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25.2.19

Um mestre não chama a si mesmo de mestre (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo trago um alerta acerca dos autointitulados mestres espirituais, que costumam se valer de sua pretensa autoridade celeste para venderem cursos infalíveis, manuais quânticos e lotes no Sétimo Céu. Alguns deles podem estar interessados no seu dinheiro, outros podem estar interessados em seu corpo, mas dificilmente eles lhe farão avançar um passo que seja no Caminho. Dito isso, também explico no vídeo como podemos identificar os mestres genuínos, aqueles que desejam formar novos mestres, e não eternos discípulos. Ao final, leio um belíssimo trecho da obra-prima de Khalil Gibran, "O Profeta".

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11.7.18

Os 10 melhores livros sagrados (Reflexões no YouTube)

Para comemorar o décimo episódio de REFLEXÕES, trago minha singela lista com os dez maiores, melhores e mais importantes livros sagrados da história da humanidade até aqui (na minha humilde opinião é claro). Desde o "Cosmos" de Sagan ao "Bhagavad Gita", iremos transitar por filosofia, religião, espiritualidade e ciência, sempre em busca da experiência com o Sagrado, ou Natureza, ou Substância, ou Tao... bem, você entendeu!

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2.7.18

Gibran, a luz do Líbano

Gibran Khalil Gibran, mais conhecido no Brasil como Khalil Gibran ou apenas Gibran, foi o maior poeta do Líbano e um dos maiores poetas de todos os tempos, pelo menos no que tange a poesia mística. Além de poeta, foi filósofo e pintor de relativo destaque. Mas sem dúvida é hoje mais conhecido pela sua literatura, sobretudo por sua obra-prima, O Profeta.

Ele nasceu em 6 de dezembro de 1883, de família pobre. Cresceu em zona montanhosa próxima a uma floresta de cedros milenares, num dos berços mais antigos da própria civilização humana.

Em 1894 emigra para os EUA com a mãe, o irmão e duas irmãs. Apenas seu pai fica no Líbano. Gibran passa cerca de 4 anos em Boston com sua família, mas em 1898 retorna a sua terra natal para completar seus estudos árabes no Colégio da Sabedoria, na capital Beirute. Passados menos de 2 anos, retorna a Boston e passa a se dedicar a pintura e a literatura, sendo sustentado pela família.

Entre abril de 1902 e junho de 1903, Gibran perde uma irmã e um irmão para a tuberculose, e vê a mãe morrer de câncer. Resta apenas sua irmã Mariana, o que obriga Gibran a correr atrás de algum retorno financeiro para sua pintura (algo que já era difícil naquela época). Felizmente, numa de suas primeiras exposições conhece Mary Haskell, diretora de uma escola em Boston, que se torna uma mecenas e confidente durante boa parte de sua vida.

Com a ajuda de Haskell, em 1908 vai estudar arte em Paris e chega a conhecer e ter algumas aulas com o escultor Auguste Rodin. Voltando aos EUA em 1910, já tem sua carreira artística inicialmente consolidada, e decide se mudar para um estúdio em Nova York. Lá ele passará o resto da vida.

Em sua terra natal, seus livros em árabe já o tinham tornado um escritor muito reconhecido. Entretanto, após decidir traduzir alguns de seus livros do árabe para o inglês, ele acaba alcançando certo sucesso editorial também nos EUA; para tal, contou com a ajuda do seu editor, Alfred Knopf, e com as revisões e o aconselhamento de sua amiga, Mary, que nessa altura já não tinha mais necessidade de lhe manter financeiramente.

É a partir do sucesso de O Profeta, lançado em 1923, que Gibran passa a ser reconhecido como grande escritor, além de pintor. Com o passar das décadas, ele será lembrado em todo o Ocidente e no Oriente Médio como o grande poeta do Líbano. No entanto, Gibran mal participa desta fama internacional, uma vez que falece já em 10 de abril de 1931, em decorrência de uma crise pulmonar (a sua saúde sempre fora frágil).

A filosofia do coração
Segundo Mansour Challita, diplomata libanês que ajudou a traduzir boa parte de sua obra para o português, “Gibran não era um filósofo no sentido transcendental da palavra. Não trouxe uma nova doutrina, uma nova interpretação do universo. Ele era um filósofo no sentido humano da palavra, um pensador, um guia.

Gibran nos trouxe o que talvez mais falte a nossa época, tão rica e tão pobre ao mesmo tempo: uma nova fé no homem, uma nova fé na vida. Ele redescobriu o papel do coração. Pregou a ternura no meio das máquinas e da concorrência impiedosa dos nossos tempos.”

Como tão bem descrito em O Profeta, Gibran não veio nos ensinar nada novo, mas simplesmente nos ajudar a florescer. A sua filosofia era mais coração que razão, mais poesia que lógica:

Homem algum poderá lhes revelar nada além do que já se encontra meio adormecido na aurora do que vocês já conhecem. O mestre que caminha à sombra do templo, junto aos seus alunos, não doa da sua sabedoria, mas antes da sua fé e da sua compaixão. Se ele é realmente sábio, não lhes convidará a adentrar na mansão da sua sabedoria, mas antes deverá lhes guiar até o limiar de suas próprias mentes.

O astrônomo poderá lhes falar de sua compreensão do espaço, mas não poderá lhes doar esta compreensão. O músico poderá cantar para vocês seguindo ao ritmo que existe em todos os espaços, mas não poderá lhes conferir o ouvido que capta a melodia, nem a voz que a ecoa. E aquele que é versado na ciência dos números poderá lhes falar do mundo dos pesos e medidas, mas não poderá lhes encaminhar até ele.

Pois a visão de um homem não empresta suas asas ao outro. E assim como cada um de vocês se encontra isolado na consciência de Deus, da mesma forma cada um de vocês deve ter o seu próprio conhecimento de Deus e a sua própria compreensão do que jaz na terra.

Os filhos
Gibran acreditava no porvir, na lenta e gradual evolução espiritual da humanidade. Isso se refletia na forma com que tratava as crianças. Apesar de nunca ter tido filhos, Gibran parecia saber muito bem de onde eles vêm:

Seus filhos não são seus filhos. Eles são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Eles vêm através de vocês, mas não de vocês, e embora eles vivam ao seu lado, eles não pertencem a vocês.

Vocês podem lhes dar seu amor, mas não podem formar seus pensamentos, pois eles possuem seus próprios pensamentos. Vocês podem abrigar seus corpos, mas jamais suas almas, pois suas almas residem na Mansão do Amanhã, que vocês não podem visitar nem mesmo em sonhos.

Vocês podem lutar para ser como eles, mas não procurem fazê-los como vocês. Pois a vida não anda para trás e nem se demora com o ontem.

Não a paz, mas a espada
Gibran sempre foi muito intenso, seja na poesia, seja na pintura, seja em sua vida pessoal (o que pode ser conferido nas cartas que trocou com Mary). Ele parece ter vivido com o coração aberto, mas isto não significa que achava que o amor era algo “tranquilo e pacífico”. Assim como o Cristo, Gibran via no amor uma verdadeira guerra, uma guerra interna:

Quando o amor lhes acenar, sigam-no, embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados. E quando suas asas lhe envolverem, aceitem-nas, embora a espada oculta em suas plumas possa lhes ferir. E quando ele lhes falar, acreditem no que diz, embora sua voz possa despedaçar os seus sonhos como o vento do norte devasta ao jardim.

Pois assim como o amor os coroa, ele também os crucifica. E da mesma forma que auxilia em seu crescimento, trabalha também para a sua poda. E assim como ascende a sua altura e acaricia os seus ramos mais tenros que se agitam ao sol, também desce até suas raízes e as sacode em seu apego à terra.

Como feixes de trigo, ele os aperta junto a si. Ele os debulha para expor-lhes a nudez. Ele os peneira para livrar-lhes das suas cascas. Ele os mói até a extrema brancura. Ele os amassa até que se tornem maleáveis. Então ele os encaminha ao fogo sagrado, para que possam se tornar o pão místico do banquete divino.

Todas essas coisas o amor irá operar em seu interior para que conheçam aos segredos de seus próprios corações, e através deste conhecimento se tornem um fragmento do coração da Vida.

Entretanto, acaso em seu medo vocês buscarem apenas a paz e o prazer do amor, então será melhor que cubram a sua nudez e abandonem ao açoite do amor, para que deem risadas num mundo sem estações, mas nem todos os seus risos; e chorem, mas nem todas as suas lágrimas.

O amor nada oferece além de si mesmo e nada recebe além de si mesmo. O amor não possui, e tampouco pode ser possuído; pois o amor se basta em si mesmo.

Quando você ama não deveria dizer, “Deus está em meu coração”, mas sim, “Eu estou no coração de Deus”.

Na floresta
Se em O Profeta Gibran chegou ao limite da linguagem, em alguns de seus poemas isolados ele chega naquela zona mística onde as palavras já não dão conta de cobrir todo o entendimento. Assim, encerro aqui meu breve translado pela vida e a obra da luz do Líbano com Na floresta, talvez o seu poema mais inefável:

Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor.
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera.
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão,
se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor.

Na floresta não existe ignorante ou sábio.
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam.
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos,
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber,
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas.

Na floresta só existe lembrança dos amorosos.
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram,
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos.
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar...
Dá-me a flauta e canta!
E esquece a injustiça do opressor,
pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue.

Na floresta não há crítico nem censor.
Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: “Que estranho”.
Sábio entre nós é aquele que julga estranho apenas o que é estranho...
Ah, dá-me a flauta e canta!
O canto é a melhor loucura,
e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais.

Na floresta não existem homens livres ou escravos.
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água.
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: “Ele é desprezível e eu sou um grande senhor”...
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica,
e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil.

Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade.
Quando o leão ruge não dizem: “Ele é temível”.
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço do pensamento,
e o direito dos homens fenece como folhas de outono...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é a força do espírito,
e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis.

Na floresta não há morte nem apuros.
A alegria não morre quando se vai a primavera.
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração,
pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o segredo da vida eterna,
e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência.

***
 
Bibliografia
O Profeta, Khalil Gibran (a tradução de Rafael Arrais pode ser encontrada em e-book na Amazon); O Grande Amor do Profeta, com as cartas de Khalil Gibran e Mary Haskell (livro fora de tiragem, mas pode ser achado em sebos); Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Arte para o filme O Profeta; Pintura do próprio Khalil Gibran.

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23.10.17

Gibran e a nudez na arte

Recentemente tivemos muitas polêmicas envolvendo arte, nudez e sexualidade no país. Agora que a “fervura” já passou, penso que ficou mais simples identificar os extremos: gente que nunca vai em galerias de arte invadindo exposições com certa truculência e vendo pedofilia onde não havia; e, no polo oposto, gente não admitindo que as pessoas se sintam nem um tiquinho incomodadas com uma criança tocando a perna de um homem nu.

Eu a princípio nem iria trazer este assunto aqui para o blog, mas por acaso estou no meio da leitura do fantástico O grande amor do profeta, com as cartas trocadas entre Khalil Gibran e sua grande amiga e confidente, Mary Haskell, incluindo trechos do diário dela. Ocorre que há um século atrás, Haskell esteve decorando o interior de seu colégio em Cambridge (próximo a Boston) com alguns dos quadros de Gibran (que também foi exímio pintor). Conforme as obras continham nudez, e o colégio era frequentado por menores de idade, houve protestos dos pais, e então o que se seguiu está descrito no livro (organização de Virginia Hilu, tradução de Valerie Rumjanek, editora Record).

Penso que este episódio secular ainda é capaz de jogar alguma luz até mesmo em nossa polêmica atual:


Mary Haskell
Escola Cambridge (Cambridge – Massachusetts)
10/10/1920

[...] Não cheguei a lhe mandar minha carta devido a uma nuvem dentro de mim, e porque queria muito lhe falar sobre isso e ao mesmo tempo não lhe queria contar coisa alguma. Pois fiquei magoada, e o fato de dizer-lhe iria magoá-lo também. Mas vou lhe contar tudo:

Uma senhora me disse que não matricularia seu filho em meu colégio porque eu tinha O Crucificado [um dos quadros de Gibran] na parede. E dois ou três professores disseram que achavam desaconselhável pendurar na parede A Mãe Celestial e, até mesmo, O Cordeiro Orou em Seu Coração [mais quadros, todos de temática místico-cristã]. Ainda agora, não consigo compreendê-los, e isso torna as coisas confusas a meus olhos, enquanto escrevo.

O pior de tudo é escrever a você sobre isto. Se pudesse ocultar o rosto que faz com que as pessoas vejam o que eu sinto, eu o ocultaria. Dizem que os quadros fazem as meninas se sentirem constrangidas e que elas não são capazes de sentir o lado “espiritual” dos desenhos.

O que sinto a respeito dos nus dos quadros que tenho aqui é que as meninas têm uma sorte extraordinária de tê-los a sua volta, entre as pessoas que amam e respeitam. Sua presença lhes ensina que nada há de vergonhoso na nudez ou no corpo humano – e que isto não é um tabu entre pessoas esclarecidas – e que não precisa causar constrangimento a uma moça. Os quadros são uma presença silenciosa e tranquilizadora. E, se uma menina deseja ver corpos nus, que os veja abertamente aqui, e seja poupada da vergonha por seu desejo.

Se ela quer ver nudez, por que não satisfazer seu desejo? Não vejo nada de mal nisso. Ter aqui todos os quadros que amo seria a coisa melhor que esta escola poderia fazer pela juventude – e não é preciso que se diga uma só palavra acerca de um único quadro para que ele produza efeitos positivos. O próprio fato de estarem nesta escola parece dizer às moças: “O que veem em nós é bom, e é bom que o vejam”.

A preocupação com a influência que os quadros possam exercer nas meninas parece-me, apenas, parte de uma mentalidade complicada e cheia de temores. Digo a mim mesma que é “natural” e lembro a mim mesma o quanto desta mentalidade eu tinha e ainda tenho. Mas o que realmente não sei é quando enfrentá-la ou deixá-la de lado, se a escola está envolvida. E, por não saber o que fazer, nada fiz. Coloquei O Crucificado em meu próprio quarto, e O Contemplador [outro quadro de Gibran, porém sem nudez] ficou ótimo no lugar do primeiro, no meu gabinete.

Com amor,
Mary


Khalil Gibran
Nova York
11/10/1920

Adorada Mary:

A coisa mais sensata e delicada a ser feita é retirar das paredes todos os quadros que ofendem as meninas e suas mães. Pensar que um desenho meu está causando constrangimento a alguém, físico ou espiritual, é uma fonte de sofrimento e infelicidade para mim.

Não podemos pregar a castidade do nu. As pessoas devem descobri-la por si mesmas. Não podemos conduzir as pessoas ao coração da vida. Elas devem ir por sua própria vontade, e cada uma deve ir só.

Eu lhe imploro, querida Mary, que retire todo desenho sobre o qual você tenha ouvido a mais leve restrição.

E, afinal de contas, por que motivo isto deveria perturbá-la ou a mim? Não há nada que deva fazer com que as coisas se tornem negras diante de seus olhos ou diante dos meus. O que as pessoas sentem ou pensam faz parte da vida, e você e eu sempre aceitamos tudo na vida. A raiz de uma árvore não é inferior ao seu ramo mais elevado.

Com amor,
Khalil


***

Crédito das imagens: Khalil Gibran (alguns de seus quadros)

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20.9.16

Palestra: Poetas da Alma

Depois de muita insistência de amigos de todos os cantos, eu finalmente vou dar a minha primeira palestra pública...

O título será Poetas da Alma, e embora todos os verdadeiros poetas sejam naturalmente poetas da alma, darei um destaque maior a história e a poesia dos meus quatro preferidos: Fernando Pessoa, Khalil Gibran, Rabindranath Tagore e Jalal ud-Din Rumi. Para quem já acompanha este blog há tempos, eles já devem ser velhos conhecidos. Para quem não acompanha, será uma grande oportunidade de conhecer poetas grandiosos.

O local será em Campo Grande/MS, onde moro, num espaço espiritualista recém-inaugurado chamado SuryAmar. Para quem não puder ir, prometo que irei compartilhar todos os slides usados na palestra, mas ainda não posso confirmar se ela será filmada. Vejam as informações completas do evento abaixo:


Poetas da Alma, com Rafael Arrais
Seja você a poesia do Natal de uma criança

Dia 09 de Dezembro de 2016, das 19 às 21h
SuryAmar Espaço Integral do Ser
Rua Enoch Vieira de Almeida, 149 | Campo Grande/MS
Inscrições: (67) 99223.8570  

O valor do convite é a doação de 2 brinquedos para ambos os sexos que serão doados para caridade.


***

Atualização: Gratidão aos que compareceram! Segundo um dos espectadores, foi um verdadeiro "banho na alma". Me senti realizado, pois era essa mesmo a ideia: que ela fosse mais uma experiência poética do que uma palestra acadêmica.

Para quem não pôde ir, seguem abaixo os links com **todos** os slides da palestra e algumas fotos do evento:

Vejam os slides da palestra Vejam as fotos da palestra

 

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19.7.16

Para ser feliz, parte final

« continuando da parte 3

Tenho uma amiga que, de tanto andar pelos caminhos do mundo, acabou assumindo para si a difícil tarefa de tentar elucidar qual é, afinal, o caminho da felicidade. Em seu programa para o canal de TV a cabo Multishow ela já entrevistou artistas, filósofos e espiritualistas em geral. Eventualmente chegou a conversar com Matthieu Ricard, o célebre “homem mais feliz do mundo”, segundo estudos neurológicos conduzidos pela Universidade de Wisconsin. Ricard, apesar de ser filho de um renomado filósofo francês e Ph.D. em genética molecular, eventualmente se tornou um monge budista e hoje reside no Nepal, apesar de também rondar pelo mundo todo. Para ele, a espiritualidade é indissociável da felicidade:

Espiritualidade significa lidar com a mente. Pode-se dizer que o treinamento da mente é um tipo de espiritualidade. A religião se vale de técnicas para alterar a mente, mas no fim tudo depende do jeito como você lida consigo mesmo e com o mundo à sua volta... Acho que a compaixão e a empatia são qualidades humanas básicas que todos podem e devem cultivar para se tornarem pessoas melhores, independente se possuem ou não uma religião. Afinal, essas qualidades são muito mais fundamentais que a religião em si [1].

Assim, ficamos sabendo que a espiritualidade que surge da compaixão para com os outros seres é, quem sabe, uma fonte de quietude da mente, de profunda tranquilidade. Mas, e daí? Seria isso, somente isso, o que determina a sua felicidade?

Obviamente, não há absolutamente nada que Ricard possa falar que irá nos descrever exatamente “como é ser o homem mais feliz do mundo”. De fato, suas palavras seriam incapazes sequer de demonstrar “como é ser feliz”, ou ainda, “como ele está feliz no dia de hoje”. As palavras, afinal, são tão somente cascas de sentimentos, e a minha amiga estaria em maus lençóis se quisesse mesmo determinar precisa e cientificamente o que é a felicidade. Felizmente, ela já se contenta em estar no caminho que leva para lá...

Isso me lembra da corredeira que desemboca no mar, após um longo caminho, conforme vínhamos falando. E, se eu já admiti que palavras são nada mais que cascas, minha única esperança de encerrar esta série com alguma dignidade é convidar meus amigos poetas para o meu auxílio, pois que eles sim souberam imprimir em suas cascas alguma parte deste fruto eterno e sem nome [2]:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Quando nos deixamos escorrer juntamente com o rio da Vontade, esta Vontade muito maior do que quaisquer desejos que tivemos ou possamos vir a ter, há um enorme perigo para o ego, e uma enorme promessa de genuíno contentamento para a alma. Que, para encarar o perigo e o abismo do mar, é preciso se abandonar de si, para se reencontrar no céu.

E ninguém disse que seria fácil, mas a cada passo dado, logo se nota que o horizonte a frente é muito maior e mais ensolarado, até que enfim chegamos na praia, na margem do mar que espelha o Tudo, onde brincam as criancinhas:

Na praia dos mundos sem fim as crianças se encontram, com muitas danças e algazarras.
Elas constroem suas casas com areia e brincam com as conchas vazias.
Com as folhas secas elas tecem seus barquinhos e os colocam, sorridentes, para flutuar na vastidão do mar.

As crianças brincam na praia dos mundos.
Elas não sabem nadar, e tampouco arremessar as redes.
Pescadores de pérolas mergulham atrás de pérolas, mercadores navegam em seus barcos, enquanto as crianças catam pequeninas pedras, e depois as espalham novamente.
Elas não buscam por tesouros ocultos, e tampouco sabem arremessar as redes.

Na praia dos mundos sem fim as crianças se encontram.
A tempestade ronda pelo céu sem trilhas, os navios naufragam pelo mar sem rotas, a morte está à solta, e as crianças brincam.
Na praia dos mundos sem fim ocorre o grande encontro de todas as crianças.

E é até estranho de se pensar, mas no fundo toda a criança nasce um ser iluminado, sem saber que é um ser iluminado.

Da mesma forma, é bem possível que um ser iluminado nada mais seja do que uma criança que sabe que é um ser iluminado.

Todos esses santos que foram e que voltaram, e que hoje brincam por todos os cantos, sem rumo que não o de dentro, são talvez aqueles mais indicados para nos dizer o que devemos fazer para sermos felizes... Mas isso não quer dizer que seremos plenamente capazes de compreendê-los:

E agora vocês perguntam em seus corações, “Como poderemos distinguir o que é bom no prazer do que não é bom?”.
Dirijam-se aos seus campos e jardins, e deverão aprender que o prazer da abelha é sugar o mel da flor,
Mas que é também um prazer para a flor ofertar do seu mel a abelha.
Pois para a abelha uma flor é uma fonte de vida,
E para a flor uma abelha é uma mensageira de amor,
E para ambas, abelha e flor, a doação e o recebimento do prazer são uma necessidade e um êxtase.

Povo de Orphalese, busquem ao prazer como o fazem as flores e as abelhas.

Uma necessidade, e um êxtase... No fim das contas, a felicidade é aquilo que ocorre quando não estamos pensando nela...

Quando não estamos pensando em mais nada...

Quando a alma consegue cerrar a cortina do palco da mente, e contemplar a imensidão, em silêncio:

É primavera, e tudo lá fora germina, até mesmo o enorme cipreste.
Nós não devemos abandonar este lugar.
Próximo a borda do copo em que ambos bebemos, leem-se as palavras,
“Minha vida não me pertence.”

Se alguém viesse tocar alguma música, teria de ser uma doce canção.
Nós estamos a beber vinho, mas não através dos lábios.
Nós estamos a sonhar, mas não em nossas camas.
Esfregue o copo em sua testa.
Este dia se encontra além da vida e da morte.

Desista de desejar o que os demais possuem.
Nesta via estará seguro.
“Onde, onde estarei seguro?”, você pergunta.

Este não é um dia para se fazer perguntas, este não é um dia de algum calendário. Este dia é a consciência de si mesmo.
Este dia é o amante, o pão, e a gentileza, ainda mais manifestos do que os lábios poderiam dizer.

Pensamentos tomam forma através das palavras, mas a luz desta manhã vai além, ela é ainda mais antiga do que os pensamentos e a imaginação.

Esses dois estão tão sedentos... Mas é isto o que confere suavidade a água. Suas bocas estão secas, e eles estão exaustos.
O restante deste poema está demasiadamente embaçado para que eles consigam prosseguir na leitura.

Para ser feliz, afinal, é preciso ler muito e conhecer muito, para então abandonar toda leitura e todo conhecimento...

***

[1] Livremente transcrito da entrevista para o episódio 06 da primeira temporada de No caminho da felicidade, com Susanna Queiroz.

[2] Na sequência, trechos (sempre em itálico) da poesia dos quatro grandes poetas da Alma: Fernando Pessoa, Rabindranath Tagore, Khalil Gibran e Jalal ud-Din Rumi. Onde coube, a tradução foi de Rafael Arrais.

Crédito das imagens: [topo] matthieuricard.org/Divulgação; [ao longo] Joel Robinson

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13.3.15

O Amor segundo Gibran

O sujeito à esquerda da imagem acima se chama Gibran Khalil Gibran (apenas Gibran para os íntimos) e é um dos maiores poetas-filósofos de todos os tempos. Uma estrela cadente que habitou nosso mundo entre o fim do século 19 e o início do 20, tendo descido através do Líbano e eventualmente cintilado por todo o mundo, do Oriente ao Ocidente. Eu tive o enorme prazer de traduzir a sua obra-prima, O Profeta, da qual lhes trago abaixo o trecho onde ele fala sobre o Amor:

ENTÃO, disse Almitra, “nos fale do Amor”.
E ele ergueu a cabeça e observou a multidão, e uma quietude recaiu sobre todos. Com uma voz forte, ele lhes disse:

“Quando o amor lhes acenar, sigam-no,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados.
E quando suas asas lhe envolverem, aceitem-nas,
Embora a espada oculta em suas plumas possa lhes ferir.
E quando ele lhes falar, acreditem no que diz,
Embora sua voz possa despedaçar os seus sonhos como o vento do norte devasta ao jardim.

Pois assim como o amor os coroa, ele também os crucifica.
E da mesma forma que auxilia em seu crescimento, trabalha também para a sua poda.
E assim como ascende a sua altura e acaricia os seus ramos mais tenros que se agitam ao sol,
Também desce até suas raízes e as sacode em seu apego a terra.

Como feixes de trigo, ele os aperta junto a si.
Ele os debulha para expor-lhes a nudez.
Ele os peneira para livrar-lhes das suas cascas.
Ele os mói até a extrema brancura.
Ele os amassa até que se tornem maleáveis.
Então ele os encaminha ao fogo sagrado, para que possam se tornar o pão místico do banquete divino.

Todas essas coisas o amor irá operar em seu interior para que conheçam aos segredos de seus próprios corações, e através deste conhecimento se tornem um fragmento do coração da Vida.

Entretanto, acaso em seu medo vocês buscarem apenas a paz e o prazer do amor, então será melhor que cubram a sua nudez e abandonem ao açoite do amor;
Para que deem risadas num mundo sem estações, mas nem todos os seus risos;
E chorem, mas nem todas as suas lágrimas.

O amor nada oferece além de si mesmo e nada recebe além de si mesmo.
O amor não possui, e tampouco pode ser possuído;
Pois o amor se basta em si mesmo.

Quando você ama não deveria dizer, “Deus está em meu coração”, mas sim, “Eu estou no coração de Deus”.

E não pensem que podem direcionar o curso do amor, pois o amor, se lhes acharem dignos, determinará ele próprio o seu curso.

O amor não tem outro desejo senão o de cumprir a si mesmo.
Entretanto, acaso em seu amor precisarem ter desejos, que sejam estes os seus desejos:

De se diluírem e serem como um córrego que canta a sua melodia para a noitinha.
De conhecerem a dor da extrema sensibilidade.
De se ferirem por sua própria compreensão do amor.
E de sangrarem de boa vontade e com alegria.
De acordarem na aurora com um coração alado e agradecerem por um novo dia de amor;
De descansarem ao meio-dia e meditarem acerca do êxtase do amor;
De retornarem para casa a tardinha com gratidão;
E então, de adormecerem com uma prece para o amado em seus corações, e uma canção de louvor em seus lábios.”

***

Se acaso estas lascas de estrelas, estas cascas de sentimento profundo, lhes tocaram de alguma forma ao coração, eu lhes convido a conhecer a mulher a direita da imagem, Lucia Helena Galvão, uma poetisa aqui mesmo de nossas terras, aqui mesmo de nosso século, que possui em sua alma uma rara e distinta compreensão do sentido mais oculto e sagrado das palavras de Gibran.

Na cerca de uma hora do vídeo abaixo, ela irá lhes trazer reflexões profundas sobre cada trecho do poema acima [1], e muito mais... Vale assistir com o espelho do coração voltado para o alto:

Obs.: Para quem está com alguma pressa ou não tem muita paciência para introduções, ela só começa a analisar efetivamente os trechos do livro em 13:10.

***

» A quem interessar, minha tradução de O Profeta se encontra à venda na Amazon, Kobo e outras lojas, como e-book.

» Conheçam também a Nova Acrópole Brasil.

[1] A tradução do livro utilizada no vídeo é a mais reconhecida no país, de Mansour Chalita. Embora seja superior à minha, ainda se vale de um estilo de linguagem antigo, que tentei atualizar na minha versão.

Crédito das imagens: Google Image Search/Divulgação

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11.12.13

Lançamento: O Profeta

As Edições Textos para Reflexão tem o orgulho de lhes trazer O Profeta, a obra prima de Gibran Khalil Gibran, traduzida do original em inglês por Rafael Arrais.

Gibran é o tipo de escritor que trabalha no limite da linguagem, quando as palavras, apesar de serem apenas cascas de sentimento, conseguem ainda assim trazer um resquício do gosto e do perfume dos frutos que crescem além do tempo, no interior da alma. O Profeta já foi traduzido para mais de 30 idiomas e lido por milhões de pessoas em todo o mundo. Dentre estas há, quem sabe, milhares que o elegeram um livro de cabeceira, para onde retornam cada vez que sentem saudades da primavera.

Um livro digital já disponível para o Amazon Kindle e o Kobo:

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***

Abaixo, segue um dos capítulos do livro, onde Almustafa, o eleito e amado, fala sobre a Liberdade:

E LHE DISSE um orador, “nos fale da Liberdade”.
E ele respondeu:
“Nos portões da cidade e no aconchego de seus lares, eu os vi prostrados a adorar sua própria liberdade,
Como escravos que se rebaixam perante um tirano e os glorificam, ainda que ele os destrua lentamente.
Sim, no bosque do templo e pela sombra da cidadela eu tenho observado aos mais livres dentre vocês vestirem sua liberdade como o preso coloca suas algemas.
E meu coração sangrou em meu interior; pois vocês só poderão ser libertos quando até mesmo o desejo de liberdade deixar de ser um jugo, e quando cessarem de falar dela como se fala de uma meta e de um fim.
Vocês serão livres, em realidade, quando se livrarem das preocupações dos dias e dos desejos e aflições das noites;
E assim, mesmo quando essas coisas sobrecarregarem suas vidas, vocês se elevarão acima delas, desnudos e desatados de todos os seus nós.

E como vocês se elevarão acima dos seus dias e noites a menos que partam as correntes com as quais, na aurora de sua compreensão, vocês se ataram as suas horas passadas?
Na verdade, isto que chamam “liberdade” é a mais pesada dessas correntes, embora seus anéis cintilem ao sol e ofusquem os seus olhos.

E o que são senão fragmentos de si próprios aquilo do que vocês buscam se livrar para se tornarem libertos?
Se é uma lei injusta o que buscam abolir, lembrem-se de que esta lei foi escrita por suas próprias mãos em suas próprias frontes.
Vocês não podem apaga-la pela queima de seus códigos de leis ou por lavarem as faces de seus juízes, embora derramem todo o mar sobre eles.
E se é um déspota que desejam destronar, cerifiquem-se primeiro de que o trono erguido em seus interiores já se encontre destruído.
Pois como poderia um tirano dominar os livres e os orgulhosos se estes já não possuíssem uma tirania em sua própria liberdade e uma vergonha em seu próprio orgulho?
E se é uma preocupação o que desejam eliminar, esta preocupação não lhes foi imposta, mas sim escolhida por vocês mesmos.
E se é um medo o que desejam dissipar, o trono deste medo está em seu coração e não nos lugares assombrados.

Em realidade, todas essas coisas se movem em seus interiores em constante meio enlace – o que é desejado e o que é temido, o que é repugnante e o que é atrativo, o que buscam e o que lhes inspira a fuga.
Tais coisas se movem em seu ser como luzes e sombras, em pares estreitamente unidos.
E quando a sombra se dissipa e já não está mais lá, a luz que ainda perdura se torna a sombra de uma outra luz.
E assim é que a sua liberdade, quando se livra de seus grilhões, se torna ela mesma um grilhão para uma liberdade ainda maior.”


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21.11.13

Nos fale do Amor...

O próximo livro digital das Edições Textos para Reflexão será uma tradução da obra mais grandiosa da Luz do Líbano, Gibran Khalil Gibran.

O Profeta, escrito originalmente em árabe e, depois, em inglês, é a obra mais profunda, conhecida e bem sucedida de Gibran.

Já foi traduzida para mais de 30 idiomas e lida por milhões de pessoas em todo o mundo. Dentre estas há, quem sabe, milhares que o elegeram um livro de cabeceira, para onde retornam cada vez que sentem saudades da primavera. Gibran, afinal, entendia da Alma e das Estações...

No trecho abaixo, a versão final para a minha tradução do trecho onde Almustafa, o eleito e amado, fala sobre o Amor:

***

ENTÃO, disse Almitra, “nos fale do Amor”.
E ele ergueu a cabeça e observou a multidão, e uma quietude recaiu sobre todos. Com uma voz forte, ele lhes disse:
“Quando o amor lhes acenar, sigam-no,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados.
E quando suas asas lhe envolverem, aceitem-nas,
Embora a espada oculta em suas plumas possa lhes ferir.
E quando ele lhes falar, acreditem no que diz,
Embora sua voz possa despedaçar os seus sonhos como o vento do norte devasta ao jardim.

Pois assim como o amor os coroa, ele também os crucifica.
E da mesma forma que auxilia em seu crescimento, trabalha também para a sua poda.
E assim como ascende a sua altura e acaricia os seus ramos mais tenros que se agitam ao sol,
Também desce até suas raízes e as sacode em seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele os aperta junto a si.
Ele os debulha para expor-lhes a nudez.
Ele os peneira para livrar-lhes das suas cascas.
Ele os mói até a extrema brancura.
Ele os amassa até que se tornem maleáveis.
Então ele os encaminha ao fogo sagrado, para que possam se tornar o pão místico do banquete divino.

Todas essas coisas o amor irá operar em seu interior para que conheçam aos segredos de seus próprios corações, e através deste conhecimento se tornem um fragmento do coração da Vida.

Entretanto, acaso em seu medo vocês buscarem apenas a paz e o prazer do amor,
Então será melhor que cubram a sua nudez e abandonem ao açoite do amor,
Para que deem risadas num mundo sem estações, mas nem todos os seus risos; e chorem, mas nem todas as suas lágrimas.

O amor nada oferece além de si mesmo e nada recebe além de si mesmo.
O amor não possui, e tampouco pode ser possuído;
Pois o amor se basta em si mesmo.

Quando você ama não deveria dizer, “Deus está em meu coração”, mas sim, “Eu estou no coração de Deus”.
E não pensem que podem direcionar o curso do amor, pois o amor, se lhes acharem dignos, determinará ele próprio o seu curso.

O amor não tem outro desejo senão o de cumprir a si mesmo.
Entretanto, acaso em seu amor precisarem ter desejos, que sejam estes os seus desejos:
De se diluírem e serem como um córrego que canta a sua melodia para a noitinha.
De conhecerem a dor da extrema sensibilidade.
De se ferirem por sua própria compreensão do amor.
E de sangrarem de boa vontade e com alegria.
De acordarem na aurora com um coração alado e agradecerem por um novo dia de amor;
De descansarem ao meio-dia e meditarem acerca do êxtase do amor;
De retornarem para casa a tardinha com gratidão;
E então, de adormecerem com uma prece para o amado em seus corações, e uma canção de louvor em seus lábios.”

(trecho de O Profeta de Khalil Gibran; tradução de Rafael Arrais)


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15.6.12

Apresentação: O passado e o futuro

Há algum tempo escrevi este texto em homenagem ao grande poeta Gibran Kahlil Gibran, e agora criei para ele uma apresentação especial...

Veja abaixo a apresentação. Basta ir clicando nas setinhas para avançar ou retornar, você também pode usar a roldana do seu mouse para um efeito surpreendente... Recomendo ver em tela cheia (more > full screen):

» Abrir apresentação no site da Prezi


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17.2.12

Gibran Play

» Parte da série: Play a myth

Se o mito existe fora do tempo, há alguns raros artistas que souberam falar diretamente ao reino da alma. Suas obras influenciaram e sensibilizaram tantos de nós que, mesmo após o fim, tornaram-se mitos de si mesmos, habitando nosso imaginário. Que viver na memória daqueles que nos amam é viver como um ser imortal. E, se algumas velas foram apagadas pelo tempo, não há nada capaz de extinguir a lembrança perene de sua luminosidade...

Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth.

***

(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

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» Saiba mais sobre Gibran

» Veja posts sobre Gibran em nosso blog

***

Crédito da imagem: Rafael Arrais + Gibran (não é um auto-retrato, mas o retrato de Almustafa, personagem principal de sua obra prima - O Profeta; porém, como a imagem lembra muito a ele próprio, e como Gibran já virou um mito, achei que esta seria a imagem mais indicada)

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10.8.11

A religião

Texto de Rafael Arrais, em homenagem ao grande poeta Gibran Kahlil Gibran.

Então Almitra [1] disse: fala-nos da religião.

E ele respondeu:

Não precisareis ir muito longe para encontrar sua religião, assim como o camponês não precisa caminhar distâncias para encontrar água – ele edificou sua casa perto dos rios e dos oceanos.

E, quando o rio seca, ele cava um poço bem profundo.

E, quando o oceano destrói sua casa com suas ondas, ele entende que ainda não pode morar tão próximo das marés.

Ai daquele, no entanto, que construiu sua casa em terra seca e pedregosa, ou que destruiu a própria floresta e mudou o curso dos rios, pois que para esse nada restará além de cavar dentro de si mesmo, sangrando ao arrancar pedaços da própria pele.

Por isso, povo de Orfalés, não deem ouvidos aqueles que os chamam para orar em seus templos desolados.

E bradam em voz alta o que deve e o que não deve ser feito para agraciar a seus deuses.

Que se construíram sua igreja em terreno infértil, foi porque não souberam encontrar as sementes que o bem-amado arremessou a nossa terra...

E não as tendo encontrado, não as plantaram.

E não as tendo plantado, tampouco floresceram.

E não tendo florescido, sua fragância lhes é desconhecida, e por isso vivem a reclamar do fedor alheio.

Pois quem vive em meio ao mau-cheiro, acha que só existe mau-cheiro no mundo.

E, acostumando-se ao próprio mau-cheiro, crê piamente que a sua fragância é a única capaz de agradar aos deuses.

Só que não existem os deuses, apenas os emissários do bem-amado.

Que semearam a terra desde épocas remotas, desde eras em que éramos apenas sementes, e não homens e mulheres...

E, tendo compreendido tal mistério, o camponês soube que o melhor lugar para edificar sua casa era em seu próprio coração.

Que a água dos rios e oceanos flui por todos os lugares, e de tempos em tempos faz sua viagem pelos céus.

E as chuvas que alagam sua plantação são as mesmas que dão vida a tudo o que há.

E a fragância do bem-amado penetra a tudo e a todos.

E não é necessário convencer a ninguém disso – um dia, saberão.

Da mesma forma que sabem que toda semente um dia vira árvore.

Contanto que a cuidemos com o mesmo amor que temos sido cuidados por todas essas eras...

***

[1] Almitra é o personagem que faz a maior parte das perguntas para Almustafa, o escolhido e bem amado, personagem principal que dá voz aos ensinamentos de Gibran em sua obra-prima, “O Profeta”. Este texto, entretanto, é apenas uma homenagem ao grande poeta.

***

» Parte da série "Após Gibran"

Crédito da imagem: John Smith/Corbis

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26.7.11

4 amores, parte 2

« continuando da parte 1

Quem já bebeu, beberá; quem já sonhou, sonhará. Nunca desistirá desses abismos atraentes, que soam insondáveis, que penetram no proibido, que se esforçam por segurar o impalpável e ver o invisível; volta-se para eles, debruça-se sobre eles, dá-se um passo na direção deles, depois dois; e é então que se penetra no impenetrável e é então que se encontra o alívio ilimitado... (Victor Hugo)

Eros: a convivência

Susana Queiroz está visitando o Butão, um dos menores e mais isolados países do mundo, fincado nos Himalaias, entre a China e a Índia. Ela entra em uma loja de artesanato local, mas não consegue se comunicar com a vendedora, que não fala inglês – e muito menos o português, idioma da brasileira que apresenta o programa “No Caminho” para o canal de TV a cabo Multishow... Susana chama por seu guia de viagem, um simpático butanês que fala o idioma local e o inglês, mas ele não responde. Fora da loja, a bela apresentadora encontra o guia falando apressadamente no celular – até muito recentemente o Butão esteve fechado à modernidade, e faz poucos anos que o celular surgiu no país.

O guia desliga o celular e tenta ignorar o assunto, mas Susana já suspeita do que se tratava: era a “nova febre” entre quase todos os jovens butaneses, as pessoas falavam ao celular para marcar encontros amorosos. A questão peculiar, nesse caso em específico, é que o guia já era casado com duas mulheres, e ainda assim procurava conhecer mais parceiras amorosas.

Desde o final de 2006, o Butão é uma monarquia constitucional, mas o chefe religioso do reino goza de uma importância quase idêntica a do rei. O Butão é um dos últimos reinos budistas do mundo...

No reino animal, a poligamia se refere à relação onde os animais mantém mais de um vínculo sexual no período de reprodução. Nos humanos, a poligamia é o casamento entre mais de duas pessoas. Os casos mais típicos são a poliginia, em que um homem é casado com várias mulheres, e a poliandria, em que uma mulher vive casada com vários homens.

Diz-se que a poliginia já foi regra nos grupos humanos em estado natural. Durante a história, ela foi amplamente usada, tendo como principal causa a grande diferença numérica entre homens e mulheres ocasionada pelas guerras. A questão sempre esteve também no centro do debate religioso. O Velho Testamento fala de um personagem como Jacó, que teve duas mulheres e doze filhos (vários deles com servas). Essa prole viria a dar origem às doze tribos de Israel.

No Islã, por outro lado, ela tem sido praticada desde sempre (o próprio profeta Maomé teve 16 casamentos simultâneos). Hoje, continua a ser adotada em alguns países muçulmanos e em processo de adoção em outros. O costume é regulamentado pelo Alcorão, que tolera a poliginia e permite um máximo de 4 esposas. Em realidade, a poliginia certamente sempre foi bem mais comum do que a poliandria. As razões são até mesmo óbvias: além do mundo ter sido por muito tempo, e em muitas sociedades, dominado pelos homens, é extremamente custoso para uma mulher manter vários casamentos, pelo menos se levarmos em consideração que ela irá gerar filhos de cada um de seus maridos.

Eu costumo dizer que não acredito em casamento. Não quero, com isso, ofender a crença e a tradição cultural dos outros, mas apenas manifestar a minha própria crença... Tampouco estou querendo dizer que não acredito no amor, na fidelidade, na possibilidade de uma união realmente estável e duradoura entre dois indivíduos. Quero apenas ressaltar que o fato de estarem casados perante Deus, perante as leis ou perante a sociedade nada tem a ver com a garantia da manutenção do seu amor. Em suma: no fundo, o que quero dizer é que acredito sim no “casamento”, mas para mim ele se chama amor. É muito simples entender: qualquer casamento durará apenas enquanto o amor durar. Vai-se o amor, vai-se o casamento, ainda que não haja divórcio, ainda que o casal continue a “viver as aparências sociais”.

Na cerimônia religiosa cristã diz-se que “o que Deus uniu o homem não separe”. Mas por vezes o homem parece viver a se dedicar exclusivamente a não seguir os mandamentos divinos. Ora, é para mim mais uma frase sem sentido algum. Melhor seria dizer, portanto: “saibam que têm nas mãos a responsabilidade de manter e edificar, todos os dias de suas vidas, esse dom divino, esse amor que sentem um pelo outro, este milagre!”.

Também se costuma encerrar com um “até que a morte os separe”. Mas, se a morte separa alguma coisa, não é o amor. O amor não é um corpo e nem mesmo um cérebro, mas uma união de almas. Mesmo Carl Sagan, que era agnóstico e não acreditava em vida após a morte, dizia que “viver na memória daqueles que nos amam, é viver para sempre”. Ora, e o que diabos a morte separa? Se ela separa alguma coisa, é porque não era amor.

Claro, existe muita confusão acerca do que vem exatamente a ser amor. Me parece que aqui estamos nos referindo ao que os gregos antigos chamavam de eros: não o deus, mas o conceito de troca de prazer entre os seres. Nesse estágio do caminho do amor, os seres não mais usam os outros como mero objeto, ou como parte de uma transação comercial, mas efetivamente trocam carinho, se preocupam tanto em dar prazer quanto em receber. Fortalecem o elo com o seu próximo um pouco mais...

É preciso, no entanto, tomar cuidado com até que ponto estarão unidos. Duas árvores podem crescer a certa distância uma da outra, e podem até fazer sombra uma à outra, dependendo do momento do dia. Mas se estiverem por demais unidas, às próprias raízes no solo irão se entrelaçar, e disputar os nutrientes, até que uma aniquile a outra, ou por vezes, até que ambas se destruam mutuamente.

Foi o grande poeta do Líbano (Gibran) quem nos alertou: “Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão: Que haja antes um mar ondulante entre as praias de vossas almas. Enchei a taça um do outro, mas não bebais na mesma taça. Dai de vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço. Cantai e dançai juntos, e sede alegres, mas deixai cada um de vós estar sozinho; Assim como as cordas da lira são separadas e, no entanto, vibram na mesma harmonia” (trecho de “O Profeta”).

Muitos ditos cristãos ao longo da história se declararam escandalizados com práticas como a poligamia por outros povos. Logo depois da descoberta de Colombo, os colonizadores portugueses e espanhóis que vieram da Europa colonizar o novo mundo concluíram que esses nativos eram “pouco mais do que animais”. Ao notar que muitos nativos praticavam uma ou ambas as formas de poligamia, um ministro calvinista afirmou que não possuíam nenhum senso moral. Um médico europeu, após examinar cinco nativas e perceber que não menstruavam, concluiu que “não pertenciam à raça humana”...

Não satisfeitos em despojá-los de sua humanidade, os espanhóis começaram a dizimá-los como animais. Por volta de 1534, 42 anos após a chegada de Colombo, os impérios inca e asteca haviam sido destruídos e seu povo escravizado ou assassinado. A hospitalidade inata dos nativos não comoveu os “seres morais do velho continente”: os colonizadores matavam crianças, rasgavam o ventre de mulheres grávidas, arrancavam olhos, queimavam vivas famílias inteiras e incendiavam aldeias à noite. Entre a poligamia e a matança, acredito que Deus tenha feito uma escolha já há muito tempo, quando ainda éramos hominídios.

Mas, retornando ao Butão: eis um exemplo de sociedade onde todos vivem efetivamente livres e não parecem se “escandalizar” tão facilmente com práticas como a poligamia ou até mesmo a homossexualidade. Ao contrário de muitas outras partes do mundo, de muitas sociedades atuais ou passadas, no Butão tanto homens quanto mulheres sentem-se livres para ter quantos parceiros amorosos quiserem. No Butão se construiu uma verdadeira rede de convivência, de troca de prazer, de troca de informações íntimas, de troca de compreensão. Nesse distinto e exótico microcosmo de sociedade humana, há tantos “casamentos” quanto possibilidades de convívio amoroso, e mesmo falos e símbolos genitais são entendidos como sagrados, como formas de proteção contra os “maus espíritos”.

E quem serão os maus espíritos senão os próprios homens e mulheres no topo de seu preconceito, de sua ignorância? Se as potências do homem na visão, na audição, nos recursos imensos do cérebro, nos recursos gustativos, nas mãos, nos pés; se todas essas potências foram dadas ao homem para a educação, para a evolução no convívio com o próximo, para a compreensão cada vez mais aprofundada do amor, mereceria o sexo, e as várias manifestações sexuais onde há respeito e carinho de ambas as partes, serem sentenciados às trevas [1]?

» Na continuação, o terceiro amor: filia...

***

Nota: Este artigo não deveria ser entendido como uma exaltação da poligamia. Devemos sempre, isso sim, exaltar o amor: cada pequena possibilidade de amar, amar da melhor forma possível, amar da forma que hoje temos possibilidade de amar. Sejam quantos “casamentos” forem necessários, que não se desista do amor, jamais...

[1] Boa parte desse último parágrafo foi retirada (livre adaptação) de uma das respostas de Chico Xavier no lendário programa Pinga-Fogo, em que participou nos idos de 1971.

***

Crédito das fotos: [topo] Divulgação/Multishow ("No Caminho"); [ao longo] riisli

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4.2.11

Reflexões sobre a evangelização, parte 1

Evangelizar: de “evangelista”, εúάγγελος em grego koiné (dialeto popular da antiguidade), que significa “boas novas” ou “boas notícias”. Evangelizar significa, portanto, trazer as boas novas ao conhecimento dos homens.

As boas novas

Nem todos concordarão com a definição dada acima para o verbo “evangelizar”. Para um termo tão essencial ao cristianismo, surpreende que seja tão complexo defini-lo – mesmo entre os próprios cristãos.

Há muitos religiosos (não apenas cristãos) que creem piamente que sua principal função enquanto pertencentes a um grupo doutrinário ou igreja seja precisamente repercutir aos quatro cantos do mundo tudo o que sua respectiva doutrina dita. No caso particular de doutrinas que nos trazem mandamentos e preceitos morais, isso invariavelmente significa que, para tais religiosos, evangelizar significa não apenas trazer um consolo espiritual ou alguma boa notícia do reino de Deus, mas também ditar como as pessoas devem se portar em sociedade, normalmente afim de não caírem em “tentações e maus caminhos”, e alcançarem o Céu após a morte.

Eu costumo sempre lembrar que religião e igreja não são a mesma coisa. Religião (re-ligare) é a religação a Deus ou ao Cosmos, uma experiência profundamente subjetiva que é percebida e praticada pelos homens desde a pré-história – particularmente através do xamanismo. Igreja (ekklesia) significa uma comunidade dos escolhidos de Deus – um grupo ou elite de pessoas que teoricamente possuem alguma espécie de “conhecimento oculto” capaz de fazer com que os homens possam se elevar ao Céu ou alcançar o reino de Deus.

A definição de religião pressupõe um Deus universal, um ser cósmico que pode inclusive ser confundido ou interpretado como o próprio Cosmos em si, e para o qual cada um de nós se inclina a retornar, passo a passo, por seus próprios meios, seguindo um caminho pessoal, subjetivo, intransferível. Já a definição de igreja dá a entender que Deus está a eleger um grupo de escolhidos, destinados a alguma tarefa especial no mundo – e a todos os demais, aos que se afastaram de sua doutrina, geralmente não são esperadas boas notícias após a morte. No melhor dos casos, serão enviados a alguma espécie de “limbo” onde irão aguardar um julgamento que, teoricamente, pode ser “aliviado” pelas orações daqueles que estão no grupo de escolhidos, os eclesiásticos.

Dessa forma, embora todo membro de igreja seja religioso, nem todo religioso será um membro de igreja.

Mesmo os evangelhos, por exemplo, não foram somente aqueles quatro escolhidos pela “comissão” de Constantino para compor o Novo Testamento. Existiriam muitos outros, e, sobretudo, existiriam muitos seguidores destes outros textos, taxados de apócrifos (segundo alguns, “errado, falso, não autêntico”, segundo outros, “livro ou texto secreto, conhecimento oculto”). Estes que foram chamados por Constantino de gnósticos, e perseguidos e assassinados ou obrigados a se “converter” ao “cristianismo oficial”, na verdade sempre chamaram a si mesmos de cristãos, e praticavam sua religiosidade em pequenos grupos, em colinas, em cavernas, em qualquer lugar – pois compreendiam que o reino de Deus abrange todo e qualquer lugar, todo e qualquer tempo, e não necessitavam de apóstolos ou padres para lhes ensinar a direção.

Muitos evangelhos apócrifos foram escondidos em vasos e enterrados em cavernas na região onde viveu Jesus, pois do contrário teriam sido queimados como todos os outros condenados por Constantino. Mas ao longo dos séculos eles foram sendo desenterrados, na medida em que a igreja de Constantino vinha perdendo sua força e sua capacidade de ditar o que os homens deveriam ou não considerar como “autêntico”. Em Nag Hammadi foi achado um dos evangelhos mais profundos de que se tem notícia, o Evangelho de Tomé – nele Jesus nos dá uma pista de onde se encontra, afinal, o reino de Deus:

Jesus disse: Se aqueles que vos guiam vos disserem: vê, o Reino está no céu, então os pássaros vos precederão. Se vos disserem: ele está no mar, então os peixes vos precederão. Mas o reino está dentro de vós e está fora de vós. Se vos reconhecerdes, então sereis reconhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas se vos não reconhecerdes, então estareis na pobreza, sereis a pobreza. (versículo 3)”.

Sem dúvida tal definição do reino é um tanto paradoxal. Ora, se ele já se encontra aqui e agora, dentre nós e a volta de tudo e de todos, como poderá algum padre, algum pastor, algum guru espiritual, algum evangelizador, nos apontar a correta direção?

Aparentemente, todas as direções são corretas. Porém, ao mesmo tempo, há que se ter olhos para vê-las. Não se trata, portanto, de buscar alguma espécie de grupo de escolhidos, alguma espécie de salvação do fim dos tempos, através do conhecimento de uma doutrina em específico, ou através deste ou daquele preceito moral... Não, jamais foi assim tão simples, jamais será tão fácil!

Gibran Khalil Gibran, o grande poeta do Líbano, dizia que “Nenhum homem poderá revelar-vos nada senão o que já está meio adormecido na aurora do vosso entendimento.” – Ora, é precisamente isso que nos ensinaram os grandes sábios de outrora, desde Lao Tsé a Sócrates; é precisamente isso que Jesus queria dizer com o “Mas se vos não reconhecerdes, então estareis na pobreza, sereis a pobreza”.

Estamos num mundo repleto de boas novas por todos os lados, debaixo de pedras e dentre os galhos partidos, além das nuvens e próximo a beirada dos rios e oceanos, muito além das estrelas mais longínquas e ao mesmo tempo tão próximo como nosso pensamento mais querido. Não nos cabe decorar ou recitar orações ou fórmulas mágicas para adentrar ao reino das boas novas, que estas são apenas muletas para aqueles que ainda não conseguem se erguer por si mesmos. Cabe-nos tão somente olhar para dentro, conhecer a nós mesmos, evangelizar ao nosso mais precioso inimigo.

E para aquele que conseguiu evangelizar a si próprio, aquele que alcançou tal nirvana da alma, não será sequer necessário buscar seguidores – eles mesmos o reconhecerão. Não será sequer necessário anunciar a boa nova, seu olhar já a trará como pérola misteriosa em oceano profundo. Não será sequer necessário fundar uma doutrina ou igreja, que esta já foi fundada desde o início dos tempos. A igreja é o próprio reino, a igreja é o Cosmos.

A seguir, o pequeno manual para a conversão do infiel...

***

Crédito da imagem: Neil Guegan/Corbis

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30.8.10

A ciência da inspiração, parte 3

Continuando da parte 2

Metáfora: Figura de linguagem em que há a substituição de um termo ou conceito por outro, criando-se uma dualidade de significado.

Devoradores de maçãs

Um dos mitos mais conhecidos da humanidade trata de jardim do Éden, onde os primeiros humanos criados por Deus, a sua imagem e semelhança, viviam imortais, ociosos e aparentemente felizes. Isso foi até que eles resolveram comer os frutos (o mito fala em maçãs) da árvore do conhecimento do bem e do mal, da qual Deus havia alertado que eles não deveriam comer, ou conheceriam a morte. E o resto todos já sabem: Deus ficou furioso e os expulsou do Éden apenas com alguns trapos feitos de couro de animais, pois que agora um se envergonhava da nudez do outro. E Adão e Eva povoaram o mundo, muito embora o pecado de Eva tenha nos amaldiçoado por muitos e muito anos, até que Jesus veio pagá-lo para nós.

Joseph Campbell, grande estudioso do assunto, dizia que “o mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre”. Ele provavelmente queria dizer que os mitos tratam de verdades que existem fora do tempo, ou seja, que existem sempre. Todo grande mito da humanidade fundamenta-se em uma ou mais dessas verdades, dessa partícula de essência que emana da eternidade. Foi exatamente por isso que os sábios antigos tiveram o cuidado de popular suas histórias com vários desses mitos. Eles sabiam, certamente, que muitos aldeãos e camponeses ignorantes de sua época iriam interpretar tais histórias ao pé de letra, de forma literal – mas sem dúvida também tinham a esperança de tocar a alma dos outros sábios que viriam a Terra em épocas posteriores.

O mito do Éden é repleto de metáforas. Talvez a mais interessante delas seja exatamente o paradoxo do pecado pelo qual Eva foi condenada. Ora, antes de devorar a maçã, ela era sem dúvida ignorante do conhecimento (seja do bem, seja do mal). Se nunca houvesse comido o fruto proibido, estaria ociosa e imortal, por toda eternidade, em um jardim onde poucas coisas interessantes acontecem – mas seria feliz, acredita-se. Animais ignorantes também são "felizes" vivendo no meio selvagem; Entretanto, as pressões do meio-ambiente nunca os deixaram relaxar: na guerra do sofrimento e da fome, mesmo em meio a sua “felicidade”, presas e predadores lutaram pela sobrevivência por longos e longos anos. Não fosse por essa pressão da natureza, talvez a Terra estivesse até hoje populada por hominídios, ou nem mesmo isso, por roedores e outros pequenos mamíferos...

Pois foi exatamente quando adquiriu à consciência e o conhecimento do bem e do mal que o ser humano se tornou quem é. Por um lado, portanto, a metáfora do fruto proibido é apenas uma história fantasiosa, por outro, é uma explicação surpreendentemente avançada para a época em que foi escrita. Será que os rabinos judeus tinham ideia de que estavam a antecipar um dos grandes mistérios da evolução das espécies? Será que tinham pleno conhecimento daquilo que escreviam talvez guiados pela pura intuição? Acredito que a resposta não esteja nem tanto lá, nem tanto cá. Certamente os sábios antigos tinham noção de que lidavam com assuntos sagrados, e que os estavam passando adiante “cifrados” em metáforas dentro de mitos. Mas da mesma forma eles certamente tinham consciência de que não tinham como saber tudo, e é exatamente por isso que passavam tais símbolos para as gerações futuras – como uma mensagem numa garrafa arremessada no oceano, a espera de alguma praia onde existam seres mais sábios para decifrar seus enigmas.

Nós já ficamos com nós na cabeça ao abordarmos o conceito de programação genética. E, da mesma forma, já consideramos com carinho a possibilidade da mente humana ser o resultado da interseção de módulos mentais (naturalista, técnico e social). Além disso, também falamos sobre como a neurologia compreende a criatividade: o foco mental em novos estímulos e ideias, em fluxo e trocas constantes com as ideias que já dominamos em nossas respectivas artes ou disciplinas... Ora, em posse dessas informações, talvez o processo misterioso dos algoritmos genéticos não seja mais tão insondável.

Vamos falar, por exemplo, de poesia: da mesma forma que gerações de algoritmos se digladiam no meio-ambiente do problema a ser resolvido, todos os estímulos que os poetas enviam para suas mentes – através de seus olhares sempre atentos aos menores detalhes da natureza à volta – nada mais são do que algoritmos em busca da solução de sua próxima poesia. A grande diferença é que, ao contrário dos programadores, os poetas geralmente sequer tem ideia de qual é o problema a ser resolvido – de certa forma, para eles, as soluções chegam junto com os problemas, embora nenhuma solução seja realmente a derradeira, e todos os problemas sejam quase sempre infinitos. Nessa batalha mental travada por estímulos ambíguos e aparentemente sem relação uns com os outros, ninguém sai derrotado, pois o fruto é sempre uma nova legião de metáforas. E estas maçãs são divinas, jamais proibidas... Os poetas são verdadeiros devoradores de maçãs!

Vejamos uma dessas “soluções”, pelo grande poeta místico, Gibran Khalil Gibran: “Na floresta só existe lembrança dos amorosos / Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram, / seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos / Conquistador entre nós é aquele que sabe amar / Dá-me a flauta e canta! / E esquece a injustiça do opressor / Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue”. Neste belo trecho do poema “A floresta”, é impossível chegar a uma compreensão efetiva do que o poeta quis dizer sem usar ao menos parte de nossa emoção e nossa intuição juntamente com nossa razão... Mesmo assim, ficará sempre aquela dúvida se realmente compreendemos todo o bem e todo o mal deste belo fruto da inspiração de Gibran. O lírio é uma taça para o orvalho, e não para o sangue – quantas e quantas interpretações e conceitos contidos em apenas uma frase.

Há ainda outros poetas que conseguem inserir metáforas dentro de metáforas dentro de ainda outras metáforas... Quando Fernando Pessoa diz que “o poeta é um fingidor, finge ser dor a dor que deveras sente”, ele está nos trazendo para uma análise existencial da qual a solução jamais será algo racional, objetivo, tal qual 2+2=4. Nesse sentido, é possível que os algoritmos genéticos sejam extensões de nossa racionalidade, aplicadas a problemas descobertos por nossos cientistas e matemáticos, e que tudo o que fazem é poupar seus cérebros de rodar trilhões de cálculos, antecipando uma solução que em séculos passados seria inviável. Entretanto, na poesia pode ser mais depressa ainda: a solução chega junto com o problema. A diferença é que na poesia a solução jamais será final, e após termos devorado todas as maçãs do Éden, teremos de sair nós mesmos em busca de mais conhecimento – ainda que o velho barbudo tenha se esquecido de nos expulsar...

Muito do debate acerca da existência de Deus se resume ao ancião das metáforas do antigo testamento bíblico – sim, pois o Deus de Jesus é sempre um coadjuvante, que intervém apenas por emanação de pensamentos, e não de forma “direta”. Esses debates se parecem mais com debates entre crianças que brincam em uma praia – uma delas constrói um castelo de areia e diz que “esta é a cidade de deus”... Enquanto outras crianças com senso crítico mais desenvolvido esperam as ondas da maré chegar e destruir os castelos, e então bradam convictas: “Viram! Não lhes disse que este deus tinha pés de barro?”.

Ora, mas e se o reino de Deus estiver em sua volta? E se ele abarcar não só os castelos de areia, como cada grão de areia da praia, e cada gota de água do mar, e cada nuvem e cada pássaro a planar pelo céu, e cada sol a flutuar pelo Cosmos, e cada partícula a bailar por nosso cérebro e nossa alma?

Einstein dizia que “a ciência sem a religião é manca; a religião sem a ciência é cega”. Ora, um dos grandes cientistas de nosso tempo, em sua maturidade, defendia uma “religiosidade cósmica”, baseada na presença de um poder racional superior, revelado no universo ainda oculto ao conhecimento da ciência. Muitos outros cientistas e filósofos foram teístas, deístas, panteístas, agnósticos, etc. Para quem possuí muita ciência, fica muito difícil apostar que tudo o que há surgiu do nada como numa “passe de mágica cósmico”. No mínimo, é preciso admitir que tal questão não pode ser compreendida hoje, e talvez jamais possa... De qualquer forma, pela lógica, também se faz necessário concordar com Espinosa (como Einstein, aliás, concordou) quando este afirma em sua “Ética” que “uma substância não pode criar a si mesma”...

E se Deus for um grande programador cósmico? E se nós formos parte dos algoritmos divinos que ele inseriu em sua criação? E se no núcleo de cada átomo, nos filamentos de cada DNA, em cada um de nosso neurônios, nas partículas etéreas de nossa alma, não estiverem inscritos códigos sagrados que ditam que este Cosmos nada mais é do que um problema em solução? E se formos nós mesmos os personagens e co-criadores desta poesia infinita? Navegando dentre raios cósmicos e poeira de estrelas, é impossível participar deste problema sem estarmos encharcados de Deus por todos os lados e a todos os momentos...

O reino de Deus sempre esteve a nossa volta. Nós jamais fomos expulsos do Éden. Tudo o que falta é compreendermos isso – que o Éden jaz, antes de mais nada, em nossa consciência... E que Deus ou o Cosmos jamais foram uma solução, jamais uma muleta na qual pudéssemos nos acomodar, mas sim um grandioso problema que vem sendo solucionado passo a passo, inspiração por inspiração. Nós devoramos uma maçã de cada vez...


Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão
Se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor

Gibran Khalil Gibran, trecho de “A floresta”.

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Crédito das fotos: [topo] Guto Lacaz (exposição "Einstein no Brasil"); [ao longo] Marcos Homem

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6.5.10

A busca pela verdade

Texto de Rafael Arrais, em homenagem ao grande poeta Gibran Kahlil Gibran.

Então Almitra [1] disse: fala-nos da busca pela verdade.

E ele respondeu:

Buscai a verdade como quem busca o horizonte.

Pois vós sabeis: o horizonte está sempre à frente. Não adianta se virar para outra direção nem pegar um atalho. O horizonte está além de qualquer atalho, e seu reino jaz no fim de todos os caminhos.

Mas não vos inquieteis com a imensidão do céu nem com a distância que vos separa da verdade. O infinito é dividido em eras, as eras são divididas em dias dos homens, e tais dias são divididos em momentos...

A cada momento a sua preocupação, e a sua verdade. Não acheis que algum momento trará “a verdade”, mas ficais satisfeitos se encontrardes “uma verdade”.

Povo de Orfalés, não busquem a verdade como quem busca um vagalume pela noite. Não confundais vagalumes com estrelas, nem pretendeis que ao agarrardes um com as mãos, que tenhais dominado uma verdade.

Que a luz não se detém nem com as mãos nem com a razão. Ela escapa, flui por entre caminhos invisíveis, e só se revela nos sonhos de vossas almas.

E as estrelas da noite, essas estão muito além do horizonte.

Cabe ao homem buscar a verdade neste mundo, para somente após se arremessar rumo às estrelas.

Que todos os dias dos homens são como um piscar de olhos da eternidade. E não há verdade que fuja dela. Toda a luz do mundo irradia da essência que está fora do tempo, além de vossos horizontes, no momento que é para sempre o mesmo...

Mas não nos demoreis muito em tais pensamentos, nem pretendais serem desbravadores de novas eras. Que todas as eras já foram desbravadas, e todas as verdades já foram descobertas.

Contentai-vos, portanto, em viver com alegria. Em buscar o horizonte não como quem quer salvar-se do mundo, mas como quem quer abraçar o céu inteiro, e dançar com as estrelas pela noite adentro...

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[1] Almitra é o personagem que faz a maior parte das perguntas para Almustafa, o escolhido e bem amado, personagem principal que dá voz aos ensinamentos de Gibran em sua obra-prima, “O Profeta”. Este texto, entretanto, é apenas uma homenagem ao grande poeta.

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» Parte da série "Após Gibran"

Crédito da foto: Larissa Januzzi

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