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31.8.12

Aristóteles e Higgs: uma parábola etérea

Texto de Marcelo Gleiser para a coluna Ciência da Folha de São Paulo (29/07/12). O comentário final é meu.

Aristóteles e Peter Higgs entram num bar. Higgs, como sempre, pede o seu uísque de puro malte. Aristóteles, fiel às suas raízes, fica com um copo de vinho.

"Então, ouvi dizer que finalmente encontraram," diz Aristóteles, animado.

"É, demorou, mas parece que sim," responde Higgs, todo sorridente. "Você acha que 40 anos é muito tempo? Eu esperei 23 séculos!" "Como é?", pergunta Higgs, atônito. "Você não acha que..."

"Claro que acho!", corta Aristóteles. "Você chama de campo, eu de éter. No final dá no mesmo, não?"

"De jeito nenhum!", responde Higgs, furioso. "O seu éter é inventado. Eu calculei, entende? Fiz previsões concretas."

"Vocês cientistas e suas previsões...", diz Aristóteles. "Basta ter imaginação e um bom olho. Você não acha que o meu éter é uma excelente explicação para o que ocorre nos céus?"

"Talvez tenha sido há 2.000 anos. Mas tudo mudou após Galileu e Kepler", diz Higgs.

Aristóteles olha para Higgs com desprezo. "Você está se referindo a esse 'método' de vocês, certo?"

"O método científico, para ser preciso", responde Higgs, orgulhoso. "É a noção de que uma hipótese precisa ser validada por experimentos para que seja aceita como explicação significativa de como funciona o mundo."

"Significativa? A minha filosofia foi muito mais significativa para mais gente e por muito mais tempo do que sua ciência e o seu método."

"É verdade, Aristóteles, suas ideias inspiraram muita gente por muitos séculos. Mas ser significativo não significa estar correto."

"E como você sabe o que é certo ou errado?", rebate Aristóteles. "O que você acha que está certo hoje pode ser considerado errado amanhã."

"Tem razão, a ciência não é infalível. Mas é o melhor método que temos para aprender como o mundo funciona", responde Higgs.

"Nos meus tempos bastava ser convincente", reflete Aristóteles com nostalgia. "Se tinha um bom argumento e sabia defendê-lo, dava tudo certo", continuou.

"As pessoas acreditavam em você, mas não era fácil. A competição era intensa!" "Posso imaginar", responde Higgs.

"Ainda é difícil. A diferença é que argumentos não são suficientes. Ideias têm que ser testadas. Por isso a descoberta do bóson de Higgs é tão importante."

"É, pode ser. Mas no fundo é só um outro éter", provoca Aristóteles.

"Um éter bem diferente do seu", responde Higgs. "E por quê?", pergunta Aristóteles. "Pra começar, o campo de Higgs interage com a matéria comum. O seu éter não interage com nada."

"Claro que não! Era perfeito e eterno", diz Aristóteles.

"Nada é eterno", rebate Higgs.

"Pelo seu método, a menos que você tenha um experimento que dure uma eternidade, é impossível provar isso!" afirma Aristóteles.

"Touché, você me pegou", admite Higgs. "Não podemos saber tudo." "Exato", diz Aristóteles. "E é aí que fica divertido, quando a certeza acaba."

"Parabéns pela descoberta do seu éter", diz Aristóteles.

"Existem muitos tipos de éter", afirma Higgs. "E muitos tipos de bósons de Higgs", retruca Aristóteles.

"É, vamos ter que continuar a busca." "E o que há de melhor?", completa Aristóteles, tomando um gole.

***

Comentário
Em meu último artigo, O frescobol cósmico, trouxe uma curiosa comparação conceitual entre a descrição científica do Campo de Higgs e um trecho do Livro dos Espíritos que detalha o conceito espiritualista do chamado Fluido Universal (algo análogo ao Éter ou a Quintessência de Aristóteles). Se alguns céticos se "incomodaram" com a comparação vinda de um espiritualista que, afinal, "só escreve um blog e nada entende de ciência", fico curioso para saber sua opinião acerca deste artigo do renomado cientista brasileiro, Marcelo Gleiser, que em essência aponta exatamente para a mesma comparação conceitual.

» Veja o post original, no site da Folha

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Crédito da foto: Site oficial de Marcelo Gleiser

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O frescobol cósmico

No Frescobol não existe rivalidade, não há vencidos e nem vencedores. Como se joga cooperativamente, não há adversários, e sim parceiros. É um jogo em que cultiva-se a amizade e o comprometimento nas jogadas... Recomenda-se jogar em praias ensolaradas, junto ao mar:


Antes de o oceano existir, ou a terra, ou o firmamento, a Natureza era toda igual, sem forma. Até que a Natureza generosa separou o Céu da Terra, e as coisas evoluíram, encontrando seus lugares... (Metamorfoses, Ovídio)

O Caminho é vazio e inesgotável, profundo como um abismo. Não sei de quem possa ser filho, pois parece ser anterior ao Soberano do Céu... (Tao Te Ching, Lao Tsé)

No início o Senhor criou os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia, e a escuridão vagava sobre a face do abismo... (Gênesis)

No início havia apenas escuridão por toda parte, escuridão e água. E a escuridão se adensava em certos lugares, e depois se dissipava. Adensava e dissipava... (A Canção do Mundo, Índios Pima [1])

E os elohim se moveram sobre a face das águas. E o Senhor disse: “Faça-se a luz”, e a luz se fez... (Gênesis)

No início, havia apenas o Grande Uno refletido na forma de um ser. Ao refletir, não encontrou nada além de si mesmo. Então, sua primeira palavra foi: “Isto sou eu”... (Upanixades)

Viemos da Luz, de onde a Luz se originou dela mesma. Ela permaneceu e revelou-se a si mesma em sua imagem... (O Evangelho de Tomé)

Como poderia o Ser perecer? Como poderia gerar-se? Pois, se era, não é, nem poderia vir a ser. E assim a gênese se extingue e da destruição não se fala... (Da Natureza, Parmênides)

Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus, nada pode existir nem ser concebido... (Ética, Espinosa)

O Cosmos é tudo o que é, ou foi, ou nalgum dia será... (Cosmos, Carl Sagan)

Como é que a matéria, corpo do Todo, que está em permanente devir, pode servir à imortalidade do Cosmos? Diríamos que é porque ela flui em si mesma e não para fora de si. Permanece a mesma, não cresce nem diminuí, e não envelhece... (Enéadas II, Plotino)

No início houve uma explosão que ocorreu simultaneamente em toda a parte, enchendo o espaço desde o início, cada partícula de matéria fugindo de todas as outras. Pouco importa, neste momento da história, que o espaço fosse finito ou infinito... (Os 3 primeiros minutos do universo, Steven Weinberg)

No início Deus criou a radiação e o ylem. E o ylem não tinha forma ou número, e os núcleos moviam-se livremente sobre a face das profundezas... (George Gamow [2])

Então o Senhor criou seres à sua própria imagem e semelhança, e lhes disse: “Crescei e multiplicai-vos”... (Gênesis)

Unumbotte fez um ser humano e seu nome era Homem, e depois fez muitos outros seres. Então, deu-lhes sementes de todos os tipos e lhes disse: “Plantem todas essas sementes”... (Mitos do Povo Bassari [3])

Então, ele percebeu – “na verdade eu sou essa criação, pois eu a expeli de mim mesmo”. Dessa forma, ele se tornou essa criação, e aquele que sabe disso se torna, nesta criação, um criador... (Upanixades)

Alguma parte de nosso ser nos diz que essa é a nossa origem. Desejamos muito retornar, e podemos fazê-lo, pois o Cosmos também está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar, somos uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo... (Cosmos, Carl Sagan)

Se vos perguntarem quem sois vós, dizei-lhes: somos seus filhos e somos eleitos do Pai Vivo. Se vos perguntarem qual é o sinal do vosso Pai em vós, respondei-lhes: é o movimento e o repouso... (O Evangelho de Tomé)

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Agora uma última partida, antes do pôr do sol:


Pode haver este campo de energia que permeia todo o universo. Ele foi inicialmente proposto porque ninguém entendia como as partículas subatômicas ganhavam suas respectivas massas. O campo proposto deve interagir com tais partículas e lhes conferir massa. As partículas massivas devem interagir mais diretamente com tal campo, enquanto partículas sem massa alguma provavelmente sequer interagiriam com ele.

Para compreender melhor esta ideia podemos usar uma analogia com o oceano e os nadadores. A água faz o papel do campo proposto: Um peixe barracuda, por ser esguio e pontiagudo, pouco interage com o campo e pode se deslocar facilmente por ele. A barracuda seria similar a uma partícula com pouca ou nenhuma massa; Em contraste, um sujeito obeso, amante das rosquinhas, se moverá muito lentamente pela água. Em nossa analogia, ele seria uma partícula massiva, pois interagiria bastante com a água.

Se tal campo fluido não existisse, nenhuma partícula teria massa, e veríamos apenas luz e energia por aí. Chamamos a este campo hipotético de Campo de Higgs, em homenagem a Peter Higgs, criador da teoria. O Bóson de Higgs [4] nada mais seria do que a partícula que forma tal campo, da mesma forma que as moléculas de H2O formam a água do oceano.

(adaptado do vídeo de divulgação científica de Don Lincoln, do Fermilab)


Ao elemento material é preciso juntar o fluido universal, que desempenha o papel de intermediário entre a luz e a matéria propriamente dita, muito densa para que a luz possa exercer alguma ação sobre ela. Embora, sob certo ponto de vista, se possa classificar o fluido universal como um elemento material, ele se distingue deste por propriedades especiais. Se fosse realmente matéria, não haveria razão para que a luz também não fosse. Está colocado entre a luz e a matéria; é fluido, como a matéria é matéria, e suscetível, pelas suas inúmeras combinações com esta e sob a ação da luz, de produzir a infinita variedade das coisas das quais os homens não conhecem senão uma ínfima parte.

Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de que a luz se utiliza, é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e jamais adquiriria as propriedades que a gravidade lhe dá.

(trecho final da resposta à pergunta #27 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec [5])

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[1] Do estado do Arizona, nos EUA.

[2] Conforme citado em A dança do universo, de Marcelo Gleiser (pg. 380). O ylem foi um termo criado por Gamow e seus colegas para descrever uma hipotética “substância primordial”.

[3] Da África Ocidental.

[4] Também conhecido como “partícula de Deus”; muito embora caso exista um Criador todas as partículas devam ser, obviamente, “de Deus”.

[5] Onde, para criar “mais clima”, substituí o termo “espírito” pelo termo “luz”, e esta foi à única coisa que alterei no trecho. Talvez, quem sabe, o conceito de fluido universal (que remonta, em realidade, ao conceito de quintessência da Antiguidade) tenha alguma similaridade com o conceito do Campo de Higgs? Talvez, quem vai saber?

» Vejam também o que o cientista Marcelo Gleiser teve a dizer sobre a similaridade conceitual do Campo de Higgs com o Éter (ou quintessência, ou fluido universal) de Aristóteles: Aristóteles e Higgs: uma parábola etérea

Crédito da imagem: Google Image Search

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20.11.09

Reflexões sobre o nada, parte 2

Continuando da parte 1...

Por que existe algo, e não nada?

Outra grande questão filosófica e certamente existencial é a questão da existência em si. Não a existência de nós, seres humanos, ou deste planeta, ou das estrelas nos confins do universo, ou até mesmo do espaço-tempo como um todo... A questão é mais específica: porque afinal existe algo, e não nada?

Essa questão nos obriga a nos aproximar dos limites de nossa razão. Já dissemos que o nada não é o vazio a espera de ser preenchido, que o nada não pode existir já que obviamente alguma coisa existe. Então chegamos a dualidade coisa vs. não-coisa, que não deve ser compreendida como matéria vs. anti-matéria, ou qualquer outra coisa vs. alguma outra coisa qualquer. Esta coisa existe, é fato – e nesse caso, talvez sequer venha ao caso nos perguntar sobre o porque dela existir: se não existisse, não estaríamos aqui para fazer tal pergunta.

Ela compreende tudo que existe, toda matéria detectada e não-detectada, todas as galáxias e campos gravitacionais, todas as partículas em alvoroço quântico (seja em que dimensão ou universo estiverem) e, sobretudo, todos os pensamentos e idéias já formulados. Algo existe, algo incrivelmente infinito, eterno, mas que nos é profundamente desconhecido.

Em sua Ética, Benedito de Espinosa define de forma contundente, simples e genial o que seria esta coisa. Ele preferiu chamá-la de substância. Espinosa dizia que “uma substância não pode criar a si mesma”, e toda a razão e lógica estão ao seu lado. O grande apóstolo da razão era também cientista, e sabia muito bem que as substâncias apenas se transformam umas nas outras, e que absolutamente nada é criado ou aniquilado na natureza. Ora, se todas as bilhões e bilhões de partículas-substância do espaço-tempo não podem ter criado a si mesmas, e se derivam de alguma outra substância primordial, têm-se pela lógica que tal substância-primeira é a origem de tudo o que há. Não pode ter surgido do nada, pois nada pode surgir do nada. Não pode deixar de existir, pois o cerne do que compreendemos como “existir” depende dela. Não pode senão ser a substância primária de onde todas as outras se sub-dividiram e se transformaram.

Sim, Espinosa sabia. Sabia que no início de tudo, quando apenas esta substância fazia sombra a si mesma, nem mesmo o tempo e o espaço como o compreendemos existiam. Era a eternidade. A eternidade é a casa de tal substância, e graças as suas incessantes transformações, vivemos em um sistema-natureza onde o espaço-tempo nos possibilita ter a condição de viver em pelo menos três dimensões espaciais, e num fluxo incessante de tempo, o que possibilita nossa evolução.

Disso também se tira que estamos todos interligados. Como dizia o cientista Neil deGrasse Tyson: “Estamos todos conectados. Um ao outro, biologicamente; A Terra, de forma química; Ao universo, de forma atômica”. Tal é a profunda reflexão que mais dia menos dia chega a todo homem que observa a imensidão do Cosmos. Não necessariamente é preciso ser cientista para chegar a tal compreensão – Há mais de um século o indígena norte-americano, Chefe Seattle, chegou a uma conclusão bem parecida: "Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo."

Seja seguindo a teia do Chefe Seattle, ou aos átomos que apontam que somos poeira de estrelas longínquas, que explodiram em épocas remotas do universo, desejamos chegar ao mesmo lugar: ao local de onde fomos arremessados a incontáveis eras, e para o qual é nosso destino regressar. Este é o eterno retorno, o re-ligare... Porém, em nossa jornada de volta, passaremos de princípios inteligentes a deuses.

“Vós sois deuses”, dizia o rabi da Galiléia. No entanto, obviamente ainda somos deuses em formação, talvez quem sabe alunos do maternal na grande escola do Cosmos. Como fazer para vencer o vazio que há em nós, esta angústia de retornar para casa?

Ora, já dissemos que o vazio não é o nada. O vazio espera ser preenchido. O vazio é o lugar onde um deus em potencial pode se formar. O vazio se conecta a substância-primária – de alguma forma maravilhosa e incompreensível, sentimos que dentro de nós também arde uma fornalha cósmica. Lao Tsé não sabia dar nome a tal experiência, ao contato direto de tal substância incomensurável. Mas terminou por chamá-la simplesmente de Tao.

À seguir, o Tao e o vazio em nós.

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Crédito da foto: Descubra o Cosmos (NASA)

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