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11.2.19

Espíritos são coisa da nossa cabeça? (Reflexões no YouTube)

Bem-vindos ao primeiro vídeo resposta do canal! Neste vídeo respondo a uma pergunta do Douglas Pinnheiro sobre entidades espirituais e outras coisas mais... Lembrando que por enquanto estarei criando vídeos resposta somente para as perguntas nos comentários do vídeo comemorativo de 1.000 inscritos no canal.

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21.12.18

Espíritos obssessores

XV .:.

"Vez por outra sinto uma fortíssima vontade de fumar ou mesmo de consumir bebidas alcoólicas, já me acostumei com este fenômeno que se dá principalmente quando estou em grupos mais heterogêneos; o detalhe é que nunca fumei e tenho ojeriza ao álcool. Mas agora fico mais tranquilo, e consigo identificar que não sou eu a exata fonte de tão exóticos desejos. 

{Por favor: não cabe aqui uma recriminação contra o fumo e a bebida, ambos podem ser até mui luminosos. Existem monges especializados em produzir as melhores cervejas/vinhos do mundo, personalidades de altíssimo nível que fumam e abstêmios que são piores que o Cão chupando pimenta!}

Bares de rua, por exemplo, me são ambientes ainda mais confusos; as múltiplas setas dos vícios e entidades sedentas são mais difíceis de bloquear; tão forte é sua atuação nestes que me são visíveis como sombras feitas de agonia & escuridão, com a contraditória habilidade de se 'arrastarem com celeridade'. Por isso os evito. 

Observe que ninguém está sozinho. Ninguém faz nada sozinho! Todo hábito, toda ansiedade, desejo, gana e querença encontra no plano astral seus respectivos cúmplices, torcedores e parceiros. 

Entidades desencarnadas e entes não humanos de diferentes matizes associam-se aos encarnados para com estes degustarem os sabores da gula, do fumo, do álcool, do sexo e outros tantos, sorvendo junto a energia vital de seus hospedeiros.

Muitos casos de tristeza profunda, falta de força, perda de energia, abatimento físico e confusão mental tem nestes vampiros astrais uma de suas principais fontes. 

Eles farão de tudo para que se continue sob os grilhões do vício, dependem disto para uma sobrevida, ainda que esta custe a vida de suas 'mulas'. 

A chave está em saber identificar estes pontos fracos, substituí-los por novos pensamentos e hábitos; está em criar uma profunda conexão com os Guardiões pessoais, mantendo os olhos no Alto; está em só por hoje resistir (só por hoje!), e focar no mais elevado ideal de si."

Caciano Camilo Compostela, Monge Rosacruz – Contato: facebook.com/ mongerosacruzcacianocompostela

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Crédito da imagem: Alexandre Godreau/unsplash

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19.12.18

João de Deus caiu da Torre

Há quase uma década eu analisei as "cirurgias físicas" de João de Deus, porque são de fato extraordinárias (no sentido de não serem totalmente explicadas pela ciência dita oficial), mas sempre as analisei da forma como são, amorais: fenômenos que em si não têm a ver nem com moralidade nem com imoralidade.

João dizia que as "cirurgias" era realizadas somente para "ativar a fé" das pessoas, e que de fato não eram em si necessárias para a cura das enfermidades. Então nesse sentido ele mesmo admitia que elas eram amorais.

Mas utilizá-las como espetáculo, atraindo NetGeo, BBC, Discovery Channel e até a Oprah para uma cidadezinha do interior de Goiás, isso já cai em terreno pantanoso: seria uma forma (moral) de atrair mais gente para um tratamento que prometia cura, ou seria uma forma (imoral) de virar um "médium celebridade" e poder lucrar com isso de alguma forma?

Eu sempre achei que ele se aproximava mais da imoralidade (leve) do que da moralidade, mas não suspeitava que no meio disso pudessem ter tantos casos de assédio e até de estupro, principalmente envolvendo rezas, rituais e supostamente até mesmo a incorporação dos mesmos espíritos que, literalmente horas antes, participavam das chamadas cirurgias espirituais... ou seja, isso afeta fortemente até mesmo a credibilidade desses espíritos.

Mas, acima de tudo, convivendo no meio espírita e espiritualista do país, já cansei de ver médiuns muito mais capacitados para o tratamento espiritual do que João de Deus rodarem o Brasil indo a diversos centros espíritas, pequenos ou grandes, de graça, trabalhar pela cura do próximo... nenhum deles, praticamente, ficou famoso fora do meio espírita. Nenhum deles chegou perto da fama de João de Deus.

E isso já diz muito sobre aonde você deve buscar luz espiritual, seja em qual religião estiver procurando... evite as celebridades deste mundo, busque quem tem importância no outro mundo – quase sempre, serão pessoas diversas.

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Crédito da foto: Google Image Search

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11.7.18

Os 10 melhores livros sagrados (Reflexões no YouTube)

Para comemorar o décimo episódio de REFLEXÕES, trago minha singela lista com os dez maiores, melhores e mais importantes livros sagrados da história da humanidade até aqui (na minha humilde opinião é claro). Desde o "Cosmos" de Sagan ao "Bhagavad Gita", iremos transitar por filosofia, religião, espiritualidade e ciência, sempre em busca da experiência com o Sagrado, ou Natureza, ou Substância, ou Tao... bem, você entendeu!

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20.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo III)

« continuando do tomo II

Seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu (Oração do Pai Nosso)


Muitos devem conhecê-lo como “aquele ocultista inglês que apareceu na capa do disco dos Beatles”, outros ainda como “o profeta do novo Aeon de Hórus”; mas Aleister Crowley preferia se autointitular “Mestre Therion”, ainda que a mídia de sua época o chamasse de “o homem mais perverso do mundo”. Não se pode dizer que Crowley passou desapercebido por aqui...

Quanto a ser um ser perverso, eu preferiria guardar esse tipo de julgamento para assassinos em massa, torturadores e defensores da tortura, terroristas em geral, gente que suga sangue de verdade dos outros – Crowley nunca fez nada disso, pelo menos que se saiba. No entanto, se você julga que “todo ocultista é perverso porque trata com o Demônio”, então talvez seja melhor reler o que já foi dito no tomo I.

Na verdade, Crowley foi uma espécie de Allan Kardec bem mais liberal, principalmente no que tange ao sexo e a participação em ordens esotéricas. Eu explico: assim como Kardec, que codificou sua obra-prima (O Livro dos Espíritos) a partir de perguntas e respostas a jovens médiuns incorporadas, Crowley fez algo parecido com o seu Livro da Lei, com a diferença relevante que se valeu da mediunidade de sua própria esposa na época, ao contrário do fundador espírita, que recorreu a quatro adolescentes.

Bem, na verdade há mais diferenças: enquanto Kardec jamais psicografou diretamente de algum espírito, Crowley na realidade usou a mediunidade da esposa apenas para ter o contato inicial com uma entidade espiritual chamada Aiwass, que por sua vez falava em nome de Hórus, o antigo deus egípcio dos céus. Foi “escutando a voz de Aiwass ditando por sobre o seu ombro esquerdo”, sem ser visto, que Crowley redigiu todo o Livro da Lei. Segundo o ocultista, a voz era “de um timbre profundo, musical e expressivo, com tons solenes, voluptuosos e tenros, flamejante e despida de tudo que não fosse o conteúdo da mensagem. Não um baixo, talvez um rico tenor ou barítono”.

Assim sendo, o seu processo de escrita pode ser considerado profético; como ocorreu com Maomé, que redigiu o Alcorão também pelo ditado do anjo Gabriel (neste caso, com a ajuda de secretários letrados). Mas, seria Aiwass um anjo? Um espírito? Um aspecto do inconsciente do próprio Crowley? Seja como for, o que importa é a mensagem, não como ela chegou a este mundo... e a mensagem de Crowley fala sobretudo de Vontade. Não uma vontade como outra qualquer, o desejo de tomar um sorvete, ou de comprar um carro – nada disso, ele falou de thelema, e a sua lei foi resumida neste trecho relativamente conhecido do público em geral:

Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei.
O amor é a lei, amor sob vontade.

“Torne-se aquilo que você é”
Friedrich Nietzsche resgatou esta antiga frase de Píndaro mais ou menos na mesma época em que Crowley também buscava, justamente, descobrir a si mesmo, saber o que na realidade habitava em seu ser mais profundo.

Saber quem se é não deixa de ser um primeiro passo necessário para se tornar o que se é. Assim sendo, também podemos traçar um paralelo até o antigo templo de Delfos, onde segundo Platão, Sócrates leu e foi decisivamente inspirado pela frase: “conhece-te a ti mesmo, e conhecerás aos deuses e ao universo”.

Curiosamente, não há nada mais difundido na modernidade ocidental, nada mais na moda, do que as frases marqueteiras que lhe incentivam a “encontrar o que realmente ama”, e seguir em frente a partir dali, rumo à felicidade... O problema é que o que você ama, do ponto de vista de nosso mundo consumista, invariavelmente estará fora de você, será um produto. Existem variações, é claro, às vezes você mesmo pode ser o produto, como as musas fitness que estão sempre em forma, sempre felizes, sempre “profundamente espiritualizadas”.

Mas, se o caminho para nossa essência fosse tão simples, se as agências de marketing pudessem de fato realizar o mergulho em nós mesmos, todos já seríamos profundamente místicos: não, é só o caminhante quem pode mergulhar; instrutores de mergulho, ou pior, manuais de natação, jamais substituirão tal experiência.

Talvez fraquejemos. Talvez, como Crowley, nós não consigamos seguir 100% do tempo as nossas próprias instruções angelicais, e acabemos mais hedonistas, mais epicuristas que se perderam da ataraxia, do que gostaríamos de admitir. Mas ninguém disse que o caminho para a Verdadeira Vontade seria simples como um passeio no parque. Também já nos disse o doce rabi: “não vim trazer a paz, mas a espada”. Também nós mesmos precisaremos caminhar isolados no deserto, para também sermos tentados pelos nossos próprios demônios, para que possamos compreender, para que possamos saber, enfim, qual é a nossa Vontade, a nossa thelema.

A alma do universo inteiro
Para facilitar a compreensão da lei trazida ao mundo por Crowley, talvez seja mais fácil recorrer a outro monumento do ocultismo britânico, Mr. Alan Moore [1]:

Quando cumprimos a vontade de nosso verdadeiro Eu, nós estamos inevitavelmente cumprindo com a vontade do universo. Na magia, ambas as coisas são indistinguíveis. Cada alma humana não é, de fato, uma alma humana: é a alma do universo inteiro. E, enquanto você cumprir a vontade do universo, é impossível fazer qualquer coisa errada.

Muitos dos magos como eu entendem que a tradição mágica ocidental é uma busca do Eu com “E” maiúsculo. Esse conhecimento vem da Grande Obra, do ouro que os alquimistas buscavam, a busca da Vontade, da Alma, a coisa que temos dentro que está por trás do intelecto, do corpo e dos sonhos. Nosso dínamo interior, se preferir assim. Agora, esta é, particularmente, a coisa mais importante que podemos obter: o conhecimento do verdadeiro Eu.

Assim, parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência por ignorar seu Eu, mas que também parecem ter a urgência por obliterarem-se a si próprias. Isto é horrível, mas ao menos vocês podem entender o desejo de simplesmente desaparecer com essa consciência, porque é muita responsabilidade realmente possuir tal coisa como uma alma, algo tão precioso. O que acontece se a quebra? O que acontece se a perde? Não seria melhor anestesiá-la, acalmá-la, destruí-la, para não viver com a dor de lutar por ela e tentar mantê-la pura? Creio que é por isso que as pessoas mergulham no álcool, nas drogas, na televisão, em qualquer dos vícios que a cultura nos faz engolir, e pode ser vista como uma tentativa deliberada de destruir qualquer conexão entre nós e a responsabilidade de aceitar e possuir um Eu superior, e então ter que mantê-lo.

Entendem agora como a espada do Cristo era, de fato, afiada? É impossível alcançar nossa alma, nossa Verdadeira Vontade, sem antes morrer para a “vontade do ego”, sem antes morrermos para nossa natureza animal e renascermos, como o próprio Cristo, na plena posse de nossa natureza humana, no sentido mais pleno de “ser humano”.

Faze o que tu queres: porém há poucos que conseguem estar de fato conectados, todo o tempo, a este “tu”, a este Eu superior, para cumprirem a sua própria Vontade.

Há de ser o todo da Lei: não há Lei maior do que a Lei do Cosmos, da Natureza, do Sagrado. Somente ela dá conta da totalidade de nossa existência, e de todas as demais existências, em todos os tempos, em todos os cantos do universo.

O amor é a lei: não há em todo o universo algo mais eterno, mais transcendental, mais primordial que o amor. O amor é a essência da realidade, e tudo o que há segue em seu caminho tão somente para despertar a sua própria compreensão do que vem, de verdade, a ser o amor.

Amor sob vontade: fôssemos criados já como seres plenamente amorosos, na plena compreensão do amor, seríamos como anjos, como autômatos criados para servir as leis universais, e não seres humanos que, em sua animalidade, em sua Vontade, conseguem evoluir por si próprios. Há Vontade porque alguém lá no Alto não quis que fôssemos robôs.

Assim é que se cumpre a Lei e a Vontade do Céu, e se Crowley lhes parece um mensageiro demasiado sinistro, saibam que o antigo rabi da Galileia não disse coisa muito diferente. Esta é uma tradução mais fidedigna do trecho do Pai Nosso com o qual iniciamos este tomo (veja quem tiver olhos para ver):

Faze com que se realize a tua vontade, na terra, à imagem do céu (Oração do Pai Nosso; tradução ecumênica)


» No tomo final: Ars Magica.

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[1] Trecho do doc The Mindscape of Alan Moore.

Crédito das imagens: Google Image Search (respectivamente: Aleister Crowley e Alan Moore).

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24.4.14

Ah! Se você tivesse a coragem de amar...

Mas quem é esse que está falando, um sujeito incorporando essas coisas de "preto velho"? Coisa do demônio!

Hein?! Você acha que eu vou ouvir um charlatão que ainda por cima afirma estar incorporando essas coisas de "espírito"? Ainda não fiquei louco!

Mas o que? Você acha que eu vou dar bola para esses espíritos inferiores dessa coisa de "umbanda"? Só ouço espíritos de luz!

Eu até poderia ouvir esse tal de Gasparetto, se ele não fosse tão "espírito de moça", você me entende?


É nessas horas que podemos refletir: não é a toa que eles vêm na "roupagem" de pretos velhos; velhos negros e com sotaque "caipira"... É que eles queriam, quem sabe, serem ouvidos somente por quem já tem condições de ouvi-los. Por quem já se livrou, ao menos, dos preconceitos mais básicos. Por quem já compreendeu, enfim, que a luz dá o seu jeito de se irradiar onde for, e que a Vida, na ânsia por si mesma, faz de "defuntos caboclos" os seus seus apóstolos mais fiéis, e mais humildes...

Ainda assim, vale notar que é o próprio Calunga, espírito que incorpora no médium Gasparetto há anos, quem diz que ele está ali tão somente refletindo a luz que vem do Alto. Uma luz ancestral, estoica, cheia de vida e de amor pela existência, que permeia tanto os antigos reinos africanos quanto os antigos filósofos gregos, e que não perde nem um tantinho do seu brilho por estar sendo irradiada através de "um exu":

Primeira parte da palestra O mundo em que eu vivo, proferida em 26/11/2006 no Espaço Vida & Consciência, em São Paulo. As outras partes seguem abaixo (*):

» Ver a segunda parte da palestra

» Ver a terceira parte da palestra

» Ver a quarta e última parte da palestra

***

(*) A palestra tem pouco mais de 2h de duração, o que pode ser muita coisa para certas pessoas. No entanto, recomendo que vejam, de alma aberta, apenas a primeira parte (o vídeo acima), que o restante é mais uma "fixação" do que já foi dito ali.

Crédito da foto: Rodrigo Bueno

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16.8.12

As mesas giram, mas não pensam

Eu (Raph), Igor Teo, Peterson Danda, Raphael PH e Jeff Alves, antigos membros do Links Mayhem, estamos participando de um novo projeto: Sobre um tema específico cada um dos participantes irá publicar um texto, em uma ordem estabelecida aleatoriamente, formando uma discussão, um agradável bate papo, onde o leitor será levado a refletir e meditar sobre diversos pontos de vista e abordagens do mesmo tema. Eis então o projeto Entrementes. Boa leitura!

O tema da segunda rodada é “Mediunidade”, e coube a mim o artigo inicial [1]...

Como já falei bastante sobre o tema em meu blog [2], optei por abordar aqui a mediunidade sob outro ponto de vista. Digamos que você não acredita em espíritos, ou em consciências incorpóreas. Digamos que você não acredita em vida após a morte e que, acerca da existência de Deus, não pode conceber nada de muito concreto. Então, neste caso, a mediunidade seria o último assunto que deveria lhe interessar, correto? Pois continue lendo, e veja se conserva esta mesma conclusão até o final deste artigo:

Uma festa angustiante
Começaremos a utilizar a imaginação... Digamos que você seja uma senhora que vai na festa de aniversário da própria filha. Sua mãe mora em outro estado e você a vê apenas uma vez por ano, mas as preocupações de sua vida giram em torno de sua filha: Está bem casada? Tem um bom emprego? Já está na idade de ter filhos, mas será que está preparada para ser mãe?
Estes são seus pensamentos do dia a dia no convívio com sua filha, e esta festa deveria te deixar muito feliz e satisfeita: sua filha parece estar feliz e satisfeita, era o que você queria... No entanto, subitamente, você começa a pensar na sua mãe. “Não há de ser nada, e já está tarde” – você pensa, evitando a todo custo à vontade de ligar para ela. A festa continua e todos estão felizes, mas você está profundamente angustiada. Com o que exatamente?
Você dorme angustiada, mas acorda bem melhor. No sonho, parece que conseguiu finalmente falar com sua mãe, e nem precisou usar o telefone. No entanto, lá pelo horário do almoço seus parentes ligam do outro estado: sua mãe teve uma morte súbita na noite anterior. Ela realmente queria falar contigo, e falou. E você sabia. De alguma forma, mesmo sem o telefone, houve esta ligação entre vocês. Teria sido a última ligação? Isso é outra história, mas o que importa é que dois espíritos se comunicaram de ontem para hoje.

O primeiro porre
Continuemos a imaginar... Agora você é um jovem recém chegado à adolescência, e seu irmão mais velho finalmente aceitou te levar junto com ele para a balada. É a tão sonhada iniciação: agora finalmente você também poderá sair da casa dos pais e voltar mais tarde, quem sabe de madrugada. E vai namorar as garotas mais belas dessa parte da cidade. E dançar e se divertir... A vida será uma grande festa!
No entanto, o primeiro lugar que seu irmão te leva é para um barzinho onde se pode beber muito pagando um preço razoável. Mas você nunca bebeu, você não gosta de bebida!
Em todo caso, as horas passam e você começa a ficar incomodado com os olhares dos amigos do seu irmão. São todos apenas alguns anos mais velhos que você, mas te olham como se você fosse uma criancinha, e eles os maiorais, os experientes, os adultos. Seu irmão não deixou que ninguém te forçasse a beber, mas mesmo assim a pressão é muito grande... Você terá de dar pelo menos alguns goles num copo de cerveja, se pretende se enturmar com esse pessoal – se pretende participar dessa tal festa.
E você dá o primeiro gole, e o segundo, e o quinto, e um copo já foi, e depois vários, e lá pela madrugada, já no meio da balada, você já provou tantas bebidas diferentes que já nem se lembra mais que não gostava de beber. Na verdade, você já nem se lembra mais de quem você é exatamente. Os pensamentos se sucedem tão rapidamente que você não consegue mais construir para si um mundo que faça algum sentido. Você desmaia.
Esse foi o seu primeiro porre. Mas, será que haverão outros?

“Ele pode estar transando nesse minuto”
Que tal agora uma universitária cheia de sonhos, prestes a se formar, apaixonada por um cara um pouco mais velho, já formado, que tem progredido no escritório e no contracheque, mas tem trabalhado demais... Vocês quase não se veem mais!
Eles lhe ensinaram que quem ama deve cuidar de sua propriedade, então você cuida da sua: liga para o seu namorado umas 7-8 vezes ao dia. Quando não podem dormir juntos na casa dos seus pais, ou dos pais dele, a ligação noturna é longa e cheia de indagações. Ele é o namorado perfeito, afinal, e é exatamente por isso que você não consegue deixar de pensar nele, e no que anda fazendo quando não está perto de você.
“Todos os homens traem”, sempre dizem suas amigas da faculdade. “Não adianta acreditar em príncipe encantado fiel, se for assim tão encantado, vai encantar outras mulheres também. E, sabe como é, não é? Basta aquele shortinho encravado na bunda, aquela mini saia, e eles não resistem. Na verdade, ele pode estar transando com outra nesse minuto... Já pensou nisso?”.
Com o tempo, você já não sabe mais se essas frases foram ditas por suas amigas, ou se chegaram com o vento... Mas o fato é que você mal consegue se concentrar nas aulas. Está para se formar, mas as notas vão de mal a pior... Para piorar, seu príncipe encantado passou a não atender mais o celular de vez em quando. Agora, atende somente umas 5 vezes ao dia, nas outras está em “reunião de trabalho”.
“Reunião de trabalho”, você sabe bem o que é isso! Antes que fique claro e evidente para todos que está sendo traída, você resolve terminar com seu namorado. Ele finge que não entendeu nada, e diz que ainda te ama... Mas você percebe que ele também se sente aliviado por ter se livrado de você.
Então é isso: não existe príncipe encantado, e todos os homens traem mesmo. “Da próxima vez, os trairei antes” – você pensa, e parece ter sua vida amorosa bem resolvida... Será mesmo?

Shine on you crazy diamond!
E, para terminar: um solteirão convicto que convidou o pai para um show de rock. Mas não qualquer show, e sim o show daquela banda das antigas, de quando o seu pai era o solteirão convicto da vez. “Quem sabe não encontra neste estádio a mãe dos seus filhos, como o seu pai encontrou sua mãe há décadas atrás?” – mas este lhe pareceu um pensamento estranho.
O show começa e você se emociona. Não é só a questão da música ser maravilhosa, mas é a música que o seu pai lhe ensinou a ouvir. O seu pai, que não ia numa show há muitos anos, e que esteve muito triste e deprimido desde que sua mãe se foi há 3 anos, hoje está mais feliz do que nunca, e nem precisou se drogar – a década de 70 ficou para trás, o espírito roqueiro despertou novamente.
Quando toca Shine on you crazy diamond, a preferida de seu pai, e por tabela, também a sua preferida, ele lhe abraça e chora ao final da música: “Sinto que sua mãe está aqui. Ouvimos esta música tantas vezes juntos... Estou aproveitando o momento para me despedir dela de uma vez. Seja onde esteja, sei que ela ainda pode dançar, e isso me basta”.
Estranho de se pensar, logo seu pai que nunca foi lá muito religioso, nem parecia crer que qualquer parte da sua mãe ainda existira, falou dela como se ela estivesse ainda ali, ao lado dele. E não era uma questão de se crer ou não no que se passou, vocês sentiram a mesma coisa, e não era possível usar linguagem para descrever.
Naquela mesma noite, você encontrou a mãe de seus filhos. Quando sua mulher ficou grávida da primeira vez, souberam que era uma menina, e ela te disse: “Quero dar o nome da sua mãe, sinto que conheço ela desde que te conheci”.

***

Falávamos da importância do pensamento na primeira rodada do projeto, e aqui o pensamento está também na essência da mediunidade.  Podemos abrir uma enciclopédia e ler, quem sabe, assim: A mediunidade é a capacidade da consciência humana de trocar informações com outras consciências de forma não verbal, influenciar e ser influenciada por elas. Sejam consciências que habitam um corpo físico, sejam consciências incorpóreas. Mas, no fundo, a mediunidade é muito mais uma experiência, como estas citadas nos 4 casos acima.

E, neste caso, nem é tão importante crer ou descrer em espíritos. O primeiro espírito que precisamos crer, conhecer e incorporar, é o nosso próprio. Devemos tomar conta de nosso próprio pensamento, para que este não seja alvo fácil na ventania. Devemos ancorar nossa essência nos altos ideais da existência: no amor, na liberdade, no conhecimento; para que os ventos não venham e a levem sabe-se lá para onde...

Ter uma alma, ter um espírito, ter uma consciência, ter uma vontade capaz de gerar seu próprio pensamento, é uma grande responsabilidade. A mediunidade é também a arte de lidar com tal responsabilidade da melhor forma possível.

A senhora que perdeu a mãe deveria ficar deprimida e triste, ou feliz por ter conseguido conversar com sua mãe uma última vez antes que ela fosse para o lado de lá? O adolescente que tomou seu primeiro porre terá coragem para não beber nas próximas baladas (ou beber moderadamente), ou se tornará um especialista em comas alcoólicos? A universitária ciumenta saberá compreender que amores não são propriedades suas, ou continuará obsessivamente ligada aos seus namorados? O roqueiro terá a sensibilidade suficiente para encontrar com sua mãe, deste lado de cá, ainda outras vezes, ou isso ocorrerá somente nos grandes shows de rock?

Muitas dessas perguntas não trazem uma única resposta, nem muito menos uma resposta perfeitamente racional. Na introdução do Livro dos Espíritos, Allan Kardec explica como viu no fenômeno das mesas girantes [3] algo muito maior do que a mera “força mecânica cega”. Ora, as mesas passaram a responder perguntas, com pancadas no chão que ditavam “sim” e “não”. “As mesas giram, mas não pensam” – notou Kardec, e este foi o início do espiritismo. Acaso as mesas “pensassem” ou agissem por conta própria, ou quem sabe através de alguma força desconhecida da natureza, a mediunidade poderia ser, quem sabe, uma ciência física. Porém, conforme o próprio Kardec notou mais tarde, “não se experimenta com espíritos como se experimenta com pilhas voltaicas”.

Não somos, afinal de contas, nem mesas girantes, nem pilhas voltaicas, nem máquinas incapazes de ter vontade própria. Somos espíritos, temos vontade... Pensemos nisso, e cuidemos disso. Do contrário, outros cuidarão por nós.

***

» Veja todos os artigos do Projeto Entrementes

[1] A sequencia dos artigos desta rodada será: blog Diário do Adeptu (PH); blog Autoconhecimento e Liberdade (Peterson); blog O Alvorecer (Jeff); encerrando no blog Artigo 19 (Igor).

[2] Ver, por exemplo, a série “Para ser um médium”.

[3] Reuniões onde médiuns europeus supostamente levitavam mesas pouco acima do chão, e as faziam girar. Para Kardec, entretanto, era óbvio que existia um fenômeno inteligente por detrás, já que as mesas pareciam “responder perguntas”.

Crédito das imagens: [topo] Mike Agliolo/Corbis/Rafael Arrais; [ao longo] Divulgação (David Gilmour)

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30.6.12

Chico Play

» Parte da série: Play a myth

Se houveram aqueles que souberam falar diretamente ao reino da alma, caminharam no mundo também alguns raros seres que adentraram o reino do mito, e dissolveram seus egos num oceano de bem-aventurança. Embora fossem ainda eles mesmos, eram também um portal vivo para o Infinito, habitados pelos mais belos deuses que a mente humana foi capaz de identificar. Estes são os que falam em nome do amor: os santos...

Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth.


Hoje fazem 10 anos que Chico passou para o outro lado do véu, num dia feliz, conforme o prometido, quando a seleção brasileira venceu a Copa do Mundo...

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(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

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Crédito da imagem: Rafael Arrais + toalinde

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25.4.12

Imaginando dragões

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Outro dia estava vendo na TV a cabo um programa sobre novas empresas no ramo da tecnologia e inovação, e conheci a Quirky, que é basicamente uma comunidade online de gente criativa, com ideias para novos produtos. Você envia uma ideia por 10 dólares e, duas vezes por mês, as ideias mais votadas pela comunidade passam a ser desenvolvidas pela Quirky, até que virem produtos reais, físicos, e 30% das vendas vão para o criador.

Mas o que me chamou a atenção foi o depoimento do sujeito que criou o Click and Cook [1]. Há certa altura ele disse mais ou menos assim: “Sim o dinheiro é legal, mas o que mais me emociona é o fato desse produto, que agora está aqui na minha frente, e que posso pegar com a mão, ter saído da minha cabeça”... Nós realmente temos essa estranha dificuldade em notar que tudo o que há por aí, construído pelos homo sapiens – arranha-céus, trens bala, semáforos, espátulas, etc. –, saiu nalgum dia da cabeça de um, ou vários, de nós. Ainda assim, é sempre emocionante ver quando alguém percebe isso: “pensei alguma coisa, e agora é real!” Há que se perguntar: e quando, afinal, um pensamento não foi real?

Por exemplo, na era da informática, muitas e muitas coisas foram criadas, mas não passam de bits trafegando por hard disks. Na verdade, toda a internet é algo que não se pega com a mão: mas existe, e foi criado por nós. Alguns homens criam coisas “físicas”, hardwares; Outros criam coisas “virtuais”, softwares. Um programa de computador, por exemplo, é uma série de comandos e algoritmos que lidam com a interação do usuário para lhe trazer novos comandos e algoritmos de acordo com o que ele deseja: apenas um clique no botão de “buscar” do Google, e quantos e quantos anos de inovação e criatividade não se escondem por detrás do processo que retorna milhões de resultados [2], quantos e quantos pensamentos que saíram nalgum dia da cabeça dos homo sapiens.

Mas você deve estar se perguntando o que isso tudo tem de estranho. A princípio nada de aparente, mas eu achei por bem lhe trazer essa pequena introdução para falar sobre dragões imaginários, que é o que farei a partir de agora...

Como já havia dito nesta série, minha primeira festa estranha ocorreu provavelmente enquanto rolava poliedros regulares sobre uma mesa e decidia o resultado do que meu herói havia realizado no jogo de RPG [3]. Aquela altura os mitos e toda a simbologia diluída não me diziam nada de muito profundo, embora certamente fosse divertido jogar e, de todos os personagens a disposição, eu sempre tenha me interessado um pouco mais pelo Mago. Assim foi que, nalgum jogo da adolescência que já não me lembro mais, criei um novo mago que, por acaso, tinha um familiar, uma espécie de animal de estimação mágico que o auxiliava de vez em quando.

Eu nem gostava de ter de controlar mais de um personagem além do meu próprio (o Mago), mas estava na regra, e além do mais era algo que os magos ganhavam de graça, sem gastar pontos de personagem ou de experiência no jogo. Então rolei os dados e consultei a tabela do livro de regras e – minha nossa! – caiu na linha do faerie dragon, o que é mais ou menos um dragão fada pequenino, do tamanho de um lagarto de estimação (daqueles que sobem no nosso ombro), mas com belíssimas asas de fadas. Eu resolvi que seria melhor assumir aquele familiar com convicção, e tentar torná-lo algo mais assustador – assim sofreria menos gozações dos amigos que jogavam comigo.

Foi chamado de Amigo de Mago, e logo nas primeiras aventuras (jogos narrados pelo mestre do jogo, onde eu era um dos personagens com o meu mago) se mostrou bem mais útil do que havia imaginado a princípio, principalmente enquanto meu mago era alguém ainda inexperiente, e sem muitas possibilidades de torrar inimigos com bolas de fogo. Pode-se dizer que o Amigo de Mago era, no mínimo, uma distração muito útil para desviar a atenção dos inimigos. Acabei gostando e, ao longo de todos os magos que interpretei na minha vida de jogador de RPG, sempre que as regras permitiam eu trazia aquele dragão fada de volta a vida...

Mas os anos se passaram, eu me casei e mudei de cidade, e os jogos de RPG tradicionais ficaram cada vez mais raros, e minha vida no RPG foi se tornando cada vez mais eletrônica, e menos pessoal. Meus magos e seus dragões de estimação foram se tornando, cada vez mais, apenas memórias alegres da adolescência e dos meus vinte e poucos anos.

Foi então que comecei a desenvolver minha mediunidade em um centro espírita ecumênico [4] da cidade onde hoje resido, e aproveitei a oportunidade para colocar em prática (mental) alguns exercícios descritos de forma bastante didática por Franz Bardon em seu Magia Pratica. Quando estamos “preparando o ambiente (mental)” para que possamos entrar em contato com espíritos, costumeiramente tentamos “limpar a mente” de pensamentos ruins, estressantes, e imaginamos cenários naturais, como planícies ensolaradas de grama verdejante, algumas árvores e flores, uma cachoeira ao longe que deságua num rio que passa próximo, pássaros planando com a brisa no céu, etc. [5]

Isso tudo é imaginado em meditação, com os olhos fechados e a luz do ambiente bastante fraca. Muitas vezes, com a prática, tais imagens já surgem sem muito esforço, como se a mente já estivesse acostumada a tal programação... Na medida em que fui prosseguindo em meu desenvolvimento, pude notar que, efetivamente, a minha planície era cada vez mais verde e ensolarada, cada vez mais “real”. O que isso significa, na prática, é que estava ficando cada vez mais simples para mim entrar em estados de consciência compatíveis com aqueles adequados para a boa prática da mediunidade. Até que um dia, me deparei com um ambiente “carregado” de alguma influência negativa – era como se alguns espíritos desgostosos estivessem querendo invadir (mentalmente) o meu jardim, e me desconcentrar. Foi precisamente nesse momento que ele apareceu, o Amigo de Mago!

Como um pensamento, uma programação mental antiga e quase esquecida, mas que nunca deixou de ser querida para mim, o pequeno dragão fada, com suas asas cintilantes a refletir o brilho do sol, passou por mim como um zangão e, rodopiando a minha volta, afastou aqueles espíritos desgostosos, ou pensamentos ruins, como num “passe de mágica”. E, depois, ele se foi, voou para longe, como se jamais tivesse estado ali...

Era exatamente como nos antigos jogos de RPG: quando era necessário sua ajuda, o Amigo de Mago aparecia. Mas, na maior parte do tempo, ele ficava em segundo plano nas histórias... Foi então que me toquei: aquilo era real, pois todo pensamento é real. Afinal, como postulam alguns físicos modernos, tudo é informação, até mesmo um pensamento.

O pequeno dragão fada nada mais era do que uma programação mental antiga que, surpreendentemente, havia “ficado lá”, no terreno fértil da imaginação e, até mesmo devido a isso, ressurgiu em toda a sua glória exatamente quando este terreno estava novamente a ser remexido, em minha meditação com a construção de elaboradas imagens mentais.

Seria o Amigo de Mago um ser sentiente? Infelizmente, acredito que não. Por minha própria experiência com tal pensamento, se trata mais de uma programação mental que foi alimentada ao longo do tempo (mesmo sem que eu tivesse a plena consciência disso) para realizar tarefas (mentais) específicas, mas não seria como o meu gato que, apesar de não poder falar comigo, tem seu próprio ânimo felino.

Seria isso tudo “apenas coisa da minha cabeça”? Sem dúvida. Mas, se me permite dizer: eu sei muito bem a diferença entre a realidade e a fantasia, ou entre a realidade física, hardware, e a realidade psicológica, imaginativa, software. Porém, do mesmo modo, eu também desconfio que muitos pensamentos heroicos da imaginação humana já desbravaram a aventura mítica que separa essas duas dimensões da realidade, e há muitas e muitas ideias que hoje estão bem aqui, neste mundo que reflete a luz, e que percebemos com os olhos. Sejam sistemas de espátulas ou miniaturas de dragões fada, eles venceram, eles se materializaram bem diante de nós.

***

[1] Um engenhoso sistema de espátulas onde você pode trocar de espátula rapidamente, mantendo o mesmo cabo. Bem talvez fique mais simples de entender vendo no site.

[2] A busca por “pensamento”, por exemplo, traz mais de 33 milhões de resultados em menos de meio segundo (na banda larga).

[3] Role Playing Game, ou Jogo de Interpretação de Personagens. Este que se joga com dados e fichas de papel e um mestre do jogo, coisa do século passado... (brincadeira, ainda se joga assim neste século também).

[4] Quero dizer: um centro espírita que não é estritamente “kardecista”, e também tem práticas de umbanda sagrada, assim como de doutrinas espiritualistas orientais. Alguns médiuns chegam a incorporar com perda total ou parcial da consciência, mas não é o meu caso.

[5] Claro que, a nível de magia, essas imagens mentais também evocam os 4 elementos e também por isso são importantes – embora provavelmente boa parte dos espíritas não se dê conta disso.

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Crédito das imagens: [topo] Samwise; [ao longo] Google Images (draco lizard – prova que a imaginação da Natureza ainda é muito superior a nossa)

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16.3.12

Nada a temer, nada a duvidar

Yorgana era médium firme, experiente, daquelas que parece já ter ido ao inferno e retornado para contar história, sempre com um sorriso, ou um meio sorriso, pela face nem mais tão jovial. Tomé estava ali, apreensivo, para observar e aprender...

Após a oração inicial, as luzes foram apagadas e as pessoas entraram em meditação, tanto na mesa grande quanto nas cadeiras em torno. Tudo o que se ouvia, a princípio, era o barulho dos dois ventiladores velhos e desgastados, que já aliviavam o calor daquele centro espírita há uma boa década ou mais. Tomé ansiava pelo que estava por vir, e logo alguns começaram a gemer e se contorcer e reclamar. Como sempre, Yorgana estava lá para oferecer conforto aqueles que foram convidados, de tão longe, aquele recinto de luz:

“Está tudo bem minha filha, quer me dizer alguma coisa?” – Dirigiu-se, sussurrante, a senhora que meditava na cadeira a sua frente.

De início não houve resposta, e exatamente por isso que alguma coisa parecia estar a ocorrer... Logo, aquela senhora pacata e serena tinha ido embora, alguém irrequieto e angustiado tomou o seu lugar:

“Ai! Ai! O que eu estou fazendo aqui? Que lugar é esse? Tá dolorido... Minha cabeça dói, tem insetos no meu corpo, tira isso, tira eles, me tira daqui!!”

Yorgana trouxe suas mãos para próximo da cabeça da senhora (ou quem quer que estivesse ali agora), e continuou serena, quase carinhosa:

“Calma... Calma! Vamos respirar mais devagar, assim, comigo, vamos...”

E o que se seguiu foi uma verdadeira luta para que a senhora conseguisse passar a respirar mais lentamente, no ritmo que a médium demonstrava, expirando e inspirando profundamente o ar seco do ambiente.

“Vamos, vamos... Assim comigo. Inspira, segura um pouco, expira... Calma que aqui são todos seus amigos...”

“Amigos? Não, eu não tenho amigos... Não aqui, principalmente aqui... Que lugar estranho é esse, porque me trouxeram? Porque, isso não tem nada a ver comigo... Eu não pertenço aqui, ninguém vai me aceitar aqui...”

“Isso já é contigo. Primeiro, você é quem precisa se aceitar... Você está aqui, é verdade, só por um tempo, e pode ficar tranquila que logo logo volta para onde veio... Você foi convidada... É, digamos assim, um certo privilégio, pois nem todos têm a oportunidade de vir a essa casa de cura.”

“Cura? Mas como você vai me curar de toda essa dor? E esses malditos insetos que não me largam! Me ajude então, se gosta de mim...”

“Só se você também abrir uma brecha para gostar de si... Vamos, esqueça o que te deixou nesse estado, há sempre tempo de recomeçar... Vamos, inspire comigo e imagine a cor azul, o ar sendo de um azul tão puro, que entra na sua cabeça e ajuda a limpar, e limpando vai levando a dor embora, e daí você expira essa dor, essa coisa ruim aí dentro, e isso tudo sai de você na cor vermelha... Deixa o azul entrar, deixa o vermelho sair... Deixa entrar, deixa sair... Isso... Isso, tá melhorando não tá?”

“Tá melhorando a dor, sim... Que coisa incrível, há tanto tempo que doía que eu nem sabia mais como era estar assim... Os insetos não picam mais meus braços, minhas pernas...”

“Isso, isso mesmo... Mas continua, continua imaginando as cores, continua inspirando, expirando... Eu poderia te ajudar só aqui, mas não sei quando vai poder voltar, e pode continuar fazendo isso onde quer que esteja, basta lembrar: deixa o azul entrar, deixa o vermelho sair... E se acalma, e se perdoa, e dê uma chance a si mesma de recomeçar.”

“Isso... Isso é maravilhoso! Mas eu não sei se vai funcionar onde eu moro... Lá é tudo tão gelado e úmido, o ar é ruim, o céu é escuro, não tem ar azul por lá...”

“Tem ar azul em tudo quanto é lugar... Vou te contar: o que você acha que é o ar que entra azul e sai com sua dor vermelha?”

“Algum ar que só existe aqui nessa casa de santos... Eu preciso ficar aqui, me deixa, me deixa ficar!!”

O atendimento estava acabando, e Yorgana tinha só alguns segundos:

“O ar azul, é Deus. Ou você imaginou que nalgum dia estranho poderia realmente estar fora Dele? Ele está em todo lugar, mais próximo que o seu pensamento mais querido, porém tão distante quanto a sua culpa mais profunda... Se perdoe, vá em paz, há sempre tempo de recomeçar. Adeus!”

***

Após a cantoria ao final da sessão, Tomé estava ainda enxugando as lágrimas. Ele havia sentido de perto, bem de perto, toda a dor e angústia, todo o caos mental naquela senhora, ou no que quer que a tenha visitado ali. Alguém que sofria imensamente, mas que foi consolada. Alguém que pareceu, depois de muito tempo, enxergar uma vez mais a luz ensolarada da esperança...

Ele tinha de perguntar a Yorgana:

“Nossa, como você atendeu bem, firme! Como você faz para ter as palavras certas nesse momento? Você não fica com medo do que pode aparecer? Você não... Duvida do que está ocorrendo?

“Eu nunca sei o que virá, e certamente fico apreensiva, e certamente tenho dúvidas acerca do ocorrido... Se foi realmente alguém que apareceu, se era uma memória antiga, algum distúrbio mental, alguma personalidade trancafiada que pôde finalmente vir a tona... Quem vai saber?”

“Mas, na hora você...”

“Na hora, não era eu. Era algo acima de mim, algo que me toma e que me faz ser alguém maior, alguém que tão somente deixa a luz do alto passar, o mais límpida possível... Na hora, não há nada a se temer, nem nada a se duvidar. Na hora, eu apenas amo, e o amor faz o resto. E, Tomé, não há como se temer o amor, não há como se duvidar dele.”

raph’12


Agora vou viajar, até breve...

***

Crédito da imagem: Fraternidade Espírita Monsenhor Horta

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31.1.12

Para ser um médium, parte 5

« continuando da parte 4

Segundo a falsa ideia de que não é possível reformar a sua própria natureza, o homem se julga dispensado de empregar esforços para se corrigir dos defeitos em que de boa-vontade se compraz, ou que exigiriam muita perseverança para serem extirpados. É assim, por exemplo, que o indivíduo, propenso a raiva, quase sempre se desculpa com o seu temperamento. Em vez de se confessar culpado, culpa seu organismo, acusando a Deus por suas próprias faltas. (Hahnemann em O evangelho segundo o espiritismo) [1]

A ponte em reforma

Para ser um médium é preciso abandonar o que fomos, e nos preparar, sem medos ou falsas expectativas, para o que viremos a ser – novos homens e mulheres forjados no único fogo que queima sem se ver, e arde pela eternidade.

Para ser um médium é preciso reconhecer nossa própria alma, tomar posse, mergulhar profundo dentro de nós mesmos, pois que só assim nos conheceremos em verdade. Manuais de natação e mergulho podem ser importantes, mas há algo que são incapazes de nos ensinar – somente mergulhando, sem medos ou dúvidas improdutivas, é que saberemos. O grande poeta português já nos alertou:

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu. [2]

E, se a alma não for pequena, se o amor não for brisa passageira, se a vontade não for chama inconstante que se apaga com os ventos contrários, valerá a pena... Em nosso inconsciente profundo encontraremos, decerto, muitos monstros e demônios, mas caberá a nós, somente a nós, educá-los, persuadi-los, mostrar que só existe um caminho para uma vida plena de liberdade e sentido, e que todos os outros são apenas falsos atalhos e estradas sem saída, que nos fazem girar em torno de nosso próprio ego, sem realmente sairmos do lugar.

Os maiores perigos no início do caminho espiritual são as idealizações, as ilusões encantadas. Já falamos do “complexo de santidade” anteriormente, mas uma outra ilusão tão ou mais comum é a ilusão do céu de ócio eterno, alcançado mediante barganhas com alguma espécie de deus estranho... O que Deus precisa de nós? Apenas que aprendamos a posicionar nossa alma tal qual espelho a refletir a luz solar. Apenas que consideremos que todo pequeno ser, e todo grande ser, são como crianças a tatear um berçário cósmico, descobrindo aos poucos o que significa, afinal, amor infinito.

Um dos espíritos que respondeu a Kardec no Livro dos Espíritos talvez tenha vislumbrado tal amor de forma um pouco mais abrangente do que temos conseguido: “O amor é a lei de atração para os seres vivos e organizados. A atração é a lei de amor para a matéria inorgânica... Não esqueçam que um espírito, qualquer que seja seu grau de adiantamento no plano cósmico, está sempre colocado entre um superior, que o guia e aperfeiçoa, e um inferior, para o qual é pedido que cumpra esses mesmos deveres, em troca” [3]. Portanto, se não nos perguntamos por que a gravidade nunca deixa de atuar, constante e harmoniosa, por incontáveis eras, da mesma forma não devemos nos perguntar se Deus precisa de alguma coisa de nós – não é Deus quem precisa, são nossos irmãos. Devemos tão somente aumentar o centro de massa de nosso próprio amor, para que cada vez mais seres gravitem em torno dele.

Para ser um médium é preciso reconhecer todas as nuances do amor, é preciso ter um plano para conquistá-lo e estudá-lo, refleti-lo e irradia-lo, conforme tem sido feito pelos seres de cima, em nosso benefício, há tantas eras.

Mas para amar o próximo é preciso antes ter amor dentro de si, e para si. É preciso investigar o sótão da alma e reconhecer que lá há sujeira, e eventualmente arregaçar as mangas e fazer uma pequena faxina, e depois uma grande faxina, até que todos os monstros e demônios não tenham mais onde se ocultar... Será preciso encará-los frente a frente, e aceitá-los como são: apenas partes de nossa animalidade, fruto de nossa longa teia de vidas e espécies vividas. Não será o caso de decapitar tais monstros com uma espada reluzente e afiada... Guarde a espada. Os monstros passarão a ser seus amigos, lembranças de tempos em que você era ignorante do amor, e que agora não têm mais necessidade de serem antagonistas de sua saga. E, se não há exatamente um final feliz neste grandioso conto de fadas, há ao menos uma imensa ilusão em desencanto. Não há guerra: há apenas a ignorância a se desvanecer como a neblina da manhã ante os primeiros raios de sol...

Para ser um médium é preciso compreender que existe, afinal, uma terra de vida e uma terra de morte. E se entre tais territórios há hoje apenas uma tênue ponte de madeira quebradiça e cordas prestes a arrebentar, façamos a reforma!

Pois é esta ponte, somente ela, o que separa nossa alma da vida eterna. E é somente amando que conseguiremos progredir em sua reforma... Um remendo de corda, uma nova placa de madeira de lei, um pequeno gesto de amor, dia após dia. Passos na travessia, passos cuidadosos, rumo ao outro lado, onde há música...

Há esta ponte entre nós e o Absoluto: atravessá-la, através do amor, é o único sentido, o único significado, a única razão para ser, afinal, um médium.


Todos pensam em mudar o mundo. Quão poucos pensam em mudar a si mesmos. (Tolstói)


para Maria Luiza.

» Esta série termina aqui, mas em breve ainda trarei um "epílogo filosófico" para ela...

***

[1] Cap. IX, item 10. Com ligeiras adaptações.

[2] Trecho final do poema Mar português, de Fernando Pessoa.

[3] São Vicente de Paulo, 888a. Com ligeiras adaptações.

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Crédito das imagens: [topo] moodboard/Corbis; [ao longo] Martin Puddy/Corbis (ponte em Angkor Wat, Cambodja)

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29.1.12

Para ser um médium, parte 4

« continuando da parte 3

Estudos místicos trazem consigo, assim como a música ou poesia – embora em grau muito mais elevado –, uma estranha euforia, como se nos levassem para mais perto de uma poderosa fonte de Ser, como se estivéssemos finalmente na iminência de desvendar o segredo que todos buscamos. (William James em Variedades da experiência religiosa)

Anjos de cima, demônios de baixo

O termo misticismo é uma das palavras mais mal empregadas na linguagem popular. O filósofo americano William James, um dos fundadores da psicologia, observou que ele se tornou abusivo, geralmente sendo aplicado a “qualquer opinião que tomemos como vaga, exagerada e sentimental, e sem base nos fatos ou na lógica”. Em Mysticism, a escritora britânica Evelyn Underhill nos trouxe uma explicação mais profunda acerca do termo [1]:

“O misticismo [...] não é uma opinião: não é uma filosofia. Nada tem em comum com a busca de conhecimento oculto. Por um lado, tampouco é apenas o poder de contemplar a Eternidade: por outro, não se deve identificá-lo com qualquer tipo de esquisitice religiosa. É o nome desse processo orgânico que envolve a perfeita consumação do Amor a Deus: a realização aqui e agora da herança imortal do homem. Ou, se preferirem – pois significa a mesmíssima coisa –, a arte de estabelecer nossa relação consciente com o Absoluto.”

Podemos, talvez, dizer que os transes mediúnicos, em seus diferentes graus, fazem parte do misticismo conforme delineado por Underhill. Pode parecer estranho que o contato com outros seres seja algo análogo ao contato com Deus – mas, no fundo, um dia talvez você também compreenda: o Reino de Deus já preenche a tudo desde sempre, e ao nos dedicarmos ao contato, a amizade, a compaixão, ao amor, com outros seres, vivos ou “mortos”, estamos aos poucos nos aproximando cada vez mais de Deus, mesmo que não o compreendamos muito bem.

Ainda assim, é preciso analisar cuidadosamente os pensamentos e sentimentos que nos assaltam a mente durante tais experiências, ou mesmo fora delas. Pois é preciso nos assegurar que estamos nos dedicando a mediunidade por uma boa razão, e não por uma razão egoísta – que ao contrário de nos aproximar do Absoluto, nos afasta. O maior perigo para um médium é algo que costumeiramente nos passa de forma desapercebida, de modo que mesmo os médiuns com décadas de atividade podem estar ainda afundados nesse problema sem que o percebam. Na falta de um nome melhor, eu o chamo de “complexo de santo”...

Você pode achar que isso só ocorre com os médiuns “ignorantes”, mas mesmo Divaldo Pereira Franco, um dos grandes expoentes do espiritismo no Brasil, admitiu que no início de sua mediunidade queria “se sacrificar pela causa”, até mesmo com a própria vida... Esse tipo de pensamento é muito próprio do meio religioso, particularmente no cristianismo e islamismo – parece haver um “céu assegurado” para os mártires, os profetas, os santos, e para ser um santo todo sacrifício seria válido!

Mas a questão é que, infelizmente, muitos recaem no “complexo de santo” não por um sentimento genuíno de entrega aos desígnios da espiritualidade, mas simplesmente por um motivo bem mais mundano e egoísta: ora, da mesma forma que um aspirante a ator quer ser um grande astro de Hollywood, um aspirante a espiritualista quer ser um grande santo. Desnecessário dizer: é o talento e a ardorosa dedicação que constrói um grande artista e, da mesma forma, é a disciplina e a lenta e constante afloração do amor que constrói um santo. De modo que um santo jamais se considera um santo – são os outros que o chamam assim. Pense nisso: quanto antes perceber que os espíritos de cima querem amor, e não sacrifício, tanto melhor...

Além deste conselho primordial aos que se iniciam na mediunidade, acredito que alguns outros sejam também importantes, embora secundários:

Não se vira médium ativo da noite para o dia
Apesar de já ter tocado neste assunto ao longo da série de artigos, é algo importante de ser lembrado: se você é um médium iniciante, principalmente se for ainda ignorante da parte teórica de sua doutrina espiritualista (seja espiritismo, umbanda sagrada ou outras) e/ou se sua mediunidade lhe causa desequilíbrio e desconforto emocional (nos mais variados graus) [2], jamais aceite convites de dirigentes ou coordenadores de casas espiritualistas para “começar a trabalhar na semana seguinte” (ou em qualquer período de tempo muito curto).
Rejeite respeitosamente a oferta, e não se sinta desafiado se lhe disserem que “precisa começar a trabalhar logo, pois seu mentor espiritual assim o quer”, ou ainda que “precisa começar a trabalhar, do contrário coisas ruins se sucederão na sua vida”, etc. Na verdade, se insistirem muito, seria melhor você procurar alguma outra casa espiritualista... O ideal é que procure primeiro as aulas teóricas, caso existam, ou pelo menos informações acerca de alguns livros que poderia ir lendo em casa enquanto frequenta a casa espiritualista (notadamente, os de Kardec, que em todo caso você já pode ler por conta própria desde hoje).
Mas, independente da parte teórica, que nem sempre é a essencial, é preciso que desenvolva sua mediunidade de forma gradual. Ou seja: em reuniões frequentadas apenas por médiuns experientes e “discípulos”, de modo que algum “mestre” possa lhe auxiliar no afloramento gradual de sua mediunidade. Assim, quem sabe após uns 6 a 12 meses, você já possa efetivamente começar a atender o público como um médium da casa. E, quem sabe, após uns 10 a 15 anos, você descubra coisas dentro de você mesmo, e no Cosmos ao redor, que jamais teria imaginado conhecer um dia...

Não se vira um médium comprando manuais de conhecimento oculto
Apesar de acreditar que a maioria das casas espiritualistas seja idônea, não podemos ignorar que existem “espertalhões” por aí, principalmente no meio religioso. Fuja de qualquer casa que procure lhe vender “manuais de conhecimento oculto” (do tipo que não se encontra em livrarias comuns) e/ou cobre quantias fora do normal por suas aulas teóricas... Na verdade, a imensa maioria das casas espiritualistas sequer cobrará alguma coisa. Algumas podem lhe pedir uma contribuição mensal de, quem sabe, até uns 20 reais, para cobrir despesas com manutenção e contas de água e luz. Outras podem lhe pedir que compareça a almoços beneficentes ou a palestras pagas de tempos em tempos – mas desconfie de quaisquer valores exorbitantes, dízimos (valores percentuais baseados em sua renda mensal) ou pedidos extraordinários de doações materiais (como doar uma TV LED, ou qualquer coisa relativamente cara).
Dito isso, se você por acaso goza de boa situação financeira e sente a vontade genuína de ajudar materialmente a casa espiritualista que frequenta, sinta-se a vontade (doações de ar condicionado, por exemplo, seriam muito bem-vindas na maioria das casas).

Faça caridade
Alguns médiuns podem, pelas mais variadas razões, se abster de desenvolver sua mediunidade, e não há nenhum problema específico nisso (nem nenhuma futura “punição” de Deus ou de algum mentor espiritual). No entanto, a caridade é algo que todos, sem exceção, podem e deveriam pensar seriamente em fazer.
A grande maioria das casas espiritualistas tem atividades semanais, quinzenais ou mensais de caridade. Seja visitar um hospital, um asilo, uma creche, uma instituição de doentes mentais, etc. Embora não necessariamente a caridade seja “a única salvação” – embora muitos espíritas a entendam dessa forma –, ela é sem dúvida muito, muito importante para o afloramento da empatia e, por consequência, de nossas potencialidades no amor. E são essas potencialidades, mais do que quaisquer outras, o grande objetivo, o grande sentido de estarmos retornando a Terra por tantas vezes, aprendendo a amar: uma vida de cada vez.
A visita a instituições de doentes mentais pode ser particularmente reveladora para os que ainda têm dúvidas do alcance efetivo da própria mediunidade. Afinidades quase que instantâneas poderão surgir, e talvez um dia compreendam toda a beleza que há nisso tudo.

Esteja preparado para a descida...
No atendimento aos “mortos”, mesmo durante as sessões de desenvolvimento mediúnico, e particularmente nas que envolvem médiuns de incorporação total [3], desde o início ficará muito claro que a intensidade da dor e da angústia trazidos pelos espíritos em desequilíbrio é alguns graus de magnitude superior a toda a dor e angústia que você algum dia pensou existir na Terra. As dores da alma não se comparam as dores do corpo físico, sobretudo quando o espírito passa para o outro lado do véu ignorante, sem fazer ideia do sistema de reencarnação e, muitas vezes, crendo piamente que suas dores serão eternas...
Não acho necessário entrar em detalhes, até porque palavras são apenas cascas de sentimento, e seriam incapazes de lhe transmitir o tipo de dor de que estou falando. Mas, esteja preparado para a descida ao pântano negro e pegajoso de desejos desenfreados e escuridão da alma – ou, em outras palavras, esteja preparado para descer ao inferno.
Dependendo da casa espiritualista e do tipo de trabalho espiritual realizado nela, pode ser que esse tipo de coisa jamais ocorra, ou ocorra raramente – por outro lado, principalmente nas casas mais engajadas na real caridade espiritual, esse tipo de coisa é até mesmo trivial, de modo que, infelizmente, somos obrigados com o tempo a aceitar que os seres fazem suas escolhas, e arcam com as consequências... Simples assim.
Para os seres aturdidos com seus pensamentos obsessivos, complexos de culpa e lembranças contínuas de seus atos pregressos de ignorância do bem, toda e qualquer luz que chega do alto é, quase sempre, muito bem vinda – ainda que eles muitas vezes não aceitem tal luz de início, se não os julgarmos, se tivermos a devida compaixão que efetivamente merecem (a compaixão que Deus têm nos ensinado), com o tempo aceitarão beber de nossa água, e quem sabe, poderão mesmo ter uma nova chance ainda antes do previsto.
Para os demônios de baixo, nós seremos os anjos de cima. E, ainda que isso seja obviamente um absurdo – pois sabemos que de anjos não temos nada (ou deveríamos saber) –, de certa forma, nos pântanos lodosos das dores antigas, nós de alguma forma somos mesmo anjos. Nessas ocasiões divinas, é importante lembrar que um dia, nalguma vida, estivemos em situação muito semelhante, ou até pior, a situação daqueles seres que naquele momento nos imploram ajuda... Então talvez percebamos que é o inferno, e não o céu, o local de trabalho de todos os anjos do Cosmos.

» A seguir, concluindo a série: a reforma íntima...

***

[1] Este livro será o próximo lançamento digital da Editora Alta Cultura, uma tradução de meu amigo Alfredo Carvalho. O título traduzido, como era de se esperar, será Misticismo.

[2] A mediunidade é uma potencialidade sagrada, e não deve jamais ser compreendida como um “fardo”. Existe a mediunidade e o desequilíbrio mental, e embora eles possam andar juntos, particularmente nos médiuns iniciantes, não devem ser compreendidos como “a mesma coisa”, nem mesmo como “coisas que não existem em separado”.

[3] A incorporação total é uma forma de mediunidade ativa que, ironicamente, pode envolver a passividade total do próprio médium. Muitos sequer se lembram do que ocorreu enquanto estavam “desligados de si”, ou seja, enquanto outros espíritos ocupavam suas mentes e boa parte das funções motoras de seus corpos. Mas o ideal seria tentar manter a consciência, ou semiconsciência, de tudo o que ocorre durante a incorporação.
Há muitas casas espiritualistas mais “ortodoxas” (principalmente as casas espíritas) que não irão aceitar incorporações de seus médiuns – apesar de às vezes elas ocorrerem de maneira “forçada”, ou sem que os próprios coordenadores percebam (em médiuns particularmente hábeis)... Se você tem algum receio de participar de sessões onde há incorporação (ainda que você mesmo não seja, de forma alguma, “obrigado” a incorporar), a melhor coisa é procurar uma casa espiritualista onde não exista esta prática. Ou seja, usualmente o trabalho envolverá apenas orações, música, passes magnéticos e, por vezes, psicografia ou psicopictografia.

***

Crédito da imagem: Jari Schroderus

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26.1.12

Para ser um médium, parte 3

« continuando da parte 2

Magia é a arte – a arte original –, a ciência de se manipular símbolos, palavras ou imagens para se alcançar estados alterados de consciência. (Alan Moore)

A arte de sentir

Muitos podem achar um tanto estranho que um roteirista de quadrinhos tenha nos dado uma das mais simples e elaboradas definições do que é, afinal, a magia. Logo ele, que criou tantas histórias fantásticas, com super-heróis e seres mitológicos, vem nos dar uma definição “sem graça” como essa? Na realidade, não é surpreendente que artistas, sobretudo escritores de fantasia, sejam os que mais têm contato com a magia. A definição de Alan Moore, longe de diminuir a magia, apenas a expande e a devolve ao seu lugar de origem: o fundamento de todas as práticas mediúnicas de outrora, desde animais desenhados em cavernas na pré-história, até os primeiros rituais elaborados pelos grandes xamãs da antiguidade.

A magia é a arte, a mãe de todas as artes, a arte de sentir o mundo, sentir a natureza e, invariavelmente, captar tais pensamentos a pairar pelo ar [1]... Os médiuns ancestrais prontamente os associaram a espíritos, mas hoje há muitos artistas que acham que sua inspiração vem do inconsciente, ou de “algum lugar por aí”... Na verdade, é claro que a inspiração artística passa pelo crivo do inconsciente, e que muitas das criações humanas podem ser explicadas pelo encadeamento de informações das mais variadas fontes dentro de nosso grandioso e complexo cérebro. Porém, se nenhuma informação nova jamais tivesse surgido na mente humana, até hoje estaríamos a fabricar machadinhas de pedra lascada, e não computadores e tablets.

Desde uma cadeira entalhada em madeira até o mais alto arranha-céu de Dubai, desde uma pictografia pré-histórica a um quadro de Picasso, desde um preceito moral escrito em algum papiro chinês antigo até a última graphic novel de Neil Gaiman, toda criação humana partiu inicialmente de alguma mente, e é exatamente por isso que os espíritos estão mais interessados em influenciar nossos pensamentos – para o bem ou para o mal – do que em provocar fenômenos inúteis, se é que são possíveis, como se “materializarem” no meio de uma assembleia geral da ONU e darem um susto em alguns políticos...

Na verdade, segundo O Livro dos Médiuns, compilado por Allan Kardec, supostamente existem e existiram alguns raros médiuns de efeitos físicos que eram capazes de fazer algo parecido com “truques de mágica”, só que de forma real, como levitar objetos pesados (incluindo a si mesmos) e até mesmo efetivamente “materializar” espíritos, emprestando fluidos eletromagnéticos de si próprios para que estes consigam formar partículas que reflitam luz (ectoplasma). Será que isso realmente existe? Eu sou agnóstico quanto a isso – não afirmo que existe nem que não existe –, principalmente pelo fato de que tais fenômenos não acrescentam muito (mesmo que existam) ao objetivo primordial do contato dos espíritos: melhorar a vizinhança.

Na dúvida, portanto, se tais fenômenos ocorrem ou não, o importante é ter em mente que toda a prática da mediunidade tem (ou deveria ter) por objetivo a elevação moral e intelectual, passo a passo, não só dos espíritos enfermos atendidos pelos médiuns, como dos próprios médiuns. Principalmente dos médiuns, se poderia até dizer, pois que são esses que vem sendo lentamente preparados para assumir a responsabilidade de conduzir a humanidade a novos estágios de moralidade, compaixão, conhecimento e arte – mas não qualquer arte: a arte de sentir, a arte de amar.

É claro que a mediunidade, como uma machadinha pré-histórica, pode ser usada para a edificação ou para a destruição da vida. Podemos usar uma machadinha para cortar tiras de couro das carcaças de animais caçados e fazermos roupas para proteger os membros da tribo do inverno gélido, assim como podemos usá-la para matar um inimigo da tribo rival... Porém, na medida em que o espírito humano avançou pelo tempo, muitos de nós passaram à perceber e a compreender o que os “seres de cima” já sabiam há muitas eras: somos tolos por trazer a guerra aos nossos irmãos de armas. Todos viemos do mesmo Deus, filhos do mesmo Cosmos: somos irmãos desde sempre (neste caso, inclusive dos animais, embora ainda estejamos um tanto distantes da era em que os direitos animais serão plenamente reconhecidos).

Esclarecido isso, passemos a uma descrição bastante resumida das manifestações mediúnicas mais comuns, agrupadas de acordo com os tipos de médiuns que as costumam perceber [2]:

Médiuns sensitivos
Por definição todo o médium é sensitivo, apesar de esse grau de sensibilidade variar bastante. Algumas pessoas sentem calafrios ou o arrepio de pelos do corpo ao adentrarem certos ambientes, assim como se sentem inexplicavelmente confortáveis e seguras em alguns locais. O mesmo pode ocorrer ao encontrarem certos tipos de pessoas, principalmente as desconhecidas, das quais têm uma “primeira impressão”. É mesmo óbvio para todos que passaram por tais experiências que estas sensações não se dão através de nenhum dos sentidos físicos já conhecidos e descritos pela biologia; mas, ainda assim, a grande maioria dessas pessoas, mesmo tendo a sensibilidade elevada, continuam sendo médiuns passivos, pois não fazem vaga ideia do que se passa com elas nesses momentos, ou pior: criam as mais variadas mistificações e superstições para explicá-los.
Na verdade todo espírito tende a sentir a presença de um espírito na mesma sintonia de pensamento. Pense em coisas “positivas”, como o desenvolvimento da educação ou num belo concerto sinfônico que lhe tocou a alma de forma peculiar, e atrairá seres afins. Pense em coisas “negativas”, como na violência das grandes cidades ou na raiva que ainda sente da sua sogra, e, da mesma forma, atrairá espíritos que pensam mais ou menos as mesmas coisas – sejam os que habitam um corpo físico, os vivos, sejam os que não os habitam mais, os “mortos”.
No desenvolvimento mediúnico, você poderá por vezes começar a “sentir a presença” de alguém do seu lado, sem de fato haver ninguém ali (nenhum corpo físico, pelo menos)... Não se assuste: este é o início do afloramento da mediunidade.

Médiuns audientes
Estes são os médiuns que recebem informações dos espíritos de forma auditiva. Claro que, embora possa lhes parecer que seja assim, não é través de ondas sonoras captadas em seu ouvido (físico) que eles ouvem, mas através de sugestão mental. Às vezes pode parecer até mesmo uma “voz interna”, como se fosse um “pensamento falante”, e noutras vezes será como ouvir alguém falando ou sussurrando ao seu lado.
Este tipo de mediunidade, quando fruto de um desequilíbrio da alma, pode facilmente conduzir um médium ignorante de suas próprias faculdades a loucura... Mas, sob a proteção de uma boa casa espiritualista, a tendência é que os espíritos sombrios se afastem, e que ele passe, pelo contrário, a se regogizar em poder ouvir constantemente aos conselhos de espíritos amorosos.
Uma variedade interessante deste tipo de médium são os médiuns falantes, que em realidade não ouvem nada e tampouco têm controle algum sobre o que estão falando. São fisicamente influenciados pelos espíritos, diretamente nas áreas cerebrais responsáveis pela fala, e atuam apenas como “ferramentas de voz”. Ironicamente, muitos dos evangélicos que “falam línguas”, e que às vezes condenam a prática mediúnica, são eles mesmos médiuns falantes.

Médiuns videntes
A visualização de espíritos, de forma análoga a audição, não ocorre através da visão (física), mas através da visão espiritual, ou da percepção de ondas de matéria fluida através de alguma parte do cérebro (talvez a glândula pineal), da mesma forma que captamos fótons com os olhos. Este tipo de fenômeno é muito comum em estados alterados de consciência, ou em sonolência – por isso muitas pessoas dizem ter visto pessoas “de relance” quando estavam quase dormindo, ou logo após acordar. Isso é particularmente comum nos casos de “morte” de entes queridos, que costumam vir se despedir das pessoas amadas.
Porém, também existem médiuns videntes ostensivos, ou seja: que veem espíritos à todo momento! Esta é uma forma de mediunidade particularmente nociva se não for bem administrada, particularmente nos casos em que ocorre desde a infância (imagino que não precise explicar o porque). No entanto, quando tais médiuns sobrevivem aos infortúnios da infância e adolescência e conseguem manter a sanidade mental intacta, se tornam médiuns muito, muito úteis, na maioria dos trabalhos das casas espiritualistas. Além disso, se conseguem se alinhar aos padrões de pensamento de espíritos amorosos, há a tendência de verem cada vez menos cenas sombrias, e cada vez mais a verdadeiros espetáculos da existência.
Recentemente falamos no blog sobre o caso de um católico “estranho”, e se tratava de um caso clássico de médium vidente ostensivo – e, no seu caso, aparentemente muito bem sucedido no caminho espiritual [3].

Médiuns pneumatógrafos
Foi assim que Kardec classificou os médiuns capazes de escrever direta ou indiretamente informações passadas pelos espíritos. É interessante notar como este tipo de mediunidade era raro na época de Kardec (cerca de 150 anos atrás), e como hoje se tornou relativamente mais comum dentre os médiuns, ao menos no Brasil.
Claro que um médium sensitivo poderá simplesmente guardar as “inspirações súbitas” e posteriormente transpô-las a um papel ou documento do Word [4], e de fato é assim que muitos grandes poetas elaboram sua poesia – não quando querem escrever, mas quando podem escrever... A psicografia é um pouco diferente, pois se dá no ato da experiência espiritual, e às vezes pode ser sugestionada durante os encontros em casas espiritualistas – de tal forma que, embora o médium não saiba exatamente sobre o que irá escrever, é quase certo que algumas páginas ao menos serão escritas. Alguns médiuns conseguem manter consciência plena enquanto as informações “passeiam de sua mente para o papel”, enquanto outros operam de forma semiconsciente ou inconsciente, de modo que as vezes nem sabem ler ou compreender plenamente o que acabaram de escrever.
A psicografia ou “escrita automática” sem dúvida pode ser “treinada” com o desenvolvimento mediúnico. Isso levanta muitas dúvidas entre os céticos acerca da origem exata desse tipo de informação – que pode ser paranormal, mas também fruto do inconsciente (animismo do próprio médium) ou até mesmo resultado de criptomnésia (quando o médium não se lembra de ter lido anteriormente alguma informação que, não obstante, agora passa para o papel como se fosse de um outro espírito). Todas essas dúvidas são válidas, e cabe ao próprio médium analisar constantemente o fruto de suas psicografias, afim de avaliar se não poderiam ser, afinal, apenas algo que estava guardado em alguma gaveta do seu próprio arquivo mental.
Muitas informações que nos chagam através de psicografias, no entanto, podem ser objetivamente verificáveis quanto a sua validade – como, por exemplo, quando descrevem algo que o médium não poderia saber de forma alguma, um evento da vida de um desconhecido, às vezes até mesmo o número da identidade de um “morto”, etc. Claro que, nem é preciso dizer: Chico Xavier nos trouxe inúmeras “provas” do tipo [5].
Na psicopictografia, temos um fenômeno bastante similar, só que voltado para a concepção de obras de arte, geralmente pinturas realizadas em extrema velocidade, a despeito da usual inabilidade do médium em si na produção artística.

» A seguir, alguns conselhos aos jovens médiuns...

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[1] A mediunidade pode ser considerada uma filha da magia, mas de forma alguma a abrange em todo o seu espectro. Muitas vezes usamos técnicas magísticas para autoconhecimento e realização de fenômenos que independem de outros espíritos além do nosso próprio; Neste e em inúmeros outros casos, a magia vai além da mediunidade.

[2] Para um estudo minucioso de todas ou quase todas essas manifestações, os livros compilados por Kardec (mediante consulta as respostas dos espíritos através de algumas jovens médiuns) ainda são a melhor fonte de referência – sobretudo, neste caso, O Livro dos Médiuns.

[3] Eu também cito meu encontro com uma médium vidente ostensiva no conto pessoal Dançando com ciganos.

[4] Há alguns médiuns da atualidade, como Róbson Pinheiro, que afirmam por vezes psicografar diretamente no teclado do computador. Seria muito interessante vermos um estudo científico deste tipo de fenômeno, particularmente com o monitor desligado.

[5] Para saber mais, ler As vidas de Chico Xavier (Leya), do jornalista (cético) Marcel Souto Maior, que também deu origem ao filme Chico Xavier.

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Crédito das imagens: [topo] Vice.com (Alan Moore); [ao longo] Anônimo

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