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4.9.16

Entrevista com Raph Arrais

Embora nem sempre esteja muito evidente, tanto Raph quanto Rafael Arrais são a mesma pessoa, e é esta a mesma quem escreve este blog. Nessa entrevista para meu amigo Igor Teo [1], falo um pouco mais sobre a história do blog, assim como sobre poesia, criatividade, morte, amor, e algumas coisas mais...

Lá pelas tantas, em homenagem ao saudoso Abujamra, tento até mesmo responder a pergunta "o que é a vida?":

***

[1] O Igor, que alguns devem conhecer dos livros que publicamos pelas nossas Edições Textos para Reflexão, está com um projeto de popular o seu canal no YouTube com uma variedade de vídeos. Alguns são só dele, mas noutros temos hangouts com mais pessoas. Para quem se interessar, semana passada também participei do primeiro episódio do Hangout Reflexões

Crédito da imagem: raph + Prisma (sim este sou eu)

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20.5.14

O encontro de Carl Sagan e Dalai Lama

Carl Sagan e Dalai Lama

Este vídeo – na verdade o vídeo de uma projeção – está em péssima qualidade, mas por se tratar de uma conversa entre dois seres plenos de espiritualidade, achei por bem trazer para cá...

Em 1991 o Dalai Lama, líder espiritual tibetano que foi obrigado a se exilar de sua terra natal devido a opressão do governo chinês, concedeu uma entrevista a Carl Sagan, provavelmente o maior divulgador de ciência do século XX, e que também sempre demonstrou interesse genuíno pela história das religiões – particularmente as orientais.

O que vemos no vídeo acima é, no entanto, apenas uma parte do diálogo, que transcrevo abaixo [as notas ao final são minhas]:


[Carl] Então deixe-me perguntar agora, se me permite, algumas perguntas sobre religião... O que acontece se a doutrina de uma religião, digamos o budismo, seja contrariada por algum achado, alguma descoberta na ciência, digamos, o que um crente no budismo faz nesse caso?

[Dalai] Para os budistas isso não é um problema. O próprio Buda deixou claro que o importante é a sua própria investigação. Você deve conhecer a realidade, não importa o que a escritura diz.

No caso de você encontrar uma contradição, em oposição a explicação das escrituras, então você deve confiar na descoberta em vez da escritura [1].

[Carl] Isso não é muito parecido com a ciência?

[Dalai] Sim, isso mesmo. Então eu acho que o conceito budista básico é que no início vale mais a pena permanecer cético [2]. Em seguida, realizar experimentos através de meios externos, bem como meios internos.

Se através da investigação as coisas se tornarem claras e convincentes, então é hora de aceitar ou acreditar [3]. Se, por meio da ciência, existir prova de que após a morte não há continuidade da mente humana, ou continuidade da vida; se isto for provado, então teoricamente falando, os budistas terão de aceitar isso [4].

[Carl] Então, o que isso faria com a doutrina da reencarnação?

[Dalai] Bem, eu não acho que, veja você, no que diz respeito à existência de uma continuidade da mente ou da vida após a morte... Esse conceito [a reencarnação], eu acho, tem mais razões coerentes.

Embora a aceitações desse tipo de teoria não consiga resolver todas as suas dúvidas, e não podem lhe dar a satisfação completa, ainda assim, tal teoria ainda é melhor do que a teoria da não-existência. Se não houver continuidade da vida, ou do ser, então a questão permanece: Qual a causa original de todas as galáxias, incluindo este planeta?

Por exemplo, há a Teoria do Big Bang... Tudo bem se foi assim que aconteceu, mas não importa... Então, por que aconteceu? [5] Então, ou você tem de aceitar que as coisas acontecem por acaso [6], sem uma causa específica, o que é desconfortável, pois várias perguntas permanecem; ou outra explicação seria [a existência de] um Criador.

Do ponto de vista budista, isso também não soa como resposta. Por que é que um Criador cria essas coisas? Mais perguntas permaneceriam...

[Carl] Então, você acredita em Deus?

[Dalai] Deus, no sentido de alguma realidade última – então sim, nós aceitamos isso. Mas Deus no sentido de um Criador todo-poderoso, os budistas não aceitam.

[Carl] Portanto, não há constatação concebível da ciência que faria você dizer que a doutrina budista está errada, ou que você não é mais um budista?

[Dalai] Eu acho que uma descoberta científica [realizada] através de cuidadosos experimentos, isto os budistas terão de aceitar de uma vez. Sem problemas.

Alguns cientistas, ou alguns budistas com mentalidade científica – como acho que deveríamos chamá-los –, dizem que não consideram o budismo como uma religião, mas sim uma ciência da mente. Às vezes eles chamam o budismo de uma ciência interior...

Assim, de acordo com a minha própria experiência, como resultado de me encontrar com cientistas – nos últimos anos tive muito contato com eles –, principalmente no campo da cosmologia, da neurobiologia, e também da física, principalmente no campo da mecânica quântica; e, claro, da psicologia – acho que nestes campos há muitos paralelos em comum.

Acho que nessas discussões que realizamos ao longo desses campos [7]... Eu como budista me beneficiei muito do que aprendi com suas descobertas. É muito útil para um budista [participar dessas conversas]. Ao mesmo tempo, alguns cientistas também mostram um interesse genuíno nas explicações budistas para os assuntos envolvidos.

E uma coisa é muito clara: No que diz respeito as ciências mentais, o budismo é altamente avançado.

***

[1] Reparem que o Dalai Lama fala em “nossa própria investigação”. Enquanto Sagan afirma que “alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”, há muitos que se comprazem com o fato de muitas alegações espiritualistas não haverem (ainda) sido comprovadas em laboratório. Porém, a espiritualidade (e particularmente o budismo) vive de evidências extraordinárias, porém subjetivas. O máximo que conseguimos medir por aparelhos, até o momento, é o estado cerebral de monges budistas em meditação – e isto já é material para anos e anos de estudo. Sobre o tema, recomendo a leitura do livro O cérebro espiritual, do Dr. Mario Beauregard e Denise O’Leary (Ed. BestSeller).

[2] Eu pessoalmente estenderia este conselho a toda e qualquer prática espiritualista. Não há como se crer profundamente sem haver tido a experiência, é como “acreditar que a água do mar é salgada” porque se leu sobre isso nalgum livro... Mergulhar, e sentir o sal nos próprios lábios, é um outro nível de evidência – uma evidência que não se encontra em livros nem em experimentos científicos objetivos.

[3] Reparem como esta abordagem budista em nenhum momento procura “evangelizar” a própria crença, nem muito menos convencer ninguém de nada. O budismo, como ciência da mente, confia que cada um de nós – seres que possuem mentes – será capaz de, ao seu tempo, encontraras suas próprias evidências, e crer ou descrer por experiência própria. Isto nada tem a ver com evangelizações de crentes ou descrentes.

[4] Obviamente que, como Sagan gostava de dizer, “a ausência da evidência não é a evidência da ausência”, ou seja: é muito difícil comprovar objetivamente que algo não existe. No entanto, existem vários fenômenos “estranhos” que ocorrem em hospitais do mundo inteiro que parecem corroborar com uma ideia de continuidade da consciência durante o processo de morte. Sobre o tema, recomendo a leitura do livro O que acontece quando morremos, do Dr. Sam Parnia (Ed. Larousse).

[5] É precisamente esta abordagem que separa os espiritualistas dos cientistas mais céticos. Uma coisa é se perguntar, “Como funciona a gravidade, como ela afeta os corpos celestes?”, outra muito diferente é se perguntar, “Por que, afinal, existe a gravidade? Por que a Terra foi formada a partir da poeira estelar? Por que existe a vida?”.

[6] O que não é muito diferente de aceitar que não sabemos por que diabos elas acontecem, e desistimos de continuar tentando saber... É este o tal “desconforto” ao qual o Dalai Lama se refere. Talvez fosse mais honesto dizer, numa postura genuinamente agnóstica, “São tantas as variáveis em jogo que hoje o mistério do surgimento do espaço-tempo nos parece algo sem causa definida, pois é impossível conhecermos todas essas variáveis atualmente”. Segundo Immanuel Kant, tal mistério pode nunca ser totalmente solucionado...

[7] A visão preconceituosa de que os budistas ficam “meditando sem fazer nada isolados do restante do mundo” está um tanto distante da realidade. Se forem perguntar a um monge budista “o que ele faz além de meditar”, ficará um tanto surpreso com a sua agenda agitada – incluindo animadas discussões existenciais, científicas e filosóficas.

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Crédito da foto: Divulgação/Google Image Search (Carl Sagan e Dalai Lama)

Obrigado a Luc Anderssen por haver postado o vídeo legendado no YouTube

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2.5.14

Reflexões místicas - uma entrevista com Joseph Campbell (parte final)

Uma entrevista com Joseph Campbell, por Tom Collins
Originalmente publicada na revista The New Story (1985)
Tradução de Gabriel Fernandes Bonfim; Revisão de Rafael Arrais

« continuando da parte 3


4. A modernidade e a carência de mitos

[Tom] Eu entendo que houve uma série de conflitos entre os conceitos religiosos ocidentais e orientais na igreja primitiva. Acho Pelágio [da Bretanha] uma figura fascinante, por exemplo.

[Joseph] O Pelágio do século IV era ou um galês ou um irlandês, eu acho. Ele manteve a tradição ocidental individualista contra o que eu chamaria o tribalismo do Oriente, e foi considerado um herege. Ele expos os principais argumentos contra as doutrinas nas quais Santo Agostinho, seu contemporâneo, era o campeão. Uma delas foi a doutrina do pecado original. Pelágio disse, “Você não pode herdar o pecado de outro. Portanto, o pecado de Adão não é herança de ninguém.”

[Tom] Os pecados do pai não recaem sobre o filho?

[Joseph] Isso é tudo filosofia oriental, não europeia. Outra coisa que Pelágio disse é que você não pode ser salvo pelo ato de um outro. Isto diz respeito a Jesus na cruz, e derruba toda a crença [de que ele veio “pagar nossos pecados”]. Claro que [sua ideia] foi rejeitada. Pelágio estava defendendo a doutrina da responsabilidade individual. Eu não sei de onde vem, mas certamente era típico, eu diria, dos europeus, em oposição aos pontos de vista orientais. Você era um indivíduo, e não apenas o membro de um grupo.

[Tom] Isso soa como aquele trecho na lenda do Rei Arthur...

[Joseph] “Cada cavaleiro adentrou na floresta num ponto que ele havia escolhido, onde ela era mais escura e não se via caminho algum.” – Isto vem de A jornada do Santo Graal [The Quest of the Sangral], de 1215, aproximadamente, na França.

[Tom] Como é que eles esperam encontrar o seu caminho, então?

[Joseph] Se aventurando.

[Tom] E é isso que todos nós fazemos na vida?

[Joseph] Sim. Caso contrário, você iria seguir o caminho de outra pessoa, seguindo por vias já desgastadas com as pegadas de tantos andarilhos. Ninguém no mundo jamais foi você antes, com os seus dons, habilidades e potencialidades. É uma pena desperdiça-los fazendo o que alguém já realizou anteriormente.

[Tom] Você disse certa vez que nenhuma sociedade humana foi encontrada onde os temas mitológicos não eram celebrados – “magnificados em canções e experienciados em êxtases de luz e visões”. O que dizer sobre a nossa sociedade?

[Joseph] O que aconteceu na nossa é que, a nível oficial a tônica recai sobre a economia e as práticas políticas, e tem havido uma eliminação sistemática da dimensão espiritual. Mas ela existe em nossas poesias e artes. Ela existe. Você pode encontrá-la aqui. Está em uma condição recessiva, mas do contrário as pessoas não teriam vida espiritual de maneira alguma.

[Tom] Ela não estaria viva também em algumas fases do movimento ecológico?

[Joseph] Sim. E esse interesse agora no folclore indígena americano, isso não é interessante? O povo brutalizado e rejeitado – e são eles quem trazem a mensagem pela qual este país tem esperado.

Há um provérbio terrível de Spengler, que eu li num de seus livros, “Jahre der Entscheidung”, “ano da decisão”, que são os anos em que vivemos agora. Ele disse, “Quanto a América, é um amontoado de caçadores de dólares, sem passado, sem futuro”. Quando eu li isso na década de 30 eu levei a mal. Eu pensei que era um insulto. Mas no que as pessoas estão interessadas? E então Lenin diz: “Quando estivermos a ponto de enforcar os capitalistas, eles irão competir para nos vender a corda”. E é isso que estamos fazendo. Ninguém está se importando com o que sua cultura representa. Eles estão se perguntando se o agricultor no Centro-Oeste vai votar ou não em você, por você ter vendido o trigo dele para os russos. É uma terrível falta de qualquer outra coisa que não preocupações econômicas, é isto o que estamos enfrentando. Esta é a velhice e a morte; o fim. Esta é a maneira como eu enxergo este assunto. Eu não tenho nada que não julgamentos negativos sobre ele.

Olhe para o que as pessoas estão lendo nos jornais. Você entra no metrô e as pessoas estão lendo todas sobre a mesma coisa – este assassinato, aquele assassinato. Este estupro, este divórcio. Observem os tópicos que não nos saem da cabeça! O foco jornalístico em nossas vidas é o assassinato. Assassinato!

[Tom] Você não vê tal conflito acabar? Não há nenhum tipo de ordem mundial que poderia nos trazer isso?

[Joseph] Ela teria que ser uma ordem mundial, mas então ainda haveria luta dentro dela, assim como há luta dentro de nossa ordem nos Estados Unidos. Nunca me apeguei a nenhuma ideia de revolução, pois já conheci revolucionários demais.

Nota do revisor: Eu penso que Campbell, em sua sabedoria, acreditava que a verdadeira revolução é a que ocorre dentro da alma humana, e não em seu exterior.

[Tom] Se os únicos mitos que existem então são aqueles em que todo o mundo acredita – Cristianismo, Judaísmo, Hinduísmo, Budismo – as pessoas não poderiam criar um novo mito, que atendesse as necessidades de hoje?

[Joseph] Não, porque mitos não vêm a existência dessa forma. Você tem que esperar para que eles apareçam. Mas eu não acredito que nada desse tipo vá acontecer, porque existem muitos pontos de vista dispersos ao redor do mundo. Todos os mitos têm estado até agora dentro de horizontes limitados, e as pessoas têm de estar de acordo com suas dinâmicas de vida, suas experiências de vida.

[Tom] Os gregos antigos foram cercados pela presença de deuses – pelas estátuas e as lembranças desses deuses.

[Joseph] Mas isso não funciona mais. O cristianismo não está movendo a vida das pessoas hoje em dia. O que está movendo a vida das pessoas é o mercado de ações e as pontuações do beisebol. O que tem interessado às pessoas? Há um nível de pensamento totalmente materialista que tomou conta do mundo. Não há mais nem mesmo um ideal pelo qual alguém esteja lutando.

***

Nota de Tom Collins (o entrevistador): Minha vez. Eu gostaria de adicionar meus comentários aos de Joseph Campbell que diz respeito à Bíblia [ver parte 3]. Minha intenção em incluir seus comentários não foi para desmerecer as tradições baseadas na Bíblia em relação a outras tradições importantes, como o hinduísmo ou budismo. Do meu ponto de vista, a literatura sagrada de todas estas tradições foi escrita em uma linguagem da era dos impérios, e está profundamente envolvida com a consciência dos senhores da guerra. Se quisermos avançar, precisamos olhar para estes textos com olhos claros, capazes de ver o chauvinismo tribal, o machismo, o militarismo, etc., pelo que eles são. Só então seremos capazes de traduzir a sabedoria que eles de fato têm, em uma linguagem renovada, adequada para a Era Planetária.

***

Nota do revisor: É sempre reconfortante e esclarecedor tomar contato com a sabedoria de Joseph Campbell, mas penso que o fim desta entrevista ressoou particularmente sombrio. Ocorre que, já nos idos da década de 80, o olhar atento de Campbell sobre a sociedade “sem mitos” já antecipava, ainda que intuitivamente, uma crise de sentido da modernidade (ou pós-modernidade, ou seja lá como queiram chamar) que só se revela em todas as suas nuances e conflitos no século XXI.

Creio que este trecho de uma breve entrevista de Eduardo Galeano aos jovens espanhóis que se manifestavam “contra o sistema que aí está”, na Praça Catalunya, há alguns anos, seja ao menos uma espécie de sinalização para alguma luz que chegará, espero, senão com a Primavera, ao menos com a Alvorada:

“Aqui vejo reencontro, energia de dignidade e entusiasmo. O entusiasmo vem de uma palavra grega que significa “ter os deuses dentro”. E toda vez que vejo que os deuses estão dentro de uma pessoa, ou de muitas, ou de coisas, ou da Natureza, eu digo para mim mesmo: “Isto é o que faltava para me convencer de que viver vale a pena”.

Então estou muito contente de estar aqui, porque é o testemunho de que viver vale a pena. E que viver está muito, muito mais além das mesquinharias da realidade política e da realidade individual, onde só se pode "ganhar ou perder" na vida! E isso importa pouco em relação com esse outro mundo que te aguarda. Esse outro mundo possível.

Este mundo de merda está grávido de um outro!

O mundo a espera de nascer é diferente, e de parto complicado. Mas com certeza pulsa no mundo em que estamos. O mundo que "pode ser" pulsando no mundo que "é". Eu o reconheço nessas manifestações espontâneas, como as desta praça.

Alguns me perguntam “o que vai acontecer?”; “e depois, o que vai ser?”. Pela minha experiência, eu respondo: “Não sei o que vai acontecer... Não me importa o que vai acontecer, mas o que está acontecendo!”. Me importa o tempo que “é”.”

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Crédito da imagem: Android Jones

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30.4.14

Reflexões místicas - uma entrevista com Joseph Campbell (parte 3)

Arte de Android Jones

Uma entrevista com Joseph Campbell, por Tom Collins
Originalmente publicada na revista The New Story (1985)
Tradução de Gabriel Fernandes Bonfim; Revisão de Rafael Arrais

« continuando da parte 2


3. A transcendência dos mitos

[Tom] O que o termo “transcendente” significa, na frase de Durkheim, “transparência para o transcendente”?

[Joseph] O significado simples do termo é aquilo que vai além de todos os conceitos e conceituações, ou aquilo que está além de toda conceituação.

[Tom] De onde vem esta experiência?

[Joseph] A sua vida é a sua experiência de energias transcendentes, porque você não sabe de onde sua vida vem, mas você pode experimentá-la. Estamos experimentando estas energias bem aqui, apenas por estarmos sentados nelas, sentindo-as borbulhar.

[Tom] Você está usando o “transcendente” como um outro termo para Deus?

[Joseph] Se você quiser personificar o termo. Brahman é a maneira sânscrita de falar sobre isso. Manitou é a forma dos Algonquin, Orinda a dos Iroquois, Owacan é a dos Sioux.

[Tom] Javé?

[Joseph] Javé é a personificação. Ele é isto que está além da conceituação.

[Tom] Não podemos falar o nome, no entanto...

[Joseph] Bem, assim deveria ser, mas sabemos tudo sobre ele, ou ele nos contou tudo sobre si mesmo e como devemos nos comportar. O conceito básico da mitologia é a transcendência da personificação. A personificação é uma concessão à consciência humana, de modo que possamos falar sobre essas coisas.

[Tom] Você quer dizer que, se o infinito se revela para você, sua pequena mente responde dizendo, “Deus falou comigo”, porque ela só pode entender o que aconteceu em seus termos limitados?

[Joseph] Isso mesmo.

[Tom] Eu percebo que você não é um grande amante da Bíblia.

[Joseph] Nem um pouco! É o livro mais excessivamente anunciado do mundo. É muito pretensioso para ser reivindicado como a palavra de Deus, ou ser aceito como tal e perpetuar essa mitologia tribal, justificando todos os tipos de violência a pessoas que não são membros da tribo.

O que eu vejo de mais lamentável no uso que fazem da Bíblia é que, apesar dela tratar de uma mitologia tribal circunscrita a um determinado local do mundo, e de lidar com um determinado povo em um determinado momento, os cristãos ampliaram isto para serem incluídos. Em seguida, tal interpretação coloca esta sociedade contra todas as outras, ao passo que a condição do mundo de hoje é que esta sociedade em particular, que é apresentada na Bíblia, não é nem mesmo a mais importante. Essa coisa é como um peso morto. Ela está nos puxando de volta, porque ela pertence a um período antigo. Não conseguimos nos soltar e nos mover para uma teologia moderna.

Uma das grandes promessas da mitologia é a que o leva a se perguntar: Com qual grupo social eu me identifico? E quanto ao planeta? Agora, afirmar que os membros deste grupo social em particular são a elite do mundo de Deus é uma boa maneira de manter tal grupo unido, mas olhe para as consequências! Acho que o que poderia ser chamado de chauvinismo santificado da Bíblia é uma das maldições do planeta nos dias atuais.

Nota do tradutor: “chauvinismo” é o termo dado a todo tipo de opinião exacerbada, tendenciosa ou agressiva em favor de um país, grupo ou ideia.

[Tom] Há muito material interessante no Antigo Testamento, não é? Por exemplo, ele diz que Deus criou tudo, exceto a água.

[Joseph] Você colocou o dedo na ferida. A água é a deusa, consegue ver? O que acontece no Antigo Testamento é que o princípio masculino permanece personificado e o princípio feminino é reduzido a um elemento. O primeiro verso diz que quando Deus criou, o sopro de Deus pairava sobre as águas. E a água é a deusa.

[Tom] Eu suponho que você não acredite em um real e literal “sete dias da criação”.

[Joseph] Claro que não. Isso não tem nada a ver com a história evolutiva real como agora a entendo.

[Tom] Como você reconcilia esses dois relatos?

[Joseph] Por que alguém deveria se preocupar com isso? Mais do que, por exemplo, em procurar reconciliar a história dos índios Navajos?

[Tom] Eu me lembro de ouvir uma palestra maravilhosa do falecido Louis Leakey em que ele insistiu que não havia conflito entre o relato de Gênesis sobre a criação e o que ele havia descoberto.

[Joseph] Bem, ele pode não ter lido com o cuidado devido. Há dois relatos bíblicos sobre a criação no mesmo Gênesis, um no primeiro capítulo e um no segundo, e eles são muito contrários um ao outro.

Já era tempo de havermos parado com esta ideia de, “Ó, nós temos de acreditar na Bíblia”. Eu teria ido logo trabalhar com a questão dos Navajo, onde eles se elevam através de quatro mundos. Um é vermelho, outro amarelo...

[Tom] Mas se você jogar fora a Bíblia como historia, não é também jogá-la fora como um imperativo moral?

[Joseph] Sim. Eu não acho que a Bíblia seja o imperativo moral de ninguém, a não ser que você queira ser um judeu tradicional. Isso é o que a Bíblia lhe diz.

[Tom] Ela não lhe diz como ser uma boa pessoa?

[Joseph] Não.

[Tom] Muitas pessoas pensam assim.

[Joseph] Basta lê-la. Talvez ela lhe dê algumas dicas, mas a Bíblia também lhe diz para matar todos na terra de Canaã, até mesmo os ratos.

[Tom] Como foi a passagem que você citou para justificar as ideias de exclusividade [dos judeus]?

[Joseph] “Não há Deus em todo o mundo senão em Israel”. Isso deixa todos de fora, exceto os judeus. Esta é uma das interpretações mais chauvinistas da moralidade.

Um dos grandes textos está em Êxodo, quando os judeus são instruídos a matar os cordeiros e colocar o sangue em sua porta para que o anjo da morte não mate nenhum dos seus filhos, e em seu lugar ele deve matar os filhos dos egípcios. E na noite anterior eles saem para pedir aos seus amigos egípcios que lhe emprestem as suas joias, e assim por diante. Então, na noite seguinte, eles fogem com as joias, e o texto diz que assim eles espoliaram os egípcios. Você chama a isto de boa ética?

[Tom] Qual é o enredo de algo como Caim e Abel?

[Joseph] Há um diálogo sumério muito interessante que apareceu cerca de 1.500 anos antes da história de Caim e Abel. Trata-se de um pastor e um agricultor competindo pelo favor da deusa. A deusa escolhe dar preferencia ao agricultor e a sua oferta. Bem, os judeus chegam nesta região, e eles não são agricultores, eles são pastores. E eles não têm uma deusa, eles têm um deus. Então, eles viraram a coisa toda de cabeça para baixo, e fazem Deus favorecer o pastor contra o agricultor.

O interessante é que por todo o Antigo Testamento, é o irmão mais novo que derruba o irmão mais velho em favor de Deus. Acontece diversas vezes. Isto é simplesmente em função do fato de que os judeus chegam aquela região como “o irmão mais novo”. Eles vêm como bárbaros beduínos do deserto, e chegam em áreas agrícolas altamente sofisticadas; e eles estão declarando que, embora os outros sejam os mais velhos – como Caim o era, o fundador das cidades e todas estas coisas –, eles são os preferidos de Deus. É apenas uma outra forma de chauvinismo santificado.

Você consegue entender o ponto de vista das religiões exclusivistas, não consegue? – “Você adora a Deus da sua maneira, eu vou adorar a Deus na maneira dele.”


» Em seguida, na parte final da entrevista, a modernidade e a carência de mitos...

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Crédito da imagem: Android Jones

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29.4.14

Reflexões místicas - uma entrevista com Joseph Campbell (parte 2)

Arte de Android Jones

Uma entrevista com Joseph Campbell, por Tom Collins
Originalmente publicada na revista The New Story (1985)
Tradução de Gabriel Fernandes Bonfim; Revisão de Rafael Arrais

« continuando da parte 1


2. O mito como a dinâmica da vida

[Tom] Para citar suas próprias palavras novamente, “Um mito é a dinâmica da vida. Você pode ou não conhecê-lo, e o mito que você pode estar respeitosamente adorando no domingo pode não ser aquele que realmente está trabalhando em seu coração, e nem aquele que está lá fora, de acordo com a visão dos eclesiásticos.”

[Joseph] Sim. Eu diria que é uma afirmação correta, então eu ainda diria isso hoje.

[Tom] Como você une essas duas dinâmicas?

[Joseph] Colocando a ênfase em sua própria dinâmica interna, e em seguida, filtrando e extraindo da sua herança de tradições aqueles aspectos que lhe dão suporte em sua própria vida interior. Isto significa não estar preso a esta, aquela, ou a qualquer outra tradição, mas estar aberto a uma comparação geral entre todas elas... Veja, eu me dedico bastante a estudos comparativos de mitologia. Eu acho que um dos problemas de hoje é que a sociedade se encaminhou para um relacionamento multicultural, que torna arcaico esses sistemas mitológicos presos a cultura – como a cristã, a judaica e a hinduísta.

Ou seja, ao conhecer o seu próprio sistema, que lhe impulsiona por dentro em suas vivências espirituais, e reconhecer estas imagens simbólicas que realmente lhe tocam a alma, você pode buscar ajuda para – poderíamos dizer – universalizar e solidificar esta mitologia pessoal em si mesmo; e então, você passa a estar apto a buscar mais ajuda nas outras mitologias da cultura humana.

Nota do revisor: este trecho é particularmente complexo, mas passa a ser mais compreensível ao estudarmos a teoria do Monomito de Campbell, segundo a qual todos os mitos da cultura humana são, em sua essência mais íntima, parte de uma mesma mitologia. Por isso ele crê que, não importa qual o sistema simbólico ou mitologia pessoal que adotemos, ele deve funcionar se for capaz de lhe tocar a alma – e, da mesma forma, se não lhe tocar a alma, provavelmente a sua vivência espiritual será comprometida. Por “buscar ajuda”, penso que ele queira se referir a algo como “buscar o aconselhamento dos que já estão mais avançados no caminho” (alguns chamam a estes de “mestres” ou “gurus espirituais”); mas também pode estar se referindo, simplesmente, ao estudo (intelectual) dos mitos.

[Tom] Quais são os propósitos do mito?

[Joseph] Há quatro deles. Um místico. Um cosmológico: o universo inteiro como agora o entendemos se torna, como era no início da criação, uma revelação da dimensão do mistério. O terceiro é sociológico: tomar conta da sociedade que nos cerca. Mas nós não sabemos o que esta sociedade é, ela mudou tão rapidamente. Meu Deus! Nos últimos 40 anos tem havido tal transformação nos costumes, que é impossível falar sobre eles. Finalmente, há o pedagógico, que é orientar um indivíduo através das inevitabilidades de uma vida. Mas, mesmo isto se tornou impossível, porque não sabemos mais o que é inevitável no decorrer de uma vida. Estas coisas estão mudando a todo momento.

Antigamente, havia apenas um número limitado de carreiras disponíveis para o homem. E para a mulher, o normal era ser uma dona de casa ou uma freira ou algo parecido. Agora, o panorama de possibilidades e possíveis vidas e como elas mudam de década para década tornou-se impossível de mitificar. O indivíduo segue sua vida sem preparação alguma. É como correr com a bola numa brecha aberta num campo de futebol americano – não há regras, e muitos podem vir lhe derrubar. Você precisa estar muito atento a sua volta até o final da corrida. Tudo o que você pode aprender é o que a sua essência íntima é, e tentar permanecer fiel a ela.

[Tom] Como você aprendeu isso?

[Joseph] Eu não sei. Algumas pessoas aprendem cedo; alguns nunca aprendem.

[Tom] Que tipo de mitologia nós temos hoje? Que tipo deveríamos ter?

[Joseph] Eu não vou dizer que tipo de mitologia nós temos, porque eu não acho que tenhamos uma mitologia funcionando de forma geral. Eu diria que nos termos dos aspectos sociológicos da mitologia (e talvez isto esteja além de nossa capacidade sentimental) deveríamos ver o todo – a sociedade global como a comunidade a ser estudada.

[Tom] Eu pensei que os mitos sempre fossem vinculados a um grupo ou lugar específico.

[Joseph] Isso mesmo. Mas quando você pode voar de Nova York a Tóquio em um dia, você não pode mais ficar limitado a um pequeno grupo de pessoas e se referir a elas como uma unidade, pois hoje os pensamentos e crenças também viajam rapidamente através do globo. O planeta é a sociedade. E, de fato, economicamente já funcionamos assim.

[Tom] Eu acho interessante que algumas pessoas começaram a combinar a sabedoria antiga com ideias modernas – pessoas como Jean Houston, Michael Harner, Joan Halifax e Elizabeth Cogburn.

[Joseph] Se faz sentido, o que isto me parece sugerir é que necessitamos harmonizar nossas vidas com a ordem da natureza.

[Tom] Muitas dessas pessoas também estão interessadas ​​na criação de rituais. Qual é o papel que os rituais desempenham na mitologia?

[Joseph] Um ritual é a encenação de um mito. E através dessa encenação o ritual traz à mente as implicações do ato da vida que você atualmente vivencia. Agora, as pessoas me perguntam, quais rituais nós temos atualmente? A minha resposta é: o que você tem feito? O que é importante em sua vida? O que é importante, eles dizem, é ter um jantar com seus amigos. Isto é um ritual.

Este é o sentido da peça A festa dos coquetéis de Thomas Stearns Eliot. A festa é um ritual. Dessa forma, tem uma função religiosa, e aquelas pessoas estão engajadas em um relacionamento humano. Essa é a ideia chinesa, a ideia de Confúcio, de que as relações humanas são a maneira de você experienciar o Tao. Perceba o que você está fazendo quando está dando uma festa. Você está realizando um ritual social. Você o está conduzindo quando se senta para comer uma refeição, você está consumando um ato da vida.

Quando você está comendo alguma coisa, isto é algo muito especial de se fazer. E você deveria ter esse pensamento tanto ao comer uma cenoura, como ao comer um animal, assim eu penso. Mas você não sabe o que está fazendo, a menos que você pense sobre isso. Isso é o que um ritual faz. Ele lhe dá uma oportunidade de perceber o que você está fazendo, para que possa compreender a sua relação com essa inevitável energia da vida em seus momentos de interação. Para isso que os rituais servem; você faz as coisas com intenção, e não apenas de maneira animalesca, vorazmente, sem ter consciência alguma do que está realizando.

Isso também é verdade para o sexo. As pessoas que apenas praticam sexo como um jogo divertido, ou algo emocionante como isto, não entendem o que estão fazendo. Então você não tem a sacramentalização. E a grande razão de o casamento ser sagrado, é que ele permite que você saiba o que diabos é correto e o que não é, e o que está acontecendo ali. Um macho e uma fêmea que se juntam, com a possibilidade de que uma outra vida surja desta interação – este é um grande ato.


» Na próxima parte da entrevista, a transcendência dos mitos...

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Crédito da imagem: Android Jones

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28.4.14

Reflexões místicas - uma entrevista com Joseph Campbell (parte 1)

Joseph Campbell

Uma entrevista com Joseph Campbell, por Tom Collins
Originalmente publicada na revista The New Story (1985)
Tradução de Rafael Arrais

Joseph Campbell talvez seja o acadêmico mais proeminente no estudo da mitologia. Entre os seus diversos livros podemos destacar O herói de mil faces, As máscaras de Deus (série) e o célebre O poder do mito. O entrevistador, Tom Collins, é um escritor e editor de Los Angeles, que já trabalhou com Steven Spielberg.


1. A importância dos mitos

[Tom] O que os mitos fazem por nós? Por que a mitologia é tão importante?

[Joseph] Ela lhe põe em contato com um plano de referência que vai além da sua mente e adentra profundamente o seu próprio ser, até as vísceras. O mistério definitivo do ser e do não ser transcende todas as categorias de pensamento e conhecimento. Ainda assim, isto que transcende toda a linguagem é a própria essência do seu ser; então você está descansando sobre ela, e sabe disso.

A função dos símbolos da mitologia é nos levar a uma espécie de insight, “Aha! Sim, eu sei o que é isto, isto sou eu mesmo”. É disto que se trata a mitologia, e através dessa vivência você se sente em contato com o centro do seu próprio ser, cada vez mais, e todo o tempo. E tudo o que você faz dali em diante pode ser relacionado com tal grau de verdade. No entanto, falar sobre isso como “a verdade” por ser um pouco enganoso, pois quando pensamos na “verdade”, pensamos em algo que pode ser conceitualizado. E tal vivência vai além disso.

[Tom] Heinrich Zimmer disse, “As melhores verdades não podem ser ditas...”

[Joseph] “E as segundas melhores são mal interpretadas.”

[Tom] E então você adicionou alguma coisa ali...

[Joseph] As terceiras melhores fazem parte da conversação usual – ciência, história, sociologia.

[Tom] Por que nos confundimos com estas verdades?

[Joseph] Porque as imagens que precisam ser usadas para falar sobre o que não pode ser dito, as imagens simbólicas, são compreendidas e interpretadas não de forma simbólica, mas de forma empírica, como fatos concretos. É algo natural, mas é também todo o problema com as religiões do Ocidente. Todos os símbolos mitológicos são interpretados como se fossem referências históricas. Eles não são. E acaso fossem, e daí, o que viria a seguir?

[Tom] Vamos tomar cuidado aqui. O que você está chamando de símbolo?

[Joseph] Eu estou chamando de símbolo um signo que aponta para algo além dele mesmo, para um campo de significado e vivência que se encontra unificado com a consciência do observador. O que você está aprendendo na mitologia diz respeito ao sentido de você ser uma parte do ser que preenche o mundo.

Se um mito não lhe toca e não fala sobre você, mas sobre algo lá fora, então ele é um mito superficial; ou que foi interpretado superficialmente. Há esta frase maravilhosa que eu anotei de Karlfried Graf Durkheim, “transparência para o transcendente”. Se uma doutrina bloqueia a transcendência, e lhe corta o acesso à divindade para lhe manter preso ao seu eu mundano, ela lhe transforma num devoto, num adorador, e não lhe encaminha a abrir o mistério que há dentro do seu próprio ser.

[Tom] Você já chamou a isto de “a patologia da teologia”.

[Joseph] É como ainda chamaria hoje.

[Tom] Walter Huston Clark diz que a igreja é como uma vacinação contra a coisa real.

[Joseph] C. G. Jung diz que a religião é uma defesa contra a experiência de Deus. Eu digo que as nossas religiões [igrejas] o são.

[Tom] O que fazer então, se a experiência não é encontrada na religião [igreja]?

[Joseph] Você a encontra no misticismo, e entra em contato com místicos que leem tais formas simbólicas simbolicamente. Místicos são pessoas que não são teólogos; teólogos são pessoas que interpretam o vocabulário das escrituras como se elas se referissem a fatos sobrenaturais.

Há uma pletora de místicos na tradição cristã, mas nós não ouvimos muito sobre eles. Ainda assim, de vez em quando alguns esbarram no misticismo. Mestre Eckhart foi uma pessoa assim. Thomas Merton também experienciou o misticismo, assim como Dante Alighieri e Dionísio, o Aeropagita. João da Cruz alternou momentos de contato com o misticismo com momentos de recaída mundana.

Eu penso que James Joyce é pleno de misticismo, e Thomas Mann também o alcançou na escrita, embora não tão profundamente quanto Joyce. É estranho como, desde a morte de Mann, o misticismo tenha desaparecido da literatura.


» Na próxima parte da entrevista, o mito como a dinâmica da vida...

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação (Joseph Campbell)

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29.7.13

Uma entrevista com Papa Francisco

Em uma entrevista histórica, a primeira (exclusiva) desde que se tornou Papa, Francisco responde sem hesitação (e com toda a doçura que lhe é peculiar) a todas as perguntas do jornalista Gerson Camarotti da GloboNews, provavelmente um dos homens que mais compreende a política vaticanista; mesmo estando fora do Vaticano. A entrevista foi concedida na semana passada, enquanto o Papa participava da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) no Rio de Janeiro.

No Estúdio I de hoje à tarde, Camarotti confessou que o Vaticano não havia aprovado a entrevista exclusiva, e que "tudo dependeu da intuição do Papa em aceitar falar". Além disso, ocorreu algo muito raro para o caso de uma entrevista a um chefe de Estado: nenhuma pergunta foi vetada a priori. Ou seja, Camarotti podia perguntar sobre o que quisesse perguntar - e não faltaram perguntas difíceis, como as que remetiam aos problemas de corrupção no chamado Banco do Vaticano (IOR) e as recentes manifestações nas ruas do Brasil. Sobre o que sabia responder, Francisco respondeu pausadamente e com enorme clareza, nos trazendo uma sabedoria que vai muito além da mera intelectualidade. Sobre o que não sabia responder, teve a humildade de admitir:

Alguns trechos selecionados da entrevista acima:


Trecho sobre o inconformismo da juventude

Um jovem que não protesta não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia, e a utopia não é sempre negativa. A utopia é respirar e olhar adiante.

O jovem é mais espontâneo. Não tem tanta experiência de vida, é verdade, mas as vezes essa experiência nos freia. O jovem tem mais energia para defender suas ideias. O jovem é essencialmente um inconformista, e isso é muito lindo! Isso é algo comum a todos os jovens.

Então eu diria que, de uma forma geral, é preciso ouvir os jovens, dar-lhes meios de se expressar e cuidar para que não sejam manipulados.

***

Trecho sobre a idolatria do dinheiro

O mundo atual em que vivemos caiu na feroz idolatria do dinheiro. Há uma política mundial impregnada pelo protagonismo do dinheiro. Quem manda hoje é o dinheiro.

Isso significa uma política mundial economicista, autossuficiente, sem qualquer controle ético, que vai arrumando os grupos sociais de acordo com essa conveniência.

O que acontece então? Quando reina no mundo a feroz idolatria do dinheiro, se concentra muito no centro, e as pontas da sociedade, os extremos, são mal atendidos, mal cuidados, descartados.

Até agora, vimos claramente como se descartam os idosos. Há toda uma filosofia para descartar os idosos: "Não servem. Não produzem". Os jovens tampouco produzem muito, pois é uma carga que precisa ainda ser formada. O que estamos vendo agora é que a outra ponta, a dos jovens, está em vias de ser descartada.

O alto percentual de desemprego entre os jovens da Europa é alarmante. Em certos países já há mais da metade dos jovens desempregados. Nós vemos um fenômeno de jovens descartados.

Então para sustentar este modelo político mundial, estamos descartando os extremos... Curiosamente, estes que são a promessa para o futuro. Porque o futuro quem vai dar são os jovens, que seguirão adiante, e os idosos, que precisam transferir sabedoria aos jovens. Descartando ambos, o mundo desaba.

Falta uma ética humanista em todo o mundo.

***

Trecho sobre a Torre de Babel

Se me der um minuto, direi algo a mais sobre esse tema (Camarotti: "lógico que dou").

No século XII havia um rabino muito sábio que escrevia explicando à sua comunidade, com fábulas, os problemas morais que havia em algumas passagens da Bíblia.

Uma vez, falou sobre a Torre de Babel. Ele explicava assim:

Qual era o problema com a Torre, porque houve o castigo divino?

Ora, durante a construção da Torre, era necessário fabricar tijolos do barro, meter-lhes palha, levá-los ao forno e, já cozidos, transportá-los para o alto da edificação. Cada tijolo era um tesouro, devido a todo o trabalho envolvido em sua fabricação. Quando caía um tijolo do alto da Torre, era uma catástrofe, e o operário que o deixou cair era castigado.

Mas se caísse um operário, nada acontecia...

Hoje, há crianças que não têm o que comer no mundo; há crianças que morrem de fome e desnutrição; há doentes que não têm acesso a tratamento; há mendigos que morrem de frio no inverno; há crianças que não têm educação nem perspectivas de futuro. Nada disso é notícia.

Mas quando as bolsas de algumas capitais caem 3 ou 4 pontos percentuais, isso é tratado como uma grande catástrofe mundial. Compreende?

Esse é o drama desse "humanismo" desumano que estamos vivendo. Por isso é preciso recuperar os extremos da sociedade, os idosos e os jovens, e não cair numa globalização da indiferença em relação a esses dois extremos que são o futuro do mundo.


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16.7.13

De Tuvalu a Lalibela

Não Conta Lá em Casa é um dos programas mais originais, corajosos e reflexivos da TV paga [1]. Recentemente André Fran, um dos integrantes do quarteto que viaja pelas áreas em conflito do mundo, lançou um livro homônimo (pela Editora Record) em que descreve com maior profundidade o dia a dia de suas aventuras. Esta é uma entrevista com o autor do livro [2]:

1 – Em qual momento da série você decidiu escrever o livro?
Eu sou responsável pelo texto do programa, também escrevia o blog e escrevia eventuais matérias sobre as viagens para outros veículos. E, mesmo assim, isso não dava vazão pra enorme quantidade de anotações em guardanapos surrados, notes no iPhone que iam se acumulando a cada viagem. Percebi então que poderia unir e desenvolver vários textos que já havia escrito que daria um volume legal para um livro. A Record gostou da ideia e voilá!

2 – Como é a estrutura do livro? Funciona como um guia para quem  está disposto a correr algum risco? Ou você não aconselha ninguém a refazer os roteiros?
O livro é um relato pessoal das viagens pelos destinos mais polêmicos do mundo que realizei com o "Não Conta lá em Casa".  Revelo também alguns detalhes divertidos e inusitados dos bastidores das viagens e aproveito para dar umas dicas para quem se aventurar a traçar roteiros tão insólitos como esses. Eu retornaria a cada um deles no momento certo! Todos tem paisagens incríveis, histórias sensacionais e culturas interessantíssimas. 

3 – O que o livro tem de diferente do programa na TV? O que você poder escrever que não teria o mesmo resultado no vídeo?
Como é uma obra autoral, acrescentei algumas conclusões pessoais e "filosofadas" a respeito das situações, causas e dramas que conheci. Quando retornamos dessas nossas "missões" é que, longe do calor dos acontecimentos, a ficha cai e dá pra analisar com mais calma o que passei e assim relativizar e analisar mais profundamente.

4 – O que é o Manual do Nerd na Estrada?
Todos os membros da equipe, cada um a sua maneira, são um pouco nerds. Estamos sempre conectados ou a procura de um sinal de internet. Claro que, devido ao perfil dos destinos que percorremos, nem sempre achar o bendito sinal era fácil. Por isso, eu e Leondre (Leonardo Campos) começamos a compilar algumas dicas de como se virar nos momentos de maior dificuldade para aliviar as crises de abstinência "internética".

5 – Como vocês definem os destinos a serem desbravados? Já houve algum lugar vetado?
Decidimos tudo em conjunto. Às vezes uns tem que convencer mais aos outros, mas geralmente chegamos a um consenso com tranqüilidade. Os casos de veto partiram de vistos negados por parte de países que descobriram nossas intenções e não se sentiram confortáveis em serem retratados pelo programa.

6 – O Japão não estava no roteiro prévio de vocês para a quarta temporada. Como foi a experiência de acompanhar a reconstrução pós-tragédia por lá?
Eu tinha acabado de voltar de uma viagem de férias pelo Japão justamente por achar que o país jamais se encaixaria no perfil de destino do NCLC. Ledo engano. Voltei exatamente no dia do terremoto e tsunami e voltei com meus companheiros de programa menos de um mês depois. Foi incrível ver como aquele povo que tanto preza pela organização, o respeito e a disciplina lidava com uma tragédia de proporções catastróficas. Uma aula de civilidade em um momento tão dramático.

7 – Vocês se preocupam em retratar os aspectos sociais de cada lugar com muitos detalhes. A vontade de mostrar culturalmente cada país é o que move o programa pelo mundo?
Sim! Achamos muito mais interessante quando temos a possibilidade de quebrar algum paradigma, estereótipo ou preconceito do que passar por perrengues ou perigos. O objetivo do programa, e agora do livro, é dar a nossa contribuição para o mundo de alguma forma. E quebrar preconceitos é uma maneira muito importante de dar nossa contribuição.

8 – Qual foi o momento mais hostil? Sentiram medo em algum lugar específico?
Bagdá, sem sombra de dúvida. Fomos  em um momento em que os EUA alardeavam na imprensa que o Iraque voltava ser um país viável, pacífico e que, pouco a pouco o poder voltava as mãos dos iraquianos. Diziam inclusive que turistas começavam a voltar ao local. Pois nos propusemos a fazer parte dessa primeira leva de turistas-cobaias. Acabamos nos deparando com um autêntico cenário de guerra. Atentados, violência e medo por toda a parte. O hotel onde nos hospedamos sofreu um atentado um mês após nossa partida onde mais de 60 pessoas morreram. Lamentável.

9 – Como é preparação para cada viagem? Quanto tempo vocês levam pesquisando e produzindo o roteiro?
Como já é de nosso gosto pessoal esses temas geopolíticos, muitas coisas nós já sabemos. Mas aproveitamos para checar novas fontes e referências como sites, filmes, blogs etc. E, acima de tudo, usamos essa pré-produção para fazermos contatos locais. Estes sim são responsáveis pelas nossas mais interessantes ações e pela garantia de nossa segurança com dicas fiéis e atuais da realidade de seus países.

10 – Quais cuidados com a segurança da equipe vocês costumam tomar nas viagens? Já se colocaram em alguma situação de risco?
É impossível realizar esse tipo de programa e cumprir o objetivo de mostrar a realidade desses locais sem se expor a um certo nível de risco. Mas tentamos mitigá-lo ao máximo possível. 

11 – Conseguiram colocar algo em prática com o que aprenderam no treinamento de guerra em Ravenna, na Itália?
A maioria daquelas dicas é meio bom senso, né? "Atravesse a rua se tiver alguém estranho vindo em sua direção". E as outras são para situações extremas demais: "Se um assassino psicopata entrar no supermercado metralhando todo mundo, voe em sua garganta". Espero que eu nunca passe por nenhum delas, mas se passar acho que estou mais preparado, sim.

12 – Vocês costumam viajar com pranchas de surfe. Momentos de lazer aliviam a tensão nestes lugares?
Na verdade, foram poucas as viagens em que levamos pranchas. O fato é que carregá-las por 20 dias não compensa muito quando a única oportunidade de usá-las é em um mar ruim e por apenas duas horas. Mas confesso que elas ajudam no disfarce de "turistas comuns sem noção" em certas ocasiões.

13 – Som, comida e paisagem inesquecíveis durante o programa:
Melhor som: Explosions in the Sky (banda do Texas, EUA) nos acompanhou e serviu de trilha em várias viagens.
Pior som: gritaria da reza das mesquitas durante o Ramadan.

Melhor comida: prato vegetariano na Albânia e sushi no Japão.
Pior comida: biscoito de lama que provei no Haiti e barata que comi na Tailândia.

Paisagens incríveis: lagos azuis da Band-e-Amir, no Afeganistão. Igrejas de pedra em Lalibela, Etiópia. Templos de Bagan, em Mianmar. O terraço do Hyatt em Tóquio. E qualquer praia de Tuvalu.

14 – Quais são os próximos passos n TV? Há uma possibilidade de um novo livro no futuro?
Estreamos nossa 6ª temporada no Multishow no segundo semestre com novidades bombásticas: mudanças na equipe e o destino mais temido e impossível da história do programa! Já estou pensando em um novo livro. Não vai ser uma seqüência exata desse. Quero pegar casos interessantes de determinadas viagens e somar a dados curiosos e histórias interessantes sobre o ato de viajar em si. Aeroportos, vôos, estrada, bagagem, hotéis... A ideia é criar o Manual Definitivo do Viajante. Ou algo assim... :)

***

» Veja também o "trailer" do livro no Vimeo

[1] Ele já foi tema de nossa série de artigos: Todas as guerras do mundo.

[2] A entrevista não foi realizada pelo Textos para Reflexão, estamos apenas ajudando na divulgação da obra, pois acreditamos em obras oriundas da Verdadeira Vontade :)

Crédito da imagem: Divulgação/Record/NCLC

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5.2.13

Silas Malafaia, Eli Vieira e o "gene da homossexualidade"

Normalmente não me envolvo muito com "polêmicas de última hora" nas redes sociais, mas esta em específico merece uma reflexão mais aprofundada...

O que me preocupa nesta história da entrevista do pastor Silas Malafaia para a Marília Gabriela, e na (em boa parte brilhante) resposta do geneticista Eli Vieira a polêmica da "influência genética na homossexualidade", é que sabemos hoje que não há "gene da homossexualidade", e que pode ser muito perigoso crer que exista um. Vamos refletir um pouco:

(a) A hipótese da influência genética decisiva em qualquer tipo de comportamento humano, ainda que sexual, não é conclusiva e tampouco decisiva. Talvez um dia encontrem uma associação direta e decisiva entre algum gene ou grupo de genes e um tipo de comportamento, mas este dia ainda não chegou [1]...

(b) Crer que exista um gene assim nos força a considerar a hipótese de que há outros genes do tipo. Por exemplo, vamos citar um trecho do livro "Evolução em quatro dimensões", de Eva Jablonka e Marion J. Lamb (Companhia das Letras):

"O livro A natural history of rape [Uma história natural do estupro], de Thornhill e Palmer, é um exemplo perfeito desse gênero [de suposta determinação genética decisiva].
Eles não afirmam não ser possível sobrepujar a manifestação de um comportamento como a propensão ao estupro, mas sugerem que isso é muito difícil por se tratar de um comportamento embutido num módulo mental que evoluiu. Nem é preciso dizer que não existe nem sombra de evidências para essas alegações evolutivas. São apenas histórias inventadas".

Entenderam o problema? (Obs: as autoras também são geneticistas brilhantes).

(c) Genes não são como deuses, astros ou orixás, que supostamente influenciam nossa personalidade. Não são, mas é exatamente assim que alguns dos "adoradores da ciência" os veem (e ainda criticam os astrólogos).

(d) Os homossexuais não tem de se "desculpar" por sua homossexualidade. Não tem de explicar que "são assim porque nasceram com um gene alterado", etc. Homossexualidade não é doença, mas algo perfeitamente natural. Se não acredita em mim, lhe dou duas palavras-chave para pesquisar online: "bonobos" e "homossexualidade na Grécia antiga" (Obs: alguns dos homens mais sábios da humanidade viveram na Grécia antiga).

***

[1] E, admito: torço mesmo para que nunca chegue. Se chegar, o próximo passo será a "terapia genética para dar fim ao mal da homossexualidade", ou vocês acreditam que não?

Vejam também:

» 3 chimpanzés (também sobre os bonobos)
» Levítico: pedras não faltarão

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Crédito da imagem: Divulgação (Silas Malafaia e Eli Vieira)

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4.12.12

Nem ateu, nem agnóstico: cientista

Neste depoimento extraordinário para o Big Think, Neil deGrasse Tyson explica o porque de não ser exatamente um agnóstico, e muito menos um ateísta, mas tão somente um cientista, um livre pensador, e educador:

Transcrição de parte do depoimento
Muitas vezes me perguntam, ocasionalmente de uma maneira acusatória: "Você é ateísta?". Sabe, o único "ista" que eu sou é cientista, certo? Eu apenas penso por mim mesmo [1].

No momento em que o vinculam a uma filosofia ou movimento, eles transferem toda a bagagem que vem com isto para você! E quando quiser ter uma conversa, eles irão afirmar que já sabem tudo o que é importante saber sobre você, pode causa desta associação. E esta não é a maneira de se ter uma conversa. Desculpe, não é.

Seria melhor se explorássemos as ideias uns dos outros em tempo real, ao invés de atribuir um rótulo. O que as pessoas estão atrás é sobre minha postura sobre a religião, a espiritualidade, ou Deus. E eu diria, se pudesse encontrar uma palavra que chegasse mais perto, que seria agnóstico. Uma palavra que data do século XIX. Para se referir a alguém que não sabe, mas realmente não viu evidência para isto, embora esteja preparado para abraçar a evidência se estiver lá. Ok?

Existem muitos ateístas que dizem: "Bom, todos os agnósticos são ateístas." Ok. Sou constantemente reivindicado pelos ateístas. Eu acho isto intrigante. De fato, na minha página da Wikipedia, diz-se que sou ateísta. Então eu corrijo: "Neil deGrasse Tyson é um agnóstico". Volto uma semana depois, e diz-se novamente que sou ateísta... Em uma semana!

Tais termos não são a mesma coisa, e lhe direi porque: Ateístas que conheço, que orgulhosamente vestem a camisa, são ateístas ativos! Está na cara deles, ateístas! E eles querem mudar políticas, eles estão tendo debates. Eu não tenho o tempo, o interesse e a energia para fazer nada disso.

Sou um cientista. Sou um educador. Meu objetivo é fazer as pessoas pensarem direito em primeiro lugar, e ficarem curiosas sobre o mundo natural. E isto é tudo, não vou além disto.

E é estranho que a palavra "ateísta" até mesmo exista! [2] Eu não jogo golf, e há uma palavra para não-jogadores de golf? Eu não consigo me reunir e falar com todos numa sala sobre o quanto não acreditamos em Deus. Apenas não tenho energia para isto. Então, ser agnóstico me separa da conduta dos ateístas. Mas no fim do dia, seria melhor que eu não fosse de categoria nenhuma.

***

[1] Recordemos que a ciência em si não é nem espiritualista nem materialista, nem ateísta nem teísta, mas os cientistas, como seres humanos, não têm como escapar de estar "aqui ou acolá". Acho que o que o Tyson quis dizer (ao longo de todo o depoimento) é que simplesmente odeia rótulos de qualquer tipo, e prefere "conhecer as pessoas por detrás dos rótulos". Nesse sentido eu concordo com ele.

[2] Mas vale lembrar que, bem antigamente, o termo "ateísta" se referia não exatamente a quem não acreditava em nenhum deus, como parece ser o uso mais comum atualmente, mas principalmente a quem não seguia os rituais e os deuses das religiões "dominantes" de uma dada região. Exatamente por isso, Sócrates, Jesus e Espinosa foram acusados de ateísmo, embora todos acreditassem, cada um a sua maneira, nalgum deus.

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3.9.12

Eu Maior: novas entrevistas

O documentário Eu Maior ainda não foi lançado, mas está em pós-produção e esperamos que saia ainda este ano. Entretanto, outro dia voltei lá e descobri mais 5 trechos de entrevistas com mentes incríveis. Aproveitem a degustação:

Mário Sérgio Cortella é filósofo e doutor em Educação pela PUC de São Paulo, onde é professor-titular do Departamento de Fundamentos da Educação e da Pós-Graduação em Educação. É para mim o maior filósofo brasileiro vivo.


Ari Raynsford é Doutor em Engenharia Nuclear e Mestre em Engenharia Mecânica pelo MIT (EUA), e Engenheiro Naval pela Escola Politécnica da USP. Estuda o Modelo Integral do filósofo americano Ken Wilber há vinte anos e trabalha há dez na sua divulgação.


» Ver entrevista com Rubem Alves

Rubem Alves é educador, poeta, filósofo, psicanalista, cronista, ensaísta, teólogo e acadêmico. Sua obra explora a essência do homem e a alma do ser, servindo de contraponto à visão do homem globalizado que busca satisfazer desejos e vive além de suas reais necessidades.

» Ver entrevista com Marcelo Gleiser

Marcelo Gleiser é professor de física e astronomia no Dartmouth College (EUA). Há 13 anos escreve uma coluna para a Folha de S. Paulo. Sua paixão pela ciência e a capacidade de explicar questões complexas de forma acessível para o público leigo são características marcantes em seus livros de divulgação científica.

» Ver entrevista com Marina Silva

Nascida em Rio Branco, Marina Silva é uma ambientalista, historiadora, pedagoga e política brasileira. Em quase 30 anos de vida pública, ganhou reconhecimento dentro e fora do país pela defesa da ética, da valorização dos recursos naturais e do desenvolvimento sustentável.

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» Veja mais entrevistas no site do Eu Maior

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25.7.12

A consciência animal

Reportagem original da VEJA, por Marco Túlio Pires. Os comentários ao final são meus.


O neurocientista canadense Philip Low ganhou destaque no noticiário científico depois de apresentar um projeto em parceria com o físico Stephen Hawking, de 70 anos. Low quer ajudar Hawking, que está completamente paralisado há 40 anos por causa de uma doença degenerativa, a se comunicar com a mente. Os resultados da pesquisa foram revelados numa conferência em Cambridge (7/7/12). Contudo, o principal objetivo do encontro era outro. Nele, neurocientistas de todo o mundo assinaram um manifesto afirmando que todos os mamíferos, aves e outras criaturas, incluindo polvos, têm consciência. Stephen Hawking estava presente no jantar de assinatura do manifesto como convidado de honra.

Low é pesquisador da Universidade Stanford e do MIT (Massachusetts Institute of Technology), ambos nos Estados Unidos. Ele e mais 25 pesquisadores entendem que as estruturas cerebrais que produzem a consciência em humanos também existem nos animais. "As áreas do cérebro que nos distinguem de outros animais não são as que produzem a consciência", diz Low, que concedeu a seguinte entrevista ao site de VEJA:

Estudos sobre o comportamento animal já afirmam que vários animais possuem certo grau de consciência. O que a neurociência diz a respeito? Descobrimos que as estruturas que nos distinguem de outros animais, como o córtex cerebral, não são responsáveis pela manifestação da consciência. Resumidamente, se o restante do cérebro é responsável pela consciência e essas estruturas são semelhantes entre seres humanos e outros animais, como mamíferos e pássaros, concluímos que esses animais também possuem consciência.

Quais animais têm consciência? Sabemos que todos os mamíferos, todos os pássaros e muitas outras criaturas, como o polvo, possuem as estruturas nervosas que produzem a consciência. Isso quer dizer que esses animais sofrem. É uma verdade inconveniente: sempre foi fácil afirmar que animais não têm consciência. Agora, temos um grupo de neurocientistas respeitados que estudam o fenômeno da consciência, o comportamento dos animais, a rede neural, a anatomia e a genética do cérebro. Não é mais possível dizer que não sabíamos.

É possível medir a similaridade entre a consciência de mamíferos e pássaros e a dos seres humanos? Isso foi deixado em aberto pelo manifesto. Não temos uma métrica, dada a natureza da nossa abordagem. Sabemos que há tipos diferentes de consciência. Podemos dizer, contudo, que a habilidade de sentir dor e prazer em mamíferos e seres humanos é muito semelhante.

Que tipo de comportamento animal dá suporte à ideia de que eles têm consciência? Quando um cachorro está com medo, sentindo dor, ou feliz em ver seu dono, são ativadas em seu cérebro estruturas semelhantes às que são ativadas em humanos quando demonstramos medo, dor e prazer. Um comportamento muito importante é o autorreconhecimento no espelho. Dentre os animais que conseguem fazer isso, além dos seres humanos, estão os golfinhos, chimpanzés, bonobos, cães e uma espécie de pássaro chamada pica-pica.

Quais benefícios poderiam surgir a partir do entendimento da consciência em animais? Há um pouco de ironia nisso. Gastamos muito dinheiro tentando encontrar vida inteligente fora do planeta enquanto estamos cercados de inteligência consciente aqui no planeta. Se considerarmos que um polvo — que tem 500 milhões de neurônios (os humanos tem 100 bilhões) — consegue produzir consciência, estamos muito mais próximos de produzir uma consciência sintética do que pensávamos. É muito mais fácil produzir um modelo com 500 milhões de neurônios do que 100 bilhões. Ou seja, fazer esses modelos sintéticos poderá ser mais fácil agora.

Qual é a ambição do manifesto? Os neurocientistas se tornaram militantes do movimento sobre o direito dos animais? É uma questão delicada. Nosso papel como cientistas não é dizer o que a sociedade deve fazer, mas tornar público o que enxergamos. A sociedade agora terá uma discussão sobre o que está acontecendo e poderá decidir formular novas leis, realizar mais pesquisas para entender a consciência dos animais ou protegê-los de alguma forma. Nosso papel é reportar os dados.

As conclusões do manifesto tiveram algum impacto sobre o seu comportamento? Acho que vou virar vegetariano. É impossível não se sensibilizar com essa nova percepção sobre os animais, em especial sobre sua experiência do sofrimento. Será difícil, adoro queijo.

O que pode mudar com o impacto dessa descoberta? Os dados são perturbadores, mas muito importantes. No longo prazo, penso que a sociedade dependerá menos dos animais. Será melhor para todos. Deixe-me dar um exemplo. O mundo gasta 20 bilhões de dólares por ano matando 100 milhões de vertebrados em pesquisas médicas. A probabilidade de um remédio advindo desses estudos ser testado em humanos (apenas teste, pode ser que nem funcione) é de 6%. É uma péssima contabilidade. Um primeiro passo é desenvolver abordagens não invasivas. Não acho ser necessário tirar vidas para estudar a vida. Penso que precisamos apelar para nossa própria engenhosidade e desenvolver melhores tecnologias para respeitar a vida dos animais. Temos que colocar a tecnologia em uma posição em que ela serve nossos ideais, em vez de competir com eles.

***

Comentários
Para qualquer amante dos animais, parece difícil crer que as pessoas realmente acreditavam que eles eram como "coisas", incapazes, na teoria, de sentir dor, amor por seus donos, medo ante ameaças, etc. No entanto, num mundo onde a ciência é o novo "arauto da verdade", após o manifesto do qual Philip Low participou, realmente nenhum governo poderá dizer que não sabia da consciência animal (o máximo que poderá dizer é que "era ignorante"). Antigamente a Igreja dizia que animais não tinham alma, talvez agora eles estejam finalmente sendo elevados a categoria de "seres com alma", algo que sempre foi óbvio a qualquer espiritualista.
É claro que a consciência animal obedece uma "gradação", e que é muito mais evoluída num cão do que num peixe, por exemplo; Mas qualquer animal que possua "algum arremedo de cérebro" deve necessariamente possuir também "algum arremedo de consciência". E agora que sabemos disto ("oficialmente"), teremos responsabilidades ainda maiores, e decisões morais cada vez mais urgentes.


Tempos virão, para a humanidade terrestre, em que o estábulo, como o lar, será também sagrado. (Chico Xavier, Missionários da Luz)

***

Crédito da imagem: Stuart Westmorland/Corbis

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16.1.12

Um católico "estranho"

Pedro Siqueira é um advogado, escritor, católico, casado, pai, nascido e criado na zona sul do Rio de Janeiro, que "por acaso" tem visões de anjos da guarda, santos e "almas a espera no purgatório" desde criança. Diz até que por vezes consegue ver a própria Nossa Senhora... Seriam apenas alegações subjetivas, sem lá muita plausibilidade, se Pedro não "falasse coisas" sobre a vida e até o futuro próximo das pessoas que cruzam o seu caminho. A sua fama se deve precisamente ao espanto das pessoas mediante o seu dom.

Na entrevista abaixo, concedida a Marília Gabriela (que permanece imparcial todo o tempo, fazendo muitas perguntas céticas e pertinentes), compreendemos um pouco mais acerca da história deste católico "estranho"... Talvez não tão estranho assim para quem estuda o espiritualismo. Um dos erros frequentes dos espiritualistas com certa aversão a religiões institucionalizadas, ou Igrejas, é a de supor que todos os eclesiásticos estão totalmente fechados em seus dogmas - um caso como esse demonstra que precisamos manter os olhos abertos e considerar todas as possibilidades. Afinal, a espiritualidade fazendo parte da Natureza, há de se manisfestar em qualquer um que esteja aberto para ela:


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27.12.11

Ateísmo 2.0: um elogio a religião

Em "Religião para ateus", um livro provocativo (e muito corajoso), o filósofo suiço Alain de Botton, que se declara ateu, defende que à sociedade secular têm muito o quê aprender com os aspectos positivos das grandes instituições religiosas. Aspectos esses que podem muito bem sobreviver mesmo quando Deus é deixado de lado. Nesta entrevista concedida ao blog do G1, Máquina de Escrever, de Luciano Trigo, Alain nos traz um panorama geral das ideias que defende no livro, e conceitua o "ateísmo 2.0":

- Você parece escrever em defesa de uma religião secular. Qual seria o sentido da fé e da religião, sem Deus?

[Alain de Botton] Minha proposta não é inaugurar uma nova religião, sem Deus. Esta seria uma idéia ousada e mesmo bastante louca. Em vez disso, o que sugiro é que os ateus deveriam aprender a roubar alguns elementos das religiões existentes e integrá-los ao mundo moderno. No meu livro, eu argumento que acreditar em Deus é algo implausível hoje e, para mim e muitas outras pessoas, algo simplesmente impossível.  Ao mesmo tempo, eu admito que, quando se elimina a fé, abre-se espaço para o surgimento de alguns perigos. Eles não vão necessariamente acontecer, mas estão lá, e precisamos ter consciência deles.

Em primeiro lugar, existe o risco do individualismo excessivo, de colocarmos o ser humano no centro de todas as coisas. Segundo, existe o risco do perfeccionismo tecnológico, de acreditarmos que a ciência e a tecnologia podem oferecer soluções para todos os problemas humanos, e que é apenas questão de tempo os cientistas resolverem todos os males da condição humana. Terceiro, sem Deus é mais fácil perdermos a perspectiva de longo prazo, e enxergarmos o momento presente como a única coisa que importa, esquecendo a efemeridade do presente e deixando de reconhecer, de uma forma positiva, a natureza minúscula de nossas conquistas. Por fim, sem Deus existe o risco de desprezarmos a importância da solidariedade e de um comportamento ético.

Mas é importante sublinhar que é perfeitamente possível não acreditar em nada e ainda assim dar valor a todas essas lições vitais, da mesma forma que alguém pode ter uma profunda fé e ao mesmo tempo ser um monstro. Só estou tentando chamar a atenção para algumas coisas que podem se perder quando descartamos Deus de uma forma muito brusca. Com certeza podemos descartar Deus, mas podemos fazer isso com mais cuidado e reflexão, e mesmo com alguma nostalgia.

- Você começa o livro afirmando que os aspectos sobrenaturais das religiões são inteiramente falsos. Você não teme perder leitores, fazendo uma afirmação tão categórica?

[AB] Não, eu acho que a maioria das pessoas religiosas que lerem meu livro não ficará chocada ao se depararem com um ateu. Na verdade, elas podem até sentir curiosidade para ler um livro escrito por alguém que diz duas coisas que normalmente são consideradas incompatíveis: 1) Eu não tenho fé. 2) Eu tenho interesse na religião.

- Você concorda que a fé pode ter um papel terapêutico, ou que a religiosidade pode contribuir para um convívio mais pacífico e ético entre as pessoas?

[AB] Minha tese é que não é o elemento da fé presente na religião que traz paz para as pessoas, ou as leva a ter uma conduta ética. Ninguém precisa ter fé para entender o dever de não matar, ou o valor da gentileza. Isso é produto do trabalho da razão e da consciência, é algo perfeitamente possível sem a fé. É claro, por outro lado, que quando o homem que abandona a religião se esquece de ser bom, isso vira um problema. Em teoria, todos sabemos que devemos praticar o bem. O problema é que, na prática, isso é esquecido. E é esquecido porque o mundo moderno e secular acha que basta falar as coisas uma vez – seja bom, seja caridoso com os pobres etc. Por sua vez, todas as religiões fazem o oposto: elas insistem em nos mandar lembretes diariamente, ou mesmo mais de uma vez por dia, para façamos as coisas certas.

- Como você definiria o “Ateísmo 2.0”?

[AB] O Ateísmo 1.0 tinha a ver com rejeição. Foi um movimento liderado por Christopher Hitchens e Richard Dawkins e se baseava numa hostilidade profunda, e mesmo numa agressividade em relação à religião. O Ateísmo 2.0 também rejeita Deus, mas é um movimento mais interessante, por enfatizar que podemos aprender com as religiões, ao invés de simplesmente atacá-las. É uma forma mais confiante e curiosa de ateísmo, uma forma que tem a coragem de se envolver e mesmo de simpatizar com o campo inimigo.

Eu escrevo para aqueles leitores que pensam ‘Eu realmente não consigo acreditar em nada sobrenatural, o lado sobrenatural das religiões não faz sentido para mim, MAS ao mesmo tempo eu adoro vários elementos da religião: o ritual a arquitetura, a conexão com o passado… Por que as pessoas devem ser obrigadas a fazer uma escolha tão brutal?  Isto é, por que é preciso acreditar em toda sorte de coisas implausíveis para poder apreciar a arquitetura etc? Por que não acreditar em nada sobrenatural implica viver em um mundo dominado pela CNN? As alternativas não devem ser tão radicais.

- Como você avalia o recente debate sobre os chamados “novos ateus”, que opuseram Terry Eagleton a Christopher Hitchens e Richard Dawkins, que fizeram ataques pesados à religião?

[AB] Eu sou ateu, mas um ateu gentil. Não sinto necessidade de debochar daqueles que têm fé. Por isso realmente discordo do tom duro com que alguns ateus abordem a religião, como se ela fosse uma fábula suja. Respeito profundamente a religião, embora não acredite em nenhum de seus elementos sobrenaturais. Portanto, minha posição talvez seja incomum: eu sou um ímpio que respeita a fé.

- Ao resenhar o livro “A questão de Deus”, de Karen Armstrong, você parecia concordar que “nós somos limitados demais para entender Deus”, porque que a nossa natureza é efêmera e cheia de falhas. Seu pensamento mudou?

[AB] O ponto de partida da religião é que nós somos crianças e precisamos de um guia, de orientação. O mundo secular frequentemente se sente ofendido com isso, porque nesse mundo nós somos adultos e maduros, daí o desprezo por qualquer tipo idéia didática de orientação, de educação moral. Mas é claro que nós somos mesmo crianças, crianças grandes que precisam de orientação e de lembretes sobre como viver. O moderno sistema educacional se nega a oferecer isso. Somos tratados como se fôssemos totalmente racionais, razoáveis e com tudo sob controle. Na verdade somos seres muito mais angustiados e desesperados do que o sistema educacional moderno admite reconhecer. Quase todos nós vivemos à beira de um estado de pânico e terror boa parte do tempo. As religiões entendem isso. Então precisamos desenvolver uma consciência similar dentro das estruturas seculares.

- Você já disse que se envolveu com o tema da religião por causa de uma “crise de fé” – não por ter deixado de acreditar em Deus, mas porque, mesmo sem acreditar, você amava tanto a música de Bach. Para apreciar verdadeiramente a arte e a música de cunho religioso, você não acha que é preciso acreditar? Os descrentes não perderiam alguma coisa importante nessa experiência artística?

[AB] Existe uma idéia moderna de que nós encontramos na arte um substituto para a religião. Por isso muitas pessoas dizem que os museus são as igrejas de hoje. É uma imagem interessante, mas não é verdadeira. Não é verdadeira, principalmente, por causa da forma como os museus apresentam a arte do passado e do presente: eles evitam que se estabeleça um envolvimento emocional com as obras em exsposição. Os museus encorajam o interesse acadêmico, mas dificultam qualquer contato terapêutico. No meu livro eu recomendo que, mesmo que uma pessoa não tenha fé, ela pode usar a arte, mesmo a arte secular, como uma fonte de conforto e identificação, como orientação edificante. É isso o que as religiões fazem com a arte.

- Dostoievski escreveu que, se Deus não existe, tudo é permitido. Jean-Paul Sartre, ao contrário, sugeriu que a ausência de Deus torna as coisas mais difíceis, porque o homem carrega toda a responsabilidade por seus atos…

[AB] Boa parte do moderno pensamento moral foi marcada pela ideia de que um colapso na fé necessariamente provocou um dano irreparável na nossa capacidade de construir um padrão ético convincente em nossa conduta. Mas esse argumento, embora ateísta na aparência, reconhece uma dívida com a mentalidade religiosa, já que somente se acreditássemos mos em alguma medida que Deus existe haveria fundamentos para a moral, ou seja, esses fundamentos seriam sobrenaturais na sua essência. É uma tese que sugere que o reconhecimento da não-existência de Deus é capaz de abalar os nossos princípios morais. Contudo, se afirmarmos desde o começo que Deus é uma invenção, então essa tese se transforma numa tautologia: por que nos daríamos ao trabalho de sentir o peso da dúvida ética se sabemos que todas as normas atribuídas a seres sobrenaturais são no fundo apenas o produto do trabalho de nossos ancestrais demasiado humanos?

As origens da ética religiosa estão na necessidade prática das nossas comunidades ancestrais de controlar os impulsos para a violência de seus membros, induzindo neles hábitos e comportamentos que levassem à harmonia e ao perdão. Os códigos religiosos começaram como preceitos preventivos, que foram então projetados no céu e refletiram de volta na Terra, em formas desencarnadas e majestáticas. Os deveres de sermos solidários ou pacientes nasceram da consciência de que estas são qualidades que protegem a sociedade da fragmentação e da autodestruição. Essas regras eram tão vitais para a nossa sobrevivência que por milhares de anos não tivemos a coragem de admitir que fomos nós mesmos quem as formulamos, porque isso as deixaria mais vulneráveis ao escrutínio crítico e à manipulação sem reverência. Nós tivemos que fingir que a moralidade vem do céu, de forma a protégé-la de nossas próprias imperfeições e fraquezas.

Mas se hoje podemos abrir mão dessa espirtualização das leis éticas, não temos motivo algum para abandonarmos inteiramente essas leis. Continuamos precisando de exortações para sermos solidários e justos, mesmo se não acreditamos que existe um Deus que deseja que nós sejamos assim. Para andar na linha, não precisamos mais da ameaça do Inferno ou da promessa do Paraíso. Precisamos apenas ser constantemente lembrados de que somos nós mesmos – ou, ao menos, aqueles mais maduros e racionais entre nós. Que geralmente aparecem nos momentos de nossas crises e angústias  – que queremos lever o tipo de vida que, no passado, nos era recomendada ou imposta por seres sobrenaturais imaginários. Uma evolução adequada da moralidade, da superstição para a razão, significa que devemos nos reconhecer como os criadores de nossos próprios mandamentos morais.

- O comunismo soviético não foi uma tentativa de criar uma religião sem Deus, na medida em que usava a propaganda para controlar as pessoas? E, o que dizer da religião do livre mercado? Será que não existiram sempre religiões sem Deus, e que essas experiências não dão certo justamente por faltar o elemento espiritual?

[AB] Nós nos assustamos com muita facilidade. Frequentemente, quando alguém propõe uma ideia válida nessa area, as pessoas dizem: e Hitler e Stálin? Mas a alternativa não é essa. Podemos ter uma moralidade pública sem cair no fascismo, podemos até aceitar algum nível de censura – por exemplo, no caso da pornografia – sem cairmos numa ditadura, e podemos ter uma grande arquitetura cívica, sem que ela seja promovida por governantes em busca da própria glória. É certo que no século 20 houve tendências assustadoras, mas não devemos por isso ser pouco ambisiosos em relação àquilo que podemos fazer. Nem precisamos nos entregar ao capitalismo de livre Mercado sob a liderança espiritual da televisão a cabo.

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Crédito da foto: Divulgação (Alain de Botton)

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