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3.4.18

Viviane Mosé fala sobre a sociedade em rede

Ontem tive o privilégio de ver ao vivo, na Câmara Municipal de Campo Grande/MS, a palestra do maior pensador vivo do país, que por acaso é uma mulher, e se chama Viviane Mosé.

Iniciando seu discurso há 100 mil anos, desde o surgimento da consciência humana, passando pela descoberta de nossa mortalidade, pela agricultura e pela invenção de imprensa, Mosé chega enfim a grande revolução de nosso tempo, a internet, com todo o seu potencial maravilhoso e todas as suas revelações monstruosas de nós mesmos: uma sociedade deprimida em busca de algum rumo, em geral dominada pelos discursos fáceis, radicais, mas que tem a sua frente a imensa tarefa de aprender a viver em rede, a educar e ser educada, e a abandonar uma visão excessivamente racional da vida em prol de uma presença emocional, aqui e agora...

Tudo isso tentou falar a filósofa e poetisa de um fôlego só. Estejam preparados, não é vídeo para se ver sem prestar atenção. Se trata de um verdadeiro vendaval filosófico:

Obs.: Ela começa a falar em 00:14:50. Infelizmente o Facebook não permite inserção de tempo inicial num vídeo compartilhado desta forma.


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12.8.15

Entre a esquerda e a direita: os comentários (parte final)

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo responderam minhas perguntas, e agora estou comentando os assuntos abordados. Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

Entre a pobreza e a desigualdade
Os seus críticos dizem que é o livro mais vendido e menos lido dos últimos tempos, mas fato é que desde que publicou O Capital no Século 21, Thomas Piketty foi subitamente catapultado ao posto de “economista pop star”, algo que certamente não temos visto com tanta frequência por aí.

A tese principal que o economista francês traz ao mundo em sua obra, amparada por calhamaços de estudos e estatísticas econômicas, é a de que os países desenvolvidos vêm registrando uma elevação da concentração de renda num ritmo consideravelmente mais rápido do que o próprio crescimento econômico. Ora, isto significa basicamente dizer que, sob o signo do capitalismo moderno, a desigualdade entre os ricos e os pobres vem se tornando um abismo cada vez mais instransponível. Ele tem razão?

Na verdade, não poderia estar mais correto. E não é que essa desigualdade seja algo “concebível”, como aquele varejista que tem uma renda 20 vezes maior do que um dos seus gerentes de setor, ou aquele milionário “bem nascido” que recebeu uma herança superior ao patrimônio total de todos os habitantes de uma cidadezinha de Minas, não, é algo que realmente vai além da imaginação: estamos falando de algumas pessoas que detém mais riqueza do que o PIB de inúmeros países somados.

Um estudo apresentado pela entidade Oxfam às vésperas do Fórum Econômico Mundial de Davos, no início de 2015, demonstrou que a eclosão da crise econômica mundial, em 2008, fez com que o ritmo da desigualdade se acelerasse ainda mais. Segundo o estudo, em 2009, os 1% mais ricos do planeta acumulavam cerca de 44% do PIB global; em 2014, chegamos a relação de 1% para 48%; e, em meados de 2016, a previsão é a de que os 1% mais ricos deterão metade das riquezas do mundo. Não sei quanto a vocês, mas sempre que penso nisso me dá a impressão de que a desigualdade é tão avassaladora que simplesmente não conseguimos concebê-la racionalmente, ou talvez simplesmente não queiramos pensar muito sobre o assunto...

Já li muitas críticas às estatísticas que Piketty usou como base para elaborar sua tese. Mas, ainda que ele tenha errado num ou noutro cálculo, fica muito difícil desmontar a essência da sua tese. É fato, a desigualdade no mundo sempre foi grande, mas hoje está atingindo níveis simplesmente estratosféricos. E sabem por quê? Porque na realidade nunca acumulamos tanta riqueza – no passado éramos mais pobres por igual, e hoje somos mais ricos, embora de maneira enormemente desigual.

Essa constatação histórica do desenvolvimento da economia humana, juntamente com a ciência e a tecnologia, é precisamente a única forma viável de contrapormos as ideias de Piketty. Neste sentido, acredito que o economista italiano radicado nos EUA, Luigi Zingales, seja a voz mais sã a se levantar e analisar de forma crítica o best-seller de Piketty.

Como professor da Universidade de Chicago, Zingales está literalmente no centro do pensamento liberal, e como tal, traz aquela outra visão que muitos simpatizantes da esquerda fazem questão de ignorar, a de que, se o capitalismo moderno trouxe muita desigualdade, também trouxe muita riqueza. Assim, chegamos àquela pergunta fatídica: É melhor sermos pobres por igual, ou relativamente ricos, enquanto uma pequena elite se torna absurdamente rica?

Vamos deixar esta resposta para depois. Primeiro, é preciso considerarmos que, a despeito de suas visões de mundo, nem Zingales nem Piketty podem ser situados precisamente nas extremidades da esquerda ou da direita, como aliás é comum com todos os grandes pensadores...

Quando perguntado por um repórter da Folha de São Paulo sobre a relação do título do seu livro com a obra-prima de Karl Marx, numa alusão a possiblidade de ser um comunista ou anticapitalista, Piketty respondeu assim:

“O problema é que há gente que vive ainda na Guerra Fria e tem necessidade de inimigos anticapitalistas. Não sou esse inimigo. Creio no capitalismo, na propriedade privada e nas forças do mercado.

Nasci tarde demais para ter a menor tentação que seja pelo comunismo de tipo soviético. Isso não me interessa. Ao mesmo tempo, acho que temos necessidade, basta ver a crise de 2008, de instituições públicas muito fortes para regular o mercado financeiro e as desigualdades produzidas pelo capitalismo.”

Pulemos então para a entrevista com Zingales no Estadão. Quando lhe perguntaram se existe alguma intervenção aceitável do Estado na economia, eis o que ele disse:

“O mercado precisa de regras para operar. A pergunta é quem vai implementá-las e mantê-las funcionando. Mas, além disso, é importante entender que a criação de uma rede de proteção social pode ser considerada uma intervenção pró-mercado.

Os empreendedores buscam com frequência lobbies para conseguirem subsídios. Quando uma empresa está prestes a falir, o empresário diz que precisa de ajuda porque os trabalhadores vão ficar desempregados. O meu ponto de vista é que, se temos uma boa proteção social, não é preciso se preocupar com os trabalhadores, e as empresas podem falir sem problema. Num modelo de livre mercado, as empresas precisam falir, mas os indivíduos não precisam sofrer.”

Ora, é impressão minha, ou parece que os baluartes do socialismo e do neoliberalismo chegaram a concordâncias surpreendentes sobre a economia e a política?

Vejam bem que nem Piketty nem Zingales pretendem carregar tais alcunhas, e ainda que fosse o caso, muitas vezes “socialismo” e “neoliberalismo” são somente palavras cujos significados se perdem na complexidade de um mundo de ideias cada vez mais conectadas, um fluxo onde quase tudo parece poder mudar da noite para o dia.

No fundo, ambos estão defendendo um capitalismo de real livre mercado, livre dos grandes monopólios, cartéis e lobbies políticos, onde nenhuma empresa possa ser “grande demais para quebrar”, mesmo que ela seja um banco, precisamente porque haverá uma rede de proteção e bem estar social capaz de cuidar de uma nova leva de desempregados, até que novas empresas possam absorvê-los. Isso nada mais é do que o socialismo e o capitalismo andando de mãos dadas, às vezes um pouco mais a direita, às vezes um pouco mais a esquerda. Ou seja, o grande terror dos extremistas, mas quem sabe a única solução para o mundo atual...


A resposta para o amanhã
Pobreza ou desigualdade? Privacidade ou segurança? Estado ou Mercado? Socialismo ou capitalismo? Esquerda ou direita?

A verdade é que, se quisermos nos certificar de que teremos um futuro melhor do que o presente, nós devemos responder tais perguntas em debates amigáveis, ou reuniões políticas onde tanto o governo quanto a oposição não somente tenham a voz assegurada, mas que, sobretudo, tenham uma ideologia genuína, e se prestem a defender no poder aquilo que sempre defenderam antes de chegarem ao poder.

Pois nada é mais distante da Política do que este Grande Negócio Eleitoral, onde os discursos são escritos por marqueteiros, e não por estadistas.

Pois nada é mais nefasto para a Política do que ter um grande partido político de ideologia incerta, que ora defende isto, ora aquilo, de acordo com a direção do vento, ou do bocado do Orçamento que conseguirá abocanhar em acordos obscuros em prol da garantia da “boa governança”.

Assim, eu prefiro não responder a nenhuma dessas questões, mas deixá-las em aberto para que vocês, da Mansão do Amanhã, possam não somente refletir sobre elas, como quem sabe até encontrarem alguma inspiração para se aventurarem na Política, com “P” maiúsculo.

Quando foi condenado pela polis ateniense por corromper seus jovens discípulos com novas ideias, foi dada a Sócrates a opção de se exilar e evitar a morte pela ingestão de veneno. O grande filósofo optou por permanecer em sua polis e aceitar o veredito. Há muitos que dizem que sua decisão se baseou inteiramente em seu enorme respeito para com a Justiça de Atenas. Mas, creio eu, talvez o velho sábio não encontrasse muita utilidade em prosseguir com sua existência, se não fosse para incitar os jovens a terem novas ideias...

Assim, ao não aceitar o exílio em troca da própria vida, Sócrates também se recusou a deixar que suas ideias fossem exiladas do mundo. O que essa bela história nos ensina é que a única resposta possível para o amanhã deve necessariamente partir do Amanhã.

Portanto, não é somente reclamando dos nossos representantes no Executivo, no Legislativo e no Judiciário que iremos conseguir mudar alguma coisa mais depressa. Se você quer realmente que este país chegue a ser, finalmente, o “país do futuro”, não há melhor caminho do que ser, você mesmo, um ser da Política.

E, se você é jovem, há todo um universo de possibilidades em aberto. Se for o caso de seguir neste caminho, tão sagrado quanto profano, lembre-se de que a Política não se faz em gabinetes, departamentos ou centrais sindicais isoladas a esquerda ou a direita; a Política se faz entre a esquerda e a direita.


Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política.
Simplesmente serão governados por aqueles que gostam.

(Platão)

***

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Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação (Thomas Piketty e Luigi Zingales)

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14.6.13

Primavera Brasilis

Como sabemos, a Primavera chegou ao Brasil. Com “pleno emprego” e tudo, os jovens ainda assim foram chamados e compareceram as ruas de São Paulo e outras metrópoles da Terra Brasilis. Vimos um médico desnorteado incitando sua polícia à violência. Vimos um professor esquecido das ideologias da juventude. Vimos a “direita” e a “esquerda” alinhando seu discurso e demonstrando o que os que estavam nas ruas já sabiam há tempos: que neste país, não são tão diferentes assim.

Acreditaram que toda a manifestação era “orquestrada” por alguma “liderança oculta”. Acreditaram que ninguém iria dar bola para míseros 20 centavos de aumento das passagens de ônibus. Acreditaram que todos eram vândalos de baixa renda e baixa escolaridade, e que a melhor solução seria a repressão que a polícia militar, a despeito de estarmos a décadas do fim da ditadura, ainda sabe fazer como ninguém.

Deu no que deu. Agora, após até mesmo a Folha de São Paulo haver “mudado de opinião” tão repentinamente, sua preocupação deixou de ser com os míseros 20 centavos e com os vândalos. Agora estão preocupados com a repercussão da violência policial no exterior, com a repercussão da prisão de jornalistas na Anistia Internacional e, principalmente, em saber quem diabos é o “cabeça”, a “liderança oculta”, o sujeito mascarado...

Eu vou lhe dizer quem é o sujeito mascarado, mas só no final. Antes vou falar sobre os manifestantes, os ex-vândalos. Vi um estilista, amante de livros, que resolveu conferir as manifestações ao vivo, e desligou a TV:

Pela primeira vez me senti no lugar correto, para usar o novo jargão do protestante 2.0: “A passeata que fui me representa”.

Finalmente sinto que participei de algo ao lado de pessoas que tinham o mesmo pensamento que eu, que não estavam lá pra defender um partido ou uma causa específica, mas sim por indignação pelo tratamento concedido por parte dos nossos representantes públicos. Diferente dos protestos ao redor do mundo, nós não gritamos “palavras de ordem”. Aqui no Brasil (mais especificamente o que vi e vivi em São Paulo), até os gritos de guerra mais pesados viram festividades em forma de marchinhas: “vem pra rua vem!”. Quem estava lá entende. Não era agressivo. Era festivo.

Sinceramente, seria muito bom se víssemos isso como uma qualidade e não como defeito. A agressividade sendo trocada por chamados de convívio mútuo a de ser comemorada e louvada. Lá, antes das 20hrs, tínhamos tudo, consciência política, participação, voz e alegria. Esta foi a passeata que eu fui e assim ela terminou. Não foi a passeata que assisti pela TV ao chegar em casa, quando aquela minoria que restou resolveu quebrar tudo e roubou as manchetes da melhor e mais bonita manifestação que já participei [1].

Como o governo e a grande mídia gostariam que fossem somente alguns atos passageiros de uma minoria de vândalos. Como o governo e a grande mídia gostariam que fossem manifestações orquestradas por pequenos partidos políticos que ainda acreditam em lendas comunistas do século passado. Pois, fosse assim, eles já saberiam o que fazer. Mas não é assim, não mais. Vi também um jornalista que não teme expor sua opinião:

O esquerdo-direitismo é uma crença semi-religiosa que se tornou a ideologia dominante do mundo no último século. Esquerdo-direitistas são pessoas que acreditam que todo o bem que existe no mundo provém de apenas uma fonte. Há dois tipos de esquerdo-direitistas – aqueles que acham que a fonte de todo o bem é o mercado e aqueles que acham que é o estado. A estes chamamos esquerdistas, aqueles são os direitistas.

No fundo, esquerdistas e direitistas são dois lados de uma mesma coisa. Ambos veem o mundo em apenas duas dimensões, sem profundidade, dividido entre bons e maus. Não admira que esquerdistas transformem-se em direitistas e vice-versa com tanta facilidade – alguns dos analistas mais ferrenhos da direita passaram a juventude militando nas facções mais radicais da esquerda [2].

Vamos aprender política brasileira com o seu maior representante, o PMDB: (passo 1) Estar no poder; (passo 2) Caso não ganhemos a presidência, formar a base aliada do governo; (passo 3) Na base aliada, negociar o maior número de ministérios possível; (passo 4) Sempre que as negociações estiverem emperradas, chantagear o governo. Resultado: Passo 1 sempre garantido de uma forma ou de outra.

No entanto, existem exceções: (a) PT e PSDB nunca podem formar a base aliada um do outro. Quando um não está no poder, é obrigado a ser oposição de verdade (a diferença é que para o PSDB a ficha ainda não caiu); (b) PSTU é um partido efetivamente ideológico, mas que ainda acredita em lendas do século passado; (c) PSOL é um partido efetivamente ideológico, mas que acredita que algo de novo pode surgir neste século. Resultado: na última eleição no Rio de Janeiro (2012) “direita” e “esquerda” massacraram o candidato do PSOL, por que era o único que seguia uma ideologia. 

Os governantes deste país têm nos ensinado que ideologias são muito perigosas. Quem está no poder geralmente não gosta muito delas... Mas se você acha que eu escrevi tudo isso somente para defender o PSOL, está enganado. Nada garante que o PSOL, ao chegar ao poder, não se comporte da mesma forma que outros partidos de oposição que chegaram lá e pouca coisa mudaram. Isto por que o sistema está equivocado, antigo, corrupto. Aqui não se faz Política, se faz um “negócio eleitoral”. O que os que estão no poder mais temem, portanto, é exatamente que a Primavera Brasilis seja apolítica, isto é, Política de verdade: para começar a se refazer Política, antes é necessário fazer uma reforma geral na política. Os “P”s e os “p”s são propositais.

Vi que os manifestantes, em sua grande maioria, não somente não trazem símbolos de partidos políticos, como abominam se envolver com eles. Bandeiras de partidos são somente toleradas, não tem nada a ver com a alma desta Primavera. Os partidos Políticos do futuro ainda irão surgir. Os Políticos do futuro serão jovens, jovens de verdade, independente de sua idade.

Mas, e quem é afinal o tal mascarado?

Agora eu posso lhe contar. Você mesmo pode descobrir quem ele é, e é muito fácil. Dê um jeito de comprar uma dessas máscaras do Alan Moore, depois vá a pelo menos uma manifestação desta Primavera, seja onde estiver no país, e procure observar a tudo com os olhos de um jovem, de uma criança, de um recém-nascido... Caminhe pelas ruas como se elas fossem novas ruas. Observe os transeuntes como se eles fossem, ao menos por breves momentos, parte da sua família. E se alguém lhe apontar alguma arma de fogo ou canhão, lhe entregue uma flor.

Depois retorne para sua casa e, de frente para algum espelho, retire a máscara.

Lá estará o tal mascarado, desmascarado...


Onde a mente encontra-se sem medo e a cabeça é mantida erguida
Onde o conhecimento é livre
Onde o mundo não foi quebrado em fragmentos
Por estreitos muros domésticos
Onde as palavras vêm da verdade profunda
Onde laboriosas lutas esticam seus braços em direção à perfeição
Onde o riacho límpido da razão não perdeu o seu rumo
Afluindo ao triste deserto dos hábitos moribundos
Onde a mente é direcionada adiante por você
A pensamentos e ações sempre em constante afloramento
Nesse céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar

(Tagore)

***

[1] Trechos do artigo de Bruno Passos para o blog Papo de Homem: Contra o aumento das tarifas de ônibus: o protesto que eu não vi pela TV.

[2] Trechos do artigo de Denis Russo Burgierman para a Superinteressante: A maldição do esquerdo-direitismo.

Crédito da imagem: Anonymous

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6.10.12

Mudando o paradigma da educação

Esta é uma animação da palestra do pensador da educação, Sir Ken Robinson, conforme proferida ao RSA (com a caridosa dublagem de Alexandre Gomes, do blog Brasil Acadêmico).

A educação não está em crise apenas na América Latina, como em todo o resto do mundo. Estamos vivendo no início da era da informação, e nossas crianças estão sendo "bombardeadas" pela maior quantidade de estímulos da história da infância humana... Neste cenário, não é de se surpreender que elas não se interessem pelas "aulas chatas", e sejam diagnosticadas com o transtorno de déficit de atenção (TDA ou TDAH). Segundo Robinson, "anestesiar" nossos filhos com remédios não trata da questão principal, mas pode ter sérias consequências para nosso futuro.

Nos EUA, como na Europa, como no Brasil, é preciso mudar urgentemente as escolas, para que não formem "máquinas pensantes", para que não assassinem a criatividade, para que não obstruam o pensamento livre. A mudança já se faz perceber, mas depende de nós a acelerar enquanto há tempo:

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19.9.12

A educação proibida

A escola pública completou 200 anos de existência e é considerada a principal forma de acesso dos jovens a educação. Hoje em dia, a escola e a educação são conceitos amplamente discutidos em fóruns acadêmicos, políticas públicas, instituições educativas, meios de comunicação e espaços da sociedade civil. Desde sua origem, a instrução escolar tem sido caracterizada por estruturas e práticas que hoje são consideradas, em sua maioria, já obsoletas. Elas não acompanham as necessidades do Século XXI. Seu principal erro se encontra no paradigma que não considerar a natureza do aluno, a liberdade do pensamento e a importância do amor nos vínculos humanos, assim como no desenvolvimento individual e coletivo. Este documentário, rodado em 8 países da América Latina, com 90 entrevistas de educadores modernos, procura apontar um novo rumo para o futuro da educação, além de apontar os graves defeitos do sistema atual. Com vocês, A Educação Proibida:

"Acreditamos que a Educação está proibida. Não por culpa das famílias, das crianças ou dos docentes. Todos proibimos a Educação. Cada vez que você escolhe olhar para outro lado, em vez de escutar. Cada vez que escolhemos a meta, em lugar do trajeto. Cada vez que deixamos tudo igual, em vez de experimentar algo novo. Seja professor, seja aluno, seja pai, seja quem for, ajude-nos... A Educação tem que avançar, tem que crescer, tem que mudar. Encontrar-nos com os outros, conhecer e explorar suas experiências, trocar ideias e levá-las a nossa realidade. Essa é a nossa proposta, e começa hoje mesmo."

***

Comentário
É preciso suavizar o corte, deixar que novas rodas percorram os velhor sulcos, e não mais procurar reproduzir seres com uma mesma opinião e visão de mundo (como se isso fosse possível, em todo caso), pois seres são almas, e não autômatos ou robôs. De nada valerá para as crianças e os jovens, estes recém chegados da Mansão do Amanhã, ouvirem de seus "mestres" a mesma repetição das informações de outrora - isso eles podem buscar na internet. Importa é despertar a paixão pelo conhecimento e, neste processo, procurar aprender junto com eles, junto com o futuro onde, cada vez mais, haverá liberdade para pensar e amar o que se bem entende.

Conforme nos alertou Gibran, "nenhum homem poderá revelar-vos nada senão o que já está meio adormecido na aurora do vosso entendimento". Temos então, ido e voltado a este mundo, e somente assim se explica como as novas ideias vêm. É preciso fugir do veneno que os acomodados vem sugando da História, e não mais escrever de novo o que já estava escrito, não mais copiar o que já não se sustenta de pé, mas apontar para o horizonte e reescrever uma Nova História, e depois outra, e ainda outra, de acordo com as necessidades de cada época...

É hora de nos prepararmos para despertar neste Céu de Liberdade: bem aqui, contanto que o saibamos erguer, contando que saibamos cuidar ainda antes de ensinar. Contanto que, como Sócrates, deixemos que nossos jovens pensem como bem entendam, e atuemos não como "mestres", mas como sábios - a incentivar o amor pelo saber.

Obs: Vocês podem pensar que o documentário traz "ideias novas e revolucionárias", mas estão longe disso. Na verdade, são ideias que têm sido postas em prática pelas escolas logosóficas há décadas. A mudança de paradigma, portano, nem sequer teria de "reescrever o novo ensino do zero", pois isso diversas instituições, como a logosófica, já têm realizado e experimentado ao redor do globo. Basta, portanto, a vontade para impelementar a mudança - mas, e qual é o "político" que vê com bons olhos um eleitorado jovem que "sabe pensar por si mesmo"?

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» Vejam também: O homem que brincava com a Natureza

Crédito da foto: John-Francis Bourke/Corbis

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5.6.12

Interregno de eras

Há séculos o rio Tâmisa não era atravessado por uma procissão de barcos tão bela e luxuosa. Por quase todos os prédios no percurso, os súditos da rainha exibiam, orgulhosos, a bandeira da Inglaterra nas sacadas. Em seu barco real, cercada da família e em pé na maior parte do trajeto, Elizabeth II retribuía com pequenos acenos a todos que se acotovelavam as margens para celebrar o jubileu de diamante de seu reinado (em 2012): 6 décadas como rainha da Inglaterra, governante suprema da Igreja Anglicana, e comandante-em-chefe das Forças Armadas do Reino Unido.

Um pequeno grupo protestava pacificamente com cartazes de mensagens contra a monarquia. “Não tenho nada pessoal contra a rainha. É mais uma questão moral de ter uma chefe de Estado não eleita em pleno século 21” – explicou-se um manifestante. Outro alegava questões mais econômicas do que políticas: “A ideia de celebrar a vida de luxo da rainha me faz passar mal; muitos lembraram que essas celebrações estão acontecendo num momento de austeridade (em toda Europa), em que muitos estão perdendo seus empregos”... Estranho de se pensar: ainda assim, a grande maioria dos britânicos apoia a permanência da monarquia, exatamente como é hoje, e assim como já o é há muitos séculos.

Mais estranho ainda se lembrarmos que, há poucos meses, no final de 2011, Londres foi sacudida por uma série de manifestações populares em bairros de baixa renda. Jovens desempregados e desiludidos atacaram grandes lojas e mercados, saqueando boa parte das mercadorias, e tocando fogo nas demais... O polonês Zygmunt Bauman, que vive na Inglaterra há anos, sendo para muitos um dos maiores sociólogos vivos, foi quem primeiro levantou a grande questão que podia ser lida nas entrelinhas daqueles dias caóticos: Aquela não era uma primavera londrina, e tampouco os manifestantes tinham claras reivindicações políticas a fazer. Tratava-se simplesmente de um ato de revolta, de revanche, dos “consumidores desqualificados que foram criados numa sociedade de consumo”. Aquilo que desejavam, os tênis e roupas de grife, era o mesmo que, ao mesmo tempo, amavam e odiavam – tanto que colocaram fogo em parte do que poderia ter sido saqueado.

Essa complexa dualidade, de amor e ódio em relação ao objeto de consumo, pode ser, senão vista, ao menos intuída, por todo o mundo moderno ocidental, e particularmente na Europa. Os governantes que, em meio à crise econômica, recomendam o ajuste fiscal dos países em débito – incluindo pesadas reduções de salários –, são os mesmos que, por outro lado, continuam a estimular e tentar manter vivo a todo custo um sistema já decadente de consumo desenfreado, onde é dito a todos e há todo momento, em propagandas que só faltam pular por debaixo do tapete da porta de nossa casa: “Compre, consuma, aproveite enquanto é tempo! Seja feliz com um novo smartphone, um carro zero, uma TV com 10 polegadas a mais... Mas não se esqueça de continuar comprando, pois coisas novas são lançadas há todo momento, e se você parar de comprar, já sabe – a economia esfria, e é capaz de você perder o seu emprego!”.

Ora, é óbvio que as pessoas não conseguem consumir tanto quando as propagandas incitam, e exatamente por isso que foi criado o crédito bancário, que é obviamente a melhor coisa que os bancos inventaram desde as Cruzadas [1]: emprestar dinheiro que as pessoas não têm, para que elas comprem o que não precisam; mas, não obstante, dinheiro este que serão obrigadas a pagar de volta, com juros. Ah! Os juros! O que os bancos fariam sem inventar crédito, e ganhar dinheiro de volta por algo que foi emprestado, mas que, em realidade, sequer existe, sequer têm permanência – todo valor do dinheiro impresso é, afinal, um construto da fé. Afinal, não sei se sabem, mas as leis que requeriam que existisse lastro material em ouro (ou outros valores) para os belos papéis coloridos já deixaram de ser usadas há décadas... Nosso sistema econômico: uma grande bolsa de crenças, onde especuladores podem ser confundidos com pastores.

Este dinheiro de valor impermanente é apenas mais um dos fatores que compõe o que Bauman intitulou modernidade líquida: onde todos os valores morais, todas as antigas tradições, entraram numa ebulição, numa mistura complexa e sempre fluida, em constante mudança, de onde é cada vez mais difícil extrairmos algum significado. Tempo é dinheiro e, como é exatamente o dinheiro que nos garante o consumo, vivemos correndo, “economizando” tempo em fast-foods, em relações amorosas superficiais, em relações familiares cada vez mais desconexas, já que não há mais muito tempo nem para os jantares em família... Com todo esse precioso tempo que foi “economizado”, nos sobra então o tempo que precisávamos para ir nalgum shopping center consumir.

E é bom que sejamos felizes nestes breves momentos de consumo, pois será nossa única chance de termos alguma felicidade... Ou, pelo menos é para essa vida que fomos educados na modernidade, e basta ligar qualquer televisão no horário nobre para verificar. Nas grandes agências de propaganda e marketing, especialistas que passaram anos e anos nas melhores escolas e universidades realizam o seu brainstorm diário exatamente para que a nossa mente não desgrude os pensamentos da vitrine mais vistosa. A culpa não é dos publicitários: eles estão apenas realizando o que foram educados para fazer; eu diria até que alguns deles foram muito bem educados para nos convencer de quase qualquer coisa... Estamos na desvantagem, e nosso pensamento foi aprisionado nalgum outdoor pelo caminho.

Mas foi somente nos últimos anos, onde se levantaram as bandeiras da ecologia e da sustentabilidade, que as pessoas, todas as pessoas (embora algumas finjam não saber), passaram a perceber que a conta da economia de consumo em crescimento exponencial não irá fechar com um planeta, um meio ambiente, de recursos naturais finitos. Se tudo o que consumimos, e principalmente o combustível envolvido na produção e distribuição dos bens, tivesse uma taxação sobre “recurso finito”, e não fosse tratado como algo fabricado a partir de materiais infinitos, provavelmente viajaríamos bem menos de avião, comeríamos muito menos frutas vindas da Ásia, ou queijos vindos da Europa.

Dessa forma, a sociedade de consumo, perdida na fluidez de uma vida sem significado, sabe muito bem que o mesmo objeto de consumo que hoje deseja, depois vira lixo, muitas vezes não tratado, não reciclável. E, sem reciclar o que é finito, para ser reutilizado, um dia a conta chegará... Bem, segundo Bauman, as gerações atuais, com seu sistema de crédito e consumo, nada mais fazem do que hipotecar o futuro. Estamos, dessa forma, comendo em restaurantes luxuosos e deixando a conta para que nossos netos e bisnetos paguem, literalmente. Sob esse ponto de vista, é mesmo bom que haja uma grande crise no horizonte.

E, quanto a monarquia inglesa, ela nada mais é do que uma âncora fincada no passado. Uma mitologia, um significado, uma narrativa da pátria, do “ser inglês”, que ainda traz sentido à vida britânica. Se os ingleses estão dispostos a continuar financiando os rituais de sua realeza? Enquanto não chegar uma nova era, certamente – para eles, é uma pechincha. E, afinal, o dinheiro não existe enquanto valor por si só, o que existe á uma crença nos valores que povoam nosso pensamento. Melhor comemorar a longa vida da rainha do que a curta vida do seu smartphone.

Ainda assim, um dia, mesmo a rainha cairá... Mas, e o que virá nesse interregno de eras, onde os sistemas e os reis antigos caem, mas os novos não se erguem, sequer foram ainda inventados? Isso, nem mesmo Bauman foi capaz de nos dizer...

Entrevista com Zygmunt Bauman no programa Milênio, da Globo News. Vinte e poucos minutos altamente recomendados.

***

[1] Devido ao pouco espaço, estou trazendo alguns conceitos de forma superficial. Para se aprofundar melhor em alguns dos assuntos tratados neste artigo, recomendo consultarem alguns outros posts: A história do ouro; Padrão-fé; O dinheiro que não existe; A lâmpada centenária; Nosso planeta, nossa casa; e finalmente Onde está o seu deus?

Crédito das imagens: [topo] AFP (Elizabeth II conversa com o decano David Ison ao deixar a Catedral de St. Paul); [ao longo] Anônimo.

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25.11.11

O futuro de Deus

Quem acompanha a página do blog no Facebook pode já ter ouvido falar deste livro, mas achei por bem lhes trazer este resumo em vídeo de seu conteúdo, pois que em breve postarei alguns trechos dele aqui no blog, conforme faço na divulgação de outros livros.

Caso queiram se adiantar, podem comprar logo o livro. Pois se gostam do que há neste blog, dificilmente não irão se deliciar com a "futurologia" de Adjiedj Bakas e Minne Buwalda, que, por conhecerem demais o mundo atual, em todas as suas nuances políticas, econômicas e espirituais, têm uma capacidade quase sobrenatural de prever as tendências (e megatendências) futuras da religião mundial...

Com vocês, o futuro:

O futuro de Deus apresenta sete tendências principais que vão influenciar a nossa vida religiosa e espiritual. Dentre elas estão a tendência à individualização da religião e um cenário multiforme; novas ortodoxias e politização da religião; comercialização da religião e a midiatização de Deus; tendência à ascensão do Deus Verde; a combinação de doutrinas e rituais religiosos de forma pacífica; desenvolvimento de uma consciência mais elevada; nações multiculturais formadas por imigrantes, como os Estados Unidos e o Brasil, que liderarão a renovação da religião com, por exemplo, o surgimento de crenças sincréticas, entre outras tendências analisadas globalmente pelos autores. Publicado no Brasil por A Girafa.


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26.5.11

Tempo oculto

Este artigo é um adendo da série "Reflexões sobre o tempo".

Alguns de vocês podem ter passado desapercebidamente pelo que acabei de falar sobre o tempo, mas ainda outros podem ter ficado profundamente absortos nos paradoxos transcritos. Podem ter percebido que a luz eterna – não apenas os fótons, que estão entre os cerca de 4% da matéria que podemos detectar, mas a outra luz também – paira por todo o Cosmos e que para ela a formação da primeira galáxia, da primeira estrela, do primeiro átomo de carbono, pode ser tão relevante quanto os fogos de artifício de uma festa de ano novo qualquer em alguma praia deste mundo. Ou que, mesmo tendo percebido isso de relance, seja pela filosofia, pela ciência ou pela religião, ainda não conseguimos fugir do problema do tempo, tão bem descrito por Agostinho há séculos atrás. Ainda outros podem ter passado pelo apocalipse dos rapanui, apenas para terem o pensamento renovado pelo fogo... É tão difícil dizer, como saber o que o outro pensa? Cada um de nós é uma substância a parte, uma forma do Cosmos saber sobre si mesmo.

Há quase um ano, eu escrevi um texto sobre o mito da criação, e confesso que não o compreendi por completo, mas agora este trecho começa a fazer sentido:

Seu plano para cada universo era cuidadosamente elaborado em sua mente, entre os momentos em que apenas refletia sobre si mesmo...
Cada universo tinha uma substância, e essa substância os preenchia por completo – cada estrela, planeta e partícula.
E para que houvesse movimento, o Ser permitiu que a substância fosse maleável.
E para que os seres conscientes que brotassem pudessem renascer quantas vezes fossem necessárias, o Ser permitiu que a maleabilidade da substância construísse uma sequência de eventos na consciência dos seres.
E para que tudo não fosse determinado, o Ser permitiu que um átimo dessa maleabilidade ficasse a cargo dos pensamentos e da vontade dos próprios seres conscientes.

Ora, muitos foram ensinados a imaginar o universo como uma explosão, as vezes usa-se a imagem de uma bexiga de ar para explicar como o próprio tecido do espaço-tempo se expande. Estamos nos afastando de todo o restante, independente de estarmos parados ou não – mas nada está parado. De fato, esse crescimento foi tão rápido no início, que grandes porções do universo estão além da nossa fronteira de observação, mesmo na velocidade da luz jamais chegaríamos do outro lado. Se o universo não for infinito, isso pouco faz diferença para nossa compreensão atual...

Mas essas imagens são falhas num sentido profundo: jamais poderemos observar a bexiga do lado de fora. Estamos dentro da explosão, a homogeneidade da radiação de fundo cósmica já comprovou isso. Como minúsculas partículas de poeira, somos empurrados para lá e para cá em meio ao turbilhão de uma substância infinita, que parece ter uma sede de ser cada vez mais infinita – se é que isso faz algum sentido.

A grande questão é que aparentemente nós temos um papel de certa relevância nesse plano cósmico. Os estoicos estavam corretos ao dizer que não deveríamos nos angustiar com tudo aquilo que não podemos decidir – e são muitos os eventos que nos fogem o controle –, mas eles nos lembraram de que existem coisas que podemos decidir. Existem corpos, existem mentes, existem almas, existem eventos, existem partes da substância que nos foram ofertadas... O que faremos com tamanha responsabilidade?

Franz Bardon foi um ocultista checo do qual – apesar de sua enorme popularidade entre os estudantes de magia da atualidade – pouco sabemos por certo de sua vida, além dos grandes livros que nos deixou. Em “Magia prática” (recomendo a tradução da Ed. Ground, de Inês Lohbauer), ele nos traz uma série de rituais mentais que, quase que certamente, aprendeu em alguma montanha distante do Oriente. Num deles em específico, há uma curiosa analogia com o que viemos estudando acerca do tempo e de como o percebemos através de nossas mentes. Primeiramente, ele nos fala sobre a curiosa função de nosso subconsciente – nosso inimigo a viver nalgum tempo oculto:

“Aquilo que na consciência normal entendemos como pensamento, sentimento, vontade, memória, razão, compreensão, reflete-se no nosso subconsciente como um efeito oposto. Do ponto de vista prático podemos encarar nosso subconsciente como nosso oponente. A força instintiva, ou o impulso a tudo aquilo que não queremos, como por exemplo, nossas paixões incontroláveis, nossos defeitos e fraquezas, nascem justamente dessa esfera da consciência.”

Não tenho certeza se isso ficou bem explicado, mas reconheço que é algo bastante complexo de explicar por palavras, então prefiro não me arriscar a complementar Bardon. Prossigamos adiante, quando ele nos fala do ritual mental de auto-sugestão:

“Na maioria dos casos, principalmente numa vontade fraca ou pouco desenvolvida, o subconsciente quase sempre consegue nos pegar de surpresa ou provocar um fracasso. Se ao contrário, na impregnação do subconsciente com um desejo nós lhe subtrairmos o conceito de tempo e espaço, o que passa a agir em nós é só a sua parte positiva.
[...] A fórmula escolhida para a auto-sugestão deve ser obrigatoriamente mantida na forma presente e no imperativo. Portanto, não se deve dizer: “Eu pretendo parar de fumar, de beber”, mas sim, “Eu não fumo, eu não bebo”, ou então: “Não tenho vontade de fumar, ou de beber”, conforme aquilo que se pretende largar ou obter pela sugestão.”

Para quem acreditava que magia significasse rituais com velas negras e invocações de seres sobrenaturais, essa descrição de ritual mágico de Bardon pode parecer um tanto quanto sem graça... Mas, pensem novamente: vivemos cercados por um oceano cósmico de infinita beleza, e pela luz eterna, a cada momento do tempo, e quão poucos tiveram ainda olhos para ver tudo isso, sequer de relance!

Obviamente que o ritual de Bardon, que alguns mais desaforados poderiam chamar de catalisador de efeitos placebo – sem estarem longe da razão, diga-se de passagem –, não nos servirá para tudo aquilo que os estoicos incluíram na lista do que não nos cabe a decisão. Servirá, portanto, para o autoconhecimento, o desenvolvimento da sabedoria, da sensibilidade, da criatividade, até mesmo do amor – mas de nada servirá para ganharmos na loteria, ou conquistarmos alguma amante (os amantes tem vontade própria). O que se tira disso tudo: que seu ritual serve para muita coisa.

E é precisamente aqui que me foi pedido para complementar tais ensinamentos vindos de algum canto do Oriente...

Ora, se existe certo grau de incerteza acerca de como a substância se movimentará a seguir – e a física quântica tem nos comprovado isso a décadas –, então talvez a existência não seja o mero agitar de partículas aleatoriamente, tampouco uma determinação estrita de um grande diretor de cinema cósmico, talvez afinal nossa vontade faça alguma diferença neste turbilhão!

Mas, curioso de se pensar: a maior parte de nossos desejos, a grande parte de nossa vontade, se sintoniza exatamente aos eventos que não nos cabe decidir. De nada adianta, portanto, se aventurar pelo ritual de Bardon sem primeiro compreender, de verdade, o que os estoicos diziam a tanto tempo. Só nos compete moldar o mundo naquilo que nos é dado decidir, no tempo em que dispomos para tal.

Será então, tanto mais difícil, imaginar as conquistas do ponto de vista do conquistador, sentado em seu grande trono. Talvez Bardon tenha esquecido que nem todos tinham o seu grau de vontade... Que não se imagine, portanto, “eu não fumo”, mas que se imagine cada passo dado nesta empreitada, cada olhadela para um maço sem que tenhamos pensado “e onde estará meu isqueiro?”. Que não se use a mente para visualizar um grande ser amoroso que nos empresta apenas a face, mas que se pense com cuidado em cada pequeno desafio de caridade que nos espera.

Dessa forma, quem sabe, até mesmo o inconsciente, até mesmo o tempo oculto, venha em nosso auxílio. Não após a conquista, num tempo ainda imaginário, mas nesse exato momento – no momento em que planejamos nossa jornada de autoconhecimento, nosso lampejar de consciência.

Que nosso inimigo jamais nos quis mal, ele tão somente serve de contrapeso para nossa longa jornada. Como um arquirrival, um Lúcifer que se presta ao papel de bode expiatório, até que tenhamos consciência de que toda a ignorância sempre partiu de nós mesmos – e não poderia ser de outra forma, que não nascemos sabendo, nem fomos programados para a perfeição.

Quem diria, quem diria que a substância, além de tão bela, ainda nos teria dado tal relíquia, tal tesouro... A capacidade de conquistar a consciência por nosso próprio mérito e esforço, a divina vontade! Perto desta, nenhum tempo permanecerá oculto por muito tempo...

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» Saiba mais sobre Franz Bardon em "Bardonista".

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Crédito das imagens: [topo] Maria Eugênia Guimarães ; [ao longo] Bardonista (foto de Franz Bardon).

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1.7.10

O que dizem os astros, parte 2

continuando da parte 1

E o que é o futuro, senão a conseqüência do que se faz – do que se escolhe – no presente? Que a astrologia tenha se popularizado como uma forma simples de se prever a sorte diária não é culpa dos grandes sábios e cientistas (a astronomia veio da astrologia) de diversas épocas que a consideravam com seriedade, mas sim da superficialidade com que os ignorantes tratam do assunto. A Astrologia funciona através do que Carl Gustav Jung chamou de sincronicidade. As mesmas energias universais responsáveis por todo o mecanismo de gravitação dos corpos celestes e emanações solares fazem com que a cada determinado instante, a Terra seja imantada com uma determinada gama energética, que é representada através de arquétipos (signos).

Agrippa via o universo como o unus mundus, onde o que ocorre no mundo celestial chega até o mundo dos fenômenos, intermediado pela esfera dos corpos celestes. Nesta concepção, a relação entre a esfera dos corpos celestes e a esfera humana não é de causalidade, mas de analogia ou sincronicidade. Astrólogos de orientação biológica procuram a explicação nos ritmos e ciclos biológicos, como os circadianos e lunares. John Addey realizou vários levantamentos estatísticos em busca da comprovação de conceitos astrológicos, como o de quase mil nonagenários e a relação Sol-Saturno. Descobriu, assim, o significado das relações harmônicas entre períodos cósmicos. Outra concepção é que a influência se dá através da variedade de raios cósmicos que chegam ao nosso planeta. Ebertin é um dos defensores desta hipótese... Por mais que tais suposições e nomenclaturas soem estranhas para os astrônomos atuais, há que se admitir que possuem muito mais lógica do que a astrologia de jornal – independente de serem reais ou não.

Em todo caso, ao que me parece, a totalidade dos astrólogos sérios considera que o movimento celeste não exerce influência direta sobre os eventos cotidianos... Não é porque Vênus está neste ou naquele local do céu que teremos maior ou menor sorte em apostar na loteria. E, em todo caso, o que seria a sorte senão a conseqüência futura de escolhas presentes?

“Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo.” – esta era a inscrição no Oráculo de Delfos, um dos centros religiosos da Grécia antiga. Me parece que ele encerra o conceito primordial em que se baseia toda a Astrologia: conhecer a si mesmo é análogo a conhecer os deuses e o universo (Cosmos). O que está em cima, os corpos celestes, é como o que está embaixo, os corpos neuronais... O céu noturno é uma emanação física da mente cósmica (isso é uma analogia!) assim como o baile elétrico das sinapses é uma emanação física de nossa alma (isso também é uma analogia).

Se o futuro é fruto de nossas escolhas presentes, de nada adiantam previsões que sempre serão algo incertas. O que importa é compreender o mecanismo pelo qual fazemos nossas escolhas. O que importa é compreender o sentido pelo qual fazemos nossas escolhas. O que importa é compreender a nós mesmos, que perto de tal compreensão todo o futuro é secundário. Exatamente por isso sempre houve esse consenso entre os grandes sábios... Mesmo o Rabi da Galiléia nos afirmou que somos deuses (João 10:34), que faremos tudo o que ele fez e muito mais ainda (João 14:12). O universo interior é ainda mais vasto que o exterior, compreendê-lo é a nossa divina jornada.

"Nós, como pessoas que experienciam, não aceitamos tudo o que nos é fornecido por nosso instrumento, a máquina neuronal de nosso sistema sensorial e o cérebro, nós selecionamos tudo o que nos é fornecido de acordo com o interesse e a atenção, e modificamos as ações do cérebro, através do eu" – Esta não é uma citação de um religioso ou astrólogo, mas de um neurologista... Sir John Eccles, vencedor do prêmio Nobel de medicina de 1963, foi talvez o mais ilustre cientista a argumentar em favor da separação entre a mente, a consciência (no caso, um processo da mente) e o cérebro. Somos seres que interpretam informações de acordo com nossa vontade, e não máquinas que computam informações de acordo com nossa programação.

Nós não fomos programados, não formos criados como robôs ou fantoches. Fomos criados livres, e com um caminho infinito de evolução à frente. Nossa liberdade não é absoluta, da mesma forma que uma criança precisa brincar apenas em sua caixa de areia, nossas escolhas são locais e não globais – ainda assim, são escolhas! Perto da magnitude do Cosmos, perto da abrangência desse sistema que nos conecta a todos em uma trilha de luz, que importância poderia ter o futuro? Que importância poderia ter saber se vamos casar, ou com quem, se vamos ter mais ou menos dinheiro, se vamos sofrer acidentes ou doenças, se vamos tirar a sorte grande, se vamos ter tranqüilidade ou angústia, se vamos amar ou odiar, se vamos viver ou morrer? Se tudo passa pela nossa sagrada capacidade de escolher as escolhas que nos são dadas, e sermos inexoravelmente empurrados pelos ventos que não são possíveis de se evitar, honestamente eu dispenso a previsão.

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Crédito da foto: Mark Miller e The Virgo Consortium

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O que dizem os astros, parte 1

“Nós podemos tomar o estado presente do universo como o efeito do seu passado e a causa do seu futuro. Um intelecto que, em dado momento, conhecesse todas as forças que dirigem a natureza e todas as posições de todos os itens dos quais a natureza é composta, se este intelecto também fosse vasto o suficiente para analisar essas informações, compreenderia numa única fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e os do menor átomo; para tal intelecto nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, seria presente perante seus olhos.”

O texto acima é de autoria de Pierre Simon Laplace – grande matemático, astrônomo e físico, conhecido como “o Newton francês” –, um ávido defensor filosófico do determinismo. Segundo algumas doutrinas religiosas, Deus criou o universo e comanda absolutamente todos os eventos – cada fio de cabelo que cai e cada estrela cadente que penetra a atmosfera terrestre são fruto de um determinismo divino sob o qual não temos nenhum controle ou escolha.

Em sua crítica a astrologia, na série de TV Cosmos, Carl Sagan afirma que ela implica num perigoso fatalismo: “se nossas vidas são governadas por um conjunto de sinais de trânsito celestes, porque tentar mudar algo?”. Ora, há muitos céticos que criticam a astrologia ou a existência de um “ditador divino”, porém a idéia do determinismo não vem apenas de fontes ditas “místicas”.

O intelecto ao qual Laplace se referia em seu experimento mental foi batizado de Demônio de Laplace pelos seus biógrafos. Segundo a cosmologia de sua época, todas as partículas e planetas e estrelas exerciam influência gravitacional (e de outras forças) umas sobre as outras. Isso, e somente isso, poderia explicar todo o movimento dos corpos celestes e atômicos – exatamente por isso o Demônio teria em sua mente todo o passado e todo o futuro, todo o movimento do universo, como se fosse o presente. Para tal Demônio, nada que já ocorreu ou resta ocorrer será alguma novidade...

Laplace também esteve próximo a propor o conceito de buraco negro. Ele observou que poderiam existir estrelas maciças cuja gravidade seria tão grande que nem mesmo a luz escaparia de sua superfície. Na cosmologia moderna, sabe-se que tais singularidades existem, mas ainda não se sabe se a informação que é engolida por sua gravidade se perde ou é reaproveitada em algum outro lugar do universo. Essa é uma questão fundamental, pois se alguma informação é perdida, não seria mais viável conceber uma previsão do futuro como a de seu Demônio, pois ele não disporia mais de toda a informação necessária para sua previsão (embora decerto ainda disporia de muita informação).

Já a física quântica nos demonstrou o quão bizarro é o universo em suas partículas fundamentais. Hoje se sabe que é impossível prever o movimento (momentum) e a posição de partículas como um elétron: quanto mais se sabe sobre uma informação, menos se sabe sobre a outra. Tudo o que podemos determinar é uma probabilidade de tais partículas estarem neste ou naquele local – não podemos analisar a trajetória de uma única partícula como uma linha reta (física clássica), e sim como uma função de onda.

Finalmente, os neurologistas já descobriram que temos tantos neurônios no cérebro quanto estrelas em nosso horizonte cósmico. Segundo o filósofo Daniel Dennet, não existem coisas como experiências subjetivas; em vez disso ele propõe que o cérebro é um computador que possui informações de diferentes fontes com uma disposição para um comportamento particular e uma habilidade para distinguir entre estímulos diferentes. Esse é o ápice do determinismo: não apenas um determinismo divino ou a influência derradeira dos corpos celestes, mas a redução total de seres a coisas. Somos como poeira espalhada pelo vento, tudo o que fazemos, tudo o que pensamos, é determinado pelas reações químicas de partículas dentro de nossa cabeça. Eis o determinismo materialista.

Ante o evidente absurdo do determinismo – seja divino, astrológico ou material – tudo que posso dizer é isto: Ora, se tudo o que fazemos, todo nosso movimento e nosso pensamento, toda nossa razão e emoção, todas as nossas escolhas, são previamente determinadas, de que diabos adiantaria discutir o assunto filosoficamente? Se estaremos a discutir alguma coisa, não será por nosso livre-arbítrio (inexistente), mas sim porque fazemos parte de um teatro de fantoches... E nossa discussão, e todas as discussões, seriam apenas mais uma encenação de um Mestre dos Fantoches. Nossa angústia seria fruto do movimento dos corpos celestes. Nosso medo do futuro seria o resultado de alguma reação química em nosso cérebro. Seria o fim de toda a responsabilidade, o fim de toda liberdade, o fim da vida como algum dia foi compreendida... E isso é tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.

No entanto, se o livre-arbítrio de fato existe, se somos parcial ou totalmente responsáveis por nossas próprias escolhas, então a filosofia de Dennet cai por terra, o fatalismo dos astros se reduz a fantasias inapropriadas, e o Demônio de Laplace torna-se apenas mais um pretendente a Deus. Ora, se a física quântica nos demonstra que o futuro é feito de probabilidades, se as singularidades cósmicas nos deixam na dúvida se a informação é ou não perdida, me parece que o determinismo é uma ilusão... O que temos, em realidade, é um sistema. Um sistema cósmico muito bem orquestrado para que todo movimento gere outro movimento, toda ação gere outra ação, e todas as coisas e todos os seres sigam eternamente conectados em sua harmonia cósmica. Se alguém sabe do futuro de forma perfeita (como Laplace postulou), precisaria ter criado tudo o que há a partir de si mesmo, precisaria ser Deus.

Na continuação, a sincronicidade de Jung, o Oráculo de Delfos e o porque de não precisarmos nos preocupar com a previsão do futuro...

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Crédito da imagem: Gravura de autor anônimo, divulgada primeiramente em um livro de Camile Flammarion

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24.5.10

O trabalho na era do conhecimento

"Vivemos num mundo onde, pela primeira vez, o conhecimento supera os fatores tradicionais de produção - terra, capital, matéria prima, energia e mão-de-obra - no processo de criação de riqueza. Mesmo em setores econômicos mais tradicionais, como a agricultura, a indústria de bens de consumo e de capital, a competição é cada vez mais baseada na capacidade de transformar informação em conhecimento e conhecimento em valor. Informação, conhecimento, criatividade e inovação são, assim, ingredientes básicos para todas as organizações que atuam nesta nova sociedade, sejam elas públicas ou privadas.

Mas, na prática, o que isto significa? Como criar novos modelos de negócio? E mais difícil ainda, como torná-los realidade, fazendo-os gerar resultados concretos? Que profissionais precisamos formar para fazer isto acontecer? Como devemos agir, no nosso dia-a-dia, para ajudar a construir esta sociedade do conhecimento?"

É com o texto acima que Marcos Cavalcanti - coordenador do Crie (Centro de Referência em Inteligência Empresarial) da COPPE/UFRJ - abre o primeiro post de seu excelente blog "Inteligência Empresarial" do O Globo Online.

Na palestra de aproximadamente 120 minutos que ele deu para o programa Café Filosófico da TV Cultura (em 18/09/09), ele destila algumas dessas respostas, enquanto trafega pelas eras agrícola e industrial, explicando o porque de já estarmos efetivamente em uma transição de eras, rumo a era do conhecimento - onde o foco da competição por recursos se desloca para a cooperatividade e compartilhamento do conhecimento.

Somente um pensador da gestão empresarial com certa sensibilidade poderia nos brindar com duas frases tão emblemáticas (e que dão o que pensar) enquanto fala sobre os rumos da sociedade moderna:

"O lucro é o oxigênio da empresa, mas viver é muito mais do que respirar." - Peter Drucker

"Navegar é preciso, viver não é preciso." - Fernando Pessoa


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Crédito da imagem: Cena de "Tempos Modernos" (filme de Charles Chaplin, uma sátira da era industrial)

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25.4.10

Ainda é tempo

Hoje em dia é fácil encontrar inúmeros discursos a favor da ecologia, do desenvolvimento sustentável e do combate ao aquecimento global (na realidade deveríamos usar o nome mais apropriado: mudanças climáticas). O grande problema é que grande parte deles são apenas textos apocalípticos, quase que um "lamento prévio" do eminente fim da humanidade (sim, porque a Terra continuará muito bem, obrigado). O discurso do cientista Carlos Nobre se diferencia exatamente por, além de analisar a fundo a raiz do problema (o advento da "maior religião do mundo" - o consumismo), ele também propor maneiras extremamente racionais e verossímeis para se lidar com o problema da melhor forma, e a curto prazo. Ainda é tempo, mas ele é curto...

"A destruição do que não existia – de valores apenas virtuais, sem base real – pode ser a oportunidade de mudarmos de rumo econômico e impedirmos a destruição do que realmente existe: a natureza, o mundo, o planeta. O Brasil se tornou uma potência agrícola, isso não é original. Mas ele tem a chance de ser a primeira potência ambiental do planeta – e de comandar uma mudança de civilização. Que papel podemos ter nisso, nós que aqui estamos?"

Palestra de Carlos Nobre no programa Café Filosófico CPFL da TV Cultura. Gravada no dia 28/10/09, em São Paulo. Tempo: aprox. 50m. Infelizmente só abre no site do programa:

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8.11.09

Orwell e Huxley

Texto de "Amusing Ourselves to Death", por Neil Postman. Tradução transcrita do blog de Marcelo Del Debbio.

George Orwell escreveu 1984. Aldous Huxley escreveu Admirável Mundo Novo.

Orwell temia aqueles que banem os livros.
Huxley temia que não houvesse razão para banir livros, por que ninguém mais se interessaria em ler algum.

Orwell temia a censura das informações.
Huxley temia que nos oferecessem tanta informação que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo.

Orwell temia que a verdade fosse ocultada de nós.
Huxley temia que a verdade fosse soterrada em um mar de irrelevância.

Orwell temia que nós nos tornassemos uma cultura oprimida (capturada).
Huxley temia que nos tornassemos uma cultura irrelevante, trivial, preocupada com "some equivalent of the feelies, the orgy porgy, and the centrifugal bumblepuppy".

Em 1984, as pessoas eram controladas pela dor.
Em Admirável Mundo Novo, elas eram controladas por prazer.

No final, Orwell temia que o medo nos arruinasse.
E Huxley temia que o desejo nos arruinasse.

Qual cenário parece ser mais convincente nos dias de hoje?

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O próprio Aldous Huxley deu a sua opinião sobre o assunto:

Dá o que pensar, não?

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8.1.07

Como será o amanhã?

Essa é uma pergunta recorrente de todas as épocas da humanidade... Mas, principalmente nas últimas décadas, ela tem gerado muito mais apreensão do que esperança. Vejamos uma breve lista do que o amanhã nos espera, segundo a mídia globalizada:

1. Violência crescente nos grandes centros urbanos, gerada muitas vezes pelo mercado de drogas, que é ironicamente financiado exatamente pela classe que mais teme essa violência.
2. Terrorismo crescente no mundo, devido a incompatibilidade de fanáticos religiosos que querem continuar no passado medieval e progressistas disfarçados de grandes ícones da sabedoria do dito mundo civilizado, que querem trazer um futuro a força, ignorando culturas e, principalmente, destroçando economias.
3. Aquecimento global e consequente aumento das mazelas da natureza, o que é apontado por muitos como uma espécie de vingança da mesma contra a ocupação predatória do homem sobre a Terra, assim como alguns atos de ignorância extremada (vide Hiroshima e etc.)
4. Aumento crescente do desemprego, assim como do abismo social entre as classes ricas e pobres, principalmente nos países do hemisfério sul. Mesmo nos países do norte, há também a bomba relógio da previdência social, o que teoricamente consumirá boa parte dos recursos que os governos precisariam investir em outras áreas, inclusive para geração de mais empregos.
5. A tragédia da Africa, o continente de onde boa parte de nossas civilizações surgiu, e que ironicamente hoje vive um caos social, inclusive nos países onde o número de homens e mulheres com aids beira os 50%.

Bem, com certeza não são perpectivas muito promissoras... Mas será então que antigamente, bem antigamente, as coisas eram melhores? Será que na Grécia antiga os homens não precisavam se aborrecer com muita coisa e podiam passar seus dias filosofando nos jardins? Será que na época em que Jesus caminhou pela Judéia todos eram felizes apenas por saber que um grande profeta estava entre eles? Será que na época das grandes cruzadas os homens eram esperançosos por acreditarem que no futuro todos os bárbaros do sul que um dia foram seus invasores seriam convertidos ao catolicismo e, portanto, seus mais novos e amados irmãos? Será que na Alemanha de Hitler, as pessoas estavam mais tranquilas por acreditarem que as raças impuras seriam varridas do mundo e que seu grande líder os levaria a serem os perfeitos herdeiros da Terra?

Vocês devem estar refletindo sobre essas diversas perguntas. E, admitamos, sempre existiram mazelas e miseráveis na humanidade, assim como sempre existiram pequenas elites que se fartaram com o bom e o melhor que a vida lhes poderia oferecer na época... Ocorre que, mesmo desconsiderando os avanços da medicina, da eletrônica e do saneamento básico, será que, moralmente e a nível de esperança, o mundo antigo era melhor do que o atual?

Será que, antigamente, o que se via no Coliseu (homens lutando até a morte ou devorados por feras) era melhor do que o que se vê hoje em estádios de futebol ou de esportes em geral? Será que a violência em vilarejos perdidos nas fronterias de reinos, onde mulheres podiam ser estupradas e vilas invadidas e massacradas por invasores, era ela menos brutal do que a violência de hoje? Será que os homens e mulheres que arderam em fogueiras humanas por defenderem a ciência acreditam que hoje nossas leis são piores do que as daquela época? Será que os índios que foram massacrados em todos os cantos da América, e que viram a natureza ser tratada como moeda de troca pelos grandes colonizadores europeus acreditariam eles que hoje o homem respeita ainda menos a natureza do que antigamente?

Não.

Definitivamente, a humanidade anda para frente... Devagar e a passo de anta, talvez, mas sempre adiante. Hoje melhor do que ontem, e amanha, com certeza, melhor do que hoje.

Aqueles que não acreditam ou tentam achar uma explicação para o baixíssimo nível de esperança ante ao futuro na humanidade de hoje, deixo uma simples reflexão:

Os homens sempre foram assim, sempre reclamaram de barriga cheia. Há muitos que vem a Deus pedir por bençãos e rumos a tomar, mas muito poucos que se preocuparam em achar esses rumos por eles mesmos, e a Deus tudo o que fizeram foi agradecer profundamente por esse universo maravilhoso onde todos tem a oportunidade de evoluir, sempre.

A grande diferença é que hoje o conhecimento está mais difundido. Pela inabilidade de lidar com tal conhecimento e viver num mundo verdadeiramente globalizado, os homens ficam aterrorizados com quase tudo, desde um acidente de trêm na Índia a um assassinato na Inglaterra. A mídia globalizada nos trás tudo o que queremos ver, e infelizemente muitos de nós, por falta de opnião própria, continuam fixados apenas nas tragédias. Voltemos para a luz, que hoje, mais do que nunca, existe em abundância nessa Terra.

Os dias da grande virada estão sempre "por vir", talvez seja hora de não esperarmos mais por eles, e acreditar que estamos sim caminhando sempre em frente. E que essa tal grande virada é tão somente uma nova forma de encarar a vida. Feliz amanhã a todos!

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