STF (o que supera a metade), o ministro Gilmar Mendes pediu vistas para analisar “com cuidado” a Adin em casa, e interrompeu a tramitação da ação. E, repetindo, isso já faz mais de um ano!

Como defensor da democracia, eu compreendo que existam aqueles que defendam a continuidade do financiamento empresarial. Mas a questão aqui é que não está funcionando a democracia: é um único ministro emperrando a tramitação de uma ação importantíssima, que já foi voto vencido.

Vamos, porém, nos voltar para os defensores do financiamento empresarial... Eu quero crer que o motivo de eles persistirem defendendo o modelo atual se deva a um forte temor de que, em instaurado o temido financiamento público e exclusivo de campanha, os atuais detentores do poder se tornem quase que “lordes feudais”, utilizando os recursos públicos e a máquina do governo para injetar centenas de milhões de reais em suas campanhas, enquanto os que estão fora do poder mal teriam recursos para ter alguma chance nas eleições.

Pois bem, é talvez um motivo justo, mas inteiramente equivocado. E abaixo irei lhes enumerar as razões:

(1) Defender o fim do financiamento empresarial não significa defender o financiamento público e exclusivo. Isto porque o financiamento privado continua sendo perfeitamente possível, só que exclusivamente através de doações de pessoas físicas, e não jurídicas. De fato, o Butão é o único país onde foi adotado o financiamento público e exclusivo de campanha. No entanto, há diversos países que vêm adotando a proibição do financiamento empresarial nos últimos anos, dentre eles Canadá, Portugal, França, Polônia, Ucrânia, México, Paraguai, Peru, Colômbia e Egito.

(2) É preciso lembrar que o financiamento público já existe no Brasil, e está na Constituição. O Fundo Partidário, inclusive, recentemente teve o seu valor quase que triplicado, passando de R$ 289 milhões para R$ 867 milhões [1], no que parece ser uma clara reação dos parlamentares ao fechamento das torneiras das grandes empresas – que finalmente têm algum motivo para temer prosseguir com seus investimentos de campanha (alguma coisa, afinal, está dando certo!).

(3) Os atuais detentores do poder já são os maiores beneficiados pelas doações empresariais, inclusive em valores que superam em muito o que lhes cabe do Fundo Partidário. Por exemplo, ao final do segundo mês da campanha presidencial de 2014, a campanha do PT havia arrecadado de empresas 3 vezes mais do que o PSDB e 6 vezes mais do que o PSB. Já para o governo de São Paulo, não que fosse alguma surpresa, as doações se concentraram majoritariamente no PSDB.

Ou seja, não somente o financiamento público já existe, como em todo caso os atuais governantes, desde que mantenham sua popularidade em alta, são naturalmente os destinatários da maior parte do financiamento empresarial... No atual cenário, o financiamento público e exclusivo talvez fosse até um auxílio na renovação dos cargos eletivos, mas nem é isso que estou aqui defendendo...

Defendo tão somente o fim das doações empresariais, pois crer que alguma empresa tem realmente algum motivo para dar dezenas, centenas de milhões de reais para campanhas de políticos, que não seja para receber muito mais em troca lá na frente, é no mínimo de uma inocência muito grande.

Enfim, independente da opinião de cada um acerca do financiamento empresarial, o que todos devem concordar é que alguma reforma precisa ser feita em nosso sistema eleitoral, e ela é absolutamente urgente!

» Em breve, o ciclo vicioso que coloca em xeque a democracia...

***

[1] Ainda assim, ficou somente pouco acima do valor das isenções fiscais concedidas as emissoras de TV por conta do horário eleitoral “gratuito” em 2014, que de fato jamais foi gratuito. Somente entre 2002 e 2014, o somatório das isenções chegou a R$ 4,4 bilhões.

» Ver os posts mais recentes desta série

Crédito da foto: Google Image Search

Marcadores: , , ,

12.10.14

El Partido de la Red

A democracia que temos está aprisionada: é míope, ordena suas prioridades de forma equivocada, tem a sua largura de banda limitada (Manifesto de la Red)


Desde seu surgimento na Grécia antiga, onde os próprios cidadãos decidiam as ações do Estado, a democracia passou por tantas reviravoltas e atualizações que hoje um filósofo daquela época mal a reconheceria. É verdade que hoje não há mais escravidão, e que mulheres também podem votar, mas por outro lado nossas cidades-estado cresceram tanto que a única forma que encontramos de continuar consultando os anseios do povo foi instaurando a democracia representativa, onde certos candidatos são eleitos para nos representar em tais decisões. Assim, teoricamente, somente os mais bem preparados e sábios dentre nós deveriam ser eleitos para nos representar. Estaria tudo certo, contanto que o sistema eleitoral fosse capaz de dar oportunidade aos mais bem preparados e sábios concorrerem nas eleições. Como bem sabemos, isso não é mais o que ocorre hoje em dia...

Teoricamente nossas eleições deveriam ser um embate de ideias e de propostas, baseadas sobretudo em ideologias. Mas, na prática, o que ocorre hoje em dia está muito longe disso. Se tomarmos o segundo turno das eleições de 2014 para a presidência do país, por exemplo, não temos exatamente um embate de ideologias opostas (embora há muitos que ainda creiam nisso, e considero que devemos respeitar sua inocência, para que o sonho não morra), mas sim uma disputa de poder onde está em jogo muito, muito dinheiro. Não importa se um partido de "esquerda" se alia, de última hora, ao partido opositor de "centro-direita" em troca de certos ministérios; pois o partido que disputa a reeleição, apesar de se declarar de "esquerda", também só se encontra em seu posto devido a negociação de inúmeros ministérios com os partidos de "direita" da base aliada. Onde ficou a ideologia nesse Grande Negócio Eleitoral? Ficou na cartilha dos marqueteiros, que usam os milhões doados por grandes empresas (muitas das quais doaram a ambos os partidos, o opositor e o que disputa a reeleição) para suas superproduções do "horário eleitoral gratuito".

Conforme bem analisou Lawrence Lessig em sua reflexão sobre o sistema eleitoral dos EUA, "Há um forte sentimento de inevitabilidade, de que não temos o que fazer para mudar tudo isso". Mas foi o próprio jurista que, em sua histórica palestra no TED, apontou um caminho para a mudança: tirar o "dinheiro grande" das eleições, para que o povo possa voltar a decidir, de fato, entre os candidatos mais bem preparados e sábios. Obviamente que esta reforma não é algo que se dê da noite para o dia, mas é uma reforma cada vez mais necessária, pois no fim das contas a única outra opção será uma revolução - e na revolução, como bem sabemos, há muito mais mortes e violência, além de ser um processo de estabilização lenta e incerta.

Porém, ainda que o "dinheiro grande" fosse retirado das eleições, ainda não haveriam garantias suficientes que ele não pudesse ser usado para corromper os candidatos mais bem preparados e sábios que foram eleitos. Pois também já vimos inúmeros exemplos de boas pessoas que, de um jeito ou de outro, se viram obrigadas a jogar o Grande Negócio Eleitoral uma vez eleitas. A solução seria fiscalizar mais de perto tais candidatos, em cada passo, em cada decisão, em cada votação... Isto sim seria a semente de uma nova democracia, uma forma de, ironicamente, voltarmos as origens gregas, e realmente participarmos diretamente das decisões dos nossos representantes eleitos.

É precisamente isso que pretende o Partido de la Red, um partido político argentino que surgiu há poucos anos, fruto da experiência fracassada de tentar convencer aos políticos tradicionais de vincular suas decisões a votações específicas de um aplicativo para tablets e smartphones, intitulado DemocraciaOS. Conforme a oferta foi inicialmente recusada, os argentinos desbravadores de uma nova era decidiram fundar o seu próprio partido, onde cada deputado eleito se compromete a votar de acordo com a decisão da maioria dos votos no aplicativo. É claro que não é uma ideia completa, imune a hacks de todos os tipos, mas é um novo caminho, uma luz no fim do túnel.

Para saber mais sobre esta ideia preciosa, vejam a palestra de Pia Mancini, uma das fundadoras do Partido de la Red, no TED Rio recém realizado em Outubro de 2014 (com legendas em português):

***

Veja também:

» x dólares, 1 voto (a palestra de Lawrence Lessig)

» Interregno de eras

» Primavera Brasilis

Marcadores: , , , , , , , ,

19.9.12

O mito da política

Eu havia prometido que não ia falar novamente de política por aqui, mas este texto saiu à força da minha alma, não pude evitar... Antecipadamente, peço seu perdão...


Lula disse que o “mensalão” é um mito. Antes ele disse que “se sentia traído por práticas inaceitáveis de seus colegas de governo, práticas das quais nunca teve conhecimento”. Somente após ter dito isso que voltou atrás, e se corrigiu: “Tenho certeza de que não teve mensalão, esse negócio me cheira a folclore dentro do Congresso” [1]. Eu concordo com Lula, na realidade não só o “mensalão” é um mito, uma coisa lendária, um folclore... Toda a política brasileira nas últimas décadas tem sido uma lenda.  

Acreditamos todos um dia nesta lenda surgida após as “Diretas Já”, de que todos esses que se dizem políticos e pensadores idealistas iriam representar o povo, representar suas ideologias, uma vez eleitos. Isso até tem ocorrido, em raríssimos casos, mas infelizmente não são o suficiente para que possamos afirmar que se faz Política no país. Aqui se faz “um negócio eleitoral”, ou algo assim...

Na verdade, o termo “mesalão” realmente não se aplica ao que provavelmente ocorreu no início do primeiro mandato do ex-presidente Lula. Se pegarmos o Valdemar da Costa Neto e o Bispo Rodrigues, por exemplo, líderes do partido de José Alencar, o vice-presidente no governo de Lula, temos exemplos de histórias políticas que pouco ou quase nada têm a ver com a ideologia socialista do Partido dos Trabalhadores. Os defensores de que o “mensalão” foi uma lenda querem fazer crer que “um partido aliado do governo, que tem um vice-presidente, naturalmente votaria a favor das propostas governistas”. Mas, se formos analisar a história política e a ideologia de cada um dos deputados da base aliada, veremos que muitos não teriam nenhuma razão ideológica para votar de acordo com a “recomendação” do governo. De fato, se formos observar o “jogo caótico” de alianças entre partidos nas eleições federais, estaduais e municipais, veremos o quanto isto tudo cheira mais a um “grande negócio de grandes interesses” do que a uma junção de ideologias. Na verdade, há poucos partidos políticos no Brasil que parecem atrelados a alguma ideologia em específico, ou pelo menos, que demonstrem na prática que estão atrelados a elas. Aqui, como em boa parte do mundo, “direita” e “esquerda” são, igualmente, mitos da era moderna.

No entanto, não foram “pagamentos mensais” que definiram o chamado “mensalão”, mas pagamentos em espécie, sem notas fiscais, transportados em malas e cuecas, e entregues na mão de deputados e líderes partidários, como o próprio Valdemar da Costa Neto. Foram milhões entregues não em datas mensais, mas precisamente nos dias anteriores as votações de grande importância no Congresso, no início do governo Lula, como a reforma tributária e a reforma da previdência. Se Lula diz que não sabia de nada, que se sentiu traído, podemos crer que foi o eminente ministro da época, José Dirceu, quem arquitetou o esquema todo... Eu até consigo entender o Sr. Dirceu, que ao menos parecia querer realmente seguir a sua ideologia: “todos esses deputados são corruptos e vão votar de acordo com quem pagar mais, nossa única chance de melhorar o país é pagar mais do que os outros corruptores”.

Sim, pois não se enganem: Vocês acham que os deputados da “bancada ruralista” votam de acordo com seus ideais pessoais, ou de acordo com o que os grandes donos de terras lhes “prometem doar” nas eleições futuras?  Vocês acham que os deputados da “bancada evangélica” estão representando seus ideais e crenças religiosas, ou os interesses desta ou daquela Igreja? Vocês acham que os deputados do “baixo clero”, que se elegeram “na carona” dos tiriricas da vida [2], estão ali para representar alguma parcela do povo que seja, ou para “defender seus interesses financeiros”?

Enquanto a democracia, no Brasil e em boa parte do mundo, não conseguir sair desta “armadilha” dos grandes interesses corruptores, enquanto não voltar a ser, de fato, “uma pessoa = um voto”, e não o que se vê hoje em dia, “X reais = um voto”, seja antes ou depois da eleição, dificilmente será sequer a sombra de uma democracia plena, de uma Política.

Na Grécia Antiga, apesar das mazelas de seu tempo, como a escravidão e o fato de que somente os nobres tinham real direito a voto (dentro os quais nenhuma mulher), ainda assim havia a ideia da polis, da comunidade, da irmandade de seres erigindo uma cidade a partir do caos do mundo, com uma Acrópole dedicada aos deuses e aos altos ideais, em torno da qual toda a vida girava. Um ateniense jamais diria “sou nascido em Atenas”: ou era ateniense ou não era. Ou permanecia fiel ao ideal da polis, ou seria o mesmo que um animal selvagem a vagar pelo mundo. Os altos ideais da Grécia Antiga não estavam subordinados a vantagens financeiras, pessoais, individuais, mas formavam uma ideia de todo, de uma comunidade que lutava para construir uma civilização a partir da barbárie; formavam um ideal de vida, um ideal de ser, a partir de existências que não tinham qualquer sentido profundo em separado. Somente unidos os gregos poderiam manter a polis. Trair a polis era antes trair a si mesmo.

É isso que chamo de Política, com “P” bem maiúsculo... Seria uma utopia? Talvez, mas é melhor tentar caminhar em direção a este horizonte iluminado do que viver andando em círculos nos charcos da ignorância, da mesquinhez, e da pouca visão. O primeiro passo para a caminhada de volta a este horizonte é instaurar o financiamento público e exclusivo de campanhas eleitorais, com fiscalização altamente rigorosa. Enquanto isto não for feito, vai prevalecer o interesse dos grandes corruptores, a formarem as suas “bancadas x ou y”, a “investirem” em candidatos, muitas vezes em todos os candidatos em disputa, como forma de garantirem o seu “retorno” no futuro. É por isso mesmo que partidos que não aceitam nem as grandes coligações nem os “vultuosos investimentos” dos grandes corruptores, assustam, e são atacados por todos os lados – tanto pela dita “direita”, quanto pela dita “esquerda”. A candidatura de Marcelo Freixo a prefeitura do Rio de Janeiro é somente o mais recente exemplo disso.

Mas, e porque o PT deve ter vergonha do “mensalão”? Ele não foi sequer inventado pelo PT, mas era prática corriqueira dos antigos partidos no poder, e se não era tão conhecido e divulgado, talvez seja pelo fato de que a “mídia corruptora” não visse razão para querer “mudar o rumo do jogo da política”... Em realidade, talvez tenha sido exatamente devido à larga exposição do “mensalão” na mídia que o PT tenha conseguido fazer um governo mais honesto e eficaz – afastando o eminente Sr. Dirceu e dando espaço para aquela tal brizolista que “gostava de fazer as coisas acontecerem”.

Se não deu certo com políticos altamente carismáticos a defenderem suas supostas ideologias de vida, ao menos pode ser que dê certo, que esteja dando certo, na medida do possível, com a “presidenta gerente”. Dilma Rousseff tem aproveitado para substituir políticos afastados de ministérios (pelas alegações de corrupção) por pessoas técnicas que efetivamente entendem do assunto de seu próprio ministério; tem atacado aos bancos de frente e os forçado a reduzir seus juros exorbitantes; tem, na medida do possível, combatido os interesses da “bancada ruralista” e trazido um pouco mais de “verde” para as leis florestais; e, mais recentemente, tem se alinhado com os empresários que realmente desejam investir no país (e não corromper pessoas), e ajustado algumas variáveis importantes da economia, para que possamos continuar a crescer de forma sustentável.

Dilma me parece estar sendo o que Lula não foi. Dilma me parece estar realizando muito daquilo que esperávamos dele. Pode ser ainda pouco, e pode ser que ainda nos arrependamos no final, mas até o momento, por incrível que pareça, tudo que a tal lenda do “mensalão” tem feito é, efetivamente, tornar a política do país um pouco menos lendária, um pouco menos política, e um pouco mais polis, Política!

***

[1] Para relembrar o “caso mensalão”, recomendo esta excelente história em quadrinhos com arte de Angeli.

[2] Embora o deputado Tiririca esteja se comportando como um Político de verdade, ao contrário de quase todas as expectativas. Admito que ele me surpreendeu, mas em todo caso a minha crítica a sua eleição nunca foi direcionada a pessoa dele, mas aos “fichas sujas” que se elegeram na “esteira” da sua enorme votação (outra coisa que precisaria ser reformada urgentemente nas leis eleitorais).

» Vejam também: Três pela manhã

Crédito das imagens: [topo] Trecho dos quadrinhos de Angeli (citados na nota #1 acima); [ao longo] Google Image Search (Acrópole de Atenas)

Marcadores: , , , , , , ,