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3.4.18

Viviane Mosé fala sobre a sociedade em rede

Ontem tive o privilégio de ver ao vivo, na Câmara Municipal de Campo Grande/MS, a palestra do maior pensador vivo do país, que por acaso é uma mulher, e se chama Viviane Mosé.

Iniciando seu discurso há 100 mil anos, desde o surgimento da consciência humana, passando pela descoberta de nossa mortalidade, pela agricultura e pela invenção de imprensa, Mosé chega enfim a grande revolução de nosso tempo, a internet, com todo o seu potencial maravilhoso e todas as suas revelações monstruosas de nós mesmos: uma sociedade deprimida em busca de algum rumo, em geral dominada pelos discursos fáceis, radicais, mas que tem a sua frente a imensa tarefa de aprender a viver em rede, a educar e ser educada, e a abandonar uma visão excessivamente racional da vida em prol de uma presença emocional, aqui e agora...

Tudo isso tentou falar a filósofa e poetisa de um fôlego só. Estejam preparados, não é vídeo para se ver sem prestar atenção. Se trata de um verdadeiro vendaval filosófico:

Obs.: Ela começa a falar em 00:14:50. Infelizmente o Facebook não permite inserção de tempo inicial num vídeo compartilhado desta forma.


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27.8.15

Memes para reflexão, parte 1

Muita gente passou a conhecer os memes após o advento das redes sociais online. O que pouca gente sabe, no entanto, é que os memes da internet nada mais são do que uma espécie de “subgrupo” de um conceito muito mais abrangente, poderoso, e até mesmo místico:

Um meme – conforme proposto pelo biólogo britânico Richard Dawkins – é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro, ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros) e outros locais de armazenamento ou cérebros. No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma se autopropagar. Os memes podem ser ideias, línguas, sons, desenhos, doutrinas religiosas, valores estéticos e morais etc. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação é conhecido como memética.

Apesar de ser um conceito puramente metafísico, ele tem sido capaz de explicar muita coisa que ocorre dentro da mente humana, particularmente no que tange a troca de informações sociais e culturais. Assim, se é verdade que muitos memes da internet não passam de pequenas peças de humor, não é verdade que todos eles possam ser considerados somente isso.

Conforme um dia nos explicou Ralph Waldo Emerson, “A chave de todo ser humano é seu pensamento. Resistente e desafiante aos olhares, tem oculto um estandarte que obedece, que é a ideia ante a qual todos os seus fatos são interpretados. O ser humano pode somente ser reformado mostrando-lhe uma ideia nova que supere a antiga e traga comandos próprios”.

É levando isto em consideração que eu pensei comigo mesmo, “Ora, se há tantos memes bobos que alcançaram tamanho sucesso em se replicar pelas mentes alheias, por que não usar do mesmo expediente para tentar refletir adiante ideias um pouco mais profundas?”.

Foi assim que me senti inspirado para criar alguns “memes para reflexão” e publicá-los em nossa página no Facebook. A minha ideia, é claro, não é criar memes “acadêmicos” ou “muito sérios”, mas me aproveitar do bom humor e do grande alcance deste tipo de linguagem online para, como sempre tento fazer, levar as pessoas a refletirem um pouco mais sobre algumas ideias que talvez estejam já velhas demais, solidificadas demais, dogmáticas demais.

Com isso não quero denegrir ou reduzir tais ideias, que são memes muito mais antigos e duradouros do que qualquer meme de internet, mas pelo contrário: mostrar outros pontos de vista para, quem sabe, trazer tais ideias ancestrais para o meio do século 21, onde há um verdadeiro Dilúvio de informação irrelevante; de modo que as ideias relevantes talvez precisem ser guardadas com carinho, na segurança de nossa Arca de Noé, esta que sempre navegou em nossa própria alma.

Na sequência, trarei alguns dos memes publicados em nossa galeria no Facebook, com uma pequena explicação sobre o que exatamente quis passar com cada um, assim como uma rápida descrição das discussões geradas por aqueles que foram mais compartilhados.

» Em breve, os memes!

***

Crédito da imagem: Raph/Google Image Search

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28.7.15

Um poema misterioso

Há alguns dias um poema de autoria anônima, encontrado num pub londrino, viralizou nas redes sociais. A princípio, ele parece um poema um tanto depressivo [1]:

Hoje foi absolutamente o pior dia de todos
E não tente me convencer que
Há algo bom em cada dia
Porque, quando você olha mais de perto,
Este mundo é um lugar muito ruim
Mesmo sabendo que
Alguma bondade vem brilhar de tempos em tempos
Satisfação e felicidade não perduram
E não é verdade que
Está tudo na mente e no coração
Porque
A verdadeira felicidade pode ser obtida
Apenas se o que nos rodeia for bom
Não é verdade que o bem exista
Eu estou certo que você pode concordar com isso
A realidade
Cria
Minha atitude
Está tudo fora do meu controle
Nem em um milhão de anos me escutará dizer que
Hoje foi um bom dia

Mas havia nele uma última linha, que em realidade faz toda a diferença, e foi o que de fato o tornou viral:

Agora leia de baixo para cima


Então, o que parecia um poema refletindo a angústia de algum beberrão britânico, subitamente se torna um pequeno tratado de como nosso ponto de vista pode transformar a realidade, e uma verdadeira alquimia mental é realizada.

O mais interessante, no entanto, não foram as dezenas de milhares de leituras que tal poema conquistou no mundo todo na última semana, mas o fato de que ele na realidade foi escrito por uma garota do ensino médio de Nova York, de família judaica, chamada Chanie Gorkin.

O poema, intitulado “Worst day ever?” (“O pior dia de todos?”), já havia sido semifinalista de um concurso de poesia, no site poetrynation, e chegou a ser publicado numa coletânea por uma pequena editora americana, isso tudo em 2014.

Quando ficou sabendo do sucesso do poema da filha, Dena Gorkin se disse “chocada”, já que se considera parte de uma família “regular e pacata”. Dena ainda afirmou ao site poetrynation que Chanie está em férias escolares, sem acesso a internet, e que ainda não faz ideia do ocorrido na última semana.

Para mim, particularmente, esta bela e curiosa história evidencia como muitos de nossos jovens, no mundo inteiro, podem ser tão sensíveis e talentosos. A parte realmente triste é que há muitos artistas em potencial que jamais irão exercer sua arte, seja por questões econômicas, seja por questões culturais; afinal, mesmo em Nova York é muito difícil “viver de poesia”. Quem sabe Chanie se sinta encorajada a tentar, mas pela personalidade da mãe, acredito que será complicado...

Em todo caso, a despeito de todas as mazelas e comentários sombrios que temos visto nas redes sociais, é inegável que ela também é capaz de nos fazer sorrir de vez em quando. E, se formos capazes de manter nosso ponto de vista e nosso estado de espírito elevados, são os sorrisos que vencerão, e farão dos nossos dias não os melhores ou os piores, mas tão somente dias de aprendizado.

***

[1] A tradução do original em inglês foi feita por Gabriel Bonfim.

Crédito da imagem: Alan Copson/Jai/Corbis/Twitter/Mashable

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2.3.15

O garoto de ouro da internet

“Eu sinto fortemente que não é suficiente simplesmente viver no mundo como ele é e fazer o que os adultos disseram que você deve fazer, ou o que a sociedade diz que você deve fazer. Eu acredito que você deve sempre estar se questionando. Eu levo muito a sério essa atitude científica de que tudo o que você aprende é provisório, tudo é aberto ao questionamento e à refutação. O mesmo se aplica à sociedade. Eu cresci e através de um lento processo percebi que o discurso de que nada pode ser mudado e que as coisas são naturalmente como são é falso. Elas não são naturais. As coisas podem ser mudadas. E mais importante: há coisas que são erradas e devem ser mudadas. Depois que percebi isso, não havia como voltar atrás. Eu não poderia me enganar e dizer: “Ok, agora vou trabalhar para uma empresa”. Depois que percebi que havia problemas fundamentais que eu poderia enfrentar, eu não podia mais esquecer disso.”

Aaron Swartz contava 22 anos de vida quando conseguiu resumir, com as palavras acima, o seu objetivo de vida. Parecem palavras de um sujeito um tanto experiente não? De fato, nesta idade Aaron já era considerado um expert em sua área.

Desde os 14 anos, ele trabalhava criando ferramentas, programas e organizações na Web. E, de algum modo, em algum momento, quem usa a rede foi beneficiado por algo que ele fez. Por exemplo, ele participou da criação do RSS (que nos permite receber atualizações do conteúdo de sites e blogs de que gostamos), do Reddit (plataforma aberta em que se pode votar em histórias e discussões importantes), e do Creative Commons (licença que libera conteúdos sem a cobrança de alguns direitos por parte dos autores). Mas não só. A grande luta de Aaron, como fica explícito no depoimento acima, era uma luta política: ele queria mudar o mundo e acreditava que era possível.

Aaron ajudou a criar o Watchdog, website que permite a criação de petições públicas; a Open Library, espécie de biblioteca universal, com o objetivo de ter uma página na web para cada livro já publicado no mundo; e o Demand Progress, plataforma para obter conquistas em políticas públicas para pessoas comuns, através de campanhas online, e o contato com congressistas e advocacia em causas coletivas. Em 2008, lançou um manifesto no qual dizia: “A informação é poder. Mas tal como acontece com todo o poder, há aqueles que querem guardá-lo para si”.

Indignado com a passividade dos acadêmicos diante do controle da informação por grandes corporações, ele conclamava a todos para lutar juntos contra o que chamava de “privatização do conhecimento”. Baixou milhões de arquivos do judiciário americano, cujo acesso era cobrado, apesar de os documentos serem públicos. Chegou a ser investigado pelo FBI, mas sem consequências jurídicas. Em 2011, porém, Aaron foi alcançado.

Em alguns dias, ele baixou 4,8 milhões de artigos acadêmicos de um banco de dados chamado JSTOR, cujo acesso é pago pelas universidades e instituições. Aaron usou a rede do conceituado MIT (Massachusets Institute of Technology) para acessar o banco de dados, fazendo download de muitos documentos ao mesmo tempo, o que era – é importante ressaltar – permitido pelo sistema. Não se sabe o que ele faria com os documentos, possivelmente dar-lhes livre acesso. Mas, se era esta a intenção, Aaron não chegou a concretizá-la. Ao ser flagrado, ele assegurou que não pretendia lucrar com o ato e devolveu os arquivos copiados para o JSTOR, que extinguiu a ação judicial no plano civil.

Havia, porém, um processo penal: Aaron foi enquadrado nos crimes de fraude eletrônica e obtenção ilegal de informações, entre outros delitos. Aaron seria julgado em Abril de 2013. Se fosse acatado o pedido da acusação, esta seria a sua punição: 35 anos de prisão e uma multa de 1 milhão de dólares.

O julgamento, entretanto, nunca ocorreu. Em 11/01/2013 Aaron foi encontrado morto em seu apartamento em Nova York, aos 26 anos. A causa mais provável é o suicídio... Há argumentos de que ele sofria de depressão, mas não há como deixar de considerar que o que o levou a morte foi, direta ou indiretamente, a grande perseguição que sofreu das forças da estagnação.

“O mundo é roubado em meio século de todas as coisas que nós nem podemos imaginar que Aaron realizaria com o resto da sua vida”, declarou Kevin Poulsen em artigo da Wired Magazine. Para o mundo da computação, da colaboração, do livre pensamento e do compartilhamento do conhecimento que é produzido para toda a humanidade, particularmente o científico, a perda de Aaron, mais um dos que vieram da Mansão do Amanhã, é irreparável...


Esta história triste, porém vital para a compreensão do nosso século e do advento da chamada "era da informação", é narrada de forma brilhante no documentário abaixo, The Internet's Own Boy, com legendas em português. Recomendamos enormemente que tirem cerca de 2 horas para vê-lo com a mente aberta e tranquila:

Aaron está morto. Andarilhos deste mundo louco, nós perdemos um mentor, um sábio ancião. Hackers do bem, hoje somos um a menos. Educadores, instigadores, cuidadores, ouvintes, todos os pais aí fora, nós perdemos um filho. Deixemos que as lágrimas escorram. (Tim Barners-Lee, 11/01/13)

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Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação

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12.10.14

El Partido de la Red

A democracia que temos está aprisionada: é míope, ordena suas prioridades de forma equivocada, tem a sua largura de banda limitada (Manifesto de la Red)


Desde seu surgimento na Grécia antiga, onde os próprios cidadãos decidiam as ações do Estado, a democracia passou por tantas reviravoltas e atualizações que hoje um filósofo daquela época mal a reconheceria. É verdade que hoje não há mais escravidão, e que mulheres também podem votar, mas por outro lado nossas cidades-estado cresceram tanto que a única forma que encontramos de continuar consultando os anseios do povo foi instaurando a democracia representativa, onde certos candidatos são eleitos para nos representar em tais decisões. Assim, teoricamente, somente os mais bem preparados e sábios dentre nós deveriam ser eleitos para nos representar. Estaria tudo certo, contanto que o sistema eleitoral fosse capaz de dar oportunidade aos mais bem preparados e sábios concorrerem nas eleições. Como bem sabemos, isso não é mais o que ocorre hoje em dia...

Teoricamente nossas eleições deveriam ser um embate de ideias e de propostas, baseadas sobretudo em ideologias. Mas, na prática, o que ocorre hoje em dia está muito longe disso. Se tomarmos o segundo turno das eleições de 2014 para a presidência do país, por exemplo, não temos exatamente um embate de ideologias opostas (embora há muitos que ainda creiam nisso, e considero que devemos respeitar sua inocência, para que o sonho não morra), mas sim uma disputa de poder onde está em jogo muito, muito dinheiro. Não importa se um partido de "esquerda" se alia, de última hora, ao partido opositor de "centro-direita" em troca de certos ministérios; pois o partido que disputa a reeleição, apesar de se declarar de "esquerda", também só se encontra em seu posto devido a negociação de inúmeros ministérios com os partidos de "direita" da base aliada. Onde ficou a ideologia nesse Grande Negócio Eleitoral? Ficou na cartilha dos marqueteiros, que usam os milhões doados por grandes empresas (muitas das quais doaram a ambos os partidos, o opositor e o que disputa a reeleição) para suas superproduções do "horário eleitoral gratuito".

Conforme bem analisou Lawrence Lessig em sua reflexão sobre o sistema eleitoral dos EUA, "Há um forte sentimento de inevitabilidade, de que não temos o que fazer para mudar tudo isso". Mas foi o próprio jurista que, em sua histórica palestra no TED, apontou um caminho para a mudança: tirar o "dinheiro grande" das eleições, para que o povo possa voltar a decidir, de fato, entre os candidatos mais bem preparados e sábios. Obviamente que esta reforma não é algo que se dê da noite para o dia, mas é uma reforma cada vez mais necessária, pois no fim das contas a única outra opção será uma revolução - e na revolução, como bem sabemos, há muito mais mortes e violência, além de ser um processo de estabilização lenta e incerta.

Porém, ainda que o "dinheiro grande" fosse retirado das eleições, ainda não haveriam garantias suficientes que ele não pudesse ser usado para corromper os candidatos mais bem preparados e sábios que foram eleitos. Pois também já vimos inúmeros exemplos de boas pessoas que, de um jeito ou de outro, se viram obrigadas a jogar o Grande Negócio Eleitoral uma vez eleitas. A solução seria fiscalizar mais de perto tais candidatos, em cada passo, em cada decisão, em cada votação... Isto sim seria a semente de uma nova democracia, uma forma de, ironicamente, voltarmos as origens gregas, e realmente participarmos diretamente das decisões dos nossos representantes eleitos.

É precisamente isso que pretende o Partido de la Red, um partido político argentino que surgiu há poucos anos, fruto da experiência fracassada de tentar convencer aos políticos tradicionais de vincular suas decisões a votações específicas de um aplicativo para tablets e smartphones, intitulado DemocraciaOS. Conforme a oferta foi inicialmente recusada, os argentinos desbravadores de uma nova era decidiram fundar o seu próprio partido, onde cada deputado eleito se compromete a votar de acordo com a decisão da maioria dos votos no aplicativo. É claro que não é uma ideia completa, imune a hacks de todos os tipos, mas é um novo caminho, uma luz no fim do túnel.

Para saber mais sobre esta ideia preciosa, vejam a palestra de Pia Mancini, uma das fundadoras do Partido de la Red, no TED Rio recém realizado em Outubro de 2014 (com legendas em português):

***

Veja também:

» x dólares, 1 voto (a palestra de Lawrence Lessig)

» Interregno de eras

» Primavera Brasilis

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18.8.14

Conectados, parte final

« continuando da parte 5

Não seja escravo do seu passado. Mergulhe em mares grandiosos, vá bem fundo e nade até bem longe, e voltará com respeito por si mesmo, com um novo vigor, com uma experiência a mais que explicará e superará a anterior. (Ralph Waldo Emerson)


Pensamentos libertos

Era uma manhã mais fria que o habitual de Janeiro de 2008, e Idoya, uma macaquinha de não mais que 5,5kg e 80cm de altura, era o primata no centro das atenções de um enorme grupo de outros primatas espremidos num laboratório da Universidade de Duke, em Durham (Carolina do Norte/EUA). Com fotógrafos e repórteres do New York Times documentando cada momento da preparação, Idoya foi gentilmente colocada pelos pesquisadores numa esteira hidráulica. Vários cabos conectavam neurochips implantados meses antes em seu cérebro a um eletroencefalograma e inúmeros computadores. Na parede imediatamente a sua frente, a simpática macaquinha já podia ver imagens de alta definição das pernas de um CB-1, um robô humanoide de 90kg e 1,5m suspenso no ar em um outro laboratório científico do outro lado do planeta – mais precisamente em Kyoto (Japão).

Era um momento histórico, ou pelo menos era o que torcia Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro pioneiro nos estudos mais aprofundados das interfaces cérebro máquina (ICMs). Nas últimas décadas, Nicolelis havia passado por um longo e penoso caminho, bem ao modo dos grandes pioneiros da ciência: com muitos e muitos erros, muitas e muitas tentativas, e apenas alguns acertos aqui e ali... Mas, felizmente, a qualidade dos acertos suplantou em muito a quantidade de erros; e naquele dia, se tudo corresse bem, todos presenciariam um “pequeno milagre” ocorrer diante de seus olhos.

A esteira começou a rodar, e Idoya prontamente começou a caminhar. Não se tratava de trabalho escravo: a macaquinha adorava caminhar um pouco, pois sabia que os outros primatas sempre a recompensavam com deliciosas uvas-passas e biscoitos, de modo que nem os flashes dos fotógrafos a deixaram tímida naquele dia. Nos computadores, um programa de computador com um algoritmo especialmente criado para tal experiência começava a extrair os comandos motores específicos do movimento das pernas de Idoya, filtrados de uma verdadeira avalanche cerebral.

Em Kyoto, o CB-1 começava a caminhar em pleno ar, seguindo os comandos elétricos do cérebro da macaquinha, que precisavam atravessar o planeta até o Japão e retornar como um feedback visual em cerca de 250ms (pois as reações conscientes operam numa janela de até meio segundo, ou 500ms). Mas isso não era tudo. Chegava a vez da simpática macaquinha fazer o seu “pequeno passeio pela lua” (a little moonwalk), uma alusão de Nicolelis a importância do experimento – um pequeno passo para Idoya, um grande passo para todos os primatas... “Ao meu sinal, desligue a esteira... Ok, agora!”

Enquanto a esteira parava, fazendo com que a macaquinha assumisse uma postura semiereta e imóvel, todos os primatas em Durham fixaram os olhos no monitor que exibia o robô em Kyoto. Até Idoya parecia intrigada, pois continuou a olhar atentamente para as imagens à sua frente. Talvez ela realmente quisesse provar algo, pois tudo o que puderam observar do Japão era aquele distinto robô humanoide andando e andando, suspenso no ar, seguindo as instruções detalhadas que continuavam a brotar de algum canto do cérebro de Idoya. Conforme o próprio Nicolelis relatou em seu livro [1]: “Cada passo finamente esculpido, apenas algumas centenas de milisegundos antes, pelo sopro de vida elétrico que emergia, quase como presente divino, de um radiante, embora agora liberto, cérebro de primata.”

Até os primeiros dias do século 21, o mero fato de pessoas conseguirem se comunicar instantaneamente por todo o globo, através de chats na Web, já parecia um grande avanço tecnológico. Algumas mentes afortunadas já podiam mesmo antever o advento dos smartphones, dos tablets, dos chats por vídeo, da TV on demand, etc. Porém, eram poucos, pouquíssimos, que já no início deste século puderam vislumbrar uma era onde nossa tecnologia permitirá que comandemos computadores microscópicos embutidos em todo o tipo de equipamento, automóvel ou eletrodoméstico, e até mesmo dentro de nosso próprio corpo, sem que seja necessário mover um dedo, um único músculo!

Com o avanço das ICMs, os computadores poderão ler o baile elétrico que ocorre em nosso cérebro quando “imaginamos um movimento”, ainda que este movimento nem chegue a ser executado por membros e músculos de nosso corpo. De fato, com um entendimento mais completo de como funciona o nosso cérebro, talvez seja possível uma interface ainda mais direta, onde a separação entre o corpo e o dispositivo que ele “pilota” deixe de ser clara. O nosso “cérebro liberto” poderia, desta forma, incorporar (literalmente) em robôs exploradores das fossas submarinas deste planeta, ou do solo avermelhado de Marte. Mas, para a maior parte de nós, o mais provável é que passemos a viver, cada vez mais, imersos nos ambientes virtuais... De fato, talvez neste tempo o próprio termo – “virtual” – deixe de fazer qualquer sentido.

Em seu livro, Nicolelis chamou a ideia de “brainet” (a Web do cérebro):

“Nossa interação com sistemas operacionais e programas específicos de nossos computadores pessoais se transformaria num claro exemplo de simbiose virtual, uma vez que nossa atividade elétrica cerebral seria utilizada diretamente para capturar objetos virtuais e, eventualmente, utilizar um novo meio de comunicação, uma verdadeira rede cerebral, a “brainet”, como gosto de chamá-la, um considerável upgrade das redes sociais, que nos permitiria, literalmente, trocar ideias com milhões de outros cérebros navegantes. O fato de empresas como Intel, Google e Microsoft já terem criado suas divisões de interface cérebro-máquina indica claramente que esta ideia não é tão exótica quanto pode parecer à primeira vista.

[...] No futuro, o que hoje soa como inimaginável se tornará rotina, pois o ser humano, com suas faculdades mentais amplificadas, certamente terá acesso a uma variedade de ambientes remotos e até mesmo inóspitos, através de emissários que tomarão o formato de ferramentas artificiais sofisticadas, robôs humanoides e até mesmo virtuais, todos controlados única e exclusivamente pelo pensamento de seu mestre.”

Imaginem um cenário onde todo e qualquer pensamento irradiado por uma mente humana pode não somente influenciar, como ser influenciado por outro pensamento. Imaginem uma imensa rede de pensamentos interligados, se conectando e entrecruzando uns com os outros. Imaginem os pensamentos mais potentes, com maior penetração sobre as mentes alheias, lentamente galgando degraus numa “lista de tópicos” global. Imaginem um grupo enorme de mentes reunidas em torno dos pensamentos e sonhos mais celebrados, os alimentando e os tornando cada vez mais enraizados nos alicerces desta verdadeira teia global que, em verdade, une todas as consciências humanas... Imaginaram?

Agora me digam, com sinceridade, será que estávamos imaginando algo que surgirá num futuro tecnológico, ou algo que não somente existe neste momento, como tem existido desde os primórdios da humanidade?

Em seu livro A essência da realidade, o físico israelense David Deutsch afirma que “tudo o que experimentamos diretamente não passa de uma construção virtual, convenientemente gerada para nosso usufruto, por nossa mente inconsciente, a partir de dados sensoriais somados a complexas teorias adquiridas e congênitas sobre como interpretar novas informações”. Ora, se a vida sempre foi uma construção virtual, porque exatamente a “brainet” de Nicolelis seria algo essencialmente novo? Diferente, certamente – novidade, de forma alguma!

Desde que nos reuníamos em torno da fogueira no centro da tribo, após mais um dia de caça extenuante, e ouvíamos as histórias dos homens e mulheres que contemplavam as estrelas e diziam se comunicar com espíritos, temos construído, em nossas mentes, em nossos mundos internos, reais ou virtuais (tanto faz), os sonhos mais iluminados, os pesadelos mais macabros, os mitos mais transcendentes. De lá para cá nossas lanças e machadinhas se tornaram ferramentas muitíssimo mais elaboradas, mas que continuam sendo tão somente ferramentas. Um computador, afinal, serve para computar, da mesma forma que uma machadinha serve para cortar – quem utiliza as ferramentas, quem esculpe e interpreta o mundo, real ou virtual (tanto faz), somos nós, os humanos, os que despertaram.

Dessa forma, de nada adiantará nos deslumbramos com o avanço de nossa tecnologia, de nos conectarmos numa “brainet” global, se neste processo continuarmos a nos desconectar de nossa essência mais profunda, que aí sempre esteve a quem teve olhos para ver. Antes da Web, antes da teia global de computadores, nós já formávamos uma rede, e já estávamos conectados, como ainda estamos, a Alma de tudo o que há.

***

[1] Fiz o que pude para resumir da melhor forma possível a descrição do experimento de Idoya conforme consta em Muito além do nosso eu (Cia. das Letras). Se quer um estudo mais minucioso (e abrangente) do assunto abordado, não deixe de ler a obra. O artigo ainda trará outros trechos do mesmo livro.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Miguel Nicolelis); [ao longo] Heather Layton/Nagaland

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13.8.14

Conectados, parte 5

« continuando da parte 4

Avatar, no mundo online, é uma figura digital, um alter ego de uma pessoa real, que pode ser representado em duas ou três dimensões, e ter praticamente qualquer forma permitida pela plataforma onde foi criado – ao limite da imaginação de cada um.


Sem pausas

Como vimos, o ser humano tem sido muito hábil em fazer uso de todo o tipo de tecnologia disponível para aprimorar sua forma de comunicação com os demais. Quando tudo o que tínhamos eram sinais de fumaça, ainda assim eles foram preciosos para que tribos se comunicassem a quilômetros de distância umas das outras. Após a invenção da escrita, passamos a deixar mensagens e discursos para a posteridade, de modo que até hoje podemos nos comunicar, de alguma forma, com a Atenas de Sócrates, assim como com a vida de tantos outros pensadores e escritores da antiguidade.

Mas foi somente com o advento da telefonia móvel e, particularmente, da Web, que tivemos acesso a uma outra magnitude em nossas comunicações. A interação online foi um dos grandes trunfos da internet desde a sua criação, e o que antes era usado para troca de informações entre militares e pesquisadores acadêmicos, acabou por se tornar uma imensa rede que hoje conecta, direta ou indiretamente, a maior parte da humanidade.

Porém, como vínhamos dizendo, a avassaladora quantidade de informação disponível no mundo online requer que nos tornemos, cada vez mais, exímios pescadores, com o bom senso e a sabedoria para podermos filtrar as informações relevantes das irrelevantes. E, se isto vale para as notícias, as revistas, os livros e os filmes em geral, da mesma forma, vale também para a nossa vida social na rede.

Zygmunt Bauman é um célebre sociólogo polonês que vive e leciona há décadas na Inglaterra. Perto dos seus 90 anos, ele não parece, a primeira vista, o tipo de pensador que teria muito a dizer sobre o Facebook... No entanto, as aparências enganam:

“Um entusiasta do Facebook gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi que eu vivi por quase 90 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso. Então, provavelmente, quando ele diz “amigo”, e eu digo “amigo”, não queremos dizer a mesma coisa. São coisas diferentes.

Quando eu era jovem, eu nunca tive o conceito de “redes”. Eu tinha o conceito de laços humanos, de comunidades, esse tipo de coisa, mas não redes. Qual é a diferença entre comunidade e rede? A comunidade precede você. Você nasce numa comunidade. Por outro lado, temos a rede. O que é uma rede? Ao contrário da comunidade, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes. Uma é conectar e a outra é desconectar.

E eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo, está exatamente aí. Que é tão fácil de desconectar. É fácil conectar, fazer amigos. Mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar. Imagine que o que você tem não são amigos online, conexões online, compartilhamento online, mas conexões off-line, conexões de verdade, face a face, corpo a corpo, olho no olho.

Então, romper relações é sempre um evento muito traumático. Você tem que encontrar desculpas, você tem que explicar, você tem que mentir com frequência e, mesmo assim, você não se sente seguro porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco, etc. É difícil, mas na internet é tão fácil, você só pressiona delete e pronto.

Em vez de 500 amigos, você terá 499, mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500... E isso mina os laços humanos.” [1]

A maior armadilha em que podemos cair na era digital é crer que o mundo virtual é aquele construído somente pelos pixels e os dados dos computadores em rede. Não, o mundo virtual é e sempre foi aquele que roda bem em nossa cabeça. O mundo é aquilo que imaginamos dele, e neste caso não importa tanto quantas interfaces, cenários virtuais e avatares digitais há na Web, pois que no fundo estamos conectados não somente a internet, mas a todo o mundo, a toda a Vida.

Querer viver somente no mundo online é tão somente abdicar de um mundo virtual complexo para um mundo virtual com a promessa de maior simplicidade. No entanto, isto é um tanto quanto ilusório, e no fim das contas a grande verdade é que há somente um único mundo – o mundo que você interpreta dentro de si mesmo.

Para além da superficialidade das amizades que se limitam ao mundo digital, e que nunca são transpostas para a complexidade do dito “mundo real”, uma das grandes iscas para aqueles que anseiam por “vidas mais simples” são os games.

Em um livro de título sugestivo, Como viver na era digital [2], Tom Chatfield aborda melhor o assunto:

“Tanto num game simples como Angry Birds, como num mundo virtual imersivo como World of Warcraft, temos exemplos de problemas tame (domesticado). Analisados pela primeira vez em 1973, pelos sociólogos Horst Rittel e Melvin Webber, os problemas tame incluem jogos como o xadrez e a maior parte dos problemas de matemática. São problemas nos quais a pessoa que está tentando resolvê-los tem todos os dados necessários à disposição e sabe desde o início que existe uma solução final ou alternativa vencedora.

Isto é o oposto dos problemas wicked (terríveis), que são problemas nos quais não existe uma maneira de expressar de forma clara a questão que está em jogo, nem algo como uma solução única ou definitiva. Cada problemas wicked é uma combinação única de circunstâncias, elas mesmas entrelaçadas a outros conjuntos de problemas, como por exemplo, a saúde financeira de uma grande empresa ou de um país, ou alguém tentando decidir qual a melhor maneira de administrar sua vida pessoal.

Deste ponto de vista, a vida em si é um problema wicked. Numa das piadas mais geniais da ficção científica, o escritor inglês Douglas Adams imaginou, em seu livro O guia do mochileiro das galáxias, um supercomputador capaz de responder à “Questão Fundamental da Vida, o Universo e Tudo o Mais”: um simples número, 42.

A piada reside na incoerência absurda entre o tipo de problema que pode ser respondido por um simples número e o tipo bem diferente de “problema” que a vida representa. A própria ideia de que a vida possui uma solução, da mesma forma que um jogo de xadrez, ou uma fase de Angry Birds, ou uma quest ou uma raid de World of Warcraft, é um divertido absurdo.”

De fato, mundo virtuais imersivos como o caso de World of Warcraft, onde milhões de jogadores interagem e se aventuram juntos há quase uma década, podem ser tão sedutores que a falta de um componente vital, o botão de pausa [3], pode ser letal... Em 2007, um chinês deitou sua cabeça no teclado de seu computador e morreu, após haver jogado Warcraft por três dias seguidos, sem dormir e, provavelmente, sem comer ou se hidratar adequadamente. E este não foi nem o primeiro nem o último caso de “jogar até a morte” [4]...

Talvez sejam necessários tais exemplos extremos para que nos demos conta de que, embora em muitos games online não exista um botão de pausa, há sempre a possibilidade de simplesmente largar o teclado ou o controle e, quem sabe, simplesmente ir até aquele café perto de casa, para tomar um expresso, ver pessoas em movimento, ouvir passarinhos cantando e contemplar o baile das nuvens.

Pode não haver, afinal, um botão de pausa para a vida. Mas, por outro lado, somos nós, e somente nós, os grandes responsáveis por determinar com que velocidade, com que qualidade, com que nível de angústia, ela é vivida. De nada adianta se esconder dos problemas complexos da vida, mesmo que sejamos os melhores estilingadores de pássaros do nosso grupo de amigos virtuais, e ainda que todo um servidor de World of Warcraft nos idolatre como “o grande mestre da arena”, isto por si só jamais irá afastar os problemas terríveis da existência; eles ainda o encontrarão, pois estão, essencialmente, dentro de você mesmo...

Devemos aprender a olhar para dentro, e conhecer a grande imensidão de nosso mundo virtual interior; e então, quem sabe, encarar a toda a complexidade da vida de frente, face a face, como grandes aventureiros de nós mesmos. E com isto não quero dizer que exista a esperança de transformar os problemas wicked em tame – pelo contrário, o que devemos é compreender e aceitar o quão terrivelmente vasta, complexa, profunda e interconectada pode ser a Vida, sem pausas!

» Em seguida, a grande rede de pensamentos libertos...

***

[1] Transcrito de uma entrevista concedida em sua casa para o programa Café Filosófico (TV Cultura).

[2] Parte do projeto The School of Life de Alain de Botton. Lançado no Brasil pela Editora Objetiva. A transcrição do texto do livro foi ligeiramente adaptada para facilitar a compreensão do trecho em questão.

[3] Games online não podem ser pausados, já que em sua simulação há inúmeros jogadores simultâneos. Seria o mesmo que pausarmos uma sessão de cinema para dar um pulo no banheiro –os demais cinéfilos da sessão certamente não ficariam muito satisfeitos.

[4] Ver, por exemplo, Jovem morre após jogar Diablo 3 durante 40 horas seguidas.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Zygmunt Buman); [ao longo] Divulgação/Rovio (Angry Birds)

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12.8.14

Conectados, parte 4

« continuando da parte 3

Direitos autorais ou direitos de autor são as denominações empregadas em referência ao rol de direitos dos autores sobre suas obras intelectuais, sejam estas literárias, artísticas ou científicas. Já o copyright trata exclusivamente dos direitos de cópia e distribuição das obras.


O homem do amanhã

“Eu sinto fortemente que não é suficiente simplesmente viver no mundo como ele é e fazer o que os adultos disseram que você deve fazer, ou o que a sociedade diz que você deve fazer. Eu acredito que você deve sempre estar se questionando. Eu levo muito a sério essa atitude científica de que tudo o que você aprende é provisório, tudo é aberto ao questionamento e à refutação. O mesmo se aplica à sociedade. Eu cresci e através de um lento processo percebi que o discurso de que nada pode ser mudado e que as coisas são naturalmente como são é falso. Elas não são naturais. As coisas podem ser mudadas. E mais importante: há coisas que são erradas e devem ser mudadas. Depois que percebi isso, não havia como voltar atrás. Eu não poderia me enganar e dizer: “Ok, agora vou trabalhar para uma empresa”. Depois que percebi que havia problemas fundamentais que eu poderia enfrentar, eu não podia mais esquecer disso.”

Aaron Swartz contava 22 anos de vida quando conseguiu resumir, com as palavras acima, o seu objetivo de vida. Parecem palavras de um sujeito um tanto experiente não? De fato, nesta idade Aaron já era considerado um expert em sua área.

Desde os 14 anos, ele trabalhava criando ferramentas, programas e organizações na Web. E, de algum modo, em algum momento, quem usa a rede foi beneficiado por algo que ele fez. Por exemplo, ele participou da criação do RSS (que nos permite receber atualizações do conteúdo de sites e blogs de que gostamos), do Reddit (plataforma aberta em que se pode votar em histórias e discussões importantes), e do Creative Commons (licença que libera conteúdos sem a cobrança de alguns direitos por parte dos autores). Mas não só. A grande luta de Aaron, como fica explícito no depoimento acima, era uma luta política: ele queria mudar o mundo e acreditava que era possível.

Aaron era um grande entusiasta da livre distribuição de todo tipo de obra em domínio público – literária, artística e, principalmente, científica. Uma obra entra em domínio público após uma certa quantidade de anos desde a morte do autor original. Isto significa que qualquer pessoa pode utilizar a obra do autor como quiser, inclusive escrever novas histórias com os seus personagens. Por exemplo, qualquer pessoa pode editar um livro com poemas de Fernando Pessoa e publicá-lo (não a toa, vemos tantas editoras publicando coletâneas de Pessoa hoje em dia) [1]; da mesma forma, qualquer pessoa pode escrever uma história com o personagem Sherlock Holmes, criação de Sir Arthur Conan Doyle (não a toa, vemos surgir tantos filmes e livros onde Holmes reaparece um tanto quanto “repaginado”) [2].

A maior parte dos países do mundo define o início do domínio público quando passados exatamente 70 anos da morte do autor das obras e personagens originais. Alguns países contam somente 50 anos, poucos outros contam até um século, e nos EUA... Bem, nos EUA é mais complicado...

No caso americano, qualquer obra publicada antes de 1923 está em domínio público desde 1998, independente da data da morte do autor original (mesmo que ele ainda se encontre vivo!); já o que foi publicado após 1923 pode estar em domínio público até 70 anos após a publicação original. Isto, em teoria, pois para “casos específicos”, como o famoso Mickey Mouse da Disney, este prazo pode ser prorrogado indefinidamente – o ratinho, que cairia em domínio público em 2003, ganhou uma sobrevida no cativeiro por mais 20 anos, mas nada impede que a Disney não vença outra batalha judicial para prorrogar novamente este prazo, em 2023.

Na verdade, é bem provável que os personagens da Disney, assim como boa parte dos super-heróis dos quadrinhos, como Superman e Homem-Aranha, jamais entrem em domínio público. Isto não deixa de ser um tanto quanto curioso, pois no universo dos personagens citados, vemos muitos outros personagens diretamente inspirados em contos de fadas e mitos, alguns dos quais não foram publicados há tanto tempo assim... Walt Disney nasceu cerca de um quarto de século após a morte de Hans Christian Andersen, célebre escritor de fábulas dinamarquês. Se a entrada em domínio público pudesse ser constantemente prorrogada desde aquela época, ou desde 500 anos atrás, ou desde o início da escrita, até hoje editoras como a Marvel deveriam montantes de dinheiro pelo uso de personagens como Thor ou Hércules. Difícil seria dizer a quem eles seriam pagos...

A própria Wikipedia só existe por causa do chamado copyleft, uma brincadeira (que se tornou séria) com o termo copyright. O copyleft significa liberdade para copiar, distribuir e modificar uma obra, desde que tudo que for agregado ao seu conteúdo também continue da mesma forma livre. A ideia surgiu mais ou menos assim: no início da década de 1980, um programador chamado Richard Stallman, indignado com a decisão da AT&T de proibir acesso amplo ao sistema operacional Unix, resolveu ele próprio escrever um sistema operacional e garantir que ele continuasse aberto, podendo ser modificado, copiado e redistribuído, desde que as pessoas que o modificassem subsequentemente também o mantivessem livre.

Nascia assim o sistema operacional chamado GNU, que veio a gerar o Linux. A grande peculiaridade desse sistema é que a colossal tarefa de desenvolvê-lo é distribuída entre colaboradores de todo o mundo, que, tal como a Wikipedia, testam, aperfeiçoam e modificam o software, desde que ele permaneça aberto. O copyleft representa uma flexibilização, feita de baixo para cima, da ideia de direito autoral que herdamos do século 19.

Até hoje em boa parte do mundo qualquer obra, mesmo um rabisco num guardanapo, já nasce legalmente com “todos os direitos reservados ao autor”. Foi precisamente a compreensão da necessidade de viabilizar uma distribuição mais simples do conteúdo autoral na era da internet que fez com que Aaron Swartz se dedicasse não somente ao desenvolvimento do conceito de Creative Commons, onde qualquer pessoa pode declarar previamente que a sua obra pode ser distribuída sob certas condições [3], como a muitas outras ideias que, infelizmente, dispararam um enorme sinal de alerta entre os agentes da estagnação e das ideias fossilizadas.

Aaron ajudou a criar o Watchdog, website que permite a criação de petições públicas; a Open Library, espécie de biblioteca universal, com o objetivo de ter uma página na web para cada livro já publicado no mundo; e o Demand Progress, plataforma para obter conquistas em políticas públicas para pessoas comuns, através de campanhas online, e o contato com congressistas e advocacia em causas coletivas. Em 2008, lançou um manifesto no qual dizia: “A informação é poder. Mas tal como acontece com todo o poder, há aqueles que querem guardá-lo para si”.

Indignado com a passividade dos acadêmicos diante do controle da informação por grandes corporações, ele conclamava a todos para lutar juntos contra o que chamava de “privatização do conhecimento”. Baixou milhões de arquivos do judiciário americano, cujo acesso era cobrado, apesar de os documentos serem públicos. Chegou a ser investigado pelo FBI, mas sem consequências jurídicas. Em 2011, porém, Aaron foi alcançado.

Em alguns dias, ele baixou 4,8 milhões de artigos acadêmicos de um banco de dados chamado JSTOR, cujo acesso é pago pelas universidades e instituições. Aaron usou a rede do conceituado MIT (Massachusets Institute of Technology) para acessar o banco de dados, fazendo download de muitos documentos ao mesmo tempo, o que era – é importante ressaltar – permitido pelo sistema. Não se sabe o que ele faria com os documentos, possivelmente dar-lhes livre acesso. Mas, se era esta a intenção, Aaron não chegou a concretizá-la. Ao ser flagrado, ele assegurou que não pretendia lucrar com o ato e devolveu os arquivos copiados para o JSTOR, que extinguiu a ação judicial no plano civil.

Havia, porém, um processo penal: Aaron foi enquadrado nos crimes de fraude eletrônica e obtenção ilegal de informações, entre outros delitos. Aaron seria julgado em Abril de 2013. Se fosse acatado o pedido da acusação, esta seria a sua punição: 35 anos de prisão e uma multa de 1 milhão de dólares.

O julgamento, entretanto, nunca ocorreu. Em 11/01/2013 Aaron foi encontrado morto em seu apartamento em Nova York, aos 26 anos. A causa mais provável é o suicídio... Há argumentos de que ele sofria de depressão, mas não há como deixar de considerar que o que o levou a morte foi, direta ou indiretamente, a grande perseguição que sofreu das forças da estagnação.

“O mundo é roubado em meio século de todas as coisas que nós nem podemos imaginar que Aaron realizaria com o resto da sua vida”, declarou Kevin Poulsen em artigo da Wired Magazine. Para o mundo da computação, da colaboração, do livre pensamento e do compartilhamento do conhecimento que é produzido para toda a humanidade, particularmente o científico, a perda de Aaron, mais um dos que vieram da Mansão do Amanhã, é irreparável.

Mas para o mundo do deus do consumo, dos grandes contratos de copyright, dos grandes conglomerados de mídia, e para todos aqueles que se deleitam em continuar atolados em seu Charco de Estagnação, a eliminação de Aaron do tabuleiro é uma jogada a ser comemorada.

Alguém aí pode ouvir suas gargalhadas e o brinde das champanhes?


Aaron está morto. Andarilhos deste mundo louco, nós perdemos um mentor, um sábio ancião. Hackers do bem, hoje somos um a menos. Educadores, instigadores, cuidadores, ouvintes, todos os pais aí fora, nós perdemos um filho. Deixemos que as lágrimas escorram. (Tim Barners-Lee, 11/01/13)


» Em seguida, a vida sem o botão de pausa...

***

» Veja também o site criado pelos parentes de Aaron em sua memória e o excelente artigo de Eliane Brum sobre a sua morte (do qual retirei alguns trechos).

» The Internet's Own Boy: The Story of Aaron Swartz (documentário sobre a vida de Aaron realizado via crowdfunding; ainda sem legendas em português)

[1] Toda a obra de Pessoa entrou em domínio público em 30/11/2005, 70 anos após sua morte.

[2] Como veremos no restante do artigo, nem sempre é simples definir quando uma obra entra ou sai do domínio público nos EUA. Até o momento, pelo menos, Holmes continua público.

[3] O meu blog, Textos para Reflexão, está dentro do Creative Commons, como podem ver no rodapé de todas as páginas. Qualquer conteúdo publicado aqui pode ser livremente distribuído, desde que o a fonte original seja citada, o conteúdo não seja modificado, e que o uso não seja comercial.

Crédito das imagens: [topo] Wired Magazine (Aaron Swartz); [ao longo] Brooks.

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11.8.14

Conectados, parte 3

« continuando da parte 2

Placebo: se origina do latim placeo, placere, que significa agradar. Entende-se efeito placebo como a melhoria dos sintomas e/ou funções fisiológicas do organismo em resposta a fatores inespecíficos e aparentemente inertes (sugestão verbal ou visual, comprimidos inertes, cirurgia fictícia, etc.)


A arte de se estourar bolhas

Em 1970, Linus Pauling, célebre bioquímico americano, ganhador tanto do Nobel de Química quanto do Nobel da Paz, lançou um livro chamado Vitamin C and the Common Cold (A Vitamina C e o Resfriado Comum) que é até hoje o grande responsável pelo maior efeito placebo da história [1]. Pela tese de Pauling, a ingestão de altas doses diárias de vitamina C seria responsável não somente pelo tratamento de resfriados, como pela manutenção de uma “boa saúde” geral do organismo.

Somente em 1986 o professor A. Stewart Truswell, da Universidade de Sidney, publicou o resultado de 27 experimentos para validar a tese de Pauling, alguns realizados desde o início da década de 1970, e chegou a conclusão de que a ingestão de vitamina C, particularmente em altas doses (mais de 500mg/dia), não tinha nenhum efeito considerável no tratamento dos sintomas da gripe, tampouco na redução de sua duração. No entanto, 16 anos após o lançamento do livro de Pauling, a Indústria Farmacêutica já havia consolidado um mercado lucrativo com base nela – como era de se esperar, até hoje há inúmeros comerciais na TV falando sobre como a vitamina C auxilia a tratar resfriados...

Se até hoje você, como eu, toma vitamina C quando está com gripe, ainda que saiba que ela não tem efeito científico comprovado, é porque está tirando vantagem do efeito placebo para “convencer a sua mente” de que ela é um agente de cura. Neste caso, “crer na cura”, como já dizia Hipócrates, pode ser parte importante de um tratamento bem sucedido. Até hoje a ciência mal faz ideia do que é exatamente o efeito placebo [2], mas ele nos deixa ao menos uma importante lição – nós definitivamente somos, em maior ou menor grau, sugestionáveis.

Recentemente, um estudo científico publicado na revista da Academia Nacional de Ciências dos EUA provocou rebuliço no mundo online. Os pesquisadores se valeram do Facebook, provavelmente a maior rede social do mundo nos dias de hoje, para tentar comprovar como o que lemos em nosso próprio feed de notícias [3] pode afetar positivamente ou negativamente o nosso humor e estado de espírito em geral [4].

O estudo analisou 689.003 usuários (dentre os que usam o Facebook em inglês) cujos feeds foram propositalmente alterados para mostrar posts mais positivos ou negativos de seus amigos. O resultado? Quando o usuário via mais posts positivos em seu feed, escrevia mais comentários positivos. Quando via mais posts negativos, escrevia mais comentários negativos... A comunidade online se indignou principalmente pela invasão de privacidade deste tipo de pesquisa, já que ninguém soube que estava sendo “testado”. Entretanto, o que a pesquisa demonstrou é que, apesar de em menor escala, somos sugestionáveis também nas redes sociais. Ou, noutras palavras, a nossa dieta de informação define, muitas vezes, uma parte considerável do nosso estado de espírito.

Há algo próprio da chamada Web 2.0 que é ainda muito, muito mais grave do que a influência das notícias que os seus amigos postam no Facebook. Ocorre que nesta nova era da Web, a maior parte dos sites também se tornaram serviços e, desta forma, requerem que você se cadastre neles para os utilizar. Mas o cadastro é somente o primeiro passo. Em sites de compras como a Amazon, por exemplo, cada uma das suas compras passadas (e até mesmo cada item à venda pelo qual você já navegou um dia dentro da Amazon) pode servir de “base de dados” para lhe trazer sugestões sobre “o que comprar a seguir”.

No caso das compras, isto geralmente é bem anunciado nos termos de adesão do site, e ainda que 99% das pessoas jamais leia esses termos, fica até mesmo óbvio que suas compras passadas estão servindo de guia para os anúncios do site. No caso das redes sociais, particularmente do Facebook, nem sempre é fácil notar o que está sendo feito dos seus dados nos bastidores...

Um dos conceitos que foram vitais para o sucesso prolongado do Facebook é algo aparentemente muito simples: um botão, um botão de curtir (ou like button, em inglês).

Ora, computadores não podem ler sua mente, mas podem ler cada um dos cliques no botão de curtir que você deu, desde que começou a usar o Facebook. Com isso, o servidor consegue saber quais são os amigos e as páginas que você mais gosta dentro da rede social, e assim criar um filtro customizado para o seu feed de notícias. Aquela menina que posta fotos de biquíni quase toda semana, e que você sempre curte? Está no topo da lista do seu feed. Aquele amigo chato da época de colégio que só posta vídeos de música clássica, e que você nunca curtiu sequer uma vez? Está na lista dos excluídos do seu feed, e ainda que você continue amigo dele, em meio aos seus quase 500 amigos, a chance de ver qualquer postagem dele é ínfima, senão zero.

O que este tipo de atividade cria, na prática, são bolhas de conteúdo dentro do seu Facebook. De modo que, se um dia você finalmente arrumar um namoro sério, é bem provável que a sua namorada ache um tanto estranho o seu feed onde aparecerão diversas fotos de sua amiga de biquíni (dica: não mostre o seu feed a ela). E, da mesma forma, se um dia você por acaso ver Gustavo Dudamel regendo uma orquestra enquanto trocava de canal na TV a cabo, será um tanto improvável que fique uns minutinhos por lá e aprenda a apreciar música clássica, pois aqueles posts do seu amigo de infância nunca mais apareceram para você.

O que é mais nocivo nesta era das bolhas de conteúdo, no entanto, é que com o tempo, se você não tomar cuidado com o que anda curtindo em seu Facebook, é bem capaz de seu feed de notícias trazer tão somente as notícias de quem concorda com suas posições ideológicas, ou de quem gosta do mesmo tipo de música que você, ou vê os mesmos filmes e lê os mesmos livros.

No taoísmo, a filosofia da China antiga, aprendemos que os opostos são necessários para que nos tornemos aptos a enxergar o caminho do meio. Se formos analisar as ideologias políticas conforme o editor da Superinteressante [5], os esquerdistas extremos creem que a fonte de todo o bem é o Estado, enquanto que os direitistas extremos creem que esta fonte é o Mercado. Não é difícil perceber como um, na verdade, precisa do outro – um Mercado sem a regulação do Estado pode enveredar para um capitalismo tão consumista que extinguirá os recursos naturais necessários para a manutenção da humanidade na Terra; já um Estado que trancafie o Mercado numa prisão de burocracias sem fim fará com que a economia do país definhe, ferindo primeiramente os mais pobres, exatamente aqueles que gostaria de auxiliar.

Aos que conseguem transitar pelos extremos, aos que são capazes de enxergar os dois lados da moeda, está até mesmo óbvio que não há uma fonte única de bem absoluto, assim como tampouco há uma fonte de mal absoluto – o que há são ideias opostas, e a arte da Política consiste exatamente em se chegar a consensos que são capazes de atender os anseios da maioria, ao mesmo tempo em que levam em consideração as opiniões da minoria (sem a oprimir, sem a ridicularizar, sem a censurar).

Não é tão difícil assim de entender. No entanto, se nos últimos anos tudo o que você têm visto no seu feed de notícias do Facebook são opiniões radicais à favor de somente um lado, é bem capaz de você, como ser sugestionável que é, cair na falácia do “8 ou 80” (ou uma ideia está totalmente certa, ou totalmente errada), e demonizar um dos lados, enquanto crê que a sua forma de pensar é “evidentemente a mais correta, já que todos os meus amigos concordam”.

É preciso tomar cuidado, muito cuidado, com este tipo de “pensamento encapsulado em bolhas”, pois foi com ideias muito parecidas que os regimes mais autoritários e sanguinários da história política foram implementados. A Web precisa ser livre, realmente livre, e não somente mais uma sucursal das agências de marketing das multinacionais, ou das “ideologias enlatadas” do Grande Negócio Eleitoral.

De vez em quando, clique também no botão de curtir de uma ideia que não concorde, mas que esteja bem elaborada. De vez em quando, pratique a arte de se estourar bolhas... Lembre-se de que, assim como todos os demais seres humanos, você também pode estar errado.

» Em seguida, Aaron, o homem do amanhã...

***

[1] Saiba mais no artigo (em inglês) Vitamin C: Do High Doses Prevent Colds?, por Charles W. Marshall, Ph.D.

[2] Veja também o nosso artigo Placebo-Nocebo.

[3] Uma lista onde aparecem as publicações de nossos amigos e das páginas que seguimos no Facebook.

[4] Saiba mais no artigo Nossas Emoções Estão Surgindo em Bolhas Criadas Pelo Facebook, por Derek Mead.

[5] Denis Russo Burgierman. Não deixe de conferir o seu excelente artigo sobre o tema, A maldição do esquerdo-direitismo.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Linus Pauling em sua fazenda, em meados da década de 1980); [ao longo] Google Image Search.

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8.8.14

Conectados, parte 2

« continuando da parte 1

Informação, segundo uma interpretação antiga, é “o ato de dar forma a mente”; segundo uma interpretação moderna, é “qualquer evento que afeta o estado de um sistema dinâmico”.


A grande pescaria

“Tu, como pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos, só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos. Logo, tu não inventaste um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação. Transmites aos teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em consequência, serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios.”

Segundo Sócrates, conforme descrito no Fedro de Platão [1], é esta a repreensão que Amon, rei dos deuses egípcios e representante da força criadora da vida, impõe a Toth, o antigo deus do conhecimento e da magia, assim que fica sabendo que este ensinaria aos homens mortais a arte da escrita. Não obstante, como sabemos, a humanidade acabou ganhando tal presente (e, se não fosse através de Toth, haveria de ser através dos tantos outros deuses, de diversas outras culturas e mitologias, associados a escrita e ao conhecimento).

Mas o filósofo grego não parecia convencido de que aquele era realmente algum ganho para as pessoas:

“O uso da escrita, Fedro, tem um inconveniente que se assemelha à pintura. Também as figuras pintadas têm a atitude de pessoas vivas, mas se alguém as interrogar conservar-se-ão gravemente caladas. O mesmo sucede com os discursos. Falam das coisas como se as conhecessem, mas quando alguém quer informar-se sobre qualquer ponto do assunto exposto, eles se limitam a repetir sempre a mesma coisa. Uma vez escrito, um discurso sai a vagar por toda parte, não só entre os conhecedores, mas também entre os que o não entendem, e nunca se pode dizer para quem serve e para quem não serve. Quando é desprezado ou injustamente censurado, necessita do auxílio do pai, pois não é capaz de defender-se nem de se proteger por si.”

Para Sócrates, a disseminação dos discursos escritos, ainda que da autoria dos filósofos mais sábios, seria um enorme perigo, pois lhe parecia óbvio que o autor não poderia comparecer a todo e qualquer local onde ele era lido ou debatido, de modo que, se alguém não o compreendesse, ou pior, se alguém mal intencionado o utilizasse para os seus próprios propósitos, subvertendo a ideia original, o autor nada poderia fazer para evitar. A luz da Grécia tinha razão e antecipou muito do que vimos nos últimos milênios desde o surgimento da escrita, mas por outro lado ele bem sabia que não havia o que fazer: o conhecimento e a tecnologia jamais andam para trás.

Se houvesse sobrevivido aos séculos como o mito em torno de sua pessoa, Sócrates talvez encontrasse um certo consolo no advento da Web e, mais precisamente, da Web 2.0.

Segundo o próprio Tim Barners-Lee, o termo carece de sentido, pois a Web atual usa componentes tecnológicos surgidos antes mesmo da sua criação, mas o fato é que nome pegou: Web 2.0 é um termo popularizado a partir de 2004 pela empresa americana O’Reilly Media para designar uma segunda geração de comunidades e serviços, tendo como conceito “a Web como plataforma”, envolvendo wikis, redes sociais e sites que prestam serviços.

O que deveria agradar Sócrates não é exatamente a vasta quantidade de informação da Wikipedia, ou o número de piadas infames que se lê nas redes sociais todo santo dia, mas sim a capacidade de qualquer cidadão criar um blog e publicar seus textos e discursos numa plataforma que pode ser acessada e lida virtualmente por qualquer pessoa do mundo com acesso a Web; e não são poucas!

A princípio, poderíamos pensar que este seria apenas o pesadelo sobre o qual Amon alertou a Toth elevado a enormes potências, pois os discursos seriam lidos por tanta gente que seria inviável para o autor defender suas ideias o tempo todo. Isto é um ponto, mas ocorre que na Web 2.0 os navegantes não apenas consomem informação, mas a produzem... No caso dos blogs, nada impede que eles comentem abaixo dos textos (se o blog permitir, é claro) e dialoguem diretamente com o autor. Neste caso, o autor continua podendo defender seus discursos. Menos mal...

A questão é que chegamos então a um problema ainda mais intrigante: se todo e qualquer cidadão pode criar um blog e publicar seus textos, como faremos para saber quais os blogs que merecem ser lidos?

Ao contrário do que possa parecer, esta questão da “relevância da informação” não é nova. De fato, no próprio Fedro, o filósofo com olhos de touro já citava o assunto – vejamos o trecho onde Fedro indaga se Sócrates não estaria sendo muito duro com a atividade da escrita:

“Mas, Sócrates, estás comparando com divertimentos vulgares a belíssima atividade de um homem que se deleita em escrever discursos sobre a justiça e as outras virtudes!

É verdade, meu caro Fedro! Mas acho muito mais bela a discussão dessas coisas quando alguém semeia palavras de acordo com a arte dialética [2], depois de ter encontrado uma alma digna para recebê-las; quando esse alguém planta discursos que são frutos da razão, que são capazes de defender por si mesmos e ao seu cultivador, discursos que não são estéreis mas que contém dentro de si sementes que produzem outras sementes em outras almas, permitindo assim que elas se tornem imortais. Aos que as levam consigo, tais sementes proporcionam a maior felicidade que é dado ao homem possuir.

Na verdade, isso é muito mais belo – concluí Fedro.”

Em última instância, a função da filosofia é proporcionar ao homem o contato com tal felicidade. Após o contato, todo filósofo pleno dessa felicidade não terá objetivo mais recompensador do que o de passar tal conhecimento adiante, de modo a que outros também possam alcançar a felicidade. Se há “filósofos” que não fazem isso, é porque nunca alcançaram esta sabedoria; e não exatamente porque creem que a filosofia deva ser uma forma de sofrimento intelectual, ou um conjunto de sistemas e regras do pensar, que servem mais para confundir a mente do que aplainá-la.

E, assim como na filosofia, em todas as demais artes há sempre a possibilidade de nos depararmos com discursos que tocam diretamente a nossa essência, e que nos fazem dialogar com nós mesmos, e nos conhecer cada vez mais. Sócrates e Amon não estavam, desta forma, condenando toda a forma de escrita, toda a forma de discurso, mas apenas a maioria deles, os irrelevantes, os que nada têm de importante a dizer para nossa alma.

Se é verdade que hoje a Web é um grande mar de irrelevância, não é verdade que isto, por si só, seja motivo para nos desanimar em nossa jornada atrás de conhecimento. Pelo contrário, hoje não precisamos mais consumir somente a informação que nos chega pelos grandes afluentes da mídia, hoje podemos também, tal qual exímios pescadores, atirar nossas redes também nos pequenos córregos e riachos, e buscar por pequeninas pérolas que passam por lá – esta é a grande pescaria da era digital.

Mas, para que aprendamos a reconhecer tais joias, é preciso navegar também adentro, e descobrir que tais pedras nascem todas de uma mesma montanha; que se eleva tão, tão alto, que quase eclipsa o próprio sol.

É precisamente lá, no topo desta grande pedra, além das ideias de certo e errado, que os blogueiros da alma se encontram...

» Em seguida, a era das bolhas...

***

[1] Veja outros trechos em O discurso da alma. A tradução do grego é de Alex Marins (Ed. Martin Claret).

[2] A arte de, no diálogo, demonstrar uma tese por meio de uma argumentação capaz de definir e distinguir claramente os conceitos envolvidos na discussão.

Crédito da foto: Wilhelm von Gloeden (Sócrates na fonte)

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7.8.14

Conectados, parte 1

Internet é um sistema global de redes de computadores interligadas que conectam atualmente vários bilhões de usuários no mundo inteiro. É uma rede de várias outras redes, que consiste de milhões de empresas privadas, públicas, acadêmicas e de governo, com alcance local e global.


A teia global

Em 1997 o então presidente francês, Jacques Chirac, dizia tais palavras com todo o orgulho: “Hoje um francês em Aubervilliers sabe perfeitamente como checar sua conta de banco, dentro de sua própria casa, com o seu Minitel. O mesmo poderia ser dito de um americano em sua casa em Nova York?” [1]

Podemos desculpá-lo por crer, naquela época, que o Minitel duraria para sempre. Era o seu auge, com nove milhões de aparelhos instalados gratuitamente em casas pelo país, além dos aparelhos originais ainda presentes nas agências de correios. Cerca de 25 milhões de franceses assinavam a plataforma para acessar cerca de 26 mil tipos diferentes de serviços.

Como devem imaginar, não muito tempo após, todos os franceses estariam acessando suas contas de banco online, em seus computadores pessoais, através da internet. Em 2012 o Minitel Online, que tanto orgulho havia dado aos franceses, encerrava suas atividades após 30 anos. Hoje a internet é uma rede muitíssimo mais vasta que o Minitel jamais foi, mas em 1982 ele era tecnologia de ponta!

No início da década de 1980, os franceses ficaram maravilhados com aquela pequena tela meio arredondada, conectada a um teclado, que podia ser utilizada para coisas inimagináveis até então, como checar sua conta de banco, reservar passagens aéreas, marcar encontros com outros usuários e, quando foram distribuídos nas casas, até mesmo ver pornografia online!

“O fracasso do Minitel não se deveu a tecnologia,” – afirma Benjamin Beyart, dono do primeiro provedor de internet francês, o French Data Network – “foi o modelo implementado que causou sua derrocada. Basicamente, para deixar um serviço disponível no Minitel, você tinha de pedir permissão a France Telecom, que controlava todo o sistema. Você tinha de convencer os sujeitos antigos se quisesse inovar, e eles não sabiam absolutamente nada sobre inovação. Eles acreditavam que nada de novo poderia surgir após o Minitel. Eles foram extremamente inovadores entre 1978 e 1982, e depois se mantiveram estagnados.”

Outros, porém, foram menos críticos. Valerie Schafer, coautor do livro France's Digital Childhood (A Infância Digital Francesa), o defende e diz que “é injusto chamar o Minitel de antiquado. As pessoas se esquecem que muitas das ideias que ajudaram a formar a internet foram testadas primeiramente num desses terminais. Pensem sobre a forma de pagamento das assinaturas, não tão diferente da appstore da Apple. Pensem sobre os fóruns onde as pessoas debatiam, geravam conteúdo e até marcavam encontros... O mundo online definitivamente não começou com a internet.”

Tim Barners-Lee, cientista da computação e físico britânico, chamado por alguns de “o pai da internet”, tampouco a criou a partir do zero. Na verdade a ideia genial e revolucionária de Tim foi unir a internet e o hipertexto. Com isto, ele não criou a internet, mas sim a “teia mundial” de computadores; ou, como é mais conhecida em inglês, a World Wide Web (WWW).

As origens da internet remontam a uma pesquisa encomendada pelo governo dos Estados Unidos na década de 1960 para construir uma forma de comunicação robusta e sem falhas através de redes de computadores. Embora este trabalho, juntamente com projetos no Reino Unido e na França, tenha levado a criação de redes precursoras importantes, ele não criou a internet. Não há consenso sobre a data exata em que a internet moderna surgiu, mas foi em algum momento em meados da década de 1980.

Já o hipertexto nada mais é do que o conceito de que certos termos, palavras, imagens ou outras formas de mídia podem conter links e associações para outros termos, palavras, imagens ou outras formas de mídia. Ou seja, conjuntos de informação que possuem links que nos levam a ainda outros conjuntos de informação, num processo que pode se estender quase ao infinito, ou pelo menos a muito mais informação do que um ser humano é capaz de absorver em sua vida.

Em 1990, quando trabalhava no CERN em Genebra, na Suíça, Tim criou o protótipo de um navegador para rodar em computadores da NeXT, companhia fundada em 1985 por Steve Jobs. Ele acreditava que seria possível interligar hipertextos em computadores diferentes com o uso de links globais, também chamados de hiperlinks. Ele desenvolveu um software próprio e um protocolo para recuperar hipertextos, denominado HTTP. O formato de texto que criou para o HTTP foi chamado de HTML.

O primeiro site foi construído no CERN e foi posto online em 6 de agosto de 1991. Info.cern.ch foi o endereço do primeiro site e servidor web da história, rodando em um computador NeXT no CERN. A primeira página web foi http://info.cern.ch/hypertext/WWW/TheProject.html [2], centrada em informações sobre o projeto WWW. Visitantes poderiam aprender mais sobre hipertexto, detalhes técnicos para a criação de seu próprio site e até mesmo ler uma explicação sobre como pesquisar na Web para obter informações.

Até aquele dia, a humanidade havia desenvolvido inúmeras formas de troca de informações, desde os sinais de fumaça aos primeiros pergaminhos, desde o telégrafo e o rádio as transmissões de TV via satélite; mas naquele dia estava lançada a semente da Web, um local virtual onde as pessoas poderiam não somente consumir informação, mas interagir com ela. Um local onde a informação não somente trafegava e se perdia, mas poderia ser armazenada, potencialmente, para sempre. E não somente na França, mas em todo o globo. E não somente para o benefício de uma ou outra companhia ou multinacional... Graças a generosidade de Tim, a Web havia sido criada para toda a humanidade.

» Em seguida, de Toth a Web 2.0...

***

[1] Todas as citações foram retiradas ou adaptadas do artigo Minitel: The rise and fall of the France-wide web, por Hugh Schofield para a BBC News.

[2] Sim, esta página está até hoje online.

Crédito das imagens: [topo] computerhistory.org (anúncio de um dos serviços eróticos do Minitel); [ao longo] Google Image Search (Tim Barners-Lee na época da criação da WWW)

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26.11.12

Uma visita a Zygmunt Bauman

Em Julho de 2011, uma equipe do Café Filosófico (TV Cultura) foi recebida pelo professor Zygmunt Bauman, em sua casa, na cidade de Leeds, Inglaterra. Previsto para durar aproximadamente sessenta minutos, o encontro se alongou por cerca de três horas. Bauman revelou-se uma pessoa de extrema simpatia e cordialidade com a equipe que virtualmente “invadiu” sua casa naquela tarde de verão inglês com câmeras de cinema, gravadores de som e equipamentos profissionais de iluminação.

Bauman os recebeu em um ambiente familiar despojado, marcado por imagens de sua esposa Janina Bauman, de seus filhos e netos e de muitos livros em variados idiomas. Foi uma longa conversa que tratou de expectativas para o século XXI, internet, a necessidade de construção de políticas globais, a construção de uma nova definição de democracia, e finalmente, a necessidade da constante elaboração e reelaboração de nossas identidades sociais em uma era de modernidade líquida...

Trecho em destaque: Os 500 amigos do Facebook
Um viciado do Facebook gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi que eu vivi por 86 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso. Então, provavelmente, quando ele diz "amigo", e eu digo "amigo", não queremos dizer a mesma coisa. São coisas diferentes.

Quando eu era jovem, um nunca tive o conceito de "redes". Eu tinha o conceito de laços humanos, de comunidades, esse tipo de coisa, mas não redes. Qual é a diferença entre comunidade e rede? A comunidade precede você. Você nasce numa comunidade. Por outro lado, temos a rede. O que é uma rede? Ao contrário da comunidade, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes. Uma é conectar e a outra é desconectar.

E eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo, está exatamente aí. Que é tão fácil de desconectar. É fácil conectar, fazer amigos. Mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar. Imagine que o que você tem não são amigos online, conexões online, compartilhamento online, mas conexões off-line, conexões de verdade, face a face, corpo a corpo, olho no olho.

Então, romper relações é sempre um evento muito traumático. Você tem que encontrar desculpas, você tem que explicar, você tem que mentir com frequência e, mesmo assim, você não se sente seguro porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco, etc. É difícil, mas na internet é tão fácil, você só pressiona delete e pronto.

Em vez de 500 amigos, você terá 499, mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500... E isso mina os laços humanos.

Os laços humanos são uma mistura de benção e maldição. Benção, porque é realmente muito prazeroso, muito satisfatório, ter outro parceiro em quem confiar e fazer algo por ele ou ela. É um tipo de experiência indisponível para a amizade no Facebook; então, é uma benção. E eu acho que muitos jovens não tem nem mesmo consciência do que eles realmente perderam, porque eles nunca vivenciaram esse tipo de situação.

Por outro lado, há a maldição, pois quando você entra no laço, você espera ficar lá para sempre. Você jura, você faz um juramento: até que a morte nos separe, para sempre. O que isso significa? Significa que você empenha o seu futuro. Talvez amanhã, ou no mês que vem, haja novas oportunidades. Agora, você não consegue prevê-las. E você não será capaz de pegar essas oportunidades, porque você ficará preso aos seus antigos compromissos, às suas antigas obrigações.

Então, é uma situação muito ambivalente. E, consequentemente, um fenômeno curioso dessa pessoa solitária numa multidão de solitários. Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo.


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