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13.7.18

Pensamento e linguagem

É possível haver pensamento sem linguagem?

Filósofos como Platão, Descartes, Kant e Henri Bergson acham que a linguagem é a manifestação de algo “superior”, como o intelecto, as ideias, a mente, a subjetividade ou, simplesmente, a razão.

Outros, como Charles Peirce, John Dewey, Wittgenstein e Habermas, em geral os linguistas e os estruturalistas, consideram que as capacidades de raciocínio, pensamento, recordação, memória e associação, enfim, o que se rotula como “mental”, dependem do aprendizado de signos, de apreensão e interpretação de imagens e símbolos.

Eu vou tentar aqui resolver essa pendenga histórica da filosofia sem citar filósofos (exceto Descartes, pois será necessário), apelando somente para o senso lógico de vocês. Pode parecer um assunto complexo a primeira vista, destinado a ser debatido “somente pelos grandes pensadores”, mas eu acho justamente o oposto: creio que qualquer um de nós com um pouco de bom senso, e sendo encaminhado passo a passo por certos conceitos, é capaz de perceber por si mesmo, de uma vez por todas, se há pensamento sem linguagem.

Então, vamos lá! A primeira coisa que precisaremos fazer é definir o que é exatamente pensamento e linguagem. Vamos começar pelo pensamento:

Etimologicamente, pensar significa avaliar o peso ou as características de alguma coisa. Em sentido amplo, podemos dizer que o pensamento tem como missão tornar-se o avaliador da realidade. Por exemplo, você pode ver três maçãs em cima de uma mesa, e ao comparar umas com as outras, poderá dizer qual é grande e qual é pequena. Qual é a menor de todas, qual a maior de todas, e qual a que é maior do que uma e menor do que a outra. Isso, é claro, considerando que elas tenham dimensões claramente díspares ao olho nu. Maçãs muito parecidas em tamanho serão classificadas pelo pensamento como iguais, seria necessária a ajuda de uma lente de aumento ou de alguma medição científica para determinarmos com exatidão plena qual a maior e qual a menor. Ainda assim, “maior” e “menor” farão parte de conceitos interpretados pelo pensamento.

Se formos nos limitar ao conceito do parágrafo acima, parece claro que seria impossível pensar sem usar linguagem, uma vez que estaríamos sempre avaliando alguma coisa, gerando uma intepretação clara e evidente a partir de uma observação da mente. Ocorre que o pensamento não é só isso, ou pelo menos foi assim que o definiu Descartes (e esta é a última vez que citarei um filósofo nesse artigo):

A essência do homem é pensar. (Por isso eu dizia): “Sou uma coisa que pensa, isto é, que duvida, que afirma e que ignora muitas coisas, que ama, que odeia, que quer e não quer, que também imagina e que sente”. (Logo quem pensa é consciente de sua existência): “penso, logo existo”.

Ora, pelo que foi dito acima, “penso, logo existo” seria tão válido quanto “imagino, logo existo”; ou “duvido, logo existo”; ou até mesmo “sinto, logo existo”. Nesse sentido chegamos à conclusão de que pensar não é somente o ato racional de se avaliar os objetos e elementos que percebemos em nossa mente, como também imaginar novos elementos, e até mesmo ter experiências misteriosas, como sentir dor ou amar apaixonadamente. Pois bem, agora vai faltar definirmos o que diabos é a linguagem...

Linguagem é geralmente definida como a capacidade especificamente humana para aquisição e utilização de sistemas complexos de comunicação. O estudo científico da linguagem, em qualquer um de seus sentidos, é chamado linguística. Os códigos e outros sistemas de comunicação construídos artificialmente, como aqueles usados ​​para programação de computadores, também podem ser chamados de linguagens – a linguagem, nesse sentido, é um sistema de sinais para codificação e decodificação de informações (guardem esse termo, “informação”).

De acordo com muitos estudiosos, a linguagem pode ter se originado quando os primeiros hominídeos começaram a cooperar, adaptando sistemas anteriores de comunicação baseados em gestos e sinais, compartilhando assim intencionalidade. Nessa linha, o desenvolvimento da linguagem pode ter coincidido com o aumento do volume do cérebro, e muitos linguistas acreditam que as estruturas da linguagem evoluíram a fim de servir a funções comunicativas e cognitivas específicas.

A linguagem, como o próprio termo parece indicar claramente, está diretamente relacionada à linguística, a capacidade exclusivamente humana de se interpretar símbolos e compartilhar informações por meio deles, como pela leitura e escrita de alfabetos, ou simplesmente pela vocalização de palavras e conceitos através da fala. Quem defende essa tese dirá que um papagaio pode até repetir o que um ser humano fala, mas não compreende aquilo que repete. Mas, será mesmo que os animais não possuem linguagem?

Bem, eu poderia citar a gorila Koko, por exemplo, que chegou a aprender mais de mil palavras e sinais, e conseguiu se comunicar claramente, embora de forma bem rudimentar, com pesquisadores. Mas ao invés disso vou trazer abaixo um vídeo gravado no Dolphin Quest Oahu, em Honolulu no Havaí, onde peixes treinados são capazes de reconhecer figuras geométricas (símbolos), e assim conseguir alguma comida em troca:

Seriam tais peixes capazes de compreender códigos simples? Seria a gorila Koko um exemplo vivo do surgimento da capacidade de interpretação de linguagem humana entre os animais? Isto vocês que devem definir, pois a maioria dos especialistas parece ter a certeza de que animais não compreendem linguagem.

Mas, para arrematar, precisaremos voltar a Descartes (ops, trouxe um maldito filósofo outra vez, me desculpem)...

Vocês se lembram que ele definiu o pensamento como algo que se imagina e que se sente, não é mesmo (está alguns parágrafos acima, caso queiram reler)? Pois bem, então imagine que você está imensamente apaixonado por alguém, como exatamente você vai explicar o seu sentimento em linguagem, em códigos simbólicos, em palavras escritas ou vocalizadas? Parece problemático, não?

E não precisamos nos referir a nada tão misterioso e transcendente como o “sentir amor”, ou ainda o “sentir dor”, ou mesmo o “adorar a Deus” ou “se assombrar com a Natureza”, podemos ter o mesmo tipo de problema ao observar aquelas mesmas maçãs em cima da mesa, e tentar explicar como exatamente percebemos “a vermelhidão do vermelho” em suas cascas. Pois que, no fundo, as palavras são tão somente cascas de sentimento, incapazes de abarcar completamente o sentimento e a imaginação humana (não a toa há um ditado popular que diz: uma imagem vale mais do que mil palavras).

Se um cientista, um linguista, quiçá um filósofo especialista em linguagem, fosse capaz de definir o amor em palavras, a poesia seria então ciência ou filosofia, e não arte.

Dessa forma, me parece que é claro que, dadas as definições usuais para “pensamento” e “linguagem”, que o pensamento precede a linguagem: enquanto esta é o fruto, aquele é a semente. E não só isso: há pensamentos que jamais conseguirão ser expressos claramente ou inteiramente em linguagem, há horizontes da mente humana intransponíveis, que jamais poderão ser comunicados inteiramente tanto aos demais, como a própria mente que “pensa, logo existe”.

Se, no entanto, consideramos a linguagem como um processo que lida com qualquer tipo de informação mental, não somente as humanas, ou as capazes de serem codificadas e decodificadas em linguagem humana, então seria melhor dizer que é impossível haver pensamento sem informação (e não sem linguagem)!

Informação, etimologicamente significa “dar forma a mente”. Me parece que os antigos, portanto, já tinham todo o mistério resolvido lá atrás: o pensamento dá forma a mente, mas não necessariamente uma forma unicamente racional, exprimível em linguagem humana. Muitas vezes, pensar é dar forma ao amor, dar forma ao medo, dar forma ao assombro perante o mistério da vida. Existimos, enfim, não somente porque sabemos que uma maçã é maior do que outra, mas essencialmente porque percebemos o vermelho, e não há outro instrumento na Natureza capaz de fazer o mesmo: interpretar o mundo, e não somente computar informações em linguagem.

Enfim, somos seres e não robôs. Se isto é algo “superior” ou “divino”, vai da crença de cada um. Mas não podemos ignorar os fatos, não podemos fingir que somos coisas pensantes, pois não há “coisa pensante”.

***

Crédito da imagem: Google Image Search

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8.8.14

Conectados, parte 2

« continuando da parte 1

Informação, segundo uma interpretação antiga, é “o ato de dar forma a mente”; segundo uma interpretação moderna, é “qualquer evento que afeta o estado de um sistema dinâmico”.


A grande pescaria

“Tu, como pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos, só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos. Logo, tu não inventaste um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação. Transmites aos teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em consequência, serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios.”

Segundo Sócrates, conforme descrito no Fedro de Platão [1], é esta a repreensão que Amon, rei dos deuses egípcios e representante da força criadora da vida, impõe a Toth, o antigo deus do conhecimento e da magia, assim que fica sabendo que este ensinaria aos homens mortais a arte da escrita. Não obstante, como sabemos, a humanidade acabou ganhando tal presente (e, se não fosse através de Toth, haveria de ser através dos tantos outros deuses, de diversas outras culturas e mitologias, associados a escrita e ao conhecimento).

Mas o filósofo grego não parecia convencido de que aquele era realmente algum ganho para as pessoas:

“O uso da escrita, Fedro, tem um inconveniente que se assemelha à pintura. Também as figuras pintadas têm a atitude de pessoas vivas, mas se alguém as interrogar conservar-se-ão gravemente caladas. O mesmo sucede com os discursos. Falam das coisas como se as conhecessem, mas quando alguém quer informar-se sobre qualquer ponto do assunto exposto, eles se limitam a repetir sempre a mesma coisa. Uma vez escrito, um discurso sai a vagar por toda parte, não só entre os conhecedores, mas também entre os que o não entendem, e nunca se pode dizer para quem serve e para quem não serve. Quando é desprezado ou injustamente censurado, necessita do auxílio do pai, pois não é capaz de defender-se nem de se proteger por si.”

Para Sócrates, a disseminação dos discursos escritos, ainda que da autoria dos filósofos mais sábios, seria um enorme perigo, pois lhe parecia óbvio que o autor não poderia comparecer a todo e qualquer local onde ele era lido ou debatido, de modo que, se alguém não o compreendesse, ou pior, se alguém mal intencionado o utilizasse para os seus próprios propósitos, subvertendo a ideia original, o autor nada poderia fazer para evitar. A luz da Grécia tinha razão e antecipou muito do que vimos nos últimos milênios desde o surgimento da escrita, mas por outro lado ele bem sabia que não havia o que fazer: o conhecimento e a tecnologia jamais andam para trás.

Se houvesse sobrevivido aos séculos como o mito em torno de sua pessoa, Sócrates talvez encontrasse um certo consolo no advento da Web e, mais precisamente, da Web 2.0.

Segundo o próprio Tim Barners-Lee, o termo carece de sentido, pois a Web atual usa componentes tecnológicos surgidos antes mesmo da sua criação, mas o fato é que nome pegou: Web 2.0 é um termo popularizado a partir de 2004 pela empresa americana O’Reilly Media para designar uma segunda geração de comunidades e serviços, tendo como conceito “a Web como plataforma”, envolvendo wikis, redes sociais e sites que prestam serviços.

O que deveria agradar Sócrates não é exatamente a vasta quantidade de informação da Wikipedia, ou o número de piadas infames que se lê nas redes sociais todo santo dia, mas sim a capacidade de qualquer cidadão criar um blog e publicar seus textos e discursos numa plataforma que pode ser acessada e lida virtualmente por qualquer pessoa do mundo com acesso a Web; e não são poucas!

A princípio, poderíamos pensar que este seria apenas o pesadelo sobre o qual Amon alertou a Toth elevado a enormes potências, pois os discursos seriam lidos por tanta gente que seria inviável para o autor defender suas ideias o tempo todo. Isto é um ponto, mas ocorre que na Web 2.0 os navegantes não apenas consomem informação, mas a produzem... No caso dos blogs, nada impede que eles comentem abaixo dos textos (se o blog permitir, é claro) e dialoguem diretamente com o autor. Neste caso, o autor continua podendo defender seus discursos. Menos mal...

A questão é que chegamos então a um problema ainda mais intrigante: se todo e qualquer cidadão pode criar um blog e publicar seus textos, como faremos para saber quais os blogs que merecem ser lidos?

Ao contrário do que possa parecer, esta questão da “relevância da informação” não é nova. De fato, no próprio Fedro, o filósofo com olhos de touro já citava o assunto – vejamos o trecho onde Fedro indaga se Sócrates não estaria sendo muito duro com a atividade da escrita:

“Mas, Sócrates, estás comparando com divertimentos vulgares a belíssima atividade de um homem que se deleita em escrever discursos sobre a justiça e as outras virtudes!

É verdade, meu caro Fedro! Mas acho muito mais bela a discussão dessas coisas quando alguém semeia palavras de acordo com a arte dialética [2], depois de ter encontrado uma alma digna para recebê-las; quando esse alguém planta discursos que são frutos da razão, que são capazes de defender por si mesmos e ao seu cultivador, discursos que não são estéreis mas que contém dentro de si sementes que produzem outras sementes em outras almas, permitindo assim que elas se tornem imortais. Aos que as levam consigo, tais sementes proporcionam a maior felicidade que é dado ao homem possuir.

Na verdade, isso é muito mais belo – concluí Fedro.”

Em última instância, a função da filosofia é proporcionar ao homem o contato com tal felicidade. Após o contato, todo filósofo pleno dessa felicidade não terá objetivo mais recompensador do que o de passar tal conhecimento adiante, de modo a que outros também possam alcançar a felicidade. Se há “filósofos” que não fazem isso, é porque nunca alcançaram esta sabedoria; e não exatamente porque creem que a filosofia deva ser uma forma de sofrimento intelectual, ou um conjunto de sistemas e regras do pensar, que servem mais para confundir a mente do que aplainá-la.

E, assim como na filosofia, em todas as demais artes há sempre a possibilidade de nos depararmos com discursos que tocam diretamente a nossa essência, e que nos fazem dialogar com nós mesmos, e nos conhecer cada vez mais. Sócrates e Amon não estavam, desta forma, condenando toda a forma de escrita, toda a forma de discurso, mas apenas a maioria deles, os irrelevantes, os que nada têm de importante a dizer para nossa alma.

Se é verdade que hoje a Web é um grande mar de irrelevância, não é verdade que isto, por si só, seja motivo para nos desanimar em nossa jornada atrás de conhecimento. Pelo contrário, hoje não precisamos mais consumir somente a informação que nos chega pelos grandes afluentes da mídia, hoje podemos também, tal qual exímios pescadores, atirar nossas redes também nos pequenos córregos e riachos, e buscar por pequeninas pérolas que passam por lá – esta é a grande pescaria da era digital.

Mas, para que aprendamos a reconhecer tais joias, é preciso navegar também adentro, e descobrir que tais pedras nascem todas de uma mesma montanha; que se eleva tão, tão alto, que quase eclipsa o próprio sol.

É precisamente lá, no topo desta grande pedra, além das ideias de certo e errado, que os blogueiros da alma se encontram...

» Em seguida, a era das bolhas...

***

[1] Veja outros trechos em O discurso da alma. A tradução do grego é de Alex Marins (Ed. Martin Claret).

[2] A arte de, no diálogo, demonstrar uma tese por meio de uma argumentação capaz de definir e distinguir claramente os conceitos envolvidos na discussão.

Crédito da foto: Wilhelm von Gloeden (Sócrates na fonte)

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21.3.13

Campos de informação

Eis um vídeo magnífico. Contemple isto por 4 minutos, e a Natureza certamente lhe parecerá ainda mais misteriosa do que antes:

Nesta bela revoada de pássaros em sincronia, podemos ver o que acontece quando um grupo consideravelmente grande de animais se movem de forma tão organizada, que chegam a se comportar como um só corpo. Isto evidencia que deve haver algo que faz a conexão e a unificação de todos os animais do grupo, de forma a que cada um deles se sincronize de acordo com o restante. Todos os pássaros são "governados" de tal forma que a velocidade e a direção em que voam são tão sincronizadas que nenhum deles se choca ou se perde do grupo. Isto só pode ser explicado por algum tipo de "consciência coletiva" do grupo, que é capaz de influenciar a todos, simultaneamente, e de forma unificada.

Segundo o biólogo britânico Rupert Sheldrake, esta sincronia pode ser explicada através dos campos mórficos ou morfogenéticos, espécies de campos hipotéticos de informação, que preenchem o universo de forma análoga ao badalado campo de Higgs (formado pelos bósons de Higgs, as "partículas de Deus", que conferem massa as demais partículas, de acordo com o Modelo Padrão). Sheldrake também os compara aos campos eletromagnéticos. Vejamos um breve resumo desta teoria:

Átomos, moléculas, cristais, organelas, células, tecidos, órgãos, organismos, sociedades, ecossistemas, sistemas planetários, sistemas solares, galáxias: cada uma dessas entidades estaria associada a um campo mórfico específico. São eles que fazem com que um sistema seja um sistema, isto é, uma totalidade articulada e não um mero ajuntamento de partes.

Sua atuação é semelhante à dos campos eletromagnéticos. Quando colocamos uma folha de papel sobre um ímã e espalhamos pó de ferro em cima dela, os grânulos metálicos distribuem-se ao longo de linhas geometricamente precisas. Isso acontece porque o campo magnético do ímã afeta toda a região à sua volta. Não podemos percebê-lo diretamente, mas somos capazes de detectar sua presença por meio do efeito que ele produz, direcionando as partículas de ferro. De modo parecido, os campos mórficos distribuem-se imperceptivelmente pelo espaço-tempo, conectando todos os sistemas individuais que a eles estão associados.

A analogia termina aqui, porém. Porque, ao contrário dos campos físicos, os campos mórficos de Sheldrake não envolvem transmissão de energia. Por isso, sua intensidade não decai com o quadrado da distância, como ocorre, por exemplo, com os campos gravitacional e eletromagnético. O que se transmite através deles é pura informação.

Neste trecho de um episódio da série "Grandes mistérios do universo", do Discovery Channel, Sheldrake fala mais sobre o assunto, e ainda postula que os campos mórficos podem ser a maneira pela qual exercemos o chamado "sexto sentido":

Veja também:

» Cardumes de peixes nadando em sincronia (vídeo)

» O pensamento analógico

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Crédito da foto: Michael Buholzer/Reuters

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8.8.12

Citações (5)

Algumas citações minhas e de outros autores. Elas geralmente já terão aparecido anteriormente na página do Textos para Reflexão no Facebook...


Há mais um paradoxo na metafísica: dizem os materialistas que tudo o que existe é matéria, e que muitas ideias metafísicas são bobagens não existentes. Porém, mesmo a matéria é informação, e mesmo o pensamento lida com informações.

Dessa forma, mesmo o Unicórnio Rosa ou o Gnomo Barrigudo existem, tanto na forma quanto no conceito, no tilintar de informações das tantas mentes que os imaginaram. E não somente existem: são feitos de alguma espécie de matéria.

Apesar de não haver garantias de que existam também fora das mentes por onde foram imaginados, não bastará acusar a metafísica de ser "imaterial" para se ver livre de sua existência: ela existe, as informações existem, e a matéria pode mesmo assumir muitas e muitas formas, talvez infindáveis...

Há mais um paradoxo que pode ser reconciliado: física e metafísica são irmãs. Se a primeira é o que existe lá fora, fora de quaisquer mentes, a última é o que existe aqui dentro, no único lugar de todo o Cosmos em que podemos realmente detectar, conceber, imaginar, interpretar o que há "lá fora" - a nossa mente.

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E se nos chamam de loucos, que nossa loucura seja feita de luz, e guardada numa caixa: abramos a caixa apenas para os que compreendem que a loucura também faz parte da vida.

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Tudo é informação, e informação nada mais é que o evento que dá forma a mente (significado antigo), assim como o evento que afeta o estado de um sistema dinâmico (significado moderno): "Nada aqui é verdadeiro", pois tudo que há por aqui a ser percebido é um vir-a-ser da informação, uma informação em fluxo constante - era verdade, e já não é mais; "Tudo nos é permitido" realizar com a informação, ao menos em nossa mente, mas alguns pensamentos são mais belos e profundos do que outros, particularmente os pensamentos de amor.

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O amor mesmo pode as vezes ser confundido com sofrimento, principalmente quando o perdemos... Mas talvez venha o dia em que percebamos que o amor verdadeiro nunca é perdido, e que é melhor ter amado pelo tempo que foi possível amar do que nunca haver sequer conhecido o amor. Então acho que o amor nos ensina também a sofrer com o consolo de que ele jamais nos abandonará: é sempre possível amar de novo, e cada vez mais. O tempo é toda a prova...

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Se Deus é pensado como um Ser, ou apenas como um Ser, racionalmente e intuitivamente chegaremos a dilemas sem volta, a paradoxos irreconciliáveis, e invariavelmente dia chegaremos a uma certa descrença. Mas, então, será o início, e não o fim... Pois quando finalmente percebermos que Deus é Substância, a Substância que não pode criar a si mesma, o Uno que formou tudo o que há através do Movimento, então teremos a genuína experiência de estarmos encharcados por seu Oceano onde quer que cheguemos, em todos os momentos da existência...

Então começaremos a compreender que todos somos parte dele, e todos estamos conectados numa longa teia de luz. E saberemos que é o Amor, só o Amor, a essência de seu Movimento. Então passaremos a amar, pelo prazer de amar, pois o Amor é sua própria recompensa, e quanto mais arde em nossa alma, mais combustível há para que o fogo cresça ainda mais, cada vez mais... E não teremos nada pelo que crer ou descrer, nem nada a temer. Teremos dado o primeiro passo no caminho, e depois do primeiro já saberemos que a época da escuridão da alma ficou para trás. Será o início da vida, e o fim da sobrevivência.

Mas nada disso se aprende lendo palavras - o Amor não é uma palavra.

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Se confundimos mediunidade com magia, ou médiuns com magos, surge uma confusão só, e uns acham que um sistema funciona e outros que não, talvez mais por questões de nomenclatura, ou não compreensão do conceito em questão.

Um médium entra em contato com entidades “de fora”, e é através delas que recebe informações. Um mago, a meu ver, está mais para “médium de si mesmo”, e nessa troca de informações consigo mesmo, se for fundo e alto o suficiente, é capaz de encontrar mesmo a mais grandiosa das entidades: Deus, ou a Vontade de Deus.

Espinosa, em sua Ética, nos trouxe não somente uma definição lógica de Deus, “a substância que não pode criar a si mesma”, como uma espécie de definição filosófica da intuição e da vontade conectadas a Vontade de Deus, o que para Espinosa (e muitos outros) era a atividade mais grandiosa de um ser humano, e aquela que sempre lhe traria a maior felicidade.

Mas, acho que a despeito de todos os manuais práticos sobre natação, só se aprende a nadar, nadando. Quero dizer é isto: só se aprende a amar, amando.

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A. Que significa nada, senão o que não existe? 

B. Talvez digas a verdade, mas impede-me de concordar o que acima concedeste: que não há sinal que não signifique alguma coisa. Ora o que não existe não pode de maneira nenhuma ser alguma coisa. Portanto (a palavra nada) não é sinal, pois não significa uma coisa. [...] De preferência a uma coisa nula diremos antes que a palavra (nada) significa certa impressão do espírito quando este não vê uma coisa, e não obstante descobre ou pensa ter descoberto que ela não existe.

Agostinho de Hipona, O Mestre, cap. II

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Crédito da foto: Hill Street Studios/Gary Kious/Tetra Images/Corbis

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20.6.12

O pensamento analógico

Eu (raph), Igor Teo, Peterson Danda, Raphael PH e Jeff Alves, antigos membros do Links Mayhem, estamos participando de um novo projeto: Sobre um tema específico cada um dos participantes irá publicar um texto, em uma ordem estabelecida aleatoriamente, formando uma discussão, um agradável bate papo, onde o leitor será levado a refletir e meditar sobre diversos pontos de vista e abordagens do mesmo tema. Eis então o projeto Entrementes. Boa leitura!

O tema da primeira rodada é “Pensamento”, e já havia se iniciado no blog Artigo19 (Igor). Este é o segundo artigo, pela ordem [1]...


Outro dia estava vendo na TV a cabo um programa sobre novas empresas no ramo da tecnologia e inovação, e conheci a Quirky, que é basicamente uma comunidade online de gente criativa, com ideias para novos produtos. Você envia uma ideia por 10 dólares e, duas vezes por mês, as ideias mais votadas pela comunidade passam a ser desenvolvidas pela Quirky, até que virem produtos reais, físicos, e 30% das vendas vão para o criador.

Mas o que me chamou a atenção foi o depoimento do sujeito que criou o Click and Cook [2]. Há certa altura ele disse mais ou menos assim: “Sim o dinheiro é legal, mas o que mais me emociona é o fato desse produto, que agora está aqui na minha frente, e que posso pegar com a mão, ter saído da minha cabeça”... Nós realmente temos essa estranha dificuldade em notar que tudo o que há por aí, construído pelos homo sapiens – arranha-céus, trens bala, semáforos, espátulas, etc. –, saiu nalgum dia da cabeça de um, ou vários, de nós. Ainda assim, é sempre emocionante ver quando alguém percebe isso: “pensei alguma coisa, e agora é real!” Há que se perguntar: e quando, afinal, um pensamento não foi real?

Por exemplo, na era da informática, muitas e muitas coisas foram criadas, mas não passam de bits trafegando por hard disks. Na verdade, toda a internet é algo que não se pega com a mão: mas existe, e foi criado por nós. Alguns homens criam coisas “físicas”, hardwares; Outros criam coisas “virtuais”, softwares. Um programa de computador, por exemplo, é uma série de comandos e algoritmos que lidam com a interação do usuário para lhe trazer novos comandos e algoritmos de acordo com o que ele deseja: apenas um clique no botão de “buscar” do Google, e quantos e quantos anos de inovação e criatividade não se escondem por detrás do processo que retorna milhões de resultados [3], quantos e quantos pensamentos que saíram nalgum dia da cabeça dos homo sapiens.

Mas qual seria exatamente a natureza do pensamento? Sabemos que o pensamento sem dúvida passa pela mente, independentemente de ter se originado apenas no cérebro, ou de ter vindo de algum outro centro oculto, de alguma usina espiritual. Isto pois, com os eletroencéfalogramas (EEGs) e outras tecnologias de observação objetiva das fagulhas elétricas a navegar pelo espaço neuronal do cérebro, tudo o que vemos é o resultado da vontade de agir, dos comandos cerebrais; Ou pelo menos nada que temos visto na neurociência de ponta indica que tal fagulha se originou apenas no cérebro, e não está somente trafegando por ele, ativando as teclas do piano que controla nosso corpo. Observamos, portanto, luzes a passar por extensos e intrincados postes de luz, que iluminam toda a metrópole cerebral, e fazem a cidade funcionar – porém, jamais encontramos algo no cérebro que possamos indicar, com boa convicção, como sendo a usina elétrica dessas luzes, o centro da vontade.

Portanto, ainda que hoje saibamos que a consciência é um processo que simula e elabora realidades para que nosso eu possa decidir o que fazer a seguir; E ainda que a atividade consciente na verdade seja apenas reflexo de inputs de informação sensorial e decisões muitas vezes inconscientes que ocorreram a até meio segundo atrás, antes de terem sido percebidas conscientemente [4]; Ainda assim, a despeito de todo o ceticismo envolvido com as questões espirituais, podemos dizer pelo menos isto aqui: enquanto vivos, encarnados, todos nós concordamos que somos um ser que tem uma mente e é capaz de elaborar e interagir com pensamentos, ainda que tão somente dentro de nossa própria mente [5].

Podemos, sem dúvida, extrair algumas conclusões da metáfora do cérebro enquanto máquina, lidando com as informações da mente como um computador lida com bits digitais. Ora, uma das definições de informação é exatamente “dar forma a mente”. Mas, se aqui falamos apenas de informações que trafegam pela mente, será que elas também são substâncias reais por si mesmas?

John Wheeler, um físico americano, cunhou a expressão “o it que vem do bit”. Em suas palavras: “Cada it – cada partícula, cada campo de força e até mesmo o próprio continuum espaço-tempo – deriva inteiramente sua função, seu significado, sua própria existência – mesmo que em alguns contextos indiretamente – de respostas induzidas por equipamento a perguntas sim ou não, escolhas binárias, bits. O it que vem do bit simboliza a ideia de que cada item do mundo físico tem no fundo – bem no fundo, na maioria dos casos – uma fonte e uma explicação imateriais; que aquilo que chamamos de realidade vem em última análise da colocação de perguntas sim-não, e do registro de respostas evocadas por equipamento; em resumo, que todas as coisas físicas são informacional-teóricas na origem.” [6]

Bem, foi um físico quem disse... Na verdade, talvez a realidade virtual gerada por computador, ou através do baile neuronal mental, não seja assim tão virtual. É mesmo estranho de se pensar, mas cada pensamento, cada imagem mental, também precisa estar lidando com informações; Ou com bits de informação, se formos manter esta nossa metáfora mecanicista.

Dessa forma, da mesma maneira que as espátulas do Click and Cook surgiram primeiramente na mente de seu criador, para depois serem projetadas nos softwares de renderização de imagens em 3D, para somente então serem produzidas, se tornarem “algo que se pega com a mão”, assim também ocorre com tudo o mais. O computador mais avançado que a humanidade criou é tão ferramenta quanto à primeira roda. Mas, tanto a roda quanto o computador, surgiram antes nalguma mente.

Você pode imaginar uma cadeira de madeira; Se tiver uma em casa, fica ainda mais simples. Porém, ainda mesmo que memorize a forma da cadeira que vê a sua frente, ou que se lembre de uma cadeira que já viu, quando imagina de novo a cadeira, sem usar os olhos, é o seu cérebro que a constrói, que a renderiza tal qual um software 3D. E não apenas isso, se avançar a fundo na imaginação, verá que pode rotacionar a imagem, dar zoom, separar as partes da cadeira e depois juntar de novo e, às vezes quem sabe, até mesmo criar um formato inteiramente novo para a tal cadeira. Sim, tal cadeira não é mais feita de madeira, é feita de informação – não obstante, ela existe, ela precisa ter substância, ainda que seja apenas a substância mental.

Mas é quando percebemos que é a mente quem tecla o computador cerebral, que é o eu quem tem a vontade de imaginar a cadeira, que percebemos que, no fundo, mesmo o cérebro é ferramenta. Se a metáfora mecanicista pode abranger o cérebro, ela é ainda totalmente falha em abranger a vontade, a mente, o eu.

Num sinal digital, como o que você usa para acessar a internet, a informação viaja por "pacotes" de bits binários. O sinal digital é preferível ao analógico, que viaja por ondas eletromagnéticas, e é afetado pela estática, ou seja, os campos elétricos que estão por toda parte, e causam ruído no sinal. No sinal digital, onde a informação que interessa ser transmitida é decodificada em “pacotes”, fica bem mais simples distinguir o ruído do sinal.

O nosso cérebro, no entanto, não é digital, mas analógico. Ele está, há todo momento, recebendo uma quantidade imensa de informações de nossos sentidos, e é somente nossa consciência que nos protege de uma overdose sensorial, ao armar o palco da existência, para que o eu trabalhe apenas com as informações mais relevantes, e possa construir o sentido de sua própria história, elaborando as decisões a seguir. Nada disso parece ter a ver com uma metáfora mecanicista: onde entra o eu, a ideia de ferramenta se esvai.

Nosso pensamento é analógico. Por mais que alguns de nós tentem viver de forma totalmente racional, filtrando o ruído da existência e procurando acessar somente a razão, isoladamente, mais dia menos dia percebemos que não somos máquinas, e não podemos viver separando a existência em “pacotes”. O ruído sempre esteve presente, e sempre estará. Devemos aprender a conviver com ele, ainda que não o compreendamos totalmente, pois o ruído é a maneira da alma nos lembrar: eu estou aqui.


raph

***

» Acompanhe os próximos artigos do Projeto Entrementes

[1] Na sequencia, os próximos artigos serão publicados em: blog O Alvorecer (Jeff); blog Diário do Adeptu (PH); encerrando no blog Autoconhecimento e Liberdade (Peterson).

[2] Um engenhoso sistema de espátulas onde você pode trocar de espátula rapidamente, mantendo o mesmo cabo. Bem talvez fique mais simples de entender vendo no site.

[3] A busca por “pensamento”, por exemplo, traz mais de 33 milhões de resultados em menos de meio segundo (na banda larga).

[4] Exceto em ações puramente reflexivas, como proteger os olhos com as mãos de algum objeto arremessado em sua direção, que não passam por esse intervalo de meio segundo, e são efetivamente “automáticas”, ou pelo menos na grande maioria dos casos não teremos escolha entre proteger os olhos ou não: nós os protegeremos.

[5] Bem, os materialistas eliminativos não creem que exista uma mente, pois eles tampouco creem que exista uma subjetividade, ou a liberdade, mesmo uma liberdade parcial e limitada, da vontade. A subjetividade seria uma ilusão persistente do cérebro, e todas as nossas escolhas (veja bem: todas) na verdade se reduziriam ao tilintar neuronal de partículas já descobertas pela ciência (veja bem: apenas 4% da matéria e energia do universo, segundo a teoria da Matéria Escura).

[6] Citado em O universo inteligente, de James Gardner, publicado pela Cultrix/Pensamento. O livro de Wheeler, de onde foi extraída a citação, é intitulado At home in the universe.
Um bit de informação equivale a menor unidade computacional que pode ser medida, ela pode assumir somente dois valores, tais como “0” ou “1”, “verdadeiro” ou “falso”, etc. Não confundir com bytes, que são conjuntos de bits (normalmente, 8 bits).

Crédito das imagens: [topo] Mike Agliolo/Corbis/Rafael Arrais; [ao longo] Sung-Il Kim/Corbis

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18.7.11

A odisséia da informação

Trecho do Projeto Ouroboros (a partir deste ponto irei revelar o nome de um segundo personagem, até então apenas "O.", agora Otávio)

(Otávio) Fico feliz que estejam seguindo meu raciocínio e concordem com a importância desse tipo de reflexão. Mas sigamos adiante: quando falamos em uma substância, pela definição usual, científica, estamos falando em qualquer tipo de matéria formada por átomos de elementos específicos em proporções específicas. Nesse sentido, substâncias possuem conjuntos específicos de propriedades e composições químicas, e se for conveniente dividi-las em dois grandes agrupamentos, estes certamente seriam de substâncias inorgânicas – como a água e os sais minerais –, e substâncias orgânicas, presentes nos seres vivos da Terra – como proteínas, carboidratos e vitaminas.
Tudo isso é bastante conhecido da ciência, da química e da biologia. No entanto, obviamente quando nos referimos a absolutamente todas as substâncias do Cosmos como irradiações da substância primeira, estaremos tratando o conceito de substância como algo infinitamente mais abrangente – capaz de definir não somente a matéria, como a energia, o pensamento, e certamente tudo aquilo que ainda escapa a nossa detecção; seja porque não interage com a luz, seja porque está além do alcance de nossos sentidos e aparelhos, seja porque se aproxime daquilo que chamamos de imaterial.
Felizmente não precisarei iniciar aqui uma nova discussão sobre a existência ou inexistência de qualquer coisa imaterial – para minha teoria, bastará nos atermos ao material, detectado ou não.
Entretanto, como o conceito de substância está, nos dias atuais, intimamente ligado a este significado de elementos materiais, creio que será mais proveitoso utilizar um novo conceito. Este “novo conceito”, em realidade, está longe de ser novo, e já é conhecido da humanidade há bastante tempo – a questão central está na interpretação que damos a ele. O que diriam vocês, portanto, se eu afirmar que tudo o que partiu da Causa Primeira e foi irradiado ao infinito do Cosmos é, tão somente e nada mais, informação?

(P.) Eu já ouvi falar disso antes, mas irei esperar que desenvolva melhor o tema para tecer minhas considerações...

(I.) Surpreso.
Ora, devo confessar que não faço idéia do que pensar neste momento. Apesar de, ao contrário de nosso amigo, nunca ter ouvido falar disso, irei igualmente aguardar seu desenvolvimento – inclusive para compreender e aprender sobre ele, se possível.

(Sofia) Alguns sábios antigos já falavam nisso, mas creio que será melhor esperar você terminar de expor o conceito de informação conforme nos trouxe agora...

(Otávio) Folgo em saber que pelo menos dois de vocês já ouviram falar no assunto. Talvez tenham chegado a ele por vias diferentes da minha, o que será ainda mais interessante para nosso debate.
Em todo caso, para desenvolver e aprofundar o assunto, primeiro precisarei lhes trazer uma definição usual para o termo “informação”.
Conforme já disse, este conceito é também bastante antigo, bem anterior a era moderna, a comunicação de massa e a computação, onde ele é comumente mais utilizado e associado. Informação é qualquer evento que afeta o estado de um sistema dinâmico. Bem, esta é uma definição mais moderna, mas igualmente válida para o prosseguimento de minha exposição – em todo caso, o termo “informação” vem do latim informatio, e em sua designação verbal significa dar forma a mente.
A mim me pareceu bastante interessante como ambos os significados, o moderno e o antigo, não somente parecem se complementar, como se casam muito bem com tudo o que discutimos até aqui sobre a Causa Primeira como uma criação mental, e sobre o Cosmos como um sistema cuja função é a evolução...
Ora, se o ato de informar é “dar forma a mente”, poderíamos agora dizer, inclusive, que o início do Cosmos nada mais foi do que a primeira informação divulgada, irradiada de algum lugar para o Todo. E, se a subseqüente sub-divisão desta substância primeira resultou nas infindáveis substâncias que compõem o Cosmos, então podemos igualmente afirmar que tudo o que tem ocorrido desde o início são informações: “eventos que alteram o estado do universo, um sistema dinâmico”.
Eu agora gostaria de dar voz a nossos amigos, P. e Sofia, pois tenho certeza que cada um terá mais a acrescentar a este assunto fascinante...

(P.) De fato, mesmo no meio científico moderno há físicos que chegaram a teorias bem parecidas com essa...
Apesar de ter chegado a sua conclusão dentro de uma teoria consideravelmente mais abrangente sobre a mecânica quântica – e que não convém expor aqui –, um físico americano [1] cunhou a curiosa expressão “o it que vem do bit”. Em suas próprias palavras:
Cada it – cada partícula, cada campo de força e até mesmo o próprio continuum espaço-tempo – deriva inteiramente sua função, seu significado, sua própria existência – mesmo que em alguns contextos indiretamente – de respostas induzidas por equipamento a perguntas sim ou não, escolhas binárias, bits. O it que vem do bit simboliza a idéia de que cada item do mundo físico tem no fundo – bem no fundo, na maioria dos casos – uma fonte e uma explicação imateriais; que aquilo que chamamos de realidade vem em última análise da colocação de perguntas sim-não, e do registro de respostas evocadas por equipamento; em resumo, que todas as coisas físicas são informacional-teóricas na origem [2].
Esse tipo de consideração metafísica demonstra como alguns físicos modernos não têm um pensamento tão distante de certos filósofos e espiritualistas, embora usem outros termos. A grande diferença, a meu ver, é que eles jamais se afastam muito das observações da ciência – e particularmente da cosmologia.
Apesar de partir do pressuposto de que todo o Cosmos nada mais é que uma espécie de supercomputador, a princípio não vejo nada de absurdo neste tipo de conclusão... Há muitas conclusões “mais absurdas” do que esta na ciência moderna, a começar pelas conclusões da própria física quântica, por exemplo.
Eu pessoalmente não concordo que a informação seja em essência imaterial, pois afinal de contas continua sendo “alguma coisa”; E é exatamente por isso que sua exposição tem me agradado, pois parece que por fim nos trará alguma “materialidade” a informação – ou seja, nada mais do que uma parte da substância primeira, que vem se dividindo e se irradiando ad infinitum, desde os primórdios do Cosmos.

(Otávio) Sorri em contentamento.
Que maravilha, vejo que nosso pensamento está agora bastante afinado. Agora nos resta ouvir o que nossa amiga tem a dizer – imagino que retornaremos uma vez mais a Grécia antiga, não?

***

[1] Conforme a nota existente no livro: Trata-se de John Wheeler. Para maiores detalhes sobre suas considerações acerca da mecânica quântica e da informação, consultar o livro “O universo inteligente”, de James Gardner. De sua expressão, não foram traduzidos os temos do inglês ao longo do texto, mas equivaleria a algo como “(o) isso que vem do bit”. Um bit de informação equivale a menor unidade computacional que pode ser medida, ela pode assumir somente dois valores, tais como “0” ou “1”, “verdadeiro” ou “falso”, etc. Não confundir com bytes, que são conjuntos de bits (normalmente, 8 bits).

[2] Conforme a nota existente no livro: O parágrafo inteiro foi retirado do livro “At home in the universe” (“Em casa no universo”), de John Wheeler.

***

Crédito da foto: Troy House/Corbis

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6.4.11

Frases (5)

Mais algumas frases e pensamentos que perambularam por minha mente e meu twitter:

"Hoje melhor do que ontém. Amanhã, eu posso esperar. Há tanto para conhecer aqui dentro, lá fora... Meus passos são curtos, eu mal comecei."

"A saudade nunca passa, mas só tem saudade quem realmente vive... A melhor saudade ainda é a saudade do futuro."

"Pior do que amar e perder, é nunca haver sequer amado. Quem ama, e perde, perde muito, mas não perde o amor."

"Que a sina das coisas é se transformar e decompor, mas o amor se tranforma apenas, jamais se decompõe."


"A Terra não gira em torno do Sol. Tudo gira em torno de tudo, inclusive o Sol, os outros sóis e todas as galáxias do Cosmos."

"O Sol nunca deixa de nascer, as núvens ciumentas é que as vezes querem ele todo só para elas. Ainda que mesmo nesses dias, seu calor continue invicto. Não há núvem passageira capaz de impedir sua irradiação."


"Informação é qualquer forma de evento que afeta o estado de um sistema dinâmico. Do latim informare: dar forma a mente. Então reflitamos: a quais espécies de informação nós temos dado forma?"

"Não são bombas nem tratados de paz que mudam o mundo, mas nosso interesse em uns e noutros."


"Não inicie um diálogo dizendo que Deus existe, ou que não existe, mas sim perguntando: o que é Deus para você?"

"É impossível crer na inexistência de um Criador e ser cético ao mesmo tempo."

"Entre o ateísmo e o agnosticismo existe um vão talvez maior do que, por exemplo, o que separa o agnosticismo do panteísmo."


"Não existe drama maior para um espiritualista do que saber que não está a altura do que ele próprio escreve. Mas ficar parado, jamais!"

***

Crédito da foto: César Gómez

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14.4.09

A máquina somos nós

Muitos insistem em dizer que a evolução tecnológica da humanidade em nada afeta a evolução moral... Que somos tão morais quanto éramos quando iamos ao Coliseu ver bestas devorarem homens (e aplaudir)... Mas será mesmo? Será que a tecnologia não pode também nos auxiliar? Em conhecimento, em contato uns com os outros, em aniquilar nossos preconceitos tão infantis?

Muitos radicais condenam a globalização, mas fato é que hoje em dia não temos mais como voltar atrás. A evolução anda somente em uma direção... Sempre a frente:

Tradução e adaptação do vídeo "The Machine is Us/ing Us", de Michael Wesch, Antropólogo americano.

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