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28.3.19

As Canções de Kabir

Rabindranath Tagore foi o primeiro não ocidental a vencer o Prêmio Nobel de Literatura, em 1913, e também o único ser humano responsável pela composição do hino nacional de duas nações: Índia e Bangladesh. Tagore foi um dos maiores poetas do Oriente, e aquele que conferiu o título de “Mahatma” (grande alma) a Gandhi. Mas este artigo não quer tratar de Tagore ou de sua poesia, e sim da sua grande fonte de inspiração: um homem, um poeta, uma lenda conhecida simplesmente como Kabir (“Grande”, em árabe).

Pouco se sabe da sua história com exatidão além de que viveu a maior parte da vida na cidade de Varanasi, no nordeste da Índia, durante o século XV (e início do XVI). Varanasi, às margens do Ganges, é uma das principais cidades do hinduísmo, e uma das cidades continuamente habitadas mais antigas da humanidade, com pelo menos 3 mil anos.

Tendo nascido aproximadamente em 1440 nos arredores de Varanasi, e morrido aproximadamente em 1518 na cidade próxima de Mughar, Kabir passou toda a vida sob o domínio islâmico do Sultanato de Delhi (1206-1526), que no entanto era consideravelmente tolerante para com as práticas hindus. Apesar de possuir um nome árabe, Kabir sempre desdenhou dos rótulos religiosos e das castas sociais, tanto que é até hoje considerado islâmico e hindu ao mesmo tempo (o que, mesmo naquela época, já era algo incomum).

Muito bem, a partir deste ponto, a realidade se confunde com a lenda... Segundo a tradição, Kabir nasceu numa família que professava o hinduísmo, pertencente à casta dos brâmanes (a mais “elevada” delas, reservada aos sábios e sacerdotes). Porém, seu pai morreu cedo e a sua mãe, sem ter condições de educá-lo, o ofereceu em adoção. Kabir foi adotado e educado por um casal de muçulmanos relativamente pobres, o tecelão Niru e sua esposa Nima. Naquele tempo, como ainda hoje, a comunidade islâmica de Varanasi dominava a produção e o comércio de tecidos finos. Assim sendo, Kabir alcançou cedo a maestria na arte da tecelagem, e durante o restante da vida trabalhou com ela.

Quando seu pai adotivo morreu, Kabir assumiu o seu posto como tecelão e vendedor de tecidos, de onde tirava o pálido sustento dele e da mãe. Durante o trabalho, no entanto, entrava frequentemente em êxtase místico e, assim absorto noutros mundos, tecia peças fora da medida ou era facilmente roubado por ladrões quando as expunha no mercado. Era necessário que ele disciplinasse tal vocação espiritual, e foi assim que procurou ajuda no ashram de Ramananda, um dos maiores expoentes da bhakti yoga no hinduísmo da época.

Felizmente, Ramananda também foi um dos primeiros grandes mestres daquele tempo a aceitar discípulos de todas as castas e credos. Tomando contato com aquele jovem tecelão, não se importou que fosse pobre e vindo de família islâmica: viu, em seus olhos, toda a sua potência espiritual, e logo o acolheu.

Sob a generosa tutela deste grandioso mestre, Kabir em poucos anos veio a alcançar ele mesmo o status de santo e sábio, reconhecido por muitos discípulos e inúmeros admiradores (inclusive advindos do islamismo). Mas a lenda de Kabir vai além: mantida em sigilo por séculos, a informação de que ele também teria sido instruído por outro mestre foi revelada por Paramahansa Yogananda (1893-1953) em sua célebre autobiografia. Segundo nos revelou Yogananda já no século XX, Kabir também teria sido instruído por Bábaji, um lendário iogue de sua época (considerado por muitos hindus como “o maior dos iogues perfeitos”).

A conexão de Kabir com grandes místicos do seu século não termina aí. No siquismo se diz que Kabir também foi uma das inspirações do próprio guru Nanak (1469-1539). A poesia de Kabir também encontra paralelos evidentes tanto com o misticismo hindu (sobretudo a bhakti yoga) quanto com o sufismo, o misticismo islâmico.

Assim sendo, não surpreende que Tagore, não mais do que dois anos após alcançar o reconhecimento ocidental com o seu Nobel, tenha se dedicado a selecionar e traduzir poemas de Kabir para o inglês. Através desta obra, Songs of Kabir (As Canções de Kabir), o grande poeta de Varanasi foi finalmente conhecido no Ocidente.

Antes de lhes apresentar trechos deste livro, resta-nos ainda uma última lenda (ou anedota) por contar:

Quando Kabir morreu, tanto os hindus quanto os muçulmanos o reivindicaram como deles e houve uma disputa para cremar ou enterrar seu cadáver. Os hindus queriam cremá-lo conforme a sua tradição e os muçulmanos queriam enterrá-lo, seguindo seus costumes. Há uma história popular a respeito de sua morte, que é ensinada como evento histórico em muitas escolas indianas: ela conta que quando abriram o caixão para disputar o corpo, lá encontraram um livreto sobre sua filosofia desdenhando tanto as crenças hindus quanto as islâmicas, e um buquê com suas flores favoritas! O corpo do santo havia desaparecido e nunca jamais foi encontrado.

Agora sim, para encerrar, algumas canções de Kabir (na tradução de Rafael Arrais):

IV.

Não vá até o bosque!
Ó meu amigo, não vá!

Em seu corpo
existe o bosque, cheio de flores...
Tome o seu lugar
numa das milhares de pétalas da lótus,
e então contemple
a Beleza Infinita.


XIV.

O rio e suas ondas
fluem como um só:
qual a diferença entre eles?

Quando se eleva a onda,
ela é a água;
e quando ela rebenta,
ainda é a mesma água...
Diga-me, ó senhor,
onde está a diferença?

Se acaso a chamaram "onda",
não pode mais ser chamada "água"?

Nas mãos de Brama,
os mundos estão sendo contados
um a um, como as contas de um rosário:
contemple-o com os olhos da sabedoria.


XVI.

Entre os polos da consciência e da inconsciência,
lá a mente fez a sua oscilação:
neste movimento se sustentam todos os seres e todos os mundos,
e este pêndulo jamais deixa de oscilar.

Milhões de seres estão lá;
o sol e a lua e os seus cursos estão lá.
Passam-se milhões de anos,
e seu movimento persiste...

Tudo em fluxo!
O céu e a terra e o ar e a água,
e o próprio Lorde tomando forma:
foi esta a visão que fez de Kabir um servo.


raph

***

Bibliografia
The Songs of Kabir, trad. Rabindranath Tagore (diversas editoras); Kabir: 100 Poemas, trad. José Tadeu Arantes (Attar Editorial); Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Joel L.

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6.7.18

Lançamento: O Livro da Reflexão, vol.4: A medida de todas as coisas

As Edições Textos para Reflexão trazem mais um presente a todos os fiéis leitores deste blog, assim como a todos que um dia também virão refletir conosco. Afinal, a luz foi criada para ser refletida!

"Textos para Reflexão é um blog que fala sobre filosofia, ciência e espiritualidade. Este é o quarto e último volume da série O Livro da Reflexão, que pretende ser uma coletânea dos melhores textos do blog. Nesta edição pretendo abordar a filosofia e algumas das questões do nosso mundo atual, todas temas recorrentes em minhas reflexões."

Um livro digital disponível para download gratuito em diversos formatos:

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***

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5.6.18

Xamanismo, Arte e Magia (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre como a religião, a filosofia, a ciêcia e todas as formas de arte tiveram sua origem no xamanismo ancestral. Também veremos como o hermetismo foi essencial para o advento da chamada ciência moderna, como estamos a todo momento navegando num oceano de informação, e como podemos estar fazendo magia mesmo sem saber:

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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27.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo final)

« continuando do tomo III


Imagine esta noite, há dez mil anos, fria e úmida, nalgum canto europeu onde tudo o que os homens sabiam acerca de outros homens se resumia a tribos que foram vistas de passagem pela margem da floresta, e que logo se esconderam dos olhares estranhos. Um mundo ancestral, onde vivíamos isolados, andarilhos vivendo da caça e da coleta, temerosos dos trovões e da raiva dos deuses. Conectados, em todos os momentos, à Natureza em nossa volta, ao ponto de nem precisar lhe dar um nome: a Natureza já era todo o mundo.

Alguns poucos dentre nós eram escolhidos, geralmente desde a infância, para serem os discípulos do xamã da tribo, aprendendo com ele todos os dias e todas as noites a se comunicar com os espíritos de antigos heróis e sábios tribais, assim como com os seres etéreos da natureza; e, de vez em quando, até mesmo com alguns dos seus deuses. Um xamã abandonava seu corpo, sua mortalha, para ir habitar do outro lado, e então o seu discípulo assumia o seu lugar, e logo escolheria outro para também um dia lhe substituir no futuro, pois que nenhuma tribo era capaz de sobreviver por muito tempo sem o auxílio daquele que se comunica com espíritos, que dá conselhos sobre as caçadas e conhece todos os segredos das ervas medicinais.

Imagine esta noite, ao redor da fogueira, onde o velho xamã canta (acompanhado de alguns tocadores de tambor) antigos poemas sobre caçadas épicas, tempos de fartura de frutos, e metamorfoses de seu próprio ser com diversos animais – vivenciadas em transe profundo, no único lugar onde todos os seres fantásticos, os espíritos, os deuses e demônios existem incontestavelmente: a mente humana.

Nessa era, quando todos os conhecimentos espirituais eram centrados na figura do xamã, a magia sequer tinha um nome. Por se tratar “de tudo o que tem relação com o espírito humano”, ela não precisava realmente ser rotulada, reduzida a uma palavra, um signo... no entanto, se um xamã fosse intimado a falar acerca da sua teologia, ele provavelmente responderia como um sacerdote xintoísta respondeu a Joseph Campbell: “nós não temos teologia, nós dançamos”.

Desde os primórdios da humanidade, a mente e o espírito sempre encontraram caminhos propícios para transbordar sua subjetividade no mundo objetivo, para de alguma forma estranha, tornar possível a migração de informações do mundo das ideias, do mundo interior, onde tudo é fluido, onde tudo pode ser simplesmente imaginado, até o mundo das coisas, até o mundo exterior, onde tudo tem corpo e forma, onde tudo tem o seu tempo de nascer, viver e morrer. Assim, sempre nos pareceu (e para a maioria de nós ainda parece) que este mundo dito objetivo é mais como uma passagem, um entrecruzamento de vias férreas, onde os trens de nossas vidas podem apitar uns para os outros, por breves períodos, até que precisem novamente zarpar para a próxima estação.

Lá no início de tudo, lá, muito antes da linguagem, a magia já brotava como uma espécie de noivado com a consciência. Através da magia, o que era somente imaginado pôde, passo a passo, ser transferido para o mundo lá fora. Na falta de um nome melhor, lhe chamamos A Arte...

Enclausurados no fundo das cavernas, com pouquíssima iluminação, se valendo de sangue animal e de tintas arcaicas, os xamãs gravaram no ventre da própria Terra imagens de suas caçadas, do que vivenciavam em seus transes, e da morte e renascimento em suas próprias iniciações, quando também eles vieram desvanecer no ventre da Mãe, para renascerem como filhos de Gaia, irmãos de todos os demais xamãs do mundo. E isto, que hoje chamamos de arte rupestre, nada mais foi do que o surgimento da pintura.

Muitos também aprenderam a talhar a pedra não somente para produzir pontas de lanças e flechas, como para trazer ao mundo das formas sólidas as figuras dos mais antigos deuses, sobretudo a Deusa Mãe, com suas formas fartas, garantidora da vida e da fertilidade da tribo. Assim surgiu a escultura.

Da música e da poesia nós já falamos, mas considere como ambas foram reunidas com danças e encenações, quando já não bastava mais somente contar uma história: era preciso reencená-la novamente, e quantas vezes fossem precisas, nas noites em que a tribo rememorava antigos acontecimentos dignos de nota. Muito tempo, e algumas civilizações depois, tais encenações passaram a ser independentes da religião em si, e foram chamadas de teatro pelos gregos antigos. Conforme a ópera e o próprio cinema não poderiam ter surgido sem o teatro, há que se considerar que todos eles ainda derivam, em última instância, da Arte.

Finalmente, foi inventada a escrita, e todas as histórias ancestrais puderam fluir da mente daqueles que as recitavam de memória para os símbolos que, se eram incapazes de trazer consigo todo o sentimento, toda emoção daqueles que um dia cantaram ao redor das fogueiras ancestrais, ao menos podiam registrar com exatidão inimaginável algo que se passava tão somente na mente do xamã. Milhares de anos depois, o próprio ocultismo iria se basear largamente na forma como certas palavras são recitadas, assim como no estilo com a qual elas eram guardadas nos livros e nos grimórios. A isso tudo nós também demos outro nome: literatura.

É bem verdade que os primeiros magi (magus, no singular) eram sacerdotes do zoroastrismo, que mais tarde vieram a ser rotulados de “praticantes de magia” pelos gregos, que ironicamente não viam o que eles faziam com bons olhos. Assim, quando a Arte recebeu o nome “magia”, foi mais por um acidente da história. É curioso como, mais ou menos desde essa época, tudo o que era realizado pelas religiões dos povos estrangeiros foi considerado “magia”, sobretudo como forma de diferenciação para com as práticas sagradas da religião oficial do próprio país. Até hoje é fácil se encontrar coisa parecida: “macumba é magia negra, mas as minhas simpatias, as minhas orações aos santos, isso é tudo coisa de Deus”.

Na realidade, como pudemos ver, desde o xamanismo antigo, a própria religião, a própria religação a Natureza, ao Cosmos e aos deuses, esteve indissociada da Arte. Religião também é, e sempre será, uma forma de magia (uma das mais antigas, por sinal).

Aliás, quando a então famosa pitonisa de Delfos, Temistocleia, iniciou Pitágoras em seus conhecimentos ocultos, ela ainda poderia ser rotulada como “religiosa”. Foi somente quando o próprio Pitágoras ganhou sua fama (basicamente evangelizando a sabedoria de sua mestra), que ele eventualmente foi chamado de “filósofo”: amante (filos) da sabedoria (sophia). Assim surgiu a filosofia no Ocidente, e também ela, obviamente, é filha da Arte.

Desde Demócrito os antigos “filósofos da Natureza” (título que, aliás, foi assumido por alguns desta estirpe até poucos séculos atrás) começaram a focar sua atenção também nos eventos que ocorrem lá fora, e investigaram tanto os átomos quanto as constelações. Eratóstenes já sabia que a Terra não era plana cerca de 2 séculos antes de Cristo, e chegou a calcular sua circunferência com precisão invejável. Mas foi alguma espécie de deus ou semideus, Hermes o Três Vezes Grande, quem antecipou em milênios a física de partículas e o estudo de outros sóis e outros mundos: pelo menos desde a antiga Grécia ele já havia arriscado dizer que “tudo vibra, e nada está parado”, e que as leis que regem o Alto são as mesmas que regem o que acontece por aqui.

Quando Nicolau Copérnico publicou o seu célebre Das revoluções das esferas celestes, algumas linhas abaixo da primeira ilustração do heliocentrismo estava descrita a sua maior inspiração: Hermes Trimegistus. Diz a “história oficial” que a Igreja mandou um de seus monges (Giordano Bruno) para a fogueira simplesmente por defender que a Terra girava em torno do Sol. Eles preferem ignorar o que realmente se passou, e como Bruno quis fundir o cristianismo com o hermetismo, criando uma nova religião cósmica. Tivesse tido sucesso, o mundo ocidental seria hoje muito, muito diferente...

Em todo caso, fato é que o que havia se iniciado lá em Demócrito hoje está plenamente consolidado na era moderna: a separação definitiva entre a Arte e a ciência, entre a alquimia e a química, entre a astrologia e a astronomia, entre o conselho xamânico e a psicanálise.

Diz o atual dogma científico que nada do que escapa ao puramente objetivo deve ser considerado pela ciência. Nem sempre foi assim, mas hoje a Academia prefere relegar o que pode ser chamado de “sobrenatural” as “esquisitices da mente” e ao efeito placebo. Que seja, que a magia seja a arte de se catalisar efeitos placebo. E, quanto à mente, bem, é justamente nela que se passa toda a nossa existência, seja ela “esquisita” ou “normal” (não sabemos o que é mais estranho).

Foi mais ou menos assim que a Arte se decompôs em inúmeras partes, infindáveis campos de estudo, incontáveis maneiras de se contemplar a Natureza. No entanto, se pudéssemos voltar atrás, e reconciliar toda a nossa sociedade de acordo com os preceitos arcaicos do xamanismo, ainda seríamos divididos entre caçadores e artistas. Ora, felizes aqueles que não necessitam caçar para sobreviver, e podem se dedicar plenamente a Arte, e a sua Grande Obra. Para isso, sim, meus irmãos, para isso vale a pena estar aqui, para isso vale a pena apontar nossos espelhos pequeninos para a luz do Alto, a luz que se encontra espalhada por tudo o que há, mas que ainda é invisível para quem se arrasta sonolento pela existência.

Acorde! Recorde que você é um homem, que veio de uma estrela, que está em uma estrela, que irá para outra estrela...

Imagine esta noite, há dez mil anos, com você sentado ao redor da fogueira. Imagine, sinta como a sua chama lhe aquece. Feche os olhos e veja: na sua frente, do outro lado da fogueira, está um xamã ancestral, também de olhos fechados. Ele abre os olhos, e lhe encara... de alguma forma, você sabe, você sempre esteve lá. Isto é Ars Magica.

Pouse suavemente. Os mensageiros orientam...


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***

Crédito das imagens: [topo] TASS/Vladimir Smirnov (xamã siberiana); [ao longo] Sisse Brimberg/National Geographic (arte rupestre na caverna de Lascaux, França); Google Image Search (Angkor Wat).

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28.9.17

Hipátia de Alexandria, a grande mestra

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje inauguramos a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

Neste primeiro roteiro enviado ao canal, eu me baseei no meu artigo Hipátia e Sinésio para trazer ao universo dos youtubbers uma narrativa historicamente fiel desta verdadeira musa da Filosofia, a grande Hipátia de Alexandria. Musa, não por sua lendária beleza, ou não somente por ela, mas tanto mais pela sabedoria que refletiu adiante em muitos de seus discípulos que, como pode ser visto no vídeo, jamais a esqueceram, e a trataram por “mestra” até o fim de suas vidas.

Então, sem mais delongas, fiquem agora com Hipátia, a Grande Mestra:

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27.7.17

O campo além das ideias

Caminhando junto ao poente numa das regiões mais inóspitas do planeta, as margens do grande Kalahari, deserto ao sul da África, Pedro se impressiona com os hábitos de seus companheiros (além do guia turístico, é claro): os bushmen, ou povo san, caçadores-coletores que vivem em torno dos poucos poços d’água subterrânea na região há dezenas, quiçá centenas de milhares de anos.

“É interessante como a gente anda neste lugar e é incapaz de observar o que eles observam. Eles veem cada planta, fruta, cada detalhe da paisagem com outro olhar, pois isso tudo faz parte da sua sobrevivência” – conclui Pedro, ou Pedro Andrade, jornalista apresentador do programa Pedro Pelo Mundo, do canal de TV a cabo GNT. Neste episódio ele decidiu retornar a Botswana, antigo protetorado britânico que, após adquirir sua independência em 1966, multiplicou seu PIB per capta em dezenas de vezes e se encaminha para a prosperidade sem ter passado por guerra civil ou períodos ditatoriais, algo extremamente incomum para um país africano.

Mas a grande característica de Botswana é precisamente estar tão isolado do resto do mundo que, por algum milagre, o povo san pôde viver relativamente intocado até os dias atuais, preservando uma cultura e estilo de vida arcaicos, o que também pôde ser comprovado pela ciência. Segundo estudos modernos, os san possuem um dos mais elevados graus de diversidade do DNA mitocondrial dentre todas as populações humanas, o que indica que eles são uma das mais antigas comunidades do globo. O seu cromossomo Y também sugere que, do ponto de vista evolucionário, os san se encontram muito perto da “raiz” da espécie humana (homo sapiens).

No fim da noite, Pedro participa como observador dos rituais e cânticos dos san. Em torno de uma pequena fogueira, as mulheres cantam e batem palmas sentadas, e os homens dançam enfileirados em círculo. Mas não é só isso: após entrarem em transe, alguns dos xamãs [1] san incorporam seus próprios antepassados e entidades da natureza. Até mesmo o guia turístico, um branco ocidental que se apaixonou pela região e pelos san, pratica a incorporação para virar ele mesmo um xamã entre o povo ancestral. Afinal, os san são antigos o suficiente para saber que, sejamos brancos ou negros, todos somos um mesmo povo, todos saímos dali, ou de bem perto dali, há centenas de milhares de anos, para povoar o resto do planeta.

Alguma coisa antiga e profunda tocou Pedro nesta viagem, e principalmente neste breve contato com os san. É isto pelo menos que ele próprio confessa ao fim do episódio, muito embora “não saiba explicar ao certo o que é exatamente”. Decerto, o mesmo deve ocorrer com muitos ditos civilizados que têm a oportunidade de realizar este tipo de contato. Seria inútil perguntar ao próprio guia turístico e aprendiz de xamã o que é que o fez trocar a vida ocidental pela vida como guia turístico no Kalahari. Há alguma coisa de transcendente nos san, alguma alma ancestral que, de muitas formas, é também a nossa alma.

E decerto de nada adiantaria escrever um tratado sobre o assunto. Ainda que os san aprendessem inglês ou português, jamais seriam capazes de colocar em palavras as experiências místicas que, de tão constantes, quase diárias, são praticamente o seu dia a dia. Os san vivem até hoje noutro mundo, o mesmo mundo que toda a nossa espécie viveu um dia, mas que vem sendo gradativamente esquecido. Neste mundo, não faz sentido se falar em mundo material e espiritual, em vivos e mortos, em coisas sagradas: no dia a dia dos san, o material e o espiritual são basicamente uma coisa só, os vivos e os mortos jamais deixaram de se comunicar, e não há nada, absolutamente nada, que não seja sagrado.

E, como as palavras por si só são inúteis, precisamos recorrer à poesia. Como bem resumiu o poeta persa Jalal ud-Din Rumi: “Além das ideias de certo e errado há um campo, eu lhe encontrarei lá. Quando a alma se deixa naquela grama, o mundo está preenchido demais para que falemos dele. Ideias, linguagem, e mesmo a frase cada um já não fazem mais nenhum sentido”.

Para boa parte do planeta, os san são um povo selvagem que permaneceu atrasado e perdido nalgum deserto africano. Para os san, ou para os seus espíritos ancestrais, o restante do planeta é nada mais do que a família que resolveu ir caminhar para as regiões mais afastadas, até que se esqueceu de retornar. E, segundo a ciência moderna, são os san quem estão com a razão [2]. Dá o que pensar.

É costume do Ocidente avaliar a “evolução” de um povo ou civilização pela sua capacidade filosófica e científica, em suma, pela sua racionalidade. No campo espiritual, porém, as coisas são um tanto mais complexas de se julgar. O povo san, por exemplo, não pratica canibalismo, não faz sacrifícios de sangue aos deuses, não devasta o seu meio ambiente de forma predatória. Um teólogo de certo renome poderá dizer: “Ok, tudo bem, mas eles são incapazes de reconhecer um Deus único”... Mas, será que isso é algum parâmetro razoável para determinar sua “evolução espiritual”?

Há muitos reinados milenares do continente africano que veneravam os chamados orixás, que são basicamente os correspondentes dos deuses das mitologias gregas ou egípcias, e possivelmente até mais antigos. No entanto, entre diversos mitos de Criação africanos, temos um “Ser Supremo quem criou os orixás e os homens”, e seu nome é Olorum. Ao contrário dos demais orixás, Olorum não possui nem culto direto nem templo individual, além é claro de não receber oferendas, sejam de animais ou frutas ou o que for, já que Olorum “já é tudo”. Ora, muito embora seja complexo associar Olorum diretamente com Javé ou Allah, fica muito claro que, no fundo, a religião dos orixás também é, e sempre foi, monoteísta. Portanto, os africanos antigos já conheciam um Deus Criador único, e isso não foi invenção exclusiva dos povos do Oriente Médio.

Claro que nem todos os povos africanos ao longo dos últimos milênios chegaram à mesma profundidade de compreensão espiritual. Mas nós ocidentais não podemos nos gabar de estarmos muito na frente deles. Até pouco tempo atrás, nossas doutrinas mais elaboradas ainda aceitavam, na prática, que escravos não tinham alma, e que precisavam ser batizados para conseguirem sua entrada no Céu. Foi assim que muitos ditos cristãos arrancaram milhões de africanos a força de suas casas e, através de grilhões e açoites, os trouxeram para trabalhar na América. Trabalho não assalariado, evidentemente.

Nem mesmo seus nomes eles puderam trazer na bagagem. Chegando ao Novo Mundo, eram batizados com nomes como Joaquim de Jesus ou Maria de Fátima. Mas, ainda que os nomes tenham se perdido, seus espíritos ancestrais jamais lhe abandonaram. Foi assim que, no Brasil, o maior país negro do mundo, surgiu o samba, o Candomblé, a Umbanda etc. Os sobrinhos dos san perderam suas casas e seus nomes, mas os orixás persistiram, afinal aqui eles também estavam dentro de Olorum. Não há nada “lá fora”.

E, apesar dos grilhões, dos açoites e do preconceito que surge da ignorância persistente dos ditos civilizados, lá naquele campo onde vivem os poetas e os místicos, lá, além das ideias de certo e errado, lá, onde habitam os deuses e dançam os xamãs, eles nos perdoaram, eles nos aceitaram de volta, de braços abertos, de alma aberta.

E, aqueles que, como Pedro, estiveram por lá, ainda que por pouco tempo, ainda que por uma noitinha só, compreenderam: a África é todo o mundo!

***

[1] O termo “xamã” se originou do estudo dos povos indígenas da Sibéria, mas na realidade se aplica para povos ancestrais em todo o mundo. No Brasil, por exemplo, um xamã pode ser conhecido como pajé.

[2] Há diversas teorias para as origens da humanidade, mas o mais aceito atualmente é que nossa espécie surgiu na África e depois migrou para o resto do globo. Em todo caso, ainda que tenha surgido no mesmo período na Europa, teria a pele tão negra quanto à dos africanos, visto que a mutação que possibilitou a pele branca é relativamente recente, de cerca de 8.000 anos atrás (portanto mais nova que o próprio povo san).

Crédito da imagem: Google Image Search/Latinstock (povo san)

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10.3.17

As filósofas

É estranho como o termo “filósofa” é tão pouco visto por aí. No entanto, se as grandes pensadoras da história humana pouco são mencionas ou lembradas pelos historiadores da filosofia, isto não significa que elas não existiram, significa apenas que aqueles que escreveram a história as ignoravam, ou não acreditavam que tenham sido “filósofas de verdade”.

No entanto, o próprio termo “filosofia” (amor [philos] ao saber [sophia]) surgiu da doutrina de uma filósofa, e assim é bem provável que tenhamos tido a primeira filósofa antes do primeiro filósofo.

Temistocleia foi uma eminente sacerdotisa do templo de Apolo em Delfos no século 6 a.C. (portanto cerca de dois séculos antes da famosa questão feita a outra pitonisa, que daria o pontapé inicial ao caminho de Sócrates na filosofia). Em sua época, Delfos era “o umbigo do mundo” não somente por conta do mito [1], mas porque se tratava de uma das principais cidades da Antiguidade e, ao centro dela, o oráculo mais importante era justamente aquele onde Temistocleia “batia ponto”.

E isto é quase tudo o que sabemos sobre ela, além é claro de provavelmente ter sido a mestra de Pitágoras, o “pai da filosofia”. A tradição atribui a ele a criação da palavra. Conforme essa tradição, Pitágoras teria criado o termo para modestamente ressaltar que a sabedoria plena e perfeita seria atributo apenas dos deuses; os homens, no entanto, poderiam venerá-la e amá-la na qualidade de filósofos.

A conexão entre Pitágoras e Temistocleia é feita num trecho da Vida dos Grandes Filósofos, de Diógenes Laércio, um historiador do século III d.C. Lá no livro, Diógenes nos diz que “Pitágoras derivou a maior parte de suas doutrinas éticas a partir dos ensinamentos de Temistocleia, sacerdotisa de Delfos”.

Há historiadores que afirmam que Temistocleia pode ter sido irmã de Pitágoras, mas embora isso seja improvável (Pitágoras era nativo da ilha de Samos, e não do continente), provavelmente torna o papel dela no pensamento pitagórico ainda mais primordial, e não o contrário. É provável que parte disso possa ter a ver com as lendas de que Pitágoras era filho do próprio deus Apolo (e assim, como sacerdotisa do deus, ela seria “sua irmã”), mas é preciso lembrar que na época em que ambos viveram, Temistocleia era incomparavelmente mais famosa e importante do que Pitágoras, pois o cargo de sacerdotisa do grande Oráculo de Delfos lhe conferia uma autoridade religiosa hoje comparável, quem sabe, a um dos cardeais mais eminentes do catolicismo.

Depois, como tantas outras sábias da Antiguidade, foi sendo esquecida, até desaparecer quase que por completo dos registros históricos. Mas, se não temos registro preciso do quanto ela influenciou Pitágoras, ao menos sabemos que “o pai da filosofia” teve por certo algumas discípulas, e não via nenhum problema em ensinar filosofia às mulheres.

Uma delas foi Teano, que segundo alguns relatos pode ter sido casada com seu professor. Num dos fragmentos sobreviventes de suas obras, temos um belo conselho, que foi seguido por suas três filhas, Agnotis, Damo e Mia, todas filósofas como a mãe: “Mais vale ser um cavalo louco em disparada do que uma mulher que não reflete” [2].

Quase um milênio depois, no século IV d.C., nascia em Alexandria uma das mulheres mais sábias da história, da qual felizmente nos restaram muito mais relatos. Era assim que Sinésio de Cirene, um dos seus discípulos mais fieis, que se tornou bispo da igreja cristã em seus primórdios, o “bispo filósofo”, se referia a ela em suas cartas:

A Filósofa,

Eu lhe saúdo, e lhe peço que saúde seus fortunados amigos por mim, majestosa Mestra. Há tempos venho lhe reclamando por não ser digno de uma resposta, mas hoje sei que não sou vítima do seu desprezo por nenhum erro de minha parte, mas porque sou desafortunado em muitas coisas, em tantas quanto um homem pode ser. [...] Eu perdi meus filhos, meus amigos, e a boa vontade de todos. A maior de todas as perdas, no entanto, é a ausência do seu espírito divino.

A “filósofa” em questão era Hipátia de Alexandria, que na época infelizmente não tinha condições de responder seu pupilo, que residia noutra cidade, devido a questões políticas que eventualmente a levariam a ser assassinada [3].

Um historiador de sua época chamado Sócrates Escolástico assim a descreveu na obra Historia ecclesiastica:

Havia uma mulher em Alexandria chamada Hipátia, filha do filósofo Théon, que galgou tantas realizações na literatura e na ciência, que ultrapassou em muito os filósofos de seu tempo. Tendo sido versada nos ensinamentos de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia para os seus ouvintes, muitos dos quais viajavam enormes distância para serem instruídos por ela. Por conta de seu autocontrole e serenidade, frutos do cultivo de sua mente, ela aparecia muitas vezes em público na presença dos magistrados da cidade, e não se sentia envergonhada em participar das assembleias dos homens. Pois todos os homens que tinham notícia de sua extraordinária dignidade e virtude eram seus admiradores.

Apesar de não nos restar nenhuma obra escrita de Hipátia que não seja relacionada à ciência [4], felizmente algumas cartas de Sinésio sobreviveram aos séculos, e nos confirmam em parte o que muitos estudiosos da sua vida intuíram.

Hipátia formou um círculo intelectual composto por discípulos que eram como que “alunos particulares”, alguns deles por muitos anos, outros ainda (como o próprio Sinésio) que a trataram como mestra até o fim da vida. Tais alunos vinham da própria Alexandria, de outras regiões do Egito, da Síria, de Cirene e Constantinopla. Pertenciam a famílias ricas e influentes; com o tempo, vieram a ocupar posições de comando na hierarquia do Estado ou na ordem eclesiástica do cristianismo nascente.

Em torno de sua mestra, esses discípulos formavam uma comunidade cujos fundamentos eram o sistema de pensamento platônico e os laços profundos de amizade. Aos conhecimentos transmitidos pelo “espírito divino” de Hipátia, davam o nome de “mistérios”. Tais conhecimentos, estes sim, eram mantidos inteiramente secretos, e jamais transmitidos a qualquer um que não fosse iniciado nos assuntos divinos e cósmicos.

Ainda que pouco saibamos atualmente sobre o que Hipátia e o seu círculo de discípulos estudavam em segredo, é certo que, entre os seus textos sagrados, contavam-se os Oráculos Caldaicos. Esses textos do hermetismo eram caros tanto ao pai de Hipátia, que os lecionou a própria filha em casa, quanto a Sinésio, que em suas obras demonstra estar plenamente familiarizado com a sua temática. Assim, a exemplo de Temistocleia, Hipátia foi mais uma filósofa com muito mais conexões com a espiritualidade do que pode julgar a “vã filosofia”, ou a filosofia como é entendida por boa parte da Academia em nossa época de grande esquecimento.

E essas são apenas dois exemplos de filósofas históricas que certamente não mereceriam serem ignoradas em quaisquer tratados do pensamento humano. Poderíamos citar tantas outras, como Safo de Lesbos, Aspásia de Mileto, Hildegarda de Bingen, Teresa de Ávila, Rabia Basri, Helena Blavatsky, Simone de Beauvoir etc. [5], mas o objetivo deste singelo artigo foi somente atiçar a sua curiosidade. Agora, o resto é com você... google it!

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[1] A cidade de Delfos recebeu esta alcunha graças ao mito que narra a busca de Zeus pelo ponto médio da Terra. No intuito de delimitar esse local, Zeus enviou duas águias de extremos opostos do mundo, uma voando em direção à outra. Elas se encontraram em Delfos, designando a cidade como centro do mundo. O ponto de encontro das águias foi demarcado com uma pedra oval, o ônfalo (umbigo, em grego).

[2] Citado em A Odisseia da Filosofia, por José Francisco Botelho (Ed. Abril).

[3] Esta história triste está descrita em nosso artigo Hipátia e Sinésio.

[4] E mesmo essas são, em teoria, somente edições de célebres matemáticos e astrônomos da época. Devido à dificuldade em se atribuir autoria feminina a quaisquer obras da época, fica impossível confirmar o quanto dessas “edições” não se tratavam, na realidade, de “adições”.

[5] Recomendamos a leitura de Filósofas: a presença das mulheres na filosofia, organizado por Juliana Pacheco (Ed. Fi). Pode ser baixado em PDF gratuitamente, aqui. Veja também a lista de mulheres filósofas na Wikipédia e a lista de vídeos sobre as mulheres gnósticas no canal da Sociedade Gnóstica Internacional.

Crédito da imagem: Ágora/Alexandria/Divulgação (apesar de se valer de diversas “licenças poéticas e românticas”, este filme estrelado por Rachel Weisz no papel de Hipátia é, no geral, bem intencionado, e certamente merece ser visto)

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12.1.17

A civilização e a barbárie

O texto abaixo foi retirado de uma de minhas respostas dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas.

Em nosso debate, foi citado um historiador espanhol que afirmou que todas as civilizações partem da barbárie, passam por um período religioso e depois entram numa espécie de "decadência espiritual", pela falta da prática do autoconhecimento [1]. Eu associei isso ao estágio atual da nossa própria civilização, e nesse contexto é que elaborei o meu complemento:

Acho que todas as culturas de fato partem da barbárie, mas isso se dá desde o advento das cidades. Antes delas, provavelmente em boa parte do mundo humano não havia a barbárie, tampouco bárbaros, já que pela etimologia do termo "bárbaro" chegamos ao grego antigo, "não-civilizado", "estrangeiro", "estranho". Antes das cidades, todos eram não-civilizados, estrangeiros, estranhos, mas como não sabiam disso, se tratavam apenas como seres humanos mesmo.

As cidades surgiram com a agricultura, pois antes dela éramos todos nômades basicamente todo o tempo, e os únicos "locais fixos" da pré-civilização eram justamente os templos religiosos da religiosidade arcaica, as cavernas com arte rupestre, os círculos de pedras elevadas, e provavelmente locais específicos nas florestas, dos quais praticamente não restaram registros.

Com a agricultura e o excedente de alimentos, grãos e cereais que podiam ser estocados nos primeiros silos, houve a possibilidade de se cercar e delimitar pedaços de terra e dizer: "Aqui é nosso território". Daí logo vieram os primeiros conflitos e guerras organizadas. No início, não creio que quisessem conquistar a terra do outro, mas sim somente roubar seus alimentos. Depois, quando o outro montou seu primeiro exército para proteger seus grãos, os invasores precisaram também formar exércitos, e assim foi até que a maior parte das grandes cidades tiveram seus exércitos permanentes, e muita guerra e muito sangue correu desde então...

A grande ironia é que talvez tenhamos nos tornado bárbaros justamente quando nos tornamos civilizados. Nesse sentido, toda a civilização tem de lidar com a sua própria barbárie, contê-la, administrá-la na medida do possível e, acima de tudo, sempre acusar os outros de serem bárbaros, pois assim se parece decerto mais civilizado.

Claro que, com o passar dos séculos, muitas civilizações de fato avançaram muito na contenção de sua barbárie, e criaram as primeiras legislações, as primeiras religiões organizadas, as primeiras mitologias que vieram a ser registradas em palavras, as primeiras ideias filosóficas extensivamente debatidas, as primeiras ciências baseadas na observação do mundo natural etc. Mas, será que alguma delas foi totalmente bem-sucedida nisso? Eu creio que não.

Assim como nas tribos ancestrais eram somente alguns poucos xamãs e pajés quem detinham de fato o dom ou a capacidade de se conectar com o sagrado, mesmo nas grandes culturas tais homens e mulheres continuaram sendo uma grande minoria, infelizmente. Mas existe um alento nesta análise: não é que as civilizações tenham caído em decadência moral ou espiritual (pelo contrário, eu sempre gosto de lembrar que hoje vamos ao Maracanã ver e aplaudir partidas de futebol, e não a um Coliseu romano ver homens se matando ou sendo devorados por feras), mas é que este ápice moral e espiritual nunca chegou a ser de fato alcançado, nem mesmo na antiga Atenas, ou em Florença em pleno Renascimento, tampouco nas cidades de maior índice de desenvolvimento humano da Escandinávia de hoje em dia.

Desde as primeiras tribos, nós não estamos em decadência, mas em ascensão. E, se parece ao contrário, é justamente porque simplesmente há muito mais gente viva hoje do que há milênios atrás. No meio dessa gente toda, ainda há muito mais xamãs e pajés genuínos do que jamais houve na história deste planetinha. Basicamente, toda a gente que não se esqueceu da Alma. Se queremos caminhar mais rápido em sua direção, é bom ouvirmos o que eles têm a nos dizer. Mas não será fácil encontrá-los, pois (salvo raras exceções) eles não estão na Grande Mídia ou nos Bestsellers, tampouco nos Grandes Templos. Muitos deles podem estar convivendo ao seu lado, sem terem sido percebidos.

Quem ama de fato e profundamente, quem volta a sua lupa mais para dentro do que para fora, quem busca julgar mais a si mesmo do que aos "bárbaros", este conhece alguma coisa do tema!

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[1] Alejandro Deulofeo em Matemática da História

Crédito da imagem: Google Image Search/Canal History

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31.10.16

Platão comunista

“Críton, somos devedores de Asclépios, devemos-lhe um galo, pois bem, paga minha dívida, não te esqueças.”

Essas foram às últimas palavras de Sócrates, grande sábio da antiguidade grega, já após haver bebido do veneno, e cercado de seus discípulos mais próximos. Logo, o veneno fez seu efeito...

O filósofo com olhos de touro havia sido condenado pelo Estado ateniense à morte, e a contragosto daqueles que lhe amavam, mas permanecendo fiel ao que acreditava, escolheu seguir a vontade da polis, e jamais considerou a possibilidade de se exilar.

A acusação afirmava que ele era “culpado por não aceitar os deuses que são reconhecidos pelo Estado, por introduzir novos cultos e, também, por corromper a juventude”. Na época Platão tinha em torno de 30 anos, e como jovem discípulo de Sócrates, jamais se recuperou do trauma de se ver privado de sua divina companhia pela decisão democrática (ele foi julgado por um tribunal popular).

Sobretudo por parte da linhagem de sua mãe, Platão tinha parentes diretamente envolvidos na política de Atenas. Era um aristocrata, como tantos outros jovens seduzidos pela sabedoria socrática. Mas nada disso evitou que se tornasse um profundo crítico do sistema político ateniense, e até mesmo que se aventurasse a criar suas próprias versões utópicas para tentar substituir ou reformar o sistema que havia assassinado o melhor homem que ele havia conhecido.

O termo utopia, é preciso lembrar, foi inventado muito após a época platônica. No entanto, uma de suas definições, isto é, “uma descrição imaginária de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade”, certamente se aplica ao que Platão tentou realizar em duas de suas obras mais complexas, A República e As Leis.

Platão foi profundamente conservador em suas ideias, ao ponto de estabelecer (em As Leis) regras estritas para os padrões da música, do canto e da dança na educação moral. Para resumir, e mal comparando, se Platão houvesse vivido no século XX, seria um dos primeiros a abominar o Rock & Roll. Talvez exatamente por isso seja chocante para muitos a defesa que o filósofo grego fez de uma espécie de revolução comunista, muitos séculos antes de Karl Marx.

Assim como o termo utopia deve ser aqui considerado com parcimônia (como dito acima), o mesmo sem dúvida vale para o termo comunismo. Dito isto, que cada um julgue por si só o quanto Marx bebeu de Platão, ou pelo menos quantos pontos em comum podem ser encontrados nas suas ideias políticas...

Em A República, sempre partindo de um conservadorismo arcaico, quase profético, Platão afirma que “nos primórdios da civilização grega” existiu um Estado ideal. Cita, nesse sentido, Hesíodo, e mostra como através dos tempos os homens foram se corrompendo: em consequência do desenvolvimento do espírito de lucro, surgiram as discórdias. Deste modo, nasceu a guerra de todos contra todos, até que por fim os homens entraram em acordo e resolvem dividir as terras e as casas, para implantar a propriedade privada e dividir a sociedade em amos e escravos.

Mas sem uma educação filosófica os homens, logo depois, não mais se contentam com a satisfação das próprias necessidades materiais. São dominados pela ambição e desejam viver luxuosamente. É então que surge a riqueza excessiva, e com ela a cobiça e as guerras de conquista. Tal situação explica o aparecimento de um exército permanente. O Estado se complica.

A insaciabilidade dos ricos determina a pobreza das massas. Afinal, a luta entre as classes termina com a vitória dos pobres, que sempre são mais numerosos, e a implantação da democracia. Mas a democracia, segundo Platão, logo cede lugar à tirania, isto é, ao domínio de indivíduos que enganam as massas para melhor oprimi-las. E é precisamente aqui que o trauma de seus 30 anos o influencia decisivamente em sua utopia comunista: Platão defende sim uma sociedade baseada em valores morais conservadores e em uma distribuição igualitária de terras e riquezas, mas isso não passa por decisões democráticas.

Segundo ele, enquanto os homens sensatos não estiverem à frente do governo, ou enquanto os reis e os príncipes não resolverem governar com inteligência e brandura, os governos não poderão suprimir os males que afligem os Estados e o gênero humano. Platão queria não uma monarquia, mas uma sucessão de reis filósofos, que deveriam ser os verdadeiros guardiões do Estado, procurando o auxilio dos funcionários e dos guerreiros para poderem realizar a sua missão. E as camadas dirigentes, em virtude de seu nível intelectual e moral superior, deveriam ficar situadas acima do povo.
 
Ou seja, no comunismo platônico, a distribuição de terras e riquezas não seria garantida pela ascensão das classes trabalhadoras e pobres a posições de comando, tanto o contrário: a sua utopia deveria ser garantida pela sabedoria dos reis filósofos, que deveriam zelar pelo bem de todos. Nada, em nenhum momento, foi dito sobre a situação dos escravos – o mundo humano, afinal, sempre evoluiu bem devagar.

Dizem os analistas que em A República Platão tentou revolucionar o Estado. Já em As Leis, seu último livro, que de fato deixou incompleto, ele já havia compreendido que uma revolução não seria possível nem desejável, mas sim uma reforma.

Para elaborar tal reforma ele toma como norte que o melhor Estado, a melhor Constituição e as melhores leis aparecerão quando a sociedade tiver por lema: tudo é comum entre amigos. Dessa forma, não é necessário buscar em parte alguma um modelo de Constituição ideal. Basta que os homens sejam fieis a esse lema ou que, pelo menos, se esforcem para atingi-lo.

E como fazer? Bem, tudo se iniciaria pela repartição de todas as terras. A divisão deveria ser feita de tal forma que cada um considere a porção que lhe coube como parte integrante da propriedade coletiva. Nessa altura Platão era consideravelmente mais pragmático, e mesmo dentro de sua utopia considerava que tais terras deveriam ser inicialmente inabitadas (coisa bem mais fácil de se achar na época), isto é: era a fundação de um novo Estado, e não uma revolução dentro de um já existente.

No entanto, a ideia de Platão era construir um Estado tão perfeito que eventualmente o seu sistema seria implementado pelo menos em toda a Grécia. Se obtivesse sucesso, a nobreza intelectual dirigiria o Estado, e os agricultores e os artesãos cuidariam exclusivamente das suas atividades profissionais, com o fim de desenvolver ao máximo todas as aptidões, nos limites da respectiva esfera profissional. Os trabalhos manuais penosos ou degradantes não seriam realizados pelos gregos, mas pelos estrangeiros ou pelos escravos. Os gregos deveriam se dedicar unicamente as suas obrigações de cidadãos ou desempenhar as profissões mais nobres.

Finalmente, ninguém poderia ter ouro, prata ou dinheiro em quantidade excedente às necessidades quotidianas. Ninguém poderia processar o Estado, e a justiça comum só valeria entre os cidadãos ou, claro, no caso do Estado precisar condenar algum crime. Para Platão, no entanto, um julgamento trágico como o de Sócrates jamais ocorreria, ele tinha plena convicção de que os reis filósofos, ou os governantes nobres, julgariam com mais sabedoria do que a população comum.

O seu objetivo não era conquistar riqueza e poder, mas sim erigir uma vizinhança mais nobre, um mundo mais justo... Os cínicos, obviamente, dirão que o Inferno está cheio de boas intenções, não sem alguma razão, devo admitir.

É sempre chocante analisar como um filósofo tão grandioso, tão essencial para o pensamento ocidental (incluindo aí o cristianismo), pôde ter ideias tão claramente desconexas de nossa realidade habitual. A despeito da diferença das eras, o comunismo platônico já era claramente inviável na sua época (e eu nem falei sobre a supressão das famílias, diga-se de passagem).

No entanto, se formos comparar sua utopia com o pensamento político dos últimos dois séculos, veremos que ali se encontram representadas não somente algumas das ideias marxistas, normalmente rotuladas de extrema esquerda, mas também ideias puramente conservadoras, próprias até mesmo de uma extrema direita que, por tampouco crer na democracia, pede por intervenções estatais que possam fazer a sociedade rumar novamente para “aquela época antiga onde o que valia eram a moral e os bons costumes”.

No fundo, ao menos em nossa época, os extremos se encontram e dão as mãos, embora não queiram enxergar. Já na antiguidade grega, onde tudo era novo e onde o mundo humano ainda estava sendo pensado e elaborado, é perfeitamente perdoável que Platão tenha escorregado aqui e acolá. É talvez por isso que os filósofos continuarão sendo filósofos, e os políticos continuarão sendo políticos. Tudo o que eles precisam, tudo o que nós precisamos, é de uma boa conversa.

***

Nota: seguidores do blog me alertaram que não se pode falar em "Estado comunista" em Marx. Como digo no texto, falo de possíveis pontos em comum entre Platão e Marx, pois certamente Platão não foi comunista, uma vez que o termo não existia na sua época. Dito isso, me parece claro que nas tentativas práticas de implementação do comunismo no "mundo real", sempre tivemos um Estado comunista (ou pelo menos na grande maioria das vezes).

Crédito da foto: Google Image Search + raph

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14.10.16

Vera Cruz

Há um canto sussurrante
nesta terra ancestral,
algum som de pura angústia errante
de almas presas ao varal;
sibilo de ideias que não seguem adiante,
e dor, dor imemorial...

Desde a Mantiqueira a chorar sangue,
ao grande mercado da Central,
desde o sertão até o mangue
há este antigo canto marginal
que voa e volta como bumerangue,
e não vê final.

Assim somos todos aprendizes
nesta nação sem igual:
os pandeiros e macumbas vibram as matizes
dos seres que se elevam além do mal...

Vocês podem ouvi-los?

Das aldeias, dos terreiros,
ecoa este canto de guerreiros,
a unir aqueles que vieram acorrentados
aos que foram, em casa, massacrados...

Sim, ouçam!

As almas cantam a pouca luz,
vivas ou mortas, elas cantam por todos os lados...
Vozes belas e profundas de Vera Cruz,
a terra de todos os refugiados.


raph'16

***

Crédito da imagem: Alfredo Roque Gameiro (O desembarque dos portugueses no Brasil ao ser descoberto por Pedro Alvares Cabral em 1500)

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17.8.16

O nascimento do ocultismo

Para muitos desavisados, o ocultismo nada mais é do que "aquele negócio estranho de magia, que as pessoas praticam em grupinhos secretos". Para muitos céticos, "é puro charlatanismo". Para muitos crentes de padres e pastores, "é coisa do demônio"...

No entanto grandes artistas, cientistas e místicos de nossa história foram ocultistas. A própria história da ciência moderna está intimamente ligada as chamadas ciências ocultas, particularmente ao hermetismo, embora a Academia faça questão de "esquecer" este fato. Dá o que pensar não é mesmo? E foi assim, pensando e estudando (muito), que o meu amigo Marcelo Del Debbio, grande pesquisador brasileiro da área, elaborou uma história que ele tem contado e recontado muitas vezes [1], e que fala sobre o nascimento do ocultismo e do seu impacto em nossa civilização, que hoje mais do que nunca pode ser sentido por todos, basta querer e buscar no lugar certo.

Nesta entrevista para Fredi Jon, youtubber do programa Tocando o Oculto, o Marcelo conseguiu fazer um dos melhores resumos desta história que já tive a oportunidade de assistir. Vejam com a mente aberta:

parte 1

parte 2

***

[1] Se querem saber ainda muito mais, recomendo que leiam o e-book O Grande Computador Celeste, que pode ser encontrado gratuitamente aqui no blog, e também na Amazon.

Crédito da foto: Google Image Search/TV Brasil/Divulgação (Marcelo Del Debbio)

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29.7.16

O Estado Anti-Islâmico

O termo Islã deriva de uma antiga palavra árabe que significa “submissão”. Num contexto místico-religioso, é claro que estamos falando de uma “submissão a Deus” e, dessa forma, fica subentendido que todos os verdadeiros islâmicos, os realmente religiosos e místicos, buscam a Deus dentro de si e em tudo o que há. A sua guerra é interna, e a única conquista que desejam é o amor divino.

O Estado Islâmico, dessa forma, está mais para Anti-Islâmico; eles não se submetem de fato a alguma divindade que lhes habita a alma, mas tanto o inverso disto: esperam que o mundo inteiro se submeta as suas regras, ao seu califado sombrio.

Eles basicamente entenderam a religião pelo inverso, mas isto não ocorreu da noite para o dia, e nem é exclusividade do islamismo, ou mesmo de doutrinas religiosas desvirtuadas. Como sabemos, os homens se dedicam a se matar uns aos outros há tempos e pelas mais variadas razões, e ainda que por vezes tentem justificar sua carnificina usando o nome de Deus, na prática eles fazem guerras pelo mesmo motivo de sempre, a mesma ignorância antiga e persistente: por estarem submissos aos territórios, as riquezas e ao poder mundano.

Para os que buscam “evangelizar” o terror, “Deus” é apenas uma palavra, uma desculpa. Como não conseguem se submeter ao Deus que lhes habita, como o evitam a todo custo e a todos os momentos, como temem se abandonar no amor, e aniquilar os seus próprios egos, eles buscam justificar sua própria ignorância da religião subvertendo o sentido de tudo: o caminho então já não é buscar a Deus em mim, mas ter certeza de que todos creiam na mesma doutrina que eu creio, nem que para isso eu precise recorrer a violência extrema, ao caos e ao medo.

Apesar de muitas doutrinas religiosas e ideologias políticas terem a sua cota de sangue pela história humana, é inegável o fato de que hoje, no início deste novo século, foi o islamismo quem pariu a cria mais nefasta e perigosa. E quem deve admitir isto são primeiramente os próprios islâmicos, uma vez que são eles os que mais sofrem com o chamado Estado Islâmico: os países que fazem fronteira com suas bordas no Iraque e na Síria, em sua maioria de muçulmanos, são aqueles que mais sofreram atentados, os que mais tiveram baixas em combates militares, e os que mais receberam refugiados.

No entanto, como vinha dizendo, tal organização pseudo-religiosa não surgiu do dia para a noite. O Estado Islâmico é uma cria do wahabismo, e o wahabismo não teria chegado onde chegou não fosse pela condescendência da Arábia Saudita.

Fica mais fácil explicar contanto uma triste história:

Era manhã em Karbala, uma cidade próxima de Bagdá, e o mercado local estava cheio quando todos ouviram gritos. Um grupo de homens vestidos de preto, levando espadas e bandeiras negras, invadiu o mercado matando crianças, mulheres, idosos e adultos; indistintamente e sem pena. Eles continuaram com a matança avançando pelas ruas até tomar o controle de toda a cidade. Alguns afirmam que, apenas neste dia, cerca de 4 mil pessoas morreram.

Os homens vestidos de preto que organizaram tal ataque não eram do Estado Islâmico. O massacre ocorreu há mais de 200 anos e o grupo era comandando por um dos primeiros governantes da Arábia Saudita, que havia acabado de fundar um novo movimento religioso ultraortodoxo e radical dentro do Islã, o wahabismo.

Segundo o professor Bernard Haykel, de Princeton, especialista em teologia islâmica [1], "o wahabismo sempre foi descrito popularmente como a mãe de todos os movimentos fundamentalistas”.  “No entanto” – ele prossegue –, “para encontrar a inspiração ideológica destes movimentos é preciso voltar ao salafismo jihadista".

O salafismo remonta ao século 19 e uma de suas figuras mais influentes foi um homem chamado Muhammad ibn Abd al Wahhab, um pregador nascido em um lugar remoto da Península Árabe em torno de 1703. Segundo Haykel, "ele acreditava que os muçulmanos tinham se distanciado da verdadeira mensagem do Islã, e ficou horrorizado com o que via em Meca, o lugar sagrado para os muçulmanos, com os nobres vestidos de forma extravagante, fumando haxixe e escutando música".

Wahhab era um fundamentalista que queria "purificar" o Islã, crendo que para tal bastaria que todos se voltassem aos princípios básicos da fé. E assim, gradualmente, suas ideias foram se espalhando... Mas é claro que nem todos estavam de acordo e, como era de se esperar, ele acabou expulso do vilarejo onde morava.

Após peregrinar sem rumo, eventualmente encontrou abrigo junto ao homem que governava uma pequena cidade vizinha, Muhammad Ibn Saud, com quem fechou um acordo em 1744. Com este acordo, foram firmadas as bases para a formação de toda a região: Saud se comprometeu a apoiar Wahhab política e militarmente e, em troca, Wahhab conferiria a Saud uma “legitimidade religiosa”.

Juntos, eles tomaram o controle de muitas cidades no entorno. Saud reinava e Wahhab pregava e colocava em prática o que acreditava ser “o islamismo puro”. Segundo Haykel, “eles tinham listas de todos os membros da comunidade e assim garantiam que todos eles iam à mesquita cinco vezes ao dia para orar. Era uma imposição da fé que aplicavam quase como justiceiros, uma versão intolerante da fé que no Islã tradicional não existe".

A aliança entre Wahhab e Saud continuou conquistando territórios. Pelo final do século 18 eles já controlavam quase toda a Península Árabe. Desta forma foi estabelecida a união histórica entre a Arábia Saudita e o wahabismo. Portanto, não deveria causar espanto que muitas das execuções transmitidas online pelo Estado Islâmico sejam muito parecidas com as execuções oficiais da Arábia Saudita: não poderia ser de outra forma, pois que ambos os estados, o oficial e o terrorista, de certa forma seguem a uma mesma lei sombria.

Nos dias de hoje há um debate acirrado entre os especialistas sobre se realmente Wahhab pregava a violência ou se suas ideias foram manipuladas por Saud e pelos descendentes e partidários que vieram depois dele, e eventualmente fundaram a Arábia Saudita em 1932, mas seja como for, fato é que a ignorância do verdadeiro Islã venceu, e o que restou foi somente o dogma e a violência, sem muito espaço para nada que lembre, nem de longe, alguma espécie de misticismo.

Decerto não ajudou em nada o Reino dos Saud estar situado bem em cima  das maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo. Somente tanta riqueza farta, afinal de contas, pode explicar como a sua monarquia sobreviveu até o nosso século, e como ainda conseguem se manter aliados do Ocidente e dos EUA, que convenientemente se esquecem de que os maiores grupos terroristas da nossa época basicamente não existiriam não fosse pela “vista grossa” que os governantes sauditas fizeram e ainda fazem em relação ao wahabismo.

Claro que estou resumindo bastante a história. Sempre vale lembrar que há séculos persiste o conflito entre duas vertentes do Islã: os sunitas e os xiitas [2]. No atual jogo de xadrez do Oriente Médio, a maior nação xiita é o Irã, enquanto que a maior nação sunita é a própria Arábia Saudita. Dessa forma, uma vez o wahabismo sendo uma vertente radical do sunismo, também foi sempre conveniente para os governantes árabes “fingirem que não estavam vendo” grupos radicais surgindo aqui e ali, dentro de seu próprio território, uma vez que eles eram a promessa de muito trabalho para os seus inimigos iranianos.

Mas certamente ninguém imaginou que a ignorância e a violência chegariam aos níveis atuais. Claro, é bem provável que o mar de refugiados batendo a porta da Europa tenha causado mais problemas para as “boas relações” do Ocidente com os sauditas do que propriamente os anos e anos de extermínios no Iraque, na Síria e no Curdistão, mas fato é que ainda hoje há muita gente que lucra com o Estado Islâmico. Afinal, eles ainda têm de encontrar compradores para sua produção de petróleo nos poços que vieram a conquistar; e, da mesma forma, alguém tem de estar lhes vendendo armamento de guerra. Quem será? Interessa ao Ocidente saber? Vocês me digam...

O Estado Islâmico é um câncer e uma mancha cada vez mais sombria na luz do verdadeiro Islã. Mas é chegada a hora de enfrentá-los de verdade, pois temos visto que apenas o discurso não tem dado tão certo.

E, no entanto, por mais bombas que joguem em suas cabeças, nada me parece tão letal para a sua doutrina do que estas palavras, as palavras de um poeta do século 13, um poeta que também foi um religioso islâmico, e é lembrado até hoje. O wahabismo é incapaz de sobreviver à poesia de Jalal ud-Din Rumi:

O que eu posso fazer, ó muçulmanos? Eu não me conheço mais. Não sou cristão ou judeu. Nem um islâmico, nem um mago. Não venho nem do Oriente nem do Ocidente. Nem do continente, nem do mar. Tampouco do Manancial da Natureza, ou dos céus circundantes. Nem da terra, nem da água, nem do ar, nem do fogo.

Não venho do trono, nem do solo. Nem da existência, nem do ser. Nem da Índia, nem da China, Bulgária ou Saqseen; nem do reino do Iraque ou de Khorasan; nem deste mundo nem do próximo: nem céu nem inferno. Nem de Adão nem de Eva. Nem dos jardins do Paraíso nem do Éden.

Meu lugar é sem lugar, minhas pegadas não deixam rastros. Nem corpo nem alma: tudo que há é a vida do meu Amado.

Eu afastei toda dualidade: eu vi dois mundos como um. Eu desejo Um, eu conheço Um, eu vejo Um, eu clamo: “Um”.

***

[1] Trechos retirados de artigo da BBC.

[2] A história remonta a uma cisma ocorrida ainda no século 7, 30 anos após a morte de Maomé, quando após o assassinato do atual califa (governante religioso), um grupo (os xiitas) defendeu que um primo de Maomé deveria ser o novo califa, enquanto outro (os sunitas) defendeu que tal cargo caberia a um amigo de Maomé, que no entanto não era seu parente de sangue. Os sunitas venceram a disputa e, ainda hoje, são o grupo majoritário, com cerca de 84% dos islâmicos do globo.

***

Para quem quiser se aprofundar no tema, indico o livro Estado Anti-Islâmico da jornalista brasileira e muçulmana Chadia Kobeissi (obs.: este artigo foi publicado anteriormente ao lançamento do livro, o título similar é somente uma feliz coincidência).

Crédito da imagem: Google Image Search/khamenei.ir (uma comparação entre as execuções na Arábia Saudita e no Estado Islâmico)

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5.6.16

Lançamento: O Príncipe

Finalmente chegou na Amazon a nossa edição de um dos maiores tratados políticos da humanidade, O Príncipe.

Se você quer entender melhor Game of Thrones, ou a Guerra das Rosas, ou ainda a Política de ontem e de hoje, não existe tratado mais essencial do que essa pequena e polêmica pérola literária de Nicolau Maquiavel. Você já pode começar a ler em poucos minutos, pelo preço de um café:

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À seguir, trazemos o prefácio da edição, por Frater Sinésio:

Há duas boas razões para se ler este livro:

Primeira. Assim você vai saber do que todos estão falando ao usarem o termo “maquiavélico”, particularmente nas análises políticas. Tal adjetivo se tornou tão comum que é muitas vezes usado fora de contexto. Isso se torna compreensível quando percebemos que muitos dos que o utilizam nunca leram esta carta escrita por um cortesão da renascença ao seu príncipe (o “magnífico Lorenzo de Medici”). Assim sendo, uma maior familiaridade com esta obra é sem dúvida necessária para a compreensão mais aprofundada do termo, que como devem saber, se refere ao sobrenome do autor – Maquiavel.
Segunda. Este livro descreve muito bem a maior parte das situações de poder. Da política as corporações, e onde quer que existam relações de controle e influência, as observações e regras maquiavélicas serão geralmente válidas.

Assim, se tudo correr bem, você também irá descobrir que Maquiavel não é tão mau quanto acabou sendo afamado na cultura popular. O que ele estava fazendo aqui foi simplesmente descrever “as regras do jogo do poder”, que já existiam muito antes dele ter nascido e ainda existirão por muito tempo, quem sabe durante toda a história humana – ao menos enquanto perdurar a competição e o egoísmo.

As regras maquiavélicas não são nem boas nem más em si mesmas, tudo o que elas fazem é descrever um processo. O que é bom ou mau é o uso que as pessoas que compreenderam tais regras fazem delas quando alcançam posições de poder, considerando que vivemos numa sociedade que julgará suas ações de acordo com a lei e os princípios ético-religiosos mais essenciais.

Quando esses princípios são suprimidos (como na Alemanha nazista, na “Idade das Trevas” medieval ou sob os regimes comunistas totalitários), as regras maquiavélicas vestem o seu manto demoníaco, mas isso ocorre simplesmente porque elas passam a servir os interesses demoníacos de seus “príncipes”.

Já em sociedades democráticas que são perfeitamente capazes de regular e restringir o poder de seus governantes, o pensamento contido nesta obra pode produzir excelentes resultados. Um belo exemplo foi o uso que Abraham Lincoln fez de tais regras, vencendo seus adversários políticos de forma legítima, e encerrando a escravidão em seu país.

Para apreciar devidamente as lições que podem ser tomadas desta obra, se faz necessário transportar a vivência e a linguagem medieval para nossa era moderna. Por exemplo, a forma casual com a qual Maquiavel discorre sobre a necessidade de assassinar oponentes políticos era algo que fazia todo o sentido para aqueles que desejavam alcançar o poder há 500 anos atrás. Nos dias atuais, esperamos, o termo “assassinato” poderia ser traduzido em “reduzir o poder de alguém nas decisões da empresa” e/ou “retirar aquele outro do seu cargo de ministro”.

E o que alguém ganha ao ler este livro? Ora, se trata de um mapa do caminho com reflexões e lições sobre: (1) se sobressair sobre os demais numa disputa por poder; e (2) manter e expandir seu poder sobre os demais, principalmente aqueles que desejam ocupar sua posição atual.

Esta obra fala sobre colocar a conquista de seus objetivos acima de quaisquer outras considerações, sem espaço para piedade com aqueles que se encontram na mesma competição. Muitas das máximas que encontramos na mídia e na análise política, até hoje, nasceram do livro de Maquiavel: “os fins justificam os meios”; “é melhor ser temido do que amado”; “se você vai lutar contra o príncipe, mate o príncipe” etc.

Dessa forma, se trata de uma leitura essencial para qualquer um que se encontra atualmente num meio ambiente extremamente competitivo (quiçá boa parte da humanidade), e espera prosperar de alguma forma. As regras maquiavélicas simplesmente consideram que, em todo caso, o instinto humano de todos os demais já será algo egoísta.

Certamente há muitas outras formas de prosperar e sobreviver numa competição sem recorrer a tais lições. Sobretudo na modernidade, nos países de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) mais elevado, temos inúmeros exemplos de empreitadas altruístas e colaborativas que têm dado muito certo, mas seria ingenuidade considerar que tais exemplos já são a regra e não a exceção. Assim sendo, esta obra continua sendo muito atual, para o bem ou para o mal.

Muitos dos políticos e diretores executivos de nosso tempo são ao menos em parte maquiavélicos. O truque é usar o poder para objetivos nobres. Assim, todos os políticos e executivos que se sobressaíram sobre os demais, vencendo eleições ou competições internas em suas empresas, se acaso contaram com a ajuda de Maquiavel, não necessariamente serão maus: tudo dependerá, no final das contas, de como eles utilizarão o poder adquirido.

Assim sendo, numa sociedade onde o poder absoluto é constantemente combatido e há certas regras e limites para o que um “príncipe” pode fazer com o seu poder, toda essa competição não será de todo mal – como numa disputa darwiniana, é esperado que aqueles que alcancem o topo sejam os que detém as melhores condições para liderar.

Se é verdade que essa obra é, portanto, uma poderosa ferramenta para galgar o poder, considere fazer uso dela com toda responsabilidade, sobretudo considerando que a maldade está muito mais no uso que os príncipes fazem do poder do que no poder em si.

O editor.


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2.9.15

Sapiens

Nesta contundente palestra para o TED Talks, Yuval Noah Harari, um proeminente professor de história israelense, tenta responder a pergunta: “Como nos transformamos de primatas insignificantes, que cuidavam de sua vidinha em algum canto da África, em soberanos do planeta Terra?”.

Antes de assistirem o vídeo abaixo, no entanto, é preciso tentar compreender como um historiador jovem (39 anos) conseguiu escrever um dos melhores livros do século 21, Sapiens, no qual se baseia sua palestra.

Ora, para início de conversa, já é revelador o fato de Harari começar a explicar a história humana, o mote de seu livro do início ao fim, pela parte em que ela sequer era registrada, isto é, antes do advento da escrita. Harari é afinal um pensador que se interessa pelas “grandes questões” do pensamento humano, e “como conquistamos o planeta?” é somente uma delas...

Dentre algumas outras, poderíamos citar: “Por que nossos ancestrais se reuniram para criar cidades, reinos e impérios?”; “Como passamos a acreditar em deuses, nações e direitos humanos?”; “Como aprendemos a confiar no dinheiro, em livros e em leis?”; ou ainda, “Como fomos escravizados pela burocracia, pelo consumismo e pela incessante busca da felicidade?”.

É tentando responder a tais questões que Harari vai muito além do âmbito “ortodoxo” do estudo histórico, e trata de biologia, psicologia, filosofia, mitologia, economia, política e sociologia com a mesma naturalidade com a qual o seu antigo professor falava de Revolução Francesa.

Além de ser extraordinariamente bem escrito, Sapiens não se limita apenas a descrever a história, como nos leva a refletir sobre o que ocorreu no passado, sobre como isso influencia o presente e o futuro e, sobretudo, sobre como as “narrativas tradicionais” muitas vezes são falhas, ou por contarem somente “a história dos vencedores”, ou pelo fato de ignorarem solenemente o nosso mundo interno, subjetivo, e a enorme importância que a linguagem e as ficções humanas exercem e exerceram sobre os eventos históricos.

A única fronteira que Harari se recusa a ultrapassar é o limite da ortodoxia acadêmica em relação às crenças. Apesar de elogiar o budismo, a sua postura para com as religiões é por vezes excessivamente ácida e superficial, pois apesar de ele basear boa parte de sua tese sobre a evolução humana em torno das mitologias da mente, em nenhum momento ele chega a tentar analisar o tema do ponto de vista místico. Mas se além de tudo o que já sabe, Harari ainda fosse um místico, seria talvez pedir demais para uma única mente.

Felizmente, existem outras mentes que podem complementar as reflexões de Sapiens; mas tal livro se encontra num patamar tão elevado que só me vem à cabeça gente como Joseph Campbell, Mircea Eliade e Alan Moore...

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Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação (Y. N. Harari)

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