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15.4.19

Sefirat ha Ômer 2019

Contagem do Ômer, ou Sefirat ha Ômer, é o nome dado à contagem dos 49 dias ou sete semanas entre Pessach e Shavuót, feriados judaicos correspondentes, respectivamente, a Páscoa e ao dia de Pentecostes. Nesta Contagem mística (de origem judaica), meditamos todos os dias relacionando sete das esferas da Árvore da Vida da Kabbalah com elas próprias e também com as demais, totalizando exatamente os 49 dias de Contagem (7x7=49).

Em 2014 eu segui a Contagem conforme proposta pela Kabbalah Hermética, seguindo o passo a passo organizado pelo meu amigo Marcelo Del Debbio (você pode ver toda a explicação e os vídeos de cada dia da Contagem aqui). De forma inteiramente inesperada, acabei escrevendo (o verbo mais correto provavelmente seria “recebendo”) um novo poema a cada noite da minha Contagem, o que acabou se tornando um livro chamado 49 noites antes da Colheita (disponível em e-book e versão impressa). Todos os 49 poemas foram recitados e gravados em áudio, e hoje estão disponíveis gratuitamente no nosso canal do YouTube.

A Contagem de 2019 se inicia em 20 de Abril, ao pôr do sol. Para celebrar mais um ano de Ômer, trago abaixo os 49 tweets que postei no meu twitter, respectivos a minha meditação do ano passado:

• Todos os primeiros passos foram dados por amor. [1/49]

• Cada passo, cada sentimento, ao seu ritmo. [2/49]

• Assim, ama a quem vai a frente, mas também a quem vai atrás. Ama quem vai a sua direita, e quem vai a sua esquerda. [3/49]

• Ama cada ser. Cada forma com a qual a Vida dá forma e observa a si mesma. [4/49]

• E saiba que, no Caminho do Amor, há um mandamento não escrito: "submissão". [5/49]

• E quem de fato o compreendeu, sabe que o Amor é, foi e sempre será: eterno. [6/49]

• Amadurecido no camimho, amo por amar; não como quem quer guardar um tesouro num cofre, mas como quem vê o ouro espalhado junto a brisa do deserto, e sorri. [7/49]

• Caminho com um sonho em meu horizonte: o dia de alcançar o Amor que julga estranho apenas o que é estranho. [8/49]

• Não perambulo por este deserto a esmo, há um monte onde preciso chegar. Há uma festa para a qual eu também fui chamado. [9/49]

• Cruza um beduíno em meu caminho. É velho, fala num jeito manso, tem a pele desgastada e os olhos cintilantes. Ele me pede um pouco da água do meu cantil. Subitamente, sinto por ele um Amor imenso, além das palavras. [10/49]

• Ninguém atravessa um deserto sem conhecer os seus oásis. [11/49]

• Além das ideias de certo e errado, há um oásis no deserto. Toda travessia passa por ele, por deitar em sua relva, por beber de sua água; e, então, retornar ao mundo. [12/49]

• Nesta senda pelo deserto, mestre e discípulo avançam somente de mãos dadas. [13/49]

• Bendito é o mestre que anseia por discípulos que possam, ainda nesta vida, lhe ultrapassar em sabedoria. [14/49]

• Ama verdadeiramente quem é capaz de transbordar a si mesmo. [15/49]

• O Amor não é um jogo com regras estabelecidas. O Amor é uma experiência. [16/49]

• São tantas as belezas neste Caminho: são incontáveis, e todas passarão. Tudo passa, exceto o Amor que sentimos contemplando a beleza em si mesma, o Amor que arde na eternidade. Eu quero fogo, fogo! [17/49]

• Quem quase nunca julga, raramente poderá ser julgado. [18/49]

• Jamais vi fruto algum com a casca assinada: "feito pela Terra". [19/49]

• Quem ama tem um compromisso com a própria alma. [20/49]

• Nessa travessia é preciso amar quem segue se arrastando pela areia da mesma forma com que amamos quem vai saltitante, bem lá na frente... [21/49]

• Muitos países foram conquistados pelas armas e seus soldados, mas somente o Amor pode conquistar uma alma. [22/49]

• Muitos dos que se arrastam pela retaguarda não são velhos nem mancos: eles estão atados pelos tornozelos a pesados grilhões; e é de bom grado que carregam suas bolas de chumbo. [23/49]

• Quem quer que chegue primeiro no local da Colheita, terá a nobre função de ajudar nos prepartivos da festa, enquanto se aguarda pelos demais... [24/49]

• Uma alma verdadeiramente antiga jamais se portará de forma intolerante para com os erros de quem dá seus primeiros passos no Caminho. [25/49]

• A noite, no deserto de si, sob a luz de incontáveis estrelas, é impossível não se sentir pequenino. [26/49]

Amor nunca foi posse, mas vínculo, entrelaçamento de almas. [27/49]

• Ninguém atravessa o deserto pela fama de grande explorador. Atravessamos o deserto porque é esta a única via para a Colheita. [28/49]

• O verdadeiro caminhante coloca sua Obra acima de si mesmo: ele já não tem importância alguma, só importa a luz que é capaz de refletir. [29/49]

• O verdadeiro caminhante nunca pediu pela guerra, mas sempre fez parte do exército da Vida. [30/49]

• O verdadeiro caminhante é sempre grato e atento a todas as lições do Caminho. [31/49]

• Foi justamente a grama, a mais humilde das plantas, a que transformou esta parte do deserto num oásis... [32/49]

• Enquanto não se ama por amar, enquanto não se compreende que o Amor é o próprio tesouro, que o Amor basta a si mesmo, é impossível alcançar a essência desta realidade... [33/49]

• A melhor forma de vencer este deserto é caminhar de mãos dadas. [34/49]

• A verdadeira majestade advém do exemplo. [35/49]

• O Amor é um compromisso com a experiência de se estar vivo, aqui e agora... [36/49]

• Quem evita o seu próprio deserto está fadado a se arrastar solitário, apartado de si, junto a multidão. [37/49]

• A melhor ajuda é aquela de quem transborda o próprio coração, e atinge às margens dos desertos alheios. [38/49]

• Quem ama tem compromisso com o Amor em si. O Amor é seu próprio tesouro. [39/49]

• Morrer para si; desvanescer como a areia soprada pelo vento; renascer de uma semente de Amor: é tudo isso o que se faz neste deserto. [40/49]

• Desde que iniciei minha caminhada, jamais vi o sol faltar ao seu compromisso com o dia, ou a lua com a noite. [41/49]

• O Amor não tem compromisso algum com a violência, a ignorância ou o sentimento de posse. O Amor tem compromisso consigo mesmo, a Vida tem a sua própria agenda... [42/49]

• Esta jornada é tão longa e extenuante, por que alguém iria querer passar por tantos sacrifícios? Mas eu nem quero, nem não quero, eu amo. Eu sirvo ao Amor, e de bom grado! [43/49]

• Nenhum ser humano é capaz de conhecer toda a extensão de seu próprio deserto. Ainda é preciso outro ser humano para se descobrir nossos recônditos mais ocultos. O olhar de quem amamos é o olhar de Deus... [44/49]

• O Amor em movimento, o Amor como exemplo, supera qualquer texto, vale mais que qualquer discurso. [45/49]

• Aqui, no deserto de mim, após a longa caminhada, perdi tudo o que tinha, restou apenas o Amor: o que sou. [46/49]

• Quando não há nada no mundo além da noite, do deserto, da lua e das estrelas, você subitamente se torna agredecido por tudo o que existe. [47/49]

• O compromisso com quem se ama verdadeiramente é perene, vence qualquer distância: um jamais esteve fora do outro. [48/49]

• Não há soberania mais elevada do que a submissão ao Amor. [49/49]


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Crédito da imagem: Google Image Search

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28.3.18

Vamos contar o Ômer?

Contagem do Ômer, ou Sefirat ha Ômer, é o nome dado à contagem dos 49 dias ou sete semanas entre Pessach e Shavuót, feriados judaicos correspondentes, respectivamente, a Páscoa e ao dia de Pentecostes. Nesta Contagem mística (de origem judaica), meditamos todos os dias relacionando sete das esferas da Árvore da Vida da Kabbalah com elas próprias e também com as demais, totalizando exatamente os 49 dias de Contagem (7x7=49).

Em 2014 eu segui a Contagem conforme proposta pela Kabbalah Hermética, seguindo o passo a passo organizado pelo meu amigo Marcelo Del Debbio (você pode ver toda a explicação e os vídeos de cada dia da Contagem aqui). De forma inteiramente inesperada, acabei escrevendo (o verbo mais correto provavelmente seria “recebendo”) um novo poema a cada noite da minha Contagem, o que acabou se tornando um livro chamado 49 noites antes da Colheita (disponível em e-book e versão impressa).

Muito bem, para a Contagem deste ano de 2018, que se iniciará ao pôr do sol do dia 31 de Março, eu resolvi preparar uma surpresa a todos os contadores que, pelo menos desde 2015, vêm usando meus poemas para auxiliar em suas meditações do Ômer: recitarei todos eles e irei incluí-los no canal do blog no YouTube. Iniciando por Chesed shebe Chesed, a ideia é que escutem cada um deles com a alma plena, durante a meditação específica de cada dia da Contagem:

“Conte esta noite: Hoje é o dia 1 do Ômer.”

» Aqui você encontra o restante da playlist com todos os áudios (note que eles ainda estão sendo incluídos, até o início de cada semana da Contagem, os áudios correspondentes já devem aparecer por lá).

***

Também recomendamos o Sefirat ha Ômer, um APP gratuito para Android, criado por Cristian Dornelles. Contendo todos os textos e gráficos do passo a passo elaborado pelo Marcelo Del Debbio, este aplicativo independente de conexão com internet serve para lhe guiar em cada noite dos 49 dias de meditação, onde você estiver.

Crédito da imagem: Vinícius Amano/unsplash

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24.6.16

Lançamento: Desperte para uma vida melhor

As Edições Textos para Reflexão publicam novamente um livro de Igor Teo, colunista do portal Teoria da Conspiração:

"A dificuldade em lidar com certos aspectos de si mesmo é uma questão frequente na atualidade. Muitas vezes precisamos procurar ajuda porque nos sentimos sucumbidos à tristeza, não controlamos a nossa raiva, não conseguimos sentir alegria ou entusiasmo pela vida, estamos excessivamente ansiosos com certos eventos, entre outros problemas de foro emocional. Por outro lado, muitas pessoas têm encontrado também na meditação um alívio para seus conflitos.

Apesar da meditação ser comumente associada a um contexto espiritual, Igor Teo explora neste livro o aspecto científico da prática, apoiado nos estudos das neurociências. Através de um método sistemático, este livro oferece aos seus leitores, além da compreensão teórica, um conjunto de exercícios para aqueles que desejam trilhar um caminho em busca de uma melhor qualidade de vida para si."

Um livro digital disponível para download gratuito, ou em versão impressa, no formato "pocket book":

Baixar grátis (pdf) Comprar versão impressa

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Abaixo, segue um trecho do capítulo "Ser Humano"...


Do que somos feitos?

Talvez você já tenha se feito essa pergunta. Segundo os cientistas, somos feitos da poeira das estrelas. A combinação aleatória de uma matéria originada bilhões de anos no passado no big bang, e que ao longo do tempo, devido a sucessivas transformações e ao processo evolução da espécie, fez de nós o que somos hoje. Isto é, somos matéria. Somos corpos que andam, cheiram, tocam, são tocados e interagem entre si. Mas não somos apenas isso. Também falamos, pensamos, refletimos... sentimos! Em algum momento da história da espécie, essa matéria começou a agir e reagir mais do que por simples respostas a estímulos externos do ambiente. Esse momento se deu quando adquirimos a linguagem.

Linguagem é diferente de comunicação. Muitos mamíferos superiores, como os golfinhos e abelhas, possuem um sistema de comunicação muito bem elaborado e eficiente. Mas a linguagem propriamente dita é a capacidade de utilizar meios simbólicos para se expressar, podendo um mesmo símbolo/significante ser usado em contextos diferentes. Por exemplo, dizemos que está calor quando está quente e a temperatura está alta. Mas também falamos em calor quando queremos comunicar que uma pessoa é calorosa, demonstrando um calor humano. A linguagem, deste modo, é a capacidade da utilização de símbolos como mediação entre pensamentos, emoções e seres humanos. Como ela não é fechada e unívoca constantemente está passível a “mal entendidos”. O que faz das relações humanas serem tão complexas.


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5.2.14

Encontrando Eu

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).


Noutro conto anterior desta série eu falei, de forma um tanto breve, sobre o meu encontro com o meu Eu [1], e agora chegou o momento de relatar com maiores detalhes este e os outros dois encontros que eu tive com tal entidade nesta vida, ao menos até o dia de hoje...

I

Na primeira vez que o vi, estava em realidade “viajando” dentro de minha própria mente, e o meu primeiro impulso foi o de considerá-lo alguma espécie de guia espiritual que apareceu para me guiar pelo percurso.

No entanto, bastou eu me aproximar mais (o “cenário mental” era o de uma área plana e gramada, se é que isso tem alguma importância) para tomar um dos maiores sustos da minha vida e perceber que em realidade estava, de uma forma um tanto estranha, encarando a mim mesmo e, ao mesmo tempo, encarando tudo o que eu sou, muito, muito além do que o meu ego acredita ser nesta vida – gota de inúmeras outras.

O que a distância parecia uma pessoa, de mais perto lembrava mais uma carcaça humana com uma luz tão forte em seu interior, que a irradiava para fora, principalmente pelas cavidades dos olhos e da boca. A imagem moderna mais próxima que já encontrei disto que presenciei em minha mente foi vista numa série de desenho animado baseada na mitologia oriental em geral: Avatar, A Lenda de Aang (talvez já tenham visto também, e vão saber de qual tipo de imagem estou falando) [2].

Conforme descrevi no outro conto, eu mal consegui me aproximar de Eu, e mesmo os poucos momentos em que o encarei me trouxeram, na época, o maior medo que já havia me lembrado de haver sentido. Não se tratava de um medo racional ou de um medo de ser ferido ou morto fisicamente, mas um medo que vinha do fundo da alma: o medo de saber de tudo o que fui e de tudo o que fiz, de bom ou de mal, em inúmeras vidas, e talvez ir até muito além disso... Enfim, é o tipo de coisa que as palavras, essas cascas de sentimento, não conseguem transmitir. Um PUTA MEDO talvez fosse a tradução mais correta.

Essa experiência que ocorreu durante a minha primeira regressão de memória foi tão forte, embora brevíssima, que até hoje lembro mais dela do que do restante da regressão (apesar de o restante ter sido um tanto impactante, conforme falo no outro conto). Fato é que, apesar de eu ter ficado petrificado de medo ante Eu, a mesma força que me mantinha paralisado carregava uma semente de curiosidade, uma vontade oculta de, quem sabe numa próxima vez, conseguir me aproximar mais, conseguir ter a coragem genuína de vê-lo face a face. O que sei é que não seria fácil, e que dependia somente de mim mesmo conseguir agir de outra forma, se me fosse dada outra oportunidade para tal encontro divino.


II

É então que se passam alguns anos e eu o encontro novamente num sonho. Não me lembro exatamente do ano, mas na verdade me lembro dele como se fosse ontem... Eu só sei que ele ocorreu em algum momento entre os anos 1999 e 2003 porque anotei sobre a regressão em 1999, e até 2003 dormia no mesmo apartamento onde tive o sonho, na zona sul do Rio de Janeiro.

No sonho, eu me aventurava numa torre escura, medieval, como alguma espécie de espião, ou simplesmente um curioso. Como todo sonho, a forma tem bem menos importância que a simbologia, e a simbologia tem ainda menos importância do que os sentimentos vivenciados. Eu tenho quase certeza que teria me esquecido deste sonho, como me esqueço de quase todos, se não fosse pelo desfecho dele...

Voltando ao sonho: Eu subia pelos degraus antigos e espiralados desta torre com a sensação avassaladora de que estava me aventurando em terreno proibido, e que os segredos que ela encerrava estavam ocultos por um bom motivo – mas mesmo assim eu, como grande curioso, me arriscava na busca por os desvelar.

Em dado momento cheguei onde aparentemente queria chegar, uma sala relativamente grande cheia de estantes de madeira velha com grandes livros e tomos empoeirados. Pelo fato de ter lido muitos livros de J.R.R. Tolkien e de haver jogado Role Playing Games, provavelmente as imagens mentais foram influenciadas pela chamada Fantasia Medieval, mas fato é que, em essência, eu estava ali, em terreno proibido, tendo acesso a segredos e informações que não eram acessíveis a qualquer um. Era um misto de excitação e medo de ser pego.

Medo? Para que falar nele de novo, não é mesmo? Eis que, quando estava lendo as primeiras linhas do primeiro tomo que retirei da estante mais próxima, surge um velho num manto negro na entrada da sala, de barbas e cabelos grandes e muito brancos, e um olhar raivoso.

Por um breve momento, ainda antes que ele esboçasse qualquer reação, pude reconhecê-lo: era Eu, novamente Eu, e todo aquele “aparato simbólico” do parágrafo anterior era tão somente minha imaginação tentando dar forma humana ao que está além de toda forma...

“SAIA IMEDIATAMENTE DAQUI”, foi o que a entidade gritou (sem usar a boca, como é comum nos sonhos). E, no momento seguinte eu estava correndo, desesperadamente, até que quase me choquei com a porta da cozinha!

Sim, eu havia não somente acordado e saltado da cama, como saído do meu quarto e atravessado todo o corredor do apartamento até quase me esborrachar na porta fechada da cozinha. E, sim, eu já não estava mais sonhando... Nunca tive outro sonho tão intenso em toda esta vida.


III

Finalmente, o último encontro que tive com Eu foi há poucos anos atrás, num Centro Espírita da cidade onde moro atualmente, Campo Grande.

Neste Centro Espírita, aos finais de semana há um encontro chamado Oficina dos Sentimentos, onde as práticas lembram muito mais uma terapia de grupo, com alguma meditação transcendental, do que os rituais espíritas mais conhecidos. Pois bem, e foi exatamente numa dessas meditações, cujo tema eu já nem me lembro mais qual era [3], que encontrei Eu novamente.

Era um belo cenário natural, que eu normalmente “evoco” em minha mente durante os rituais espiritualistas em geral, com montes e planícies verdejantes, uma cachoeira a distância e um pequeno córrego a atravessar a paisagem. Eu estava no topo de um monte e percebi que Eu estava no outro, distante o suficiente para que eu o pudesse observar, desta vez sem nenhum grande medo. Eu o reconheci prontamente, e aquela primeira curiosidade, aquela vontade genuína de caminhar em sua direção, floresceu novamente em meu coração.

A entidade sorriu, e apontou para o espaço gramado que separava o seu monte do meu. Ali havia um caminho, sinuoso, que parecia simbolizar que ainda precisaria dar muitos passos para que pudesse, finalmente, o ver face a face, sem medo, sem dúvidas ou certezas.

E todo o medo que eu senti em nosso primeiro encontro agora aparecia na mesma intensidade, só que em outra forma, em outra sensação – uma sensação de entusiasmo, entusiasmo, entusiasmo! Valia a pena viver, e seguir naquela via sinuosa, contanto que soubesse que, a cada passo, o momento de nosso encontro se aproximava. Um passo de cada vez.

Há muitas informações desencontradas acerca do que é exatamente este Eu. Dentre outros problemas em descrevê-lo objetivamente, há o fato de que o Eu é também eu mesmo, de modo que existe o “meu eu” e o “seu eu” e o “eu de cada um”. Mas eu não usei maiúsculas sem uma boa razão: ocorre que o “eu de cada um” é também uma parte, um reflexo no espelho, da Luz do Sol, do Eu Maior, do Ser que preenche e dá vida a todos os seres do Cosmos, e do próprio Cosmos.

E a sensação que se sente ante este encontro com a Vida, e com a ânsia da Vida por si mesma, é algo que foge tanto da linguagem que qualquer tentativa de captura-la seria tão frutífera como tentar capturar um raio solar com as mãos...

Um PUTA ENTUSIASMO talvez fosse a tradução mais correta.


***

Entusiasmo (do grego en + theos, literalmente “em Deus”) originalmente significava inspiração ou possessão por uma entidade divina ou pela presença de Deus. Atualmente, pode ser entendido como um estado de grande arrebatamento e alegria.

***

Tu que és eu mesmo, além de tudo meu;
Sem natureza, inominado, ateu;
Que quando o mais se esfuma, ficas no crisol;
Tu que és o segredo e o coração do Sol;

Tu que és a escondida fonte do universo;
Tu solitário, real fogo no bastão imerso;
Sempre abrasando; tu que és a só semente;
De liberdade, vida, amor e luz eternamente;

Tu, além da visão e da palavra;
Tu eu invoco; e assim meu fogo lavra!
Tu eu invoco, minha vida, meu farol,
Tu que és o segredo e o coração do Sol

E aquele arcano dos arcanos santo
Do qual eu sou veículo e sou manto
Demonstra teu terrível, doce brilho:
Aparece, como é lei, neste teu filho!

O Ofício do Hino, Aleister Crowley (trad. Marcelo Ramos Motta)

***

Senhor, tu és meu amante, meu anseio, minha fonte eterna, meu Sol, e eu sou teu reflexo. O dia de meu despertar espiritual foi aquele em que eu vi, e soube que eu vi, todas as coisas em Deus, e Deus em todas as coisas.

Mechthild von Magdeburg, mística católica alemã

***

[1] Ver Abrindo portas na mente (o encontro é descrito nos trechos finais da primeira parte).

[2] A imagem que ilustra este conto foi retirada desta série animada.

[3] Cada encontro tinha um tema geralmente atrelado a um sentimento. Poderíamos estar meditando sobre “a raiva” ou “o amor”, coisas assim.

Crédito da imagem: Avatar, A Lenda de Aang (Divulgação)

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21.5.13

Exercícios para manter o foco

Texto retirado do artigo "Por onde andam seus pensamentos?", de Ingrid Wickelgren, jornalista científica e editora da Scientific American nos EUA. Publicado no Brasil pela revista Mente Cérebro de Maio de 2013 (Duetto Editorial). Os comentários ao final são meus.


É possível pensar que a concentração seja uma forma intensa de atenção. Embora a capacidade de se manter atento a algo varie de pessoa para pessoa, como a maioria absoluta das habilidades também essa pode ser treinada e fortalecida. O importante é incorporar os exercícios ao cotidiano, ainda que sejam dedicados a eles apenas alguns minutos por dia, principalmente no início. Aos poucos, o tempo dedicado à atividade pode ser ampliado.

A seguir, algumas sugestões de exercícios simples que ajudam a ampliar a concentração:

1. De olho no horizonte
De pé, em posição ereta, com os braços ao longo do tronco, sinta o peso do seu corpo e olhe para um ponto fixo à sua frente. Desloque o peso do corpo para o pé esquerdo e flexione o joelho direito elevando-o lentamente enquanto inspira profundamente. Delicadamente, segure o joelho com as duas mãos por alguns segundos e mantenha a coluna naturalmente ereta. Faça cinco respirações profundas. Abaixe a perna enquanto solta o ar. Repita o procedimento levantando a outra perna. Ao terminar, pense que uma linha imaginária passa pela sua coluna vertebral e vai até o topo de sua cabeça, mantendo-o equilibrado em todos os seus movimentos.

2. Olhos abertos, olhos fechados
Esse exercício é feito em duas etapas. Primeiro, escolha um objeto qualquer, como um lápis, por exemplo. Coloque-o na sua frente. Olhe firmemente e concentre sua atenção nele. Deixe que o objeto ocupe todo o espaço mental durante o tempo que for possível. Aumente gradualmente o tempo de duração do exercício. Na segunda fase, feche os olhos e visualize em sua mente o mesmo objeto. Concentre-se nesta imagem virtual, atendo-se a todos os detalhes, pensando apenas nessa tarefa. Caso se distraia, recomece a imaginar o objeto e aumente progressivamente a duração do exercício. Com a prática, verá que fica cada vez mais fácil manter-se focado.

3. Tique-taque
Escolha um ambiente silencioso, sente-se em posição confortável. Pegue um relógio que faça barulho e coloque-o a trabalhar. Concentre sua atenção no ritmo e deixe que o som ocupe todo o seu espaço mental. Se alguns pensamentos passarem por sua mente, não se apegue a eles, deixe-os passar e retome a concentração.

4. Mensagem do bem
Sente-se de maneira confortável, com a coluna reta e escolha uma palavra ou frase positiva (por exemplo, “eu me sinto bem”, “sou grato pelo que tenho em minha vida” ou “sou capaz de aprender”). Repita-a várias vezes, primeiro de olhos abertos, depois de olhos fechados. Deixe que o som das palavras ocupe a sua mente, até que sinta como se o som não viesse de sua boca, mas tomasse conta de todo a ambiente. Pense nas palavras escritas recobrindo objetos e as paredes ao seu redor, com se você estivesse ouvindo um disco uma ou várias vezes. De forma progressiva, aumente a duração do exercício.

5. A chama da vela
Como essa prática é mais longa, com duração de aproximadamente 15 minutos, convém ler as orientações a seguir até se familiarizar com elas, para que não precise se ater ao texto durante sua realização.

Ao criar a imagem mental de uma chama, o fluxo de pensamentos que causam distração tende a ficar mais lento e você poderá atingir uma sensação de bem-estar, com mais consciência de seu corpo:

(a) Acomode-se num ligar calmo e confortável. Acenda uma vela e coloque-a a cerca de um metro à sua frente. Sente-se com as pernas cruzadas no chão, sobre uma almofada ou, se preferir, numa cadeira, mantendo as costas retas contra o encosto e as pernas separadas. Feche os olhos e tome a consciência de cada uma das partes do seu corpo, relaxando uma de cada vez. Respire calma e profundamente, enquanto percorre mentalmente todo o seu corpo.

(b) Mantenha-se nessa posição, com os olhos fechados. Conscientize-se do ritmo de sua respiração, que ficará cada vez mais regular. Abra os olhos e foque na chama da vela. Se os seus pensamentos tentarem “fugir”, traga-os lentamente de volta à chama. Relaxe os músculos faciais e mais uma vez feche os olhos. Inspire e expire profundamente, prestando atenção a esse movimento, sentindo o abdômen subir e descer. Leve o tempo que for necessário até sentir-se relaxado, como se estivesse sendo embalado por ondas produzidas pela respiração. Pense que está calmo e tranquilo.

(c) Visualize a imagem da chama na sua mente. Permaneça focado em seus movimentos intermináveis. Isso ocupa a totalidade da sua mente. É como se você estivesse hipnotizado pela dança e cores da chama. Quando um pensamento tomar conta de sua mente, deixe-o ser consumido pelo fogo. Aproxime um pouco mais o rosto da chama e sinta seu calor, sempre de forma relaxada. Após algum tempo comece a mover sues músculos e membros lentamente e alongue-se devagar, antes de se levantar.

***

Comentários
Ora, de onde diabos a autora retirou estas “sugestões de exercícios simples”? De alguma prática de yoga ou tai chi chuan? Da Magia prática de Franz Bardon? De algum exercício iniciante de alguma ordem magística?
Na realidade, não importa de onde ela retirou tais conhecimentos, nem mesmo a ironia de vê-los publicados pela Scientific American. O que importa é que eles funcionam. Tanto para céticos quanto para espiritualistas...

Crédito da imagem (gif animado): Anônimo/Google Image Search

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13.1.12

Neuroteologia, parte 3

« continuando da parte 2

A parapsicologia (“além da psique”) é o estudo dos fenômenos paranormais, que em sua imensa maioria não são compreendidos e tampouco aceitos pela Academia. A maioria das “pesquisas psi” se concentram na possibilidade da mente poder trocar informações com outras mentes fora do corpo, ou até mesmo de afetar fisicamente a natureza a volta.

Além do cérebro

A despeito do ceticismo unidirecional de uma parcela dos cientistas, sobretudo do chamado “mundo acadêmico”, há muitas décadas existem inúmeros estudos genuinamente científicos que tratam das mais diversas teorias suscitadas pela espiritualidade. O fato de um ou vários destes estudos comprovar alguma coisa experimentalmente não necessariamente significará que “existe um velho barbudo senhor dos exércitos flutuando no céu”, nem tampouco que “nossa alma é imortal e se formos bonzinhos ganharemos uma fazenda nas nuvens após a morte”, mas esta parecer ser, infelizmente, a lógica dos céticos unidirecionais que se escandalizam com a possibilidade de tais pesquisas serem levadas mais a sério pela Academia.

Entretanto, é exatamente o que tem ocorrido... Uma outra crítica costumeira ao capacete de Parsinger é que ele não incorporou em seus experimentos as novas tecnologias de “escaneamento” cerebral, como o eletroencefalograma (EEG) que mede a atividade elétrica neuronal ou a ressonância magnética por imagem cerebral (FMRI), capaz de medir o fluxo sanguíneo e efetivamente “ver o cérebro em ação”. A maior vantagem do uso dessas tecnologias é que podemos ter uma “materialidade” objetiva da atividade cerebral dos pacientes, a despeito de seus relatos subjetivos, ou até mesmo de seus “devaneios” ou, quem sabe, apenas mentiras mesmo.

Porque não medir, por exemplo, a atividade cerebral de monges budistas durante sua meditação? É exatamente esse o “passatempo” predileto do Dr. Zoran Josipovic, da Universidade de Nova Iorque, nos últimos tempos... O objeto das pesquisas de Zoran é principalmente a sensação de “unicidade” atingida pelos monges e praticantes mais aprofundados de meditação. Segundo as conclusões prévias de sua pesquisa, ainda em andamento, as técnicas de “dobrar a mente sobre si mesma” dos monges são precisamente o que desprende a sensação de “unificação” do ser com o todo, comumente conhecida pelos religiosos e místicos como uma experiência de unicidade, não-dual, que se dissipa após a meditação. Este é apenas um de diversos exemplos de cientistas que tratam as experiências religiosas com maior seriedade, reconhecendo sua complexidade, e se abstendo se tentar reduzi-las e “efeitos de campos magnéticos, que nos fazem encontrar Deus”... Até mesmo a definição de “encontro com Deus” de Zoran, e dos budistas, já é consideravelmente mais profunda do que a do Dr. Parsinger.

Enquanto aqui no Brasil muitos céticos acham uma “total futilidade” estudos com “escaneamento” cerebral de médiuns em atividade, no hemisfério norte a história da relação entre ciência e espiritualidade é outra: Embora tenha despertado indignação semelhante de céticos unidirecionais (mas não de um cético de verdade, como Carl Sagan), o parapsicólogo Ian Stevenson teve a sorte de ter tido toda uma vida de pesquisas “além do cérebro” custeadas por um amigo abastado, o inventor da fotocopiadora – Chester Carlson. Graças e ele Stevenson pôde viajar boa parte do mundo atrás de casos sugestivos de crianças que afirmam se lembrar de vidas passadas. Seus relatos detalhadíssimos, que se iniciaram no célebre livro intitulado 20 Casos Sugestivos de Reencarnação, publicado em 1974, se estenderam por décadas [1].

Em 2007, quando morreu, ele havia documentado meticulosamente quase 3 mil casos, a maioria na Ásia. Cerca de 700 dessas crianças, geralmente com menos de 5 anos, tinham recordações tão claras de supostas vidas anteriores que se lembravam de seu antigo nome, do endereço onde tinham vivido, do nome de parentes, e de detalhes muito específicos, porém triviais, de destas vidas – detalhes que Stevenson muitas vezes deixa claro que não poderiam se lembrar, ou conhecer, por “vias usuais”... No entanto, uma das críticas mais costumeiras acerca de seu extenso trabalho é que a grande maioria dos casos ocorreu em países onde a crença na reencarnação é comum. Apesar de isso de forma alguma negar a totalidade da “materialidade” dos registros de Stevenson, para muitos céticos e leigos pareceu um argumento (na verdade, mais uma falácia) forte o suficiente para que classificassem a pesquisa de uma vida toda como pseudociência.

Felizmente, outros parapsicólogos continuaram o trabalho de Stevenson, como o Dr. Jim Tucker, da Universidade de Virgínia, e Carol Bowman. Autora de livros sobre o assunto, Carol teve a oportunidade de acompanhar de perto um dos casos mais “fortes” de reencarnação ocorrido no Ocidente: O caso do garoto James Leininger, filho de pais que não acreditavam na reencarnação, mas foram obrigados a mudar sua crença devido aos detalhes assombrosos citados por seu filho desde ainda muito jovem, quando afirmava ter sido um piloto americano da Segunda Guerra Mundial, que teve seu avião abatido no Japão (esta história é tão impressionante que o garoto chegou a identificar sozinho o local onde seu avião havia caído, quando viajou pela primeira vez ao local da tragédia de uma suposta vida passada – e este momento foi filmado em um documentário) [2]. A despeito da posterior “midiatização” do caso de Leininger, de início tudo foi registrado apenas por seu pai (que por anos permaneceu cético), e era inteiramente desconhecido da mídia “especializada” (claro, a crítica vale tanto lá quanto cá).

Estudos como estes, apesar de trazerem “materialidade” muito mais “paupável” do que a do capacete de deus, são efusivamente ignorados pela Academia, que geralmente se limita a informar “que não provam nada”... Ora, mas é claro que não provam nada, assim como o capacete de deus tampouco prova, assim como a Teoria das Cordas, o materialismo ou o dualismo são apenas teorias. Embora sejam paupáveis, tais estudos não chegam nem perto do número de evidências exigido para mudar o paradigma do pensamento científico mundial, tal como ocorreu com a Teoria de Darwin-Wallace... Não estou querendo dizer que provam algo, apenas que parecem mais paupáveis do que o “conto do capacete”; E, no entanto, o capacete de deus mereceu dúzias de holofotes da mídia “especializada”, enquanto que o estudo de Stvenson (e seus continuadores) até hoje se limitou a receber uma luz de 60 watts – ainda assim, talvez porque Sagan tenha se lembrado de citá-lo em sua “bíblia do ceticismo”, O mundo assombrado pelos demônios.

É claro que ninguém é 100% cético, a questão filosófica de que nada garante que o que a mente percebe do mundo é realidade ou ilusão, ou mesmo a questão científica de que nada garante que a gravidade continuará a funcionar, estável, pelas próximas 24 horas, são apenas questões que “pensadores” fazem dentro das quatro paredes de suas salas acadêmicas (ou talvez em algum pub, regados à cerveja), mas que não são levadas a cabo no restante das horas de seus dias... Mas o ceticismo deve ao menos tentar ser multidirecional, apostar igualmente em teorias monistas ou dualistas, reducionistas ou metafísicas, espiritualistas ou materialistas, afinal a ciência não é e nunca foi ideologia – e esperamos que não se torne uma no futuro.

Nos estudos de experiências de morte, ou quase morte (EQMs), do Dr. Sam Parnia [3], há relatos de experiências “estranhas” ocorridas supostamente enquanto o cérebro dos pacientes estava em “atividade zero”. Tais pacientes eram crianças, jovens e idosos; eram crentes e descrentes, cientistas e não cientistas, espiritualistas e materialistas, etc. Mas quase todos afirmaram ter passado por experiências únicas, das quais irão se lembrar pelo restante de seus dias [3]. Acredito que seja mais sábio não esperarmos por um evento de quase morte, nem por um “capacete miraculoso”, para podermos nos iniciar nesse tipo de experiência. O amor, pelo menos, está ao alcance de todos nós – se vamos ser céticos quanto a Deus ou ao espírito (sejam o que forem exatamente, seja o que cada um acha que são), que pelo menos creiamos no amor. Apesar de ser fogo que queima sem se ver, ele parece existir, ele parece arder, e esperamos que não seja mais uma ilusão.

» Na continuação, uma última palavra sobre os novos estudos do Dr. Parsinger – e sobre como devemos criticar ideias, e não pessoas.

***

[1] Um dos 20 casos do livro está transcrito (de forma bastante resumida, entretanto) no meu blog: “Caso Parmod”.

[2] Para saber mais sobre esse caso extraordinário, recomendo ler A volta, por Bruce e Andrea Leninger, com auxílio de Ken Gross. Editora Bestseller. Ainda é relativamente simples achá-lo na sessão “espiritismo” de grandes livrarias, como a Saraiva.

[3] Parece que recentemente deletaram a entrada do Dr. Sam Parnia na Wikipedia... Talvez mais uma influência dos céticos unidirecionais, e de seu julgamento sobre o que é e o que não é relevante sabermos. Entretanto, felizmente ainda é possível buscar por seu nome e encontrar vários resultados.

[4] Ver também minha série de artigos: “Quase morte”.

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Crédito da foto: Mirropix (família Leninger)

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15.9.11

O ritual das gotas

Esta é a história de como uma poesia virou ritual...

Em 1999 tive a inspiração de uma poesia não usual, um tanto quanto fora do meu estilo na época. A começar pelo fato de ela repetir algumas palavras como numa espécie de mantra, o que só fui me valer em uma ou outra poesia escrita desde então.

Ocorre que, mais de uma década após, durante meu estudo da mediunidade em um centro espírita ecumênico, esta poesia – então já meio esquecida – retornou a minha mente como um visitante que insiste em bater na porta até que ela seja finalmente aberta... Era como se alguém estivesse me pedindo para recitá-la durante o período em que todos estavam em meditação, mas não como uma poesia apenas, antes como uma espécie de oração, ou ritual...

Devido a enorme comoção que ela causou quando recitada a primeira vez, achei por bem divulgá-la para quem tiver interesse em recitá-la também. Antes, porém, gostaria de deixar bem claro o que quero dizer pelos seguintes termos:

- Por ritual entendo, em última instância, uma série de procedimentos mentais que, de acordo com a definição de magia dada por Alan Moore (e outros) – "a ciência de se manipular símbolos, palavras ou imagens para se alcançar estados alterados de consciência" – visa à indução de nossa própria consciência a um estado alterado. Não é estritamente necessário o uso de indumentárias (físicas) como mantos, velas, imagens de santos, etc. No ritual abaixo é apenas necessário recitar uma poesia e pedir que os presentes imaginem certos símbolos.

- Por irradiação mental entendo uma espécie de mentalização de certos símbolos, em certos contextos, e em certos graus de foco mental (quanto maior o foco, maior a eficácia, mas isso requer obviamente maior disciplina e experiência com a prática). Não se trata, certamente, de nenhuma irradiação no sentido físico-científico do termo. No ritual abaixo, a irradiação mental será realizada pela imaginação dos próprios participantes.

Finalmente, o ritual possui um forte componente simbólico para quem o imagina pela primeira vez. Deste modo, as recomendações de irradiações mentais servem mais para quem o está a repetir. Quem recita o ritual deve se lembrar de dar tempo para que aqueles que participam pela primeira vez o possam imaginar e decifrar devidamente. Ou seja: recitar lentamente e, quando possível, de forma sincronizada (com as irradiações).

O ritual deve ser realizado de preferência com luz baixa no ambiente, exceto para quem o recita, no caso de precisar ler o texto (pode-se até usar uma pequena lanterna, por exemplo)...

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O ritual
(em itálico o que deve ser pronunciado)

Irradiação mental inicial: Imaginem uma cachoeira distante, e a natureza ao redor (livre desenvolvimento). A água (elemento) que cai a distância termina por escorrer até nossos tornozelos, talvez até as canelas, de modo que estamos cercados de água por todos os lados. Um pequeno oceano local se faz presente neste recinto, ele alcança nossos pés.

Gotas

Irradiação mental: Nós somos as gotas.

Gotas
que caem

Gotas
que caem
no oceano.

Irradiação mental: Uma leve chuva de gotas a respingar pelo ambiente, a escorar pela face, a escorrer pelo corpo, a agitar a superfície das águas como estrelas a cintilar pelo oceano da noite.

Gotas...
Límpidas, porém cálidas.
Caem...
Em infinitos oceanos.

Irradiação mental: Todos nós somos gotas. Todo mundo é um oceano. Hoje caímos neste oceano. Ontem caímos noutros oceanos. Amanhã cairemos em ainda outros oceanos...

Muitas gotas.
Gotas sem rumo.
Caem ao acaso
em um lindo vaso
que guarda o ser humano.

Irradiação mental: Nós estávamos perdidos, sem rumo, mas despertamos em nossos corpos. Nossos corpos são nossos templos. Nossos templos são os vasos que abrigam as gotas. Todos nós somos gotas.

Quantas gotas
hão de cair
para ante a verdade,
evaporarem de volta aos céus,
e finalmente encontrarem
um caminho a seguir?

Irradiação mental: Há uma luz, um fogo que se irradia do alto. Ele incide sobre o oceano até que algumas gotas evaporem, etéreas, de volta para o alto, em direção a luz. Teremos temor deste fogo? Teremos receio desta luz? Em vão, pois a luz é o amor. A luz é o amor. A luz é o amor, e nós somos as gotas.

Tantas quantas lágrimas
o Criador puder chorar... [1]

Irradiação mental final: Irmãos e irmãs, nós somos as gotas. Irmãos e irmãs, nós somos as lágrimas. O Criador nos cria através de um ato de amor. Suas lágrimas são de puro amor. Nós somos parte deste amor. Nós somos as lágrimas. Nós somos as gotas. O mundo é um oceano. O mundo está repleto de gotas por todos os lados e todas as direções e todos os pensamentos. O mundo está repleto de amor. Pensemos na luz, e nas gotas que ficam, e nas gotas que se vão ao seu encontro...

Abramos os olhos.

***

[1] Dependendo da crença de quem participa do ritual, podem-se usar outros termos no lugar de Criador: Universo, Vida, Cosmos, Deus, etc. Só não recomendo que se usem nomes de profetas ou santos, nem de deuses menores.

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Crédito da imagem: [topo] Akiane Kramarik; [ao longo] Micha Pawlitzki/Corbis

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6.7.09

O trilhar

O I Ching, oráculo chines, possui um hexagrama muito interessante, é o 10, "O trilhar".

Composto por 2 trigramas, tem na sua parte inferior o trigrama referente ao Lago e no superior o Céu.

Significa o caminho da mente; e a figura simbolizada na naureza é o reflexo do Céu no Lago.

O Lago é nossa mente, O Céu a espiritualidade, quanto mais o Lago estiver calmo, mais nitidamente ele vai refletir o Céu; quanto mais agitar a água do Lago, mais distorcida será a imagem nele refletida, até um ponto onde nada mais se refletirá nele, só a agitação de suas próprias águas.

Mentalizar a simbologia deste hexagrama pode ser um excelente exercício mental para práticas de meditação.

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Fonte: Aaron da comunidade Consciência com Ciência, do Orkut.

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12.6.09

Uma breve história da magia, parte 3

continuando da parte 2...

Ritual da irradiação mental de certas cores para a auto-cura de certas enfermidades

Sei que havia prometido um ritual mágico na terceira e última parte desse breve estudo, mas é necessário que antes eu defina alguns conceitos:

1- Por ritual entendo, em última instância, uma série de procedimentos mentais que, de acordo com nossa definição de magia - "a ciência de se manipular símbolos, palavras ou imagens para se alcançar estados alterados de consciência" - visa a indução de nossa própria consciência a um estado alterado. Não é estritamente necessário o uso de indumentárias (físicas) como mantos, velas, imagens de santos, etc; Isso pôde ser comprovado inclusive por magistas renomados como o próprio Aleister Crowley, que já completou certos rituais, por força das necessidades, apenas pela disciplina da mente, por assim dizer. Obviamente que certos rituais são muito complexos para que nossas mentes consigam realiza-los sem nenhum auxílio de simbologia através de itens materiais, mas felizmente o ritual que apresento é muito simples e pode ser feito apenas com o pensamento corretamente direcionado.

2- Por irradiação mental entendo uma espécie de mentalização de certos símbolos, em certos contextos, e em certos graus de foco mental (quanto maior o foco, maior a eficácia, mas isso requer obviamente maior disciplina e experiência com a prática). Não se trata, certamente, de nenhum irradiação no sentido físico-científico do termo. Inclusive neste ritual em específico a irradiação estará direcionada ao próprio corpo do ativador do ritual.

3- Por cores entendo exatamente nossa interpretação simbólica das cores. Pela ciência sabemos que cores não existem, e sim espectros da luz, pois que tudo que chamamos de "cor" são frequências específicas de onda dos fótons (quantas de luz, ou do eletromagnetismo). Nossa interpretação - poderia-se dizer, subjetiva - dessas cores é essencialmente uma simbologia mental. Qual a vermelhidão do vermelho? Isso não pode ser medido objetivamente, depende da subjetividade de cada um. Além disso, para os daltônicos o vermelho certamente será algo muito distinto dos que não tem esse tipo de característica na visão. Disso se tira que o importante é o conceito que aplicamos mentalmente a uma cor, e não a cor em específico. Neste ritual o azul é o catalizador da cura, mas contanto que utilizem o mesmo conceito ao pensarem em qualquer outra cor, podem usa-la no lugar do azul sem problema algum (o azul seria apenas a cor tradicional utilizada para esse efeito, segundo a cromoterapia).

4- Por auto-cura entendo a própria capacidade natural da mente e do corpo de curarem a si próprios. Como dizia Hipócrates, pai da medicina: "tuas forças naturais, as que estão dentro de ti, serão as que curarão suas doenças". Por isso também nenhum médico promete cura, e sim tratamento. Este ritual visa o tratamento por "mentalizações de certos conceitos em forma de certas cores"; Não poderia ser resumido de melhor forma, acredito eu... A pergunta cética "é preciso acreditar para que funcione?" sequer faz sentido aqui, pois antes é preciso compreender para que funcione. É a própria compreensão de si mesmo, o próprio foco mental, que cataliza a cura. Se você já não acredita, de antemão, que o ritual possa trazer-lhe qualquer efeito benéfico, é melhor nem tentar realiza-lo. No entanto, talvez o estudo do efeito placebo, conceito científico, lhe traga maior luz sobre o que ocorre aqui - visto que, para a ciência, a mente tem o poder de cura quando acredita nesse poder; Falta-lhe, entretanto, a compreensão do mecanismo pelo qual o efeito placebo funciona exatamente.

5- Finalmente, vale dizer que aprendi esse ritual inicialmente com a médium Narci Castro de Souza (lembrem-se que minha definição de ritual mágico é abrangente, conforme dito anteriormente, e engloba desde o xamanismo às missas cristãs). Porém, adaptei-o a minha maneira, de modo que provavelmente pouco tem a ver com o original, exceto pela essência do que pretende realizar.

O ritual passo a passo
(Vale lembrar ainda que rituais mágicos não devem servir de "comprimido" para qualquer mero desconforto ou pequena enfermidade. Mesmo em se tratando de remédios físicos [como um anti-inflamatório], a dosagem exagerada fará com que o organismo não reaja mais a química do remédio; O mesmo ocorre na prática exagerada, e consequentemente sem o foco devido, de rituais mágicos)

A- De preferência, encontre um local (físico) tranquilo para a prática. Pode ser algum lugar sem ruídos de sua própria casa, algum jardim ou parque bucólico, uma praia vazia, etc. Não é necessário o uso de música, mas se está acostumado a usa-la para meditar ou relaxar, tanto melhor.

B- Feche os olhos e respire profundamente por algum tempo (depende de sua capacidade de relaxar, assim que conseguir esquecer "o mundo lá fora" por alguns instantes, estará bom). Imagine (mentalize com o devido foco mental) que está se transportando para um lugar de natureza exuberante, onde as "energias" que movem a natureza estão em estado puro. Se estiver em uma praia, imagine a essência de uma praia: a areia que erodiu ao longo de milhões de anos, a água mais pura e cristalina, o Sol que brilha e acalenta sem queimar, etc.

C- Imagine o céu em azul límpido, com núvens passageiras (aqui já estamos ativando a cor azul, como disse pode usar alguma outra, contanto que siga a essência do ritual - que é a irradiação da cor natural para dentro de si próprio). As aves que flutuam sem esforço nas brisas, e cantam para saudar o visitante conhecido (você mesmo). A mesma brisa que move as núvens e sustenta as aves também passa pelo seu corpo, e te envolve com a leveza de uma carícia.

D- Pense, brevemente, no motivo pelo qual está aqui: na enfermidade que deseja tratar. Lembre-se que na natureza não há garantia de cura, mas que ainda assim nos curamos inúmeras vezes de inúmeors males e enfermidades ao longo da vida. Pense: "tomara que esta seja mais uma vez". Então comece a respirar (apenas respirar ainda, sem exprirar) e imagine que o ar que respira é o próprio azul do céu, que desce e se irradia pelo seu corpo através da respiração.

E- Direcione este azul que entrou em seu corpo pela respiração para o local exato de sua enfermidade. Aqui, quanto maior for seu conhecimento biológico do corpo humano, e do mecanismo da respiração, tanto melhor. Se já estudou o que os remédios fazem para tratar certas enfermidades, imagine este azul como a essência da química curativa de tais remédios. Quanto maior a compreensão e conhecimento do que ocorre em um tratamento, melhor a eficácia do foco mental e da catalização do tratamento em si. Porém, o conceito essencial é o de que este azul, vindo diretamente do céu, está irradiando sobre sua enfermidade e absorvendo as células enfermas (ou a própria enfermidade em si), lentamente transformando-se em vermelho (novamente a cor não importa, o vermelho seria a enfermidade em si).

F- Agora expire, sem pressa, este vermelho. Imagine que a enfermidade é lentamente dissipada nas consecutivas respirações (do azul de tratamento) e expirações (do vermelho da enfermidade). O vermelho expelido não prejudica a natureza à volta, lentamente se dissipa ao se misturar com o ar. A enfermidade não deve ser encarada como punição, mas como um estado não natural do organismo, que em essência é naturalmente saudável. Viver traz enfermidades pois na natureza tudo se transforma, mas a essência da vida em si é saudável e infinita. Isso tudo são pensamentos que podem ser levados em consideração nessa hora.

G- Então agradeça a possibilidade de fazer uso das "energias" que movem a natureza. Agradeça aos animais que o saudaram, agradeça a possibilidade de viver. Então se despeça de todos que lá estão e imagine que está se transportando de volta ao local físico onde iniciou a meditação.

H- Abra os olhos e diga ou pense "graças a Deus", ou ainda "graças ao Cosmos", etc.

***

Nota: se eventualmente algum evento estranho ao passo a passo descrito ocorrer durante o ritual, aproveite-o apenas na medida em que se sentir bem. Se em algum momento sentir-se mal, seja por influência do que for, interrompa o ritual imediatamente passando diretamente para o passo H. Se esse mal-estar ocorrer frequentemente durante outros rituais, você poderá simplesmente deixar de os realizar, ou procurar alguma casa de estudos ocultos, ou alguma igreja onde se sinta bem, até que isso não mais ocorra durante os rituais.

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Crédito da foto: Onne van der Wal/Corbis

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15.5.09

Sócrates nas Nuvens

Texto de Jean-joël Duhot no "Sócrates ou o despertar da consciência" (Edições Loyola)

Vejamos como se faz o encontro de Estrepsíades com o mestre (Sócrates como caricatura [1] em As nuvens de Aristófanes, o texto mais antigo a seu respeito). Um discípulo introduziu no "pensadeiro" (novamente, caricatura de uma "escola" socrática [2], na peça de Aristófanes) um novo aluno: Sócrates está no ar, num barquinho suspenso:

Ando nos ares e olho o sol. Nunca, com efeito, teria deslindado exatamente as coisas celestes se não tivesse elevado meu espírito e confundido meu pensamento sutil com o ar semelhante. Se tivesse ficado na terra para observar de baixo as regiões superiores, nunca teria descoberto nada; não, porque a terra forçosamente atrai para ela a seiva do pensamento. É exatamente o que acontece com o agrião. [As nuvens, 225-243]

Por trás da paródia, pode-se compreender, parece que Sócrates se arranca da terra e pratica uma ascensão do espírito que lhe permite o acesso às realidades superiores. Esse acesso supõe uma iniciação comparada à dos Mistérios [As nuvens, 258, 303] [3]. E, depois de ter ouvido as Nuvens, a alma de Estrepsíades [As nuvens, 319] começa a alçar seu vôo. Contudo, o conhecimento supõe aptidões, trabalho e uma verdadeira ascese: precisa-se de memória, de concentração e de resistência, de saber aguentar de pé as caminhadas, o frio e a fome [As nuvens, 412-416]. Quando chega o momento da iniciação, Estrepsíades, trêmulo, evoca a consulta do oráculo de Trofônios [As nuvens, 50]. Depois de uma lição de mestre de escola, em que Estrepsíades exibe claramente seus limites intelectuais, Sócrates o convida a passar para uma sessão de meditação, alongando-se sobre um catre, coberto de percevejos para a circunstância. O coro traz ao novo discípulo alguns conselhos:

Medita agora e examina a fundo, gira teu pensamento em todas as direções, recolhido sobre ti mesmo. Depressa, se cais em um impasse, salta para outra idéia de teu espírito; e que o sono doce ao coração esteja ausente de teus olhos. [As nuvens, 700-705]

Conselhos que parecem bastante técnicos, notadamente sobre o risco de pegar no sono, ao qual Sócrates está atento um pouco mais adiante [As nuvens, 732], quando vem perguntar a Estrepsíades sobre o resultado de sua meditação. A isso acrescenta uma indicação sugestiva: é preciso relaxar o espírito para que ele alce o vôo [As nuvens, 762].

A encenação e o conteúdo de paródia dos diálogos não devem iludir-nos: eliminando tudo que tem a ver com a intenção cômica, parecem desenhar-se certas características. Sócrates concebe o ensinamento como uma iniciação aos Mistérios, o conhecimento adquire-se no termo de um trabalho e de uma verdadeira ascese, que necessitam e qualidades naturais: além disso, é necessário praticar a meditação. Tudo isso permite destacar-se da terra, o que abre o caminho para o conhecimento.

Assim, abstraindo do tom e do conteúdo da paródia, Aristófanes confirma amplamente os aspectos de Sócrates que Platão evocava com a metáfora do xamanismo (em Cármides). A iniciação dos Mistérios resultava em uma visão, a epoptia, que aparece frequentemente no Sócrates de Platão, de modo que também nesse ponto Aristófanes traz uma preciosa caução ao testemunho de Platão.

Parece, pois, que o êxtase esteja no coração do pensamento de Sócrates. É nesse vôo da alma que ele pode contemplar a realidade, libertado da terra, e tenta, por uma combinação de disciplina intelectual, de ascese e de meditação, provocá-la em seus discípulos [4].

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[1] O autor, Duhot, postula exatamente que a caricatura não é completa, e que por detrás dela se revela o Sócrates "iniciado" que Platão procurou ocultar.

[2] Mais adiante o autor postula sobre a possibilidade de ter existido, e conclui que era apenas uma alusão a escola pitagórica, além de um lugar ficctício necessário ao roteiro da peça em si.

[3] Trata-se dos Mistérios de Elêusis: os sacerdotes de Elêusis ensinaram sempre a grande doutrina esotérica que lhes veio do Egito. Esses sacerdotes, porém, no decorrer do tempo, revestiram essa doutrina com o encanto de uma mitologia plástica, repleta de beleza.

[4] Dirigindo-se a Sócrates, o Alcibíades de O Banquete compara-o ao sátiro Mársias:

Mas, tu dirás, não és tocador de aulos (instrumento musical parecido com oboé). Sim, e bem mais extraordinário do que Mársias. Ele de fato servia-se de um instrumento para encantar os seres humanos com a ajuda do poder de seu sopro, e é o que se faz hoje em dia quando se tocam suas músicas no aulos. E as músicas de Mársias, se interpretadas por um bom tocador de aulos, são as únicas capazes de nos pôr em um estado de possessão, e porque são músicas divinas, capazes de fazer ver quais são os que têm necessidade dos deuses e de iniciações. Mas tu te distingues de Mársias em um só ponto: Não tens necessidade de instrumentos, e é proferindo simples palavras que produzes o mesmo efeito (...) Cada vez que a ti se ouve, ou se escuta uma pessoa que está transmitindo tuas falas (...) ficamos perturbados e possessos. (...) Quando lhe escuto meu coração bate muito mais forte do que o de Coribantes e suas palavras me tiram lágrimas. [O Banquete, 215 b-e]

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Crédito da foto: Wikipedia (tríade eleusiana)

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20.4.09

Reflexões sobre a consciência, parte 3

continuando da parte 2...

Meditação: consiste na prática de focar a atenção, freqüentemente formalizada em uma rotina específica. É comumente associada a religiões orientais. Há dados históricos comprovando que ela é tão antiga quanto a humanidade. Não sendo exatamente originária de um povo ou região, desenvolveu-se em várias culturas diferentes e recebeu vários nomes, floresceu no Egito (o mais antigo relato), Índia, entre o povo Maia, etc.

Manual de nós mesmos

Os adeptos da meditação budista usam técnicas de "observação" da mente desenvolvidas há mais de 2.500 anos pelo filósofo indiano Siddharta Gautama, mais conhecido como Buda. O objetivo dessas técnicas é dobrar a mente sobre si mesma e observá-la em ação. De acordo com os budistas, tal introspecção pode oferecer visões sobre a natureza da mente, da realidade e do mistério da consciência. Tais declarações tradicionalmente não seduzem os cientistas e a insistência deles por provas objetivas. Contudo, monges budistas bastante treinados vêm se encontrando com cientistas para investigar a natureza da consciência.

Segundo o budismo e outras vertentes da sabedoria oriental, nossa mente está tão absorta pelo passado e suas memórias, e o futuro e suas expectativas, que raramente conseguimos viver o momento presente: o que, ironicamente, é o único momento que nós temos para viver... Uma das formas de compreendermos como "viver no presente" envolve a compreensão correta de que tudo no mundo é o resultado de uma grande confluência de causas e condições, e todas as coisas do mundo desaparecem quando estas causas e condições deixam de existir - o chover, o soprar dos ventos, o vicejar das plantas, o amadurecer e fenecer das folhas são fenômenos relacionados às causas e condições; uma criança nasce, tendo por condições os pais; seu corpo é nutrido de alimentos, sua mente educa-se com os ensinamentos e experiências - Assim, o corpo e a mente se relacionam às condições e variam quando elas se alteram. Assim como uma rede é confeccionada com uma série de nós, tudo neste mundo possui também uma série de vínculos. Ação gera reação: se alguém pensar que a malha de uma rede é coisa independente ou isolada, estará equivocado.

Quando "esvaziamos" a mente de suas memórias recorrentes do passado (incluindo as frustações), assim como de seus desejos e expectativas ante o futuro (incluindo os medos), podemos então dobrar a mente sobre si mesma e, de certa forma, visualizarmos em primeira mão um pouco do que somos realmente: o "eu profundo" que opera nos bastidores do "teatro mental", que organiza a inconsciência e que realmente faz as escolhas que meio segundo depois chegam a nossa consciência (e que acreditamos que decidimos de forma inteiramente consciente). Há muitos no ocidente que não compreendem as vantagens de se "perder tanto tempo" parado, meditando, "pensando em nada", quando afinal há tantos problemas e desafios a serem resolvidos no mundo... Um budista diria que há "ação na inação": da mesma forma que um adolescente pode estar ao mesmo tempo vendo TV, ouvindo música e conversando com amigos em inúmeros países, sem no entanto estar realmente focado em alguma coisa mais profunda (como, por exemplo, o sentido de sua vida ser bombardeada por tantas informações irrelevantes ou, talvez, o sentido de se ter o desejo de operar exatamente como outros adolescentes em novelas e comerciais de TV), um monge praticando meditação transcendental pode estar "organizando as coisas" em sua mente de uma maneira tão profunda que, quando "desperto", viverá o presente e o lado profundo da vida, e não perderá tanto tempo com superficialidades que ele sabe - não lhe trarão nenhum tipo de benefício real na compreensão da existência.

Tudo o que somos, nosso "eu profundo" e as diversas máscaras e construtos de personalidade que ele utiliza para a vida em sociedade, tal qual peças de um "teatro mental", se resume ao que quer que seja que comande o processo de consciência e a análise e reenvio de informações (escolhas simples ou complexas) ao cérebro, que somente então se encarrega de retransmiti-los ao resto do corpo por impulsos nervosos - sabemos, portanto, onde o cérebro está ativo em dado momento, conseguimos verificar por quais "fios" passa a corrente elétrica dos pensamentos, mas até hoje falhamos miseravelmente em identificar a "usina mental", aquela que realmente gera os pensamentos (ou os recebe da consciência).

Segundo as pesquisas em parapsicologia, a consciência e os pensamentos podem não estar absolutamente limitados em nosso próprio cérebro: se pensamentos são correntes elétricas que ocorrem entre neurônios, mas que não sabemos de onde realmente vem, pode ser que certos fenômenos possam ser explicados por pensamentos que, além de atuar nos neurônios do cérebro original, possam ser transmitidos a outras consciências, como "ondas de rádio mental", e captadas por aqueles que tem a "sensibilidade" mais apurada. A percepção extra-sensorial (PES) seria a forma como tais consciências "pegariam no ar" essas ondas, quase que como pequenas antenas mentais, e poderiam receber informações a distância de forma não-convencional, ou pelo menos sem a necessidade de utilizar qualquer tipo de tecnologia desenvolvida pela ciência. A mente humana já seria, desde épocas remotas, a tecnologia mais apurada de que dispomos. A parapsicologia procura então decifrar e compreender fenômenos como a empatia (transmissões mente a mente de percepções emocionais, a mais comum), telepatia (transmissões mente a mente de informações) e clarividência (idem, porém a fonte seria o meio ambiente em si).

A maioria dos parapsicólogos, atualmente, espera que estudos adicionais venham finalmente explicar essas anomalias em termos científicos, apesar de não estar claro se eles podem ser completamente compreendidos sem expansões significativas (poderia se dizer revolucionárias) do estado atual do conhecimento científico. Outros pesquisadores assumem a posição de que modelos científicos já existentes, tais como os de percepção e de memória, são adequados para explicar alguns dos fenômenos parapsicológicos.

Segundo o espiritismo e outras doutrinas espiritualistas, a consciência nada mais seria do que uma forma de interação entre o espírito e o corpo, onde o primeiro comanda e o último, através dos pensamentos, é comandado. Embora muitos leigos acreditem que tais teorias afirmam que o espírito seria imaterial, na verdade, assim como Bahram Elahi deduziu, as teorias modernas afirmam que o espírito é incorpóreo, mas não imaterial - é formado por matéria sutil, "fluida", que até hoje não foi detectada pela ciência. O espírito, o verdadeiro "eu profundo", seria a entidade que faria as escolhas e as "encaminharia" ao cérebro. Para tal, se valeria tanto das memórias conscientes quanto das inconscientes, e através do processo da consciência, canal de "ida e volta", analisaria as informações sensoriais recebidas (a "ida", como por exemplo: uma criança está presa em um prédio em chamas), checaria de forma quase instantânea todo o histórico de decisões tomadas no passado, elaborando uma espécie de "tendência moral" a ser aplicada para aquele input de informações em específico, e responderia o comando, a escolha tomada (a "volta", como por exemplo: "eu sei que o amor é a maior fonte de felicidade do mundo, então vale a pena arriscar a vida para salvar a criança"; ou talvez: "é muito arriscado entrar no prédio em chamas, além do mais irei me aposentar em 2 anos e tenho direito a um descanso..."). Vale ressaltar, nesse exemplo, que talvez a análise de "tendência moral" seja quase instantânea porque o espírito mantém essa informação "constantemente atualizada", motivo exato pelo qual existiria aí o livre-arbítrio: a real capacidade de tomar decisões complexas e morais por influência própria, e não de algum processo quântico aleatório, ou da reação previamente determinada de certas partículas no cérebro.

Obviamente as teorias espiritualistas não param por aí, e a quase totalidade delas (pelo menos as destituidas de dogmas e/ou manuais infalíveis) defende que os espíritos podem existir ainda antes do nascimento, assim como após a morte - seriam absolutamente independentes do corpo. Embora a ciência "esbarre" em tais possibilidades nos estudos das EQMs (Experiências de Quase Morte) ou em pesquisas de casos de crianças que se lembram de vidas passadas, é desnecessário dizer que a teoria da reencarnação afasta muitos cientistas, céticos, e principalmente materialistas, do estudo sério dessa possibilidade de explicação para o processo de consciência.

Os filósofos gregos já compreendiam que o autoconhecimento era um caminho tão infinito quanto o conhecimento da natureza a nossa volta. De lá para cá, descobrimos coisas surpreendentes no espaço profundo: luas, planetas, cometas, estrelas, galáxias, buracos negros... Porém também descobrimos que podem existir tantos neurônios no cérebro quanto há estrelas no céu de nosso horizonte cósmico. E, assim como a física de partículas esbarra no exotismo da mecânica quântica, e na sólida possibilidade de que 96% da matéria do universo nos seja absolutamente desconhecida, e mesmo que ele possa ser governado por minúsculas cordas a vibrar em espaços "infinitamente pequenos", talvez o estudo aprofundado e científico da consciência nos venha a revelar aspectos da natureza tão surpreendentes e elegantes quanto esses... Talvez estejamos hoje em uma era em que, pela primeira vez, poderemos começar a escrever o manual de nós mesmos de forma igualmente subjetiva e objetiva. Pois estamos cada vez mais perto do observador em nós, do "eu profundo", do que quer que seja que comande absolutamente tudo o que fazemos - pois somos tudo aquilo o que pensamos, percebemos e eventualmente compreendemos.

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Bibliografia recomendada: "A doutrina de buda" de Siddharta Gautama (ed. Martin Claret); "O espírito e o tempo" de J. Herculano Pires (ed. Paidéia); "O livro dos espíritos" de Allan Kardec (ed. Lake); "O que acontece quando morremos" de Sam Parnia (ed. Larousse).

Crédito da foto: Younglings

Nota: Normalmente não atento para isso, mas os comentários do Rayom ao longo de todas as 3 partes dessa reflexão são de tal forma pertinentes ao assunto que merecem serem lidos como um adendo ao texto. Para ler basta clicar no link "comentários" abaixo de cada post (na home) ou visualiza-los abaixo dos posts (quando vistos separadamente).

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