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29.8.18

O mundo para além da linguagem

Dois meses atrás eu saí do Brasil e agora estou vivendo na Europa. Existe algo dessa experiência que está para além de mudar de endereço, visitar paisagens diferentes e ter novas fotos para as redes sociais.

Trata-se do desafio de se comunicar. E com isso não quero dizer pedir comida no restaurante ou conversar sobre o jogo de futebol na rua. Eu me refiro às coisas misteriosas da vida – a existência, o amor, nossos desejos, a vida em sociedade – e que sempre fazem nos desentender nas discussões filosóficas.

Nossos desentendimentos advêm da própria forma como a linguagem se estrutura, e experiências com outras culturas e idiomas podem esclarecer isso.

Vilém Flusser explica, por exemplo, que é simples traduzir a palavra mesa para o inglês table porque ambas as palavras e referem ao mesmo objeto. Tanto na cultura portuguesa quanto na cultura inglesa existe o mesmo objeto real mesa, esta que usamos para trabalhar ou se alimentar.

No entanto, é impossível traduzir a palavra mesa para a língua esquimó simplesmente porque na cultura dos esquimós esse objeto é inexistente. Seu vocabulário é ausente de qualquer referência à mesa, já que nunca a utilizaram.

Para explicar a um esquimó ao que estamos nos referindo, teríamos que usar a palavra em nosso idioma e depois explicar o seu funcionamento no idioma deles. Ainda assim, permanece a impossibilidade de tradução porque em sua cultura tal conceito é inexistente.

Quando estamos nos expressando sempre na mesma língua, nós estamos utilizando sempre os mesmos conceitos. Isto é, as ideias e objetos que fazem parte do nosso modo de ver o mundo, e consequentemente pensá-lo e reagir a ele.

Basta que nos desloquemos para outra realidade ou tentemos nos expressar num idioma diferente do nosso para percebermos que a maioria das coisas que sentimos ou pensamos em nossa língua original não possuem tradução.

Dizer eu te amo em português ou te quiero em espanhol são ensinados como sinônimos, mas ocupam lugares diferentes em suas respectivas línguas. Pois dizer que se ama alguém significa simplesmente que há um sentimento afetuoso por ela, sem nenhuma consequência declarada a princípio, enquanto dizer que a quer é empregar um verbo que implica necessariamente num desejo de algo, seja qual for o desejo.

Ou como pensar o inglês que não há diferenças entre ser e estar no verbo to be, senão pelo contexto? Se você diz a uma moça you are beautiful, será que ela entenderá que você dizendo que ela é uma moça bonita na vida ou que ela está particularmente bonita vestida como hoje?

Cada idioma cria os seus próprios conceitos, nem sempre partilhados com outros idiomas. Mais do que uma simples ferramenta, a linguagem que aprendemos a usar também nos ensina como pensar. É a partir dela que pensamos, e não o contrário. Fomos colonizados pela língua que nos ensinaram e estamos predestinados a chegar às respostas que nossa língua nos permite chegar.

Por tal motivo os linguistas dizem que aprender um novo idioma é também aprender a pensar de uma nova forma. Pois as estruturas da linguagem que adquirimos, bem como as expressões que utilizamos, modulam nossa forma de ver e – principalmente – reagir ao mundo.

Que um brasileiro ao xingar diga filho da puta, um norte-americano diga motherfucker (aquele que fode sua mãe) e um espanhol diga me cago en tu madre (defeco em tua mãe), revela que a todos ocidentais é ofensivo atentar contra a mãe. Mas não pelas mesmas razões. Se no Brasil o problema é ter sido parido por uma mulher que troca sexo por dinheiro, nos Estados Unidos o problema é o incesto, na Espanha... bem, a coisa na Espanha fica escatológica.

Ainda que todas essas expressões queiram igualmente ofender, seria inocente imaginarmos que são traduzíveis umas pela outra, já que se referem a conceitos – as situações compreendidas como vergonhosas – bem diferentes.

Esse tipo de experiência linguística/antropológica que temos ao aprender um novo idioma ou vivermos numa nova cultura é o que mais se aproxima de um legítimo ato filosófico. Pois é a partir do estranhamento do diferente que podemos questionar aquilo que temos por naturalizado em nós – e o que temos de mais naturalizado do que nossas próprias palavras e significados?

O mundo é algo muito absurdo, e por isso mesmo misterioso. As palavras tentam organizar este mundo em conceitos, mas ao mesmo tempo em que nos permite comunicá-lo também nos confunde, já que uma palavra nunca será a coisa.

A impossibilidade de tradução da realidade nos mostra que a linguagem termina por criar a nossa própria realidade, e disso não podemos escapar. Mas é a experiência de estranhamento disso que nos mostra um mundo para além de nossas ideias sobre ele.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Jason Leung/Unsplash

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13.7.18

Pensamento e linguagem

É possível haver pensamento sem linguagem?

Filósofos como Platão, Descartes, Kant e Henri Bergson acham que a linguagem é a manifestação de algo “superior”, como o intelecto, as ideias, a mente, a subjetividade ou, simplesmente, a razão.

Outros, como Charles Peirce, John Dewey, Wittgenstein e Habermas, em geral os linguistas e os estruturalistas, consideram que as capacidades de raciocínio, pensamento, recordação, memória e associação, enfim, o que se rotula como “mental”, dependem do aprendizado de signos, de apreensão e interpretação de imagens e símbolos.

Eu vou tentar aqui resolver essa pendenga histórica da filosofia sem citar filósofos (exceto Descartes, pois será necessário), apelando somente para o senso lógico de vocês. Pode parecer um assunto complexo a primeira vista, destinado a ser debatido “somente pelos grandes pensadores”, mas eu acho justamente o oposto: creio que qualquer um de nós com um pouco de bom senso, e sendo encaminhado passo a passo por certos conceitos, é capaz de perceber por si mesmo, de uma vez por todas, se há pensamento sem linguagem.

Então, vamos lá! A primeira coisa que precisaremos fazer é definir o que é exatamente pensamento e linguagem. Vamos começar pelo pensamento:

Etimologicamente, pensar significa avaliar o peso ou as características de alguma coisa. Em sentido amplo, podemos dizer que o pensamento tem como missão tornar-se o avaliador da realidade. Por exemplo, você pode ver três maçãs em cima de uma mesa, e ao comparar umas com as outras, poderá dizer qual é grande e qual é pequena. Qual é a menor de todas, qual a maior de todas, e qual a que é maior do que uma e menor do que a outra. Isso, é claro, considerando que elas tenham dimensões claramente díspares ao olho nu. Maçãs muito parecidas em tamanho serão classificadas pelo pensamento como iguais, seria necessária a ajuda de uma lente de aumento ou de alguma medição científica para determinarmos com exatidão plena qual a maior e qual a menor. Ainda assim, “maior” e “menor” farão parte de conceitos interpretados pelo pensamento.

Se formos nos limitar ao conceito do parágrafo acima, parece claro que seria impossível pensar sem usar linguagem, uma vez que estaríamos sempre avaliando alguma coisa, gerando uma intepretação clara e evidente a partir de uma observação da mente. Ocorre que o pensamento não é só isso, ou pelo menos foi assim que o definiu Descartes (e esta é a última vez que citarei um filósofo nesse artigo):

A essência do homem é pensar. (Por isso eu dizia): “Sou uma coisa que pensa, isto é, que duvida, que afirma e que ignora muitas coisas, que ama, que odeia, que quer e não quer, que também imagina e que sente”. (Logo quem pensa é consciente de sua existência): “penso, logo existo”.

Ora, pelo que foi dito acima, “penso, logo existo” seria tão válido quanto “imagino, logo existo”; ou “duvido, logo existo”; ou até mesmo “sinto, logo existo”. Nesse sentido chegamos à conclusão de que pensar não é somente o ato racional de se avaliar os objetos e elementos que percebemos em nossa mente, como também imaginar novos elementos, e até mesmo ter experiências misteriosas, como sentir dor ou amar apaixonadamente. Pois bem, agora vai faltar definirmos o que diabos é a linguagem...

Linguagem é geralmente definida como a capacidade especificamente humana para aquisição e utilização de sistemas complexos de comunicação. O estudo científico da linguagem, em qualquer um de seus sentidos, é chamado linguística. Os códigos e outros sistemas de comunicação construídos artificialmente, como aqueles usados ​​para programação de computadores, também podem ser chamados de linguagens – a linguagem, nesse sentido, é um sistema de sinais para codificação e decodificação de informações (guardem esse termo, “informação”).

De acordo com muitos estudiosos, a linguagem pode ter se originado quando os primeiros hominídeos começaram a cooperar, adaptando sistemas anteriores de comunicação baseados em gestos e sinais, compartilhando assim intencionalidade. Nessa linha, o desenvolvimento da linguagem pode ter coincidido com o aumento do volume do cérebro, e muitos linguistas acreditam que as estruturas da linguagem evoluíram a fim de servir a funções comunicativas e cognitivas específicas.

A linguagem, como o próprio termo parece indicar claramente, está diretamente relacionada à linguística, a capacidade exclusivamente humana de se interpretar símbolos e compartilhar informações por meio deles, como pela leitura e escrita de alfabetos, ou simplesmente pela vocalização de palavras e conceitos através da fala. Quem defende essa tese dirá que um papagaio pode até repetir o que um ser humano fala, mas não compreende aquilo que repete. Mas, será mesmo que os animais não possuem linguagem?

Bem, eu poderia citar a gorila Koko, por exemplo, que chegou a aprender mais de mil palavras e sinais, e conseguiu se comunicar claramente, embora de forma bem rudimentar, com pesquisadores. Mas ao invés disso vou trazer abaixo um vídeo gravado no Dolphin Quest Oahu, em Honolulu no Havaí, onde peixes treinados são capazes de reconhecer figuras geométricas (símbolos), e assim conseguir alguma comida em troca:

Seriam tais peixes capazes de compreender códigos simples? Seria a gorila Koko um exemplo vivo do surgimento da capacidade de interpretação de linguagem humana entre os animais? Isto vocês que devem definir, pois a maioria dos especialistas parece ter a certeza de que animais não compreendem linguagem.

Mas, para arrematar, precisaremos voltar a Descartes (ops, trouxe um maldito filósofo outra vez, me desculpem)...

Vocês se lembram que ele definiu o pensamento como algo que se imagina e que se sente, não é mesmo (está alguns parágrafos acima, caso queiram reler)? Pois bem, então imagine que você está imensamente apaixonado por alguém, como exatamente você vai explicar o seu sentimento em linguagem, em códigos simbólicos, em palavras escritas ou vocalizadas? Parece problemático, não?

E não precisamos nos referir a nada tão misterioso e transcendente como o “sentir amor”, ou ainda o “sentir dor”, ou mesmo o “adorar a Deus” ou “se assombrar com a Natureza”, podemos ter o mesmo tipo de problema ao observar aquelas mesmas maçãs em cima da mesa, e tentar explicar como exatamente percebemos “a vermelhidão do vermelho” em suas cascas. Pois que, no fundo, as palavras são tão somente cascas de sentimento, incapazes de abarcar completamente o sentimento e a imaginação humana (não a toa há um ditado popular que diz: uma imagem vale mais do que mil palavras).

Se um cientista, um linguista, quiçá um filósofo especialista em linguagem, fosse capaz de definir o amor em palavras, a poesia seria então ciência ou filosofia, e não arte.

Dessa forma, me parece que é claro que, dadas as definições usuais para “pensamento” e “linguagem”, que o pensamento precede a linguagem: enquanto esta é o fruto, aquele é a semente. E não só isso: há pensamentos que jamais conseguirão ser expressos claramente ou inteiramente em linguagem, há horizontes da mente humana intransponíveis, que jamais poderão ser comunicados inteiramente tanto aos demais, como a própria mente que “pensa, logo existe”.

Se, no entanto, consideramos a linguagem como um processo que lida com qualquer tipo de informação mental, não somente as humanas, ou as capazes de serem codificadas e decodificadas em linguagem humana, então seria melhor dizer que é impossível haver pensamento sem informação (e não sem linguagem)!

Informação, etimologicamente significa “dar forma a mente”. Me parece que os antigos, portanto, já tinham todo o mistério resolvido lá atrás: o pensamento dá forma a mente, mas não necessariamente uma forma unicamente racional, exprimível em linguagem humana. Muitas vezes, pensar é dar forma ao amor, dar forma ao medo, dar forma ao assombro perante o mistério da vida. Existimos, enfim, não somente porque sabemos que uma maçã é maior do que outra, mas essencialmente porque percebemos o vermelho, e não há outro instrumento na Natureza capaz de fazer o mesmo: interpretar o mundo, e não somente computar informações em linguagem.

Enfim, somos seres e não robôs. Se isto é algo “superior” ou “divino”, vai da crença de cada um. Mas não podemos ignorar os fatos, não podemos fingir que somos coisas pensantes, pois não há “coisa pensante”.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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8.3.16

A voz do mundo

Uma vez eu me meti a traduzir um belíssimo, inesquecível ensaio de John Galsworthy, o poeta inglês e Nobel de literatura, e o seu trecho inicial ainda hoje ecoa em minha mente:

Quando Deus é tão bom para os campos, de que uso são as palavras – essas pobres cascas de sentimento! Não há como se pintar a Ventura nas asas! Nenhum meio de passar para a tela a glória etérea das coisas! Um único botão-de-ouro dos vinte milhões em um campo vale mais do que todos esses símbolos secos – que não poderão nunca expressar o espírito da neblina espumosa de Maio a se chocar com os arbustos, o coral dos pássaros e das abelhas, as anêmonas a se perder de vista, as andorinhas de pescoço branco em sua Odisseia.

De fato, as palavras, por mais belas e poéticas que possam um dia chegar a ser, jamais passarão de cascas de sentimento. Para podermos expressar a essência da realidade, talvez seja preciso mais do que palavras... talvez seja preciso tentarmos cantar com a voz do mundo...

Gennady Tkachenko-Papizh, ou somente Papizh, nasceu na então União Soviética, cresceu numa cidadezinha da Ucrânia, e hoje vive entre Berlim e Moscou. É um ator, comediante, cantor e, como ele gosta de dizer, "imitador de sons". Me desculpe Papizh, mas acho que você faz muito mais do que "imitar sons".

A performance acima foi a sua primeira audição no programa Ukraine Got Talent, uma versão ucraniana para shows de TV que se espalharam pelo mundo todo na última década, inclusive no Brasil. Eu, como entusiasta da world music, a música do mundo, que eu pessoalmente prefiro chamar somente de "música", não poderia deixar de me deleitar com este talento extraordinário, que canta, ou "imita", a própria Alma do Mundo.

O vídeo acima mostra sua apresentação no início do programa. Para encerrar, ficaremos com a sua performance final:

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Crédito da foto: Google Image Search/Lada (Papizh)

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2.12.14

É preciso transver o mundo

“A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem das suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro.
Arte não tem pensa:
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.”

O poeta responsável por tais linhas é brasileiro, nascido nalgum canto do Pantanal (real e/ou inventado), e só começou mesmo a fazer sucesso perto da terceira infância, em seus sessenta e poucos anos. Mesmo assim, diz que nunca viveu de poesia, já que a poesia é uma coisa inútil. Manoel de Barros viveu a poesia em seu estado mais bruto: o sentimento puro. Manoel se deleitava em ser um vagabundo para o mundo, e um manobrista da linguagem, um fraseador, um descascador dos frutos das emoções. Este documentário fala sobre tais cascas:

Só Dez Por Cento é Mentira (2008) é um original mergulho cinematográfico na biografia inventada e nos versos fantásticos do poeta sulmatogrossense Manoel de Barros. Alternando sequências de entrevistas inéditas do escritor, versos de sua obra e depoimentos de “leitores contagiados” por sua literatura o filme constrói um painel revelador da linguagem do poeta, considerado o mais inovador em língua portuguesa. Só Dez Por Cento é Mentira ultrapassa as fronteiras convencionais do registro documental. Utiliza uma linguagem visual inventiva, emprega dramaturgia, cria recursos ficcionais e propõe representações gráficas alusivas ao universo do poeta.

O documentário que trazemos abaixo é extraordinário, e vai muito além de uma mera entrevista com o poeta que recentemente encerrou seus dias no Mato Grosso do Sul; se trata de uma obra altamente original que transpira as emoções genuínas da infância e da vida pacata, tão presentes nos poemas de Manoel.

No entanto, um dos comentários do vídeo no YouTube retrata o conjunto da obra melhor do que qualquer texto que eu pudesse lhes trazer aqui. O comentário é de Camelo Bike Tour:

Estou em luto, mas não triste.

O meu poeta favorito que usava borboletas, gostava de vazios, pedras, rios e sapos, seguiu quinta-feira passada seu caminho (13/11/14), tornou-se aquilo que tanto amou – virou natureza.

O poeta administrava o à-toa como ninguém e possuía outras habilidades inigualáveis – era árvore, sabia como amarrar o tempo no poste, fotografar o silêncio, e quase sempre achava o que não procurava. Ele tinha olhar de passarinho, imagine!

Morava em quintais, preferia coisas desimportantes, e talvez por isso tenha conseguido perceber o óbvio, que de tão manifesto ninguém enxerga, como na frase que eu adoro – “Sapo é um pedaço do chão que pula.”

Com praticamente 98 anos, completaria agora dia 19 de dezembro, costumava dizer que só tinha tido infância e, portanto, tudo o que escrevia era “apenas” sobre ela. Ele sempre soube que os objetos não se restringiam a seu significado literal, ao rigor da letra – “palavras que me aceitam como sou, eu não aceito”. “As coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis”, “Há várias maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira”, dizia.

Não posso estar triste, afinal nasci no mesmo país deste artesão das palavras, um gênio contemporâneo que se dizia poeta em tempo integral – “Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às seis horas da tarde”.

Manoel de Barros usava a palavra para compor o silêncio que sempre fará muito barulho dentro de mim. Estou contente pois ele voltou à Gaia, à terra, voltou a ser poeira de estrela e como tal se espalhará por todos os lugares.

Muito obrigado, por fazer tanto e ainda se achar incompleto, poeta!

“O ser biológico é sujeito à variação do tempo, o poeta não” (Manoel de Barros)

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Crédito da foto: Divulgação/Família Barros

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5.1.14

O prefácio para a deusa

Quem seria tal bela deusa?
O ensinamento de todos os instrutores desconhecidos
contido numa gota de orvalho a escorrer
por uma folha verde da relva?

O fingimento do fingimento
do que deveras se sente
neste momento?

A imagem daquilo que é lembrado para sempre,
embora jamais haja existido aqui deste lado?

Aquilo que estivemos sempre a buscar,
mas que também nos busca?

A ânsia da Vida por si mesma?
O estar no coração do próprio Ser?
Diga, quem seria ela?
A deusa poesia?

Seria o espanto sem ofensas?
O querer crer que ao menos
alguma alma existe?
O estar por certo
que o amor persiste?

Seria o encontrar-se com toda a tristeza do mundo
na soleira de nossa porta,
para que conversemos juntos por toda a noitinha
e contemplemos a felicidade vir com a aurora?

Seria o morrer para si,
e o nascer para a vastidão da linguagem?

Talvez ela seja tudo isto...
Porém, estranho de se pensar:
Ainda creio que sobre ela era melhor nada haver dito,
já que o silêncio do olhar sempre falou por nós...

Este prefácio é somente a apresentação
de tudo aquilo que não deveria ter sido dito,
mas que não pude evitar
que irrompesse de meu ser
ante a infinita beleza de sua face,
face a face
com o que nunca teve face alguma.


raph'14

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Este poema constará no prefácio do próximo livro digital das Edições Textos para Reflexão. Desta vez, poemas de mim mesmo...

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9.5.13

Lançamento: Toda poesia de Alberto Caeiro

As Edições Textos para Reflexão voltam a publicar Fernando Pessoa, ou melhor, Mestre Caeiro. Em Toda poesia de Alberto Caeiro temos ao todo 3 livros – O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos –, além de diversos textos adicionais.

Um livro digital já disponível para o Amazon Kindle e o Kobo:

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Abaixo, segue um trecho da introdução do livro:

“A fonte da vida temporal é a eternidade. A eternidade se derrama a si mesma no mundo. É a ideia mítica, básica, do deus que se torna múltiplo em nós. Na índia, o deus que repousa em mim é chamado o habitante do corpo. Identificar-se com esse aspecto divino, imortal, de você mesmo é identificar-se com a divindade.

Ora, a eternidade está além de todas as categorias de pensamento. Este é um ponto fundamental em todas as grandes religiões do Oriente. Nosso desejo é pensar a respeito de Deus. Deus é um pensamento. Deus é um nome. Deus é uma ideia. Mas sua referência é a algo que transcende a todo pensamento. O supremo mistério de ser está além de todas as categorias de pensamento. Como disse Immanuel Kant, o filósofo alemão: a coisa em si é não coisa. Transcende a coisidade e vai além de tudo o que poderia ser pensado.

As melhores coisas não podem ser ditas porque transcendem o pensamento. As coisas um pouco piores são mal compreendidas, porque são os pensamentos que supostamente se referem àquilo a respeito de que não se pode pensar. Logo abaixo dessas, vêm as coisas das quais falamos. E o mito é aquele campo de referência àquilo que é absolutamente transcendente”.

O poder do mito (trecho), Joseph Campbell

Mestre Caeiro foi além da linguagem, e exatamente por isso, descascou a casca da metafísica, e demonstrou como toda poesia é sensação, sentimento e intuição, os frutos por detrás das cascas das palavras.

Segundo Pessoa, “a obra de Alberto Caeiro representa uma reconstrução integral do paganismo, na sua essência absoluta, tal como nem os gregos nem os romanos que viveram nele e por isso o não pensaram, o puderam fazer”.

Neopagão por excelência, mito de si mesmo, Mestre Caeiro, o único heterônimo de Pessoa que era reconhecido pelos outros heterônimos como mestre, nos traduz em seus poemas tudo aquilo que não pode ser traduzido... Isto tampouco é um paradoxo: é que se trata de uma linguagem para ser percebida pela alma, e não pelo cérebro.

De fato, “há metafísica suficiente em não pensar em nada”, ou seja, em simplesmente existir, e contemplar tudo isto que está a nossa volta. Toda a Eternidade apaixonada pela produção do tempo. Toda a Transcendência a velejar pelo horizonte. Toda a Natureza a bailar com a brisa que escora pelos ombros...

Seria inútil prosseguir nessa descrição do indescritível. Portanto, antes de lhes deixar na companhia de Caeiro, trago uma poesia ainda mais antiga e inefável, vinda da Pérsia (séc. XIII):

Além das ideias de certo e errado,
há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama,
o mundo está preenchido demais para que falemos dele.
Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um”
não fazem mais nenhum sentido.

Jalal ud-Din Rumi (poeta sufi)


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31.1.13

Declama-te

Tu que me lês...

Tu não és corpo
Sombra de vestes que lhe encobrem
Onde és profundo

Tu não és mente
Posta secretamente ao fundo
De um rio que corre eternamente

Tu não és sequer ser
Ou és?

Não me importa...
O que sei é que és assim infinito
Flutuando a margem da linguagem:
És ser
E não és ser

Ser é apenas uma palavra
Que só deve ser declamada
No silêncio da lavra

E o que cultivou dentro de ti?
O que descobriu, ó literato?
Diga-me se sabes dizer quem és...

Diga-me teu nome
Que eu lhe digo quem és tu!

Diga-me neste silêncio
Que em silêncio lhe responderei:

Tu és poema, ó questionador...
Finda dessa forma toda esta separação
Esqueça-te do esquecimento
Lembra-te do teu eu mais profundo:
Declama-te!

raph’13

Crédito da imagem: raph

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2.7.12

Onde vivem os deuses

Deus não se demonstra
Não está aqui ou ali
Não disse isto ou aquilo
Deus é uma experiência
Um pensamento antes da linguagem
Pois que não é uma palavra
Nem um conceito, nem uma ideia, nem uma filosofia...
Deus não é nada que possamos defender com palavras, com cascas de sentimento...
Deus é o puro sentimento
Deus não é o puro sentimento
Deus apenas é

“Ele passou por aqui” – diz-nos a testemunha
Passou pela alma, tal qual leve brisa a escorar pelo ombro...
“Onde foi agora?”
Para todo lugar
Para nenhum lugar

O agnóstico tem razão ao dizer que não podemos compreender a Deus, nem a existência de Deus...
Assim como os poetas não podem compreender a poesia, o amor...
O amor é como um pássaro fugidio
A sombra de uma nuvem – um leve acinzentado pairando pela paisagem
O animal fantástico, a Fênix!
Há muitos poetas-caçadores que tentaram captura-la, mas nenhum deles jamais trouxe a prova...
Nenhuma pena da Fênix para contar a história
Apenas a experiência
O deslumbre e o espanto
De observar a mais bela das aves a voar...
Mas, e onde estaria agora, para onde teria voado?

A ave do amor voou para além do horizonte da linguagem
A fronteira entre a sua terra e a terra do pensamento
Parece-nos intransponível...

Somente os poetas-loucos souberam construir essa tal ponte
Entre a razão e o amor
Em seus pensamentos há uma luz que brilha ainda antes que possam dizer:
“Estou pensando”
E então dizem o que não podem dizer:
“Estou pensando no amor”
“Estou pensando em Deus”

Há essa ponte entre duas terras:
A terra onde tudo está separado em pequenas caixas, como segredos hermeticamente fechados;
E a terra onde tudo jaz junto, unido, conectado...

O amor é a ponte
O amor é uma fonte
Deus está a aguardar na outra margem
Deus não está a aguardar na outra margem
Deus é uma experiência


raph’12

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» Parte da série "Mito da criação"

Crédito da foto: Peter Adams/JAI/Corbis (Angkor Wat, Camboja)

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24.6.12

Todas as guerras do mundo, parte 2

« continuando da parte 1

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... Que vos desprezam... Que vos escravizam... Que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! (Chaplin, em O Grande Ditador)

A doce e bela morte

A Coreia do Norte está situada na parte norte de uma península no extremo leste do continente asiático, entre a China e o mar que a separa da ilha do Japão. Como alguns devem saber, a península foi governada pelo Império Coreano até ser anexada pelo Japão, após a Guerra Russo-Japonesa de 1905. Ela foi dividida entre zonas de ocupação norte-americana (sul) e soviéticas (norte) em 1945, após o final da Segunda Guerra Mundial. A Coreia do Norte recusou-se a participar da eleição supervisionada pelas Nações Unidas, feita em 1948, que levava à criação de dois governos coreanos separados para as duas zonas de ocupação. Ambos, Coreia do Norte e Sul, reivindicavam soberania sobre a península inteira, o que levou-os à Guerra da Coreia, em 1950. Um armistício de 1953 terminou o conflito; no entanto, os dois países continuam oficialmente em guerra entre si, visto que um tratado de paz nunca foi assinado.

A Coreia do Norte se autodenomina uma república socialista, mas na prática sabemos que se trata de uma ditadura comunista que ficou presa ao passado, e tem enormes dificuldades de dialogar com um mundo cada vez mais globalizado. Em 2009, os quatro loucos aventureiros que apresentam o programa Não Conta Lá em Casa, do canal de TV a cabo Multishow, e costumam visitar áreas de conflito para nos trazer uma visão genuinamente brasileira da situação, conseguiram adentrar a Coreia do Norte valendo-se de sua “diplomacia sem noção”, como eles mesmos alegam. A despeito das cenas surreais que foram mostradas no programa, como as guardas de trânsito da capital Pyongyang fazendo sinais para um trânsito inexistente (quase não há carros lá), ou quando dedilham rock & roll no violão numa escola de música, e percebem que os adolescentes de lá nunca haviam ouvido coisa igual, a cena que nos interessa aqui é a conversa que eles têm com algum oficial de alta patente do governo ditatorial.

Devemos dizer que eles não são tão “sem noção” assim – surpreendentemente, quem inicia a conversa é o próprio militar, que parece ter uma curiosidade genuína em aproveitar aquele raro momento de contato com jovens vindos de um país tão distante, teoricamente neutro na questão das Coreias (no que também poderia ser interpretado como um perigoso interrogatório). Em todo caso, papo vai e papo vem, um de nossos heróis “sem noção” levanta a questão mais espinhosa sem papas na língua: “É sabido que a China protege os direitos da Coreia de fazer testes nucleares. É mesmo tão necessário fazer esses testes tão perto do Japão?”. O oficial então responde com sua versão dos fatos: “Você sabe que tivemos uma péssima experiência como colônia do Japão por mais de 40 anos. A Alemanha compensou todos os países que atacou, mas o Japão não compensou nada. Todas as 200 mil mulheres que eles usaram como escravas sexuais e os 8 milhões usados como força de trabalho... Eles torturaram nosso povo. Ao menos que eles compensem nosso país, nossa relação não irá melhorar. Nossos testes nucleares não visam atacar nenhum outro país, mas defender o nosso”.

Finalmente, o militar pergunta: “Qual a melhor maneira de resolver a tensão em nossa península?”. Ao que nosso sábio “sem noção” responde: “Acho difícil para um brasileiro responder essa pergunta, pois não temos tantos episódios de guerra recentes, como vocês têm. Eu poderia dizer – esqueçam o passado –, mas imagino que seja muito difícil”...

Não sei se concordam comigo sobre a importância desse tipo de diálogo, mas em todo caso ele toca na essência do que manteve tantas e tantas guerras ocorrendo pelo mundo, com breves intervalos de paz entre elas. De certa forma, todas as guerras do mundo são uma mesma guerra, e o que devemos é tratar de tornar os intervalos de paz cada vez mais duradouros.

A Guerra da Coreia não é propriamente um embate ideológico, mas uma luta por território e riquezas, como é afinal a razão de todas as guerras, mesmo as religiosas. O comunismo soviético e o capitalismo americano são apenas sistemas políticos, mas as nações não vão à guerra por achar que sua visão de mundo pode trazer benefício às nações vizinhas, seu real objetivo não é evangelizar ideologia alguma, mas pura e simplesmente conquistar mais território, e mais riquezas. Ao menos, é uma razão bastante simples de se compreender...

Mas, e qual é a melhor maneira de evitar que uma nação, necessitada ou não, invada outra em busca de riquezas? Ora, uma delas é estabelecer um claro equilíbrio de poder, onde o poderio militar de uma ou algumas nações forme uma ou mais potências muito superiores às demais, de modo que as outras nações se abstenham de arriscar invasões. O problema dessa “solução”, no entanto, é que ela não impede que as potências invadam outras nações, ou extraiam suas riquezas de forma autoritária (ou oculta, “maquiada” pela mídia). Uma solução que parece mais duradoura e, em todo caso, que é até hoje a melhor solução que os países encontraram, é estabelecer a diplomacia e um vigoroso mercado econômico entre as nações, de modo que a escassez de recursos de um país possa ser equilibrado pela venda de outros recursos que possua em excesso, e assim por diante... É claro que essa economia globalizada não é imune à manipulações, protecionismo, desequilíbrios e injustiças sociais, mas ao menos é muito melhor do que sangue, tiros de canhão e bombas nucleares.

O que um longo período de paz entre as nações pode nos permitir, entretanto, é que percebamos que, afinal, não existem nações, e que no fundo, todos nós somos bastante parecidos, quando estamos abertos para uma conversa amigável, amistosa, e quem sabe, “sem noção”. Fosse um dos quatro apresentadores do Não Conta Lá em Casa um descendente de japoneses que migraram ao Brasil após a Segunda Guerra, ele provavelmente teria enormes dificuldades em ter uma conversa tão amistosa com o oficial coreano. Mas, que impediria tal amistosidade, senão sua aparência nipônica, senão a pressuposição do coreano de que aquele brasileiro faria parte da “nação japonesa”, a mesma que estuprou suas mulheres e torturou seu povo há sabe-se lá quanto tempo? Tampouco o oficial nalgum dia refletiu sobre o fato de que, após a rendição do Japão aos EUA, eles ficaram proibidos de sequer ter um exército, e que por isso mesmo faz muitos anos que não nasce no Japão alguém que tenha qualquer coisa a ver com os estupros e torturas de quase um século atrás. O que mantém essas chagas abertas, afinal? O mito das nações!

Este é exatamente o título do livro de Patrick J. Geary [1], historiador americano, que basicamente defende a tese de que uma nação é um construto intelectual, ideológico, e não tem bases naturais nem tampouco científicas. Não é tão difícil de entender: assim como hoje vemos negros jogando em times de futebol de países europeus, pois são filhos de africanos que migraram para a Europa há décadas, e, portanto, já nasceram nos países que defendem, da mesma forma que ocorre no futebol, ocorre em tudo o mais. Se a nação fosse algo natural, deveriam haver raças no mundo, e os habitantes de um dado país europeu deveriam ser descendentes diretos dos ancestrais que colonizaram aquela dada região há milhares de anos atrás. Porém, a ciência e arqueologia modernas, juntamente com os testes de DNA, já provaram que só existe uma única raça humana, o homo sapiens, e nos deram fortes indícios de que ela provavelmente originou-se em alguma parte do continente africano, e depois migrou para toda a Terra. Se vamos falar em nação da maneira que Hitler e outros ditadores falavam, só podemos falar numa nação global, composto por todos os países e todas as regiões onde ainda caminham os homo sapiens.

Segundo Geary, “o processo específico pelo qual o nacionalismo emergiu [nos últimos séculos] como uma forte ideologia política variou de acordo com a região, tanto na Europa como em outras partes. Em regiões carentes de organização política, como na Alemanha, o nacionalismo estabeleceu uma ideologia com o fim de criar e intensificar o poder do Estado. Em Estados fortes, como França e Grã-Bretanha, governos e ideólogos suprimiram impiedosamente línguas minoritárias, tradições culturais e memórias variantes do passado em prol de uma história nacional unificada e língua e cultura homogêneas, que supostamente se estendiam a um passado longínquo”. E, não se enganem, “o ensino público de qualidade” também sempre foi à ferramenta ideal pela qual o mito das nações foi construído na era moderna... Hoje, porém, ele talvez não faça mais sentido, mas não significa que os currículos escolares estejam sendo atualizados.

***

Antes de encerrar, porém, devemos tomar cuidado com os termos aqui utilizados. Reflitamos... Nação, do latim natio, de natus (nascido), é a reunião de pessoas, geralmente do mesmo grupo étnico, falando o mesmo idioma e tendo os mesmos costumes, formando assim, um povo, cujos elementos componentes trazem consigo as mesmas características étnicas e se mantêm unidos pelos hábitos, tradições, religião, língua e consciência nacional.

Pois bem, esta é uma definição que pode se adequar as enciclopédias, mas não ao mundo real. Da mesma forma que um jogador negro da seleção de futebol alemã pode não ter a mesma cultura, a mesma religião, e muito menos a mesma cor de pele da maioria dos outros jogadores, ele é, não obstante, um alemão. Quando ele marca um gol, são todos os alemães do estádio que comemoram, todos os homo sapiens que decidiram torcer por aquele time de futebol. E assim é com tudo o mais: no fundo, tanto a seleção alemã quanto o Bayern de Munique são apenas times de futebol. É tão somente uma ilusão ideológica que determina que os times da Copa do Mundo precisam ter apenas jogadores nascidos ou naturalizados nesta ou naquela região do globo. Ninguém nunca viu uma fronteira na face da terra – mesmo assim, em nossas mentes, elas ainda existem.

Talvez fosse mais proveitoso usarmos outro termo... Pátria, do latim patria (terra paterna), indica a terra natal ou adotiva de um ser humano, onde se sente ligado por vínculos afetivos, culturais e históricos. O termo também pode significar somente o ambiente ou espaço geográfico em que discorre nossa vida. Em raízes ainda mais antigas, o termo liga-se ao latim pagus, que significa “aldeia”, e que também deu origem ao termo “pagão”. Ora, como muitos devem saber, toda nossa cultura e religião ancestrais nasceram de aldeias, e xamãs, e as práticas espirituais do paganismo. Além de anteceder a “nação” em milhares de anos, o termo ainda nos oferece a liberdade de considerar que nossa pátria não é somente o lugar onde nascemos, mas também todos os locais onde escolhemos um dia morar, e todos os amigos, e todos os amores que construímos pelo caminho.

Dulce et decorum est pro patria mori... Horácio [2] talvez estivesse certo: pode ser belo e doce morrer pela pátria, defendendo aqueles que realmente amamos daqueles que os querem dizimar; E não propriamente lutando em guerras supostamente ideológicas, baseadas em mitos acerca de povos que nunca foram exatamente o nosso, nos incitando a matar inimigos que, tampouco, jamais foram os nossos. Apenas para que um opressor obtenha o território e as riquezas de outro opressor.

A mais nobre função de um soldado é lutar pela paz, e pela liberdade daqueles que se encontram atrás dos muros dos castelos e das trincheiras nas fronteiras imaginárias. Até que um dia, muros e fronteiras, e balas e canhões, não tenham mais razões de ser. Esta sim, é a única beleza possível da guerra, seja na vitória, seja na morte.

» Na próxima parte, a estrela inimiga...

***

[1] O mito das nações, lançado no Brasil pela Conrad Editora.

[2] Poeta e filósofo romano (65 a.C. – 8 a.C.).

Crédito das imagens: [topo] Divulgação (apresentadores do NCLC na Coréia do Norte); [ao longo] Divulgação (Cacau, jogador brasileiro naturalizado alemão, comemora seu gol na Copa do Mundo de 2010, quando defendeu a seleção da Alemanha); Google Image Search/Anônimo

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23.5.12

Os corvos de Wotan, parte 4

« continuando da parte 3

Bran estava caindo mais depressa do que nunca. As névoas cinzentas uivavam em seu redor enquanto mergulhava para a terra, embaixo. “O que você está me fazendo?” – [Bran] perguntou ao corvo, choroso. Estou lhe ensinando a voar.
“Não posso voar!”. Está voando agora mesmo. “Estou caindo!”. Todos os voos começam com uma queda, disse o corvo. Olhe para baixo. “Tenho medo...” OLHE PARA BAIXO!
Bran olhou para baixo e sentiu as entranhas se transformarem em água. O chão corria agora em sua direção. O mundo inteiro espalhava-se por baixo dele, uma tapeçaria de brancos, marrons e verdes. Via tudo com tanta clareza que, por um momento, se esqueceu de ter medo. Conseguia ver todo o reino e toda a gente que nele havia.
[...] Agora você sabe, sussurrou o corvo ao pousar em seu ombro. Agora você sabe por que deve viver.

(Trechos das páginas 120 e 121 de A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin. Publicado no Brasil pela Editora Leya).

Dentre as inúmeras e intrincadas histórias contadas por George R. R. Martin em seu épico As crônicas de gelo e fogo [1], a aventura de Bran, o menino aleijado que, não obstante, parece destinado a se tornar um grande xamã, está certamente entre as de maior importância para a trama geral. Ora, a imagem da própria família de Bran, os Stark de Winterfell, já nos remete a elementos nórdicos, mas será que Martin estudou apenas as descrições de experiências xamãnicas, ou ainda neste caso podemos falar em alguma influência do mito de Odin?

Ora, como eu já havia dito, Odin é também um deus de muitos nomes, e muitas facetas. Boa parte das mais de 200 denominações a Odin estão ligadas, pela raiz (no nórdico arcaico), às palavras vada e od, e, no antigo alto alemão, a Watan e Wuot, que significavam a princípio razão, memória ou sabedoria [2]. Há ainda a palavra Óðr (também do nórdico arcaico) que está mais diretamente associada à deusa Freyja (uma deusa dos vanir, que posteriormente foi associada à Odin como sua esposa), mas que também deu origem ao próprio nome “Odin”, e que poderia significar: mente, alma, espírito, além de poesia e inspiração artística.

O nome de Odin que mais nos interessa, no entanto, para esta associação com o corvo de três olhos dos livros de Martin, é o que deriva do nórdico arcaico Hrafnáss, ou do germânico latinizado Hrafnagud, ou seja: The Raven God, O Deus Corvo. Sabemos que Odin está intimamente ligado aos corvos, tanto que possuí dois corvos muitos especiais (dos quais falarei a seguir); além disso, sabemos que um olho em meio à testa, entre nossos dois outros olhos, significa o olho da mente, o olho da alma: o sentido pelo qual o xamã percebe o mundo espiritual... Ora, o primeiro ato de iniciação de Bran [3], nos livros de Martin, é exatamente ser bicado pelo corvo bem no meio dos olhos, e na altura da testa. Logo após o garoto acorda e acha que tudo “não passou de um sonho estranho”, mas no decorrer dos livros sabemos que não foi bem assim, não é mesmo?

Huginn e Muninn
Por causa de seu voo alto, o corvo foi, muitas vezes, visto como um mensageiro dos deuses. Inúmeras histórias, de diferentes partes do mundo, falam-nos de como um corvo orientou humanos em suas jornadas. Por exemplo: segundo uma tradição, foram corvos que orientaram os beócios rumo ao lugar em que deveriam fundar uma nova cidade – a Beócia. Teriam sido eles que, também, guiaram Alexandre o Grande, até o templo de Júpiter Amon, no oásis de Siwa, no Egito (e que, lá, predisseram sua morte). O imperador japonês Jimmu, teria marchado para a guerra, no século VII, guiado por um corvo dourado. Um corvo era o mensageiro do Rei Marres, do Egito... E as histórias assim se seguem.
Mas é exatamente na mitologia nórdica que o corvo está ainda mais diretamente associado à magia. Diz-se que o voo do corvo simboliza a viagem espiritual, através do Grande Mistério, onde ela se torna igualmente desejada e perigosa, pois pode tanto trazer a iluminação quanto a loucura, dependendo do cuidado com que é realizada. Obviamente isso tudo tem a ver, claramente, com o xamanismo.
Odin possui então esses dois corvos, Huginn e Muninn, cujos nomes significam, no nórdico arcaico: pensamento (Huginn) e memória (Muninn, que também pode significar mente). Diz-se que, todos os dias, enquanto Odin cuida de seus afazeres como governante de Asgard, seus corvos sobrevoam todo o mundo e depois retornam, na calada da noite, para se empoleirar em seu ombro e lhe cochichar tudo o que virem e ouviram. Dessa forma, o Granda Xamã conseguia manter-se bem informado de todos os eventos, e todos os segredos do mundo, enquanto governava seu grande reino mítico.
Mas, o que é mais extraordinário nesta história, e o que a liga ainda mais profundamente ao xamanismo antigo, é o medo que Odin tinha de que seus corvos não retornassem de seus voos diários... Há um trecho da Edda Poética que fala exatamente dessa tal característica tão humana do deus nórdico:

Huginn e Muninn voam a cada dia
Sobre os grandes espaços de Midgard [4]
Eu temo por Huginn, que ele não consiga voltar,
Mas fico ainda mais ansioso pelo retorno de Muninn [5]

Me parece que esse é o mesmo medo de todo o xamã iniciante, de todo aquele que mergulha no Grande Mistério da própria alma, e teme se perder de seu corvo guia, e nunca mais encontrar o caminho de volta. Trata-se de uma belíssima metáfora não somente para a própria arte da magia, como para todo o risco que ela envolve... Ainda assim, Odin é o Grande Xamã, não mais habita nosso mundo (Midgard), mas o mundo espiritual (Asgard), e mesmo assim, mesmo do alto de toda sua sabedoria, ele ainda temia perder seus corvos. Mesmo um deus teme perder sua memória, e seu pensamento – sem estes, ele reduz-se a nada, ou quase nada. Um deus louco não é muito mais do que um xamã louco...

***

Através desta nossa curta, porém espiritualmente profunda, viagem pelo mito de apenas um único deus, quantos ecos ocultos de nossa história não parecem ter vido a tona...

Não tenho dúvidas de que, assim como Odin, todo grande deus, todo grande mito, um dia foi homem: um grande e feroz guerreiro, um exímio caçador cuja lança jamais errava o alvo, um xamã ancião que intercedia no mundo espiritual para proteger e guiar sua tribo ou, quem sabe, apenas mais um que contemplou as estrelas, e tornou-se um artista, um poeta. Nossos mitos mais grandiosos provavelmente são as histórias das vidas de grandes homens e mulheres, mescladas com nosso temor e fascinação pelas forças da natureza, e com os aspectos psicológicos – nossas mais belas e profundas reflexões acerca do porque, afinal, estamos aqui neste mundo.

Eis porque nós mesmos também somos da raça dos deuses, e porque todos, deuses e homens, nada mais são do que emanações da Alma do Mundo, do Grande Mistério, do Oceano que somente alguns de nós se arriscaram até hoje em mergulhar, e de lá trouxeram as mais belas e aterrorizantes interpretações daquilo de oculto que sentiram – mas que, claro, seria impossível traduzir em palavras, em linguagem cognoscível.

Interessante como iniciamos este relato de Odin através das histórias em quadrinhos, onde o mito está mais diluído, mas é exatamente um escritor de quadrinhos que nos traz, atualmente, uma das definições mais completas da grande viagem dos corvos: “Magia é arte, a arte. E essa arte, seja a escrita, a música, a escultura ou qualquer outra forma, é literalmente magia. A arte é como a magia, a ciência de manipular símbolos para operar mudanças de consciência” – define Alan Moore no genial The Mindscape of Alan Moore.

Toda a arte nasceu da mitologia. A pintura e a gravura nasceram na arte rupestre, pré-histórica, xamãnica. A música também se desenvolveu conjuntamente com os rituais religiosos ancestrais. Mesmo o teatro surgiu na Grécia antiga, quando os cultos ao deus Dionísio acabaram evoluindo para peças teatrais onde os atores, tal qual aos xamãs, vivenciavam aos mitos. Já a poesia, é pura magia posta em palavras... É exatamente por isso que a magia é a arte, a primeira arte, pois foi através dela que nossos ancestrais puderam transportar suas ideias e pensamentos, seus símbolos, para este nosso mundo de carne e osso. E o que é a mitologia senão o arcabouço simbólico de toda a nossa arte?

Sob um ponto de vista, você poderá dizer: “poxa, mas a magia é apenas isso?”; ou poderá dizer, sob outro ponto de vista: “puxa, mas então a magia é tudo isso!”. O seu ponto de vista dependerá tão somente da altura na qual seus corvos conseguem voar...

***

Há muito Heimdall não ouvia aquele pio tão familiar... De fato, há muitas eras nada se mexia – animal, homem ou deus – na ponte Bifröst; de modo que seu fogo havia quase se apagado, e suas cores se mesclado num acinzentado triste. “Eram os corvos”, o antigo guardião jamais se confundiria com tais sons, ainda que fosse difícil os escutar com o ouvido decepado, mergulhado na mesma fonte em que seu Senhor havia deixado um de seus olhos.

Soerguendo-se lentamente – algo que não fazia há gerações –, Heimdall tentou soprar seu berrante, mas faltou-lhe ar nos pulmões, e as aves negras adentraram a clausura dos deuses sem serem sequer anunciadas...

Não era necessário. Asgard estava morta, e todos os seus deuses e semideuses dormiam, algo que ansiavam há muito fazer. Há muitas eras nenhum pensamento chegara até ali, nenhuma invocação, nenhum pedido de boa colheita, nem mesmo um agradecimento... O Deus Corvo e sua linhagem estavam esquecidos, como estátuas antigas em meio à paisagem, das quais ninguém mais lembrava para que serviam, ou o que representavam...

Ainda assim, enraizado em seu trono, coberto pelo denso metal de sua ainda reluzente armadura, Odin dormia por detrás de sua extensa barba, branca como a neve do inverno. Quando o primeiro corvo pousou em seu ombro, foi o medo que o fez abrir lentamente o único olho que lhe restava: “Huginn está aqui, ele voltou, finalmente! Mas, onde está o outro, onde está Muninn?”

Seu outro corvo pousou imediatamente no outro ombro, e juntos eles lhe relataram tudo o que viram e ouviram nos últimos séculos, e sobre como o povo de Midgard, apesar de tudo o que foi dito a seu respeito, ainda o respeitava. E como, ainda hoje, alguns deles ainda tocavam as pedras antigas, e ainda invocavam a magia dos corvos... Foi então que, após tantas e tantas eras, o Grande Xamã sorriu uma vez mais, despiu-se de sua couraça metálica e, apanhando a mesma antiga capa com que perambulava pelo mundo ainda antes das civilizações, pôs-se a caminhar uma vez mais. Em sua mente, ecoavam os antigos sons que as pedras faziam...


Sigur Rós – Odin’s Raven Magic (ao vivo em Reykjavík/Islândia, 2002)

***

[1] Apesar de ainda incompleta, os livros já publicados da série (5 de prováveis 7, ao todo) já inspiraram uma legião de fãs, e uma excelente série de TV produzida pela HBO, canal a cabo americano. A melhor (e ao mesmo tempo pior) coisa que podemos falar de Martin é que “ele é o novo Tolkien”: melhor, pois realmente se trata de um dos grandes escritores de literatura fantástica das últimas décadas; pior, pois o seu estilo literário quase nada tem a ver com o de Tolkien, sendo bem mais ancorado na história “real” do que na mitologia em si.

[2] Mais tarde tornaram-se equivalentes a tempestuoso ou violento, sentido que os cristãos faziam empenho de acentuar, procurando depreciar a figura do deus nórdico.

[3] Em gaélico antigo a palavra “bran” significa exatamente “corvo”. Há também um gigante gaulês antigo chamado Bran o Abençoado, que em sua mitologia foi o rei de toda a Bretanha, e que também era associado à imagem do corvo. Martin provavelmente também se interessou pela mitologia celta.

[4] Na mitologia nórdica Midgard é a Terra (este mundo), portanto Odin permanecia em Asgard, mas seus corvos sobrevoavam o nosso mundo.

[5] Traduzido da interpretação (em inglês) de Benjamin Thorpe, conforme aparece na Wikipedia.

Este post foi publicado numa quarta-feira...

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Crédito das imagens: [topo] Daaria (Bran e o corvo de três olhos); [ao longo] Google Image Search (Odin e seus corvos)

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22.3.12

Comentário: o que é Deus?

Comentário das respostas da pergunta “o que é Deus?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Alguns leitores se perguntaram qual seria a minha própria resposta para esta e outras perguntas da série, mas a minha intenção não era propriamente responde-las (até mesmo porque algumas delas não têm exatamente uma resposta), e sim iniciar uma reflexão, uma nova gama de pensamentos, um debate proveitoso e respeitoso sobre os temas que, por alguma estranha razão, volta e meia são taxados de polêmicos. Às vezes, até mesmo de tabus.

Com o tempo, eu passei a compreender em parte o motivo pelo qual a maioria das pessoas se sente desconfortável quando alguém chega para elas e diz: “Deus é assim”; ou “Deus é desse jeito”; ou “Aceite Deus como dizemos que é, e será salvo”; ou até mesmo “Não existe Deus, não creia nessa grande bobagem”... Talvez seja mais simples me fazer entender evocando a própria linguagem, pois é afinal apenas através dessas cascas de sentimentos, as palavras, que tentamos compreender e nos comunicar uns com os outros. E a linguagem é muito proveitosa e útil em inúmeros casos – é sempre bom falarmos em “rua” e “avenida” quando queremos saber de algum endereço; ou em “comida” e “restaurante” quando estamos famintos no meio da cidade. Em outros casos, entretanto, a linguagem nem sempre é o suficiente – falamos em “liberdade”, “disciplina”, “justiça”, “Deus”, etc., e as pessoas prontamente pensarão nos conceitos (subjetivos) mais distintos, em alguns casos até mesmo opostos uns dos outros.

Substituamos, então, a palavra “Deus” por “amor”, e temos afirmações desse tipo: “O amor é assim”; ou “O amor é desse jeito”; ou “Aceite o amor como dizemos que é, e será salvo”; ou até mesmo “Não existe o amor, não creia nessa grande bobagem”... Sim, é um exercício proveitoso, mas devemos tomar cuidado com esse jogo de linguagem. Se, por um lado, cada um tem sua própria visão de Deus, e do amor, e do Cosmos, e da vida, e da natureza, etc., há uma boa razão para todas essas palavras terem sido nalgum dia criadas, e não serem uma mesma ideia, um mesmo conceito. Não são. O que eu queria dizer ao associar Deus com o Cosmos ou, agora, com o amor, não é que tais conceitos são a mesma coisa, mas pelo contrário: que assim como cada um tem sua própria visão deles, mesmo quando falamos em uma só palavra – “Deus” –, ainda assim essa divergência, essa interpretação subjetiva, própria de cada um, persiste.

É exatamente por isso, por não existir um único Deus enquanto conceito, mas sim o Deus de cada um, que eu aprendi que é bem melhor iniciar uma conversa sobre este assunto com uma pergunta, e jamais com uma afirmação: pergunte “o que é Deus para você?”, mas jamais diga “Deus é desse jeito” ou “Deus existe” ou “Deus não existe”... Depende de cada um, de cada visão específica do Cosmos sobre si mesmo – nenhuma digital em 7 bilhões é igual, nenhuma mente é igual, nenhuma crença (subjetiva) é igual. Os radicais e dogmáticos são aqueles que pretendem que acreditemos que todos podem efetivamente pensar igual, num mesmo conjunto de regras morais infalíveis, seguindo manuais de verdades absolutas – mas a única verdade absoluta que existe é que existe algo, e não nada. O resto, todo o resto, é apenas derivado desse fato extraordinário, desse mistério inefável, infinito: existe algo, isto tudo a nossa volta, isto tudo dentro de nossa mente, é parte disso, é parte do Cosmos, é parte de Deus, não é nada, jamais foi ou será nada...

Mas, então, não estamos realmente falando do Deus antropomorfizado, reduzido a nossa semelhança, que parece ter personalidade e desejos específicos, que parece ser um ser, um deus pessoal. Estamos nos aventurando a um infinito maior, a origem de todas as coisas, ao que mantém a ordem e harmonia de todo o Cosmos, da mais ínfima informação subatômica ao mais vasto agrupamento de galáxias a vagar pelo tecido do espaço-tempo. Estamos falando de uma força, ou de várias forças irradiadas de uma só. Estamos falando de um Deus que parece ser um Todo, um deus impessoal, incriado, mas que tudo mais irradiou a partir de si.

E, se ao engendrar o conceito de tal Deus substância, a substância que não pode criar a si mesma, Espinosa se preocupou em estabelecer um Deus em oposição aos demais, isso até tem sua relevância, mas é muito pequeno perto da magnitude de nos aventurarmos nessa viagem, nesse caminho de horizonte sem fim, dessa tentativa de sondar a mente do Cosmos. Podemos dizer, sem dúvida, que aqueles que creem nesse Deus-Substância são em realidade ateístas, pois o próprio termo “ateísmo” admite inúmeras interpretações. Mas não podemos imaginar que apenas um rótulo incerto como esse (“ateísta”, “espinosista”, “panteísta”, que seja!) sirva para que ignoremos o assunto, evitando ter de nos aproximar do pensamento alheio, como se o pensamento alheio fosse alguma espécie de vírus capaz de nos afetar as ideias e nos fazer abandonar nossas próprias crenças ou descrenças.

Quem sabe, afinal, o que é Deus? Seja uma entidade descrita por livros infalíveis, seja um conceito filosófico além de nossa atual compreensão, seja um grande acaso cósmico, nada disso é definitivo, pois nada disso encerra a ideia. A única coisa de que sabemos é que ainda não sabemos responder a tal pergunta e, segundo os agnósticos, talvez jamais possamos respondê-la. Mas, alguns de nós também sabem de outra coisa, que passa desapercebida da maioria: que quem têm de responder somos nós, juntos!

Se vamos usar a Deus como um Deus-Barreira, se interpondo entre aqueles que pensam como a gente, e aqueles que discordam de nós, estaremos fazendo, talvez, o uso mais vil e pernicioso deste conceito tão abrangente, infinito, iluminado... Melhor seria aprender com Espinosa (e Einstein, e os estóicos) e imaginar um Deus-Substância a irradiar-se por tudo o que há, que foi, e será. Um Cosmos que talvez tenha mesmo possibilitado a vida consciente para que a própria consciência pudesse visualizar esta luz, esta beleza, esta harmonia infindável. É pensando nisso que nos conectamos a eternidade. É pensando nisso que despertamos, passo a passo, nossa intuição, nossa consciência, nosso amor... É pensando nisso, enfim, que percebemos quanta felicidade, quanta alegria, quanta sabedoria, nos esperam no caminho de volta.

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» Veja também o artigo "Teísmos e ateísmos", que foi escrito inspirado por esse debate.

» Ver todos os posts desta série


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Crédito da foto: APOD

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26.2.12

Da mitologia a psicologia, parte 1

Texto de Joseph Campbell em "O herói de mil faces” (Ed. Cultrix/Pensamento) – pgs. 251 a 255. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. As notas ao final são minhas.

O intelectual moderno não encontra dificuldades em admitir que o simbolismo da mitologia se reveste de um significado psicológico. [...] Com a descoberta de que os padrões e a lógica do conto de fadas e do mito correspondem aos do sonho, feita pelos grandes psicanalistas [1], as quimeras há muito desacreditadas do homem arcaico voltaram, de modo dramático, ao plano principal da consciência moderna [2].

Nos termos dessa concepção, há razões para crer que, através dos contos maravilhosos – cuja pretensão é descrever a vida dos heróis lendários, os poderes das divindades da natureza, os espíritos dos mortos e os ancestrais totêmicos do grupo –, é dada uma expressão simbólica dos desejos, temores e tensões inconscientes que se acham subjacentes aos padrões conscientes do comportamento humano. Em outras palavras, a mitologia é psicologia confundida com biografia, história e cosmologia [3]. O psicólogo moderno tem condições de retraduzi-la em suas denotações próprias e, desse modo, recuperar para o mundo contemporâneo um rico e eloquente documento das camadas mais profundas do caráter humano.

[...] Devemos notar que os mitos não são passíveis de uma comparação exata com os sonhos. As figuras dos mitos dos sonhos têm as mesmas fontes de origem – os poções inconscientes da fantasia –, assim como a mesma gramática; contudo, os mitos não são produtos espontâneos do sono. Pelo contrário, seus padrões são conscientemente controlados. E sua função conhecida consiste em servir como poderosa linguagem pictorial para fins de comunicação da sabedoria tradicional. Isso já se aplica, inclusive, às chamadas mitologias folclóricas primitivas. O xamã suscetível ao transe e o sacerdote-antílope iniciado não carecem de sofisticação em seu conhecimento do mundo, nem são inábeis na utilização dos princípios da comunicação por meio a analogia [4]. As metáforas pelas quais vivem e por meio das quais operam foram objeto de longa meditação, de pesquisas e de discussão ao longo de séculos – ou mesmo milênios [5]; além disso, serviram a sociedades inteiras como as principais bases do pensamento e da vida.

Os padrões culturais foram moldados a elas. Os jovens foram educados, e os anciãos se tornaram sábios, por intermédio do estudo, da experiência e da compreensão de suas efetivas formas iniciatórias [6]. Pois essas metáforas na realidade tocam e põem em jogo as energias vitais de toda a psique humana. [...] Onde os símbolos herdados receberam o toque de um Lao-tsé, de um Buda, de um Zoroastro, de um Cristo ou de um Maomé – empregados, por um mestre consumado do espírito, como veículo da mais profunda instrução moral e metafísica –, estamos, evidentemente, na presença de uma imensa consciência, e não diante das trevas.

Por conseguinte, para perceber o pleno valor de que se revestem as figuras mitológicas que chegaram até nós, faz-se necessário compreender que elas não são, tão somente, sintomas do inconsciente (como o são efetivamente todos os pensamentos e atos humanos), mas também declarações controladas e intencionais de determinados princípios de cunho espiritual, que permaneceram constantes ao longo do curso da história humana, como a forma e a estrutura nevrálgica da própria psique humana.

Em termos sucintos: a doutrina universal ensina que todas as estruturas visíveis do mundo – todas as coisas e seres – são o efeito de uma força ubíqua de que emergem, força essa que os sustenta e preenche no decorrer do período de sua manifestação e para qual eles devem retornar quando de sua dissolução última. Trata-se da força que a ciência conhece como energia [7], os melanésios como mana, os índios sioux como wakonda, os hindus como shakti e os cristãos como o poder de Deus. Sua manifestação na psique é denominada, na psicanálise, libido. E sua manifestação no cosmo constitui a estrutura e o fluxo do próprio universo.

» A seguir, a fórmula do ciclo cosmogônico...

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[1] Campbell cita alguns: Sigmund Freud, Carl G. Jung, Wilhelm Stekel, Otto Rank e Karl Abraham.

[2] Primeiro o racionalismo relegou toda mitologia arcaica há mera superstição, porém, ao se deparar com os mistérios da mente humana, foi obrigado a elaborar teorias acerca não somente da origem dos mitos na pré-história, como da razão de eles permanecerem “vivos” até os dias atuais. Enquanto o próprio Campbell, com sua teoria do Monomito, teoriza que toda a mitologia humana se concentra em ideias universais da psique, Jung fala em um Inconsciente Coletivo, e mesmo Dawkins elaborou o conceito dos Memes. Nenhuma dessas teorias é “comprovada”, mas alguns dos materialistas eliminativos, a despeito de sequer acreditarem na existência de uma mente humana, curiosamente adotaram os Memes como uma “teoria quente”.

[3] Os heróis lendários de outrora hoje nada mais são do que os super-heróis e “jovens bruxos” da mitologia moderna, que embora movimente muito dinheiro na indústria do entretenimento mundial, nada mais são do que mitos “diluídos”, para que a sociedade “racionalista” os possa “apreciar” sem pensar muito acerca da própria existência – ou, talvez fosse possível resumir: sem pensar quase nada, sem refletir.

[4] Por serem incapazes de compreender metáforas, alguns ditos “racionalistas” prontamente classificaram as pinturas rupestres como “arte primitiva, sem grande significado”. Mas, como alguns antropólogos modernos têm descoberto, em realidade as pinturas nas cavernas eram plenas de significados que, a despeito de terem permanecido ocultos para nós por praticamente um século (desde a descoberta das cavernas), não significa, obviamente, que eram incompreensíveis para nossos ancestrais. Sobre o assunto, recomendo o monumental Sobrenatural, de Graham Hancock (Nova Era).

[5] Existem registros de pinturas rupestres com pelo menos 32 mil anos de idade (vide nota acima).

[6] Hoje em dia é muito simples armazenar e divulgar informações, mas na pré-história nossos sábios ancestrais eram obrigados a confiar apenas na memória, na tradição oral e em alguns parcos registros pictóricos em cavernas guardadas aos iniciados. Não porque se tratasse de uma “elite” que queria guardar o conhecimento para si, mas exatamente o oposto: por se tratar de seres que tanto valorizavam o conhecimento, que os “inseriam” na mitologia, pois que sabiam que apenas a mitologia iria sobreviver àqueles tempos inóspitos (inclusive antes da invenção da escrita).

[7] No princípio era tudo energia, se existe um conceito em que tanto a cosmologia moderna quanto a religião concordam é que tudo o que há surgiu nalgum tempo muito longínquo de uma singularidade misteriosa – de fato, fez-se a luz!

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Crédito da imagem: PoodlesRock/Corbis (Hércules enfrenta o monstro enviado pelo Rei Minos, mitologia grega)

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7.12.11

Adão e Eva em Nova Iorque

Um conto para quem entende metáforas. Por Lisa Lipkin (*). Baseado no Gênesis 2:16-17 – E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: de toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

E Deus, por ser um romântico incorrigível, sabia que a vida não teria graça alguma sem lua. Então, Deus fez a lua, que brilhou no céu. Mas Deus precisava de algo para uivar para ela, então Ele criou o coiote. Ainda tentou várias formas para esse animal e finalmente acabou por criar o cachorro. Mas o cachorro precisava de algo para perseguir, então Deus fez o gato, que era muito travesso e encantador, e Deus gostou tanto dele, que criou uma versão maior, o tigre.

E uma outra versão ainda maior, o leão... e depois o elefante... e o dinossauro. Depois de criar os animais maiores, Ele fez os menores: formigas, gafanhotos, abelhas, mosquitos. E como Deus sabia que um dia haveria um lugar que se chamaria Nova Iorque, fez também as baratas. Mas a lua parecia tão solitária no céu, que Ele criou as estrelas para fazer companhia para a lua. E elas brilhavam e piscavam perto da lua.

Elas eram tão encantadoras, que Deus quis criar algo que fosse especial e que pudesse compreender e apreciar sua beleza. E foi aí que Ele inventou o homem. Um cara bonito chamado Adão, cujos olhos grandes absorviam cada demonstração de vida. Mas, honestamente, por quanto tempo Adão poderia ficar balançando nas árvores, alimentando os macacos ou levando os cães para passear? Ele estava ficando entediado. Ele estava ficando só. Então, numa certa noite, Adão fez um desejo para as estrelas. Ele disse: “Eu gostaria de ter uma companheira humana. Alguém com quem eu possa compartilhar esse lindo lugar, alguém para tomar sol em Miami”.

E foi aí que Eva apareceu na história. Ela era adorável e os dois se deram muito bem. Assim Adão deixou de se sentir só. O casal brincava de esconde-esconde, pular sela e mexe-mexe. Corria pelos gramados sensuais, dançava entre as rosas e os amores-perfeitos, e afundava os dedos dos pés no solo úmido orvalho esmeralda. Adão se divertia com a companhia de Eva e vice-versa, e esse paraíso glorioso se chamava Éden. Até que um dia, uma coisa terrível aconteceu.

Adão tinha ido buscar alimento para o jantar e Eva estava sentada em uma pedra, cantarolando uma alegre canção, quando de repente, ela foi interrompida por uma serpente prata sedutora, com um vibrato como de Mae West, que surgiu sorrateiramente por detrás de uma árvore. “Sssshhhh oi, querida. O que você está cantando?”.

“Oh, é uma simples canção”. As palavras de Eva mal tinham saído de sua boca quando a serpente deslizou para perto dela e disse: “Sssssshhh, Eva, Por que você não vem comigo, ao invésssss de ficar aí cantando?”. Como o flautista, cuja música atraiu rapazes ingênuos para a guerra, Eva se sentiu seduzida pelos sons da serpente. Ela seguiu a serpente por detrás de uma árvore alta e fina, e ficou chocada com o que viu. A serpente estava parada do lado de um computador Apple verde, novinho em folha e brilhante. “Ssssshhh, e aí, querida, por que você não experimenta usar esse Apple?”. A serpente ajeitou um toco de árvore perto do computador para Eva sentar. Eva nunca tinha visto um teclado antes e não sabia o que fazer primeiro.

Cuidadosamente, ela apertou uma tecla, e depois outra e depois outra e outra e outra. Cada vez mais rápido, o ritmo foi-se acelerando! Em questão de minutos, ela tinha aprendido a mexer no Word perfect 6.2, digitar uma lista de mil e-mails e enviar um fax. Resumindo, Eva estava obsecada.

De volta ao bosque, Adão estava preocupado com sua amada. Ele não poderia imaginar para onde ela fora. De repente, ele também se sentiu atraído pelo chamado da serpente, que o levou até onde estava Eva, distraída com um software. “Ei, Eva, aqui é o Adão, o seu homem! Estava preocupado com você. Onde você estava?”. Mas Eva não queria conversar. “Quieto, Adão, estou ocupada. Estou programando o computador para calcular a quantidade máxima de produtos que podemos cultivar no menor raio possível. Além disso, achei ótimas promoções online”. E ela continuou digitando.

Adão não sabia o que fazer. Mas a serpente sabia. “Sssshhhh, e aí, Adão, gracinha, por que você não experimenta esse Mackintosh?!”. E esse também era tão sedutor quanto uma fruta madura. E Adão também ficou obcecado.

E foi assim que tudo começou. Desde aquele momento, tudo que o Adão e a Eva queriam fazer era trabalhar com seus computadores. Na parte da manhã, eles vestiam rapidamente suas três folhas de figueira e corriam pelo bosque até suas estações de trabalho – e deixaram de aproveitar o bosque. Passavam o dia inteiro em seus computadores.

O sol quente brilhava em suas cabeças, mas eles não paravam para sentir os raios. O delicioso cheiro das folhas dos pinheiros e das lilases penetrantes os envolvia, mas eles não paravam para sentir o cheiro. À noite, quando as estrelas piscavam no céu e a lua cobria-os com o seu brilho, eles estavam muito cansados para notá-la. E dessa forma, eles nunca mais conseguiram voltar ao jardim no qual tinham nascido.

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Comentário
Ao ler um belo texto como esse, eu fico imaginando se nossos ancestrais, ouvindo aos contos do chefe da tribo ao redor da fogueira e sob um céu estrelado, se preocupavam em saber se aqueles heróis e heroínas realmente existiram... Decerto que muitos talvez pensassem que sim, mas este não é o caso. O caso é: será que davam maior importância em saber se eram reais, ou em compreender a mensagem por detrás de cada uma daquelas histórias, daqueles mitos?
Quem não aprender a compreender metáforas, dificilmente retornará ao jardim em que nasceu. E isso, obviamente, também é uma metáfora.

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(*) Lisa Lipkin é uma contadora de histórias profissional e autora do livro Bringing the story home: the complete guide to “storytelling for parents” (Trazendo a história para casa: o guia completo de “contar histórias para os pais”). A sua empresa Story Strategies Ltda. ajuda pessoas e companhias a encontrar e contar histórias. Este texto foi traduzido por Silmara Oliveira para o livro “O futuro de Deus” (Ed. Girafa).

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Crédito da imagem: IvyBee

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