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10.5.12

Mahavira Play

» Parte da série: Play a myth

Se houveram aqueles que souberam falar diretamente ao reino da alma, caminharam no mundo também alguns raros seres que adentraram o reino do mito, e dissolveram seus egos num oceano de bem-aventurança. Embora fossem ainda eles mesmos, eram também um portal vivo para o Infinito, habitados pelos mais belos deuses que a mente humana foi capaz de identificar. Estes são os que falam em nome do amor: os santos...

Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth.

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Crédito da imagem: Rafael Arrais + Google Image Search

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10.3.12

Sem Deus, tudo é permitido?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] O jainismo é uma das mais antigas e rigorosas doutrinas religiosas de nossa história. As histórias que falam em monges jainistas retirando pequenas larvas do solo antes de cavá-lo para plantar, de modo a não causar dano sequer aos menores seres visíveis da natureza, são, acreditem, bem mais reais do que anedóticas. Apesar de seu ascetismo extremo, e sua busca constante pela não violência, é perfeitamente possível ser um jainista sem crer em Deus ou quaisquer deuses.

Alguns defensores da ética religiosa afirmam que sem o devido temor a Deus, e/ou a promessa de um Céu Eterno, não haveria razão para que os homens fossem éticos e amorosos uns com os outros. O humanismo, pelo contrário, em todas as suas vertentes coloca o respeito ao próximo, e a sua liberdade de pensamento e ação, como a ética mais elevada e que, por si só, é sua própria recompensa, já que num sistema onde todos são humanistas, um Céu Eterno talvez nem fosse mais necessário – já estaria instaurado na própria Terra.

Mas, será que o humanismo e o jainismo são quase utopias, sistemas por demais rigorosos para que todos os seres humanos um dia se incluam neles? Ainda há espaço para ser otimista ante um mundo em intenso conflito, ou a intolerância, em todas as suas mais nefastas manifestações, tem vencido a batalha? Em suma: se Deus não existe, tudo é permitido? [1]

[Del Debbio] A ideia da Religião como ferramenta para o domínio dos povos é muito antiga. Os faraós se utilizavam destes artifícios para criar normas de conduta e moral para toda a população do Egito. Os judeus, através de Moisés, reorganizaram estes preceitos nos chamados “dez mandamentos”, que por sua vez, tornaram-se a base canônica para o grande pilar de dominação do ocidente, a Igreja Católica Apostólica Romana.

O medo de um Deus vingativo ou a punição eterna em um Inferno escaldante fazia com que as pessoas andassem na linha. Nem todos os Infernos eram iguais... Para os nórdicos, Hel era uma caverna de gelo onde os condenados passariam a eternidade no frio e com fome. Faz sentido. Se o inferno Nórdico fosse quente, todos iriam querer ir para lá. Assim, a idéia do símbolo do Inferno sempre foi “um lugar onde não gostaríamos de estar”.

Para os ocultistas, a idéia do Inferno nunca passou de um símbolo abstrato, porém, para a população geral, vigora até os dias de hoje a ideia de uma troca no estilo Pavlov, onde as pessoas deveriam ser boas para irem para o céu e se forem contra os preceitos de algum dos livros sagrados, irão para o colo do capeta ou algo parecido.

Mas e quando esta ideia parece cada vez menos coerente com o mundo ao nosso redor? Símbolos podem se dar ao luxo de serem monstruosos, angelicais, fantásticos e impressionantes pois são, afinal de contas, símbolos. Mas quando religiosos fanáticos utilizam-se destes símbolos como se fossem coisas literais, esta visão começa cada vez mais a não fazer sentido em confronto com a realidade.

E quando não existe mais uma cadeia? Observamos recentemente em Salvador-BA o que acontece com a nossa civilização quando a polícia entra em greve por uma semana. O que aconteceria com o mundo se as pessoas, no grau de evolução mental que estão, soubessem que não há inferno ou punição para elas aguardando no final de suas vidas?

Creio que as religiões, mesmo as dogmáticas, servem como um freio enquanto a humanidade evolui lentamente e um dia não precisaremos mais de nenhuma delas. O estudo da espiritualidade em conjunto com o Humanismo e o respeito à natureza, livre de qualquer dogma ou preceito religioso ou materialista, será o caminho evolutivo natural para a espécie humana.

Para o alquimista, não faz a menor diferença se existe um Deus ou não. As ciências herméticas são a busca pelo autoconhecimento – descobrir qual é a própria Verdadeira Vontade e exercê-la em prol da evolução da humanidade como um todo. Vejamos o ateu: se é sincero em seu coração, não há diferença para um alquimista senão a dos símbolos e metáforas utilizados.

O trabalho de um magista é aperfeiçoar-se até o máximo que puder. A interação perfeita da ciência com a religiosidade. Todos já ouvimos diversas destas alegorias: “Transformar o chumbo (do ego) no ouro (da Essência)”, “Desbastar a Pedra Bruta”, “Transformar Carvão em Diamante”, “Encontrar a Pedra Filosofal”, “Tirar as ervas daninhas para que as rosas floresçam no Jardim”, e outras.

Através da Alquimia, uma vez que cada pessoa trabalhe seus Vícios e os transforme em Virtudes, chega-se ao exato mesmo princípio do Humanismo ou do Jainismo (que nada mais são do que vertentes da mesma filosofia do “ama ao próximo como a ti mesmo”). Se existir um céu e um inferno, os alquimistas estarão preparados. Se não existir, fizeram o melhor que puderam dentro do espaço de suas vidas; se existir uma vida após a morte, continuarão da onde pararam aqui...

[Mori] Há alguns anos traduzi um fabuloso ensaio de Eric Raymond sobre “o mito do homem assassino”, que resumo em seguida. É a crença de que os seres humanos são animais unicamente violentos, escassamente contidos de cometer atrocidades uns aos outros pelas restrições da ética, da religião e do estado. Parece estranho questioná-lo, com as trágicas notícias com as quais somos bombardeados, mas basta analisar o animal humano com os olhos um tanto mais distantes de um observador do mundo natural para chegar à constatação de que não somos seres especialmente violentos.

O estilo de luta instintivo que desenvolvemos, por exemplo, nos impede de ferir seriamente uns aos outros, direcionado especialmente a empurrões e socos em áreas duras como cabeça ou tórax. Eles podem deixar o oponente inconsciente, mas as chances de que o matem são muito menores do que se mirássemos em partes moles e vitais, como artistas marciais aprendem a desenvolver mesmo em um único golpe fatal. É preciso treinamento para transformar um homem comum em um assassino, e isto mesmo quando este homem é equipado com uma arma de fogo: ao redor de 70% das tropas em sua primeira situação de combate é incapaz de disparar contra o inimigo. É preciso treinamento e intensa ressocialização para suprimir nossos instintos e criar soldados capazes de matar sob comando.

E comando é justamente o alerta de Raymond. O mito do homem assassino é promovido justamente por aqueles em comando, segundo os quais precisamos ser salvos de nós mesmos através da uma disciplina rígida com punições rigorosas que nos separaria da selvageria, quando a evidência histórica e comportamental indica que as maiores selvagerias são praticadas justamente sob comando e disciplina rígidas de um grupo contra outro. Nosso maior medo não deveria ser nosso suposto instinto assassino latente, aquele que é visto na prática apenas em uma pequena parcela da população, comumente surgida como parte, ainda assim minoritária, de grupos intensamente oprimidos. E que, não por coincidência, criam suas cadeias de comando e controle social próprias, e ainda mais rígidas.

Nosso maior medo deveria ser justamente o controle e manutenção de uma hierarquia e controle social estritos que exploram um instinto que a maioria de nós realmente possui: a obediência cega a figuras de autoridade. Sejam elas presentes na terra, sejam elas aquelas fictícias no céu, que podem ser ainda mais perniciosas. Em nome de deus, a autoridade última, tudo é permitido.

Tememos os perigos errados. Apesar disso, há motivo para otimismo porque a ignorância, a intolerância e a violência não estão vencendo a batalha. Somos hoje sete bilhões de seres humanos. Nunca tantas vidas viveram ao mesmo tempo, tanto tempo, aproveitando tão bem o seu tempo. Em particular no Brasil, e mais especificamente sobre os leitores deste texto, podemos dizer que somos privilegiados com um padrão de vida superior aos dos mais abastados reis e conquistadores, dos mais bárbaros e selvagens, de apenas alguns séculos atrás. E não precisamos oprimir ou assassinar ninguém para tal – bem, ao menos não tão diretamente quanto eles, espero. Por gerações grandes pensadores sonharam com enormes arquivos de conhecimento, e grandes visionários imaginaram fóruns livres para a difusão e discussão de conhecimento. Você está em frente a esse sonho neste exato momento.

Este privilégio não foi alcançado por acidente. Nossos ancestrais não tão distantes talvez achassem que uma mulher, um negro, homossexual ou membro de uma minoria qualquer tendo acesso a esta rede de conhecimento hoje fosse um absurdo. A religião, o Estado, a sociedade, a tradição e os bons costumes ditavam tal. Do contrário, seria a selvageria. Hoje vemos que eles é que viviam em um mundo um tanto mais selvagem que o nosso, e se estudarmos um tanto da história recente descobriremos como essas conquistas valorizando cada vida humana foram resultado de longas batalhas. Muitas destas batalhas foram vencidas e, sim, vivemos em um mundo melhor. O mundo pode ser transformado para melhor, ele foi transformado para melhor, e ele deve ser transformado para muito melhor.

Há muitas outras batalhas a vencer. Não há nada muito rigoroso no humanismo – há vertentes específicas do humanismo com algumas definições mais rigorosas, mas valorizar a vida humana é um instinto natural do animal humano. Se você ri de um bebê gargalhando, se compartilha a dor da mera imagem de alguém se cortando, se em seus momentos mais irados pensa em dar um murro no rosto de um desafeto – e não em planejar como assassiná-lo com crueldade de fato – parabéns, você faz parte da maior parcela da espécie humana. Somos sete bilhões.


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Esta foi a sétima e última pergunta da série. Fica aqui um sincero agradecimento a generosidade e ao entusiasmo dos dois participantes... Espero que essas reflexões possam trazer luz a cientistas e espiritualistas, e a todos nós: humanos.

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[1] Eu estou, propositadamente, usando esta frase de Fiódor Dostoiévski fora de contexto, pois ela acabou se tornando uma frase relativamente conhecida na cultura popular, exatamente desta forma, e não na forma original, conforme consta em mais de um trecho da obra Os Irmãos Karamazov. Ironicamente, considerando-se o desenvolvimento da questão ao longo do livro, por fim temos uma consideração que tende claramente ao humanismo. Finalmente, é justo lembrar que o Deus em questão seria, muito provavelmente (ou aproximadamente), o Deus do Antigo Testamento da Bíblia.

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Crédito da foto: moodboard/Corbis

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3.6.11

As lições do carma

Existem várias interpretações para o significado de carma, de acordo com as doutrinas hinduísta, budista, jainista, e posteriormente do espiritismo (que o chama, em realidade, de “lei da causa e efeito”), da teosofia e do movimento new age. A essência do termo pode ser associada a lei física que diz que “para toda ação existe uma reação de força equivalente em sentido contrário”. A analogia, no entanto, deve ser feita com cautela: primeiro porque o carma não é uma lei científica que possa ser medida em laboratório (embora seja uma lei natural); segundo porque a “reação a ação” geralmente não se dá imediatamente, como em reações físicas, e pode até mesmo levar anos, ou vidas.

Há uma forma superficial e outra profunda de interpretarmos o carma. Imaginemos um exemplo: um inquisidor acusa e mata inúmeros inocentes nas fogueiras durante a época negra medieval, numa outra vida, ele precisará “resolver seu carma”... Na visão superficial, entende-se que ele deva morrer queimado na nova vida, exatamente como suas vítimas. Na visão profunda, entende-se que ele possa também optar, por exemplo, por ser um médico de instituições que auxiliam em zonas de guerra, tratando das queimaduras daqueles que foram vítimas da ignorância dos homens. Existe a via da dor, e a do amor, mas nem sempre estamos aptos a cumprir nossas promessas de caridade – nem sempre o futuro médico se torna, efetivamente, um médico de almas.

É importante, portanto, compreender que o carma não é um sistema de crédito e débito, de “aqui se faz aqui se paga”. Seu mecanismo não atua para “punir os maus” com uma dose de seu próprio veneno. Na realidade, se trata de um remédio, às vezes de gosto amargo, mas que visa sempre impelir aos seres da ignorância para a sabedoria, dos instintos animais para a consciência abrangente, da terra para os espaços cósmicos adiante.

Tendo essa compreensão em mente, acredito que ela possa nos trazer algumas lições:

Adeus inveja
Para quem realmente crê no carma, a inveja não faz sentido. Ora, se tudo o que somos, tudo o que temos, é resultado direto do que fizemos com o tempo que nos foi dado, com as escolhas que nos coube a decisão, então invejar o que os outros têm ou são é tão somente uma forma de ignorância persistente.
Afinal, se tudo o que somos e temos é resultado de nossa própria caminhada, jamais poderemos conseguir alguma coisa apenas porque “desejamos”, porque invejamos de outro alguém... O que parece ser mais sábio é usar os outros como modelo, como incentivo, como a meta a ser alcançada. Não exatamente o que os outros têm, pois tudo o que temos é transitório, mas o que os outros são. Não devemos invejar nem desejar a sabedoria, devemos afinar nossa própria vontade para nos movermos em sua direção. O mero desejo é estagnação, pois nada “cairá do céu” – mas a vontade é o movimento em direção à luz.

A dor aguarda os que ficam para trás
Em dado momento, todos somos livres para escolher a via do amor ou da dor. Qualquer estudioso das doutrinas cármicas saberá que viemos ao mundo para desenvolver nossas potencialidades, e não nossos vícios. Viemos caminhar à frente, e não ficar estagnados na ignorância. Que a evolução espiritual segue a física: nada anda para trás, mas a natureza não costuma poupar os que se arrastam pelo caminho.
Nessa longa trilha, por vezes pode parecer que somos como um cão selvagem com a coleira presa a uma velha carroça, rodando lentamente pelos velhos sulcos: podemos optar por seguir a frente, antes que a coleira nos puxe, ou podemos ladrar como cães raivosos, e nosso latido não impedirá que a coleira nos force o pescoço, que nos provoque dor. No fim, seguiremos a frente, quer queiramos, quer compreendamos aonde vamos, quer não. Melhor escolher o amor, enquanto há tempo, pois as dores desse mundo não se comparam as dores da alma.

Suportamos o que podemos suportar
Conforme a roda avança, a cada um é dado apenas os desafios que podem suportar. Podemos imaginar uma universidade cósmica: o calouro de física não poderá compreender as equações de física quântica ou da teoria das cordas já em seu primeiro ano, mas aqueles que se arrastam nas repetências terão eventualmente que resolvê-las, pois os reitores sabem muito bem que eles já têm a capacidade para tal.
É preciso saber avaliar os desafios por aquilo que são: não desastres, tragédias, ou problemas insolúveis, mas oportunidades de progressão, de entendimento, de edificação de nossas potencialidades.
Muitas vezes, amamos e perdemos, e essa nos parece a maior dor do mundo. Porém, curioso de se pensar: é melhor amar e perder do que nunca haver sequer amado... Os seres vêm e vão, mas a capacidade de amar é uma das potencialidades que jamais andam para trás, e que molda nosso despertar da consciência desde as eras pregressas.
Da próxima vez que estiver a se lamentar por uma perda, e desejar se ver livre do amor que sentia, e que agora dói tanto, pense novamente: a sua dor é uma luz. Os seres que se arrastam nas sombras de si mesmos, que ainda não descobriram o amor, podem parecer mais felizes, mas sua dor é muito mais profunda do que a sua – e você certamente sabe disso, mesmo que de alguma forma obscura, pois todos já estivemos na escuridão.

Só Deus o sabe
Quando nos deparamos com tragédias humanas em pequena ou larga escala, existe essa tentação própria dos seguidores de doutrinas cármicas em elaborar teorias mirabolantes sobre o porque de tais seres terem sofrido este ou aquele infortúnio... Tudo em vão!
Assim como não podemos saber por que o vento sopra aqui ou acolá, jamais poderemos compreender exatamente o que outra parte da substância cósmica experiencia. Somos todos conectados, filhos da mesma substância, formados pelos mesmos átomos e as mesmas fagulhas divinas, mas cada um pode saber apenas de sua própria visão do Cosmos. Não há nenhum ser onisciente além de Deus, ninguém que possa realmente ter habitado nosso âmago profundo e visto o horizonte da mesma forma que nós, e experienciado a caminhada dando exatamente os mesmos passos.
Quando um espírito incorpora, ele habita um corpo, e não outro espírito. Jamais estaremos dentro uns dos outros, de modo que as razões que fazem o mecanismo do carma operar desta ou daquela maneira, só o próprio ser que ama e que sofre tem um breve entendimento, e só Deus o sabe. Ele está dentro de todos nós.

O aflorar da consciência
Se na evolução física das espécies, a vida é a função do sistema, na evolução espiritual, da qual o carma é o mecanismo primordial, o afloramento da consciência é o grande objetivo a ser alcançado. Nosso caminho foi longo: de fagulhas divinas criadas sabe-se lá onde, neste ou nalgum planeta próximo habitamos coletivamente os reinos mineral, vegetal e boa parte do animal... Nas savanas africanas despertamos, compreendemos ao longo dos séculos que a vida era, afinal, muito mais do que caça e coleta, muito mais do que uma mera luta pela sobrevivência...
Até o dia em que optamos por viver, e não apenas sobreviver. Quando nossas potencialidades amorosas, artísticas e técnicas começaram a aflorar. Quando nos indagamos de onde viemos, e para onde vamos, e o que somos, e surpreendentemente começamos a encontrar elaboradas teorias para o que nos parecia inatingível. Quando olhamos para as estrelas e vimos deuses, e depois vimos fornalhas cósmicas, e depois vimos um turbilhão de galáxias além de tudo aquilo que poderíamos imaginar... Quando vimos o infinito, e lhe estendemos a mão.
A mente que adquire um novo conhecimento jamais retorna ao seu estado anterior. A alma que se abre para o Cosmos, jamais volta a se fechar novamente. A função do sistema não era, afinal, apenas a vida, mas a vida eterna.

A lei do carma
Faça ao próximo aquilo que gostaria que o próximo fizesse contigo.
Resta-nos saber quem são nossos próximos: será nossa família, nossos amigos, nossa cidade, nossa nação, nosso planeta? Serão apenas seres enquanto humanos, ou também os animais, os vegetais, os minerais, a natureza como um todo? Da próxima vez que levantar uma pedra, ou observar um galho partido, saiba que todo o infinito nos abarca, que o reino de Deus está em todo lugar... Apenas esperando que finalmente abra teus olhos para ver.

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Crédito das imagens: [topo] John-Francis Bourke/Corbis; [ao longo] Nacho Uranga

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10.2.10

O reino de Asoka, parte 1

Esta é a história de Asoka, e de como um homem teve de abdicar de seu vasto reino para finalmente conquistar algo de real [1]...

Asoka era um dos filhos do imperador Bindusara, e neto do grande Chandragupta Maurya, primeiro grande imperador da Índia, que surgiu do norte com um bando de tribos e acabou conquistando quase todo o território indiano moderno, no que ficou conhecido pela história com o Grande Império Máuria, que durou de 322 a 185 a.C.

O avô de Asoka conviveu com o neto durante sua infância, e muitos diziam que se tratava do seu neto favorito: “possuí um grande intelecto e habilidade em combate incomparável, com o tempo e a sabedoria se tornará o imperador ideal”. Chandragupta sabia do que estava falando, havia batalhado a vida toda, conquistado cada palmo de terra ao custo de inúmeras vidas e rios de sangue. No fim da vida, este peso sobre as costas era cobrado pela sabedoria que adquirira ao entrar em contato com a religião dos jainistas. Que paradoxo: o homem responsável por tanta matança, em seu íntimo sabia que estava condenado pela própria consciência, agora aberta para as idéias mais profundas do Jainismo.

Foi em uma de suas batalhas que Chandragupta desapareceu para se tornar um monge jainista, deixando para trás apenas a sua espada fincada nas planícies de arroz e sangue. O avô de Asoka havia lhe alertado que ninguém deveria carregar tal espada, amaldiçoada por anos e anos de matanças. Mas Asoka ignorou o aviso: ao avistar a espada do avô, guardou-a antes que outros de seus irmãos e meio-irmãos mais velhos a vissem. Este foi o início do desejo de Asoka de se tornar, ele também, um grande imperador!

Susima era um dos irmãos mais velhos de Asoka, apenas mais um preocupado em ser o escolhido do pai para se tornar o próximo imperador do Grande Império Máuria. Em seu jogo de política e influência, conseguiu sorrateiramente convencer o pai a enviar Asoka para as províncias mais perigosas do reino, onde haveria mais chances de perder uma batalha contra os rebeldes e invasores, e ser definitivamente eliminado da disputa. Asoka, entretanto, repelia os invasores com táticas de batalha cuidadosamente planejadas, e acalmava e persuadia os rebeldes com seu carisma e sua oratória épica, sempre prometendo a todos que comandaria o império até conquistar todas as terras conhecidas...

Apesar do pai, Bindusara, não ter Asoka como seu preferido, com o tempo e os contínuos sucessos de suas campanhas, todos os ministros do imperador sabiam que a escolha mais sensata seria Asoka, e não seu irmão Susima. A sorte de Asoka brilhou no dia em que seu pai morreu repentinamente, tossindo sangue, enquanto seu irmão Susima estava distante da capital do império. Todos os ministros se apressaram em coroar Asoka o imperador, ainda que todos esperassem o retorno de Susima e algum conflito em relação à questão. “Pena que Susima vá regressar e tomar o reino de volta, Asoka seria um imperador bem melhor” – refletiam a maioria dos ministros.

Mas não foi o que ocorreu – assim que tomou o poder, brandiu a espada de seu avô, Chandragupta, e bradou a todos: “eu sou o escolhido dos deuses, eles desceram a terra e me trouxeram a espada de meu avô, eu serei o imperador do mundo!” – Não houve quem duvidasse que Asoka realmente desejava conquistar todo o mundo. E o retorno de seu irmão era apenas o primeiro obstáculo que se interpunha entre ele e seu grande objetivo.

Asoka então mandou construir o primeiro de seus poços infernais na entrada da capital: era um buraco fundo o suficiente para que toda a guarda pessoal de seu irmão caísse, ao galopar de volta descuidadamente. No interior, carvão em brasa. Susima e toda a sua guarda tiveram uma morte agonizante em meio ao fogo e as estocadas de lança dos soldados do império, agora leais a Asoka. Os ministros que não concordaram com a forma brutal com que Asoka eliminou sua concorrência direta ao trono foram banidos ou executados impiedosamente. Nascia um novo Asoka, um homem determinado, sombrio, sanguinário, que não mediria esforços até que seu desejo fosse concretizado:

Asoka o Cruel queria dominar todas as terras abarcadas pelo horizonte!

continua...

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[1] Conto baseado na vida de Asoka o Grande, imperador Máuria de 269 a 232 a.C., e figura mítica do Budismo. Não necessariamente absolutamente fiel a história.

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Crédito da ilustração: Divilgação do filme Asoka (2001).

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