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31.5.13

As mãos sujas de plástico podem ser limpas

Ocean Cleanup Array

Há alguns anos postei aqui no blog um vídeo do Fantástico sobre o chamado "Lixão do Pacífico", uma imensa ilha de plástico e outros detritos leves formada pela circulação das correntes marítimas. Era um alerta sobretudo para nós mesmos, e por isso achei por bem intitular o post "As mãos sujas de plástico"... De fato, uma notícia desanimadora, mas que precisava ser dada. Pensemos em quanto plástico usamos e descartamos todos os dias, e até algum tempo atrás nenhum plástico produzido no mundo era biodegradável; e mesmo nos dias atuais, devido ao custo um pouco mais elevado, o plástico biodegradável ainda está muito longe de se tornar a norma. Além disso tudo, ficava difícil imaginar que o "Lixão do Pacífico" poderia um dia deixar de existir. Pelo contrário, a tendência seria aumentar cada vez mais e mais, com grande dano para o meio ambiente e sobretudo para a fauna marinha e as aves, que usualmente confundem os pequenos detritos plásticos com alimento, e acabam se envenenando...

Mas isto foi até hoje. Hoje conheci Boyan Slat, um jovem holandês estudante de engenharia. Ele desenvolveu o projeto de uma máquina que seria capaz de retirar mais de 7 milhões de toneladas de plástico dos oceanos. O invento se chama Ocean Cleanup Array, e se trata de uma estrutura (parecida com uma arraia marinha) que se comporta como um gigantesco filtro. Ela seria posicionada em pontos estratégicos dos oceanos, onde há maior concentração de lixo, e seria capaz de recolher todo o material flutuante levado pelas correntes do próprio oceano. Após isso uma equipe recolheria o material coletado e separaria a vida marinha do plástico. Como o lixo recolhido ainda fica em contato com a água, a fauna oceânica ficaria segura, mesmo sendo recolhida. O plástico “limpo” restante seria encaminhado a reciclagem.

De acordo com Boyan, seu invento seria capaz de limpar os oceanos em um período de 5 anos, tornando os mares completamente livres dos plásticos flutuantes e eliminando a ilha de lixo presente no Oceano Pacífico. Mas o mais impressionante de tudo é que a venda do plástico recolhido dos oceanos e reciclado traria um lucro maior do que o gasto com a implementação e manutenção do projeto. Noutras palavras, o projeto de Boyan não somente pode limpar boa parte do oceano, salvando milhares de animais, como ainda seria rentável!

Então, é com alegria que agora posso lhes dizer que as mãos sujas de plástico podem ser limpas. Basta vontade para mudar. Se vale a pena manter alguma esperança? "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena"...

***

Veja o estudante explicando como funciona o seu invento no TEDxDelft (para ver as legendas em português, clique no botão "Legendas" na barra inferior e selecione a opção "Português (Brasil)"):

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Crédito da imagem: Ocean Cleanup Array (Divulgação)

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31.7.12

Intervista, parte 3

Esta é uma "entrevista de mim mesmo" que escrevi em 1999 e agora trago para este blog. Continuando da parte 2:


Você se considera alguém esperançoso?

-Como assim? No sentido de ter esperança em que?

-Na vida, no mundo, nas coisas em geral...

-Ah sim... Pois bem, neste sentido posso dizer que não tenho esperança alguma, pelo menos não como as outras pessoas têm.

-Ora, mais uma resposta enigmática, como era de se esperar...

-(sorri) Você gostaria que eu explicasse melhor?
 
-Claro! E não se preocupe porque temos bastante tempo ainda.

-(sorri mais uma vez) Eu estava querendo dizer que as pessoas me parecem ter muita esperança, muito mais do que eu tenho por assim dizer... Elas têm, por exemplo, a esperança de serem amadas, bem sucedidas e felizes, mas para isso contam mesmo apenas com sua esperança. Elas querem ser amadas sem se preocupar em amar a elas mesmas, ou a sua vida e seus amigos, ou a quem quer que seja. Querem receber carinho, mas desde cedo aprendem que demonstrar carinho é uma coisa vulgar, que demonstra sua fraqueza, e as impede de serem bem vistas pelos homens que criaram tais regras. Elas na verdade não estão nem aí para tais regras, elas querem é ser amadas, mas como elas tem tanta esperança, seguem as regras porque acham que vão ser amadas de qualquer jeito.
Porque seguindo as regras elas tem a esperança de serem bem sucedidas, de terem um grande imóvel, os melhores carros, os companheiros mais bonitos ou famosos, e de poderem viajar para onde quiserem uma vez ao ano pelo menos... Elas acreditam que conseguirão isso apenas seguindo as regras, e que além de conseguir tudo isso, ainda serão amadas, muito amadas; e, portanto, felizes. Elas têm tanta esperança que acham que tudo isso irá verdadeiramente cair do céu em cima delas.
Não se preocupam em fazer o que gostam, nem em desenvolver um gosto pessoal, elas apenas seguem as regras, e fazem o que quer que vá transforma-las em pessoas bem sucedidas, gostam do que tem de gostar para serem tais pessoas; e, incrivelmente, elas têm a esperança de serem muito felizes, e ainda muito amadas, vivendo dessa maneira.

-Sim, sim, você está querendo dizer que os meios de comunicação, aliados a lei do consumismo capitalista e ao que é considerado politicamente correto, escravizam as pessoas em vidas sem rumo pessoal ou sentido próprio?

-Meu Deus, eu não quero dizer nada disso! Veja bem, eu não estou querendo ser irônico, e as pessoas não estão escravizadas! Ora, é muito fácil pensar assim, que alguma elite multimilionária simplesmente controla toda a forma ocidental de pensar. Não é nada disso... As pessoas vivem assim porque querem realmente, porque estão acomodadas e com medo de tentar algo novo, como sempre... Na realidade, esse algo novo é muito antigo, a verdade da vida sempre esteve oculta dentre o mundo, e são muito poucos os que conseguem desmascará-la.

-A verdade está atrás de uma máscara?

-Claro, não só a verdade do mundo, mas a nossa própria verdade. Quantos de nós não usam máscaras para se adequarem ao mundo que nos é apresentado, escondendo nosso amor, nossa criatividade, nossa vontade de dançar, para sermos considerados homens normais?
A verdade está mascarada porque as pessoas não se preocupam em retirar sua máscara, não porque tenham medo da verdade... Alguns até têm medo, mas acredito que a grande maioria esteja mesmo é acomodada. Sabe porque? Porque a grande maioria tem muita esperança! Esperança de que essa máscara caia sozinha, sem que eles tenham que se arriscar a desvendar a si mesmas, e ao mundo...
Quando andamos pelas ruas movimentadas das cidades grandes, queremos conversar com as pessoas, mesmo que não sejam tão bonitas; sempre encontramos alguém que nos chame a atenção, num bar, na praia ou no ônibus... Pensamos diversas coisas, como seria aquela pessoa? Será que não poderíamos ser bons amigos? Ao menos viajar juntos ou conversar por algumas horas...
Porque as cidades são mesmo um caos, mas somente porque nos sentimos sozinhos mesmo em meio a uma multidão. Nas escolas não aprendemos a nos comunicar, não nos foi ensinada uma boa maneira de conversar, trocar idéias e comentários. O que importa é defender nossa opinião, 99% do tempo fazemos isso... Se gostamos de um filme é bom que as pessoas também gostem, para termos certeza de que o filme é realmente bom. Se as pessoas não gostam, talvez o filme não seja tudo aquilo que imaginamos, afinal...
E, portanto, ficou entendido que não devemos nos comunicar com qualquer um, principalmente pelas ruas e caminhos da vida. Vai que a pessoa não concorda com nossa opinião?

-Você está dizendo que as pessoas não se comunicam porque têm medo de que discordem de sua opinião?

-Não exatamente, elas não têm medo de que discordem de sua opinião, elas têm medo do novo! Têm medo de que sua definição da vida seja falsa, e que alguém na rua lhes convença disso. Elas não têm medo dos que discordam de sua opinião, pois aí vão continuar se divertindo, defendendo sua própria opinião, muitas vezes sem nem ouvir ou dar crédito a opinião alheia... Elas dão valor às opiniões mais populares, mais bem aceitas na sociedade, nas regras do que é correto, e se mascaram atrás delas. Se as pessoas divergem de sua opinião, ela pode então discutir, brigar, guerrear com elas, até que sua opinião impere sobre as outras.
Mas elas não têm problema nenhum com isso, pois em verdade estão duelando protegidas por suas máscaras maravilhosas, que as mantém longe do desconhecido, do que é novo. Na realidade as pessoas têm mais problemas em se comunicar com aquele que aceita qualquer opinião, elas não entendem esse alguém, pois ele está olhando, e falando, com a pessoa verdadeira, aquela por detrás da máscara... E isso tudo é muito novo para elas, muito provocativo e original, e elas não querem entender isso, pois acham que já entendem de tudo.

-Então as pessoas têm mesmo é a esperança de que essas tais máscaras maravilhosas as protejam para sempre do novo, e, portanto, jamais terem de encarar desmascaradas ao desconhecido?

-Me parece que é isso... Elas não querem encarar a verdade. Talvez não seja nem culpa delas, mas de tantas outras que viveram antes de nós, e criaram tais regras brutais. Mas enfim, as pessoas parecem ter mesmo muita esperança, pois acham que vão conseguir enxergar ao mundo inteiro com sua visão tão curta, e ainda por cima encoberta por uma máscara!

-Interessante, interessante... (pensa por algum tempo) Mas agora eu tenho uma última pergunta: Se a esperança não serve de nada a essas pessoas, o que será do futuro?

-Não! Desculpe se não soube me explicar... (preocupado) Na verdade estava mais preocupado em não parecer irônico... Eu não quis dizer que a esperança não serve de nada, apenas que somos nós mesmos quem construímos a esperança.
Eu explico: A humanidade se tornou uma especialista em padronizar as coisas. Ela diz que esperança é ter fé em algo melhor, numa vida melhor. Daí ela inventa a palavra “esperança” e publica em seus dicionários monstruosos que esperança é isso que foi dito acima. Mas se esquece de que tem de ensinar as crianças sobre tais verdades, pois senão corre o risco de que elas interpretem tais definições de dicionário ao pé da letra, e então padronizem a coisa toda...
Por acaso as pessoas sabem o que é ter fé? Então como vão saber o que é ter esperança? Ora, a gente não nasce com fé, ou pelo menos se nascemos com ela, não vamos conseguir mais fé num shopping center ou comprando com cartão de crédito. Nós construímos essa fé, e consequentemente a nossa esperança, ao nos dedicarmos a achar a verdade pelo mundo... Porque a verdade foi massacrada por tanta ignorância através dos tempos, e sua única saída foi se esconder também, pois essa foi à única maneira de não ser totalmente arruinada pelos preconceitos e inquisições patrocinados pelos homens mascarados, distantes de si mesmos...
Mas a verdade não foi embora, e, portanto, ainda existem caminhos a serem seguidos, e decerto ainda existe esperança. Mas veja bem: Só se conquista a esperança ao desbravar o desconhecido, ao ter a coragem de seguir tais caminhos por onde tão poucos passaram, mais por onde todos um dia inevitavelmente terão de passar. A cada passo sua esperança irá aumentar, a cada recuo, ela irá se abalar, mas em realidade você nunca terá esperança! A esperança não é uma moeda que se perde ou ganha, ela é uma força poderosa destinada a nos levar daqui para mundos muito melhores. Você não ganha esperança, mas pode correr para ela, sem medo, sem máscaras, e abraça-la de coração!
Irá abraçar a si mesmo, e depois a todos aqueles que passam angustiados pelas ruas, e mostrar para eles que o homem pode sim jogar a máscara fora, e então se preparar para aceitar toda a verdade, todo o amor, e toda a felicidade decorrentes de tal ato.

***

Por algum motivo, na época eu não prossegui com esta entrevista... Talvez, quem sabe, por ter se tornado pessoal demais – afinal, seria hipócrita se dissesse a vocês que eu mesmo não carrego mais máscara alguma. Mas o que me interessa em retornar até 1999, revisitando esse texto, é tentar reconhecer quem eu era, e não sou mais...

Este é um belo exercício, que recomendo a todos. As máscaras são trocadas, e nem sequer percebemos, até que temos uma fantasia totalmente nova posta diante do espelho. Somente o folião por detrás da fantasia, o dançarino, o poeta, o espírito, é quem permanece – este grande ser oculto, para o qual tenho dedicado todas as minhas cascas de sentimento.

raph

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Crédito da imagem: WIN-Images/Corbis

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7.3.12

Ainda há esperança...

Quem tiver paciência de esperar 30 segundos, verá porque, apesar de tudo, ainda há razões para se ter orgulho de ser humano:

Prainha em Arraial do Cabo, Rio de Janeiro, 5 de Março 2012, 8h da manhã, aproximadamente 30 golfinhos nadam em direção da praia e, após encalgarem no raso, são salvos por frequentadores do local.

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29.11.11

Intoxicados, parte 3

« continuando da parte 2

A criança que fui chora na estrada / Deixei-a ali quando vim ser quem sou / Mas hoje, vendo que o que sou é nada / Quero ir buscar quem fui onde ficou (Fernando Pessoa)

Por onde andam os mortos

Um homem caminha pelas vielas do inferno. Ele se veste a caráter: parece mais um mendigo, numa das mãos traz um saco com alguns pães que acabou de comprar na padaria, a face foi cuidadosamente maquiada para parecer tão suja quanto às faces dos mortos que perambulam por lá – perdidos das próprias almas, perdidos de suas essências. No entanto, não há nada de sobrenatural nesse inferno... Os seres mortos são apenas mortos em vida, não mortos-vivos; O inferno fica bem no centro da maior cidade do Brasil; Um homem visita a cracolândia.

Uma menina aborda o homem no meio da rua. Parece menor de idade, mas mesmo assim se porta como se não fosse. Ela está suja – suja no corpo, suja no olhar, suja na alma. Mas não há nada mais a oferecer em troca de um pedaço de pão ou, quem sabe, de 30, 20, 10 reais... Ela oferece a alma, ela oferece o olhar... E o corpo. O homem entrega o saco com os pães, e vai-se embora. Ele queria poder ver mais, mas sua estada no inferno, embora breve, já pesava muito em sua própria alma. Por um momento, se imaginou como aqueles que vivem naquela escuridão, nas trevas do inferno terreno, perdido, sem esperança... Caminhando junto aos mortos... Não foi uma boa imagem [1].

O crack é uma droga feita da mistura de cocaína com bicarbonado de sódio e outros pedaços de sujeira pelo caminho. Geralmente, é fumada. A fumaça produzida pela queima da pedra de crack chega ao sistema nervoso central em dez segundos, devido ao fato de a área de absorção pulmonar ser grande. Seu efeito dura de 3 a 10 minutos, com efeito de euforia mais forte do que o da cocaína, após o que produz muita depressão, o que leva o usuário a usar novamente para compensar o mal-estar, provocando intensa dependência. Não raro o usuário tem alucinações e paranoia... Na cracolândia, vive-se em intervalos esporádicos de alguns minutos, numa semivida eufórica e mecânica que se esvai tão logo chega, como um estranho sonho curto em meio a um pesadelo. No resto do tempo, se morre.

Desde 2005, a Prefeitura de São Paulo tem se dedicado, timidamente, a restaurar a área da cracolândia. Sua ideia de restauração passa pelo fechamento de bares e hotéis ligados a prostituição e ao tráfico de drogas, o aumento do policiamento e a desapropriação de centenas de imóveis numa tentativa de criar “bolsões” onde a iniciativa privada se sinta a vontade para investir. Os moradores de rua, catadores de material reciclável e dependentes de drogas que perambulam pelo inferno vão sendo expulsos aos poucos – sabe-se lá para onde, mas certamente hão de levar seu inferno junto com eles... Muitos grupos de menores de rua dependentes, impedidos de caminhar por seu inferno particular, perambulam sem rumo pelos bairros vizinhos. Bandos e bandos de crianças que, mal tendo nascido, já se encontram mortas...

Na verdade, muitas grandes cidades do mundo em desenvolvimento têm suas cracolândias, seus infernos, para onde se dirigem todos aqueles sem rumo, perdidos de suas almas, que deixaram a si mesmos em algum canto, em alguma esquina, em alguma estrada, e nunca mais encontraram... E muitos se dizem sensibilizados, se dizem “cristãos”, mas se sentem mais a vontade o mais longe possível do inferno. Quase ninguém quer ir para o inferno, contanto que lá não se encontre nenhum parente, familiar, ou grande amigo. Ninguém quer em realidade saber de onde andam os mortos: “deixem que fiquem por lá, morrendo, aos poucos, mas longe, muito longe de nós!”.

E tratamos aos dependentes como seres perdidos, sem volta, condenados. Mas não são todos que pensam assim... A Missão Batista Cristolândia, como foi chamada, é a sede de todos os batistas que desejam capacitação no trabalho de evangelização de dependentes químicos e excluídos socialmente. Como apresenta a coordenadora local do Radical Brasil, missionária Soraya Machado: "A Missão é a resposta dos batistas brasileiros a esta atrocidade chamada cracolândia". O quartel general do Radical Brasil está localizado dentro da cracolândia e nesse espaço são oferecidas 300 refeições diárias - café, almoço e janta, espaço para banho, lavanderia, doação de roupas e calçados. Além do amparo social, o investimento espiritual é alto, com quatro cultos por dia nos períodos da manhã, tarde, noite e madrugada... Felizmente, alguns ainda são crentes o suficiente no ser humano, crentes a ponto de imaginarem que podem sim, adentrar ao próprio inferno, e sair de lá não com demônios ou mortos-vivos, mas com pessoas que podem sim viver uma vez mais.

Nós podemos criticar os evangélicos e crentes fervorosos por algumas de suas crenças descabidas, mas enquanto existirem crentes da esperança, crentes da vida que pode vencer a morte, todas as suas exaltações serão não somente perdoadas pelos que adoram a vida, mas admiradas... Nesse aspecto, pouco importa a crença ou descrença de cada um, e sim os frutos de suas obras, sua caridade, seu amor. É muito fácil desistir dos dependentes como se esses não fossem mais seres vivos, como se não tivessem mais almas, ou, pelo menos, como se não houvesse mais nenhuma esperança de as reencontrarem pela estrada... Mas a alma perdura, em meio ao mais pavoroso inferno, nos vales das sombras e da morte, ela não teme o mal, ela permanece ali, impávida, esperando ser resgatada – como a mais pura e inocente criança a chorar pela estrada: “Veja, aqui estou eu. Venha e salva-me! Venha e cuida de mim! Venha e me ame, que eu também te amarei...”

Paracelso já dizia que a diferença entre o veneno e o remédio é apenas a dose. As drogas e os vícios podem sim nos permitir escapar da tristeza perene da vida, mas o custo é alto: é a própria vida. Ao aprendermos a encarar a melancolia de frente, face a face, poderemos quem sabe perceber que mesmo ela, mesmo ela, era apenas uma dose do leve veneno da vida, mas dose esta que também pode virar um grande remédio... Se estamos intoxicados de angústias, devemos também tentar nos intoxicar de alguma sabedoria, e compreender que há sempre tempo de recomeçar – mesmo o nosso próprio corpo, em sua renovação incessante, será um novo corpo assim que nos limparmos do charco de toxinas químicas e nos banharmos na água cristalina de um rio, uma cachoeira, um oceano, ou da própria vida.

E então, quem sabe, poderemos passar a nos intoxicar da única substância que, independente da dose, só nos fará avançar, mais e mais, cada vez mais, para um céu de liberdade, e felicidade – sejamos todos dependentes do amor, e apenas dele, para que todos os infernos se façam céus, toda a indiferença se faça dor, e toda compaixão, fortaleza intransponível.

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[1] Este trecho foi inteiramente baseado no depoimento de um amigo.

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Crédito das fotos: [topo] AMCCE; [ao longo] ALESP

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24.11.10

O canto da espera

Se acaso choras enquanto esperas morrer
Nada esperes desse teu pranto
Quem canta não espera tanto
Apenas põe-se a viver

Estás a morrer neste desencanto
Sombrio de vozes a ranger
Mas do vazio nada tens a temer
A esperança é o melhor canto

Não há que emudecer ante a morte
Ela é somente a noite da estação...
E tens tantos dias em tua mão!

Tua sorte é saber
Quem sabe não espera, canta
Cada novo alvorecer!

raph'10

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Crédito da foto: playingforchange.com (Tal Ben Ari, "Tula")

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16.1.10

Haiti: onde há vida, há esperança

Sei que há muitos pessimistas em relação ao futuro da humanidade, mas para esses vale ressaltar que os otimistas não retiram seu otimismo "do nada", mas de eventos reais. Essa enfermeira que ficou quase 3 dias sob os destroços do pequeno hospital onde atendia, está grávida de 1 mês e diz ter mantido a esperança através de sua fé, nas noites em que passou sozinha e sem comida, água, ou luz. Sim, está grávida, e não "estava", pois foi resgatada com vida, sem ter a gestação afetada, nem ferimentos graves. Mais uma que poderá em breve voltar a atender, e ajudar na reconstrução de seu país.

Talvez, ante a manumental contagem de mortos, eventos como esse pareçam sem importância. Mas os estóicos diziam que devemos nos preocupar apenas com o que é possível mudar. Nesse caso, a tregédia não volta atrás, mas é possível recomeçar, sempre é. Pelo menos para os que ainda acreditam no amanhã, e na força de sua própria vontade.

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27.11.09

Não é preciso perder a esperança

Stephen nasceu em Oxford, na Inglaterra, em 1942. Filho de um biólogo, sempre se interessou por ciência, mas nunca foi um estudante particularmente excepcional. Era mais um jovem inglês, bom aluno, interessado em seguir a carreira em pesquisas científicas. Só isso.

Seu pai desejava que fosse médico, mas Stephen se interessava mais por matemática. Quando entrou no University College de Oxford, foi obrigado a mudar de planos: o curso de matemática não estava disponível, então optou pela física, e se formou em 1962. Interessado em prosseguir seus estudos sobre termodinâmica, relatividade e física quântica, prosseguiu para o doutorado na Trinity Hall em Cambridge.

Mais ou menos na época em que obteve o doutorado, Stephen estava muito desiludido com sua vida[1], não parecia haver nada que vale-se a pena fazer. Talvez o universo não fosse, afinal, tão interessante assim...

Porém, nessa mesma época, Stephen foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma rara doença degenerativa que paralisa os músculos do corpo sem, no entanto, atingir as funções cerebrais. Esta é uma doença que ainda hoje não possui cura, e normalmente mata em poucos anos.

Talvez esse fosse o golpe final na esperança de Stephen e no seu interesse pela vida. Mas ocorreu exatamente o oposto: a partir desse diagnóstico, Stephen passou a pensar que se iria morrer de qualquer jeito, era melhor fazer alguma coisa de decente nos anos que lhe restavam. Isso também surgiu de sua constatação, a partir da observação de outros pacientes em condições muito piores que a dele nos hospitais, de que talvez sua condição não fosse tão ruim assim.

Stephen seguiu a vida, namorou, casou-se, teve filhos. Prosseguiu com suas pesquisas em cosmologia teórica e gravitação quântica, especializando-se no estudo e comprovação de teoremas sobre a singularidade dos buracos-negros, dentre inúmeras outras coisas. Enquanto realizava descobertas que iriam colocá-lo na história da ciência moderna, Stephen foi vendo seu corpo perder cada vez mais movimentos, até o ponto em que não podia sequer falar, e tinha de se comunicar com o mundo externo através de um computador e um sintetizador de voz.

Apesar de tudo, não perdeu o bom humor inglês, nem por um momento. Depois de famoso, em suas palestras e aparições na TV sempre teve um comentário mais espirituoso sobre sua condição aparentemente terrível: “o problema com esse sintetizador é que fiquei com um sotaque claramente americano”.

Também já lhe perguntaram se a sua condição física teve alguma influência em seu status de celebridade e gênio da ciência, ao que respondeu: “As pessoas são fascinadas pelo contraste entre minhas limitações físicas e a natureza infinita do universo com o que eu trabalho. Eu sou o arquétipo de um gênio desabilitado, ou um gênio com dificuldades locomotoras, para ser politicamente correto. Ao menos eu obviamente tenho dificuldades locomotoras. Se sou um gênio já está aberto à discussão.[2]”

Fosse Stephen apenas Stephen, e não um dos maiores cientistas e divulgadores de ciência de nosso tempo, ainda assim sua história já seria digna de nota e admiração. Há tantos e tantos que preferem a morte quando tem apenas parte de seus movimentos comprometidos, e Stephen conta praticamente apenas com pequenos movimentos dos dedos das mãos, dos olhos, e alguns músculos da face (ele felizmente ainda pode sorrir). Mas Stephen não teve nem sua mente e, principalmente, nem seu espírito, comprometidos por sua doença. Viveu em função de sua genialidade de raciocínio lógico, mas também em função de sua enorme capacidade emocional de lidar com uma doença que para muitos soa tão avassaladoramente terrível.

Stephen Hawking vive até hoje (fez 67 anos em 2009). Ele diz que teve sorte: “Eu tive esta doença por praticamente toda a minha vida adulta. Ainda assim ela não me impediu de ter uma família linda e ser bem-sucedido no trabalho. Isso graças ao apoio que tenho tido da família, dos amigos, e inúmeras organizações. Eu tenho tido sorte pelo fato de minha doença ter progredido de forma bem mais lenta do que seria o normal. Mas isso mostra que não é preciso perder a esperança.[3]”

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[1] De acordo com textos publicados por Stephen Hawking em seu site oficial.

[2] De acordo com a seção de Perguntas e Respostas no mesmo site.

[3] Idem a nota #1.

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Crédito da foto: Rune Hellestad/Corbis

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