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11.2.19

Espíritos são coisa da nossa cabeça? (Reflexões no YouTube)

Bem-vindos ao primeiro vídeo resposta do canal! Neste vídeo respondo a uma pergunta do Douglas Pinnheiro sobre entidades espirituais e outras coisas mais... Lembrando que por enquanto estarei criando vídeos resposta somente para as perguntas nos comentários do vídeo comemorativo de 1.000 inscritos no canal.

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14.1.19

Mulheres na filosofia (Reflexões no YouTube)

Achou que não tinha mulheres na filosofia antiga? Achou errado. Neste vídeo falaremos de três das grandes sábias da humanidade que conseguiram ter seus nomes lembrados mesmo após séculos de sociedades patriarcais. São elas: Temistocleia, a mestra do primeiro filósofo da história, Pitágoras de Samos; Hipátia de Alexandria, que ensinou diversos filósofos em sua época, incluindo Sinésio de Cirene, um dos bispos da igreja cristã; e, finalmente, Rabia Basri, a maior santa do sufismo, o misticismo islâmico.

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17.12.18

O hermetismo e a ciência moderna (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo veremos como as ideias de um deus ou homem ou grupo de sacerdotes da Antiguidade grega (ou egípcia) anteciparam em milênios descobertas científicas que só foram possíveis na chamada era da ciência moderna. Teria Hermes Trismegisto sido o primeiro cientista da história? Ao final, trago mais informações sobre a minha tradução do "Caibalion", o grande livro introdutório ao hermetismo.

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22.10.18

A Alquimia, com Caciano Camilo Compostela

Há muito a era moderna especula sobre o que diabos seria a Alquimia (além é claro de mãe da química). Fala-se em transmutar chumbo em ouro, mas seria isto algo real ou somente metafórico? Fala-se em um suposto Elixir da Longa Vida, mas se ele tem este nome, por que deveria conferir a vida eterna? Fala-se numa Pedra Filosofal, mas desde quando as pedras filosofam?

Para elucidar essas e outras questões recorrentes dos curiosos recém-chegados na trilha que leva a Alquimia real, o pessoal do podcast Papo na Encruza convidou Caciano Camilo Compostela, que além de ser um dos maiores entendidos do tema no país, é também um colunista deste blog. Ouçam com carinho e atenção, e quem sabe vocês também poderão tornar o seu próprio ser um laboratorium, isto é, um local de trabalho (labor) e oração (oratorium). Que toda alma, enfim, possa ser o seu próprio laboratório alquímico.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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27.7.18

Hermes, o Adivinho?

Alguns dizem que ele viveu na região de Ninus, no Egito antigo, nalgum ponto do tempo entre 2.500 a.C. e 1.500 a.C. Dizem que era legislador e filósofo, e teria escrito 36 livros sobre teologia e filosofia (que naquela época não eram tão separadas) e 6 sobre medicina, todos eles perdidos ao longo das invasões e saques e mudanças de impérios regionais. Alguns o confundem com deuses, uns o chamaram de Toth, mas ficou mais conhecido como Hermes. Hermes Trimegisto (ou Trismegisto, quem se importa), o Três Vezes Grande, fonte primária do que se convencionou chamar hermetismo.

Segundo Mircea Eliade em História das crenças e das ideias religiosas (vol. II), o hermetismo teria florescido entre os séculos III a.C. e III d.C. no mundo helênico e romano, primeiramente através da própria cultura popular e depois como filosofia profunda, onde ele situa a obra mais importante, o Corpus Hermeticum, escrito em grego. Eliade vê no hermetismo um imenso sincretismo de filosofias espirituais judaicas, egípcias, iranianas e até mesmo platônicas. É muito difícil, portanto, cravar que Hermes foi somente um homem, ou um deus, ou um grupo de sacerdotes escritores, ou que viveu somente no Egito etc. O que nos importa aqui são os famosos 7 Princípios Herméticos: teria Hermes, seja ele quem for, adivinhado em boa medida os avanços da ciência e do conhecimento modernos milênios atrás? Veremos...

I. “O Todo é Mente; o Universo é Mental.”
Se é verdade que não encontramos teorias científicas de muito destaque que associem o universo diretamente a uma mente, seria apressado afirmar que Hermes chutou em falso logo em seu primeiro princípio. Ocorre que a própria lógica da demonstração deste axioma nos remete ao próprio momento da Criação, e de como “uma substância não pode gerar a si mesma” (como resumiu Benedito Espinosa em sua Ética, muitos séculos depois): ou seja, para algo surgir sem depender de outro algo já existente, há que se ter uma criação mental.

Como já disse Carl Sagan em Cosmos, “se você quiser fazer uma torta de maçã a partir do zero, você deve primeiro inventar o universo”. É que a única forma de fazer tal torta sem depender da pré-existência dos seus ingredientes é imaginá-los, da mesma forma que imaginamos uma cadeira de madeira sem depender da pré-existência da madeira. Assim sendo, compreender o universo inteiro como uma criação mental nos leva necessariamente ao fato de ele ter tido um início no tempo.

Ora, o próprio termo “Big Bang” foi primeiramente cunhado de forma pejorativa pelo astrônomo inglês Fred Hoyle, que como quase todos os cientistas de sua época, defendiam que o universo provavelmente “esteve sempre lá”, mais ou menos do mesmo tamanho, e que não poderia, de forma alguma, estar se expandindo indefinidamente desde algum ponto no tempo onde seu diâmetro cabia na cabeça de um alfinete. Não ajudava, decerto, o fato da própria teoria do Big Bang haver sido proposta por um padre jesuíta belga, Georges Lamaître, que também calhava de se interessar por astronomia e cosmologia. Tudo aquilo parecia bíblico demais, mas no final das contas se comprovou realidade, e toda a astronomia moderna eventualmente se curvou aos fatos.

A diferença é que Hermes não disse que “no princípio Deus criou o céu e a terra”. Ele disse algo distinto: o Todo é o céu e a terra, o Todo é a imaginação divina. O Todo não criou o mundo e depois foi descansar, mas imaginou tudo que há a partir de si mesmo. O Todo simplesmente é.

II. “Assim acima como abaixo; assim abaixo como acima.”
Mais ou menos quando o hermetismo surgiu no mundo grego, já era válida a chamada “física aristotélica”, baseada nas ideias de Aristóteles sobre o Cosmos. Ela foi inicialmente tão respeitada que era quase intocável, mas eventualmente sofreu críticas e, somente muitos séculos depois, com o advento do telescópio e da ciência moderna, foi derrubada em definitivo.

Ora, há pelos menos dois princípios fundamentais da física aristotélica que batem de frente com o segundo axioma de Hermes. Segundo Aristóteles, objetos muito acima da superfície da Terra não são constituídos por matéria originalmente terrestre, comum, mas pelo chamado Éter ou Quintessência. Ele também defendia que o Sol e os planetas são esferas perfeitas que não se alteram. Bem, isso basicamente queria dizer que o Céu, ou tudo que havia para além da Terra, não seguia as mesmas leis físicas, tampouco era constituído da mesma matéria básica. Não foi isso que arriscou Hermes, seu princípio diz claramente que as mesmas leis que valem acima, no Céu, devem valer abaixo, na Terra; muito embora elas possam variar em grau, tal variação jamais será absoluta.

Hoje sabemos que somos formados pela poeira de estrelas, que os elementos pesados de nosso corpo foram todos forjados no núcleo estelar, e que nossa matéria é prima de toda a matéria do universo, seja em que ponto estiver no espaço e no tempo... Hermes não precisou de telescópio para acertar mais um chute. Um sujeito muito sortudo, eu diria!

III. “Nada se encontra parado; tudo se movimenta; tudo vibra.”
Quando Hermes elaborou tal axioma, o máximo que se podia observar do mundo atômico era o que se conseguia enxergar com olhos nus. Demócrito fala em átomos indivisíveis, e dizem que tal ideia veio da observação de poeira flutuando pelos raios de sol de alguma tardinha. Tudo bem, o filósofo grego não estava longe da verdade, mas como, como diabos Hermes pode ter tomado conhecimento de que tudo o que há de fato está em constante vibração, e jamais parado?

As ideias de Demócrito só vieram a ser revistas em meados do século XIX, sendo que a física de partículas e a mecânica quântica só surgiram para valer na ciência moderna no século passado. Hoje sabemos que no mundo atômico e subatômico, as partículas não somente estão vibrando incessantemente, como sequer podem ser medidas com grau completo de certeza quanto a sua posição e movimento: segundo o princípio da incerteza na física quântica, ou sabemos de uma informação, ou de outra.

Em seu estado mais fundamental, os elementos que constituem o Cosmos estão não somente em vibração eterna, como se movimentam de forma tão elusiva que sua posição no espaço é antes uma probabilidade do que uma certeza. Como já disse uma vez um físico muito simpático, “se você acha que entendeu alguma coisa sobre mecânica quântica, então é porque você não entendeu nada”.

No entanto, há milênios atrás, sem microscópio algum, o lazarento do Hermes acertava na mosca mais uma vez. O que será que ele fumava?

IV. “Tudo é Dual; tudo tem polos; tudo tem o seu par de opostos; igual e desigual são o mesmo; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se encontram; todas as verdades são nada mais que meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados.”
Embora tenhamos chegado num dos axiomas que tratam mais de conceitos metafísicos do que físicos, é inegável que Hermes já falava em polaridade desde o mundo antigo.

Todo mundo que já teve de trocar as pilhas do seu controle remoto já viu que há em cada uma delas um polo positivo [+] e um negativo [-]. Tal conceito fundamental do eletromagnetismo é também um fruto dos avanços da ciência moderna. Assim, ainda que para nossa ciência atual não esteja tão claro que absolutamente tudo na natureza tenha dois polos, pelo menos nesse aspecto (eletromagnético) Hermes acertou, mais uma vez.

V. “Tudo flui, para fora e para dentro; tudo tem suas marés; tudo sobe e cai; a oscilação pendular se manifesta em tudo; a medida da oscilação à direita é a medida da oscilação à esquerda; o ritmo é a compensação.”
Novamente um axioma mais metafísico do que propriamente científico. No entanto, foi somente recentemente na história da ciência que desvendamos todos os segredos das marés, ou seja, as oscilações cíclicas no nível da água dos oceanos.

Na época de Hermes muita gente ainda deveria acreditar que os mares escoavam para o abismo no fim do mundo, que era compreendido como algo plano. Hermes não, o danado parece que ficava imaginando como seria o futuro, e chutou com felicidade de novo.

VI. “Toda Causa tem o seu Efeito; todo Efeito tem a sua Causa; tudo ocorre de acordo com a Lei; o Acaso é tão somente um nome para uma Lei não reconhecida; existem muitos planos de causalidade, mas nada escapa à Lei.”
Este talvez seja o axioma mais científico de Hermes. Parece simples para muitos de nós hoje imaginar que nenhum pedregulho sequer rola de uma encosta montanhosa sem uma causa física anterior, como chuvas torrenciais ou a lenta degradação da mata no entorno. Porém, numa época onde o pensamento mágico era ainda amplamente aceito, arriscar dizer que nada poderia simplesmente surgir ou ocorrer do nada, ao acaso, como num passe de mágica, ainda era algo revolucionário.

Ah sim, e ele acertou outra vez!

VII. “O Gênero está em tudo; tudo tem seu Princípio Masculino e Feminino; o Gênero se manifesta em todos os planos.”
A primeira vista este último axioma parece, de todos, o chute mais fácil de ter sido acertado naquela época. Afinal, bastava olhar para os homens e as mulheres, e os machos e as fêmeas no mundo animal, e elaborar uma teoria básica.

No entanto, Hermes parece ter se referido a algo mais profundo, algo com o que a psicologia só veio a esbarrar mais seriamente nos dias atuais: gênero não é sexo biológico, e sexo biológico não é gênero. Se há crianças que, desde bem novas, dizem “estarem presas no corpo errado”, é que enxergam a si mesmas antes pelos princípios, seja masculino ou feminino, que dominam sua alma, do que propriamente pelo corpo em que habitam.

A transexualidade é ainda um tabu tão grande que foi somente neste ano, 2018, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) a retirou da lista de transtornos mentais. Hoje por todo o mundo civilizado se debate o que é gênero, e se existe mesmo alguém 100% macho ou fêmea, ou, se pelo contrário, se todos somos compostos por uma mescla de princípios ou energias masculinas e femininas.

Assim, há muita gente que nunca ouviu falar de hermetismo, que sequer acredita em alma ou reencarnação, que se debruça profundamente sobre tais questões de gênero; algo que, de certa forma, Hermes também antecipou há milênios...

Como pode ser tão sortudo?
Mas, como pode Hermes ter sido tão afortunado em tantos chutes? Ou será que ele dispunha de ferramentas que nós não dispomos, ou pelo menos ainda não identificamos em nós mesmos?

Teria Hermes adivinhado tudo isso por pura simpatia da Deusa Fortuna, ou teria ele descoberto tudo isso e muito mais contemplando aos espaços misteriosos de sua própria mente?

Essas são questões que merecem ser consideradas com carinho por todo estudante de hermetismo. Se Hermes foi algum deus, foi também outro sábio da sua época quem disse: “sois deuses, e dia virá em que farão tudo isso que eu tenho feito, e ainda muito mais”. Ora, se eles foram deuses, nós também somos da raça dos deuses. Nós também somos cocriadores nesta Criação. Nós também somos a imagem e a semelhança do Todo. Agora, basta navegar adentro...

Boa viagem, ó argonautas da mente!

***

» Veja também a minha tradução do Caibalion, e o artigo O dia em que a terra parou, onde jogamos luz no papel que o hermetismo teve no próprio advento da chamada ciência moderna, com Copérnico e Galileu.
 
Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] The Ritman Library; Google Image Search.

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27.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo final)

« continuando do tomo III


Imagine esta noite, há dez mil anos, fria e úmida, nalgum canto europeu onde tudo o que os homens sabiam acerca de outros homens se resumia a tribos que foram vistas de passagem pela margem da floresta, e que logo se esconderam dos olhares estranhos. Um mundo ancestral, onde vivíamos isolados, andarilhos vivendo da caça e da coleta, temerosos dos trovões e da raiva dos deuses. Conectados, em todos os momentos, à Natureza em nossa volta, ao ponto de nem precisar lhe dar um nome: a Natureza já era todo o mundo.

Alguns poucos dentre nós eram escolhidos, geralmente desde a infância, para serem os discípulos do xamã da tribo, aprendendo com ele todos os dias e todas as noites a se comunicar com os espíritos de antigos heróis e sábios tribais, assim como com os seres etéreos da natureza; e, de vez em quando, até mesmo com alguns dos seus deuses. Um xamã abandonava seu corpo, sua mortalha, para ir habitar do outro lado, e então o seu discípulo assumia o seu lugar, e logo escolheria outro para também um dia lhe substituir no futuro, pois que nenhuma tribo era capaz de sobreviver por muito tempo sem o auxílio daquele que se comunica com espíritos, que dá conselhos sobre as caçadas e conhece todos os segredos das ervas medicinais.

Imagine esta noite, ao redor da fogueira, onde o velho xamã canta (acompanhado de alguns tocadores de tambor) antigos poemas sobre caçadas épicas, tempos de fartura de frutos, e metamorfoses de seu próprio ser com diversos animais – vivenciadas em transe profundo, no único lugar onde todos os seres fantásticos, os espíritos, os deuses e demônios existem incontestavelmente: a mente humana.

Nessa era, quando todos os conhecimentos espirituais eram centrados na figura do xamã, a magia sequer tinha um nome. Por se tratar “de tudo o que tem relação com o espírito humano”, ela não precisava realmente ser rotulada, reduzida a uma palavra, um signo... no entanto, se um xamã fosse intimado a falar acerca da sua teologia, ele provavelmente responderia como um sacerdote xintoísta respondeu a Joseph Campbell: “nós não temos teologia, nós dançamos”.

Desde os primórdios da humanidade, a mente e o espírito sempre encontraram caminhos propícios para transbordar sua subjetividade no mundo objetivo, para de alguma forma estranha, tornar possível a migração de informações do mundo das ideias, do mundo interior, onde tudo é fluido, onde tudo pode ser simplesmente imaginado, até o mundo das coisas, até o mundo exterior, onde tudo tem corpo e forma, onde tudo tem o seu tempo de nascer, viver e morrer. Assim, sempre nos pareceu (e para a maioria de nós ainda parece) que este mundo dito objetivo é mais como uma passagem, um entrecruzamento de vias férreas, onde os trens de nossas vidas podem apitar uns para os outros, por breves períodos, até que precisem novamente zarpar para a próxima estação.

Lá no início de tudo, lá, muito antes da linguagem, a magia já brotava como uma espécie de noivado com a consciência. Através da magia, o que era somente imaginado pôde, passo a passo, ser transferido para o mundo lá fora. Na falta de um nome melhor, lhe chamamos A Arte...

Enclausurados no fundo das cavernas, com pouquíssima iluminação, se valendo de sangue animal e de tintas arcaicas, os xamãs gravaram no ventre da própria Terra imagens de suas caçadas, do que vivenciavam em seus transes, e da morte e renascimento em suas próprias iniciações, quando também eles vieram desvanecer no ventre da Mãe, para renascerem como filhos de Gaia, irmãos de todos os demais xamãs do mundo. E isto, que hoje chamamos de arte rupestre, nada mais foi do que o surgimento da pintura.

Muitos também aprenderam a talhar a pedra não somente para produzir pontas de lanças e flechas, como para trazer ao mundo das formas sólidas as figuras dos mais antigos deuses, sobretudo a Deusa Mãe, com suas formas fartas, garantidora da vida e da fertilidade da tribo. Assim surgiu a escultura.

Da música e da poesia nós já falamos, mas considere como ambas foram reunidas com danças e encenações, quando já não bastava mais somente contar uma história: era preciso reencená-la novamente, e quantas vezes fossem precisas, nas noites em que a tribo rememorava antigos acontecimentos dignos de nota. Muito tempo, e algumas civilizações depois, tais encenações passaram a ser independentes da religião em si, e foram chamadas de teatro pelos gregos antigos. Conforme a ópera e o próprio cinema não poderiam ter surgido sem o teatro, há que se considerar que todos eles ainda derivam, em última instância, da Arte.

Finalmente, foi inventada a escrita, e todas as histórias ancestrais puderam fluir da mente daqueles que as recitavam de memória para os símbolos que, se eram incapazes de trazer consigo todo o sentimento, toda emoção daqueles que um dia cantaram ao redor das fogueiras ancestrais, ao menos podiam registrar com exatidão inimaginável algo que se passava tão somente na mente do xamã. Milhares de anos depois, o próprio ocultismo iria se basear largamente na forma como certas palavras são recitadas, assim como no estilo com a qual elas eram guardadas nos livros e nos grimórios. A isso tudo nós também demos outro nome: literatura.

É bem verdade que os primeiros magi (magus, no singular) eram sacerdotes do zoroastrismo, que mais tarde vieram a ser rotulados de “praticantes de magia” pelos gregos, que ironicamente não viam o que eles faziam com bons olhos. Assim, quando a Arte recebeu o nome “magia”, foi mais por um acidente da história. É curioso como, mais ou menos desde essa época, tudo o que era realizado pelas religiões dos povos estrangeiros foi considerado “magia”, sobretudo como forma de diferenciação para com as práticas sagradas da religião oficial do próprio país. Até hoje é fácil se encontrar coisa parecida: “macumba é magia negra, mas as minhas simpatias, as minhas orações aos santos, isso é tudo coisa de Deus”.

Na realidade, como pudemos ver, desde o xamanismo antigo, a própria religião, a própria religação a Natureza, ao Cosmos e aos deuses, esteve indissociada da Arte. Religião também é, e sempre será, uma forma de magia (uma das mais antigas, por sinal).

Aliás, quando a então famosa pitonisa de Delfos, Temistocleia, iniciou Pitágoras em seus conhecimentos ocultos, ela ainda poderia ser rotulada como “religiosa”. Foi somente quando o próprio Pitágoras ganhou sua fama (basicamente evangelizando a sabedoria de sua mestra), que ele eventualmente foi chamado de “filósofo”: amante (filos) da sabedoria (sophia). Assim surgiu a filosofia no Ocidente, e também ela, obviamente, é filha da Arte.

Desde Demócrito os antigos “filósofos da Natureza” (título que, aliás, foi assumido por alguns desta estirpe até poucos séculos atrás) começaram a focar sua atenção também nos eventos que ocorrem lá fora, e investigaram tanto os átomos quanto as constelações. Eratóstenes já sabia que a Terra não era plana cerca de 2 séculos antes de Cristo, e chegou a calcular sua circunferência com precisão invejável. Mas foi alguma espécie de deus ou semideus, Hermes o Três Vezes Grande, quem antecipou em milênios a física de partículas e o estudo de outros sóis e outros mundos: pelo menos desde a antiga Grécia ele já havia arriscado dizer que “tudo vibra, e nada está parado”, e que as leis que regem o Alto são as mesmas que regem o que acontece por aqui.

Quando Nicolau Copérnico publicou o seu célebre Das revoluções das esferas celestes, algumas linhas abaixo da primeira ilustração do heliocentrismo estava descrita a sua maior inspiração: Hermes Trimegistus. Diz a “história oficial” que a Igreja mandou um de seus monges (Giordano Bruno) para a fogueira simplesmente por defender que a Terra girava em torno do Sol. Eles preferem ignorar o que realmente se passou, e como Bruno quis fundir o cristianismo com o hermetismo, criando uma nova religião cósmica. Tivesse tido sucesso, o mundo ocidental seria hoje muito, muito diferente...

Em todo caso, fato é que o que havia se iniciado lá em Demócrito hoje está plenamente consolidado na era moderna: a separação definitiva entre a Arte e a ciência, entre a alquimia e a química, entre a astrologia e a astronomia, entre o conselho xamânico e a psicanálise.

Diz o atual dogma científico que nada do que escapa ao puramente objetivo deve ser considerado pela ciência. Nem sempre foi assim, mas hoje a Academia prefere relegar o que pode ser chamado de “sobrenatural” as “esquisitices da mente” e ao efeito placebo. Que seja, que a magia seja a arte de se catalisar efeitos placebo. E, quanto à mente, bem, é justamente nela que se passa toda a nossa existência, seja ela “esquisita” ou “normal” (não sabemos o que é mais estranho).

Foi mais ou menos assim que a Arte se decompôs em inúmeras partes, infindáveis campos de estudo, incontáveis maneiras de se contemplar a Natureza. No entanto, se pudéssemos voltar atrás, e reconciliar toda a nossa sociedade de acordo com os preceitos arcaicos do xamanismo, ainda seríamos divididos entre caçadores e artistas. Ora, felizes aqueles que não necessitam caçar para sobreviver, e podem se dedicar plenamente a Arte, e a sua Grande Obra. Para isso, sim, meus irmãos, para isso vale a pena estar aqui, para isso vale a pena apontar nossos espelhos pequeninos para a luz do Alto, a luz que se encontra espalhada por tudo o que há, mas que ainda é invisível para quem se arrasta sonolento pela existência.

Acorde! Recorde que você é um homem, que veio de uma estrela, que está em uma estrela, que irá para outra estrela...

Imagine esta noite, há dez mil anos, com você sentado ao redor da fogueira. Imagine, sinta como a sua chama lhe aquece. Feche os olhos e veja: na sua frente, do outro lado da fogueira, está um xamã ancestral, também de olhos fechados. Ele abre os olhos, e lhe encara... de alguma forma, você sabe, você sempre esteve lá. Isto é Ars Magica.

Pouse suavemente. Os mensageiros orientam...


raph’18

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Crédito das imagens: [topo] TASS/Vladimir Smirnov (xamã siberiana); [ao longo] Sisse Brimberg/National Geographic (arte rupestre na caverna de Lascaux, França); Google Image Search (Angkor Wat).

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22.2.18

Ocultaria, o congresso das coisas que não existem

Não é lá muito simples definir o que é ocultismo, e muitas pessoas têm visões diversas do que ele venha a ser exatamente. Por isso mesmo, ao estudar o ocultismo, particularmente o ocultismo contemporâneo, é bom saber em que terreno se está pisando. Pois bem, eu creio que o pessoal do Ocultaria – o congresso das coisas que não existem têm bases sólidas e confiáveis, por isso estou aqui indicando este evento para quem puder ir (também estão disponíveis pacotes para assistir por vídeo).

Ele vai ocorrer em 21/07/2018, em São Paulo, não muito distante de onde costumam acontecer os Simpósios de Hermetismo, isto é, ali pela região no entorno da Av. Paulista (maiores detalhes no site). Aliás, o Ocultaria é quase como um Simpósio de Hermetismo feito por uma geração um pouco mais jovem, o que é algo extraordinário porque demonstra como esse tipo de conhecimento está fincando raízes cada vez mais sólidas aqui no Brasil.

Aliás, um dos palestrantes e apresentadores do Vortex Caoscast, o Rodrigo Vignoli, também é figurinha carimbada entre os frequentadores do Simpósio. Além dele, também falam o meu amigo Gelo e o Victor Vieira, que completam os pilares do Vortex; e, representando o canal do Nino Denani no YouTube, falam o próprio Nino e a Ana Lídia.

Portanto, se você quer conhecer um pouco mais de ocultismo, recomendo que assista alguns vídeos do Nino, depois ouça alguns podcasts do Vortex, e se lhe interessar, vá lá conferir tudo isso ao vivo:

Se inscreva no Ocultaria!


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10.1.18

Lançamento: O Caibalion

As Edições Textos para Reflexão desta vez trazem a você o grande clássico do hermetismo moderno, O Caibalion.

Escrita e publicada no início do século 20 por estudantes anônimos do hermetismo, esta obra introdutória traz preceitos e axiomas do antigo hermetismo, comentados e explicados para uma nova era e um novo público. Publicado originalmente em inglês, nos EUA, este Caibalion é mesmo um fruto de nosso tempo, porém ele se refere a outro Caibalion, bem mais antigo e oculto, que se perdeu nos anais da história, mas que se encontra preservado nas mentes e nas almas de todos aqueles que não deixaram morrer a chama. Acaso deseje se tornar um jogador no jogo de tabuleiro da vida, e não mais mera peça a ser movida pelas circunstâncias e influências externas, este pequeno livro cheio de luz pode ser o seu guia nas noites mais escuras.

Disponível em e-book e versão impressa :

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Se você mora fora do Brasil e deseja ter minha tradução impressa, também colocamos à venda uma versão impressa exclusiva na Amazon.com

***

À seguir, trazemos um trecho do Cap. I – A Filosofia Hermética:

Nos primeiros tempos, havia uma compilação de algumas Doutrinas Herméticas Básicas, passadas de instrutor a estudante, que ficaram conhecidas como O Caibalion, cujo exato significado do termo esteve perdido por muitos séculos. Este ensinamento, entretanto, é conhecido por muitos seres ao qual ele foi derramado ao longo dos séculos, de lábios a ouvidos, sempre escoando pelo tempo. Até onde sabemos, os seus preceitos nunca foram escritos ou impressos. Se tratava de uma mera coleção de máximas, axiomas e preceitos, que soavam incompreensíveis aos estrangeiros das ordens, mas que eram prontamente assimilados pelos estudantes assim que o seu conteúdo era explicado e exemplificado pelos Iniciados aos seus Neófitos.

Tais ensinamentos constituíam de fato os princípios básicos da Arte da Alquimia Hermética, que, ao contrário da crença popular, se baseia no domínio das Forças Mentais, e não dos Elementos Materiais – portanto, a Alquimia não fala da transmutação de um tipo de metal em outro, mas da transmutação de um tipo de Vibração Mental em outra. As lendas acerca da Pedra Filosofal, que transformava qualquer metal comum em Ouro, falavam tão somente de uma alegoria relacionada à Filosofia Hermética, facilmente compreendida por quaisquer estudantes do verdadeiro Hermetismo.

Neste pequeno livro, cuja Primeira Lição é esta, nós convidamos nosso estudante a examinar os Ensinamentos Herméticos, conforme expostos no Caibalion e explicados por nós, humildes estudantes dos Ensinamentos (e que, apesar de carregarem o título de Iniciados, são tão somente estudantes prostrados aos pés de Hermes, o Mestre). Assim, nós lhe oferecemos muitas das máximas, dos axiomas e dos preceitos do Caibalion, acompanhados de explicações e comentários que acreditamos servir de auxílio para a compreensão do estudante moderno, particularmente porque o texto original se encontra propositalmente velado em muitos termos obscuros.

As máximas, axiomas e preceitos originais do Caibalion estarão sempre destacados em negrito no restante de nossa obra, e todos eles vêm diretamente dos lábios de Hermes. O restante do texto, sem destaque, pertence a nós. Esperamos que muitos dos estudantes aos quais nós hoje oferecemos esta pequena obra possam tirar tanto proveito do seu estudo e conhecimento quanto aqueles buscadores que já a seguiram através do Caminho do Adepto, ao longo dos muitos séculos que se passaram desde o tempo de Hermes Trimegisto, o Mestre dos Mestres, o Três Vezes Grande:

“Onde se encontram as pegadas do Mestre, os ouvidos daqueles preparados para os seus Ensinamentos se abrem completamente.” – O Caibalion

“Quando os ouvidos do estudante estão preparados para ouvir, logo vêm os lábios para preenchê-los de sabedoria.” – O Caibalion

Assim, conforme indicam os Ensinamentos, a divulgação desta obra se dará na medida em que os seus futuros estudantes se encontrarem em condições de compreendê-la, pois do contrário sequer lhe darão a atenção devida, e ela lhes passará desapercebida, como deve ser. E, segundo a mesma Lei, quando o pupilo estiver devidamente preparado para receber a verdade, então esta pequena obra dará um jeito de chegar ao seu conhecimento.

O Princípio Hermético de Causa e Efeito, em seu aspecto de Lei de Atração, tratará de juntar lábios e ouvidos – e muitos pupilos ainda hão de conhecer este livro.

Que Assim Seja!


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28.12.17

O Tudo e o Nada

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje prosseguimos com a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

E desta vez, surpresa!, sou eu mesmo que apareço no vídeo. Logo após o Simpósio de Hermetismo deste ano (Novembro de 2017), tive o prazer de visitar a casa do Bruno e, ao ver o "set de filmagens" do canal, decidimos simplesmente ligar a câmera e falar sobre "alguma coisa". Claro que achei que a oportunidade era ideal para falar sobre o Tudo e o Nada, que os leitores do meu blog (e, principalmente, do meu livro Ad infinitum) sabem bem que se trata de um tema recorrente das minhas reflexões.

O meu objetivo, portanto, é mais estabelecer uma base de questionamentos filosóficos a partir da premissa inicial de que "existe algo e não nada" do que propriamente "evangelizar" alguma crença ou filosofia particular adiante. Assim sendo, o ideal é que vocês mesmos se questionem e busquem pelas próprias respostas, pois eu não tenho pretensão alguma de ditar regras de pensamento.

Feliz Ano Novo! (tudo vibra e nada está parado, inclusive este nosso planetinha)

» Saiba mais sobre o andamento da minha tradução do Caibalion

» Saiba mais sobre o meu livro: Ad infinitum

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20.12.17

Traduzindo o hermetismo, parte 2

Continuamos trazendo os trechos iniciais da tradução de Rafael Arrais do Caibalion, que em breve será publicado em e-book e livro impresso.

« continuando da parte 1

De lábio a ouvido as verdades foram sendo passadas através dos séculos para os poucos caminhantes em condições de recebê-las. Sempre houve poucos iniciados em cada geração, nos mais variados territórios do planeta, que mantiveram vivo o fogo sagrado dos Ensinamentos Herméticos, e eles sempre estiveram a postos para se valer de suas reluzentes lamparinas para reacender as lamparinas acanhadas do mundo profano, sempre que a chama da verdade ameaçava esmaecer por conta da negligência de seus cuidadores, ou quando os pavios ficavam embebidos em estranhas substâncias. Sempre houve um punhado de seres dispostos a cuidar fielmente do altar da Verdade, sobre o qual foi posta a Lamparina Perpétua da Sabedoria. Tais seres devotaram suas vidas para a obra de amor que o poeta soube definir tão bem nestas linhas [Nota do Tradutor: trechos do poema de Edward Carpenter em Towards Democracy]:

Ó, não deixes a chama morrer!
Mantida era após era em sua escura caverna,
e tão bem cuidada nos templos sagrados
pelos puros ministros do amor...
Não, não deixes a chama morrer!

Tais seres jamais buscaram a aprovação popular, tampouco numerosos seguidores. Eles são indiferentes a tais coisas, pois que bem sabem como são tão poucos aqueles que, em cada geração, estão preparados para a verdade, ou que pelo menos são capazes de reconhecê-la quando esta lhes é apresentada. Eles guardam “a carne para os adultos”, enquanto outros dão “o leite às crianças”. Eles reservam suas pérolas de sabedoria para os poucos eleitos que são capazes de reconhecê-las, e assim as utilizam no adorno de suas coroas, ao invés de jogá-las aos porcos vulgares e materiais, que iriam tão somente chafurdar na lama com elas, e as misturar com o seu desagradável alimento mental.

Mas tais iniciados no caminho nunca menosprezaram ou se esqueceram dos preceitos originais de Hermes, que tratam da transmissão da verdade para aqueles em condições de recebê-la, conforme nos diz o Caibalion: “Onde se encontram as pegadas do Mestre, os ouvidos daqueles preparados para os seus Ensinamentos se abrem completamente”; e, noutra parte: “Quando os ouvidos do estudante estão preparados para ouvir, logo vêm os lábios para preenchê-los de sabedoria”. Mas sua atitude costumeira sempre esteve em estrito acordo com outro aforismo hermético, também presente no Caibalion: “Os lábios da Sabedoria se encontram fechados, exceto aos ouvidos do Entendimento”.

Há aqueles que criticaram tal atitude por parte dos hermetistas, e que afirmaram que eles não manifestavam o verdadeiro espírito dos seus ensinamentos por conta de suas políticas de reclusão e reticência. Porém um rápido olhar pelo que se passou nas páginas da história irá revelar a devida sabedoria dos Mestres, que bem sabiam o quão inútil seria tentar ensinar abertamente num mundo que não estava preparado e tampouco desejoso de receber tais ensinamentos. Os hermetistas jamais buscaram se tornar mártires, tanto pelo contrário, somente se sentaram silenciosamente ao largo dos grandes acontecimentos profanos, com seus lábios fechados, esboçando um leve sorriso de piedade.

Enquanto isso, “os ignorantes se enfureciam contra eles”, se valendo de sua diversão costumeira de encaminhar para a morte e a tortura os honestos porém desencaminhados entusiastas que um dia imaginaram ser possível evangelizar a verdade para uma raça de bárbaros; a verdade que só poderia ser compreendida, é claro, por aqueles já avançados no caminho.

E este espírito de perseguição ainda vive até os dias atuais. Ainda há certos Ensinamentos Herméticos que, se forem divulgados abertamente, possivelmente farão com que caia sobre os seus instrutores um clamor de ódio e desprezo vindo da multidão: “Crucificai-os! Crucificai-os!”.

Nesta pequena obra nós buscamos lhes dar uma ideia dos ensinamentos fundamentais do Caibalion, nos esforçando para lhes trazer os Princípios que de fato funcionam, mas deixando que vocês mesmos os estudem e pratiquem com maior profundidade, ao invés de tentar detalhá-los apenas com palavras. Se você acaso é um estudante verdadeiro, certamente poderá compreender e aplicar tais Princípios no seu dia a dia – porém, se ainda não se tornou um, você deve buscar primeiramente desenvolver a si mesmo, do contrário os Ensinamentos Herméticos nada mais serão que “palavras, palavras, palavras” para você.

Os Três Iniciados

***

Crédito da imagem: Marko Horvat/unsplash

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13.12.17

Traduzindo o hermetismo, parte 1

Sempre soube que ao longo do meu projeto de traduções de grandes obras em domínio público eu eventualmente chegaria ao Caibalion, mas confesso que me surpreendeu que um livro tão essencial para o estudo do ocultismo e do espiritualismo em geral tenha até hoje basicamente só uma única tradução para o português [1], a de Rosabis Camaysar para a Editora Pensamento, que provavelmente foi a versão lida pela grande maioria daqueles que já conhecem a obra, inclusive eu. Mas, não somente isso, como até hoje não temos uma única versão em e-book do livro, nem mesmo da própria Pensamento.

Parece que estavam todos esperando pela minha tradução, e se for o caso, informo que ela já está a caminho, e deve ser lançada no início de 2018 tanto em e-book (na Amazon) quanto na versão impressa (pelo Clube de Autores, e quiçá também pela própria Amazon, aguardem novidades!).

Como eu tenho estado, justamente, bem ocupado com o trabalho de tradução, pensei em usar o início dela para preencher alguns posts do blog, mais ou menos como fiz quando estive traduzindo o Bhagavad Gita. Portanto, segue abaixo, e nos próximos posts desta pequena série, os trechos iniciais da minha tradução do Caibalion, a obra essencial para quem quer conhecer o hermetismo.

Rafael Arrais

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Introdução

Nós temos grande prazer em trazer à atenção dos estudantes e investigadores das Doutrinas Secretas esta pequena obra baseada nos Ensinamentos Herméticos do mundo antigo. Há tão poucos escritos acerca de tal assunto, apesar das inúmeras referências aos Ensinamentos em diversas obras do ocultismo, que muitos sinceros buscadores das Verdades Arcanas irão, sem dúvida, apreciar com carinho este volume.

O propósito desta obra não é a enunciação de nenhuma filosofia ou doutrina em especial, mas sim o de ofertar aos estudantes uma exposição da Verdade que servirá de reconciliação para muitos dos pedaços separados do conhecimento oculto que eles podem ter adquirido, mas que por vezes se parecem como que opostos uns dos outros, e terminam por desencorajar e desanimar aqueles que estão no início do caminho. Nossa intenção não é erguer um novo Templo do Conhecimento, mas deixar nas mãos do estudante a Chave-Mestra com a qual ele mesmo poderá abrir muitas portas internas no Templo do Mistério cujos portais ele já adentrou.

Não há porção dos ensinamentos ocultos existentes no mundo que foi tão bem guardada quanto os fragmentos dos Ensinamentos Herméticos que chegaram até nós através das dezenas de séculos que se passaram desde que viveu entre nós o seu grande fundador, Hermes Trimegisto, o “escriba dos deuses”, que residiu no antigo Egito nos dias em que a atual raça humana estava ainda em sua infância. Contemporâneo de Abraão e, se forem verdadeiras as lendas, um instrutor deste venerável sábio, Hermes foi, e ainda é, o Grande Sol Central do Ocultismo, cujos raios serviram de iluminação para incontáveis ensinamentos que foram disseminados desde o seu tempo. Todos os ensinamentos mais básicos e fundamentais embutidos nos conhecimentos esotéricos de cada etnia humana podem ser traçados de volta a Hermes. Mesmo os preceitos ancestrais da Índia sem dúvida têm suas raízes firmes nos Ensinamentos Herméticos originais.

Saindo da terra do rio Ganges, muitos ocultistas de grande conhecimento peregrinaram até alcançar o Egito, e se prostraram aos pés do Mestre. Foi dele que eles obtiveram a Chave-Mestra que explicou e reconciliou suas visões divergentes, e assim a Doutrina Secreta foi estabelecida em bases sólidas. De outros territórios também vieram os avançados no caminho, que da mesma forma reconheceram Hermes como o Mestre dos Mestres, e a sua influência era tamanha que apesar dos desvios do caminho pela parte das centúrias de instrutores de terras tão diversas, ainda há como se rastrear uma certa semelhança e correspondência por detrás das diversas e por vezes divergentes teorias aceitas e ensinadas pelos ocultistas de diferentes culturas e países até os dias atuais. O estudante de Religiões Comparadas terá condições de perceber a influência dos Ensinamentos Herméticos em cada religião digna do nome hoje conhecida entre os seres humanos, seja ela uma religião já morta ou ainda em pleno vigor no transcorrer de nosso próprio tempo. Há sempre uma certa Correspondência entre elas, apesar das aparências contraditórias, e os Ensinamentos Herméticos atuam como o Grande Reconciliador.

A grande obra da vida de Hermes parece ter se inclinado na direção de plantar uma grandiosa Semente da Verdade que desde então brotou e floresceu em inúmeras formas as mais estranhas, pois que ele não quis estabelecer uma mera escola de filosofia destinada a enredar o pensamento humano. No entanto, de qualquer forma, as verdades originais que ele ensinou foram mantidas intactas em toda a sua antiga pureza pelos poucos seres que, em cada época, ao recusarem um grande número de estudantes e discípulos pouco desenvolvidos, seguiram os preceitos herméticos e guardaram tais verdades para aqueles poucos realmente preparados para as compreender e dominar.

» Continua com a parte final da Introdução

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[1] Ao menos entre as versões de editoras brasileiras não esgotadas ou fora de tiragem, que eu saiba há somente esta mesmo.

Crédito da imagem: Aarón Blanco Tejedor/unsplash

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28.9.17

Hipátia de Alexandria, a grande mestra

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje inauguramos a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

Neste primeiro roteiro enviado ao canal, eu me baseei no meu artigo Hipátia e Sinésio para trazer ao universo dos youtubbers uma narrativa historicamente fiel desta verdadeira musa da Filosofia, a grande Hipátia de Alexandria. Musa, não por sua lendária beleza, ou não somente por ela, mas tanto mais pela sabedoria que refletiu adiante em muitos de seus discípulos que, como pode ser visto no vídeo, jamais a esqueceram, e a trataram por “mestra” até o fim de suas vidas.

Então, sem mais delongas, fiquem agora com Hipátia, a Grande Mestra:

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21.9.17

O Caibalion: uma nova tradução

O próximo livro das Edições Textos para Reflexão será a tradução do maior clássico do hermetismo moderno, O Caibalion, uma obra fundamental para qualquer estudante do ocultismo.

Após haver adquirido experiência na tradução de grandes clássicos da espiritualidade, como o Bhagavad Gita e o Tao Te Ching, ambos traduzidos a partir de versões inglesas, desta vez poderei traduzir diretamente do original em inglês!

"Mas O Caibalion não era uma obra lendária do antigo Egito, como pode ter sido escrita em inglês?" Bem, na verdade se trata justamente de uma compilação de espiritualistas modernos que traz alguns axiomas e princípios herméticos do Caibalion original, devidamente comentados e explicados em detalhes. Abaixo lhes trago um dos textos introdutórios da edição, que fala sobre os seus supostos autores, já que a obra foi assinada somente por um pseudônimo (e logo após, a capa!):

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Uma nota acerca da autoria desta obra

O Caibalion foi publicado pela primeira vez em 1908 na língua inglesa pela Yogi Society, ligada a um templo maçônico de Chicago, nos EUA. A obra é anônima, assinada somente pelo codinome ou pseudônimo “Três Iniciados”.

No entanto, existem indícios de que o livro esteja ligado ao Movimento Novo Pensamento, que surgiu nos Estados Unidos no final do século XIX. Esse movimento era formado por filósofos, espiritualistas, escritores e pessoas que compartilhavam crenças e participavam de estudos metafísicos associados a temas diversos da espiritualidade e da parapsicologia.

Das diversas teorias ligadas à autoria do Caibalion a mais aceita é a de que o livro foi escrito pelo espiritualista americano William Walker Atksinson (mais conhecido como Yogi Ramacharaka, e também popular por usar diversos pseudônimos em suas obras) em parceria com outros estudiosos como o maçom Paul Foster Case ou a teosofista Mabel Collins. Em todo caso, a verdade é que nunca saberemos ao certo quantos foram os colaboradores da obra, e quais os seus nomes, principalmente porque, sejam quem forem, simplesmente optaram pelo anonimato.

A mim, tradutor e editor desta obra rara, me parece que o principal objetivo dos autores originais não era adicionar “mistério” ao livro ao ocultarem seus nomes reais, mas tanto pelo contrário: a sua intenção era focar toda luz a obra em si, as palavras de Hermes Trimegisto, e não a quem as compilou e adaptou para esta era moderna.

Na elaboração da capa, chegamos a pensar em inserir a assinatura, “Três Iniciados”, mas depois optamos por incluir no lugar um subtítulo mais indicado para a sua real função: “uma iniciação ao hermetismo”.

Sim, pois é justamente disto, de uma iniciação, que esta obra se trata para todos aqueles que ainda a desconhecem. Se for o seu caso, respire fundo, relaxe, medite, dê graças a sua divindade (ou a natureza, no caso de não ter uma), e acompanhe com atenção a sabedoria que, com muito custo e muito sangue, venceu a séculos de ignorância, e conseguiu chegar aqui, neste momento, em suas mãos.

A luz foi criada para ser refletida!

Rafael Arrais

» A minha tradução já foi lançada em Janeiro de 2018. Vem dar uma olhada!

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Imagem da capa derivada de gravura de autoria anônima, vista primeiramente em um livro de Camille Flammarion intitulado L’atmosphère: météorologie populaire (1888)

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8.9.16

Simpósio de Hermetismo, 2016

O Simpósio Brasileiro de Hermetismo e Ciências Ocultas, organizado pela Associação Educacional Sirius-Gaia, chega à sua quinta edição. Comprometido com os valores de pluralidade, autoconhecimento e evolução o evento este ano orbita o tema A Grande Obra: o caminho e a responsabilidade.

Poucos temas poderiam ser tão importantes e tão desafiadores. A realização da Grande Obra é o objetivo de quem se compromete com o autoconhecimento: conhecer-se e integrar sua Verdade à Vida, a ponto de que não exista ato fora dela - é a ambição máxima para um Hermetista.

Existem diversos nomes para tal Estado tanto quanto existem filosofias: descoberta e exercício da Verdadeira Vontade, Iluminação, Despertar, tornar-se Justo etc. Os nomes variam tanto quanto os métodos existentes, mas a meta final é uma: manifestar na terra a Verdade de cada um.

Cada caminho diverge do outro tanto quanto cada caminhante diverge do outro, mas todos trazem em comum algumas características:

» Trata-se de um caminho. Não se espera uma solução imediata, do dia para a noite, mas um caminhar gradual e que se constrói passo a passo no dia a dia do magista.

» Traz responsabilidade. Aquele que conhece a Verdade torna-se responsável por se comportar de acordo com ela e, muitas vezes, torna-se também responsável por todos aqueles que ainda vivem em estado de torpor e desconhecimento.

O V Simpósio Brasileiro de Hermetismo e Ciências Ocultas traz, portanto, em 2016, a exposição e conversação entre as mais diversas filosofias a respeito desses três pontos: o caminho, a prática e a responsabilidade daquele que busca a realização da Grande Obra. O evento ocorrerá durante os dias 26 e 27 de Novembro em São Paulo, no Espaço Federal, na Avenida Paulista, 1776, primeiro andar (próximo ao metrô Trianon-Masp).

» Inscreva-se já! (quanto mais cedo, menor o valor)

» Veja a programação completa

***

Nota: Já me inscrevi para o Simpósio deste ano, e devo estar pessoalmente no evento (como espectador). Se você curte este blog, além de poder me encontrar por lá, provavelmente deverá curtir o que os palestrantes têm a nos passar. Mas, para além do ganho de conhecimento, o que é mais interessante num evento como esse é exatamente poder encontrar pessoalmente todos os demais "loucos" que se interessam por tais assuntos. Há uma sensação de comunidade e pertencimento que pode ser bastante agradável aqueles que têm a alma aberta :)

Crédito da foto: AESG/Divulgação

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19.2.16

Tudo ou nada

Um cientista diz que o universo surgiu do nada. Para ele, isto quer dizer que não há um Criador, nem espíritos nem almas, e boa parte ou mesmo a totalidade do que classificamos como espiritualidade não passa de mera fantasia provocada por algum estranho tilintar de neurônios em nosso cérebro. "Assim", diz o cientista, "estou defendendo a racionalidade e me valendo do ceticismo".

Ora, se formos na origem da etimologia de tais termos, descobriremos que a racionalidade implica em ser sensato e sempre questionar suas próprias crenças, buscando razões razoáveis para crer, ou continuar a crer, no que quer que seja. Some-se a isso o ceticismo, que filosoficamente implica em exaltar a dúvida e evitar as certezas, e temos efetivamente um manual prático contra todo e qualquer dogma, assim como todas as pressuposições ilógicas que encontramos por aí, ainda que venha da boca de um cientista.

Um cientista diz que o universo surgiu do nada. Ainda que seja amparado por "estudos", e ainda que ele se diga "cético e racional", não seria nem racional nem cético de nossa parte crer no que ele afirma sem questionar... E, questionando, poderíamos começar pela pergunta, "O que é o nada? Você pode defini-lo? Você já o observou, ou detectou com instrumentos? Você sabe como, quando e onde ele existiu? Será que poderá voltar a existir um dia?".

Se formos usar novamente a etimologia, descobriremos que, no frigir dos ovos, o "nada" é um termo que se refere a algo que não somente não existe, como não pode ser definido, nunca pôde, e jamais poderá. O "nada" não é o vácuo cósmico, que mesmo sem nenhuma espécie de matéria, nem nenhum átomo passageiro, ainda é preenchido por campos gravitacionais, radiação, flutuações quânticas etc. O "nada" não é o vazio, pois ainda que houvesse algum canto deste universo perfeitamente vazio, a própria qualidade do vazio implica em "algo a ser preenchido", o que evidentemente não é o "nada". O "nada" não é algum estado de consciência, alguma espécie de metáfora para a morte, nem mesmo para o nirvana. Ainda que muitas pessoas e doutrinas usem o "nada" para se referir a alguma outra coisa, fato é que, pela lógica mais pura e cristalina, o "nada" não pode existir, nem neste momento, nem em qualquer momento do passado ou do futuro. Tampouco ajuda usar o "nada" entre aspas, pois "nada" e nada também continuam sendo somente palavras.

Dizem que Deus também é somente uma palavra. No entanto, neste caso, ainda que seja uma palavra que se refere a algo que transcende a própria linguagem, e que não pode ser definido pelo uso das palavras, fato é que Deus tem uma qualidade essencial que o difere do nada: o primeiro definitivamente existe, enquanto o último definitivamente não existe. De fato, esta é a única certeza da filosofia e do ceticismo filosófico: existe algo, e não nada. Seja o que for este "algo", seja que nome queiramos dar a ele, "Deus" ou "Tudo" ou "Natureza" ou "Absoluto" etc., fato é que ele existe.

Carl Sagan foi um ardoroso defensor da ciência, da racionalidade e do ceticismo. Apesar de ele não crer num Criador conforme descrito nos manuais de verdades absolutas, ele não foi ateu, e sim agnóstico. Ou, como ele mesmo disse um dia, "Um ateu tem que saber muito mais do que eu sei. Um ateu é alguém que sabe que não existe um Deus". Sagan não tinha tanta certeza de que Deus, ou algo análogo a esta ideia transcendente, não existe. Em seu monumental Contato, inclusive, ele chega a postular que um suposto Criador poderia ter incluído na própria matemática mensagens cifradas que poderiam indicar sua existência. Tudo ficção, é claro, mas quem disse que a ficção não existe? A ficção definitivamente também é algo, e não nada.

Já Neil deGrasse Tyson, o cientista que encontrou com Sagan quando jovem, e que o considera um ídolo, tampouco acredita dispor de informações suficientes para abraçar o ateísmo e abandonar o ceticismo. Conforme ele confessa, "Eu não consigo me reunir e falar com todos numa sala sobre o quanto não acreditamos em Deus. Apenas não tenho energia para isso". O único "ista" pelo qual Tyson deseja ser reconhecido é o "cientista". Tyson definitivamente não é daqueles que tem certeza de que algo surgiu do nada.

Segundo Terence McKenna, a ciência moderna se baseia num princípio: dê-nos um milagre espontâneo e a gente explica o resto. Atualmente este "milagre" se chama Big Bang, e é a teoria mais aceita para o início do espaço-tempo, isto é, do universo onde vivemos. Talvez, quem saiba, existam muitos outros universos, mas isso também faz parte da especulação científica, e não pode sequer ser testado, quiçá comprovado. Então, o que resta? Uma teoria extremamente embasada em dados e observações sobre tudo o que ocorreu desde que o universo surgiu, sabe-se lá de onde, do quê, e em qual tempo.

Toda essa questão da Criação e do sentido da existência é o que tem angustiado mentes filosóficas e questionadoras desde o advento da história humana, provavelmente até mesmo antes da invenção da linguagem. Tudo ou nada, Deus existente e definido ou não existente e indefinido, tudo ter um sentido, nada ter um sentido: todas essas conclusões apressadas nada mais são do que os dois lado da mesma moeda, e esta moeda se chama "a acomodação ante o fim da angústia".

Ora, e tanto ateus quanto crentes encontram sua acomodação em dogmas: "existe", "não existe". Tanto faz, os questionamentos cessam da mesma forma, e a vida "fica resolvida". Mas os filósofos não querem ter esta vida resolvida, eles se recusam a se acomodar ante a angústia da existência. Enfim, eles aprenderam a amar a dúvida, a conviver com ela a cada momento de suas vidas, e analisar esta vida sob um prisma de muitas possibilidades.

No fim das contas, nos prometeram os antigos, todos os paradoxos serão reconciliados. Podemos acreditar neles? Talvez não com a razão puramente objetiva, mas quem sabe com o uso da emoção amparada pela razão, com o diálogo com nossa própria intuição, com a contemplação de nosso mundo subjetivo, com o autoconhecimento, com o passo a passo rumo adentro, com a descoberta de terras ocultas, esquecidas dentro de nós mesmos...

Depois de muito tempo, e muitas vidas, acho que estou começando a compreender que todos os paradoxos já estavam reconciliados desde o início, desde nosso primeiro questionamento, desde que reconhecemos esta única certeza: existe algo, e não nada.

***

Crédito da imagem: raph

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28.1.16

O Mago

Este é o Tarot da Reflexão, uma antiga e elaborada história em quadrinhos sobre nós mesmos. Eu decidi embarcar nesta aventura com o meu amigo e ilustrador, Roe Mesquita, que desde o início tem dado o sangue para tornar imagem – belíssimas imagens cheias de cor e de vida – o que antes era pura intuição, pura brisa etérea chegando sabe-se lá de que canto do universo em meu coração.

Hoje encontramos O Mago:

Rafael Arrais é autor do blog Textos para Reflexão e receptor do livro 49 noites antes da Colheita, com poemas sobre a Kabbalah e o Sefirat ha Ômer.

Roe Mesquita é artista profissional e ilustrador do cardgame Pequenas Igrejas Grandes Negócios, uma crítica bem humorada ao charlatanismo espiritual.

***

O Tarot da Reflexão é um projeto em andamento. Se um dia for publicado, vocês serão avisados!

Sintam-se a vontade para comentar e nos dizer como vocês interpretam os símbolos da carta acima...

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17.1.16

O Tarot da Reflexão

Muito já foi dito e especulado acerca do Tarot. Eu não estou aqui para teorizar acerca dele, mas para falar sobre o que senti em meu coração quanto descobri o que as suas cartas eram de verdade: lá dentro, o Tarot me pareceu como uma história em quadrinhos muito antiga e elaborada, que vem sendo contada e recontada há séculos... Sobre o que ela fala? Sobre nós.

São 22 Arcanos Maiores e 56 Arcanos Menores que, juntos, formam uma jornada eterna, um caminho que temos encenado e reencenado em nossa mente, em nossa alma, desde a luz primordial até a materialização final. Afinal, não se enganem: Toda a arte humana surgiu de uma alma humana.

E foi pensando nisso, em como a luz foi criada para ser refletida, que eu decidi embarcar nesta aventura com o meu amigo e ilustrador, Roe Mesquita, que desde o início tem dado o sangue para tornar imagem – belíssimas imagens cheias de cor e de vida – o que antes era pura intuição, pura brisa etérea chegando sabe-se lá de que canto do universo em meu coração.

Este é o Tarot da Reflexão, e a nossa história se inicia no alto de um penhasco ensolarado e cheio de Ar. Daqui para frente, como um trovão, desceremos Árvore abaixo... Boa viagem!


Rafael Arrais é autor do blog Textos para Reflexão e receptor do livro 49 noites antes da Colheita, com poemas sobre a Kabbalah e o Sefirat ha Ômer.

Roe Mesquita é artista profissional e ilustrador do cardgame Pequenas Igrejas Grandes Negócios, uma crítica bem humorada ao charlatanismo espiritual.

Então sou louco,
e quando vejo a vida passar
percebo que tudo que vejo
é sagrado;
e tudo que ainda não vejo,
mas dia virá que verei,
é apenas a saudade que sinto
de tudo de sagrado...
tudo isso que ainda não amei.

Então sou louco,
e quando vejo formigas a marchar,
andorinhas a voar,
e homens ignorantes a se exterminar,
percebo que tudo segue a lei;
nascer e morrer,
renascer e, lentamente, compreender:
a lei é a vontade,
o amor é a lei...
e devemos tão somente amar-nos
na idade em que nos é dado escolher.

Então sou louco,
se me lembro de quem fui,
se percebo de relance
quem sou: mais uma partícula de poeira
a girar no turbilhão universal;
então compreendo o longo caminho
que eu mesmo tracei para mim:
vejo mundos, vejo a força que os conduz
pelo Cosmos sem fim...

Então sou louco,
e minha loucura é feita de luz.

raph’09


***

» Vejam as demais cartas deste Tarot: O Mago; A Sacerdorisa; A Imperatriz; O Imperador; O Hierofante; Os Amantes

» Acessem também O Tarot da Reflexão Online, e façam consultas direto do navegador (é grátis!)

***

O Tarot da Reflexão é um projeto em andamento. Se um dia for publicado, vocês serão avisados!

Sintam-se a vontade para comentar e nos dizer como vocês interpretam os símbolos da carta acima...

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21.12.15

Estudos

Hoje eu estudo,
sobretudo,
essa tal eterialidade
da luz da cidade
que atravessa a janela
e ilumina os seios dela,
sem no entanto nada tocar,
nada encostar,
exatamente como se dá
com o meu olhar...

E ainda que eu fosse até seu leito
me encostar em seu peito,
e assim, corpo a corpo,
sentir sua respiração,
e escutar o ritmo de seu coração,
ainda não haveria um átomo sequer
a se chocar,
nenhuma explosão,
nenhum incidente nuclear...

Hoje eu estudo,
sobretudo,
essa fantasmagoria
de tudo que há;
tudo o que foi ou seria,
o que é ou poderia,
tudo o que baila pelo ar,
e como um perfume perene
nos incita a voar,
a subir, nos elevar,
e flutuar e dançar
junto a todos os momentos
e pensamentos da imensidão:
tudo que existe é imaginação,
o todo é mente,
e tudo o que vemos
é informação.


raph'15

***

Crédito da imagem: Serge Marshennikov

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23.11.15

Onde vivem os magos

Um mago é antes de tudo um ser desperto. Nesse sentido, o “despertar” não significa necessariamente a aquisição de um “conhecimento secreto”, tampouco torna este próprio mago alguém superior aos demais. Pelo contrário, o verdadeiro mago é aquele que já se iniciou no caminho que conecta todos os seres e todas as coisas, e já percebeu que não faz sentido pensar num céu de escolhidos. Sabe que, se o céu não for erigido aqui, neste mundo, neste tempo, ele será sempre um céu vazio, uma fantasia pobre, um anti-mito.

Tais magos aprendem a reconhecer seus próprios pensamentos e a filtrar o que vem de fora. E assim, com o tempo, com apenas algumas vidas passageiras, uma espécie de milagre acontece, e onde antes se via um charco de caos e desejos desenfreados, passa a se ver um sistema que guia a tudo e a todos rumo a uma montanha de onde é possível ver toda a paisagem, e esta paisagem se torna a imagem daquilo que é lembrado para sempre. Às vezes temos visto tal paisagem em nossos sonhos mais iluminados...

Aqui neste país tropical, todos esses que sonham juntos um mesmo sonho por vezes se encontram em São Paulo. Em plena Avenida Paulista, enquanto uns estão indo ao banco, ou fazer compras, ou simplesmente assistir ao cover do Elvis (e nada contra nada disso), outros estão indo encontrar consigo mesmos, e com a essência da realidade. Este evento ocorre praticamente uma vez por ano, o último foi no fim de semana passado.

Abaixo lhes trarei alguns trechos do que vi, ouvi e senti no IV Simpósio de Hermetismo e Ciências Ocultas [1]:

Signos Intermediários na Astrologia, Marcelo Del Debbio

“A linguagem astrológica preenche a arte com os seus símbolos mais profundos, particularmente no Renascimento.”

“Não há saltos abruptos entre as energias que os signos simbolizam, mas variações graduais, como tudo no tempo da natureza.”

“Quem nasce entre os dias 21 e 22 de cada mês está mais próximo dos intervalos entre os signos, isto é, dos signos intermediários.”

“O estudo de tais signos intermediários é um avanço sobre a astrologia tradicional, o que prova que ainda há muito por ser estudado e compreendido.”

“Todos os signos trazem potencialidades boas e más, o que cada um vai desenvolver vai de acordo com o seu livre-arbítrio.”

Alquimia e Hermetismo, Giordano Cimadon

“A gnose é uma experiência, uma ‘doutrina sem forma’ que se manifesta na própria alma, e não em livros.”

“No estado de consciência adequado, até mesmo os eventos mais cotidianos da vida se tornarão uma aventura espiritual.”

“A gnose é o terceiro componente principal da formação da cultura ocidental, após a racionalidade e a fé dogmática.”

“Para os gnósticos, Deus não é homem, mulher, velho, jovem, nem animal nem planta nem mineral, pois se encontra além da epistemologia [conhecimento racional].”

“O aqui é um ponto além do espaço. O agora é um ponto além do tempo. Viver no aqui e agora, portanto, é viver na eternidade.”

Mitos e Lendas Celtas: Decifrando Nossa Rica Herança Espiritual, Cláudio Crow

“Mitologia, espiritualidade, religião, filosofia e história são, no fundo, uma só coisa, e não podem ser compreendidas em separado.”

“As verdades presentes nos mitos não são proclamadas por profetas, mas nascem de nós mesmos, de nossa essência eterna.”

“Os deuses e as deusas da cultura celta são emanações da paisagem, indissociáveis da natureza. Para a cultura celta, a morte de um rio seria a morte de uma deusa.”

“A mente celta jamais se sentiu atraída pela linha reta, e evita formas de ver e perceber o mundo que se satisfaçam com a certeza.” (John O’Donohue)

“O druida [sacerdote celta] não vê o outro mundo, vê este mesmo mundo com outros olhos, e deve se dedicar a trazer a perfeição do céu para a terra.”

Hermeticaos: Magia não é “bug”, é “cheat code”, Felipe Cazelli [2]

“A verdadeira treta na discussão se Deus existe ou não nem é a questão existencial em si, mas uma disputa que envolve a resposta da pergunta, ‘Quem vive melhor, o ateu ou o crente?’. Diante disso, eu gosto da solução que um amigo meu encontrou; ele diz que ‘é um ateu não praticante’.”

“A verdade é uma experiência. Assim sendo, os devotos das religiões organizadas são, em sua grande maioria, uma galera que acredita piamente nas experiências dos outros, algumas de milênios atrás, e se abstém de ter as suas próprias experiências desta verdade.”

“Estes são os fundamentos do ocultismo ocidental: (a) Não tem credo, mas hipóteses que precisam ser testadas, ainda que subjetivamente; (b) Muitos acabaram se convencendo de que há mesmo um mundo invisível; (c) Da mesma forma, que há uma ordem no universo, e que nada existe sem um propósito; (d) Igualmente, que tudo evoluí, do caos para a ordem, do simples para o complexo; (e) Que aprendemos através das reencarnações; (f) Que as circunstâncias de nossas vidas servem para o nosso desenvolvimento; (g) e finalmente, que há espíritos que podem afetar a realidade a nossa volta.”

“A magia é arte, a arte, e esta é uma afirmação grave! Pois, como uma arte, a magia não tem realmente regras definidas. O ritual mágico é uma experiência arbitrária, e nem mesmo um estado de consciência alterado se faz necessário para que ele seja realizado. No fim das contas, você consegue o que pediu, se a sua crença for praticada diariamente, e se o que deseja tem meios de se manifestar de acordo com as leis naturais.”

“Se a energia é a massa acelerada a velocidade da luz, a massa, isto é, a matéria, é uma ‘energia lerda’. Isto é bom, pois que se a realidade é puramente mental, há um delay entre o que você pensa e o que você efetivamente realiza. Assim, nós estamos nesse mundo, sobretudo, para aprendermos a controlar a mente, que nunca desliga. O dia em que não vermos problema em ver nossos desejos realizados imediatamente, sem delay, estaremos já iluminados, e não será mais necessário vivermos por aqui.”

Nos Sagrados Caminhos da Y’urema, Rita Andreia de Cássia

“A natureza é sagrada e viva, e Y’urema é a árvore, e também a deusa, que liga a terra e o céu.”

“O mundo está doente porque os homens se distanciaram do seu lado feminino.”

“Nós temos fé que existe um espírito vegetal que nos cura...”

“A Y’urema é uma árvore de muitos, muitos galhos... Ela é a maior entidade dos cultos ameríndios.”

“No fundo, toda a magia terá a cor que você pensar.”

A Magia na Umbanda, Alexandre Cumino

“Zélio de Moraes fundou a umbanda em Niterói/RJ, em 1908, com 17 anos de idade. Foi a entidade que ele incorporava, o Caboclo das 7 Encruzilhadas, quem idealizou o ritual de umbanda. A umbanda é a primeira religião nascida exclusivamente no Brasil.”

“Este caboclo foi reconhecido como um padre católico em uma vida passada por um médium espírita vidente, mas ele responde ao médium que ‘somente uma encarnação não resume o que é um espírito, e hoje eu prefiro ser um caboclo’.”

“A umbanda faz questão de ser uma religião, e cultuar os orixás e os santos católicos. A umbanda, ao contrário do espiritismo, não tem ‘centro’, tem ‘templo’, com altar e uma ritualística formal.”

“Uma falange é composta por muitos espíritos anônimos usando um mesmo nome para se identificar. Assim sendo, não há somente um Preto Velho, uma Maria Padilha ou um único Caboclo Pena Branca, mas muitos deles.”

“Na umbanda e nos demais cultos africanos, a chamada Direita se encarrega de trazer a energia positiva, enquanto que a Esquerda se dedica a repelir a energia negativa. Dessa forma, ambas têm a sua função, que é sempre benéfica (em se tratando de magia divina).”

***

[1] Se trata de pequenos trechos e frases que anotei em meu caderno. Não significa que tenha sido exatamente o que os palestrantes disseram, mas antes já a minha interpretação, por vezes resumida, do que foi dito. Finalmente, vale notar que infelizmente eu não tive tempo de assistir todas as palestras (apesar de ter assistido somente cerca de metade da palestra do Alexandre Cumino, decidi incluí-lo também).

[2] O próprio título da palestra do Cazelli já encerra um conhecimento profundo, que merece uma explicação: um bug seria como que uma espécie de falha no sistema de um game; já um cheat code seria um código que permite “burlar” certas regras do jogo. Ora, se a realidade é um sistema mental, um mago não está se aproveitando de nenhuma suposta falha deste sistema, mas antes se aproveitando desses tais códigos que permitem alterar suas regras – o detalhe é que tais códigos já estavam inseridos nela, desde o início dos tempos.

Crédito das fotos: Raph e AESG

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