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23.5.18

Adão, Eva e a Serpente (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre um dos mitos mais conhecidos e universais da história humana, que narra o dia em que fomos expulsos do Paraíso e adquirimos a consciência do bem e do mal. Também veremos como Rousseau considerava puros e imaculados os primeiros selvagens, e como isso pode não estar assim tão certo. Ah, e também tem ele, o Coisa Ruim:

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4.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo I)

Nada é tão escondido que não possa ser revelado através de seu fruto (Paracelso)


Hoje uma boa parte dos leitores do meu blog provavelmente conhecem alguma coisa de ocultismo, e alguns até se consideram ocultistas. Eu, entretanto, só vim conhecer melhor o ocultismo após cruzar no caminho com o meu amigo Marcelo Del Debbio. Através dele, percebi que o ocultismo era algo bem diferente do que se julga na chamada “opinião popular”. Ainda assim, mesmo tendo adquirido um conhecimento mais aprofundado do tema, eu ainda sinto que muitas vezes faltam consensos e sobram divergências quando as próprias vertentes ocultistas dialogam entre si.

Há gente que crê que ocultista é somente quem já chegou a praticar algum ritual vestindo mantos e empunhando espadas ou adagas, há magos do caos que acham isso tudo uma besteira, enquanto há leitores da teosofia que se dizem ocultistas porque seguem os ensinamentos da Madame Blavatsky; há quem diga que se trata de uma ciência, há quem diga que é religião, há quem diga que não é nenhum dos dois... Ora, eu me pergunto se essa confusão toda não contribuí ainda mais para o descrédito do chamado ocultismo na opinião popular.

No fim das contas, talvez seja mais proveitoso tentar definir o ocultismo não pelo que ele é, mas pelo que ele não é:

Não, o ocultismo não é “coisa do Demônio”.
Não há associação mais direta quando mencionamos o termo “ocultismo” a um leigo do que ao “Demônio”. Tudo bem que contribuíram para isso muitos filmes e contos de terror ao longo da história, mas é estranho de se pensar: muitas vezes, até mesmo quem não acredita na existência de um Demônio, de um “Senhor de todo o mal”, ainda assim crê piamente que ocultismo e satanismo (seja o que isso for) são mais ou menos a mesma coisa.

A crença num Demônio Mal adversário de um Criador Bom pode ser traçada ao zoroastrismo, e sua presença no cristianismo se deve muito a antiga crença de Agostinho de Hipona, o grande doutor da Igreja, nas doutrinas de Mani (que era admirador, por sua vez, da dualidade zoroastrina). Agostinho, é claro, afirma ter deixado de lado suas crenças pagãs, assim com a sua antiga vida boêmia, mas uma coisa é afirmar “eu renego Mani”, outra é ter a absoluta certeza de que nada, mesmo que inconscientemente, foi transportado para o seu próprio pensamento. Como sabemos, Agostinho provavelmente esteve enganado sobre si mesmo nesse ponto.

No entanto, ainda que você mesmo creia nesse Demônio, talvez lhe surpreenda que o próprio criador do satanismo não acreditava nele. É difícil saber se as histórias acerca da vida de Anton LaVey são verdadeiras, pois ele mesmo admitiu ter mentido bastante (e, de certa forma, em boa parte o próprio satanismo de LaVey é uma grande zoação), mas a sua biografia não autorizada (e, portanto, mais fidedigna) nos conta que ele trabalhou alguns anos de sua juventude como organista (tocador de órgão) em bares e prostíbulos dos EUA nos anos 1940. Ora, ocorre que, nos mesmos locais onde ele foi contratado para tocar aos sábados, também achou emprego para tocar aos domingos, em cultos e espetáculos cristãos...

Então ele percebeu que os mesmos ditos cristãos que juravam seguir os preceitos de sua religião aos domingos, menos de 24 horas antes estavam pagando prostitutas nas casas noturnas em que LaVey tocava. Assim, o seu satanismo não surgiu nem de uma adoração a algum Demônio nem propriamente de um ódio intrínseco ao cristianismo: LaVey simplesmente não suportava era a hipocrisia de muitos dos cristãos da sua época.

Fosse hoje em dia, talvez ele já estivesse contente em criar uma página de memes zoando o cristianismo nas redes sociais. Mas, já lá pelos anos 1960, a sua forma de extravasar esse sentimento foi criando uma espécie de “religião zoeira”; que, no entanto, trazia muitos ensinamentos profundos retirados de vertentes ocultistas mais antigas que defendiam o chamado “caminho da mão esquerda” (do qual ainda falaremos mais para frente).

Nada disso, no entanto, tem qualquer coisa a ver com um Demônio real, muito menos com “pactos de venda de alma” e baboseiras desse tipo. Que há maldade no mundo, disso não temos dúvida; mas essa maldade está no coração dos seres (encarnados ou não), e não numa espécie de “bode expiatório cósmico”, condenado a ser a fonte de toda maldade pela eternidade. Nem no zoroastrismo antigo havia crença tão infantil...

No entanto, se formos considerar os demônios como aspectos negativos de nós mesmos, então um de seus grandes estudiosos, segundo consta na tradição judaico-cristã, foi justamente o Rei Salomão (sim, aquele carinha mesmo, lá da Bíblia). Uma das tradições magísticas mais conhecidas é a Ars Goetia, onde se estuda o sistema, dado de presente a Salomão pelos anjos, que lhe conferia poder e controle sobre os principais demônios conhecidos. Assim, se o ocultismo também lida com demônios (e não com “o Demônio”), saiba que isso vem desde Salomão.

Não, o ocultismo já não é mais um “conhecimento vedado”.
Segundo Del Debbio, a origem dos grupos ou ordens onde algum conhecimento precioso era “guardado” do resto das pessoas ocorreu ainda na época da construção das pirâmides, e perpassou séculos e séculos onde os segredos da construção de castelos, fortalezas, barcos, juntamente com a forja das armas e armaduras de metal, eram antes de mais nada questões militares, que tocavam a própria segurança de reinos e países, da mesma forma como até hoje os segredos para a produção de armas nucleares são vedados a maior parte das nações.

Ocorre que, nos primórdios da humanidade, a ciência, a filosofia e a religião ainda eram como “uma coisa só”, e é natural imaginar como os mesmos grupos que guardavam os segredos da construção de templos religiosos, por exemplo, guardavam igualmente os segredos de seus rituais mais profundos. Além disso, é preciso lembrar que durante boa parte de nossa história a grande maioria da humanidade foi iletrada, analfabeta. Os eclesiásticos tampouco ajudavam: foi somente em 1534, por exemplo, que uma tradução da Bíblia para o alemão alcançou o grande público, graças ao reformador Martinho Lutero. Até a Reforma, não era do interesse da Igreja Católica ter o seu maior livro sagrado acessível à leitura da maior parte da população. Por que será?

Foi também devido às perseguições da Igreja na Europa que boa parte das ordens secretas que sobreviveram até os dias atuais foi inicialmente formada. Elas não podiam simplesmente divulgar certos conhecimentos a qualquer interessado, não somente pela necessidade de um estudo anterior para que o leigo tivesse condições apropriadas de interpretar aqueles conhecimentos, como também pelo fato de que havia vários “olheiros” da Inquisição prontos para enviar qualquer infiel pra fogueira.

Felizmente, a humanidade evoluiu e, a despeito de suas mazelas, ao menos o advento da era racional-científica, desde meados do século XIX, acabou trazendo uma liberdade muito maior para o tráfego do antigo conhecimento oculto. Está certo que hoje esse tipo de conhecimento é considerado uma espécie de “heresia irracional” pela Academia (que esqueceu que foi graças a ele que a ciência moderna deu o seu grande salto, quando Copérnico e Galileu beberam nas fontes do hermetismo), mas ao menos ela não manda seus hereges para a fogueira – se contenta em ridicularizá-los por “falta de provas”, somente.

Hoje sites, blogs e canais do YouTube falam abertamente de ocultismo, e anunciam suas ordens e eventos para os que quiserem praticá-lo de fato. Porém, mesmo antes da era da internet, tal tipo de conhecimento já vinha sendo aberto ao grande público, passo a passo, sobretudo através da literatura. Desde Aleister Crowley ao próprio Alan Moore, exemplos não faltam.

Vivemos na era em que Baphomet é encontrado em imagens na internet associado ao Homer Simpson. É um tempo onde há tanta, tanta informação disponível, que não há mais real necessidade de se ocultar nada: o próprio mecanismo da web faz com que somente aqueles realmente curiosos, preparados ou não, encontrem o ocultismo.

O grande problema está, evidentemente, em se tratar tudo isso como uma grande brincadeira. Em ser um “satanista” somente para irritar os seus pais e “chocar a sociedade”; ou pior, em crer realmente em “contratos com o Demônio”: tudo isso demonstra que não basta saber ler para ser alfabetizado nos assuntos da alma. É preciso interpretar o mundo e, sobretudo, o seu próprio interior. Isso nenhum site, nenhum vídeo topzera do YouTube poderá fazer por você – e é justamente por isso que ainda há espaço para as ordens nos dias de hoje, ainda que elas não precisem mais ser totalmente secretas. Elas existem para auxiliar o verdadeiro caminhante.

Não, nem todo ocultista é “charlatão”.
De fato, a maioria não é. O ocultismo em grande parte trata dos assuntos da alma, das questões internas, da nossa interpretação do mundo, da nossa própria mente. A grande maioria dos alquimistas jamais acreditou realmente que poderia verter chumbo em ouro, mas acreditava na realidade na transmutação da alma ignorante e animalesca num ser apto a refletir a luz do Alto, num ser que constrói em si o seu próprio tesouro.

É muito fácil chamar Baphomet, Pã ou Cernunnos de demônios sem jamais ter se dignado a pesquisar 30 minutos na web acerca deles. É muito fácil associar os rituais de cura e outros efeitos medicinais ao chamado efeito placebo, sem saber explicar ao certo o que diabos ele é. É muito fácil colocar o tarot e a astrologia no mesmo saco dos “signos de jornal” e dos “trago a pessoa amada em 3 dias” sem antes buscar conhecê-los mais a fundo, nem que seja para entender melhor porque grandes homens e mulheres de nossa história o utilizavam para o seu processo de autoconhecimento.

É claro que existem charlatões no ocultismo, sobretudo pelo fato de que ninguém sabe ao certo definir o que é exatamente o ocultismo. Mas, se tem uma coisa que o verdadeiro ocultismo não é, é charlatanismo.

» No tomo II: o caminho da mão esquerda; o caminho da mão direita.

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Crédito das imagens: [topo] Rembrandt (A Festa de Belazar); [ao longo] Roe Mesquita.

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28.8.15

Memes para reflexão, parte 2

« continuando da parte 1

(clique nas imagens abaixo para abri-las em nossa galeria de memes no Facebook)

Sócrates
No início eu estava sem muitas ideias, e achei por bem pesquisar por “memes filosóficos” no Google. Encontrei pouca coisa que me interessou, mas este sobre Sócrates, que achei originalmente em inglês, me pareceu um meme digno para iniciar a série.

Há mesmo muitas formas de se analisar a afirmação que o grande sábio de Atenas não se cansava de repetir: “Tudo o que sei é que nada sei”. Muitos talvez a achem incompreensível, afinal se você sabe que não sabe, é porque já sabe alguma coisa. Outros provavelmente a consideram alguma espécie de “falsa modéstia”, já que Sócrates vencia praticamente todas as suas discussões “mesmo sem saber de nada” (também existem memes sobre isso online).

Na verdade, eu creio ser exatamente o oposto da “falsa modéstia”, e daí o meme ter me interessado... Talvez seja mais fácil me fazer entender através de um pequeno experimento mental:

Imaginemos que tudo o que sabíamos antes de entrarmos no colégio formasse um círculo de raio “x” em torno de nós mesmos. A “borda” desse círculo seria o nosso contato com “o desconhecido”, e na medida em que vamos aprendendo, dia após dia, aula após aula, pensamento após pensamento, este círculo vai crescendo junto como nosso novo conhecimento adquirido...

Ora, no dia em que nos formamos no colégio este círculo pode ter crescido enormemente, para um raio de “20x” ou “100x” ou “1000x”, não importa, o que importa é que na medida em que a “borda” do círculo vai crescendo, a nossa fronteira com “o desconhecido” vai se tornando cada vez mais extensa.

É como a física de partículas, que descobriu o átomo, depois os prótons, nêutrons e elétrons, e finalmente os quarks. Ou a cosmologia, que descobriu que na verdade cada estrela era um sol, e depois que havia algumas galáxias além da Via Láctea, e finalmente que há incontáveis galáxias viajando pelo espaço em grandes aglomerados. Ou seja: cada vez que aprofundamos nosso conhecimento da natureza, surgem mais questões, e mais vias a serem trilhadas.

E, se o conhecimento do que há lá fora é tão vasto, nada indica que o conhecimento do que há dentro de nós mesmos, ainda que nem sempre puramente objetivo, fique atrás.

Assim sendo, faz muito sentido encarar esta existência de maneira mais socrática, mais humilde, e considerar que o que sabemos é uma gota d’água perto do oceano do que ainda falta conhecer. Não nos adianta muita coisa, portanto, amar a Sócrates e ignorar solenemente o seu exemplo de vida.


Lúcifer
Embora Isaías muito provavelmente estivesse se referindo a um antigo rei da Babilônia, através de metáforas, quando relatou a sua “queda do céu” no Antigo Testamento, fato é que o mito do Anjo Caído se tornou extremante popular nos últimos milênios. Bem, é sobre este mito que quis me referir ao trazer o primeiro meme da série de minha autoria (como, aliás, o são todos os demais a partir daqui).

A despeito dos inúmeros problemas lógicos em se crer numa entidade que é “oposta ao Criador” mesmo tendo sido criada por ele (como tudo o mais), o que sempre me interessou na ideia do Anjo Caído é a questão incômoda acerca da sua insistência milenar na ignorância.

Pois, pensem bem, ainda que você tenha se rebelado contra o Criador, ainda que tenha atraído um enorme exército de seguidores para “combater a sua luz”, como você esperaria ganhar tal batalha?

Ora, se todos somos filhos do Criador, se todos nós somos formados por sua substância, como seria possível vencer? Antes de montar um exército para tentar assassinar Deus, deveríamos obviamente começar por nós mesmos, já que também somos formados por Deus... Seria muito mais lógico nos matar. E, de fato, qualquer suicida provavelmente causa mais dor a Deus do que todas as tentativas de “invasão do céu” pelas hordas infernais, pois a simples ideia de “invadir o céu a força e, sei lá, humilhar a Deus (?)” é absurda.

Outros podem argumentar que Lúcifer, sabendo muito bem que não tem como vencer, se dedica apenas a “roubar almas” de Deus, as corrompendo. Mas, ainda que ele aumentasse enormemente o seu exército usando deste expediente, no fim das contas do que adiantaria tudo isso? Fato é que a sua batalha continuaria sendo invencível.

Assim sendo, se esse tal Anjo Caído de fato ainda não se arrependeu e abandonou a ignorância após tanto tempo, ou ele é apenas uma espécie de fantoche, ou autômato, “programado” pelo Criador para exercer a sua função de “rei das trevas”, ou ele é simplesmente o maior bode expiatório que já existiu!

» Em breve, + memes!

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Crédito das imagens: Raph/Google Image Search

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7.10.14

A Igreja da Alma do Mundo

Há um trecho do Alcorão, na Surah Al Falaq, que nos incita a dizer: "Refugio-me no Senhor da Alvorada contra o mal daquilo que Ele criou".

Ora, o mal é a ignorância do bem. Não chegamos a existência perfeitos em conhecimento, sabedoria ou moral, e portanto estamos lentamente, passo a passo, desenvolvendo nossas potencialidades, depurando nossa ignorância, nosso mal... Pela lógica, é impossível atribuir a maldade a ideia de Deus. No entanto, é logicamente plausível que exista mal "naquilo que Ele criou", e que esse mal seja exatamente o atestado da eficiência e do sentido do sistema da Criação: fôssemos criados perfeitos, seríamos autômatos, robôs programados para fazer o bem (e isto não seria "ser bom").

Acredito que não exista uma ideia mais bela do que a ideia de se deixar um princípio, uma semente de perfeição, aflorar e se desenvolver por si mesma, bastando o contato do sol para que floresça, e nada mais... É claro que o próprio conceito de "perfeição" encerra inúmeras complexidades. Até que ponto ela iria? Quando seria o suficiente? Quando estaríamos, enfim, aptos a ver Deus "face a face"?

Já disse o Rabi da Galileia que "um dia faremos tudo o que ele fez, e muito mais". E disse também que éramos deuses... Quem sabe esta "perfeição" não resida num ponto do caminho, mas no caminho em si, e no sistema que o possibilitou existir?

Portanto, Deus, ou o que quer que tenha imaginado o Cosmos, não é mal, e nem devemos supor que alguma maldade de sua parte seria justificada pela "justiça divina". A justiça não faz o mal, ela aplica remédios. Tais medicinas podem ser amargas, é bem verdade, mas elas visam tão somente a nossa cura, e a nossa religação ao caminho.

Não há médico, porém, que possa nos prometer ou garantir a cura, nem o mais santo dos santos. Somente nós mesmos podemos nos curar, mas existem diversos tratamentos. Algumas pessoas chamaram algumas dessas receitas de "doutrinas religiosas", mas fato é que a nossa verdadeira igreja reside mesmo é em nosso coração. É somente lá, na Igreja da Alma do Mundo, que as orações tomam forma, as mais belas formas de todo o universo...

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Crédito da imagem: Vorrarit Anantsorrarak

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14.9.14

O lado animal

Nas tradições místicas em geral o que muitos chamam de "desejos do corpo" está associado ao chamado lado animal. Rumi o chamava de Asno. Mas o interessante é que o lado animal não é algo que exista para ser exterminado, pois neste caso o "extermínio" nada mais será do que o "varrer para debaixo do tapete da consciência". E, quanto mais demônios internos pensamos exterminar, mais e mais Inferno se forma em nosso inconsciente... Até o dia da faxina!

O lado animal não existe para ser exterminado, mas para ser domesticado. E é precisamente nesta domesticação que aprendemos a ser angelicais, por pura dualidade: nos tornamos amigos de nossos demônios internos, os compreendemos e perdoamos, e assim nos tornamos anjos... Afinal, se os anjos moram no Céu, é no Inferno que eles trabalham.

Já o pecado nada mais é do que errar o alvo. Pensar no pecado como algo intransponível e sem solução é, muitas vezes, apenas a desculpa daqueles que desistiram de acertar o alvo. "Já estou no Inferno mesmo, qual a diferença?"... Ora, a diferença é que é exatamente por estarmos no Inferno que devemos buscar o Céu.

O Céu é o alvo, mas não chegaremos lá necessariamente após a vida, nem pelo julgamento de algum deus estranho. O Céu já está espalhado por tudo o que há, só nos faltam olhos preparados para o enxergar!

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Crédito da imagem: Katerina Plotnikova

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11.10.13

Moávia e Iblis

Texto de Jalal ud-Din Rumi em "Masnavi” (Ed. Dervish) – trechos das págs. 112 e 113. Tradução de Monica Ulder Cromberg e Ana Maria Sarda. O comentário ao final é meu.


Moávia, o primeiro dos Califas Omaidas, estava certo dia dormindo em seu palácio, quando foi despertado por um estranho. Moávia perguntou-lhe quem era, e ele respondeu que era Iblis [1]. Moávia perguntou-lhe então por que ele o havia despertado, e Iblis respondeu que chegara a hora da oração, e ele temia que Moávia se atrasasse.

Moávia respondeu: “Não! Jamais poderia ter sido tua intenção guiar-me no caminho reto. Como posso confiar num ladrão como tu para cuidar de meus interesses?”

Iblis respondeu: “Lembra-te de que fui criado como anjo de luz, e que não posso abandonar totalmente minha ocupação original. Ainda que viajes para Roma ou Catai, continuarás amando tua terra natal.

Eu ainda conservo meu amor por Deus, que me alimentou em minha juventude; não, mesmo que eu me tenha rebelado contra Ele, isso foi só por ciúme (de Adão) e o ciúme provém do amor, não da negação de Deus. Joguei uma partida de xadrez com Deus, por vontade d'Ele, e, embora tenha levado um xeque-mate e me arruinado totalmente, em minha ruína ainda experimento as bênçãos de Deus”.

Moávia respondeu: “O que dizes não é digno de crédito. Tuas palavras são como os pios de um passarinheiro, que se assemelham às vozes dos pássaros, atraindo-os assim para a destruição. Causaste a destruição de centenas de mortais, como o povo de Noé, a tribo de Aad, a família de Lot, Nemrod, o Faraó, Abu Jahl, e assim por diante” [2].

Iblis retrucou: “Estás enganado se supões que sou eu a causa de todo o mal que mencionaste. Eu não sou Deus, para ser capaz de fazer do bem, mal, e do belo, feio. A misericórdia e a vingança são ambos atributos divinos, e geram o bem e o mal que se vê em todas as coisas terrenas. Não devo, portanto, ser culpado pela existência do mal, já que sou apenas um espelho que reflete o bem e o mal existentes nos objetos apresentados diante dele”.

Moávia então rezou a Deus para protegê-lo contra os sofismas de Iblis, e novamente pediu a Iblis para cessar sua argumentação e dizer claramente a razão pela qual o havia despertado. Iblis, em vez de responder, continuou a justificar-se, dizendo como era injusto que homens e mulheres o culpassem quando faziam algo errado, ao invés de culparem a seus próprios maus desejos.

Moávia, em resposta, recriminou-o por esconder a verdade, e finalmente o levou a confessar que a verdadeira razão pela qual o despertara era que, se ele tivesse dormido demais, e assim perdido a hora da oração, teria sentido grande remorso e dado muitos suspiros, e cada um desses suspiros, aos olhos de Deus, teria sido equivalente a mais de duzentas preces comuns.

***

Comentário
Como de costume, Rumi inunda alguns pequenos parágrafos com uma água rica em metáforas e camadas e camadas de interpretação filosófica.

Neste diálogo imaginário entre um religioso e o próprio Satã, o grande poeta da alma deixa muito claro, a quem tem olhos para ver, que Iblis não é somente um personagem da própria mente humana, mas um personagem extremamente necessário para o caminho de evolução espiritual, ou seja, de autoconhecimento.

Iblis “não é Deus, o único capaz de do bem, mal, e do belo, feio”, mas tão somente um espelho que reflete aos elementos postos diante dele. Ora, há muitos deuses que preferem manter tal espelho embrulhado e escondido no sótão de suas almas, atribuindo todos os infortúnios da existência a uma causa externa.

Porém, se é que existe um ser sobrenatural condenado a ser mal pela eternidade, sem jamais poder se arrepender, este seria antes um fantoche nas mãos do Criador, que afinal, também o criou.

Muito simples colocar todas as culpas do mundo num bode expiatório imaginário. Mais simples ainda afirmar que existem adoradores de tal ser por todos os cantos e, geralmente, em cargos de poder.

Difícil, complexo, angustiante, isto sim, é admitir que tal ser, longe de ser um fantoche divino, é antes um dos maiores presentes que Deus nos conferiu. Um espelho para a consciência; um espelho, também, para o inconsciente. Uma forma de avaliarmos, a cada passo deste caminho eterno, exatamente onde nos encontramos em relação ao animal do qual desejamos nos libertar, e ao ser angelical, o nosso “eu futuro”, que nos aguarda onde quer que seja o Céu.

Até que chegamos, e percebemos que o Céu era tudo, e o que mudou foi somente nossa visão. Tudo já é Deus, mas nossa joia interior ainda carece de uma limpeza, até que, polida e tornada cristalina, seja ela mesma o espelho para a luz do Alto.

Somente então o outro espelho, para a luz de Baixo, se tornará obsoleto. Somente então não necessitaremos mais de Iblis. Somente então saberemos: “eu também sou da raça dos deuses”.

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[1] Iblis é um dos nomes de Satã (Shaitan) entre os islâmicos.

[2] Corão. XI, 63.

Crédito da imagem: Google Image Search

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26.3.13

Além do bem e do mal há uma trilha

Há muitas dúvidas acerca do que deva ser o "bem" e o "mal". Elas começaram muito antes de Nietzsche... Mas nesta atualidade acinzentada, são sem dúvida questões pertinentes; o bigodudo apenas antecipou toda esta angústia existencial.

Se é que posso pensar em poucos caracteres, penso que o "mal" seja a ignorância de um "bem" ainda desconhecido... Do contrário, veríamos seres "evoluindo no mal": mestres do mal, cada vez mais maus e poderosos, cheios de si... Mas, tudo isto é patético, um caminho circular que passeia em torno de um charco de estagnação.

Até onde "evoluiu" Hitler, este "mestre do mal", que quando perdeu a guerra, suicidou-se como um bebê mimado? Onde está o seu "poder" se nem sequer suporta ser contrariado?

Então sabemos que o "mal" é apenas a desistência de caçar ao "bem", pois a ave do "bem" é fugidia e um tanto quanto etérea... O que pensávamos que tínhamos visto, não enxergamos. O que pensávamos que sabíamos, não compreendemos.

Achávamos que o "bem" não era caminho algum, mas eis que após um pequeno trecho de mata fechada, surgiu todo um Infinito a frente, um horizonte que não se sabe até onde alcança, mas que é mais convidativo do que tudo quanto já vimos e conhecemos neste Reino.

Uma trilha que dá noutro Reino.

"Mas será mesmo outro Reino, ou ainda parte deste?" – Não sei. Não confiem em mim se um dia tentar lhes dizer o que seja, afinal, o "bem"; nem em qualquer outro que tente (principalmente aqueles que escrevem em tábuas santas)...

O que há para ser dito, não pode ser dito. Está além da linguagem, e não importa quantos caracteres disponhamos.

Toda a Wikipedia seria insuficiente para lhes explicar sequer a cor da tardinha nesta trilha.

É preciso seguir em silêncio, e dançando... Nem os poetas saberiam explicar isto que eu também não explico – teriam, antes, que aprender a dançar!


raph

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Crédito da foto: raph

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8.3.13

Deuses monstruosos

Penso eu que o "aspecto monstruoso" da divindade é tão somente uma visão do ego sobre a mesma. Quando estamos reconectados com o nosso Verdadeiro Eu, o monstro é vencido ou, tanto melhor, torna-se nosso amigo:

Renascemos numa nova vida e num novo mundo, que é basicamente uma nova visão do mundo em que já estávamos; mas em que vivíamos, conforme diria Fernando Pessoa, como "cadáveres adiados". Agora despertamos, agora o Diabo não nos mete mais medo - pois que dominamos nosso lado animal, e não somos mais arrastados por nossas paixões, muito embora saibamos que elas continuarão lá, e que não merecem ser condenadas as trevas.

"Em nome de Deus" muitos ditos religiosos realizaram as maiores atrocidades contra outros seres humanos, animais, e a Natureza em geral. Mas aquele que despertou não fala mais "em nome de Deus" - ele está em Deus, e cala. Sua sabedoria se dá pelo seu exemplo, não pelo seu discurso.

O Cristo não fundou o cristianismo. Ele apenas amou - o Diabo foi vencido pelo Amor. Agora, são bons amigos...

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Crédito da imagem: mimagallery.com (Mahakala Thangka, artista desconhecido)

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11.12.12

Questões infernais

A palavra inferno, que hoje conhecemos, origina-se da palavra latina pré-cristã inferus, que significava "lugares baixos"; foi dela que surgiu o termo infernus. Na Bíblia latina, a palavra é usada para representar o termo hebraico Seol e os termos gregos Hades e Geena, sem distinção. A maioria das traduções ao português seguem o latim, e elas não fazem distinção do original hebraico ou grego.

Geena, do grego, se refere a um lago de fogo. Já o Seol hebraico e o grego Hades parecem se referir a uma mesma ideia, muito anterior à própria Bíblia: um reino dos mortos (que ficava abaixo da terra, daí a conexão com infernus).

Segundo a mitologia grega, os deuses olímpicos saíram vitoriosos da batalha travada contra os titãs (a titanomaquia), e Zeus, Poseidon e Hades partilharam entre si o universo; Zeus ficou com os céus, Poseidon ficou com os oceanos e Hades ficou com o mundo dos mortos, que leva o nome deste deus (além disso, todos eles partilharam a terra igualmente, daí a ideia de que poderiam influenciar os vivos).

A influência de Hades no reino dos vivos é quase que estritamente negativa e maléfica, vinculada à pragas, doenças, destruições e guerras, mas também é tida como influência de desafios, afinal nas tradições antigas, para seguirem o "caminho do herói", testes e provações físicas e psicológicas eram necessárias... Da mesma forma, o reino de Hades, o reino dos mortos, não é um conceito que poderia ser associado somente ao que o cristianismo passou a compreender por inferno.

No Hades as almas eram julgadas por três juízes [1], com responsabilidades específicas: Minos tinha o voto decisivo; Éaco julgava as almas europeias; e Radamanto julgava as almas asiáticas. Nem mesmo Hades interferia no julgamento deles, a não ser em raras ocasiões. Este tipo de julgamento moral se assemelha a concepção cristã do julgamento do final dos tempos, mas o que ocorre com as almas boas? Elas saem do Hades?

Aí é que está: não saem, pois o próprio Hades é um reino com o seu céu e o seu inferno. O céu é conhecido na mitologia grega como Campos Elíseos; o inferno, como Tártaro. Ambos ficam no reino dos mortos, no Hades. Dessa forma, apesar de a mitologia bíblica haver bebido da fonte da mitologia antiga, há algumas contradições importantes... O exegeta bíblico poderá dizer que o cristianismo é uma espécie de refinamento das ideias pagãs anteriores, mas será que isto se sustenta?

Por “refinamento”, quero dizer “interpretação mais espiritualmente aprofundada”. Porém, ocorre que, apesar de tanto a mitologia bíblica quanto a grega concordarem que os mortos são julgados pelas suas obras, o julgamento do deus bíblico me parece mais autoritário e implacável. Dependendo da interpretação, mesmo um ladrão de galinhas pode ser condenado ao inferno. Outro problema é a gradação de penas: na mitologia bíblica, o ladrão de galinhas e o assassino parecem destinados a receber a mesma pena (arder eternamente num lago de fogo); na mitologia pagã, pelo contrário, as penas são dadas de acordo com as faltas, como ocorre num tribunal de justiça terrena. Eu, sinceramente, não vejo refinamento algum nesta exegese bíblica.

Há, em todo caso, uma primeira questão infernal que se aplica ao inferno bíblico: Os bons, aqueles que chegarão ao céu, não ficariam tristes por saber que boa parte de seus familiares e amigos estarão condenados a arder num lago de fogo por toda a eternidade?

Ora, segundo a mitologia grega, no Hades os julgamentos ocorrem após a morte, e não após um juízo final. Ainda assim, a questão persiste... Mas no caso pagão, há muitas interpretações alternativas que dizem que o condenado ao Tártaro pode eventualmente cumprir sua pena e assim se elevar aos Elíseos; Ainda outras teorias, mais antigas, simplesmente afirmam que após o cumprimento da pena no Tártaro o condenado estaria apto a reencarnar na terra. Enfim, no paganismo não haviam dogmas infalíveis, e os mitos eram constantemente reinterpretados.

Mas no mito bíblico nada disso ocorre. Há um julgamento final, e depois cada grupo irá para o seu canto, por toda a eternidade... Ora, de fato, ainda que o inferno cristão não fosse um local de sofrimento eterno, o simples fato de familiares e amigos serem separados pela eternidade inteira seria um motivo de sofrimento... Eterno?

Como se não bastasse esta, há uma segunda questão infernal ainda mais complexa. Segundo a bíblia, o governante do inferno é um anjo que, por haver se corrompido e escolhido o caminho do mal, tornou-se ele próprio o supremo representante do mal – o anjo caído. Eis a questão: Seria este anjo incapaz de arrepender-se, por toda a eternidade? Um anjo, quando cai, e se corrompe, não tem nenhuma, nenhuma oportunidade de se arrepender, de remediar sua situação? Haveria justiça divina nesta ideia?

Se não houvesse o livre-arbítrio, todos seríamos fantoches nas mãos de Deus. Portanto, é preciso a liberdade para que um ser exista enquanto ser, e não enquanto autômato [2]. Dessa forma, se o anjo caído, Lúcifer, não tiver a liberdade para decidir se arrepender, isto significa que ele é mero fantoche nas mãos do deus bíblico – o que equivale a dizer que tudo o que Lúcifer faz seria, no fundo, decidido pelo Mestre dos Fantoches. Eu não sei quanto a vocês, mas acho esta uma ideia absurda.

O exegeta bíblico poderá responder a tais questões infernais de forma superficial, quem sabe: (a) Ao chegar no céu, Deus apaga da memória dos escolhidos todas as lembranças daqueles que foram para o inferno, e dessa forma não sentirão saudades nem sofrerão pelo que ocorre a eles; e (b) Lúcifer simplesmente não se arrependeu, e talvez jamais se arrependa, por isso ainda existe o mal no mundo. Pois bem, vocês acham, honestamente, que tais respostas vagas resolvem essas questões?

Os pensadores contemporâneos têm concepções bem mais profundas e interessantes do mito do céu e inferno. Sejam cristãos, não cristãos, agnósticos, existencialistas, espiritualistas, estudiosos de mitologia, não importa muito, pois este é um mito que toca a humanidade inteira [3]: Não poderíamos interpretar o céu e o inferno como estados da consciência humana?

Seguindo esta bela reflexão, devemos considerar que cada um constrói o seu próprio céu e inferno em sua própria consciência. Portanto, aquele que encontrou Deus dentro de si [4], mesmo no deserto mais árido e seco, estará ainda num Oceano de Amor em sua própria consciência, dentro da alma, que carrega consigo para todo lugar.

E, assim, chegando neste céu, não titubeará nem por um segundo em descer ao inferno [5] para convidar quem lá está a se aventurar neste vasto Oceano. A questão, no entanto, é que apenas um convite não basta: é preciso mergulhar. Somente o ser em si poderá decidir por abandonar os dogmas antigos, e dar este verdadeiro salto de fé no desconhecido, na imensidão da própria alma... Então, quem sabe, alcance o céu. Então, quem sabe, seja salvo – salvo da ignorância.

Mergulhe suave. Os mensageiros orientam!

***

[1] Os juízes não são deuses e sim mortos que devido à sua forte personalidade e seu senso de justiça tornaram-se juízes. Em algumas versões Hades seria o presidente do tribunal dos mortos.

[2] Fôssemos criados “já perfeitos”, não somente não haveria mérito algum de nossa parte em “sermos perfeitos”, como na prática seríamos autômatos, robôs “programados para a perfeição” por algum deus estranho. Isto é, seja lá o que for esta “perfeição”...

[3] A concepção de alguns ditos cristãos que afirma que somente aqueles que aceitam Nosso Senhor Jesus Cristo serão salvos é tão absurda que nem a incluí neste artigo. Para início de conversa, isto seria condenar todos que viveram antes do Cristo, e todos que jamais ouviram falar do Cristo, automaticamente ao inferno. Isto dá um montão de inocentes condenados!

[4] Ou “o amor”, ou “a iluminação”, ou “a vida”, ou “o Cosmos”, ou “o Verdadeiro Eu”, etc.

[5] Como Sartre já disse: “o inferno são os outros”.

Crédito da imagem: John Springer Collection/CORBIS (cena do filme Dante's Inferno)

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26.6.12

Todas as guerras do mundo, parte 3

« continuando da parte 2

Deixe-me dar-lhe adeus, todo homem tem de morrer.
Porém está escrito na luz das estrelas, e em cada linha de sua mão:
Nós somos tolos por guerrear com nossos irmãos de armas...
(Brothers in Arms, Dire Straits)

O Senhor dos Exércitos

O ano de 1209 deixou marcado na história o sangue de milhares de homens e mulheres massacrados pela Cruzada Albigesa, comandada pelo Rei da França e “abençoada” pelo então Papa da Igreja de Roma. Um dos principais objetivos desta Cruzada em especial não era “converter” os muçulmanos nas terras distantes, mas sim arrasar aos cátaros, um movimento religioso surgido dentro do próprio catolicismo, e que pregava uma visão um tanto quanto mística das Escrituras.

Bastante influenciado pelo gnosticismo, o catarismo pregava o cristianismo puro (do grego katharós, “puro”). Falavam em amor, fé, tolerância, perdão e misericórdia por onde passavam. Os cátaros eram queridos pelo povo, pois pregavam que não era necessária uma intermediação dos eclesiásticos em seu contato com Deus – eles poderiam orar em qualquer local, e realizar suas próprias missas e rituais de adoração, sem a necessidade de um padre. Também defendiam que a salvação da alma se daria pelo conhecimento (gnose) e pelo amor, sendo desnecessário, aqui também, o envolvimento da Igreja.

Mas os cátaros também tinham ideias radicais. Eles não acreditavam que o mundo tivesse sido criado diretamente por Deus, mas que era uma materialização do Mal e que, portanto, os que aqui viviam estavam destinados à expiação até que, após uma vida destinada ao bem, voltassem ao Éden perdido. Enquanto não conseguissem isso teriam que reencarnar em sucessivas vidas na Terra... Ou seja: os cátaros eram excelentes candidatos a serem arrasados por uma Cruzada; Isto é, caso se recusassem a “conversão”, aceitando a Verdade das Escrituras (segundo a Igreja de Roma, é claro).

Bem, eles se recusaram... Em 1209 a cidade Béziers era habitada por cerca de 60 mil pessoas, dentre elas muitos cátaros. O problema é que nem todos eram cátaros, o que gerou um questionamento muito pertinente de um dos comandantes do exército francês ao representante do Papa, quando eles se preparavam para invadir a cidade com uma força militar vastamente superior. O comandante perguntou: “Mas senhor, nesta cidade encontram-se vivendo em paz cristãos, judeus, árabes e cátaros. Como vamos saber quais são os inimigos?”. E a Igreja assim o respondeu: “Matem todos; Deus escolherá os seus!”. Béziers foi dizimada, mas não se sabe se Deus conseguiu encontrar os seus...

A ideia da guerra do Bem contra o Mal é poderosa e sedutora, e por isso mesmo sempre agradou aos Imperadores, Reis e Papas. De todas as ilusões que se interpõe a verdade inconveniente de que, como já vimos, todas as guerras do mundo se dão pelo desejo da conquista de territórios e riquezas, a lenda do Bem contra o Mal é a mais simples de se compreender, e a mais capaz de arrebatar uma grande massa de ignorantes. Nesse tipo de guerra, não há dor na consciência em dizimar inocentes, nem mesmo em estuprar mulheres e crianças, pois fica pré-estabelecido que elas são como demônios sem alma, fruto de um suposto exército comandando pelo Mal.

Engana-se quem pensa que tal artimanha se perdeu na Era Medieval, pois ela é até hoje utilizada em muitas guerras preventivas e atos de terror... Para os terroristas islâmicos, os civis de Nova York eram tão demônios quanto os civis do Iraque o eram para o exército americano. Nas manchetes, porém, havia o anúncio: “O Iraque será libertado das garras do Mal”. E acreditou quem quis, ou fingiu acreditar.

Nas Escrituras há inúmeras menções ao Senhor dos Exércitos, que presume-se ser o Deus Bom. Ocorre que, se ele é o senhor de um exército, falta definir quem seria o senhor dos outros exércitos, os inimigos do Bem. Esta ideia está muito bem definida na mitologia do zoroastrismo. Nesta antiquíssima religião persa, anterior ao próprio judaísmo e ao início da produção das Escrituras, há uma série de crenças que até hoje se veem presentes em inúmeras religiões modernas [1]: a imortalidade da alma, o advento de um messias, a ressurreição dos mortos, o juízo final, etc. Mas o que nos interessa aqui é a própria essência do zoroastrismo, que prega que o mundo inteiro é tão somente o grande palco da luta de duas divindades. Aúra-Masda seria o Deus Bom, e Arimã o Deus Mal. Espera-se, é claro, que o Bem vença esta batalha eterna... Pois bem, e todo esse tempo acreditávamos que o Imperador Constantino havia encontrado no cristianismo o sistema religioso ideal para a manutenção de seu império, quando na verdade ele deveria agradecer mesmo era a Zoroastro [2], e não a Jesus.

Interessante, porém, como mesmo a Bíblia parece ser bem pouco clara em identificar quem seria exatamente esse tal Deus Mal. Dizem que é Lúcifer, um suposto anjo caído, mas não se sabe onde exatamente ele está descrito. “Lúcifer”, termo que significa “o portador de luz”, e na antiguidade era quase que sempre associado ao planeta Vênus [3], parece se referir a uma pessoa diferente cada vez que é citado nas Escrituras: em Isaias (14:12) refere-se a um ambicioso rei babilônico que caiu no mundo dos mortos; no Apocalipse (12:4 e 7-9), um verdadeiro hino pagão, ele é identificado (por seus outros nomes) como um imenso dragão, que lembrava uma serpente gigantesca; já no mesmo Apocalipse (22:16) e em II Pedro (1:19), o termo está se referindo ao próprio Jesus Cristo. Mesmo quando é supostamente citado indiretamente, como em Ezequiel (28), fala sobre um querubim, um anjo que esteve no Éden, mas foi condenado por desafiar a autoridade de Deus (assim como Adão e Eva o desafiaram, aliás).

Vamos simplificar um pouco, senão daremos ainda muitas voltas sem sair do lugar, e essa questão me parece tão simples que uma criança poderia resolvê-la para nós, desde que fosse deixada livre para pensar por si mesma:

O que é o Mal? Agir, por vontade própria, para infligir nos outros algo que não gostaríamos que os outros infligissem em nós.

O que é Deus? O ser ou força primordial que gerou tudo o que existe a partir de si próprio, de modo que, se não existisse Deus, nada mais haveria.

Pode haver outro ser incriado, como Deus? Não, pela lógica só poderá haver um único ser incriado. Se houvesse outro, ou se houvessem mais de um, haveriam de ter sido criados por ainda outro Deus anterior a estes.

Lúcifer é mal, e foi necessariamente criado por Deus. Isso faz de Deus um ser mal? Faria, se Lúcifer fosse mal desde o princípio. Mas ainda podemos resolver a questão considerando que Lúcifer, tal qual o querubim que desafiou Deus, nasceu bom, ou neutro, mas depois tornou-se mal.

Mas então, Lúcifer é eternamente mal? Não, se qualquer ser criado por Deus fosse eternamente condenado a ser mal ou, de fato, eternamente condenado a proceder sempre por um mesmo princípio moral, ainda que bom, isso faria de Deus não um criador de seres, mas de robôs ou fantoches. Como Lúcifer nasceu bom e tornou-se mal, nada impede que ele se arrependa e se torne novamente bom. Conhecemos, pela nossa história, inúmeros exemplos de homens maus que tornaram-se bons (dentre eles o próprio São Paulo, que antes fora Saulo). Se estes podem se arrepender, Lúcifer também pode.

Mas, digamos que Lúcifer até hoje é mal por vontade própria, o que ele pretende conseguir em sua luta contra o Deus Bom? Difícil dizer, mas o que fica óbvio é que Lúcifer não teria nenhum poder sobre Deus, e nenhuma esperança de um dia vencer tal batalha.

Se Lúcifer sabe que jamais poderá vencer, porque ele precisa das almas dos homens? Difícil dizer, mas talvez seja uma forma de aliviar sua insatisfação: já que não pode “evoluir” no mal, trata de trazer para junto de si outros seres, de modo que fiquem estagnados como ele.

E Deus seria um Deus Bom se permitisse tal estagnação, sem proteger os seus da “sedução” de Lúcifer? Obviamente que não. De fato, independente de existir ou não um ser como Lúcifer, por toda a Natureza podemos ver claramente que a estagnação é severamente punida; Não para o mal, mas para o bem dos seres, conforme um remédio amargo... A isto Charles Darwin intitulou “a guerra da fome e da morte”.

***

Eis que todas as guerras do mundo são mesmo uma mesma guerra. Mas não uma guerra religiosa, não uma guerra ideológica, não uma guerra lendária, e nem mesmo uma guerra por riquezas e territórios... Pois que todos os imperadores que marcharam pelo mundo brandindo a bandeira com o símbolo do Senhor dos Exércitos eram apenas cegos um pouco mais elevados que outros cegos, ignorantes pastoreando ignorantes, buscando no horizonte algo que sempre esteve dentro deles mesmos, mas não perceberam, não acordaram e nem tampouco iluminaram suas consciências... Marcharam e dizimaram, e talvez tenham até “convertido” alguém, mas tudo o que conquistaram foi apenas sangue e fumaça.

Mal sabiam eles o quão próximos estiveram, e ainda estão, do Reino que, uma vez conquistado, jamais poderá ser perdido...

» Na parte final, a guerra da alma...

***

[1] Na verdade o zoroastrismo ainda é praticado por cerca de 200 mil pessoas, em sua maioria na Índia e no Irã.

[2] Profeta mítico que criou o zoroastrismo.

[3] Ovídio menciona que cada novo dia começa quando "Lúcifer brilha radiante no céu, chamando a humanidade para seus afazeres diários. Lúcifer excede em brilho as estrelas mais radiantes".

Crédito das imagens: [topo] Iluminura dos irmãos Limbourg, do inicio do século XV (uma das raríssimas representações medievais de Lúcifer ainda enquanto anjo, e que mostra exatamente a sua queda); [ao longo] Lawrence Manning/Corbis

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19.1.12

Frases (9)

Mais algumas das frases vistas primeiramente no meu twitter, agora aqui:


"Perante a Natureza todos somos humildes; Alguns já se deram conta disso, outros ainda irão sofrer até compreender."

"Guerras podem ser necessárias, mas que não se esqueçam: o fim da guerra é a paz."

"Se queremos uma sociedade livre, não é saudável sermos tolerantes com a intolerância."

"Antes de todo ano novo, há um novo dia, uma nova manhã, um novo pensamento, um novo recomeço... Enfim, uma nova chance de agradecer."


"Agora falam em fundamentalismo ambiental. É a nova desculpa para a anistia do desmatamento: ecologia virou religião."

"Assim como existem cientistas religiosos, existem ecologistas religiosos. Não existe isso de 8 ou 80, 'irracional' ou 'científico'."

"Vemos apenas a ciência e perguntamos: mas qual o sentido disso? Vemos apenas a espiritualidade e perguntamos: mas como isso funciona? Vemos a ciência e a espiritualidade juntas, e elaboramos toda uma gama de novas perguntas... Porém, muito mais profundas."


"É preciso seguir pelo caminho do meio, pois a poesia se esvai nos extremos."

"Ao nosso modo, cada um de nós é um caminho, um ponto de observação, para todo o Cosmos. Temos observado partículas de luz de bilhões de anos de idade. E a luz é curiosa: eterna dentro de si mesma, jamais envelhece. Nós somos a forma do Cosmos ver a passagem do tempo. De fora da eternidade, o Cosmos pode ver a si mesmo. Para onde você está olhando agora?"


"Assim como existem várias espécies entre a bactéria e o homo sapiens, entre nossa alma e a alma de Deus existem inúmeros intermediários."

"Os mitos não existem, no sentido de serem símbolos criados a partir da interação humana com a vasta natureza a sua volta. Mas também existem eternamente, já que parecem ser a única forma que encontramos pra falar sobre aquilo que não pode ser descrito por mera linguagem. Apenas é sentido, apenas existe: a inefável natureza da Natureza."

"Os segredos 'místicos e ocultos' são como as brisas, que sopram em todo canto, e poucos percebem, e pouquíssimos param para sentir."


"Um sábio jamais conseguirá reduzir sua sabedoria a um livro, tudo que pode fazer é apontar um caminho."

"As flores têm essa vantagem: não precisam aprender sobre a luz do Sol nos livros."

"Que é, afinal, o amor? Que não se responda por palavras, mas por abraços e belos pensamentos..."

"Vá, observe, reflita, duvide de tudo. Mas não duvide do amor: ele existe!"


"Para o território do Imperador do Espírito, ainda mais do que para Alexandre ou Gengis Khan, o Sol jamais se põe."

"Mesmo na mais profunda escuridão, há uma Lua Cheia a refletir o Sol Invicto."

"Era apenas um vaga-lume, mas o pouco de luz que emanava era maior que a luz da própria Lua, ocultada pela noite. E, assim de perto, quando se aquietava em contemplação, poder-se-ia confundi-lo por uma estrela."


"Mesmo que a Verdade possa ser resumida em palavras escritas, estas não estarão imune as más interpretações."

"Se existir um Diabo, basta mandar nossos melhores evangelizadores para convertê-lo, e o mal sumirá de todo o mundo. Ah, se fosse tão fácil!"

"Aos fundamentalistas que creem que seu deus manda matar os 'adoradores do diabo': já se perguntaram se o seu deus não seria o próprio diabo?"

"Pena não vermos profetas do apocalipse com cartazes dizendo assim: O (re)começo está próximo!"


"Seu deus é seu deus, mas se existe um Deus, ele é nosso Deus."

"Deus já escolheu os seus: e somos todos nós. Se existir um Céu no fim da estrada, a chave para adentrá-lo será entrarmos de mãos dadas."

"Eram os deuses astronautas? Bem, astronautas todos nós somos; Os deuses eram, quem sabe, um pouco mais sábios do que nós..."


"O Cosmos é um imã, uma vez que você esteve lá, tudo o que pensa é em retornar." (Yuri Romanenko, astronauta russo)

"Puritanismo: o medo assombroso de que alguém, em algum lugar, possa ser feliz." (Mencken)

"A neve e as tempestades matam as flores, mas nada podem contra as sementes." (Gibran)

***

Crédito da foto: Tomas Rodriguez/Corbis

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6.3.11

O ungido

De volta a região onde havia nascido da última vez, o Mensageiro dos Céus havia encontrado seus pescadores, e juntamente com um punhado deles, havia aprendido a pescar almas. Até então não havia sido notado pelas hostes sombrias, mas isso foi tão somente até ser batizado com água por Yohánan, o Batista. Desde então, foi como se um aviso houvesse sido espalhado pelas mentes de todos os seres etéreos a vagar pela escuridão, até então desinformados: o Ungido havia retornado!

Um deles era o mais influente sobre os pensamentos alheios, como uma enorme sombra a pairar sobre os desavisados ou de vontade fraca. Gabava-se, particularmente, de influenciar decisões de governantes, rabinos, e até mesmo reis e imperadores. Ele intitulara a si mesmo de Senhor da Sombra, e por onde andava uma legião de espíritos subjugados o seguia, serviçais que o adoravam como a um deus; Um deus que podiam ver e ouvir, mas um deus que dificilmente perdoava qualquer indisciplina, qualquer hesitação no caminho da sombra.

Foi enquanto o Mensageiro dormia junto a seus seguidores, debaixo de algumas árvores entre uma e outra cidade da Galileia, que eles finalmente se encontraram em um sonho obscuro:

Senhor da Sombra – Ora, ora, então você é aquele que tem expulsado meus seguidores dos homens e mulheres... É você o “grande exorcista”?

Mensageiro – Eu não expulso ninguém. O que expulsa é o pensamento. Tudo que tenho feito é trazer um pensamento novo aos miseráveis que se arrastam pelo pântano do desejo desenfreado.

Senhor da Sombra – E de que adianta toda essa encenação? Você acha que vai conseguir transformá-los? Pois saiba que, a exceção de alguns poucos que você e Yohánan tem tocado, a grande maioria volta a pecar tão logo você se despede e segue pelas estradas!

Mensageiro – E o que é pecar, senão errar o alvo?

Senhor da Sombra – Como assim?

Mensageiro – Todo ser procura trilhar um caminho ascendente. Em suas escolhas, intuitivamente são sempre levados a agaranhar mais e mais do que quer que estejam buscando... Ocorre que, de acordo com a Lei, todo ser colhe o que planta – quando o que busca não lhe faz sair do lugar, ele permanece preso ao mesmo local, ele erra o alvo, e sua colheita só lhe traz a angústia.

Senhor da Sombra – Muito bonito, muito bonito... Mas palavras não resolverão nossa angústia. Eu estive diversas vezes neste mundo e tudo o que vi foi a brutalidade e a ganância. Seu precioso mundo me ensinou que o poder reside na força do desejo, e o que desejo é ser o que sou: o Senhor de toda uma hoste de espíritos sombrios.

Mensageiro – E você é feliz?

Senhor da Sombra – A felicidade é uma ilusão passageira, uma luz que brilha tão ligeiramente na escuridão que logo a esquecemos... Não desejo mais a felicidade, mas apenas me vingar de todos estes que se dizem santos e divinos reis, e em realidade são tão sombrios, ou mais, quanto eu.
E eis que chego a você, o Ungido! Eu até hoje não sei por onde Deus tem andado, mas certamente está muito distante deste mundo... Você, que se diz o Rei dos Judeus, nada mais é que mais uma fraude!

Mensageiro – Se sou alguém ungido no óleo sagrado, então sou tão ungido quanto qualquer outro, pois não há lugar no Reino que não esteja ungido, e o Reino nos abarca a todos. Pense nisso, meu irmão, que nos reencontraremos em breve...

Assim terminou o sonho. O Senhor da Sombra foi pego de surpresa, alguma coisa em seu frio coração voltara a fervilhar... Havia muito tempo, muitas e muitas vidas, que alguém havia lhe chamado de irmão com tamanha sinceridade. Mas este breve encontro não foi o suficiente para lhe modificar, ele tinha uma reputação a zelar, e muitas mentes para obsediar.

Alguns dias depois, o Mensageiro se aproximara de uma vila onde algumas pessoas estavam sob o domínio das hostes do Senhor da Sombra, e ele tratou de recebê-lo pessoalmente:

Senhor da Sombra – O que veio fazer aqui Yeshu? Acredita que vai os livrar contra a minha vontade?

Mensageiro – Muito pelo contrário. É você mesmo quem os livrará, meu irmão, e por vontade própria...

Senhor da Sombra – Absurdo! E o que vai fazer, me “converter”? Me “batizar” em suas águas imundas?

Mensageiro – Vejamos o que posso fazer por ti, irmão... Observe, vê aqueles homens a me seguir? Pois eles abandonaram suas famílias, seu comércio, sua casa, para me seguir por este mundo tão angustiado, como você mesmo bem sabe... Pois você acredita ter hostes de seguidores, mas em realidade é apenas um cego guiando outros cegos pela força, pela subjugação. Ninguém o segue por vontade espontânea, mas simplesmente porque estava tão perdido quanto você, e acredita que você os tem guiado a algum lugar.
Mas eis, meu irmão, que você é o seu Senhor, você não tem ninguém mais para passar esta responsabilidade: você sabe que o seu caminho é como uma estrada que não leva a cidade alguma, um rio que jamais encontrará oceano algum. Você precisa tão somente admitir isso a si mesmo...
Veja, neste meu caminho, apesar de ser árduo, apesar de ser reconhecido por pouquíssimos, reside a única esperança de felicidade. Pois é uma passagem estreita de início, mas que depois se expande em uma via sagrada da qual sequer conhecemos o final.
Venha, venha conosco, trilhar o único caminho que vale a pena ser trilhado... Venha ser mais um ungido, não o Rei de algum povo, não o conquistador da vontade alheia, mas o rei e o conquistador de si próprio, sob a luz do óleo sagrado que sempre nos cobriu a todos, mas que estivemos cegos para ver, e insistimos em errar o alvo, em escolher o caminho inútil. Eu sou o Ungido, mas vocês também são, e farão tudo que tenho feito, e muito, muito mais!

E desde esse segundo encontro, o Mensageiro passou a contar seguidores e discípulos também no mundo invisível. Não foi da noite para o dia que o Senhor da Sombra se modificou, mas foi o início de um novo caminho...


raph'11

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Este conto é uma continuação direta de "O pescador de almas", e continua em "O traçador de círculos".

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Crédito da foto: youngdoo

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15.4.10

Reflexões sobre o mal, parte 3

continuando da parte 2...

A psicopatia é um distúrbio mental grave caracterizado por um desvio de caráter, ausência de sentimentos genuínos, frieza, insensibilidade aos sentimentos alheios, manipulação, egocentrismo, falta de remorso e culpa para atos cruéis e inflexibilidade com castigos e punições.

A consciência do mal

Estive defendendo que Satanás é um mito, que não existe um ser que centraliza toda fonte do mal, e que os tais “mestres da escuridão” nada mais são do que seres mimados, incapazes de lidar com a frustração de seus desejos incontroláveis. Enfim, que o mal é apenas a ausência do bem, e que não existe em si mesmo, assim como a escuridão não existe – é apenas a ausência da luz.

Mas falava sobretudo do mal dito “sobrenatural”, como uma força que tinha o poder de influenciar os seres e guiá-los contra a vontade as ações mais diabólicas, com o perdão da palavra (o mito já contaminou a linguagem, não posso fazer nada). Ora, se é verdade que esse mal não existe, o mal que tem origem na ignorância de cada ser é bastante real, e bastante comum. A história da humanidade, apesar de todos os acertos da filosofia, da religião e da ciência, é permeada em todos os lados pela ignorância – essa ignorância que ainda nos permeará por muitas eras...

Sim os seres são influenciados, na verdade, pelos próprios vícios. E obviamente que, numa vida em sociedade, o vício de um pode influenciar o vício do outro. Não foi à toa que mesmo os grandes sábios da Grécia antiga praticamente não levantaram a voz contra a escravidão, que Hipátia de Alexandria foi queimada junto com a grande biblioteca, que as pessoas iam ver homens serem devorados por feras no Coliseu de Roma, e aplaudiam!

Felizmente, no entanto, estamos nessa lenta, lentíssima evolução moral. Passo a passo estamos seguindo a frente, ainda que sem pressa alguma: hoje não se queimam mais bibliotecas nem hereges, negociar e manter escravos é crime, e vamos ao Estádio Olímpico de Roma apenas para ver futebol – na maioria das vezes sem sangue derramado... Afinal o que nos move no caminho do bem e da virtude? Ora, dizem os sábios que é precisamente a aversão à consciência do mal praticado.

Ao encararmos o mal, fruto de nossa própria ignorância, em nós mesmos, ficamos escandalizados e procuramos melhorar. Nesse lento bater das águas na rocha dura, pouco a pouco lapidamos nossa alma, e transformamos um deserto de granito em uma praia de calcário. Certo, uma vida é muito pouco para tamanha transformação, mas há muitos sábios que dizem que é exatamente por isso que precisamos retornar ao mundo tantas e tantas vezes: é que as potencialidades não se edificam de uma vida para outra, há que se utilizar muitas delas!

Mas o cético, ou aquele que se deprime com essas “fantasias de almas e vida eterna”, dirá que o cérebro nada mais é do que o mero agitar de partículas, e que o mal nada mais é do que uma deficiência, uma psicopatia, uma falha do mecanismo cerebral... Estranho, no entanto, que tanto psicopatas quanto autistas tenham dificuldades de perceber suas emoções, sendo que os últimos geralmente não fazem mal a uma mosca, e os primeiros podem se tornar assassinos seriais. Quanto mistério dentro dessas partículas obscuras em nossa cabeça!

Em “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”, o neurologista Oliver Sacks nos traz uma história – um de seus inúmeros casos clínicos de pacientes com doenças mentais – que talvez nos ajude a iluminar esse paradoxo [1]:

“Donald matou sua namorada sob a influência do cloridrato de fenociclidina (PCP). Ele não lembrara do que fizera (...) e nem a hipnose nem o amital de sódio foram capazes de liberar essa lembrança. Concluiu-se, portanto, em seu julgamento, que não havia uma repressão de memória, mas uma amnésia orgânica – o tipo de blackout muito característico do PCP.

Os detalhes, revelados no inquérito, eram macabros, e não puderam ser expostos em audiência pública. Foram discutidos in câmera – ocultos do público e do próprio Donald. (...) Ele passou quatro anos em um hospital psiquiátrico para os criminalmente insanos – apesar de haver dúvidas quanto a ele ser criminoso ou insano. (...) “Não sou apto para viver em sociedade”, dizia, melancólico, quando questionado.

No quinto ano ele começou a sair em liberdade condicional, [e sofreu um acidente enquanto pedalava sua bicicleta, ao desviar de um carro em uma curva fechada] (...) Ele sofreu uma grave lesão na cabeça (...) e séria contusão em ambos os lobos frontais. Ficou em estado de coma, hemiplégico, por quase duas semanas, e então, inesperadamente, começou a se recuperar. Nesse estágio começaram os “pesadelos”.

O assassinato, o ato, antes perdido para a memória, agora se mostrava para ele em detalhes vívidos, quase alucinatórios [2]. Uma incontrolável reminiscência emergiu e o assoberbou (...) Seria isso um pesadelo, seria loucura ou haveria agora uma “hipermnésia” – a irrupção de lembranças genuínas, verídicas, aterradoramente intensificadas? (...) Ele agora conhecia o assassinato nos mínimos detalhes: todos os detalhes revelados pelo inquérito mas não no julgamento público – ou a ele.

[Com anos de tratamento] já não está mais obcecado [pelo assassinato]: foi atingindo um equilíbrio fisiológico e moral. Mas e quanto ao estado de memória, primeiro perdida e depois recuperada? Por que a amnésia – e o retorno explosivo? Por que o blackout total e depois os vívidos flashbacks? O que realmente aconteceu nesse drama estranho, meio neurológico? Todas essas questões permanecem um mistério até hoje.”

Os livros de Sacks nos dão vários exemplos de casos de pacientes com amnésia profunda que eventualmente conseguem se “realinhar” com a realidade e a época atual, seja de forma permanente – pelo sucesso do tratamento –, seja de forma temporária – por tratamentos alternativos, particularmente com uso de música. Em todo caso, esquecer e depois lembrar de atos imorais não necessariamente quer dizer que todos um dia irão sentir remorso em se lembrando com detalhes vívidos de seus atos no mal.

Talvez os psicopatas sejam “imunes” ao remorso para sempre. Talvez não exista nada após a morte e, portanto, tenhamos inúmeros exemplos de seres que foram psicopatas, sem remorso, ao longo de toda a vida. Nesse caso, bem e mal são como efeitos aleatórios de características de nosso cérebro, e talvez não exista nem Deus nem a vida após a morte, e muito menos um Céu ou um Inferno conforme nos diz a Bíblia...

Por outro lado, talvez exista algum tempo do outro lado do véu, e talvez esse tempo não seja nada amistoso para aqueles que acumularam atos imorais em sua própria consciência – esta que, mesmo nem sempre parecendo, registra absolutamente tudo a nossa volta. Nesse caso, talvez o remorso e a culpa um dia fatalmente venham cobrar seu quinhão a todos aqueles que têm o saldo devedor. Não se trata de mera especulação teológica, temos indícios de que isso pode ser verdade por toda a parte, e em todos os tempos.

Dito isso, acho prudente lembrar que Céu e Inferno só podem realmente ser o que dizem que são se estiverem impressos em nossa própria consciência, não num futuro distante, não num Dia do Juízo, não após a morte, mas hoje, neste exato momento: somos os juízes e os escravos de nossa própria consciência, não há parte alguma que possamos ir sem ela, não há como ignorá-la nem ludibriá-la por muito tempo...

Aquele que se apraz com o amor, a moral, a busca pela verdade, estará envolto no mais luminoso e paradisíaco Céu aonde quer que vá. Ao passo que aquele que se identifica com a própria ignorância, e rende-se a estagnação e ao deboche perante as leis naturais – que ainda não compreende nem o ínfimo –, este estará condenado ao mais tenebroso e obscuro Inferno, ainda que tenha todas as riquezas, todos os escravos, e todos os impérios do mundo. Ocorre que um já encontrou o amor, o caminho sem fim, e o outro ainda o ignora, e crê que esta é uma terra de sofrimento, de absoluta ausência de sentido – onde tudo é relativo e todas as coisas, no fim, se reduzem ao nada, ao abismo vazio de seu próprio ser.

Este caminho, todos temos de percorrer: deixem que as rodas percorram os velhos sulcos.

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[1] Retirado do capítulo 19, “Assassinato”. O livro é publicado no Brasil pela Companhia das Letras, assim como vários outros do mesmo autor, todos recomendados.

[2] Qualquer semelhança com as análises da segunda parte de “O Céu e o Inferno” de Allan Kardec (ed. LAKE) talvez não sejam mera coincidência.

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Crédito da foto: Patrick Power

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12.4.10

Reflexões sobre o mal, parte 2

continuando da parte 1...

Escuridão (substantivo): 1. Ausência de luz; 2. Breu.

Os mestres da escuridão

Era abril de 65 d.C., em uma villa aos arredores de Roma. Um centurião romano havia chegado à casa de um dos grandes filósofos do estoicismo com instruções do imperador: Sêneca deveria dar cabo de sua vida imediatamente. Aos 28 e portador de distúrbios mentais, Nero havia sido informado de que havia uma conspiração para afastá-lo do trono. Fora de si, procurava vingar-se indiscriminadamente. Embora não houvesse provas do envolvimento de Sêneca no conluio e apesar do fato de ele ter sido preceptor de Nero por cinco anos e ter atuado como seu leal ministro durante uma década, Nero o havia sentenciado à morte por medidas acautelatórias. Àquela altura ele já havia promovido o assassinato de seu meio-irmão, de sua mãe e de sua esposa; havia também se livrado de um grande número de senadores e cavaleiros, atirando-os aos crocodilos e leões, e incendiado Roma – Exaltado, comemorou ao vê-la consumida pelas chamas [1].

Ao tomarem conhecimento da ordem de Nero, seus amigos empalideceram e começaram a chorar. Mas Sêneca permaneceu impassível:

“Onde está sua filosofia, perguntou ele, e o que foi feito da decisão de jamais se deixarem abater diante da iminência de qualquer desgraça que, durante tantos anos, todos vêm incentivando uns aos outros a manter? Certamente ninguém ignorava que Nero era cruel – acrescentou – Depois de matar a mãe e o irmão, só lhe restava matar seu conselheiro e preceptor.”

Impassível até o fim, aquele que sempre esteve pronto para a sorte e o revés da Fortuna, despediu-se deste mundo com a tranqüilidade daqueles sábios que estavam em paz com a própria consciência: “Devo minha vida a filosofia” – afirmava, e realmente seguiu-a até o fim.

Eis que há muitos que consideram Nero um dos “mestres da escuridão”, um dos seres mais malévolos que já habitaram o planeta. Mas em que exatamente Nero era mestre? Perseguiu, torturou e matou qualquer um que fosse contra sua opinião, e mesmo aqueles que nunca foram, mas que em sua paranóia achou que fossem... Colocou fogo na própria cidade e tocou alegremente sua lira enquanto ela ardia em chamas... Condenou a morte uma das pessoas mais sábias de sua época, que inclusive foi seu mentor em filosofia durante anos...

Que tipo de “mestre” é esse? Um ser que não aceita frustrações? Que sente-se perseguido aonde quer que vá? Que apesar do imenso poder, apesar de todo seu império, nunca chegou nem perto de conquistar a si mesmo? Ora, isso mais me parece com um bebê mimado, que não aceitava um “não” da realidade (a deusa Fortuna a que Sêneca gostava de se referir)... Mas então, muitos podem afirmar que se tratava apenas de um doente mental.

Passemos adiante então: Século XX... Adolf Hitler, o grande “anticristo” responsável direto pela morte de milhões nas grandes guerras mundiais. Documentos apresentados durante o Julgamento de Nuremberg indicam que, no período em que Adolf Hitler esteve no poder, grupos minoritários considerados indesejados - tais como Testemunhas de Jeová, eslavos, poloneses, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais, e judeus - foram perseguidos no que se convencionou chamar de Holocausto. O grande líder carismático do Nazismo, que conseguiu convencer quase toda a Alemanha a acompanhá-lo em uma “marcha de purificação”, na tentativa de fazer uma “seleção natural forçada” que deixasse na face do planeta apenas sua adorada raça ariana.

Onde foi parar aquele jovem que desejava tornar-se um pintor em Viena? De onde vieram tais delírios de grandeza? Tamanha ignorância perante a natureza? Será mesmo que – apesar de todo seu conhecimento oculto – achou mesmo que poderia “bancar o Deus”, o “administrador supremo” das etnias da Terra? Aonde queria chegar ó grande “mestre da escuridão”?

Há quem acredite até os dias atuais que ele foi um grande líder do mal, um digno representante do mítico Satanás em nosso plano físico. Quanta inteligência, quanta força, quanto conhecimento usado para o mal!

Será mesmo? Será que aquele homem de origem humilde (fazia questão de esconder de onde veio), que inicialmente inclinou-se para as artes (de onde nunca deveria ter saído), era mesmo este homem impassível, este “senhor das trevas”?

Os fatos históricos falam por si mesmos: Adolf Hitler cometeu suicídio no seu quartel-general (o Führerbunker), em Berlim, a 30 de abril de 1945, enquanto o exército soviético combatia já as duas tropas que defendiam o Führerbunker (a francesa Charlemagne e a norueguesa Nordland). Segundo testemunhas, Adolf Hitler já teria admitido que havia perdido a guerra desde o dia 22 de abril, e desde já passavam por sua cabeça os pensamentos suicidas.

Um tiro na cabeça. Ó grande “mestre do mal”, é este o seu legado, é esta a sua força e sua determinação? Quando as coisas desandam e a realidade intervém, quando o poder esvai das mãos como óleo, é essa a sua demonstração de coragem? Meu caro artista frustrado, antes tivesse aproveitado sua vida para estudar as cores e o claro-escuro, a música e a filosofia, até mesmo na literatura oculta teria tido um melhor proveito... Ó grande conquistador, tudo o que conquistou foram sangue e ossos, que todos que o amaram seguiram uma ilusão – uma “nuvem de vontade” que se desfez na primeira brisa da Fortuna. Teria sido melhor conquistar a si próprio, e ter conquistado algo de real nessa existência!

Eis que todos esses “mestres da escuridão” apenas nos demonstraram o quão ignorantes, fracos e mimados, foram em suas patéticas existências. Afinal quem é mais forte, àquele que açoita por se achar no direito de julgar quem é bom e quem é mal, ou aquele que, mesmo em sendo açoitado, mesmo diante da morte, permanece impassível em sua confiança em si mesmo e na grandeza de seus ideais? – sejam eles vindos de sua religião ou filosofia ou ciência, ou de qualquer combinação entre elas...

O grande Sêneca tinha um conselho para aqueles que, em tendo seus desejos diminuídos ou extinguidos pela realidade, se tornavam raivosos e descontrolados – parecendo antes com animais do que com “senhores das trevas”:

“Não existe caminho mais rápido para a insanidade. Muitas pessoas irritadas atraem a morte para seus filhos, a pobreza para si e a ruína para seus lares, negando que estão encolerizadas, da mesma forma que os loucos negam a própria insanidade. Inimigos de seus amigos mais chegados... indiferentes às leis... agem pela força... O maior de todos os males apodera-se deles, o mal que supera todos os vícios.”

Raiva e irracionalidade, delírios de grandeza, ignorância plena das leis naturais que ditam em qualquer pedra e qualquer galho partido, e em cada uma das estrelas do céu: estamos todos conectados.

Oh! O mal, o “grande mal” – é só a ilusão dos fracos, o beco sem saída dos desesperados... Desistam dessas promessas feitas pelo mais medíocre dos mitos, venham para o outro lado, venham para onde há música! Há que se conquistar a si mesmo, esta sim é a verdadeira força [2], a verdadeira virtude:

Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? (Cristianismo)

Melhor é o que demora a irar-se do que o poderoso; e o que controla o seu ânimo do que aquele que toma uma cidade. (Judaísmo)

O maior guerreiro não é aquele que vence em batalhas milhares de homens, mas aquele que vence a si mesmo. (Budismo)

A mais excelente jihad é a da conquista do ego. (Islamismo)

Aquele que vence os outros é forte; aquele que vence a si mesmo é poderoso. (Taoísmo) [3]


A seguir, será que nossa consciência conhece nosso mal?...

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[1] O primeiro parágrafo foi retirado do texto de Alain de Botton em "As consolações da filosofia" (editora Rocco). Também utilizei ao longo do artigo algumas citações de Sêneca e Tácito (interpretado por David) conforme constam no mesmo livro. A tradução é de Eneida Santos.

[2] Uns acreditam que toda força está somente na ação, mas outros compreendem quanta força pode haver na inação. Gandhi nos ensinou a reconquistar um império utilizando outra espécie de força, infelizmente ainda desconhecida da maioria de nós.

[3] Citações de trechos das respectivas doutrinas religiosas de acordo com o livro “Unidade”, de Jeffrey Moses (editora Sextante). Obviamente que o conceito de cada palavra deve ser analisado dentro do contexto, o “poderoso” do Judaísmo não é o mesmo do Taoísmo.

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Crédito da imagem: Wilhelm von Gloeden/Alinari Archives/CORBIS (homem vestido como o imperador Nero)

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