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5.11.12

Geometria Sagrada na Dança

Recentemente participei do III Simpósio de Hermetismo, em São Paulo, onde tive a oportunidade de conhecer diversas grandes almas... Ainda citarei algumas delas aqui no blog, mas fico feliz de começar trazendo este belo texto de uma dançarina do Cosmos, Paola Blanton [1] (o comentário ao final é meu):

Geometria é o primeiro de muitos prazeres para a Dançarina Celestial. A harmonia simples de um círculo chama os aspectos mais puros e inocentes de nossas almas - círculos na areia, no céu, nos nossos joginhos. Oh, como nós brincavamos, lembra-se? Girando e rindo, pura alegria...

Para a frente vai a vida num espiral, de modo que nós, presos em ciclos e vórtices, ainda seguramos nossos centros, nossos pequenos centros instintivos.

A Dançarina Celestial descobre seu corpo como uma bússola instintiva; orientando ela para um mundo sujeito às mesmas leis, orientações e dinâmicas. Ela herda a Dança Circular, dançando por alegria e centro tribal. Na harmonia do círculo ela aprende as direções cardeais e alinha seu eixo com o da Terra.

Ela logo descobre o corpo como uma ferramenta de escritura. Ela começa a traçar os contornos de seu universo, pintando em 3D, esculpindo esferas de poesia que derretem de volta para o caos até que ela expressa-los novamente no ciclo de vida / morte / vida das ideias. Ela acrescenta o poder da visão a suas criações, enxergando-os interna e externamente, deixando-os expandir no espaço.

Girando sozinha no espaço, ela se une com a energia dinâmica do círculo. Em espírito de oração, ela permite que a força circular a transforme. No centro do vórtice, o corpo torna-se uma ferramenta de revelação, capaz de revelar os mistérios mais profundos de seu Ser.

No centro do vórtice, há grande poder de cura enquanto nossas impurezas começam a se separar de nossos corpos físicos e energéticos. A Dançarina Celestial entra no jogo, girando, espiralando, surfando, voando, explodindo e implodindo em meio do caos. Ela sabe que o caos é um energia que pode moldar, transmitir e transmutar. Mas ela mantém seu centro, porque que ela tenha aprendido algumas coisas por aqui, e o Grande Fluxo é uma delas.

É por isso que ela não tenta conter ou parar esta energia, porque a Dança do Universo nunca pára, e, além disso, como você pode segurar o oceano em um dedal? Ela dança como parte e partícula, tecendo e ondulando entre fios e cordas e teorias e realidades. Órbitas se enfrentam e épocas se encerram, mas o Universo continua girando, e nós também.

É por isso que eu danço. Porque o simples apreciação de um círculo é apenas o começo de um direito de nascença de consciência cosmicamente proporcionado. Movimento é o estado natural do Universo, e nós somos parte do Universo. Movendo-se em círculos e ciclos, nós re-criamos os grandes códigos geométricos do Universo. Nós vivenciamos nossos centros, velocidades, centrífugas, expansões, contrações...Começamos a ampliar nossos sentidos e despertar nossas faculdades sutis. Nós sutilmente fundimos nossos navios genéticos, nossos corpos, com o Grande Fluxo através dos sacramentos da respiração e suor - purificando nossos corpos ao limparmos a nossa percepção.

E quando condensa a essência purificada de volta a nossa Ânfora, gota por gota, como um perfume raro, o círculo está lá para cumprimentar cada gota, irradiando para fora numa piscina de luz líquida, essência destilada em repouso. E assim vai, até a próxima.

Dançarinos Celestes, todos nós somos, e somos todos um. Não há falcoeiro, falcões colegas, há apenas o Fluxo, em espiral e vivo, movendo-se e respirando. Vamos celebrar a Dança Celestial juntos, em comunhão consciente e para a alegria e cura da tribo. Em círculos, em fogueiras, na praia, no sonho, eu vou te encontrar lá, meu povo, e nossas almas vão voar.

"Nada está parado, tudo se move, tudo vibra" (Lei da Vibração, do Hermetismo)

***

Comentário (livremente inspirado no texto acima):

Quando estou antevendo qualquer tristeza que possa se prolongar por falta de cuidado (mental), eu danço. Danço a noite, em casa, só, ou as vezes com a lua como espectadora e reflexo. Ouço antigas canções judaicas, ou modernas inspirações que surgiram na Islândia, ou qualquer cantiga que algum povo já cantou em volta de uma fogueira...

As vezes sou o auxiliar de um aborígene, o vento que sopra em torno da tenda do xamã, um gaulês desgovernado numa taberna medieval, uma cigana (e não há nada a se acrescentar sobre elas), um japonês fazendo cosplay de si mesmo, um dervixe, um átomo girando em torno do reflexo do Sol (pois que é noite). E giro, giro, junto ao ritmo, em silêncio...

E, quando paro de rodopiar, estou suado, bastante suado... É que cansa converter tristeza em alegria, mas através da dança, nem sinto esse tal cansaço.

***

[1] Saiba mais sobre Paola em seu site pessoal: www.paolablanton.com

Crédito da imagem: Desconhecido.

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17.8.11

A descoberta do Cosmos, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Werner Jaeger em "Paidéia: a formação do homem grego” (Ed. Martins Fontes), tradução de Artur M. Parreira – Trechos das pgs. 204, 205, e 208 a 210. Os comentários ao final são meus.

Pitágoras é um homem universal, que abrange de fato muitas coisas heterogêneas: a doutrina dos números e os elementos da Geometria, os primeiros fundamentos da acústica, a teoria da música e o conhecimento dos tempos dos movimentos das estrelas; a partir daí pode-se atribuir também a Pitágoras o conhecimento da filosofia natural milesiana. Além disso, e sem qualquer conexão com tudo aquilo, a doutrina da transmigração de almas, vinculada à seita religiosa dos Órficos, está vinculada com certeza à pessoa de Pitágoras, e Heródoto considera-a típica dos mais antigos pitagóricos [1]. Relacionam-se com ela os preceitos morais atribuídos ao fundador. Heródoto afirma o caráter religioso da comunidade que ele fundou. Assim subsistiu na Itália meridional durante mais de um século, até a sua destruição, por motivos políticos, nos fins do séc. V.

A concepção pitagórica do número como princípio das coisas está prefigurada na simetria geométrica rigorosa do cosmos, de Anaximandro. Como concepção puramente aritmética, é incompreensível [2]. Segundo a tradição, deve a sua origem à descoberta de uma nova legalidade da natureza, a da relação entre o número de vibrações e o comprimento das cordas da lira. Mas, para estender o domínio do número a todo o cosmos e à ordem da vida humana, foi necessária uma audaciosa generalização das observações, baseada, sem dúvida alguma, na simbologia matemática da filosofia milesiana da natureza.

A doutrina pitagórica nada tem a ver com a ciência matemática natural, no sentido atual. Os números têm nela um significado muito mais vasto. Não significa a redução dos fenômenos naturais a relações quantitativa calculáveis. A diversidade dos números representa a essência qualitativa de coisas completamente heterogêneas: o céu, o casamento, a justiça, o kairos, etc. Por outro lado, quando Aristóteles nos diz que os pitagóricos faziam consistir as coisas em números, no sentido de matéria, refere-se indiscutivelmente a uma materialização indevida desta identificação abstrata do número com o ser. Não devia estar longe da verdade quando considerava as semelhanças dos números com as coisas um princípio não menos grosseiro que o fogo, a água, a terra, de que as especulações anteriores derivavam todas as coisas [3].

[...] Não sabemos que íntima ligação havia entre a especulação matemática e musical e a doutrina pitagórica da transmigração das almas [4]. O pensamento filosófico daqueles tempos era essencialmente metafísico. Assim, o mito irracional da origem das almas devia proceder do campo das crenças religiosas. A doutrina análoga dos órficos foi provavelmente a fonte da representação pitagórica da alma. Os filósofos posteriores também estão mais ou menos influenciados por ela.

O séc. VI, que, após o naturalismo dissolvente do séc. VII, é uma luta decisiva em prol de uma nova estruturação espiritual da vida, não representa só um vigoroso esforço filosófico, mas também uma pujante expressão religiosa. O movimento órfico é um dos mais significativos testemunhos desta nova intimidade que penetra até o mais profundo da alma popular. No seu anseio por um sentido novo e elevado da vida, está em contato com o esforço do pensamento racional das concepções filosóficas para atingirem uma “norma” objetiva no ser cósmico.

[...] Só por uma profunda necessidade dos homens daquele tempo, aos quais a religião cultural já não satisfazia, se explica a rápida difusão do movimento órfico nas metrópoles e nas colônias. Os outros movimentos religiosos desse tempo, a prodigiosa força do culto de Dionisios e a doutrina apolínea de Delfos, revelam também o crescimento das necessidades religiosas pessoais. É para a história das religiões um mistério a estreita vizinhança que no culto délfico une Apolo e Dionisios [5]. É evidente que os gregos sentiram que havia algo de comum na contraposição de um ao outro.

[...] Mas a religião grega alcançou em Delfos a influência mais profunda como força educativa, e ampliou-a para além das fronteiras da Grécia. As máximas mais célebres dos sábios da terra eram votadas a Apolo e apareciam como um simples eco da sabedoria divina. E quem entrava no templo via à porta as palavras “conhece-te a ti mesmo” [6], a doutrina da sophrosyne, a exortação a não perder de vista os limites do Homem, gravada com o laconismo legislativo próprio do espírito da época.

O sentido da sophrosyne grega seria mal compreendido se interpretado como expressão de uma natureza inata, de uma índole harmônica e jamais perturbada. Para compreendê-la, basta perguntar por que foi justamente naquele tempo que ela irrompeu de forma tão imperativa, de modo a penetrar subitamente, nas profundezas mais inesperadas da existência e, principalmente, da intimidade humana. A medida apolínea não é a excrescência da tranquilidade e do conformismo burguês. A autolimitação individualista é um dique para a atividade humana. A maior ofensa aos deuses é “não pensar humanamente” e aspirar à elevação exclusiva.

[...] A felicidade dos mortais é mutável como os dias. O Homem não deve, portanto, aspirar ao que está alto demais. No entanto, a necessidade humana de felicidade acha um remédio para este trágico saber, no mundo da sua intimidade, quer no alheamento da embriaguez dionisíaca, que aparece como o complemento da medida e rigor apolíneos, quer na crença órfica de que a “alma” é a parte melhor do Homem e está orientada para um destino mais alto e mais puro [7]. O sóbrio relancear do espírito de investigação pela profundidade da natureza oferece ao Homem o espetáculo da geração e da corrupção incessantes, governado por uma legalidade universal indiferente ao Homem e ao seu insignificante destino, e que transcende com a sua férrea “justiça” a nossa breve felicidade.

Daí surge no coração humano, como força interior que se opõe a esta dura verdade, a crença no seu destino divino. A alma, inacessível ao conhecimento natural, aparece nesse mundo inóspito como um estrangeiro que anseia pela sua pátria eterna. A fantasia dos simples pinta a imagem de uma vida futura no além, como uma vida de gozos sensíveis; o espírito dos nobres luta pela própria afirmação no meio da voragem do mundo, com a esperança de uma redenção pela consumação do seu caminho [8]. Ambos, porém, coincidem na certeza do seu destino superior.

E o fiel que chega aos umbrais do outro mundo pronunciará, como santo e senha da fé em que baseou a sua vida, a intrépida máxima: Também eu sou da raça dos deuses. Estas palavras estão gravadas, como passaporte para a viagem para o outro mundo, nas pequenas tábuas órficas de ouro, achadas nos sepulcros do sul da Itália.

***

[1] Em realidade, para qualquer espiritualista com certo conhecimento é até mesmo óbvio que existia uma conexão entre “tudo aquilo” o que Pitágoras estudava e ensinava – em suma: conhecimento naturalista, poesia, arte, padrões musicais e geométricos, filosofia e espiritualidade. No orfismo já tínhamos as bases religiosas presentes em religiões tão antigas e separadas umas das outras quanto o hinduísmo e as crenças do Egito antigo – e, no cerne de tudo, o conceito de reencarnação e vida espiritual.

[2] Tome muito cuidado com pretensas “ciências ocultas” como a Numerologia Pitagórica, e tantas outras, que como esta quase nada tem a ver com o que Pitágoras ensinava – se quiser compreender o sentido religioso dos ensinamentos pitagóricos, o melhor caminho é estudar diretamente o próprio orfismo, que era a sua fonte. Segundo o ocultista Marcelo Del Debbio, a “numerologia que funciona” é a Gematria, ligada diretamente a Kabbalah.

[3] Acaso Aristóteles tivesse vivido no século passado, quando os físicos teóricos conceberam a Teoria das Cordas, ou Teoria-M – que resumidamente afirma que toda a matéria e todas as coisas são formadas pela ondulação de minúsculas cordas (e não partículas), de cuja vibração são produzidas partículas de maior ou menor massa –, talvez não estivesse tão certo de sua crítica ao que os pitagóricos propuseram auxiliados pela pura intuição.

[4] Praticamente nenhuma. É tão simples: basta voltar o olhar para o que os hindus especulavam no oeste, e os antigos egípcios especulavam séculos antes, no sul. Assim como no orfismo, todos observavam uma mesma lei natural, e não poderia ser de outra forma – estavam todos no mesmo Cosmos.

[5] Nietzsche dedica um livro ao assunto (“O nascimento da tragédia”): do antagonismo existente entre Apolo, deus das artes plásticas, e Dionisios, deus da arte não-figurada – como, por exemplo, a música – surge a tragédia grega em seu pleno vigor, e se caracteriza por ser uma tragédia sem a total moderação apolínea ou o total desregramento dionisíaco.

[6] Complementada, em inscrição na parte interna do templo: “e conhecerás o universo e os deuses”... Porque a segunda parte é hoje, “oculta”, deixo que cada um julgue por si mesmo.

[7] Que deveria ser compreendido como um destino que se constrói desde hoje, e não num céu distante, conforme o cristianismo limitou tal conceito.

[8] Ou, em outras palavras, os simples querem se ver livres deste mundo o quanto antes, a fim de poder desfrutar de uma vida de gozos no além; Enquanto o nobre procura fazer deste mundo uma terra, senão de gozos eternos, ao menos de justiça e fraternidade. Esta é a essência da Paidéia.

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Crédito da foto: Rosario Miranda.

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8.8.11

Natureza em números

Um vídeo inspirado pela natureza, a geometria e os números, por Cristóbal Vila:

Muitas estruturas naturais podem ser associadas, em suas formas geométricas, a sequências numéricas e ângulos conhecidos como razão áurea; que foi também usada por muitos grandes artistas, particularmente no Renascimento.

Essa razão aparece no DNA, no comportamento da refração da luz, dos átomos, nas vibrações sonoras, no crescimento das plantas, nas espirais das galáxias, nos chifres de elefantes, nas ondas do oceano, furacões, etc.

Quando descreve a natureza física, a matemática é ciência. Quando descreve a imaginação humana, arte. Quando descreve o infinito, sagrada.

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24.6.11

Rolando poliedros

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

A chamada tradição oral é a preservação de histórias, lendas, usos e costumes através da fala. Origina-se do primórdio da história humana, quando ainda não havia a escrita e os materiais que pudessem manter e circular os registros históricos. Na atualidade própria das classes iletradas, a tradição oral tem sido, contudo, muito valorizada pelos eruditos que se dedicam ao seu estudo e compilação (os contos dos Irmãos Grimm, por exemplo), ao considerarem que é na tradição oral que se fundamenta a identidade cultural mais profunda de um povo. Supõe-se, por exemplo, que a Ilíada e a Odisseia de Homero foram, inicialmente, longos poemas recitados de memória.

Joseph Campbell gostava de dizer que “o mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre”. Esse aparente paradoxo pode ser reconciliado se entendermos a tradição oral, mãe da mitologia, como a melhor forma com a qual o espírito humano pôde passar adiante suas experiências no contato com a essência das coisas, com o que há de eterno no mundo. Dessa forma, todas as variantes de um mesmo mito são, no fundo, uma mesma história. E toda mitologia é, no fundo, uma mesma mitologia, uma mitologia do espírito humano.

Mas hoje não vivemos mais em tribos e aldeias, e nem todos necessitam decorar tais histórias antigas. Além disso, não são os xamãs nem os anciãos quem nos passam os mitos, mas alguns poucos textos sagrados de outrora, que até hoje inspiram inúmeras variações na mente dos contadores de histórias modernos – a quem conhecemos, principalmente, como artistas. Existem mitos sendo recontados em todos os cantos: nos livros de vampiros adolescentes, nos filmes de Hollywood, nas séries de TV de fantasia, e até mesmo num gibi.

Desde pequeno eu fui imediatamente atraído pela mitologia dos super-heróis do século passado. E o meu predileto é Steve Rogers, o Capitão América, que era fisicamente fraco, mas ao passar pelo processo “mágico” do projeto do supersoldado, tornou-se um ser sobre-humano. No entanto, a maior força de Steve sempre foi sua honra e sua ética, sua compaixão pelos fracos – tão fracos e indefesos como ele fora um dia. Ora, essa história é um mito, e esse mito nada tem a ver com os Estados Unidos da América. Steve calhou de ter sido criado durante a Segunda Guerra, por quadrinistas americanos, e por isso serviu como um elemento patriótico na luta contra o nazismo. Mas a guerra acabou. As guerras passam, os mitos permanecem.

Por isso os heróis das histórias precisam continuar lutando suas guerras, e vivenciando suas aventuras e jornadas de heróis – tais histórias podem hoje terem se tornado superficiais, mitos “diluídos” em uma sociedade que em sua maior parte se esqueceu da espiritualidade antiga... Mas ainda continuam narrando, em essência, aquilo que está fora do tempo. Continuam se tratando de jornadas espirituais. Mesmo que não saibamos, estamos até os dias de hoje vivenciando a mitologia, apenas uma mitologia moderna, que nos chega através de gibis e filmes 3D, e não pela boca de um contador de histórias, próximo à fogueira no centro da aldeia, numa noite de céu estrelado – salpicado de super-heróis.

Essa festa pode não ter nada de aparentemente estranha, mas isso é porque poucos interagem com os mitos. As histórias contadas da maneira antiga serviam principalmente para que cada homem e cada mulher se imaginassem como o herói ou heroína através de sua jornada. Não era algo para se ouvir e simplesmente decorar. Era algo para se ouvir, imaginar, experimentar, modificar, e só então passar adiante... Obviamente que as histórias foram alteradas, e seria estranho que não fossem. Mas, ainda mais estranho, é que tenham chegado aos dias atuais com sua essência inalterada – eis que são diversos modos de se abordar um mesmo mito, e o mito não se altera, pois sua essência reside fora deste mundo.

J. R. R. Tolkien foi um filólogo e escritor britânico que desde cedo se ressentiu do fato da maior parte da mitologia inglesa ter se perdido com o tempo. Ele decidiu resolver o problema criando uma nova mitologia inglesa. Claro que de nova ela não tinha nada, pois que todos os mitos são tão antigos quanto à humanidade, mas era uma mitologia moderna, uma mitologia que cativou seguidores em todo o mundo... Só para terem uma ideia, existem grupos que se reúnem para falar em quenya, um idioma fictício que existe apenas nas obras de Tolkien. Esses estão literalmente “entrando na história”, vivenciando o mito.

Mas foi através de Gary Gygax que encontramos uma forma totalmente inesperada de vivenciar mitos. Em 1974 ele adaptou, junto com seu amigo Dave Arneson, um jogo de guerra baseado no movimento de miniaturas em um tabuleiro. O tabuleiro passou a ser irrelevante, as partidas passaram a ocorrer principalmente na imaginação dos jogadores, e todos se tornaram contadores de histórias – novamente. No jogo de Gygax, o primeiro Role Playing Game da história (“Jogo de Interpretação de Personagens”), heróis enfrentavam jornadas épicas e aventuras sem fim, adentrando masmorras obscuras como labirintos de minotauros, e digladiando-se com dragões e outros seres mitológicos... Cabia ao jogador designado como mestre do jogo, um novo xamã da tribo, determinar o desenrolar da história – mas todas as escolhas dos heróis eram feitas por eles próprios, os jogadores. Todos estavam vivenciando a jornada.

Os resultados se suas ações eram determinados pelo resultado obtido em se arremessar poliedros regulares na mesa. Os famosos sólidos de Platão e Pitágoras continuavam a ser sagrados – são os rolamentos dos dados de 4, 6, 8, 12 e 20 faces que decidem o destino dos heróis (bem, existe também o dado de 10 faces, embora este não seja um poliedro regular). Todo jogo de RPG tem alguma coisa de experiência religiosa, mas foi só muito tempo depois de ter jogado a primeira vez, com cerca de 11 anos de idade, que me apercebi disso.

Cheguei a criar meu próprio mundo de fantasia e cenário de RPG. A mitologia moderna me atraiu, e não poderia ter sido de outra forma. Hoje compreendo: aquele jogo tão distinto, onde o tabuleiro existia principalmente em nossa mente, foi talvez a minha primeira festa estranha.

E, se não lhes pareceu suficientemente estranha, gostaria de lembrar brevemente que quando um personagem com o qual jogamos RPG eventualmente morre na história, podemos ser ressuscitados por feitiços, mas também podemos ter de criar um novo personagem. E, não importa se este novo é um guerreiro ou ladrão, enquanto o antigo era um clérigo ou mago, nosso entendimento do jogo se desenvolveu, nosso potencial para jogar e interpretar cada vez melhor é hoje maior do que ontem. E, se tivermos de começar uma vez mais do nível 1, não significa que tenhamos perdido a experiência de um dia termos chegado, quem sabe, a um nível 13 ou 14... Um dia chegaremos finalmente ao nível 20, e depois quem sabe a semi-deuses, e depois a algum nível que nem mesmo Gygax descreveu nas regras. E teremos de criar novas regras nós mesmos.

Assim também ocorre com o espírito. Esta vida é meu mais novo personagem, e sinceramente não sei mais em que nível eu estou...

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Crédito da foto: Jason Thompson

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19.7.10

Reflexões sobre a perfeição, parte 1

A perfeição é um estado de completude e ausência de falhas. Normalmente atribuímos a perfeição a um Criador, um Ser Perfeito ou as Leis da Natureza.

Natureza imperfeita

Ante a grandiosa perplexidade que a observação profunda da natureza nos imprime a alma, somos inexoravelmente levados a crer que o Cosmos – tudo o que há, que foi ou que será – é perfeito. Apesar de ser muitas vezes complexo para nós definir tal perfeição, quase sempre a associamos com a beleza, a simetria, a homogeneidade das formas naturais.

Na geometria a perfeição parece estar associada ao círculo: um espaço onde todos os pontos estão à mesma distância do centro, e conseqüentemente não temos nenhum ponto em posição privilegiada em relação aos demais. Essa igualdade nos parece sublime, e muitas vezes a tentamos traduzir para a realidade, tanto que muitos símbolos e signos da geometria sagrada se baseiam ou contém o círculo... Entretanto, ainda temos o ponto central do círculo – este está em posição privilegiada, na medida em que está a mesma distância de todos os demais. O centro é necessário para que os outros pontos se sintam em igualdade. Retire o centro e teremos novamente uma guerra em busca do ponto de superioridade. É mais simples supor que Deus está no centro. A mente de Deus, o motor inicial do Cosmos, a essência da natureza – aí está a perfeição!

Porém, quando aplicamos essa noção ao espaço-tempo, não temos o resultado que esperaríamos. Segundo a cosmologia, é impossível definir um “centro espacial” do universo. Certamente segundo a teoria do Big Bang, toda a matéria e energia cósmica foi catapultada de um mesmo “ponto inicial”, mas o espaço-tempo cresceu por igual em todas as direções. É como se o próprio centro crescesse ele mesmo, e não os pontos que estavam a sua volta... Nenhum ponto do universo está “em torno de algum centro”, pois que todo o espaço-tempo é ele mesmo um único ponto original que simplesmente cresceu rumo ao infinito. Não há nada fora nem além do universo – e, se é que há, haverá de ser o que o criou.

Costuma-se imaginar que a natureza é perfeita. Perfeita, simplesmente porque é o que havia já aqui muito antes de nós chegarmos (ou pelo menos, muito antes de nossa lembrança de estarmos conscientes da chegada). Como imaginar uma natureza imperfeita? Como imaginar falhas no projeto da criação? A ciência tem descoberto algumas...

Por exemplo: a grama é verde por causa do pigmento clorofila, que absorve as regiões azuis e vermelhas do espectro eletromagnético da luz solar. Por causa dessas absorções a luz que a grama reflete nos parece verde. Entretanto, as regiões verdes e amarelas do espectro da luz solar são as mais energéticas. Portanto, se formos pensar em perfeição no sentido de funcionalidade, a fotossíntese das plantas traria muito mais energia química caso a clorofila absorve-se as regiões verdes e amarelas do espectro, ao invés de absorver as regiões azuis e vermelhas. Seria isso um “erro de design” da natureza?

Não paremos por aqui. Se a grama parece ter “escolhido a cor errada”, mesmo o tão aclamado “projeto homo sapiens” parece ter os seus erros... Soluços, por exemplo, que variam de um aborrecimento passageiro a uma doença que pode durar meses ou, em raríssimos casos, anos. O soluço é provocado por um espasmo de músculos na garganta e no peito. O som característico é produzido quando inspiramos ar repentinamente enquanto a epiglote, uma aba de tecido macio localizada no fundo da garganta, se fecha. Todos esses movimentos são involuntários; soluçamos sem nem pensar no assunto. Os soluços revelam pelo menos duas camadas da nossa história evolutiva: uma parte compartilhada com os peixes e outra com os anfíbios, de acordo com uma teoria bem fundamentada [1].

Herdamos dos peixes os nervos principais usados na respiração. Um desses conjuntos de nervos (frênico) estende-se da base do crânio ao tórax e ao diafragma. Esse caminho sinuoso cria alguns problemas; qualquer coisa que interrompa o trajeto desses nervos pode interferir na respiração. Uma simples irritação pode deflagrar os soluços. Um projeto arquitetônico mais radical do homo sapiens teria colocado o início dos nervos frênicos em local mais próximo do diafragma e não do pescoço.

Já o soluço em si parece ter vindo do passado em comum com os anfíbios. Quando usam a respiração braquial, eles enfrentam um grande problema – precisam bombear água para a boca e garganta e depois para as brânquias, mas essa água não pode entrar nos pulmões. Como conseguem isso? Enquanto inspiram, eles fecham a glote, impedindo que a água escoe pelas vias respiratórias. Pode-se dizer que eles respiram com as brânquias usando uma forma estendida de soluço. Remexendo em nossa história evolutiva, vemos que uma boa parte dela se deu em oceanos, córregos e savanas – e não em cidades, igrejas ou academias.

Para muitos religiosos, essa “ousadia” em se criticar a natureza suscita um senso de ingratidão, de falta de respeito... Provavelmente são os mesmos que criticam qualquer tentativa dos biólogos e geneticistas de “intervir” na natureza – clonando, modificando, até mesmo adicionando informações a obra divina.

Louis Pasteur dizia que “uma pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”. Eu gostaria de estender essa citação a religião: “um pouco de religião nos esconde a Deus. Muito, nos mostra-O em todo o Seu esplendor”... Para tentar lhes demonstrar o que eu quero dizer com isso, é preciso primeiro falar sobre o paradoxo da perfeição...

Na continuação, as imperfeições que geraram o Cosmos, e uma visão mais aprofundada do que é realmente a perfeição.

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[1] Para saber mais consultar “A história de quando éramos peixes”, de Neil Shubin (Ed. Campus).

Crédito da foto: James L. Amos/Corbis

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21.2.10

O universo-coral

O físico e surfista Garret Lisi apresenta no TED uma nova teoria sobre tudo baseada na geometria das partículas sub-atômicas e em sua possível relação com a geometria de 8 eixos de certos corais. Ainda não está muito bem explicado, mas sua teoria tem sido cada vez mais considerada como um contra-ponto a Teoria M e, no mínimo, uma bela aposta na capacidade da beleza da geometria em descrever o universo em que vivemos, unificando a gravidade com as outras forças (ainda que usando pontos, e não cordas ou branas):

Para ver com legendas em português: clicar no link "View subtitles" e selecionar "Portuguese (Brazil)" na lista.

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23.11.09

A galáxia e o furacão

Continuando a assistir a longa e hipnótica palestra de Nassim Haramein no YouTube [1], chagamos agora a um curioso conceito: em padrões fractais todo ponto é um centro em si mesmo. Se o universo é um fractal, cada um de nós pode ser o seu centro, a partir do nosso ponto de vista particular (consciência).

O universo vibra em nosso redor. Porém, tudo que vibra tem um ponto de imbobilidade, a referência de onde tudo gira, o "olho do furação", a singularidade de um buraco-negro... Dá o que pensar.

Com suas demonstrações teóricas, sem medo de misturar ciência com espiritualidade (talvez fosse melhor dizer - geometria antiga e ocultismo), até mesmo por obviamente conhecer bastante dos dois assuntos, Haramein deve no mínimo ser considerado como um potencializador de novas teorias para nossa cosmologia... Interessante que sua previsão de que todas as galáxias teriam em seu centro um buraco negro super-massivo acabou se confirmando, aparentemente, pelo menos em nossa Via Láctea [2].

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[1] Para continuar vendo, na sequência deste primeiro vídeo no link, basta ir clicando em "Este vídeo é uma resposta a..." logo abaixo dos videos no YouTube.

[2] Maiores informações:
» At the Center of the Milky Way (NASA)
» Buracos Negros Supermassivos no centro de todas as galáxias? (UFRGS)

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» Todos os posts sobre Nassim Haramein

Nota: Nassim Haramein até hoje não tem trabalhos científicos publicados em sites ou revistas de renome, e suas teorias não são consideradas de forma séria (ao menos até o momento) pela comunidade científica internacional. Isso não quer dizer que seja um charlatão ou uma fraude, apenas um homem com idéias heterodoxas acerca da geometria do Cosmos.

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