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22.7.15

O dia que não passou

Se você já correu em bando atrás de uma pipa perdida, se já escalou árvores para comer frutos na companhia de outros adoradores da tardinha, se já se aventurou em florestas, praias e cavernas, reais ou imaginárias, desde que junto ao seu fiel grupo de aventureiros, então não é falso este sorriso que irrompe sem aviso em sua boca, pois que ele vem da alma.

De todas as lendas que os seres humanos criaram para o convívio em sociedade, do grande espírito da montanha aos duendes e fadas, do código da cavalaria a declaração dos direitos humanos, da teoria do big bang a bolsa de valores, só há mesmo uma entidade que não desvanece com o tempo, nem escapa, como tudo o mais, por entre nossos dedos sedentos de permanência...

Neste mundo somos livres, nos disseram, para buscar o que bem quisermos. Há aqueles que rodam todo o globo atrás de tesouros, e outros que fazem longas jornadas, todos os dias, enquanto contemplam o giro de tudo, sem sequer saírem do lugar. O que importa é que, seja aqui ou no Himalaia, ninguém pode escalar mais alto do que o pico que reside em seu interior.

E ainda que a pedra mais preciosa estivesse, em realidade, nas profundezas do Oceano, de nada adiantaria montar uma grandiosa empreitada para sugar suas águas – nenhuma máquina será capaz de esvaziar a alma, somos nós que temos de mergulhar e encontrar essa pérola cintilante, somente nós!

No entanto, é até estranho de se pensar, mas todos os vislumbres de tal milagre, todos os suspiros de saudade, todas as lágrimas de angústia, todos os solavancos cardíacos e, enfim, todos os momentos de pura e plena paz, em que deixamos nosso intelecto de lado e vivemos a experiência em si, sem crer nem descrer, sem ansiar nem temer, tudo isso ocorreu no dia em que o ser olhou para si, espalhado e espelhado pelo mundo, e compreendeu, ainda que sem saber, e de seus lábios emergiram estas palavras:

“Isto sou eu...”

E este dia não passou, pois ele mora no coração da eternidade.


raph'15

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Reflections Wallpaper

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22.10.14

Um convite para a eternidade

São rostos de todo tipo,
faces e olhares a alhures,
e restos de passados,
angústias de futuros,
e presentes aprisionados
num vagão lotado
e na tela cristalina
de um smartphone...

Não obstante, neste instante,
por entre meios fios
e rachaduras em concretos frios,
flores desabrocham,
relvas tingem o cinza,
e verdejam as plantas mais comuns,
enquanto as montanhas cochicham umas as outras
(por milênios a fio)
sobre os seres apressados
que elas viram nascer
e passar e morrer...

Cada pedra portuguesa desta calçada,
cada pequeno jardim,
cada loja de rua e padaria,
cada igreja e banca de jornal daqui
são para mim os símbolos e os emblemas
da minha breve história...

Lá do alto, porém,
de braços abertos,
e um olhar convidativo ao horizonte sem fim deste grande mar,
vela por nós o Cristo,
e nos redime de nossa brevidade,
e nos estende a mão –
um convite para a eternidade.


raph'14

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Crédito da foto: Ladyce West

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11.8.13

O que virá adiante

O que é este zumbido,
sussurro gotejante,
algo estranho vindo
de antes do ouvido?
Uma sensação de vida,
vida verdejante
e líquida, a escorrer tal qual
córrego sinuoso,
sempre em busca
do que haverá mais adiante...

O que ele quer lhe confessar?
O que somos nós,
de onde viemos e onde tudo isso
vai desaguar?
Ora, se ventos sussurrantes
acaso pudessem sussurrar,
é isso que lhe diriam:
“Onde finda a poderosa ventania,
há um eco no horizonte,
e tal som é como a doce brisa
da primavera. Nada no mundo
pode realmente deixar de existir,
desde que haja nalgum dia
sido brisa ou ventania
no coração a amar e seguir”.

Os ventos trazem a chuva
que se oferece em êxtase para o barro.
Assim nascem de infindáveis sementes
os braços de madeira da Terra...
Você não vê o que eles desejam
com toda a ânsia da Vida por si mesma?
Querem abraçar o Céu!

O que iniciou toda essa história ancestral?
De sussurros e brisas e ventos
e córregos de amor líquido
descendo em cascatas sem igual?
Disso não sabemos...

O que sabemos é que tais questões
nascerem de mentes que surgiram de sementes.
Há toda uma mitologia que se canta em canções
de deuses, heróis, duendes e arcanjos.
Em cada mente ainda corre o líquido
que flui da Fonte aos borbotões
rumo ao Grande Oceano.

Mas agora chega de tantas indagações.
Já lhe dissemos muito, e em todo caso
a linguagem só faz represar
toda esta mitologia líquida
nos córregos eternos do ser.

Basta de pensar.
Faça silêncio,
e apenas se deixe desaguar
rumo a eternidade...

Meu amigo, meu amor, meu semelhante,
você mal faz ideia do que virá adiante!


raph’13

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» Parte da série "Mito da criação"

Crédito da imagem: Google Image Search

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6.12.12

A idade do ser, parte final

« continuando da parte 2

“Acorde! Recorde que você é um ser, que veio de uma estrela, que está em uma estrela, que irá para outra estrela. Pouse suave. Os mensageiros orientam” (Hermes Trimegisto)

A resposta de Buda

Em fevereiro de 1990, tendo completado sua missão primordial, foi enviado um comando a sonda espacial Voyager 1 para se virar e tirar fotografias dos planetas que havia visitado. A NASA havia feito uma compilação de cerca de 60 imagens, criando neste evento único um mosaico do Sistema Solar. Uma imagem que retornou da Voyager mostrava nosso planeta, a Terra, a 6,4 bilhões de quilômetros de distância, como um “pálido ponto azul” no meio da imensidão cósmica.

Foi precisamente tal imagem que inspirou Carl Sagan a nos trazer mais uma reflexão: “Olhem de novo para esse ponto. Isso é a nossa casa, isso somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um dos que escutamos falar, cada ser humano que existiu, viveu a sua vida aqui. O agregado da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões autênticas, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e colheitador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilização, cada rei e camponês, cada casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada mestre de ética, cada político corrupto, cada superestrela, cada líder supremo, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu aí, num grão de pó suspenso num raio de sol”.

Perto do infinito do Cosmos, é difícil não nos sentirmos estranhamente humildes e espantados quando seguimos a luz de pensamentos como este. É difícil não contemplar o céu noturno, que ainda com toda a poluição ainda nos permite ver incontáveis estrelas, e não se indagar: “por que tudo isso?”.

Porque vir até este pálido ponto azul, tantas e tantas vezes, e a cada vez, reencenar alguma peça, escolher mais um tanto de máscaras, e com elas sermos novamente um ser, humano, vivendo uma vez mais uma vida humana, na idade humana. Para que?

A mesma mentalidade científica e racionalista que nos ajudou a criar de nossas mentes a tecnologia necessária para que fosse possível lançarmos sondas na imensidão espacial, e tirar fotos de nossa casa conforme vista a bilhões de quilômetros, esta mesma mentalidade não parece conviver muito bem com o “porque”, e então se foca no “como”. Para todos aqueles que têm asco da espiritualidade, a ideia de que tenhamos sido criados por alguma superinteligência é absurda, assim como a noção de que temos, por detrás das máscaras que formam nossa personalidade, alguma coisa oculta, preciosa, e que precisa ser mantida pura...

Conforme os antigos mitos foram mal interpretados e esquecidos, a sociedade moderna passou a reinventá-los noutro contexto. Dessa forma, o que já foi um espírito da natureza, um gnomo, um anjo ou arcanjo, hoje é um ser alienígena, algum santo sábio de outras eras, um bioengenheiro mágico que inseminou a espécie humana na Terra, e de vez em quando volta para fazer anotações científicas. Como se não bastasse tudo isso, há aqueles que esperam por uma nova Arca de Noé, desta vez uma nave espacial que virá salvar alguns escolhidos do final dos tempos terrenos.

Mas, estranho de pensar: e quem seriam os alienígenas, afinal, senão nós mesmos? A ciência atual ainda não chegou numa teoria consistente de como uma mistura de aminoácidos subitamente formou a primeira bactéria na Terra. Segundo muitos biólogos e astrobiólogos, ir do aminoácido inorgânico a bactéria orgânica é um passo consideravelmente mais complexo e misterioso do que ir da bactéria ao chimpanzé. Para muitos cientistas, a teoria da panspermia é a melhor teoria para explicar o surgimento da vida na Terra.

Segundo ela, boa parte ou mesmo a totalidade do tipo de matéria que possibilitou o surgimento das primeiras células vivas chegou a nós incrustada em asteroides que se chocaram com a Terra no período de centenas de milhões de anos após sua formação. Nós buscamos pelos alienígenas lá fora, mas de certa forma sempre fomos, nós mesmos, os próprios alienígenas: filhos das estrelas, parte dos elementos pesados que são somente formados, no universo conhecido, nas reações nucleares do núcleo dos sóis.

***

Dizem que o príncipe nepalês, Siddharta Gautama, alcançou a iluminação interior suprema, o nirvana, após meditar por 49 dias ao lado de uma árvore. Tinha então cerca de 35 anos, e após haver renascido em vida, dedicou o restante de seus dias a tentar ensinar aos outros em sua volta sobre aquilo que descobriu, a refletir a luz que havia descoberto dentro de si mesmo.

O que o Buda descobriu é algo que a ciência moderna já sabe há algum tempo: nada se cria [1], nada se perde, tudo se transforma. Assim sendo, não somente as coisas, como a própria matéria orgânica que forma nosso corpo, tudo que há é formado por substâncias impermanentes, não duradouras, em constante metamorfose e mutação. Mesmo o sofrimento e a alegria são impermanetes: a compreensão da impermanência está no cerne da doutrina budista.

Dizem também que o príncipe nepalês decidiu tornar-se um asceta após passear no entorno de seu palácio e ter encontrado um homem velho, outro doente, um corpo já em decomposição, e um asceta meditando. Por muito tempo tentou chegar à iluminação pelo ascetismo extremo, pela dissociação do mundo impermanente, mas por fim, após quase morrer de inanição, desistiu desta dissociação extrema [2] – e foi assim, no caminho do meio, que finalmente compreendeu. Todas aquelas máscaras que apertavam sua cabeça e coçavam seu nariz, todas elas nada mais eram do que poeira e fumaça, como o restante do mundo impermanente. Somente após retirar todas essas máscaras, após descascar todas as suas personalidades, ele encontrou algo lá dentro...

Mas o que o Buda encontrou, e compreendeu, dentro de si mesmo, talvez esteja além da linguagem, além da capacidade de se explicar por símbolos gramaticais. Tudo o que ele fez desde então, até o fim de sua vida, foi tentar servir como exemplo para os que estavam a sua volta. Não existia um manual de natação infalível, era preciso que cada um mergulhasse em si mesmo, e descobrisse. “Confiem em si mesmos, não dependam de mais ninguém. Fazei de vós mesmos uma luz” – Siddharta sabia!

***

Detrás de todas essas máscaras que usamos numa mesma vida, ou em vidas a fio, há o Jogador Mais Precioso. Tal Jogador pode ter, conosco, se aventurado no “mundo real”, ou no mundo de Azeroth. Mas, no fim, por mais que lhe digam que este é um mundo de ofícios de guerra, o Jogador sabe, sempre soube, que em realidade estamos aqui para um ofício de amor [3]: para desenvolver nossa potencialidade de amar, de nos conectar, de compreender, de nos religar a este Cosmos que nos abarca por todos os lados, desde sempre.

Para tal, devemos então deixar de sermos alienígenas em nossa própria terra, e explorar, com sondas mentais, o planeta da alma. E lá descobriremos o Mistério, o Monolito Posto de Pé, o Jogador, o Eu Sou. E então atingiremos o nirvana, e calaremos sobre ele – nosso amor será todo exemplo, todo incentivo, para que outros também mergulhem, para que outros também deixem de ser desconhecidos de si mesmos. E isto basta: terão chegado na idade do ser, a eterna idade.

Assim foi que, no fim do experimento, apenas o Buda soube da resposta certa: Sally, a garota que quer brincar, deve buscar sua bola em si mesma – fora, nada realmente permanece de pé.


“Se você não me achar em você, nunca me achará. Pois, tenho estado contigo, desde o começo de mim” (Rumi)

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[1] Ver nota de Huberto Rohden sobre Crear e criar.

[2] Seja o que for que forme a nossa alma, também é parte da Substância Primeira.

[3] World of Lovecraft (mas não estou falando do Chutulhu, nem de algum provável filme ou game erótico).

Crédito das imagens: [topo] Voyager1/NASA (O pálido ponto azul: onde estamos hoje); [ao longo] Ram Bahadur Bomjon ("Buddha Boy")

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27.8.12

O grande campo

Somos todos reflexões
Da luz que irradiou de si mesma
A natureza de todas as paixões
E, da vida, toda a beleza.

No princípio havia apenas o Grande Ser
Refletido na forma de si mesmo;
Disse, então, tudo que havia por saber:
“Isto sou eu”.

Surgindo de tal pensamento, tornou-se a criação;
E aquele que o busca com ardor
Torna-se, na criação, um criador.

Em tudo que há existe o repouso e o movimento;
Somos todos luz condensada, luz repousada:
“Tudo existe neste momento”.


raph’12

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Crédito da imagem: BordomBeThyName

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19.1.12

Frases (9)

Mais algumas das frases vistas primeiramente no meu twitter, agora aqui:


"Perante a Natureza todos somos humildes; Alguns já se deram conta disso, outros ainda irão sofrer até compreender."

"Guerras podem ser necessárias, mas que não se esqueçam: o fim da guerra é a paz."

"Se queremos uma sociedade livre, não é saudável sermos tolerantes com a intolerância."

"Antes de todo ano novo, há um novo dia, uma nova manhã, um novo pensamento, um novo recomeço... Enfim, uma nova chance de agradecer."


"Agora falam em fundamentalismo ambiental. É a nova desculpa para a anistia do desmatamento: ecologia virou religião."

"Assim como existem cientistas religiosos, existem ecologistas religiosos. Não existe isso de 8 ou 80, 'irracional' ou 'científico'."

"Vemos apenas a ciência e perguntamos: mas qual o sentido disso? Vemos apenas a espiritualidade e perguntamos: mas como isso funciona? Vemos a ciência e a espiritualidade juntas, e elaboramos toda uma gama de novas perguntas... Porém, muito mais profundas."


"É preciso seguir pelo caminho do meio, pois a poesia se esvai nos extremos."

"Ao nosso modo, cada um de nós é um caminho, um ponto de observação, para todo o Cosmos. Temos observado partículas de luz de bilhões de anos de idade. E a luz é curiosa: eterna dentro de si mesma, jamais envelhece. Nós somos a forma do Cosmos ver a passagem do tempo. De fora da eternidade, o Cosmos pode ver a si mesmo. Para onde você está olhando agora?"


"Assim como existem várias espécies entre a bactéria e o homo sapiens, entre nossa alma e a alma de Deus existem inúmeros intermediários."

"Os mitos não existem, no sentido de serem símbolos criados a partir da interação humana com a vasta natureza a sua volta. Mas também existem eternamente, já que parecem ser a única forma que encontramos pra falar sobre aquilo que não pode ser descrito por mera linguagem. Apenas é sentido, apenas existe: a inefável natureza da Natureza."

"Os segredos 'místicos e ocultos' são como as brisas, que sopram em todo canto, e poucos percebem, e pouquíssimos param para sentir."


"Um sábio jamais conseguirá reduzir sua sabedoria a um livro, tudo que pode fazer é apontar um caminho."

"As flores têm essa vantagem: não precisam aprender sobre a luz do Sol nos livros."

"Que é, afinal, o amor? Que não se responda por palavras, mas por abraços e belos pensamentos..."

"Vá, observe, reflita, duvide de tudo. Mas não duvide do amor: ele existe!"


"Para o território do Imperador do Espírito, ainda mais do que para Alexandre ou Gengis Khan, o Sol jamais se põe."

"Mesmo na mais profunda escuridão, há uma Lua Cheia a refletir o Sol Invicto."

"Era apenas um vaga-lume, mas o pouco de luz que emanava era maior que a luz da própria Lua, ocultada pela noite. E, assim de perto, quando se aquietava em contemplação, poder-se-ia confundi-lo por uma estrela."


"Mesmo que a Verdade possa ser resumida em palavras escritas, estas não estarão imune as más interpretações."

"Se existir um Diabo, basta mandar nossos melhores evangelizadores para convertê-lo, e o mal sumirá de todo o mundo. Ah, se fosse tão fácil!"

"Aos fundamentalistas que creem que seu deus manda matar os 'adoradores do diabo': já se perguntaram se o seu deus não seria o próprio diabo?"

"Pena não vermos profetas do apocalipse com cartazes dizendo assim: O (re)começo está próximo!"


"Seu deus é seu deus, mas se existe um Deus, ele é nosso Deus."

"Deus já escolheu os seus: e somos todos nós. Se existir um Céu no fim da estrada, a chave para adentrá-lo será entrarmos de mãos dadas."

"Eram os deuses astronautas? Bem, astronautas todos nós somos; Os deuses eram, quem sabe, um pouco mais sábios do que nós..."


"O Cosmos é um imã, uma vez que você esteve lá, tudo o que pensa é em retornar." (Yuri Romanenko, astronauta russo)

"Puritanismo: o medo assombroso de que alguém, em algum lugar, possa ser feliz." (Mencken)

"A neve e as tempestades matam as flores, mas nada podem contra as sementes." (Gibran)

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Crédito da foto: Tomas Rodriguez/Corbis

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18.9.11

Filhos da eternidade, parte 1

Texto de Arthur Schopenhauer em “Da morte, metafísica do amor, do sofrimento do mundo” (Ed. Martin Claret), tradução de Pietro Nassetti – Trechos das pgs. 50 a 54. Os comentários ao final são meus.

A convicção profunda da indestrutibilidade de nosso ser pela morte, que cada um traz no fundo de seu coração, como atestam os escrúpulos de consciência sempre invitáveis quando se aproxima o derradeiro instante, essa convicção, como disse, depende fortemente da consciência de nossa natureza primitiva e eterna. Por isso, assim a exprime Spinoza: sentimus experimurque nos aeternos esse (“sentimos e experienciamos que somos eternos”). Com efeito, por se acreditar imperecível, o homem de razão se crê como se não tivesse tido começo, como eterno; em uma palavra: independente do tempo [1]. Quem, ao contrário, se toma por um ser que surgiu do nada, tem de pensar também que retornará ao nada; pois imaginar que uma infinidade de tempo tivesse transcorrido antes que ele fosse, mas, depois, uma segunda infinidade tenha começado, durante a qual ele não cessará jamais de ser, é um pensamento monstruoso [2].

De fato, o fundamento mais sólido de nossa eternidade é a antiga sentença: ex nihilo nihil fit, et in nihilum nihil potest reverti (“Do nada, nada se cria, e nada pode ser revertido ao nada”). Portanto, Theophrastus Paracelsus diz muito acertadamente: “Minha alma nasceu de alguma coisa; por isso ela não irá para o nada, uma vez que ela vem de algo”. Ele dá a verdadeira razão. Mas para quem considera o nascimento do homem como o seu começo absoluto, a morte tem de ser o fim absoluto; pois os dois são aquilo que são no mesmo sentido: por conseqüência, só se pode pensar a si mesmo como imortal, se se pensar como não-nascido, e no mesmo sentido. O que é o nascimento, é isso também o que é a morte, na sua natureza e no seu significado; é a mesma linha traçada em duas direções. O primeiro é um real surgir do nada, e a segunda é também uma efetiva aniquilação. Mas, na verdade, a eternidade do nosso ser é o único modo de pensar a imutabilidade; esta, portanto, não é temporal. A hipótese de que o homem é criado do nada conduz necessariamente à de que a morte é seu fim absoluto [3].

[...] Quem concebe sua existência apenas como simples efeito do acaso, sem dúvida deve temer perdê-la na morte. Quem reconhece, pelo contrário, que mesmo que apenas no geral essa existência repousa sobre uma necessidade originária, não irá acreditar que ela seja limitada a um curto espaço de tempo, mas antes estenderá a todos os momentos a duração dessa lei necessária que produz uma obra assim maravilhosa. Ora, para conhecer a própria existência como necessária, o homem deve considerar que até o momento preciso em que existe já decorreu um tempo infinito, preenchido de uma infinidade de mudanças e que, a despeito destas, ele existe: a série inteira de todos os estados possíveis já se esgotou, sem que sua existência pudesse ser suprimida. Se ele pudesse em algum momento não ser, então agora já não seria [4].

[...] A existência, com efeito, deve ser inerente, já que se mostra independente de todos os estados possíveis produzidos pela cadeia causal: pois esses estados encontraram a sua realização, e a nossa existência se manteve tão inabalável quanto o raio de luz pelo vento tempestuoso que ele atravessa [5]. Se, por suas próprias forças, o tempo pudesse conduzir-nos a um estado bem-aventurado, então lá já estaríamos desde há muito tempo, pois um número infinito de séculos se estende atrás de nós. Mas se também o tempo pudesse conduzir-nos a destruição, então há muito tempo já não seríamos mais. Disso que existimos agora, segue-se, pensando bem, que devemos ser em todos os tempos. Pois nós mesmos somos o ser que o tempo recolheu em si para preencher sua própria vida: por isso esse ser preenche a totalidade do tempo, tanto o presente e o passado quanto o futuro, de igual modo, e nos é tão impossível sair da existência quanto do espaço.

Considerando bem as coisas, é inconcebível que o que existe uma vez em toda a força da realidade reduza-se em algum momento ao nada e, então, não deva ser mais, durante um tempo infinito. Disso, relativamente aos cristãos, provém a doutrina da ressurreição universal; e relativamente aos hindus, a doutrina da criação incessante do mundo por Brama, sem contar os dogmas semelhantes dos filósofos gregos. O grande mistério do nosso ser e do nosso não-ser, cuja explicação suscitou esses e outros dogmas de mesmo gênero, tem por fundamento último que a mesma coisa que, objetivamente, constitui uma série infinita de tempo é, subjetivamente, um ponto, um presente indivisível e sempre existente; mas quem compreende isso? Kant expôs essa verdade com toda a clareza na sua imortal doutrina da idealidade do tempo e da única realidade da coisa-em-si; pois dessa doutrina resulta que a essência própria das coisas, do homem, do mundo, reside, durável e permanentemente no Nunc stans, sempre fixo e imóvel, e que a sucessão dos fenômenos e eventos é uma simples conseqüência da concepção que fazemos dessa essência por meio da forma de nossa intuição, através do tempo [6].

Por conseqüência, em vez de dizer aos homens: “Vós surgistes pelo nascimento, mas sois imortais”, dever-se-ia ser-lhes dito: “Não, vós não sois um nada”, e ensinar-lhes a entender essa palavra nos sentido da sentença atribuída a Hermes Trimegisto: quod enim est, erit semper (“Pois o que é, sempre será”). E se mesmo nesse caso não se é bem-sucedido, se o coração angustiado entoa o seu velho canto lamentoso: “Eu vejo todos os seres surgirem do nada pelo nascimento, e novamente caírem nesse nada depois de um curto período; do mesmo modo, minha existência, agora situada no presente, logo não será mais que um passado longínquo, e eu serei nada!”; então a resposta certa a dar é: “Não existes? Não o tens em ti agora o presente inestimável, ao qual todos vós, filhos do tempo, aspirantes com tanto ardor – não te ocupas mais agora e efetivamente? E compreendes como chegaste a ele? Conheces bem os caminhos que te conduziram a ele, para que pudesses reconhecer que eles deveriam estar fechados pela morte? A existência do teu seu, depois da destruição do teu corpo, te parece impossível e inconcebível: mas te é mais incompreensível do que tua existência atual e de como chegaste a ela? Por que deverias duvidar que os caminhos secretos que te foram abertos para este presente atual não o estariam também para todo o presente a vir?”.

» Na continuação, a metempsicose da vontade.

***

[1] É preciso analisar o filósofo alemão dentro de do contexto de sua própria filosofia: ele defendia que existe uma espécie de “força da vida”, uma certa “vontade da natureza”, que nos preenche e de certa forma comanda nosso desejo de sobrevivência da espécie. Para a natureza, importa mais a espécie do que o indivíduo. Nossa “intuição de eternidade” nos liga a nossa essência imperecível e eterna, pois que está fora da dimensão temporal. Equivale dizer que existimos sempre, e que a vida individual é como uma espécie de caminho ilusório que percorremos enquanto não nos identificamos como nossa essência eterna. Obviamente há muito do budismo em seu pensamento.

[2] Para Schopenhauer a possibilidade de não termos existido antes de nosso nascimento é tão absurda quanto a possibilidade de não mais existirmos após a morte. Para chegar a tal conclusão ele se vale de uma lógica muito próxima a de Espinosa, quando este diz que “uma substância não pode criar a si mesma”. Ao longo do texto ficará melhor explicado.

[3] Conforme muitos cientistas modernos, Schopenhauer era um eternalista. Ao contrário dos materialistas científicos, entretanto, ele acreditava que certas potencialidades dos seres eram passadas adiante de geração em geração, enquanto que suas individualidades (ou personalidades) era descartadas, principalmente por se tratarem apenas de ilusões criadas pela consciência para a vida em sociedade. Esse tipo de abordagem é bastante similar a que eu desenvolvi para a reencarnação (também defendida pelo filósofo alemão, como veremos, embora com outro nome).

[4] Caso se entenda o tempo como uma parte conjunta do espaço-tempo (e Einstein assim o provou), e se entenda que neste momento somos parte dele, imaginar que um dia não fomos, ou nalgum dia não mais o seremos, é o mesmo que imaginar que em certos trechos do tecido do espaço-tempo, ou seja, do universo como um todo, existem “rachaduras” onde nada existe: e idéia é absurda por si só! No entanto, todos sabemos que nossa compreensão do tempo é ainda hoje tão ou mais precária quanto a compreensão do espírito.

[5] Uma grandiosa analogia puramente intuitiva, visto que estava muito distante da compreensão das modernas teorias científicas.

[6] Uma explicação um tanto simplificada seria imaginarmos uma roda de carroça, com seu eixo e seu aro: o mundo objetivo, temporal, ocorre no aro que gira. Mas todas as coisas temporais emprestam a essência que vem do eixo, imóvel. Somente através de nossa intuição, subjetiva, conseguimos perceber o eixo – o que está fora do tempo, a eternidade.

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Crédito da imagem: Wikipedia

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20.5.11

Reflexões sobre o tempo, parte 1

Todos certamente já afirmaram, de forma natural: "o tempo corre", "este ano passou depressa" ou mesmo "esta aula não acaba". Uma definição científica mais precisa faz-se certamente necessária, e com ela ver-se-á que o tempo, em sua acepção científica, não flui. O tempo simplesmente é.

Perseguindo a eternidade

A ilha Samoa, no Pacífico Sul, anunciou que vai avançar um dia no calendário para incentivar os negócios com os seus principais parceiros econômicos, a Austrália e a Nova Zelândia. Hoje, a ilha de 180 mil habitantes está 21 horas atrás da principal cidade australiana, Sydney. A partir do dia 29 de dezembro de 2011, vai estar 3 horas à frente.

O primeiro-ministro de Samoa, Tuilaepa Sailele, afirmou que a ilha está perdendo dois dias úteis por semana em suas transações comerciais com esses países. Quando é sexta-feira em Samoa, já é sábado na Nova Zelândia. E aos domingos, enquanto a população da ilha está na igreja, os negócios estão a todo vapor em Brisbane e Sydney. A alteração do calendário significa que Samoa passará para o lado oeste da linha internacional do tempo. Há 119 anos, os samoanos fizeram o contrário e se transferiram para o lado leste da linha, a fim de incentivar negócios com os Estados Unidos e a Europa. Hoje, entretanto, são a Austrália e a Nova Zelândia os importantes parceiros comerciais da ilha.

Quando a linha internacional do tempo (ou linha de data) foi estabelecida, o mundo ainda seguia a doutrina newtoniana do tempo, e cria piamente que o tempo era uma entidade absoluta. Dessa forma, apesar de serem linhas imaginárias, os meridianos estariam associados à rotação da Terra em torno do Sol, algo que transcorreria em um tempo absoluto. Até hoje, como podemos ver, a engrenagem de nossa economia se baseia em linhas imaginárias concebidas numa época em que se acreditava que o tempo era uma medida absoluta. Einstein provou que estávamos todos errados...

Ainda adolescente, o gênio alemão lutava com a questão de como uma pessoa veria um raio de luz se viajasse exatamente à mesma velocidade da luz. Segundo Newton, o viajante veria uma onda de luz “estacionária”, e poderia até mesmo estender o braço e recolher um punhado de luz imóvel, como se recolhe a neve aqui na Terra. Ocorre que, segundo as equações de Maxwell para o comportamento da luz, ela jamais poderia algum tempo estar parada, sem se mexer. A luz era como um tigre selvagem que jamais poderia ser domado. Einstein descobriu um grande paradoxo.

Para compreendermos melhor o problema, imaginemos que Calvin acabou de ganhar um trenó com propulsão nuclear. Ele decide então aceitar o maior de todos os desafios e apostar uma corrida com um raio de luz. A velocidade máxima de seu trenó é de 800 milhões km/h, contra 1,08 bilhão km/h da luz, mas ele é um garotinho destemido e aceita o desafio. Haroldo, seu tigre de estimação, está atento com um relógio atômico altamente preciso, e anuncia a largada!

Para cada hora que passa, Haroldo percebe que o raio viaja a 1,08 bilhão km/h, enquanto o trenó de Calvin, conforme o previsto, não passa dos 800 milhões de km/h. Segundo a doutrina newtoniana, o tempo é uma entidade absoluta, e dessa forma Calvin concordaria com seu tigre em que o raio tem se afastado dele, desde a largada (desconsideremos a aceleração inicial), a precisamente 280 milhões km/h, a diferença entre as duas velocidades...

Mas, em seu regresso, Calvin está irritado e não concorda de modo algum. Ao contrário, desanimado e acusando a luz de ser trambiqueira, ele diz que por mais que apertasse o acelerador de seu trenó nuclear, o raio de luz continuava a se afastar dele a 1,08 bilhão km/h e nem um pouquinho a menos. Haroldo o aconselha a se acalmar e diz que a luz não é trambiqueira, o tempo é que é relativo!

A explicação de Einstein para tal paradoxo é a de que as medições de distâncias espaciais e durações temporais realizadas pelo relógio de pulso de Calvin são diferentes das de Haroldo, e isso nada tem a ver com o fato de ele estar usando um relógio mais preciso... A divergência entre tais medições só podem ser explicadas pela doutrina einsteiniana onde o tempo não é mais absoluto, mas relativo ao observador.

A velocidade da luz, ela sim, é absoluta e constante, já o próprio espaço e o próprio tempo dependem do observador. Cada um de nós leva o seu próprio relógio, seu monitor da passagem do tempo. Todos os relógios tem a mesma precisão, mas quando nos movemos, uns com relação aos outros, os relógios não mais concordam entre si. Perdem a sincronização. O espaço e o tempo ajustam-se de uma maneira que lhes permite compensar-se exatamente, de modo que as observações da velocidade da luz sempre dão o mesmo resultado, independente da velocidade do observador.

Newton achava que esse movimento através do tempo era totalmente independente do movimento através do espaço. Einstein descobriu que eles são intimamente ligados. A descoberta revolucionária da relatividade especial é esta: quando você olha para algo, como um trenó nuclear estacionado, que, do seu ponto de vista, está parado – ou seja, não se move através do espaço –, a totalidade do movimento do trenó se dá através do tempo. O trenó, a neve, o tigre, você, sua roupa, tudo está se movendo através do tempo em perfeita sincronia. Mas, se Calvin voltar a acelerar o trenó, parte de seu movimento através do tempo será desviada para o movimento pelo espaço. Por fim, a relatividade especial declara a existência de uma lei válida para todos os tipos de movimento: a velocidade combinada do movimento de qualquer objeto através do espaço e do seu movimento através do tempo é sempre precisamente igual à velocidade da luz.

Você pode até se imaginar parado, mas mesmo o monge budista meditando no templo mais afastado do Butão tem o seu corpo em constante movimento através do espaço. Ainda que a gravidade o prenda a Terra, a Terra está girando em torno do Sol em extrema velocidade, e o Sol, por sua vez, gira em torno do centro da Via Láctea – a nossa galáxia –, e nossa galáxia inteira vai de encontro a Andrômeda [1], e todas as galáxias se movem em torno de conglomerados inimagináveis aos mortais (embora alguns físicos tentem imaginar seriamente o tamanho do infinito)...

Mas, ainda que por milagre o monge atingisse algum espaço perfeitamente estático do Cosmos, ainda assim estaria se movendo a precisamente 1,08 bilhões km/h pelo tempo, na crista das ondas de luz.

Já a própria luz, que sempre viaja à sua velocidade através do espaço, é especial porque sempre opera a conversão total da velocidade do tempo para o espaço. Isso significa que o tempo pára quando se viaja a velocidade da luz através do espaço. Um relógio usado por uma partícula de luz não anda. Os fótons lançados no espaço-tempo tem a mesma idade desde o Big Bang, eles operam no reino da eternidade [2].

Embora não possamos nunca realmente nos aproximar da velocidade da luz mantendo a matéria que nos forma intacta, existe algo de profundo e assombroso nesta visão do mecanismo cósmico. Desde que despertamos para a vida consciente, temos nos perguntado de onde viemos e para onde vamos, e alguns de nós tem tido um contato mais estreito com a própria eternidade que nos cerca – uma essência misteriosa que parece permear todas as coisas, e lhes dar forma e informação.

Para estes, a busca pela eternidade, pelo retorno as origens, ao reino do que não foi nem será, mas simplesmente é, nesse exato momento o é, essa busca se torna uma perseguição implacável... Por outro lado, através da racionalidade, terminamos por desvelar os segredos da própria luz, por retirar o próprio tempo de seu pedestal absolutista. Terminamos por perceber, por uma via completamente distinta, que a eternidade está espalhada por todo o lugar. Nós a percebemos com os olhos – os fótons são eternos [3].

» Na continuação, a ilusão persistente do tempo...

***

[1] Nossa galáxia e a de Andrômeda fazem parte do Grupo Local de galáxias em nossa vizinhança cósmica. Mas não se preocupem, ainda vai demorar muito, muito tempo, para que as galáxias se choquem...

[2] A noção de que o tempo para a velocidade da luz é interessante, mas é importante não exagerar quanto às implicações desse fato. A perspectiva “atemporal” do fóton limita-se a objetos sem massa, o que está limitado a uns poucos tipos de partículas.

[3] O exercício mental do trenó nuclear e várias citações e informações científicas descritas neste artigo são fruto direto da leitura de “O tecido do cosmo” (Cia. das Letras), do físico Brian Greene. Recomento sua leitura para um aprofundamento científico (e muito mais embasado, nesse sentido) do assunto.

***

Crédito das imagens: [topo] Paul Souders/Corbis; [ao longo] Bill Watterson (Calvin e Haroldo).

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19.1.11

A saudade e a eternidade

Estes poemas dizem respeito aquele sentimento que nos ocorre quando subitamente sentimos falta dos momentos doces perdidos no passado, mas também dizem respeito a nossa lembrança da eternidade que jaz presente nessa persistente saudade do que ainda virá...

Saudades do verão

Os poetas tem esse dom
De deixar tanta saudade quando se vão
Mas não deixa de ser saudade boa
Por mais que doa
Por mais que por ora deságue
Como chuva de verão

Melhor amar e sentir a tudo isso, então,
Tudo isso que cascas de sentimento
Palavras, conjuntos de signos,
Jamais nos explicarão

Melhor amar e perder
Que nunca haver sequer amado
Melhor assim envelhecer
Que nunca haver sequer vivido

Que se a morte é a derradeira estação
Aos poetas, e aos amigos dos poetas,
Resta tão somente esse alento
De lembrar, de sentir, de saudar,
Esse amor, essa saudade,
Que pela pele nos arde
Como os primeiros raios de sol
Do próximo verão

Rafael Arrais, 2011


Eternidade

Busco um canto
em que todos os povos
se reconheçam,
e todas as vozes
se identifiquem,
e todos os olhos
se substantivem,
e todas as cores
se materializem.

Busco um canto
em que todas as crenças,
se consumam,
e todas as raças
se despatriotizem,
e todas as doenças
se extinguam,
e todos os  braços
se encontrem.

Busco um canto
em que a paz
se solidifique,
em que os sábios
não se corrompam,
e que as luzes
jamais apaguem.

Busco um canto
em que toda humanidade
em uníssono,
acompanhe,
e que a melodia,
atravesse séculos
de progressos e sangue,
e nos traga de volta
o dom da eternidade.

Flavia Lopes, (talvez) algum lugar entre 1998 e 2006

***

Crédito da foto: Dircinha

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3.12.10

O poder do mito

"O poder do mito" é uma inebriante entrevista com Joseph Campbell - um dos maiores pesquisadores de mitologia do século XX -, conduzida pelo jornalista Bill Moyers na aclamada série da PBS nos EUA, transmitida para o mundo inteiro e aqui no Brasil pela TV Cultura. Ela foi lançada em DVD pela Log on Editora Multimidia, mas também temos os vídeos disponíveis online:

Este vídeo, com legendas em português, nos traz apenas a primeira entrevista, intitulada "A mensagem do mito" (ao todo são 6 entrevistas com aprox. 1h cada); Para ver as outras 5 entrevistas, clique nos links abaixo:

» Entrevista 2: "A saga do herói"

» Entrevista 3: "Os primeiros contadores de histórias"

» Entrevista 4: "Sacrifício e felicidade" (*)

» Entrevista 5: "O amor e a Deusa"

» Entrevista 6: "As máscaras da eternidade"

Obs: Os vídeos costumam sair do ar de tempos em tempos, por questões de copyright. Tento manter todos os links atualizados, mas ultimamente tem sido difícil achar os vídeos disponíveis no YouTube ou Vimeo...

***

(*) Esta inicia-se com um texto particularmente espetacular, um dos mais belos da humanidade, retirado da famosa Carta do Chefe Seattle ao Presidente em Washington

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14.7.10

Mito da criação

Na eternidade existia o Ser, aquele que simplesmente é.
Percebendo o Ser que nada mais poderia haver ali além dele próprio, o Ser pensou: “que se faça a luz!”
E irradiou-se da eternidade para a ante-sala de seu Reino.
E, tendo preenchido todo o Reino, o Ser soube que era bom.

Movimentando-se em sua ante-sala, o Ser refletia sobre si mesmo.
E, a cada reflexão, um universo brotava de sua mente.
E assim, nesse movimento, universos iam e vinham de sua fronte, como num piscar de olhos.
E, tendo percebido que cada universo continha uma nova história, o Ser soube que era bom.

Seu plano para cada universo era cuidadosamente elaborado em sua mente, entre os momentos em que apenas refletia sobre si mesmo...
Cada universo tinha uma substância, e essa substância os preenchia por completo – cada estrela, planeta e partícula.
E para que houvesse movimento, o Ser permitiu que a substância fosse maleável.
E para que os seres conscientes que brotassem pudessem renascer quantas vezes fossem necessárias, o Ser permitiu que a maleabilidade da substância construísse uma sequência de eventos na consciência dos seres.
E para que tudo não fosse determinado, o Ser permitiu que um átimo dessa maleabilidade ficasse a cargo dos pensamentos e da vontade dos próprios seres conscientes.

Tendo erigido o infinito em seu próprio Reino, o Ser decidiu aventurar-se em seus próprios pensamentos.
E desde então tem sido testemunha do nascer e morrer dos sóis, do raro alvorecer de vidas em algumas de suas pedras, e até do surgimento de seres conscientes.
E tem observado todas as conquistas e desgraças, todas as juras de amor e todos os olhares indiferentes, e mesmo o início e o fim dos grandes impérios...
E tendo visto tudo isso, jubilou-se mesmo foi com o conhecimento que os seres elaboraram sobre o próprio Ser – pois que lembravam seus momentos de auto-reflexão.

Dizem os iniciados que vez por outra o viram, escondido no tronco oco de uma árvore ou atrás de uma nuvem... As vezes mesmo mais distante, navegando entre as estrelas...
E dizem eles ainda que alguns perguntaram seu nome, e ele simplesmente disse:
“Eu sou”.


raph'10

***

» Este conto iniciou a série "Mito da criação" - obrigado, Nath :)

Crédito da foto: jkairvar

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19.3.10

O fóton primordial

Einstein nos trouxe esta poesia: E=Mc²
Quantos enigmas, desvelados e por desvelar
Quanto infinito em pouca matemática a rimar!

Eis que espaço e tempo são uma mesma substância
E tudo o que vemos é o que a curvatura da noite
Esticada, nos permite enxergar em nossa ânsia
Por descobrir o que esconde a gravidade
Nos buracos e dobras do céu estelar

Tudo o que tocamos é luz a bailar
A luz não gosta de ser contida, gosta de irradiar
Apertos de mão são sintonias de amizade
Jamais serão bombas a estourar

E vejam só que curioso: mesmo que por ocasião
Pudéssemos nalgum dia ficar perfeitamente imóveis
Em relação a todo o restante da imensidão
Ainda assim estaríamos viajando a velocidade maior
Pelo tempo, como a luz que nunca para...

Desde a primeira explosão, o primeiro raio
Navega pelo Cosmos como um mensageiro
Trazendo as boas novas da eternidade
Para ele – o fóton primordial
Não existe tempo, não existe idade...
Eis que todo dia é relativo
Eis que toda luz é imortal!

raph'10

***

Crédito da foto: Atronomy Picture of the Day (NASA)

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18.11.09

Reflexões sobre o nada, parte 1

O que não existe nem nunca existiu

Ao longo da história filósofos têm se digladiado com a questão do nada. Não é para menos, já que grande parte das pessoas não compreende exatamente o cerne do problema: o nada não é um lugar vazio, ou um espaço em branco, ou a escuridão do vácuo no espaço profundo. O nada não existe. O nada nunca pode ter existido.

A ciência nos diz que a história do espaço-tempo é um conjunto gigantesco de ações e reações de partículas. No universo nada se perde e nada se cria, as coisas apenas se transformam, como dizia Lavousier. Coisas são formadas por partículas, em todo caso: a maça que Newton viu cair, era afetada pela gravidade, mas também era composta por partículas que formavam o fruto utilizando a energia proveniente do sol. O sol por sua vez também é afetado pela gravidade das outras estrelas da Via Láctea, além de exercer um campo gravitacional sobre os planetas próximos, como a Terra. Mas o sol também é formado por partículas que se aglutinaram, também por conta da gravidade. E todas as estrelas da Via Láctea, e todas as galáxias, se afastam ou se aproximam de acordo com reações gravitacionais. Não existe espaço para o nada neste universo. Ao menos desde o Big Bang, tudo obedece a elegantes leis de ação e reação.

O vácuo é um espaço não preenchido por qualquer matéria, nem sólida, nem líquida, nem gasosa, nem plasma, nem mesmo a matéria escura. Mesmo assim cada pequeno espaço dele é preenchido por trilhões de neutrinos e outras partículas a vagar pelo cosmos, assim como radiações de luz em diversas freqüências vibratórias, e campos gravitacionais. O vácuo possui energia, e suas flutuações quânticas podem dar origem à produção de pares de partícula e anti-partícula. O vácuo não pode ser o nada.

O vazio seria um espaço em que não houvesse nem matéria, nem campo e nem radiação. Mas no vazio haveria ainda o espaço, isto é, a capacidade de caber algo, sem que houvesse. No universo não existe vazio, pois todo o espaço, mesmo que não contenha matéria, é preenchido por campos gravitacionais e pela radiação que o atravessa, de qualquer espécie. Mas ainda que o vazio existisse no universo, não poderia ser o nada.

O nada não pode ser um espaço a ser preenchido. Em realidade, não pode nem mesmo ser um lugar ou dimensão onde a noção de tempo seja válida. No nada não pode existir o tempo, nem o tempo curto nem o longo. No nada não existe a noção de seqüência de eventos, e ainda que fosse um lugar a espera de ser preenchido, o evento do preenchimento nunca ocorreria, pois demanda que exista o tempo.

Nesse sentido, o nada se assemelha a noção de eternidade dos orientais. Porém, mesmo assim o nada não pode ser a eternidade, pois na eternidade residem as essências das coisas. Ainda que tais essências sejam totalmente imateriais e metafísicas, ainda assim seriam algo, e não nada. O nada não pode ser uma essência, ou idéia, ou conceito, ou pensamento... Nada existe no nada. Nada pode ter algum tempo existido no nada.

O nada não existe sequer como representação mental, ou lingüística. Quando se fala do nada, quando se menciona a palavra como conceito filosófico, obrigatoriamente estamos nos referindo ao conceito do não-existir, e nada mais. Ainda que tenhamos diversas interpretações do nada, nenhuma delas será válida. Nunca. Pois simplesmente não há o que ser interpretado.

Por isso mesmo o nada é um grande problema. Não porque exista, mas exatamente pelo contrário: como o nada não pode existir, nada pode surgir ou ter surgido do nada, nem mesmo este universo.

À seguir, porque afinal existe algo, e não nada?

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1.4.09

Poemas de amigos

Estive de férias (inclusive do blog) e andei pensando em retornar a aventura de se escrever um livro. Porisso talvez não consiga manter o mesmo ritmo de postagens dos últimos meses... No entanto, sempre posso contar com pérolas que andei guardando em meu caminho, estas vieram de amigos meus, uns desencarnados, outros ainda encarnados:

Ilusionismo

O sol deita-se
sobre o cimento frio,
e a calçada,
aos poucos,
consome-se e arde,
em invisíveis chamas
de silêncios roucos.

Há uma luz coberta
de lírios mortos,
e línguas secas.
Há um profundo
rumor de ventos e almas.

Levante-se.
Que há neste teu sono
corroído por mortes
anunciadas?
O que encontra-se
neste vazio calmo,
que calcina tua alma?

E esta tenda
de sombras,
que insiste
em manter-se estática.
E estas mãos,
estas mãos sem toque.

O que existe
entre tu e teu sonho?
Que mórbida insânia
te conduz,
por entre restos
de ossos e mágoas?

Ah, e este caminho,
este caminho eterno,
em que seguem
meus pés cansados.

- este profundo rumor,
de ventos e almas.

Flavia Lopes, 1999

Ao Amigo, Nosso Trabalho

Se um dia me perguntares se a vida
É uma jornada válida pelas trevas,
Perguntaria se, nessa tragetória sofrida,
o homem é esperto suficiente, dentre as rélvas,
Para, no amor, aprender o que aprende na dor?

Todos nós choramos e depois sorrimos,
E choramos por mais um vez,
Dentro dessa nave louca, onde vimos
A morte nos sorrir, como um Cortéz,
no derradeiro dia, no Cabo da Boa Esperança.

Lutemos pela paz entre os irmãozinhos.
E se viver é morrer a cada instante,
Entregamo-nos, então, à eternidade.
Mas se viver é sofrer na escuridão,
Entregamo-nos de corpo e alma à caridade.

Otávio Fossá

***

Crédito da foto: Luca Vezzoni

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17.3.08

A Roda e o Eixo

Uma roda de carroça.

Ela é composta do aro externo que entra em contato com o solo, e que gira.

E do eixo, fixo ao resto da carruagem, que não gira, mas sustenta a roda.

Nós vivemos no aro externo, e não podemos ver ou alcançar o eixo, embora saibamos que ele existe, pela lógica, pois que se existe o aro da roda de carroça, existe um eixo que o fixa ali.

No aro externo, o mundo "gira" e o "tempo passa". Isso é o espaço-tempo.

No eixo, não há "giro", e portanto não há tempo, nem mesmo tempo indefinido. No eixo, existem as coisas em essência, que emanam para o aro externo.

A essência do amor.
A essência da justiça.
A essência da verdade.

Isso tudo emana, pois que da mesma forma que indiretamente sabemos do eixo, indiretamente sabemos da essência dessas coisas.

O que está no eixo é Deus.

Ele não intercede, mas se movimenta.
Ele não existe no espaço-tempo, mas existe no eixo.

O eixo é a eternidade.

raph'08

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