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10.9.18

Princípio Antrópico: uma coincidência cósmica? (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo vamos entender o que diabos é Princípio Antrópico, e talvez cheguemos a conclusão de que ganhamos na loteria da vida todo santo dia, ou não. Até chegar lá, precisaremos explicar a teoria do Big Bang, as tretas entre defensores de uma visão de universo estático e eterno, e os que sempre defenderam os mitos de Criação. Pode uma árvore ser árvore sem nunca ter sido semente? Podem as leis da natureza evoluírem com o tempo? Se você ama a ciência, vai ficar arrepiado (em todos os sentidos)!

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27.7.18

Hermes, o Adivinho?

Alguns dizem que ele viveu na região de Ninus, no Egito antigo, nalgum ponto do tempo entre 2.500 a.C. e 1.500 a.C. Dizem que era legislador e filósofo, e teria escrito 36 livros sobre teologia e filosofia (que naquela época não eram tão separadas) e 6 sobre medicina, todos eles perdidos ao longo das invasões e saques e mudanças de impérios regionais. Alguns o confundem com deuses, uns o chamaram de Toth, mas ficou mais conhecido como Hermes. Hermes Trimegisto (ou Trismegisto, quem se importa), o Três Vezes Grande, fonte primária do que se convencionou chamar hermetismo.

Segundo Mircea Eliade em História das crenças e das ideias religiosas (vol. II), o hermetismo teria florescido entre os séculos III a.C. e III d.C. no mundo helênico e romano, primeiramente através da própria cultura popular e depois como filosofia profunda, onde ele situa a obra mais importante, o Corpus Hermeticum, escrito em grego. Eliade vê no hermetismo um imenso sincretismo de filosofias espirituais judaicas, egípcias, iranianas e até mesmo platônicas. É muito difícil, portanto, cravar que Hermes foi somente um homem, ou um deus, ou um grupo de sacerdotes escritores, ou que viveu somente no Egito etc. O que nos importa aqui são os famosos 7 Princípios Herméticos: teria Hermes, seja ele quem for, adivinhado em boa medida os avanços da ciência e do conhecimento modernos milênios atrás? Veremos...

I. “O Todo é Mente; o Universo é Mental.”
Se é verdade que não encontramos teorias científicas de muito destaque que associem o universo diretamente a uma mente, seria apressado afirmar que Hermes chutou em falso logo em seu primeiro princípio. Ocorre que a própria lógica da demonstração deste axioma nos remete ao próprio momento da Criação, e de como “uma substância não pode gerar a si mesma” (como resumiu Benedito Espinosa em sua Ética, muitos séculos depois): ou seja, para algo surgir sem depender de outro algo já existente, há que se ter uma criação mental.

Como já disse Carl Sagan em Cosmos, “se você quiser fazer uma torta de maçã a partir do zero, você deve primeiro inventar o universo”. É que a única forma de fazer tal torta sem depender da pré-existência dos seus ingredientes é imaginá-los, da mesma forma que imaginamos uma cadeira de madeira sem depender da pré-existência da madeira. Assim sendo, compreender o universo inteiro como uma criação mental nos leva necessariamente ao fato de ele ter tido um início no tempo.

Ora, o próprio termo “Big Bang” foi primeiramente cunhado de forma pejorativa pelo astrônomo inglês Fred Hoyle, que como quase todos os cientistas de sua época, defendiam que o universo provavelmente “esteve sempre lá”, mais ou menos do mesmo tamanho, e que não poderia, de forma alguma, estar se expandindo indefinidamente desde algum ponto no tempo onde seu diâmetro cabia na cabeça de um alfinete. Não ajudava, decerto, o fato da própria teoria do Big Bang haver sido proposta por um padre jesuíta belga, Georges Lamaître, que também calhava de se interessar por astronomia e cosmologia. Tudo aquilo parecia bíblico demais, mas no final das contas se comprovou realidade, e toda a astronomia moderna eventualmente se curvou aos fatos.

A diferença é que Hermes não disse que “no princípio Deus criou o céu e a terra”. Ele disse algo distinto: o Todo é o céu e a terra, o Todo é a imaginação divina. O Todo não criou o mundo e depois foi descansar, mas imaginou tudo que há a partir de si mesmo. O Todo simplesmente é.

II. “Assim acima como abaixo; assim abaixo como acima.”
Mais ou menos quando o hermetismo surgiu no mundo grego, já era válida a chamada “física aristotélica”, baseada nas ideias de Aristóteles sobre o Cosmos. Ela foi inicialmente tão respeitada que era quase intocável, mas eventualmente sofreu críticas e, somente muitos séculos depois, com o advento do telescópio e da ciência moderna, foi derrubada em definitivo.

Ora, há pelos menos dois princípios fundamentais da física aristotélica que batem de frente com o segundo axioma de Hermes. Segundo Aristóteles, objetos muito acima da superfície da Terra não são constituídos por matéria originalmente terrestre, comum, mas pelo chamado Éter ou Quintessência. Ele também defendia que o Sol e os planetas são esferas perfeitas que não se alteram. Bem, isso basicamente queria dizer que o Céu, ou tudo que havia para além da Terra, não seguia as mesmas leis físicas, tampouco era constituído da mesma matéria básica. Não foi isso que arriscou Hermes, seu princípio diz claramente que as mesmas leis que valem acima, no Céu, devem valer abaixo, na Terra; muito embora elas possam variar em grau, tal variação jamais será absoluta.

Hoje sabemos que somos formados pela poeira de estrelas, que os elementos pesados de nosso corpo foram todos forjados no núcleo estelar, e que nossa matéria é prima de toda a matéria do universo, seja em que ponto estiver no espaço e no tempo... Hermes não precisou de telescópio para acertar mais um chute. Um sujeito muito sortudo, eu diria!

III. “Nada se encontra parado; tudo se movimenta; tudo vibra.”
Quando Hermes elaborou tal axioma, o máximo que se podia observar do mundo atômico era o que se conseguia enxergar com olhos nus. Demócrito fala em átomos indivisíveis, e dizem que tal ideia veio da observação de poeira flutuando pelos raios de sol de alguma tardinha. Tudo bem, o filósofo grego não estava longe da verdade, mas como, como diabos Hermes pode ter tomado conhecimento de que tudo o que há de fato está em constante vibração, e jamais parado?

As ideias de Demócrito só vieram a ser revistas em meados do século XIX, sendo que a física de partículas e a mecânica quântica só surgiram para valer na ciência moderna no século passado. Hoje sabemos que no mundo atômico e subatômico, as partículas não somente estão vibrando incessantemente, como sequer podem ser medidas com grau completo de certeza quanto a sua posição e movimento: segundo o princípio da incerteza na física quântica, ou sabemos de uma informação, ou de outra.

Em seu estado mais fundamental, os elementos que constituem o Cosmos estão não somente em vibração eterna, como se movimentam de forma tão elusiva que sua posição no espaço é antes uma probabilidade do que uma certeza. Como já disse uma vez um físico muito simpático, “se você acha que entendeu alguma coisa sobre mecânica quântica, então é porque você não entendeu nada”.

No entanto, há milênios atrás, sem microscópio algum, o lazarento do Hermes acertava na mosca mais uma vez. O que será que ele fumava?

IV. “Tudo é Dual; tudo tem polos; tudo tem o seu par de opostos; igual e desigual são o mesmo; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se encontram; todas as verdades são nada mais que meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados.”
Embora tenhamos chegado num dos axiomas que tratam mais de conceitos metafísicos do que físicos, é inegável que Hermes já falava em polaridade desde o mundo antigo.

Todo mundo que já teve de trocar as pilhas do seu controle remoto já viu que há em cada uma delas um polo positivo [+] e um negativo [-]. Tal conceito fundamental do eletromagnetismo é também um fruto dos avanços da ciência moderna. Assim, ainda que para nossa ciência atual não esteja tão claro que absolutamente tudo na natureza tenha dois polos, pelo menos nesse aspecto (eletromagnético) Hermes acertou, mais uma vez.

V. “Tudo flui, para fora e para dentro; tudo tem suas marés; tudo sobe e cai; a oscilação pendular se manifesta em tudo; a medida da oscilação à direita é a medida da oscilação à esquerda; o ritmo é a compensação.”
Novamente um axioma mais metafísico do que propriamente científico. No entanto, foi somente recentemente na história da ciência que desvendamos todos os segredos das marés, ou seja, as oscilações cíclicas no nível da água dos oceanos.

Na época de Hermes muita gente ainda deveria acreditar que os mares escoavam para o abismo no fim do mundo, que era compreendido como algo plano. Hermes não, o danado parece que ficava imaginando como seria o futuro, e chutou com felicidade de novo.

VI. “Toda Causa tem o seu Efeito; todo Efeito tem a sua Causa; tudo ocorre de acordo com a Lei; o Acaso é tão somente um nome para uma Lei não reconhecida; existem muitos planos de causalidade, mas nada escapa à Lei.”
Este talvez seja o axioma mais científico de Hermes. Parece simples para muitos de nós hoje imaginar que nenhum pedregulho sequer rola de uma encosta montanhosa sem uma causa física anterior, como chuvas torrenciais ou a lenta degradação da mata no entorno. Porém, numa época onde o pensamento mágico era ainda amplamente aceito, arriscar dizer que nada poderia simplesmente surgir ou ocorrer do nada, ao acaso, como num passe de mágica, ainda era algo revolucionário.

Ah sim, e ele acertou outra vez!

VII. “O Gênero está em tudo; tudo tem seu Princípio Masculino e Feminino; o Gênero se manifesta em todos os planos.”
A primeira vista este último axioma parece, de todos, o chute mais fácil de ter sido acertado naquela época. Afinal, bastava olhar para os homens e as mulheres, e os machos e as fêmeas no mundo animal, e elaborar uma teoria básica.

No entanto, Hermes parece ter se referido a algo mais profundo, algo com o que a psicologia só veio a esbarrar mais seriamente nos dias atuais: gênero não é sexo biológico, e sexo biológico não é gênero. Se há crianças que, desde bem novas, dizem “estarem presas no corpo errado”, é que enxergam a si mesmas antes pelos princípios, seja masculino ou feminino, que dominam sua alma, do que propriamente pelo corpo em que habitam.

A transexualidade é ainda um tabu tão grande que foi somente neste ano, 2018, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) a retirou da lista de transtornos mentais. Hoje por todo o mundo civilizado se debate o que é gênero, e se existe mesmo alguém 100% macho ou fêmea, ou, se pelo contrário, se todos somos compostos por uma mescla de princípios ou energias masculinas e femininas.

Assim, há muita gente que nunca ouviu falar de hermetismo, que sequer acredita em alma ou reencarnação, que se debruça profundamente sobre tais questões de gênero; algo que, de certa forma, Hermes também antecipou há milênios...

Como pode ser tão sortudo?
Mas, como pode Hermes ter sido tão afortunado em tantos chutes? Ou será que ele dispunha de ferramentas que nós não dispomos, ou pelo menos ainda não identificamos em nós mesmos?

Teria Hermes adivinhado tudo isso por pura simpatia da Deusa Fortuna, ou teria ele descoberto tudo isso e muito mais contemplando aos espaços misteriosos de sua própria mente?

Essas são questões que merecem ser consideradas com carinho por todo estudante de hermetismo. Se Hermes foi algum deus, foi também outro sábio da sua época quem disse: “sois deuses, e dia virá em que farão tudo isso que eu tenho feito, e ainda muito mais”. Ora, se eles foram deuses, nós também somos da raça dos deuses. Nós também somos cocriadores nesta Criação. Nós também somos a imagem e a semelhança do Todo. Agora, basta navegar adentro...

Boa viagem, ó argonautas da mente!

***

» Veja também a minha tradução do Caibalion, e o artigo O dia em que a terra parou, onde jogamos luz no papel que o hermetismo teve no próprio advento da chamada ciência moderna, com Copérnico e Galileu.
 
Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] The Ritman Library; Google Image Search.

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30.10.13

E não pisquem os olhos!

Dizem que os alquimistas queriam transformar chumbo em ouro. Há um certo mistério nesta transformação: segundo Lavoisier, “na Natureza nada se perde ou se cria, apenas se transforma”; então, poderíamos pensar, como diabos uma substância se torna outra?

Do que, afinal, é feita a Natureza? O que forma a realidade (ou o que conseguimos perceber da realidade)?

Segundo Aristóteles, a realidade nada mais é do que uma relação entre substância e estrutura. Para ele, nada existe que não seja uma combinação entre elas. A substância sem estrutura é o caos (o que, no pensamento grego, equivalia ao “nada” de onde surgiu o mundo); já a estrutura sem substância é mero fantasma do ser... Mas será mesmo?

Normalmente se diz que um espiritualista crê em “espíritos e coisas imateriais”, enquanto que um cientista materialista crê “somente na matéria”. Quando analisamos sob este ponto de vista, fica parecendo que os primeiros creem em coisas etéreas, e que os últimos creem em coisas sólidas. Estranho de se pensar: foi exatamente a ciência moderna que minou completamente toda e qualquer ideia de “solidez da matéria”.

Hoje se sabe que num simples aperto de mão, se alguma parte de nossos átomos realmente se chocasse com os átomos de quem cumprimentamos educadamente, teríamos um drástico incidente nuclear do qual certamente não escaparíamos com vida. No fim das contas, somos formados por pequenos pedaços flutuantes de matéria que em realidade estão simplesmente “flutuando por aí”. A única coisa que os mantém juntos é a estrutura determinada pelas leis naturais... Mas, e quanto a substância?

Em 1844, Michael Faraday, observando que a matéria só podia ser reconhecida pelas forças que atuam sobre ela, indagou-se: “Que razão teríamos para supor que ela realmente existe?” [1]

No início do século XX a física descobriu que os próprios átomos, até então verdadeiros “arautos da solidez intrínseca da realidade”, eram, em essência, espaço vazio. Não muito tempo depois a mecânica quântica revelou ante a cientistas extremamente espantados que os constituintes subatômicos – elétrons, prótons e nêutrons, que formam os átomos – se comportavam mais como aglomerados de propriedades abstratas do que como usualmente são vislumbrados por nós leigos: pequeníssimas bolas de bilhar.

A cada nova casca da realidade desvelada pela ciência ficava mais claro que a cebola cósmica era formada por pura estrutura, enquanto que a substância em si foi se tornando cada vez mais teórica e cada vez menos empírica e observável. Segundo a teoria das cordas, a matéria poderia ser formada praticamente por pura geometria – mas uma “geometria” que tampouco pode ser detectada atualmente.

Em seu nível mais fundamental, a ciência descreve os elementos da realidade de um ponto de vista puramente relacional e estrutural, ignorando, em realidade, se existe ou não uma substância no final das contas. Ela pode nos dizer, por exemplo, que um elétron tem certa massa e certa carga, mas tudo o que isto nos informa é que o elétron tem a propensão de sofrer a ação de outras partículas e forças naturais de determinadas maneiras. Ela pode nos dizer que a massa equivale a energia, mas não nos informa efetivamente o que diabos é a energia senão uma quantidade numérica que, calculada da forma correta, se conserva igual através de todos os processos físicos do universo.

Conforme observou o filósofo Bertrand Russell em Análise da matéria (1927), “as entidades que constituem o mundo físico são como peças num jogo de xadrez: o importante é o papel de cada peça num sistema de regras que determinam como ela pode se mover, e não do que é feita tal peça”.

Talvez tenha sido John Wheeler, um físico americano, quem melhor descreveu a essência da realidade: uma cadeia estrutural de pura informação. Para se explicar melhor, ele cunhou a expressão “o it que vem do bit”. Em suas palavras: “Cada it – cada partícula, cada campo de força e até mesmo o próprio continuum espaço-tempo – deriva inteiramente sua função, seu significado, sua própria existência – mesmo que em alguns contextos indiretamente – de respostas induzidas por equipamento a perguntas sim ou não, escolhas binárias, bits. O it que vem do bit simboliza a ideia de que cada item do mundo físico tem no fundo – bem no fundo, na maioria dos casos – uma fonte e uma explicação imateriais; que aquilo que chamamos de realidade vem em última análise da colocação de perguntas sim-não, e do registro de respostas evocadas por equipamento; em resumo, que todas as coisas físicas são informacional-teóricas na origem.” [2]

Mas se as mentes mais racionais e científicas de nossa história recente nos dizem que em sua essência a realidade não passa de um fluxo de estruturas em constante mutação, sem qualquer substância subjacente, onde exatamente se encontra a antiga solidez do materialismo clássico? Onde existe, afinal, alguma substância?

Ora, a despeito de toda a metafísica presente na física moderna, há ainda uma parte do universo em que a sua explicação para a realidade ainda não penetra inteiramente: algo que se situa, ao menos em teoria, bem entre as nossas orelhas...

Para que a realidade pudesse ser explicada somente em termos de informação, seria necessário que nossa consciência e nossa subjetividade também o fossem. Dizem que os cientistas da computação estão muito próximos de criar simulações computacionais de processos mentais complexos, como “sentir dor com uma martelada no dedão” ou “sentir prazer com a vermelhidão e o perfume de uma rosa”. O filósofo John Searle, entretanto, se pergunta “porque alguém na plena possa de suas faculdades racionais suporia que uma simulação de processos mentais em computador de fato tivesse processos mentais?”.

Esta é uma longa discussão, mas o que sabemos atualmente é que a consciência e a subjetividade humanas permanecem absolutamente misteriosas, além do alcance da linguagem e de uma descrição puramente informacional... A consciência não se limita ao mero processamento de informações, a mera computação. Há algo mais, algo que utilizamos principalmente na leitura de poesia ou na contemplação de grandes peças de teatro, obras de arte, shows musicais ou, simplesmente, na observação de um jardim: a interpretação da Natureza.

Se o mundo não pode ser descrito somente por este ponto de vista absolutamente abstrato e metafísico da ciência moderna, há que se buscar onde há exatamente uma substância “palpável” por detrás de tanta teoria.

Ora, se em toda a vasta quantidade de informação do universo tudo o que se encontrou foi estrutura, é possível que a substância esteja, afinal, na própria mente que observa toda essa imensidão estrutural. Neste caso, é possível que toda a realidade – subjetiva e objetiva – seja constituída da mesma substância básica. Parece uma hipótese simples e atraente, além de maluca... Foi exatamente a esta hipótese que Bertrand Russell chegou em sua Análise da matéria. O mesmo disse Arthur Eddington (outro “Sir”) em The Nature of the Physical World (1928): “a substância do mundo é uma substância mental”.

É precisamente neste ponto que grandes cientistas e filósofos da modernidade se alinham novamente com o misticismo antigo, muito antigo, ainda que muitos sequer se deem conta disso.

Há milhares de anos houve um homem (ou talvez um mito, ou quem sabe um deus, o que neste caso não faz tanta diferença), chamado Hermes Trimegisto, que disse que “o Todo é mental”. Não foi a única coisa que disse que casa perfeitamente com a ciência moderna. Segundo ele, “o que está em cima é como o que está embaixo” – querendo dizer que as leis que regem o que está no alto do céu eram as mesmas que regem o que está aqui no solo onde pisamos; e “tudo vibra, nada está parado” – querendo dizer que, a despeito do que nossos sentidos nos dizem a todo momento, não há um só pedaço do seu corpo que esteja realmente parado no mesmo lugar. Quantos chutes e quantos acertos para Hermes, não?

A lição que parece restar disto tudo é que não importa, no final das contas, se queremos descrever a realidade através da filosofia de Aristóteles, da física de partículas aliada a mecânica quântica, ou do hermetismo antigo. O que importa é que estamos tentando descrever o que temos contemplado, espantados, há muitas e muitas eras. Que existe aí alguma substância, seja onde for, e ela não é o Nada, pois não existe o Nada.

Dizem os teístas que Deus criou o mundo à partir do Nada. Mas isto não é possível, nem mesmo para Deus – no fim, uma substância jamais se tornou outra, e Deus sempre foi o mesmo. Nunca houve a possibilidade da existência do Nada, nunca houve “0”, apenas “1”. Flutuações quânticas no vácuo não são o Nada; o tecido espaço-temporal ou o campo de Higgs não são o Nada; mesmo um espaço perfeitamente vazio, exatamente por estar “vazio” e “poder ser preenchido” não é o Nada. Não importa se ainda tateamos em meio a névoa metafísica de um universo puramente informacional onde catalogamos e computamos estrutura, sem jamais chegar a capturar qualquer substância: o fato é que existe Algo, e não Nada.

Seremos capazes de, algum dia, com toda nossa filosofia, ciência e espiritualidade, completar este tortuoso caminho de religação a esta tal substância? Seremos capazes de algum dia abrir os olhos e ver não os fótons de luz que refletem a estrutura da realidade, mas ver efetivamente a substância que faz com que ela exista?

Seja como for, neste dia, neste momento dourado, estejam atentos e não pisquem os olhos... Contemplem a substância que sempre aí esteve, que sempre existiu, estruturada de maneiras inefáveis e infinitas, dando forma a toda a vastidão informacional do Cosmos através de todo espaço e todo tempo... Contemplem com os olhos da alma, seja ela o que for...

E não pisquem os olhos!

***

[1] Esta e outras citações deste artigo foram retiradas de Por que o mundo existe?, de Jim Holt (Ed. Intrínseca).

[2] Citado em O universo inteligente, de James Gardner (Ed. Pensamento). O livro de Wheeler, de onde foi extraída a citação, é intitulado At home in the universe.
Um bit de informação equivale a menor unidade computacional que pode ser medida, ela pode assumir somente dois valores, tais como “0” ou “1”, “verdadeiro” ou “falso”, etc. Não confundir com bytes, que são conjuntos de bits (normalmente, 8 bits).

Crédito da foto: ever-look

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21.3.13

Campos de informação

Eis um vídeo magnífico. Contemple isto por 4 minutos, e a Natureza certamente lhe parecerá ainda mais misteriosa do que antes:

Nesta bela revoada de pássaros em sincronia, podemos ver o que acontece quando um grupo consideravelmente grande de animais se movem de forma tão organizada, que chegam a se comportar como um só corpo. Isto evidencia que deve haver algo que faz a conexão e a unificação de todos os animais do grupo, de forma a que cada um deles se sincronize de acordo com o restante. Todos os pássaros são "governados" de tal forma que a velocidade e a direção em que voam são tão sincronizadas que nenhum deles se choca ou se perde do grupo. Isto só pode ser explicado por algum tipo de "consciência coletiva" do grupo, que é capaz de influenciar a todos, simultaneamente, e de forma unificada.

Segundo o biólogo britânico Rupert Sheldrake, esta sincronia pode ser explicada através dos campos mórficos ou morfogenéticos, espécies de campos hipotéticos de informação, que preenchem o universo de forma análoga ao badalado campo de Higgs (formado pelos bósons de Higgs, as "partículas de Deus", que conferem massa as demais partículas, de acordo com o Modelo Padrão). Sheldrake também os compara aos campos eletromagnéticos. Vejamos um breve resumo desta teoria:

Átomos, moléculas, cristais, organelas, células, tecidos, órgãos, organismos, sociedades, ecossistemas, sistemas planetários, sistemas solares, galáxias: cada uma dessas entidades estaria associada a um campo mórfico específico. São eles que fazem com que um sistema seja um sistema, isto é, uma totalidade articulada e não um mero ajuntamento de partes.

Sua atuação é semelhante à dos campos eletromagnéticos. Quando colocamos uma folha de papel sobre um ímã e espalhamos pó de ferro em cima dela, os grânulos metálicos distribuem-se ao longo de linhas geometricamente precisas. Isso acontece porque o campo magnético do ímã afeta toda a região à sua volta. Não podemos percebê-lo diretamente, mas somos capazes de detectar sua presença por meio do efeito que ele produz, direcionando as partículas de ferro. De modo parecido, os campos mórficos distribuem-se imperceptivelmente pelo espaço-tempo, conectando todos os sistemas individuais que a eles estão associados.

A analogia termina aqui, porém. Porque, ao contrário dos campos físicos, os campos mórficos de Sheldrake não envolvem transmissão de energia. Por isso, sua intensidade não decai com o quadrado da distância, como ocorre, por exemplo, com os campos gravitacional e eletromagnético. O que se transmite através deles é pura informação.

Neste trecho de um episódio da série "Grandes mistérios do universo", do Discovery Channel, Sheldrake fala mais sobre o assunto, e ainda postula que os campos mórficos podem ser a maneira pela qual exercemos o chamado "sexto sentido":

Veja também:

» Cardumes de peixes nadando em sincronia (vídeo)

» O pensamento analógico

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Crédito da foto: Michael Buholzer/Reuters

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1.3.13

O que é matéria e energia escura?

Texto de Cesar Grossmann para o site HypeScience. As notas ao final são minhas.


A matéria escura e a energia escura são soluções propostas para explicar alguns fenômenos gravitacionais, e, até onde sabemos, são coisas distintas.

Embora juntas respondam por mais de 95% do nosso universo, só sabemos de sua existência por meios indiretos, observando seus efeitos sobre o universo e tentando deduzir suas propriedades a partir deles.

Matéria escura
A matéria escura foi proposta nos anos 1930 por Fritz Zwicky para explicar a diferença entre a massa gravitacional e a massa luminosa de aglomerados de galáxias (Fritz Zwicky estava trabalhando com curvas de rotação de galáxias).

A massa gravitacional de um objeto é determinada pela medida da velocidade e raio da órbita de seus satélites, um processo igual à medição da massa do sol usando a velocidade e distância radial dos planetas.

A massa luminosa é determinada pela soma de toda luz e convertendo este número em uma estimativa de massa, baseado na nossa compreensão sobre como as estrelas brilham. Esta comparação de massa-para-luz indica que a energia na matéria luminosa contribui com menos de 1% da densidade média de energia do universo.

Certamente existe mais matéria nas galáxias que não emite luz, mas as evidências indicam que há um limite máximo para a matéria normal (aquela feita de átomos) presente no universo. Evidências vindo da medição da radiação cósmica de fundo, por exemplo, apontam que no máximo 5% da densidade de massa-energia do universo e 20% da massa dos aglomerados está na forma de átomos.

Mas do que é feita a matéria escura? Muitos físicos e astrônomos acham que a matéria escura é provavelmente uma nova partícula que ainda não foi detectada em aceleradores de partículas ou em raios cósmicos.

Para ser uma partícula de matéria escura, ela tem que ter bastante massa, provavelmente mais que um nêutron, e interagir muito fracamente com a matéria normal, de forma a dificilmente reagir produzindo luz.

O protótipo do candidato é algo parecido com um neutrino, só que todos os tipos de neutrinos conhecidos são muito leves e muito raros para explicar a matéria escura [1].

E como a matéria escura afeta o universo? Aparentemente, ela é responsável pelas estruturas que vemos no universo, como galáxias e aglomerados; é ela que “segura” estes objetos imensos, não deixando que se desfaçam.

Como curiosidade, a proposta de uma matéria escura na década de 1930 por Fritz Zwicky não foi levada a sério porque o suíço tinha entrado em atrito com muitos colegas na comunidade astronômica. Em 1962, a astrônoma Vera Rubin fez a mesma descoberta, que novamente não foi levada à sério, desta vez porque ela era uma mulher. Ela persistiu e conseguiu atenção da comunidade em 1978, com um estudo profundo de 11 galáxias, inclusive a nossa [2].

Energia escura
A energia escura tem sua origem nos trabalhos para entender a expansão acelerada do universo. Basicamente, a teoria atual não consegue explicar essa aceleração. Uma das especulações é que a aceleração é consequência de uma nova forma de matéria, apelidada “energia escura”, que também não foi detectada até agora.

É chamada de “escura” porque deve interagir muito fracamente com a matéria, como a matéria escura, e é chamada de energia porque uma das coisas de que estamos certos é que ela contribui com cerca de 70% da energia total do universo. Se descobrirmos o que é, podemos então trocar o nome para algo menos misterioso.

Com o estabelecimento do modelo cosmológico do Big Bang, acreditava-se que a expansão inicial de 13,7 bilhões de anos atrás estaria diminuindo com o tempo, mas duas equipes de pesquisadores independentes descobriram em 1998 que a expansão estava acelerando.

A aceleração é determinada pela medida dos tamanhos relativos do universo em diferentes eras. De uma forma específica, os astrônomos medem o redshift ou desvio para o vermelho do espectro e a distância da luminosidade de explosões estelares chamadas supernovas tipo 1a.

O tempo que a luz da supernova leva para chegar aos telescópios é descoberto examinando a distância da luminosidade, enquanto a mudança do tamanho do universo entre a explosão e a observação é determinada pelo desvio para o vermelho. Uma comparação destes tamanhos em uma sequência de tempo revela que o universo está crescendo cada vez mais rápido. Desde esta descoberta, os equipamentos ficaram mais sensíveis e os dados foram confirmados pela medição de outros fenômenos cosmológicos.

A teoria da relatividade prevê que a aceleração cósmica é determinada pela densidade média de energia e pressão de todas as formas de matéria e energia no universo. Só que as quantidades da matéria normal, da energia normal, e da matéria escura não respondem pela densidade de energia necessária para a aceleração – tem que ser outra coisa.

Uma das hipóteses mais aceitas é que o universo é preenchido por um mar de energia quântica de ponto zero, que exerce uma pressão negativa, como uma tensão, fazendo com que o espaço-tempo sofra uma repulsão gravitacional. É a chamada constante cosmológica, introduzida por Einsten em outro contexto (e referida por ele como seu maior erro) [3].

E como a energia escura afeta o universo atualmente? Ela é responsável pela aceleração cósmica, e equipes internacionais de astrônomos estão trabalhando para refinar a medida desta aceleração. Dela depende o julgamento da constante cosmológica de Einstein, uma possível compreensão da teoria fundamental da natureza (gravidade quântica e o estado quântico do universo), e o destino do universo (Big Chill ou Big Rip?).

Diferenças entre as duas
As duas, matéria escura e energia escura, possuem diferenças enormes. A matéria escura atrai e a energia escura repele, ou seja, a matéria escura é usada para explicar uma atração gravitacional maior que o esperado, enquanto a energia escura é usada para explicar uma atração gravitacional negativa [4].

Além disso, os efeitos da matéria escura se manifestam em uma escala de 10 megaparsecs (um megaparsec corresponde a 3,2 milhões de anos luz, aproximadamente) ou menor, enquanto que a energia escura parece que só se torna relevante em escala de 1.000 megaparsecs ou mais.

Finalmente, é importante questionar se os fenômenos da matéria escura e da energia escura podem ter uma explicação gravitacional. Talvez as leis da gravidade sejam diferentes do que desenhou a teoria de Einstein. Esta é uma possibilidade, só que até hoje a teoria da relatividade não falhou em nenhum teste. Além disto, novas imagens de aglomerados revelaram um comportamento que é inconsistente com teorias gravitacionais alternativas, como a MOND – ou seja, a matéria escura está ali.

Nossas melhores mentes estão trabalhando no problema e nossa melhor tecnologia está examinando o cosmos, e, por enquanto, não há outra explicação para os efeitos que observamos: a matéria escura e a energia escura são reais. A composição do universo atual, até onde sabemos, é de 4,2% matéria normal, 24% matéria escura e 71,6% energia escura [5]. [en.Wikipedia 1 2, Nasa Ask an Astronomer, How Stuff Works, Nasa Astrophysics, Dummies, National Radio Astronomy Observatory, Scientific American, Space.com, WMAP's Universe]

***

[1] Um "ser de neutrinos" seria improvável pois elementos leves são simples demais para a complexidade necessária a um ser vivo. Já um "ser de matéria escura", apesar de hipotético, não seria um absurdo lógico, pois a matéria escura é responsável pela maior parte da massa (ou pelo menos da atração gravitacional) do universo, logo pode ser tão candidata a formação de um ser vivo quanto a matéria comum, que interage com a luz.

[2] Conforme o usual: primeiro o ceticismo (e, muitas vezes, o preconceito), e então, somente muito tempo após, a aceitação. É assim, uma descoberta de cada vez, que mudamos nossos paradigmas e nossa visão do que vem a ser, afinal, o Cosmos.

[3] Até mesmo quando errou racionalmente, intuitivamente Einstein acertou em cheio...

[4] Há milênios atrás, Empédocles chamou a atração e repulsão cósmicas de "amor e ódio".

[5] Os materialistas eliminativos creem que a matéria já detectada é capaz de explicar a consciência e todos os demais mistérios da mente humana. Há que se ter um boa dose de fé para apostar tudo apenas nestes míseros 4% (do qual conhecemos uma parcela ínfima, em todo caso).

No geral, um resumo excelente de Cesar Grossmann, que merece ser compartilhado e divulgado entre cientistas e espiritualistas (ou, pelo menos, entre aqueles que leram e compreenderam a pergunta #82 do Livro dos Espíritos)...

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Crédito da imagem: HypeScience

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17.2.13

Como peixes presos no vento

Alguns leitores do meu livro (Ad infinitum) me disseram que ele lembra, ao menos na estrutura (um diálogo entre quatro personagens acerca "de quase tudo"), a um filme de 1990, que aparentemente nunca foi lançado em DVD: O ponto de mutação (Mindwalk), dirigido por Bernt Capra, e baseado na obra homônima do seu irmão, Fritjof Capra, também escritor de outro livro bastante conhecido, O Tao da física.

Até pouco tempo atrás, nunca tinha ouvido falar do filme, e havia apenas folheado os livros de Capra em livrarias, sempre os deixando para ler nalgum outro momento (talvez agora venha a lê-los mais em breve)... Hoje, finalmente, vi o filme de que falavam, e me senti imensamente honrado por haverem associado meu livro a ele. No filme há uma conversa entre três personagens: uma cientista norueguesa, Sonia Hoffman (interpretada por Liv Ullmann); um político americano e ex-candidato presidencial , Jack Edwards (interpretado por Sam Waterston); e o poeta Thomas Harriman (interpretado por John Heard), também um ex-redator de discursos políticos. Todo o filme gira em torno do diálogo desses três personagens, enquanto caminham ao redor de Mont Saint Michel, na França (um cenário belíssimo).

O filme serve como uma introdução à teoria de sistemas e pensamento sistêmico [1], enquanto alguns insights sobre modernas teorias físicas, tais como a mecânica quântica e física de partículas também são dados. O que o torna ainda mais extraordinário para os contempladores em geral é, no entanto, o uso que o filme faz da poesia, principalmente através de Thomas, que chega a recitar um poema inteiro de Pablo Neruda [2], num dos grandes momentos da narrativa. No fim, quem sabe (esta foi apenas minha interpretação), não somos como os relógios do cartesianismo, mas tampouco podemos ser reduzidos as teorias de sistemas - somos, enfim, transcendentes: somos poemas vivos!

Com vocês, o filme completo, no YouTube:

***

[1] Conforme Sonia explica ao longo do filme: "Um pensador de sistemas veria a vida da árvore somente em relação à vida de toda a floresta. Ele veria a árvore como o habitat de pássaros, o lar de insetos. Já se você tentar entender a árvore como algo isolado, ficaria intrigado com os milhões de frutos que produz na vida, pois só uma ou duas árvores resultarão deles. Mas se você vir a árvore como um membro de um sistema vivo maior, tal abundância de frutos fará sentido, pois centenas de animais e aves sobreviverão graças a eles. Interdependência. E a árvore também não sobrevive sozinha. Para tirar água do solo, precisa dos fungos que crescem na raiz e o fungo precisa da raiz e a raiz precisa do fungo. Se um morrer, o outro morre também. Há milhões de relações como esta no mundo, cada uma envolvendo uma interdependência. A teoria dos sistemas reconhece esta teoria das relações como a essência de todas as coisas vivas". Isto é, uma defesa profunda da ecologia, ainda em 1990...

[2] Peixe Preso Dentro do Vento:

Tu perguntas
o que uma lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados?
Respondo que o oceano sabe.
E por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
'Quem as algas apertam em seu abraço...', perguntas
'mais firme que uma hora e um mar certos?' Eu sei.
Perguntas sobre a presa branca do narval
e eu respondo contando como o unicórnio do mar,
arpoado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador
que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto:
que a vida, em seus estojos de jóias,
é infinita como a areia incontável, pura;
e o tempo, entre uvas cor de sangue
tornou a pedra dura e lisa, encheu a água-viva de luz,
desfez o seu nó, soltou seus fios musicais
de uma cornicópia feita de infinita madrepérola.
Sou só a rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão
e de dedos habituados à longitude
do tímido globo de uma laranja.
Caminho como tu, investigando a estrela sem fim
e em minha rede, durante a noite, acordo nu.
A única coisa capturada é um peixe preso dentro do vento.

(Pablo Neruda)

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Vejam também:

» Reflexões sobre o materialismo

» Monismos e dualismos

» Onde está o seu deus?

Crédito da imagem: Divulgação

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6.1.13

Não há prova final

Já trouxemos aqui no blog a primeira das lendárias entrevistas de Richard Feynman para a BBC, em 1981. Pois bem, dois anos depois ele deu uma nova entrevista, onde demonstra como um cientista que se diverte com a natureza, e é capaz de imaginar "como as coisas realmente são" para onde quer que olhe, pode ser, quem sabe, algo mais que um cientista. Alguns diriam "gênio", outros "artista", mas eu não consigo ver nele nada mais (nem menos) do que um genuíno amante da natureza. Nesta primeira (de 12*) partes legendadas da entrevista, Feynman nos introduz ao mundo imaginário dos átomos, onde tudo ocorre devido ao movimento e o repouso. Apreciem com imaginação, e não se preocupem com a prova final, pois que não haverá uma prova final:

O vídeo abrirá diretamente no site do YouTube.


(*) Na realidade ainda estão no processo de publicação da entrevista completa e legendada no YouTube, de modo que por enquanto só temos as partes 1-5 e a 7. Mas, para quem consegue compreender o inglês falado, podem ver a entrevista completa aqui (sem legendas): Richard Feynman: Fun to Imagine


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12.9.12

O homem que brincava com a Natureza

Esta é a história de um físico lendário, ensinado por seu pai desde muito cedo a perceber o que as coisas realmente são, e não somente "o nome delas". Mas um filho que, não obstante, após muitos anos de intenso estudo científico numa das melhores universidades americanas, não conseguiu explicar ao pai alguns dos mistérios da inconcebível natureza da Natureza.

Este mesmo cientista, com sua enorme facilidade para desvelar segredos atômicos, foi um dos colaboradores da concepção da arma mais letal da humanidade. Sua diferença para tantos outros, entretanto, é que ele conhecia o suficiente de arte, de poesia, de "humanas", para não ignorar os dilemas morais envolvidos. Por certo momento da vida, em sua depressão profunda, pensou "que era inútil construir uma ponte, ou um edifício, ou qualquer coisa, pois tudo seria destruído muito em breve numa guerra atômica"...

Então, algum tempo depois, a criança voltou a "brincar de física", e desistiu de realizar "coisas importantes". Em sua brincadeira, livrou-se daquela tristeza nuclear, e se tornou uma lenda... Um átomo não têm "um saco de fótons", mas a mente de Richard Feynman deveria ter alguma luz especial, guardada entre sua grande racionalidade, e sua tenativa genuína de se encaminhar para a arte – a arte de conhecer o mundo:

BBC Horizon com Richard Feynman (1981), parte 1 de 4

Ver parte 2 de 4 | Ver parte 3 de 4 | Ver parte 4 de 4

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Crédito da foto: Divulgação (Google Image Search)

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31.8.12

Aristóteles e Higgs: uma parábola etérea

Texto de Marcelo Gleiser para a coluna Ciência da Folha de São Paulo (29/07/12). O comentário final é meu.

Aristóteles e Peter Higgs entram num bar. Higgs, como sempre, pede o seu uísque de puro malte. Aristóteles, fiel às suas raízes, fica com um copo de vinho.

"Então, ouvi dizer que finalmente encontraram," diz Aristóteles, animado.

"É, demorou, mas parece que sim," responde Higgs, todo sorridente. "Você acha que 40 anos é muito tempo? Eu esperei 23 séculos!" "Como é?", pergunta Higgs, atônito. "Você não acha que..."

"Claro que acho!", corta Aristóteles. "Você chama de campo, eu de éter. No final dá no mesmo, não?"

"De jeito nenhum!", responde Higgs, furioso. "O seu éter é inventado. Eu calculei, entende? Fiz previsões concretas."

"Vocês cientistas e suas previsões...", diz Aristóteles. "Basta ter imaginação e um bom olho. Você não acha que o meu éter é uma excelente explicação para o que ocorre nos céus?"

"Talvez tenha sido há 2.000 anos. Mas tudo mudou após Galileu e Kepler", diz Higgs.

Aristóteles olha para Higgs com desprezo. "Você está se referindo a esse 'método' de vocês, certo?"

"O método científico, para ser preciso", responde Higgs, orgulhoso. "É a noção de que uma hipótese precisa ser validada por experimentos para que seja aceita como explicação significativa de como funciona o mundo."

"Significativa? A minha filosofia foi muito mais significativa para mais gente e por muito mais tempo do que sua ciência e o seu método."

"É verdade, Aristóteles, suas ideias inspiraram muita gente por muitos séculos. Mas ser significativo não significa estar correto."

"E como você sabe o que é certo ou errado?", rebate Aristóteles. "O que você acha que está certo hoje pode ser considerado errado amanhã."

"Tem razão, a ciência não é infalível. Mas é o melhor método que temos para aprender como o mundo funciona", responde Higgs.

"Nos meus tempos bastava ser convincente", reflete Aristóteles com nostalgia. "Se tinha um bom argumento e sabia defendê-lo, dava tudo certo", continuou.

"As pessoas acreditavam em você, mas não era fácil. A competição era intensa!" "Posso imaginar", responde Higgs.

"Ainda é difícil. A diferença é que argumentos não são suficientes. Ideias têm que ser testadas. Por isso a descoberta do bóson de Higgs é tão importante."

"É, pode ser. Mas no fundo é só um outro éter", provoca Aristóteles.

"Um éter bem diferente do seu", responde Higgs. "E por quê?", pergunta Aristóteles. "Pra começar, o campo de Higgs interage com a matéria comum. O seu éter não interage com nada."

"Claro que não! Era perfeito e eterno", diz Aristóteles.

"Nada é eterno", rebate Higgs.

"Pelo seu método, a menos que você tenha um experimento que dure uma eternidade, é impossível provar isso!" afirma Aristóteles.

"Touché, você me pegou", admite Higgs. "Não podemos saber tudo." "Exato", diz Aristóteles. "E é aí que fica divertido, quando a certeza acaba."

"Parabéns pela descoberta do seu éter", diz Aristóteles.

"Existem muitos tipos de éter", afirma Higgs. "E muitos tipos de bósons de Higgs", retruca Aristóteles.

"É, vamos ter que continuar a busca." "E o que há de melhor?", completa Aristóteles, tomando um gole.

***

Comentário
Em meu último artigo, O frescobol cósmico, trouxe uma curiosa comparação conceitual entre a descrição científica do Campo de Higgs e um trecho do Livro dos Espíritos que detalha o conceito espiritualista do chamado Fluido Universal (algo análogo ao Éter ou a Quintessência de Aristóteles). Se alguns céticos se "incomodaram" com a comparação vinda de um espiritualista que, afinal, "só escreve um blog e nada entende de ciência", fico curioso para saber sua opinião acerca deste artigo do renomado cientista brasileiro, Marcelo Gleiser, que em essência aponta exatamente para a mesma comparação conceitual.

» Veja o post original, no site da Folha

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Crédito da foto: Site oficial de Marcelo Gleiser

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O frescobol cósmico

No Frescobol não existe rivalidade, não há vencidos e nem vencedores. Como se joga cooperativamente, não há adversários, e sim parceiros. É um jogo em que cultiva-se a amizade e o comprometimento nas jogadas... Recomenda-se jogar em praias ensolaradas, junto ao mar:


Antes de o oceano existir, ou a terra, ou o firmamento, a Natureza era toda igual, sem forma. Até que a Natureza generosa separou o Céu da Terra, e as coisas evoluíram, encontrando seus lugares... (Metamorfoses, Ovídio)

O Caminho é vazio e inesgotável, profundo como um abismo. Não sei de quem possa ser filho, pois parece ser anterior ao Soberano do Céu... (Tao Te Ching, Lao Tsé)

No início o Senhor criou os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia, e a escuridão vagava sobre a face do abismo... (Gênesis)

No início havia apenas escuridão por toda parte, escuridão e água. E a escuridão se adensava em certos lugares, e depois se dissipava. Adensava e dissipava... (A Canção do Mundo, Índios Pima [1])

E os elohim se moveram sobre a face das águas. E o Senhor disse: “Faça-se a luz”, e a luz se fez... (Gênesis)

No início, havia apenas o Grande Uno refletido na forma de um ser. Ao refletir, não encontrou nada além de si mesmo. Então, sua primeira palavra foi: “Isto sou eu”... (Upanixades)

Viemos da Luz, de onde a Luz se originou dela mesma. Ela permaneceu e revelou-se a si mesma em sua imagem... (O Evangelho de Tomé)

Como poderia o Ser perecer? Como poderia gerar-se? Pois, se era, não é, nem poderia vir a ser. E assim a gênese se extingue e da destruição não se fala... (Da Natureza, Parmênides)

Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus, nada pode existir nem ser concebido... (Ética, Espinosa)

O Cosmos é tudo o que é, ou foi, ou nalgum dia será... (Cosmos, Carl Sagan)

Como é que a matéria, corpo do Todo, que está em permanente devir, pode servir à imortalidade do Cosmos? Diríamos que é porque ela flui em si mesma e não para fora de si. Permanece a mesma, não cresce nem diminuí, e não envelhece... (Enéadas II, Plotino)

No início houve uma explosão que ocorreu simultaneamente em toda a parte, enchendo o espaço desde o início, cada partícula de matéria fugindo de todas as outras. Pouco importa, neste momento da história, que o espaço fosse finito ou infinito... (Os 3 primeiros minutos do universo, Steven Weinberg)

No início Deus criou a radiação e o ylem. E o ylem não tinha forma ou número, e os núcleos moviam-se livremente sobre a face das profundezas... (George Gamow [2])

Então o Senhor criou seres à sua própria imagem e semelhança, e lhes disse: “Crescei e multiplicai-vos”... (Gênesis)

Unumbotte fez um ser humano e seu nome era Homem, e depois fez muitos outros seres. Então, deu-lhes sementes de todos os tipos e lhes disse: “Plantem todas essas sementes”... (Mitos do Povo Bassari [3])

Então, ele percebeu – “na verdade eu sou essa criação, pois eu a expeli de mim mesmo”. Dessa forma, ele se tornou essa criação, e aquele que sabe disso se torna, nesta criação, um criador... (Upanixades)

Alguma parte de nosso ser nos diz que essa é a nossa origem. Desejamos muito retornar, e podemos fazê-lo, pois o Cosmos também está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar, somos uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo... (Cosmos, Carl Sagan)

Se vos perguntarem quem sois vós, dizei-lhes: somos seus filhos e somos eleitos do Pai Vivo. Se vos perguntarem qual é o sinal do vosso Pai em vós, respondei-lhes: é o movimento e o repouso... (O Evangelho de Tomé)

***

Agora uma última partida, antes do pôr do sol:


Pode haver este campo de energia que permeia todo o universo. Ele foi inicialmente proposto porque ninguém entendia como as partículas subatômicas ganhavam suas respectivas massas. O campo proposto deve interagir com tais partículas e lhes conferir massa. As partículas massivas devem interagir mais diretamente com tal campo, enquanto partículas sem massa alguma provavelmente sequer interagiriam com ele.

Para compreender melhor esta ideia podemos usar uma analogia com o oceano e os nadadores. A água faz o papel do campo proposto: Um peixe barracuda, por ser esguio e pontiagudo, pouco interage com o campo e pode se deslocar facilmente por ele. A barracuda seria similar a uma partícula com pouca ou nenhuma massa; Em contraste, um sujeito obeso, amante das rosquinhas, se moverá muito lentamente pela água. Em nossa analogia, ele seria uma partícula massiva, pois interagiria bastante com a água.

Se tal campo fluido não existisse, nenhuma partícula teria massa, e veríamos apenas luz e energia por aí. Chamamos a este campo hipotético de Campo de Higgs, em homenagem a Peter Higgs, criador da teoria. O Bóson de Higgs [4] nada mais seria do que a partícula que forma tal campo, da mesma forma que as moléculas de H2O formam a água do oceano.

(adaptado do vídeo de divulgação científica de Don Lincoln, do Fermilab)


Ao elemento material é preciso juntar o fluido universal, que desempenha o papel de intermediário entre a luz e a matéria propriamente dita, muito densa para que a luz possa exercer alguma ação sobre ela. Embora, sob certo ponto de vista, se possa classificar o fluido universal como um elemento material, ele se distingue deste por propriedades especiais. Se fosse realmente matéria, não haveria razão para que a luz também não fosse. Está colocado entre a luz e a matéria; é fluido, como a matéria é matéria, e suscetível, pelas suas inúmeras combinações com esta e sob a ação da luz, de produzir a infinita variedade das coisas das quais os homens não conhecem senão uma ínfima parte.

Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de que a luz se utiliza, é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e jamais adquiriria as propriedades que a gravidade lhe dá.

(trecho final da resposta à pergunta #27 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec [5])

***

[1] Do estado do Arizona, nos EUA.

[2] Conforme citado em A dança do universo, de Marcelo Gleiser (pg. 380). O ylem foi um termo criado por Gamow e seus colegas para descrever uma hipotética “substância primordial”.

[3] Da África Ocidental.

[4] Também conhecido como “partícula de Deus”; muito embora caso exista um Criador todas as partículas devam ser, obviamente, “de Deus”.

[5] Onde, para criar “mais clima”, substituí o termo “espírito” pelo termo “luz”, e esta foi à única coisa que alterei no trecho. Talvez, quem sabe, o conceito de fluido universal (que remonta, em realidade, ao conceito de quintessência da Antiguidade) tenha alguma similaridade com o conceito do Campo de Higgs? Talvez, quem vai saber?

» Vejam também o que o cientista Marcelo Gleiser teve a dizer sobre a similaridade conceitual do Campo de Higgs com o Éter (ou quintessência, ou fluido universal) de Aristóteles: Aristóteles e Higgs: uma parábola etérea

Crédito da imagem: Google Image Search

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12.8.11

O som do universo

Palestrando no TED, a cosmóloga Janna Levin, especialista em buracos negros, nos fala sobre como essas incríveis estruturas do espaço-tempo podem ser medidas não pela luz (já que não a emitem), mas pelas ondulações gravitacionais provocadas por sua presença no tecido do Cosmos... Particularmente nos casos em que dois buracos negros ensaiam sua gloriosa dança rumo a fusão mútua [1]:

Clique a direita do botão "play" para selecionar legendas em Português

***

[1] O que geralmente ocorre no centro de galáxias. Mais interessante ainda é uma outra teoria defendida por Levin, baseada no padrão de movimento entre um par de buracos negros: a de que os buracos negros podem ser partículas fundamentais, visto que tal movimento lembra em muito o movimento de partículas dentro de um átomo. "Assim acima, assim abaixo". Maiores detalhes neste documentário apresentado por Morgan Freeman (em inglês), a partir do minuto 21:00 aproximadamente.

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18.7.11

A odisséia da informação

Trecho do Projeto Ouroboros (a partir deste ponto irei revelar o nome de um segundo personagem, até então apenas "O.", agora Otávio)

(Otávio) Fico feliz que estejam seguindo meu raciocínio e concordem com a importância desse tipo de reflexão. Mas sigamos adiante: quando falamos em uma substância, pela definição usual, científica, estamos falando em qualquer tipo de matéria formada por átomos de elementos específicos em proporções específicas. Nesse sentido, substâncias possuem conjuntos específicos de propriedades e composições químicas, e se for conveniente dividi-las em dois grandes agrupamentos, estes certamente seriam de substâncias inorgânicas – como a água e os sais minerais –, e substâncias orgânicas, presentes nos seres vivos da Terra – como proteínas, carboidratos e vitaminas.
Tudo isso é bastante conhecido da ciência, da química e da biologia. No entanto, obviamente quando nos referimos a absolutamente todas as substâncias do Cosmos como irradiações da substância primeira, estaremos tratando o conceito de substância como algo infinitamente mais abrangente – capaz de definir não somente a matéria, como a energia, o pensamento, e certamente tudo aquilo que ainda escapa a nossa detecção; seja porque não interage com a luz, seja porque está além do alcance de nossos sentidos e aparelhos, seja porque se aproxime daquilo que chamamos de imaterial.
Felizmente não precisarei iniciar aqui uma nova discussão sobre a existência ou inexistência de qualquer coisa imaterial – para minha teoria, bastará nos atermos ao material, detectado ou não.
Entretanto, como o conceito de substância está, nos dias atuais, intimamente ligado a este significado de elementos materiais, creio que será mais proveitoso utilizar um novo conceito. Este “novo conceito”, em realidade, está longe de ser novo, e já é conhecido da humanidade há bastante tempo – a questão central está na interpretação que damos a ele. O que diriam vocês, portanto, se eu afirmar que tudo o que partiu da Causa Primeira e foi irradiado ao infinito do Cosmos é, tão somente e nada mais, informação?

(P.) Eu já ouvi falar disso antes, mas irei esperar que desenvolva melhor o tema para tecer minhas considerações...

(I.) Surpreso.
Ora, devo confessar que não faço idéia do que pensar neste momento. Apesar de, ao contrário de nosso amigo, nunca ter ouvido falar disso, irei igualmente aguardar seu desenvolvimento – inclusive para compreender e aprender sobre ele, se possível.

(Sofia) Alguns sábios antigos já falavam nisso, mas creio que será melhor esperar você terminar de expor o conceito de informação conforme nos trouxe agora...

(Otávio) Folgo em saber que pelo menos dois de vocês já ouviram falar no assunto. Talvez tenham chegado a ele por vias diferentes da minha, o que será ainda mais interessante para nosso debate.
Em todo caso, para desenvolver e aprofundar o assunto, primeiro precisarei lhes trazer uma definição usual para o termo “informação”.
Conforme já disse, este conceito é também bastante antigo, bem anterior a era moderna, a comunicação de massa e a computação, onde ele é comumente mais utilizado e associado. Informação é qualquer evento que afeta o estado de um sistema dinâmico. Bem, esta é uma definição mais moderna, mas igualmente válida para o prosseguimento de minha exposição – em todo caso, o termo “informação” vem do latim informatio, e em sua designação verbal significa dar forma a mente.
A mim me pareceu bastante interessante como ambos os significados, o moderno e o antigo, não somente parecem se complementar, como se casam muito bem com tudo o que discutimos até aqui sobre a Causa Primeira como uma criação mental, e sobre o Cosmos como um sistema cuja função é a evolução...
Ora, se o ato de informar é “dar forma a mente”, poderíamos agora dizer, inclusive, que o início do Cosmos nada mais foi do que a primeira informação divulgada, irradiada de algum lugar para o Todo. E, se a subseqüente sub-divisão desta substância primeira resultou nas infindáveis substâncias que compõem o Cosmos, então podemos igualmente afirmar que tudo o que tem ocorrido desde o início são informações: “eventos que alteram o estado do universo, um sistema dinâmico”.
Eu agora gostaria de dar voz a nossos amigos, P. e Sofia, pois tenho certeza que cada um terá mais a acrescentar a este assunto fascinante...

(P.) De fato, mesmo no meio científico moderno há físicos que chegaram a teorias bem parecidas com essa...
Apesar de ter chegado a sua conclusão dentro de uma teoria consideravelmente mais abrangente sobre a mecânica quântica – e que não convém expor aqui –, um físico americano [1] cunhou a curiosa expressão “o it que vem do bit”. Em suas próprias palavras:
Cada it – cada partícula, cada campo de força e até mesmo o próprio continuum espaço-tempo – deriva inteiramente sua função, seu significado, sua própria existência – mesmo que em alguns contextos indiretamente – de respostas induzidas por equipamento a perguntas sim ou não, escolhas binárias, bits. O it que vem do bit simboliza a idéia de que cada item do mundo físico tem no fundo – bem no fundo, na maioria dos casos – uma fonte e uma explicação imateriais; que aquilo que chamamos de realidade vem em última análise da colocação de perguntas sim-não, e do registro de respostas evocadas por equipamento; em resumo, que todas as coisas físicas são informacional-teóricas na origem [2].
Esse tipo de consideração metafísica demonstra como alguns físicos modernos não têm um pensamento tão distante de certos filósofos e espiritualistas, embora usem outros termos. A grande diferença, a meu ver, é que eles jamais se afastam muito das observações da ciência – e particularmente da cosmologia.
Apesar de partir do pressuposto de que todo o Cosmos nada mais é que uma espécie de supercomputador, a princípio não vejo nada de absurdo neste tipo de conclusão... Há muitas conclusões “mais absurdas” do que esta na ciência moderna, a começar pelas conclusões da própria física quântica, por exemplo.
Eu pessoalmente não concordo que a informação seja em essência imaterial, pois afinal de contas continua sendo “alguma coisa”; E é exatamente por isso que sua exposição tem me agradado, pois parece que por fim nos trará alguma “materialidade” a informação – ou seja, nada mais do que uma parte da substância primeira, que vem se dividindo e se irradiando ad infinitum, desde os primórdios do Cosmos.

(Otávio) Sorri em contentamento.
Que maravilha, vejo que nosso pensamento está agora bastante afinado. Agora nos resta ouvir o que nossa amiga tem a dizer – imagino que retornaremos uma vez mais a Grécia antiga, não?

***

[1] Conforme a nota existente no livro: Trata-se de John Wheeler. Para maiores detalhes sobre suas considerações acerca da mecânica quântica e da informação, consultar o livro “O universo inteligente”, de James Gardner. De sua expressão, não foram traduzidos os temos do inglês ao longo do texto, mas equivaleria a algo como “(o) isso que vem do bit”. Um bit de informação equivale a menor unidade computacional que pode ser medida, ela pode assumir somente dois valores, tais como “0” ou “1”, “verdadeiro” ou “falso”, etc. Não confundir com bytes, que são conjuntos de bits (normalmente, 8 bits).

[2] Conforme a nota existente no livro: O parágrafo inteiro foi retirado do livro “At home in the universe” (“Em casa no universo”), de John Wheeler.

***

Crédito da foto: Troy House/Corbis

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23.5.11

Reflexões sobre o tempo, parte 2

« continuando da parte 1

“Existe este gigantesco híper-momento onde tudo ocorre, apenas nossa mente está ordenando tudo em passado, presente e futuro.” – Alan Moore.

O tempo em nossas mãos

Santo Agostinho de Hipona talvez tenha sido o primeiro homem a se aprofundar na reflexão filosófica sobre o tempo. O grande pensador do cristianismo abriu caminho para sua análise com um comentário bastante peculiar:

“Que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. [1]”

Então, logo após, colocou em xeque a própria noção da divisão do tempo em passado, presente e futuro:

“Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo claro e brevemente? [...] e de que modo existem aqueles dois tempos – o passado e o futuro – se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, como poderíamos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? [2]”

Para tentar resolver tal paradoxo, Agostinho foi se aprofundando cada vez mais no problema do tempo, até que seu caminho puramente lógico lhe levou a uma intrigante conclusão, talvez uma das conclusões mais importantes da história da filosofia – e que até hoje não foi superada por nenhum pensador que lhe precedeu:

“O que agora transparece é que, não há tempos futuros nem pretéritos. É impróprio afirmar: Os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: os tempos são três: presente das coisas passadas, presente dos presentes, presente dos futuros. Existem pois estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras. Se me é lícito empregar tais expressões, vejo então três tempos e confesso que são três. [3]”

Mas a solução de Agostinho não era propriamente uma solução, ela apenas deslocava o problema do tempo para nossa percepção subjetiva do mesmo. Isso significava, é claro, que o tempo não poderia realmente ser medido de forma objetiva, e tampouco era uma medida absoluta. Agostinho havia precedido Einstein em muitos séculos, o ex-boêmio havia se embriagado, desta vez, não de vinho, mas do conhecimento do Cosmos... Ele já sabia que o tempo não poderia ser o mero movimento dos corpos:

“Ninguém me diga, portanto, que o tempo é o movimento dos corpos celestes. Quando, com a oração de Josué, o Sol parou, a fim de ele concluir vitoriosamente o combate, o Sol estava parado, mas o tempo caminhava. [4]”

Podemos ser céticos com relação ao fato do Sol ter realmente parado, mas a essência lógica do pensamento agostiniano estava tão correta na época quanto nos dias atuais...

Atualmente, o tempo é um tema especialmente quente na física. A procura por uma teoria unificada (das quatro grandes forças da natureza) força os físicos a reexaminar diversas suposições básicas, e poucas coisas são mais básicas que o tempo. Alguns físicos argumentam que não existe algo como o tempo. Outros acham que o tempo deveria ser promovido em vez de rebaixado. Entre essas duas posições há a fascinante ideia de que o tempo existe, mas não é fundamental. Um mundo estático dá, de certa forma, origem ao tempo que percebemos. Essas ideias vêm sendo debatidas desde a época dos filósofos pré-socráticos, mas só agora os físicos as estão levando mais a sério como genuínas possibilidades para teorias científicas consistentes... De acordo com uma delas, o tempo pode resultar da maneira como o universo está dividido; ou seja, o que percebemos como tempo reflete a relação entre as partes.

O que normalmente chamamos de tempo é tão somente uma maneira de descrever o ritmo de um movimento ou mudança, tal como a velocidade em que pulsa o coração, ou ainda a velocidade de giro de um planeta. O curioso é que tais processos podem ser relacionados diretamente um ao outro, sem fazer referência ao tempo em si. Por exemplo, tanto podemos afirmar que a luz viaja a 300 mil km/s, que o coração dá 75 batimentos por minuto ou que a Terra faz uma rotação por dia quanto, igualmente, poderíamos dizer que enquanto o coração humano dá 108 mil batidas, a Terra gira em torno de seu eixo uma vez; ou que, por exemplo, a luz viaja a 240 mil km por batimento cardíaco.

Assim, alguns físicos dizem que o tempo é uma moeda comum, tornando o mundo mais fácil de descrever, mas não tendo existência independente. Medir os processos em termos de tempo poderia ser como usar o dinheiro em vez da troca direta de bens e serviços, em nossas relações comerciais. Por exemplo, se uma xícara da café custa US$ 2, um par de tênis custa US$ 100, e um carro usado sai por US$ 2 mil, poderíamos simplesmente esquecer do dólar e concluir de uma forma mais simples, talvez, que um par de tênis vale 50 xícaras de café, enquanto que um carro usado sairia por mil xícaras. Nós usamos moedas para facilitar a vida, pois ninguém vai querer comprar um carro com mil xícaras de café. No entanto, cédulas monetárias nada mais são do que folhas de papel com curiosas gravuras impressas, é a nossa crença em seu valor que as fazem valer isto ou aquilo. Não seria o tempo, portanto, apenas o resultado de nossa crença de que existe um tempo?

O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty argumenta que o próprio tempo não flui realmente e seu fluxo aparente é produto de nossa atitude de “colocar secretamente dentro de um rio uma testemunha de seu curso”. Ou seja, a tendência de acreditar que o tempo flui é resultado de esquecer de colocarmos a nós mesmos – e nossas conexões com o mundo – no quadro geral. Merleau-Ponty estava falando de nossa experiência subjetiva de tempo e, até recentemente, ninguém imaginou que o tempo objetivo pode, ele mesmo, ser explicado como resultado dessas conexões. O tempo pode existir apenas ao quebrar o mundo em subsistemas e olhando para o que os une. Nesse cenário, o tempo físico surge pelo mérito de pensarmos sobre nós mesmos como separados de todo o resto [5].

Se optarmos por nos arriscar a realmente encarar o problema do tempo face a face, precisamos retornar a origem de tudo o que há, ao Big Bang, pois que Einstein também nos provou que tempo e espaço são ambos constituintes, fios tecedores do tecido do espaço-tempo. Não é possível falar de um sem falar do outro, e não é possível falar de ambos sem falar do todo, de todo o Cosmos.

O grande Espinosa, em sua genial análise do primeiro capítulo de sua “Ética”, já havia chegado a conclusão de que “uma substância não pode criar a si mesma”. Como a história cósmica é uma sucessão de transformações e danças de matéria e energia, pela lógica somos obrigados a concluir que tudo o que há é fruto de uma única substância.

Talvez o Cosmos seja como a roda da carroça do velho Lao Tsé, sempre a percorrer os velhos sulcos... Talvez o eixo seja a essência, através da qual a substância se irradia para o aro, que parece-nos girar... Supomos que ele realmente gira, principalmente porque vivemos neste aro, porque estamos todos conectados – somos poeira de estrelas, fagulhas divinas das fornalhas solares, enfim, somos também parte da mesma substância...

Enquanto o aro gira, sustentado pelo eixo, parece-nos que os eventos realmente se sucedem. Mas, e se o aro for o espaço-tempo, sendo constantemente sustentado e mantido pela irradiação que parte do eixo, temos que o tempo, assim como o espaço, nada mais é do que fruto da dança cósmica que a substância de Espinosa têm nos agraciado observar desde o início das eras.

Se for este o caso, não devemos nos angustiar com a profundidade do infinito, tampouco com a ansiedade do futuro ou a saudade dolorida do passado. Se tudo o que há é a substância, tudo o que há é também este momento, o momento em que temos o tempo nas mãos e a vontade, a sagrada vontade, para o esculpir a nosso bel-prazer. Talvez o paradoxo de Agostinho nem precise ser resolvido, não enquanto ainda temos coisas mais urgentes para resolver. Se o passado já não existe, e o futuro não chegou, agarremos ao presente com toda nossa alma, e façamos dele um hino em homenagem à substância, um hino para toda eternidade.

» Na continuação, o final dos tempos...

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[1] Confissões, livro XI (14).

[2] Confissões, livro XI (14).

[3] Confissões, livro XI (20).

[4] Confissões, livro XI (23).

[5] As referências científicas dos 4 últimos parágrafos foram retiradas do excelente artigo "O tempo é uma ilusão?", do filósofo da ciência Craig Callender, para a Scientific American (edição especial #41, “A longa história do universo”).

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Crédito das imagens: [topo] Laurence Acland/First Light/Corbis; [ao longo] Joe Sachs/Corbis.

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20.5.11

Reflexões sobre o tempo, parte 1

Todos certamente já afirmaram, de forma natural: "o tempo corre", "este ano passou depressa" ou mesmo "esta aula não acaba". Uma definição científica mais precisa faz-se certamente necessária, e com ela ver-se-á que o tempo, em sua acepção científica, não flui. O tempo simplesmente é.

Perseguindo a eternidade

A ilha Samoa, no Pacífico Sul, anunciou que vai avançar um dia no calendário para incentivar os negócios com os seus principais parceiros econômicos, a Austrália e a Nova Zelândia. Hoje, a ilha de 180 mil habitantes está 21 horas atrás da principal cidade australiana, Sydney. A partir do dia 29 de dezembro de 2011, vai estar 3 horas à frente.

O primeiro-ministro de Samoa, Tuilaepa Sailele, afirmou que a ilha está perdendo dois dias úteis por semana em suas transações comerciais com esses países. Quando é sexta-feira em Samoa, já é sábado na Nova Zelândia. E aos domingos, enquanto a população da ilha está na igreja, os negócios estão a todo vapor em Brisbane e Sydney. A alteração do calendário significa que Samoa passará para o lado oeste da linha internacional do tempo. Há 119 anos, os samoanos fizeram o contrário e se transferiram para o lado leste da linha, a fim de incentivar negócios com os Estados Unidos e a Europa. Hoje, entretanto, são a Austrália e a Nova Zelândia os importantes parceiros comerciais da ilha.

Quando a linha internacional do tempo (ou linha de data) foi estabelecida, o mundo ainda seguia a doutrina newtoniana do tempo, e cria piamente que o tempo era uma entidade absoluta. Dessa forma, apesar de serem linhas imaginárias, os meridianos estariam associados à rotação da Terra em torno do Sol, algo que transcorreria em um tempo absoluto. Até hoje, como podemos ver, a engrenagem de nossa economia se baseia em linhas imaginárias concebidas numa época em que se acreditava que o tempo era uma medida absoluta. Einstein provou que estávamos todos errados...

Ainda adolescente, o gênio alemão lutava com a questão de como uma pessoa veria um raio de luz se viajasse exatamente à mesma velocidade da luz. Segundo Newton, o viajante veria uma onda de luz “estacionária”, e poderia até mesmo estender o braço e recolher um punhado de luz imóvel, como se recolhe a neve aqui na Terra. Ocorre que, segundo as equações de Maxwell para o comportamento da luz, ela jamais poderia algum tempo estar parada, sem se mexer. A luz era como um tigre selvagem que jamais poderia ser domado. Einstein descobriu um grande paradoxo.

Para compreendermos melhor o problema, imaginemos que Calvin acabou de ganhar um trenó com propulsão nuclear. Ele decide então aceitar o maior de todos os desafios e apostar uma corrida com um raio de luz. A velocidade máxima de seu trenó é de 800 milhões km/h, contra 1,08 bilhão km/h da luz, mas ele é um garotinho destemido e aceita o desafio. Haroldo, seu tigre de estimação, está atento com um relógio atômico altamente preciso, e anuncia a largada!

Para cada hora que passa, Haroldo percebe que o raio viaja a 1,08 bilhão km/h, enquanto o trenó de Calvin, conforme o previsto, não passa dos 800 milhões de km/h. Segundo a doutrina newtoniana, o tempo é uma entidade absoluta, e dessa forma Calvin concordaria com seu tigre em que o raio tem se afastado dele, desde a largada (desconsideremos a aceleração inicial), a precisamente 280 milhões km/h, a diferença entre as duas velocidades...

Mas, em seu regresso, Calvin está irritado e não concorda de modo algum. Ao contrário, desanimado e acusando a luz de ser trambiqueira, ele diz que por mais que apertasse o acelerador de seu trenó nuclear, o raio de luz continuava a se afastar dele a 1,08 bilhão km/h e nem um pouquinho a menos. Haroldo o aconselha a se acalmar e diz que a luz não é trambiqueira, o tempo é que é relativo!

A explicação de Einstein para tal paradoxo é a de que as medições de distâncias espaciais e durações temporais realizadas pelo relógio de pulso de Calvin são diferentes das de Haroldo, e isso nada tem a ver com o fato de ele estar usando um relógio mais preciso... A divergência entre tais medições só podem ser explicadas pela doutrina einsteiniana onde o tempo não é mais absoluto, mas relativo ao observador.

A velocidade da luz, ela sim, é absoluta e constante, já o próprio espaço e o próprio tempo dependem do observador. Cada um de nós leva o seu próprio relógio, seu monitor da passagem do tempo. Todos os relógios tem a mesma precisão, mas quando nos movemos, uns com relação aos outros, os relógios não mais concordam entre si. Perdem a sincronização. O espaço e o tempo ajustam-se de uma maneira que lhes permite compensar-se exatamente, de modo que as observações da velocidade da luz sempre dão o mesmo resultado, independente da velocidade do observador.

Newton achava que esse movimento através do tempo era totalmente independente do movimento através do espaço. Einstein descobriu que eles são intimamente ligados. A descoberta revolucionária da relatividade especial é esta: quando você olha para algo, como um trenó nuclear estacionado, que, do seu ponto de vista, está parado – ou seja, não se move através do espaço –, a totalidade do movimento do trenó se dá através do tempo. O trenó, a neve, o tigre, você, sua roupa, tudo está se movendo através do tempo em perfeita sincronia. Mas, se Calvin voltar a acelerar o trenó, parte de seu movimento através do tempo será desviada para o movimento pelo espaço. Por fim, a relatividade especial declara a existência de uma lei válida para todos os tipos de movimento: a velocidade combinada do movimento de qualquer objeto através do espaço e do seu movimento através do tempo é sempre precisamente igual à velocidade da luz.

Você pode até se imaginar parado, mas mesmo o monge budista meditando no templo mais afastado do Butão tem o seu corpo em constante movimento através do espaço. Ainda que a gravidade o prenda a Terra, a Terra está girando em torno do Sol em extrema velocidade, e o Sol, por sua vez, gira em torno do centro da Via Láctea – a nossa galáxia –, e nossa galáxia inteira vai de encontro a Andrômeda [1], e todas as galáxias se movem em torno de conglomerados inimagináveis aos mortais (embora alguns físicos tentem imaginar seriamente o tamanho do infinito)...

Mas, ainda que por milagre o monge atingisse algum espaço perfeitamente estático do Cosmos, ainda assim estaria se movendo a precisamente 1,08 bilhões km/h pelo tempo, na crista das ondas de luz.

Já a própria luz, que sempre viaja à sua velocidade através do espaço, é especial porque sempre opera a conversão total da velocidade do tempo para o espaço. Isso significa que o tempo pára quando se viaja a velocidade da luz através do espaço. Um relógio usado por uma partícula de luz não anda. Os fótons lançados no espaço-tempo tem a mesma idade desde o Big Bang, eles operam no reino da eternidade [2].

Embora não possamos nunca realmente nos aproximar da velocidade da luz mantendo a matéria que nos forma intacta, existe algo de profundo e assombroso nesta visão do mecanismo cósmico. Desde que despertamos para a vida consciente, temos nos perguntado de onde viemos e para onde vamos, e alguns de nós tem tido um contato mais estreito com a própria eternidade que nos cerca – uma essência misteriosa que parece permear todas as coisas, e lhes dar forma e informação.

Para estes, a busca pela eternidade, pelo retorno as origens, ao reino do que não foi nem será, mas simplesmente é, nesse exato momento o é, essa busca se torna uma perseguição implacável... Por outro lado, através da racionalidade, terminamos por desvelar os segredos da própria luz, por retirar o próprio tempo de seu pedestal absolutista. Terminamos por perceber, por uma via completamente distinta, que a eternidade está espalhada por todo o lugar. Nós a percebemos com os olhos – os fótons são eternos [3].

» Na continuação, a ilusão persistente do tempo...

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[1] Nossa galáxia e a de Andrômeda fazem parte do Grupo Local de galáxias em nossa vizinhança cósmica. Mas não se preocupem, ainda vai demorar muito, muito tempo, para que as galáxias se choquem...

[2] A noção de que o tempo para a velocidade da luz é interessante, mas é importante não exagerar quanto às implicações desse fato. A perspectiva “atemporal” do fóton limita-se a objetos sem massa, o que está limitado a uns poucos tipos de partículas.

[3] O exercício mental do trenó nuclear e várias citações e informações científicas descritas neste artigo são fruto direto da leitura de “O tecido do cosmo” (Cia. das Letras), do físico Brian Greene. Recomento sua leitura para um aprofundamento científico (e muito mais embasado, nesse sentido) do assunto.

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Crédito das imagens: [topo] Paul Souders/Corbis; [ao longo] Bill Watterson (Calvin e Haroldo).

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