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29.7.16

O Estado Anti-Islâmico

O termo Islã deriva de uma antiga palavra árabe que significa “submissão”. Num contexto místico-religioso, é claro que estamos falando de uma “submissão a Deus” e, dessa forma, fica subentendido que todos os verdadeiros islâmicos, os realmente religiosos e místicos, buscam a Deus dentro de si e em tudo o que há. A sua guerra é interna, e a única conquista que desejam é o amor divino.

O Estado Islâmico, dessa forma, está mais para Anti-Islâmico; eles não se submetem de fato a alguma divindade que lhes habita a alma, mas tanto o inverso disto: esperam que o mundo inteiro se submeta as suas regras, ao seu califado sombrio.

Eles basicamente entenderam a religião pelo inverso, mas isto não ocorreu da noite para o dia, e nem é exclusividade do islamismo, ou mesmo de doutrinas religiosas desvirtuadas. Como sabemos, os homens se dedicam a se matar uns aos outros há tempos e pelas mais variadas razões, e ainda que por vezes tentem justificar sua carnificina usando o nome de Deus, na prática eles fazem guerras pelo mesmo motivo de sempre, a mesma ignorância antiga e persistente: por estarem submissos aos territórios, as riquezas e ao poder mundano.

Para os que buscam “evangelizar” o terror, “Deus” é apenas uma palavra, uma desculpa. Como não conseguem se submeter ao Deus que lhes habita, como o evitam a todo custo e a todos os momentos, como temem se abandonar no amor, e aniquilar os seus próprios egos, eles buscam justificar sua própria ignorância da religião subvertendo o sentido de tudo: o caminho então já não é buscar a Deus em mim, mas ter certeza de que todos creiam na mesma doutrina que eu creio, nem que para isso eu precise recorrer a violência extrema, ao caos e ao medo.

Apesar de muitas doutrinas religiosas e ideologias políticas terem a sua cota de sangue pela história humana, é inegável o fato de que hoje, no início deste novo século, foi o islamismo quem pariu a cria mais nefasta e perigosa. E quem deve admitir isto são primeiramente os próprios islâmicos, uma vez que são eles os que mais sofrem com o chamado Estado Islâmico: os países que fazem fronteira com suas bordas no Iraque e na Síria, em sua maioria de muçulmanos, são aqueles que mais sofreram atentados, os que mais tiveram baixas em combates militares, e os que mais receberam refugiados.

No entanto, como vinha dizendo, tal organização pseudo-religiosa não surgiu do dia para a noite. O Estado Islâmico é uma cria do wahabismo, e o wahabismo não teria chegado onde chegou não fosse pela condescendência da Arábia Saudita.

Fica mais fácil explicar contanto uma triste história:

Era manhã em Karbala, uma cidade próxima de Bagdá, e o mercado local estava cheio quando todos ouviram gritos. Um grupo de homens vestidos de preto, levando espadas e bandeiras negras, invadiu o mercado matando crianças, mulheres, idosos e adultos; indistintamente e sem pena. Eles continuaram com a matança avançando pelas ruas até tomar o controle de toda a cidade. Alguns afirmam que, apenas neste dia, cerca de 4 mil pessoas morreram.

Os homens vestidos de preto que organizaram tal ataque não eram do Estado Islâmico. O massacre ocorreu há mais de 200 anos e o grupo era comandando por um dos primeiros governantes da Arábia Saudita, que havia acabado de fundar um novo movimento religioso ultraortodoxo e radical dentro do Islã, o wahabismo.

Segundo o professor Bernard Haykel, de Princeton, especialista em teologia islâmica [1], "o wahabismo sempre foi descrito popularmente como a mãe de todos os movimentos fundamentalistas”.  “No entanto” – ele prossegue –, “para encontrar a inspiração ideológica destes movimentos é preciso voltar ao salafismo jihadista".

O salafismo remonta ao século 19 e uma de suas figuras mais influentes foi um homem chamado Muhammad ibn Abd al Wahhab, um pregador nascido em um lugar remoto da Península Árabe em torno de 1703. Segundo Haykel, "ele acreditava que os muçulmanos tinham se distanciado da verdadeira mensagem do Islã, e ficou horrorizado com o que via em Meca, o lugar sagrado para os muçulmanos, com os nobres vestidos de forma extravagante, fumando haxixe e escutando música".

Wahhab era um fundamentalista que queria "purificar" o Islã, crendo que para tal bastaria que todos se voltassem aos princípios básicos da fé. E assim, gradualmente, suas ideias foram se espalhando... Mas é claro que nem todos estavam de acordo e, como era de se esperar, ele acabou expulso do vilarejo onde morava.

Após peregrinar sem rumo, eventualmente encontrou abrigo junto ao homem que governava uma pequena cidade vizinha, Muhammad Ibn Saud, com quem fechou um acordo em 1744. Com este acordo, foram firmadas as bases para a formação de toda a região: Saud se comprometeu a apoiar Wahhab política e militarmente e, em troca, Wahhab conferiria a Saud uma “legitimidade religiosa”.

Juntos, eles tomaram o controle de muitas cidades no entorno. Saud reinava e Wahhab pregava e colocava em prática o que acreditava ser “o islamismo puro”. Segundo Haykel, “eles tinham listas de todos os membros da comunidade e assim garantiam que todos eles iam à mesquita cinco vezes ao dia para orar. Era uma imposição da fé que aplicavam quase como justiceiros, uma versão intolerante da fé que no Islã tradicional não existe".

A aliança entre Wahhab e Saud continuou conquistando territórios. Pelo final do século 18 eles já controlavam quase toda a Península Árabe. Desta forma foi estabelecida a união histórica entre a Arábia Saudita e o wahabismo. Portanto, não deveria causar espanto que muitas das execuções transmitidas online pelo Estado Islâmico sejam muito parecidas com as execuções oficiais da Arábia Saudita: não poderia ser de outra forma, pois que ambos os estados, o oficial e o terrorista, de certa forma seguem a uma mesma lei sombria.

Nos dias de hoje há um debate acirrado entre os especialistas sobre se realmente Wahhab pregava a violência ou se suas ideias foram manipuladas por Saud e pelos descendentes e partidários que vieram depois dele, e eventualmente fundaram a Arábia Saudita em 1932, mas seja como for, fato é que a ignorância do verdadeiro Islã venceu, e o que restou foi somente o dogma e a violência, sem muito espaço para nada que lembre, nem de longe, alguma espécie de misticismo.

Decerto não ajudou em nada o Reino dos Saud estar situado bem em cima  das maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo. Somente tanta riqueza farta, afinal de contas, pode explicar como a sua monarquia sobreviveu até o nosso século, e como ainda conseguem se manter aliados do Ocidente e dos EUA, que convenientemente se esquecem de que os maiores grupos terroristas da nossa época basicamente não existiriam não fosse pela “vista grossa” que os governantes sauditas fizeram e ainda fazem em relação ao wahabismo.

Claro que estou resumindo bastante a história. Sempre vale lembrar que há séculos persiste o conflito entre duas vertentes do Islã: os sunitas e os xiitas [2]. No atual jogo de xadrez do Oriente Médio, a maior nação xiita é o Irã, enquanto que a maior nação sunita é a própria Arábia Saudita. Dessa forma, uma vez o wahabismo sendo uma vertente radical do sunismo, também foi sempre conveniente para os governantes árabes “fingirem que não estavam vendo” grupos radicais surgindo aqui e ali, dentro de seu próprio território, uma vez que eles eram a promessa de muito trabalho para os seus inimigos iranianos.

Mas certamente ninguém imaginou que a ignorância e a violência chegariam aos níveis atuais. Claro, é bem provável que o mar de refugiados batendo a porta da Europa tenha causado mais problemas para as “boas relações” do Ocidente com os sauditas do que propriamente os anos e anos de extermínios no Iraque, na Síria e no Curdistão, mas fato é que ainda hoje há muita gente que lucra com o Estado Islâmico. Afinal, eles ainda têm de encontrar compradores para sua produção de petróleo nos poços que vieram a conquistar; e, da mesma forma, alguém tem de estar lhes vendendo armamento de guerra. Quem será? Interessa ao Ocidente saber? Vocês me digam...

O Estado Islâmico é um câncer e uma mancha cada vez mais sombria na luz do verdadeiro Islã. Mas é chegada a hora de enfrentá-los de verdade, pois temos visto que apenas o discurso não tem dado tão certo.

E, no entanto, por mais bombas que joguem em suas cabeças, nada me parece tão letal para a sua doutrina do que estas palavras, as palavras de um poeta do século 13, um poeta que também foi um religioso islâmico, e é lembrado até hoje. O wahabismo é incapaz de sobreviver à poesia de Jalal ud-Din Rumi:

O que eu posso fazer, ó muçulmanos? Eu não me conheço mais. Não sou cristão ou judeu. Nem um islâmico, nem um mago. Não venho nem do Oriente nem do Ocidente. Nem do continente, nem do mar. Tampouco do Manancial da Natureza, ou dos céus circundantes. Nem da terra, nem da água, nem do ar, nem do fogo.

Não venho do trono, nem do solo. Nem da existência, nem do ser. Nem da Índia, nem da China, Bulgária ou Saqseen; nem do reino do Iraque ou de Khorasan; nem deste mundo nem do próximo: nem céu nem inferno. Nem de Adão nem de Eva. Nem dos jardins do Paraíso nem do Éden.

Meu lugar é sem lugar, minhas pegadas não deixam rastros. Nem corpo nem alma: tudo que há é a vida do meu Amado.

Eu afastei toda dualidade: eu vi dois mundos como um. Eu desejo Um, eu conheço Um, eu vejo Um, eu clamo: “Um”.

***

[1] Trechos retirados de artigo da BBC.

[2] A história remonta a uma cisma ocorrida ainda no século 7, 30 anos após a morte de Maomé, quando após o assassinato do atual califa (governante religioso), um grupo (os xiitas) defendeu que um primo de Maomé deveria ser o novo califa, enquanto outro (os sunitas) defendeu que tal cargo caberia a um amigo de Maomé, que no entanto não era seu parente de sangue. Os sunitas venceram a disputa e, ainda hoje, são o grupo majoritário, com cerca de 84% dos islâmicos do globo.

***

Para quem quiser se aprofundar no tema, indico o livro Estado Anti-Islâmico da jornalista brasileira e muçulmana Chadia Kobeissi (obs.: este artigo foi publicado anteriormente ao lançamento do livro, o título similar é somente uma feliz coincidência).

Crédito da imagem: Google Image Search/khamenei.ir (uma comparação entre as execuções na Arábia Saudita e no Estado Islâmico)

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12.3.13

Mãos à obra!

“De que lado é que veio este vento?”
Não há lados.

“De onde é que você me chamou?”
Não há “onde”. Há somente o chamado...

“Porque não me deixa em paz? Tenho sono...”.
Não há sono no mundo!

“Quero ser um fantoche, não um ator”.
Não lhe imaginei como um fantoche;
O imaginei como grande herói,
Grande aventureiro da própria vida,
Argonauta dos sete mares!

“Não quero navegar, não quero ser náufrago...”.
Navegar é preciso!

A vida no medo
É como uma ilha de náufragos no deserto
Tateando atrás duma gota d’água...
Ó herói temerário, aventura-te!
Desperta enfim!
Há água por todos os lados...
Há um Oceano a tua volta!

“Quero viver, não morrer. Tenho medo”.
Viver não é preciso
Nem mesmo necessário...
Isto que chama “vida”
É somente um entreato entre gloriosas aventuras
E viagens inimagináveis
Senão em sonhos.

Ó herói sonolento, aventura-te!
Viver não é preciso
Criar é preciso.

Estou lhe chamando para uma aventura
Pelos caminhos tortuosos para dentro de ti mesmo
Que escondem, por detrás da cordilheira dos dragões famintos
Um Reino de Liberdade!

Estou lhe convidando:
Desperta, enfim, em meu Reino...

Mãos à obra, a Grande Obra!


raph’13’A.’.A.’.

***

Crédito da imagem: one2one

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5.3.11

Príncipe Cinco Armas

Texto de Joseph Campbell em "O herói de mil faces" (Ed. Cultrix/Pensamento) – Trechos das pgs.88 a 91. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. As notas ao final são minhas.

[Vejamos um mito interessante.] Trata-se da história de um jovem príncipe, que acabara de completar os estudos milenares, sob a orientação de um professor mundialmente renomado. Tendo recebido, como símbolo de distinção, o título de Príncipe Cinco Armas, ele tomou as cinco armas que o seu professor lhe deu, fez uma reverência e, armado com elas, dirigiu-se para a estrada que levava para a cidade onde morava seu pai, o rei. No caminho, ele se deparou com uma floresta. Na entrada desta floresta, as pessoas o advertiram: “Senhor príncipe, não entreis nesta floresta”, disseram elas; “vive nela um ogro, chamado Cabelo Pegajoso; ele mata todo homem que vê [1]”.

Mas o príncipe estava confiante e sem temor como um leão adulto. Entrou na floresta assim mesmo [2]. Quando chegou ao coração dela, o ogro apareceu. O ogro havia crescido até ficar com a altura de uma palmeira; criara para si mesmo uma cabeça grande como um pavilhão, com um pináculo em forma de sino, olhos grandes como uma tigela de esmoer, duas presas grandes como bulbos ou botões gigantes; e as mãos e os pés eram verde-escuros [3]. “Para onde vais?”, perguntou ele. “Alto! És minha presa!”.

O Príncipe Cinco Armas respondeu sem medo, mas com grande confiança nas artes e ofícios que havia aprendido [4]. “Ogro”, disse ele, “eu sabia o que me esperava quando entrei na floresta. É melhor teres cuidado antes de me atacar; pois com uma flecha envenenada perfurarei tua pele e te farei cair num átimo!”.

Tendo ameaçado dessa forma o ogro, o jovem príncipe armou o arco com uma flecha embebida em veneno mortal e disparou. A flecha se prendeu aos cabelos do ogro. E o príncipe atirou, uma após outra, cinqüenta flechas. O ogro afastou todas as flechas [5], fazendo-as cair aos seus pés, e se aproximou do jovem príncipe.

O Príncipe Cinco Armas ameaçou o ogro mais uma vez e, tomando a espada, desferiu um golpe magistral. A espada, de quase um metro de comprimento, ficou presa nos cabelos do ogro. E então o príncipe o golpeou com uma lança, que também lhe grudou nos cabelos. Percebendo que a lança havia ficado presa, o príncipe o atingiu com uma maça, que ficou igualmente grudada.

Quando viu a maça presa ao ogro, ele disse: “Mestre ogro, jamais ouviste falar de mim antes. Sou o Príncipe Cinco Armas. Quando entrei nesta floresta que infestas, não dei importância a armas como arcos e outras do mesmo tipo; confiei apenas em mim mesmo [6]. Agora vou derrotar-te e reduzir-te a pó!”. Tendo explicitado sua determinação, com essas palavras, o príncipe atingiu o ogro com a sua mão direita, ao mesmo tempo em que dava um grito. Sua mão se prendeu aos cabelos do ogro e o príncipe o atingiu com a mão esquerda. Esta também ficou presa. Fez o mesmo com o pé direito, obtendo igual resultado. Por fim, isso aconteceu também com o pé esquerdo. Então pensou: “Vou derrotá-lo com a cabeça e o reduzirei a pó!”. E o golpeou com a cabeça, que também ficou presa nos cabelos deste.

O Príncipe Cinco Armas, que caíra cinco vezes em armadilhas, e estava bem preso por cinco lugares, encontrou-se suspenso do corpo do ogro. Mas, apesar de tudo, não tinha medo, nem estava assustado. O ogro pensou: “Eis uma leão humano, um homem de nobre berço – não é um simples homem! Pois, embora tenha sido aprisionado por um ogro como eu, ele não demonstra tremer nem estremecer! Por todo o tempo em que tenho assolado esta estrada, jamais vi um único homem que lhe chegasse aos pés! Por que ele, valha-me o senhor, não tem medo?”. Sem se atrever a comê-lo, o ogro perguntou: “Meu jovem, por que não tens medo? Por que não estás terrificado pelo temor da morte?”.

“Ogro, por que eu deveria ter medo? Pois, na vida, a morte é absolutamente certa. Além do mais, tenho em minha barriga uma arma: um relâmpago. Se me comeres, não será capaz de digerir essa arma. Ela fará teu interior em tiras e fragmentos e te matará. Nesse caso, morreremos os dois. Eis por que não tenho medo!” [7].

O Príncipe Cinco Armas, como o leitor já deve ter percebido, estava se referindo à Arma do Conhecimento, que se encontra dentro dele. Na verdade, esse jovem herói não era senão o Futuro Buda, numa encarnação anterior [8].

“O que esse jovem diz é verdade”, pensou o ogro, terrificado pelo temor da morte. “Meu estômago não seria capaz de digerir nem um pedaço da carne deste leão humano, ainda que fosse do tamanho de um grão de feijão. Vou deixá-lo ir!”. E libertou o Príncipe Cinco Armas. O Futuro Buda pregou a Doutrina ao ogro, dominou-o, fê-lo abnegado e então o transformou num espírito encarregado de receber oferendas na floresta [9]. Tendo admoestado o ogro a agir com cautela, o jovem deixou a floresta e, na saída, contou sua história aos homens e seguiu seu caminho [Jataka, 55:1. 272-275]

Como símbolo do mundo ao qual os cinco sentidos nos prendem, prisão de que não nos podemos furtar pelas ações de órgãos físicos, Cabelo Pegajoso só foi subjugado quando o Futuro Buda, não mais protegido pelas cinco armas de seu nome e aparência física momentâneos, recorreu a arma não nomeada, invisível: o divino relâmpago do conhecimento do princípio transcendente, que está além do reino fenomênico de nomes e formas. Nesse momento, a situação mudou. Ele já não estava preso, mas liberto, pois aquele que ele se lembrou ser está sempre livre. A força do monstro da fenomenalidade se dispersou e ele se tornou abnegado. Assim ele assumiu um caráter divino – um espírito encarregado de receber oferendas, tal qual ocorre com o próprio mundo quando encarado, não como o final, como um mero nome e forma daquilo que transcende, e, no entanto, é imanente a todos os nomes e formas.

[...] Tal como a fumaça em elevação de uma oferenda, que atravessa a porta do sol, assim vai o herói, libertado do ego, pelas paredes do mundo – ele deixa o ego preso a Cabelo Pegajoso e segue adiante.

***

[1] Embora Campbell não cite comentários específicos acerca da natureza deste monstro – o ogro Cabelo Pegajoso –, vale a pena prestar atenção em suas características. Se parece mais com um agente transmissor de uma espécie de “ociosidade contagiante” e/ou “anestesia da alma” do que com um monstro feroz, violento. Posteriormente a transcrição do mito, ele o denomina “monstro da fenomenalidade”, e o relaciona a uma visão do mundo do ponto de vista não-transcendente.

[2] “Entrar na floresta” é uma aventura que nos aguarda mais dia menos dia, porém cada um encontrará sua própria coragem no tempo devido.

[3] Os criadores de mitos, estes sábios de outrora, pareciam querer deixar bem claro, muito claro mesmo, que falavam sobre metáforas. Ainda assim, não conseguiram evitar que muitos mitos fossem (mal-) compreendidos ao pé da letra.

[4] Reparem que sua confiança não surgiu do dia para noite, tampouco foi alguma bênção divina ou direito de nascença: foi conquistada ao longo de “estudos milenares”.

[5] Há que se perguntar: será que estamos preparados para falhar 50 vezes, e prosseguir em frente, inabaláveis, quando “dentro da floresta”?

[6] Todo nosso arsenal externo será inútil “dentro da floresta”. Jamais estaremos “bem armados” se contarmos apenas com ele...

[7] Trata-se de uma curiosa “arma”: dentro da barriga do príncipe, trata-se de um trunfo escondido. Mas se o príncipe for devorado, já dentro da barriga do ogro, trata-se de uma arma letal. O ogro não tem como possuir tal arma.

[8] Trata-se de um Conhecimento abrangente: não apenas mundano, mas também espiritual. Se o conhecimento técnico lhe fosse de algum auxílio “dentro da floresta”, uma das 50 flechas envenenadas já haveria abatido o monstro. E observe que o príncipe nem havia chegado ao estágio de Buda ainda!

[9] Será que todo monstro precisa ser exterminado, ou não seria mais útil como nosso auxiliar no futuro, uma vez “dominado”? Pena que os mitos do Ocidente geralmente prefiram o extermínio de nossos preciosos monstros – sim, pois são literalmente nossos.

***

Crédito da foto: Panit Maharjan (Ram Bomjam)

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6.1.10

Algumas reflexões, parte 1

O pequeno sábio

Um dos primeiros conselhos de genuína sabedoria que recebi foi quando ainda era um garotinho, aprendendo a andar a cavalo em Monte Verde, no sul de Minas Gerais. Eu havia escorregado da cela enquanto meu cavalo estava galopando, e fiquei com o pé enroscado no estribo – de modo que o máximo que podia fazer para evitar ser esfolado pelos cascos do cavalo era segurar com toda a força na correia, e rezar para que ele parasse de galopar.

Mas não me lembro se na época eu sabia rezar, provavelmente não, visto que ainda hoje não sei bem. Em todo caso, havia um outro garotinho que me seguia, em outro cavalo, apenas este era parente do homem que alugava os cavalos, e tinha bem mais experiência no ramo, apesar da idade. Foi ele quem fez o meu cavalo parar de galopar, até que pudesse pará-lo para que eu pudesse me desenroscar do estribo e finalmente me dar por seguro, são e salvo!

Talvez não me lembrasse bem desses eventos, não fosse pelo que o garoto me disse após perceber que eu estava apavorado com a idéia de ter de subir de novo na sela do cavalo – afinal ainda estávamos no meio do caminho e tínhamos de retornar ao hotel onde o dono dos cavalos nos aguardava:

“Agora você tem de subir de novo, senão vai ficar com medo, e nunca mais vai andar a cavalo!” – Falou o sábio-mirim, do alto de seus poucos anos de experiência com o hipismo.

“Subir de novo? Mas eu quase me arrebentei agora pouco... Prefiro voltar puxando o cavalo pela correia...”

“Você até pode voltar no meu, se quiser... Mas o melhor é você voltar no mesmo cavalo, que daí vai dominar o medo, e ele não volta mais.”

E foi o que eu fiz. Parece incrível, mas eu nunca tive medo de andar a cavalo, por mais que tenha visto gente caindo do cavalo na minha frente. Por mais que tenha galopado por terrenos escorregadios e quase – por mais de uma vez – tenha voltado a cair do cavalo... Quem sabe qual é o segredo para dominar o medo? Em todo caso, fato é que nunca mais enfiei minha canela adentro do estribo!

O sujeito que me deu o tal conselho, o fez do fundo de sua alma. Ele não era meu parente nem meu amigo, e não tinha idade para trazer algum mal obscuro no coração. Eu me lembro de seu olhar e seu riso disfarçado, que tampouco era de zombaria – ele decerto havia passado pela mesma situação que eu, e decerto deve ter ficado com medo de andar a cavalo de novo, e decerto alguma outra pessoa o incentivou a vencer o medo, até mesmo porque no seu caso, ele não tinha escolha: seus pais viviam do aluguel de cavalos, e ele tinha de ajudá-los.

É pena eu não ter transportado tal conselho para outros eventos traumáticos em minha vida. Quem sabe, se hoje tenho alguns de meus medos, é porque não tive a coragem de encará-los frente a frente ainda lá no início, na primeira vez que bateram a minha porta.

Continua em "A profetisa"...

***

Crédito da foto: Edu Hana

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8.11.09

Orwell e Huxley

Texto de "Amusing Ourselves to Death", por Neil Postman. Tradução transcrita do blog de Marcelo Del Debbio.

George Orwell escreveu 1984. Aldous Huxley escreveu Admirável Mundo Novo.

Orwell temia aqueles que banem os livros.
Huxley temia que não houvesse razão para banir livros, por que ninguém mais se interessaria em ler algum.

Orwell temia a censura das informações.
Huxley temia que nos oferecessem tanta informação que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo.

Orwell temia que a verdade fosse ocultada de nós.
Huxley temia que a verdade fosse soterrada em um mar de irrelevância.

Orwell temia que nós nos tornassemos uma cultura oprimida (capturada).
Huxley temia que nos tornassemos uma cultura irrelevante, trivial, preocupada com "some equivalent of the feelies, the orgy porgy, and the centrifugal bumblepuppy".

Em 1984, as pessoas eram controladas pela dor.
Em Admirável Mundo Novo, elas eram controladas por prazer.

No final, Orwell temia que o medo nos arruinasse.
E Huxley temia que o desejo nos arruinasse.

Qual cenário parece ser mais convincente nos dias de hoje?

***

O próprio Aldous Huxley deu a sua opinião sobre o assunto:

Dá o que pensar, não?

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