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18.4.16

Anjos Fósseis, por Alan Moore (parte 3)

« continuando da parte 2 (ler do início)

Por Alan Moore. Tradução de Daniel Lopes, revisão e comentários de Rafael Arrais.

Em termos culturais ocultistas, vida nova é equivalente a novas ideias. Girinos conceituais, recém-nascidos e se contorcendo, possivelmente venenosos, essas pestes de cores vivas devem ser estimuladas em nosso novo ecossistema imaterial, para que este floresça e permaneça saudável. Vamos atrair as pequenas ideias vibrantes, de brilho neon porém sutis, e as grandes ideias mais resistentes que se alimentam delas. Se tivermos sorte, o frenesi alimentar poderá chamar atenção dos grandes paradigmas raptores que atropelam tudo e sacodem a terra. Noções ferozes, da minúscula bactéria ao incrivelmente grande e feio, confinados sem supervisão em uma luta por sobrevivência gloriosa e sangrenta, uma espetacular operação cataclísmica Darwiniana.

As doutrinas mancas se encontram incapazes de superar o primoroso argumento assassino cheio de dentes. Dogmas mastodontes, anciões decaindo na cadeia alimentar, se envergando e desfalecendo sob seu próprio peso para fazer uma refeição, para que então carniceiros vendedores de memorabilia, moscas zombeteiras de salas de bate-papo venham de qualquer lugar depositar seus ovos. Trufas meméticas crescendo sobre o musgo e esterco de Aeons em decomposição. Revelações vivas brotando como London Rocket [planta, nome científico: Sisymbrium irio] selvagem, crescendo abandonadas em um campo minado. Arcádia Pânica, chifruda, assassina e saltitante. Seleção sobrenatural. Os mais fortes e bem adaptados teoremas estão propícios a proliferar e prosperar, o resto é sushi. Isto é com certeza uma Thelema Hardcore em ação, além de representar um autentico e produtivo Chaos Old-skool que poderá aquecer os corações de qualquer Thanateiróide. É difícil ver como a magia enquanto campo de conhecimento possa trazer outra coisa de tão vigorosa aplicação de processo evolutivo se não benefícios.

Por um lado, ao aceitar um meio menos cultivado e refinado, onde a concorrência pode ser feroz e barulhenta, a magia estaria fazendo não mais do que se expor às mesmas condições no que diz respeito aos seus dois parentes mais bem aceitos socialmente: ciência e arte. A apresentação de uma nova teoria para explicar a ausência de massa no universo, ou apresentar alguma instalação conceitual para o prêmio Turner sem dúvidas de que sua obra vai ser submetida ao escrutínio mais intenso, fortemente hostil e possivelmente de um grupo rival. Cada partícula de pensamento que desempenhou um papel na construção do seu projeto vai ser desconstruída e examinada. Somente sem nenhuma falha encontrada o seu trabalho será acolhido no cânone cultural. Com toda a certeza cedo ou tarde seu projeto de estimação, sua teoria de estimação, será banalizada e vai acabar virando decoração de paredes manchadas das velhas e impiedosas arenas públicas. É assim que deve ser. Suas ideias provavelmente se transformam em acidente de percurso, mas o próprio campo é reforçado e aprimorado por essas tentativas incessantes. Ele avança e sofre mutações. Se o nosso objetivo é verdadeiramente o avanço do panorama da magia (e não o avanço de nós mesmos como instrutores), como alguém poderia se opor a tal processo?

A menos é claro que um avanço dessa natureza não seja o propósito real, o que nos traz de volta a pergunta feita anteriormente: o que exatamente estamos fazendo e por que estamos fazendo? Sem dúvida, alguns de nós estamos engajados na busca legítima pelo entendimento, mas isso nos leva de volta à questão do porquê. Temos a intenção de usar essa informação de alguma maneira, ou foi acumulada somente em benefício próprio, para nossa satisfação particular? Foi uma busca por reconhecimento, onde alguns poderiam ter alcançado mais facilmente em uma área como ocultismo, onde convenientemente não há padrões mensuráveis sob os quais podemos julgar uns aos outros? Ou será que nos inclinamos à definição de Crowley de que magia é realizar mudanças por meio da vontade, o que quer dizer alcançar alguma medida de poder sobre a realidade?

A última seria, um palpite, a que fornece o motivo que é mais popular atualmente. A ascensão da Magia do Caos na década de 1980 centrada em uma série de promessas de campanha, a mais notável delas a oferta de um sistema de magia baseado em resultados e que era prático e fácil de usar. O desenvolvimento único e altamente pessoal de Austin Spare, o Sigilo Mágico, foi nos dito ser facilmente adaptável para uso universal, fornecendo uma maneira simples e infalível de que o desejo do coração de alguém poderia ser fácil e imediatamente cumprido. Pondo de lado a questão “isso é real?” (e a dúvida subsequente: “se for, por que seus defensores ainda continuam suas rotinas diárias de trabalho, em um mundo progredindo em sentido contrário aos desejos dos corações de qualquer um, a cada semana que passa?”), talvez devêssemos nos perguntar se o prolongamento dessa atitude pragmática, causal para com o trabalho oculto, seja mesmo um uso digno de magia.

Sejamos honestos, a maior parte da feitiçaria causal tal como é praticada provavelmente é feita na esperança de realizar alguma mudança desejada em âmbito grosseiro e material. Em termos reais, isso provavelmente envolve pedidos de dinheiro (mesmo Dee ou Kelley não estavam pedindo aos anjos acima um trocado de vez em quando?), pedidos por alguma forma de gratificação emocional ou sexual, ou talvez, em algumas ocasiões, um pedido para que aqueles que nos menosprezaram ou nos ofenderam sejam punidos. Nessas circunstâncias, mesmo em um cenário não tão cínico onde o propósito da magia seria, por assim dizer, interceder por um amigo pela recuperação de uma doença, não podemos alcançar esses objetivos de forma muito mais efetiva e honesta apenas resolvendo essas coisas em plano material e não divino?

Se, por exemplo, é dinheiro que almejamos, por que não seguir o exemplo legítimo de Austin Spare (quase o único dentre os magos que parece ter visto o uso da magia para atrair riqueza como uma anátema) considerando tais preocupações? Se for dinheiro que queremos por que não podemos levantar magicamente nossas bundas gordas, magicamente trabalhar pelo menos uma vez na nossa sedentária vidinha mágica, e vemos se as moedas requisitadas não aparecem magicamente algum tempo depois em nossas contas bancárias? Se for o afeto de alguma paixão não correspondida o que estamos buscando, então a solução é ainda mais simples: jogar boa noite cinderela em sua bebida e estupra-la [1]. Afinal, a miséria moral do seu ato não será pior e pelo menos você não vai ter que mover meio mundo no transcendente pra fazer coisas como segura-la para você. Ou se há alguém que você genuinamente acredita merecer um castigo terrível então ponha na estante a sua clavícula menor de Salomão e vá direto telefonar pro Frankie-Navalha ou pro Big Stan. O capanga contratado ilustra bem a decisão ética se comparado ao uso de anjos caídos pra fazer aquele trabalho sujo (isso assumindo que ir até a casa do sujeito tirar satisfação, ou apenas, você sabe, superar isso e seguir em frente não sejam opções viáveis). Ou ainda mesmo o exemplo do amigo doente citado anteriormente: apenas faça uma visita. Apoie-o cedendo um pouco do seu tempo, seu dinheiro, seu amor, sua conversa. Cristo, envie um cartão com o desenho de um coelho triste na capa. Vocês dois se sentirão melhores com isso. Magia intencional ou causal pode muitas vezes parecer com obter a realização de um fim bastante comum sem fazer o trabalho comumente associado a ele. Poderíamos muito bem afirmar, citando Crowley, que nossas melhores e mais puras ações são aquelas realizadas “sem ânsia de resultado”.

Talvez sua outra famosa máxima, que advoga que buscamos “o objetivo da religião” utilizando “o método da ciência”, ainda que bem intencionada, talvez tenha levado a comunidade magística (tal como ela é) a esses erros fundamentais. Afinal de contas, o “objetivo da religião”, se observarmos a palavra latina “religare” (uma palavra de raiz semântica comum a outras palavras tais como “ligamento” e “ligadura”) parece insinuar que “todos fossem unidos em uma única crença”. Este impulso à evangelização e conversão deve, em qualquer aplicação no mundo real, chegar a um ponto onde aqueles vinculados a um segmento partirão pra cima daqueles ligados por outro. Neste ponto, inevitavelmente e historicamente, ambas as facções irão levar adiante sua traçada vontade em vincular uma à outra em sua única e verdadeira crença. E então nós massacramos os carolas, os crentes, os góis, os iídiches, os cafres e os cabeças de turbante. E quando isso historicamente e inevitavelmente não funcionar, nós nos sentamos e pensamos nas coisas por um século ou dois, damos um intervalo decente, e então fazemos tudo isso de novo, que nem antes. O objetivo da religião parece estar, enquanto algo claramente benigno, fora da estrada por uma milha ou duas, jogado para além do acostamento. A meta, aquilo que ela mirava, permanece intocável, e a única coisa atingida é Omagh ou Kabul, Hebron, Gaza, Manhattan, Baghdad, Kashmir, Deansgate, e por aí em diante, e em diante, pra sempre.

A noção de amarrar tudo que se encontra na raiz etimológica da religião é também encontrada, de forma reveladora, no agrupamento simbólico de varas amarradas, os fachos, que mais tarde daria origem ao termo fascismo. Fascismo, baseado em conceitos místicos tais como sangue e “volk” (povo em alemão), seria mais propriamente visto como religião que como instancia política, uma política embasada em alguma forma de razão, porém equivocada e brutal. A ideia de sermos unidos em uma única fé, uma única crença; que a união (e também, inevitavelmente, a uniformidade) faz a força, parece ser antitética à magia, que é sobretudo, decerto pessoal, subjetiva e pertinente ao individual, à responsabilidade por cada criatura sensível para alcançar seu próprio entendimento do sagrado e assim fazer as pazes com Deus, o universo e tudo o mais. Então, se podemos dizer que a religião encontra seu equivalente político próximo ao fascismo, não poderíamos dizer que a magia tenha uma simpatia natural com a anarquia, o oposto do fascismo (derivado dos termos an-archon, ou “sem líder”)? O que é claro nos leva de volta aos templos incendiados, líderes de ordens destituídos e despejados, a terra queimada e a abordagem de natureza selvagem e anárquica da magia, sugerido anteriormente.

A outra metade da máxima de Crowley, na qual ele propõe a metodologia da ciência também parece ter suas falhas, ainda que mais uma vez, seja bem intencionada. Baseando-se em resultados materiais, a ciência talvez seja o modelo que levou as artes mágicas ao beco sem saída causal descrito acima. Além disso, se aceitarmos os meios da ciência como um procedimento ideal dos quais podemos aspirar em nossos trabalhos de magia, não corremos o risco de adotar também uma mentalidade científica materialista no que diz respeito às várias diferentes forças que preocupam o ocultista? Um cientista que trabalha com eletricidade, por exemplo, irá justamente considerar a energia como moralmente neutra, uma força sem consciência que pode facilmente ser usada pra suprir um hospital, ou aquecer uma lâmpada de lava ou mesmo fritar um negro com idade mental de 9 anos no Texas. Magia, por outro lado, por experiência própria, não parece ser neutra em sua natureza moral, não parece algo sem consciência. Do contrário, como um agente, parece estar ciente de si e ser ativamente inteligente, viva, fora dos trilhos de alta tensão. Ao contrário da eletricidade, parece ter uma personalidade complexa, com características quase humanas, tais como, por exemplo, um aparente senso de humor. Ainda bem, levando em conta o desfile de idiotas de nariz empinado a quem a magia tem entretido e tolerado ao longo dos séculos. Magia, em suma, não parece estar lá apenas pra energizar sigilos que não passam de versões astrais de uma gambiarra ou aparato pra poupar trabalho. Diferente da eletricidade, ela parece ter em mente a sua própria agenda.

» Continua na parte 4

***

[1] Acredito que a intenção de Moore aqui tenha sido a de chocar mesmo. Ele está demonstrando como a magia é uma força que depende de nossa vontade e nossa moral, e como muitas vezes o que estamos realmente desejando ao buscar amores não correspondidos "a qualquer custo" não passa muito longe de um estupro, por mais que tentemos "disfarçar" o assunto em nossa própia mente. O mesmo parágrafo se encerra com uma noção bem mais elevada da magia.

Crédito da imagem: Montagem do Jovem Nerd (Alan Moore e capas do Promehtea ao fundo)

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6.10.15

Memes para reflexão, parte 4

« continuando da parte 3

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Sois deuses
Este meme foi de longe o que causou a maior polêmica, como era de se esperar...

Todos devem saber que a Igreja Católica deve muitíssimo ao imperador romano Constantino, que ao final da vida se converteu ao cristianismo e, o que é mais importante, o estabeleceu como a religião oficial do Império Romano.

Há quem creia que foi ele próprio quem examinou todos os textos religiosos cristãos da época e decidiu quais deles formariam o Novo Testamento da bíblia cristã, juntamente com os textos judaicos mais antigos. Ora, ainda que Constantino fosse o maior especialista em cristianismo do seu tempo, e não um governante imperial com inúmeras responsabilidades, ele sozinho jamais teria dado conta de tal seleção, organização e edição monumentais.

De fato, ele jamais participou desse processo. É bem provável que ao instaurar o cristianismo como nova religião, tenha contado com uma vasta equipe de monges e escribas para escolher os livros que mencionavam a vida de Jesus. Segundo a história oficial da Igreja, no entanto, a versão final do Novo Testamento só ficou pronta entre os concílios de Hipona, em 393, e de Cartago, em 397, mais de meio século após a morte de Constantino.

Muita gente no dia de hoje questiona se os ensinamentos de Jesus não se perderam em tantas seleções, edições e traduções. Outros, ainda, sequer creem que Jesus de fato existiu... Ora, ao meu ver, é bem provável que Jesus de Nazaré tenha de fato existido, mas a possibilidade de sua vida ter sucedido exatamente como foi descrita na bíblia, em cada ponto e vírgula, já é consideravelmente mais remota.

No entanto, uma das descobertas mais extraordinárias do século passado foram os chamados “evangelhos apócrifos”, encontrados em jarros enterrados no deserto, em Nag Hammadi, na região do Alto Egito, em 1945. Tais textos pertencem inequivocamente ao período do cristianismo primitivo, e alguns deles, particularmente o Evangelho de Tomé, mencionam muitos ensinamentos de Jesus que casam ou se assemelham enormemente com as parábolas do Novo Testamento. Apesar de Jesus não haver sido crucificado nesse texto (nem, obviamente, ter ressuscitado), fato é que a sua existência é um dos maiores indícios modernos de que “existiu algum Jesus”.

Porém, ainda que não tenha existido, o que importa no final das contas é a mensagem bíblica, e a junção do que Jesus diz em João 10:34-35 e 14:12 é, no meu entendimento, um dos seus ensinamentos mais essenciais, que conseguiu sobreviver ao tempo, as edições e as traduções: Sois deuses, e dia virá que farão tudo o que tenho feito, e ainda muito mais.

O “sois deuses” a que Jesus se refere também se encontra nos Salmos do Antigo Testamento (Sl 82:6-7) e até mesmo em antigos ensinamentos do misticismo egípcio e do orfismo grego, como na célebre frase, “Eu também sou da raça dos deuses”... De fato, a ideia de que somos “deuses em formação”, cujo potencial é incalculável, está presente em diversas doutrinas espiritualistas, mas a ideia passa longe de querer significar que seremos como que “rivais de Deus”, o que seria uma ideia absurda.

Da mesma forma, seria absurdo considerar que um ser humano, por mais iluminado e sábio que seja, possa ser “Deus encarnado”... Daí a extrema importância desse belo resumo que o próprio Jesus faz de sua vida, e do sentido do seu ensinamento. Ora, se “um dia faremos tudo o que ele fez, e muito mais”, isto significa obviamente que o seu anseio não era que “substituíssemos algum deus”, mas que, através da nossa fé e do nosso amor ao Deus que paira acima de todas as coisas, chegássemos a amar da mesma forma que o Rabi da Galileia amava – que este sim, seria o maior dos milagres, e o objetivo mais grandioso de uma vida religiosa.


O cientista que estudava de tudo
Sir Isaac Newton é reverenciado como um dos maiores pensadores da ciência moderna, com contribuições inestimáveis para a física clássica e a matemática.

Ora, certamente muitos terão ouvido dizer que, além de cientista e astrônomo, ele também foi alquimista, teólogo e grande estudioso bíblico... O que muitos não devem saber, no entanto, é que ele dedicou mais tempo aos estudos bíblicos e esotéricos do que propriamente as suas célebres equações.

Mas, e o que isso quer dizer em termos práticos, puramente científicos? Absolutamente nada!

Quando criei este meme, a minha intenção não era “forçar adiante” alguma ideia de que as descobertas científicas de Newton surgiram da bíblia ou da voz de algum anjo celeste ou demônio infernal, claro que não, as suas ideias, como aliás todas as ideias do mundo, surgiram dos momentos de inspiração.

E, para vivermos inspirados, precisamos estar sempre buscando realizar aquilo que amamos. Newton certamente amava a física e a matemática, mas a sua grande motivação era “descrever a obra divina”. Não fosse a sua religiosidade, jamais teria sido cientista (ou filósofo da natureza, como eles se auto intitulavam em sua época).

Dessa forma, é preciso tomar cuidado com a “demonização” moderna de todo e qualquer pensamento dito “anticientífico” associado a alguém que faz ciência. Você pode não saber ou não acreditar, mas fato é que é perfeitamente possível ser cientista e religioso, ou cientista e filósofo, ao mesmo tempo, e mesmo assim praticar ciência genuína. Quer alguns exemplos?

(a) A própria ciência moderna deve muito ao hermetismo, que é uma ciência ocultista. A questão da Igreja com o heliocentrismo de Copérnico e Galileu tinha muito mais a ver com um embate religioso do que científico, tanto que o único que foi para fogueira de fato era um monge reformista, Giordano Bruno. Não é essa a “história oficial” nem da Igreja nem da Academia, mas todos que conhecem a fundo a história do hermetismo sabem muito bem qual foi o real motivo da sentença de Bruno.

(b) Albert Einstein, para além de ser o grande continuador da obra de Newton, foi também um profundo admirador da religiosidade latente da Ética de Benedito Espinosa, e jamais escondeu isso de ninguém.

(c) Alfred Russel Wallace, cocriador da teoria da evolução, juntamente com Charles Darwin, ao longo da vida se tornou um grande entusiasta do espiritismo, e é mesmo óbvio que o seu interesse pela evolução também se dava no âmbito espiritualista, particularmente no que tange a reencarnação. Pelo mesmo motivo, foi relegado as notas de rodapé da história da ciência, embora seja no mínimo tão responsável pela teoria da evolução quanto Darwin (há quem diga que até muito mais).

(d) Niels Bohr, Werner Heisenberg e Erwin Schrödinger, todos grandes cientistas do século passado, tinham o Bhagavad Gita, a maior obra espiritual do hunduísmo, como livro de cabeceira. Alguns deles chegaram a der relatos de que muitas vezes se inspiraram diretamente em seus conceitos para alcançarem algumas de suas descobertas.

(e) Richard Feynman, o célebre físico americano, gostava muito de desenhar e tocar bongos!

Tudo bem, este último caso foi mais para exemplificar o que quero dizer: não é que os Vedas, os textos herméticos ou as sessões espíritas tenham servido de inspiração direta para descobertas científicas, mas todos eles têm o mérito de terem mantido todos esses grandes cientistas ativos e curiosos em mais de um campo de conhecimento.

O que seria de Feynman sem as sessões de bongos? Teria sido o mesmo cientista?

Talvez, quem sabe... Mas certamente não traria aquele enorme sorriso no rosto, tampouco aquele brilho peculiar no olhar, toda a vez em que falava sobre a inefável natureza da Natureza!

» Em breve, + memes!

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Crédito das imagens: Raph/Google Image Search

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31.8.15

Memes para reflexão, parte 3

« continuando da parte 2

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O Senhor dos Exércitos
As Cruzadas não se prestaram a “combater infiéis” somente na Terra Santa. No caminho até lá, houve algumas outras batalhas da Igreja dentro da própria Europa. Bem, “batalha” talvez não seja a melhor definição, e sim “massacre”.

Em 1209 a cidade de Béziers era habitada por cerca de 60 mil pessoas, e dentre elas havia muitos seguidores do catarismo, uma vertente mística do cristianismo que desagradava a Igreja. O problema é que nem todos dentro dos seus muros eram cátaros, o que gerou um questionamento muito pertinente de um dos comandantes do exército francês ao representante do Papa, quando eles se preparavam para invadir a cidade com uma força militar vastamente superior. O comandante perguntou: “Mas senhor, nesta cidade encontram-se vivendo em paz cristãos, judeus, árabes e cátaros. Como vamos saber quais são os inimigos?”. E o representante assim o respondeu: “Matem todos; Deus escolherá os seus!”. Béziers foi dizimada, mas não se sabe se Deus conseguiu encontrar os seus...

A ideia da “guerra do Bem contra o Mal” é poderosa e sedutora, e por isso mesmo sempre agradou aos Imperadores, Reis e Papas. De todas as ilusões que se interpõe a verdade inconveniente de que, como muitos já devem saber, todas as guerras do mundo se dão quase que unicamente pelo desejo da conquista de territórios e riquezas, a lenda do Bem contra o Mal é a mais simples de se compreender, e a mais capaz de arrebatar uma grande massa de ignorantes. Nesse tipo de guerra não há dor na consciência em dizimar inocentes, nem mesmo em estuprar mulheres e crianças, pois fica pré-estabelecido que elas são como demônios sem alma, fruto de um suposto exército comandando pelo Mal.

No entanto, talvez até mesmo uma criança já seja capaz de se questionar: “Ora, mas se Deus criou a todos nós, como ele pode ser o Senhor de um único exército?”. Acredito que a resposta seja óbvia, e este meme é uma tentativa de trazer essa reflexão à tona.


Buda, e Budai...
Uma curiosidade: na imagem cima não temos o Buda Sidarta Gautama, mas Budai, uma divindade chinesa que é costumeiramente confundida com Sidarta. Obviamente que o Buda Gautama provavelmente nunca foi muito "gordinho", até mesmo porque chegou a praticar jejuns extremos, e após atingir a iluminação, aos 35 anos, passou os próximos 45 anos de sua vida viajando pelos arredores do Nepal.

A vida de Buda se parece muito mais com a vida de um místico andarilho, como Jesus de Nazaré, que viajou a pé pelos arredores de sua cidade natal, ensinando a todos com quem cruzava. A diferença é que Buda não é conhecido por realizar milagres, como ressuscitar mortos, curar leprosos ou transformar água em vinho. Em todo caso, os ensinamentos de Buda foram tão impactantes quanto os de Jesus, o que é atestado pelo fato de terem igualmente sobrevivido por mais de dois mil anos, sem terem sido esquecidos.

No entanto, não é difícil encontrar pessoas que, por total desconhecimento da história de vida de Sidarta, creem piamente que ele passou a vida toda meditando ao lado de uma árvore, e não ajudou ninguém. O fato de sua imagem ser costumeiramente confundida com a imagem de Budai talvez ainda ajude a perpetuar essa lenda do “monge gordinho que nunca saiu do lugar”.

Tal visão, é óbvio, não poderia estar mais distante da realidade. Desde o momento em que atingiu a iluminação, é dito que o Buda passou o restante de seus dias tentando auxiliar aos demais a atingir esse mesmo grau de consciência da realidade, e de desapego para com tudo o que existe somente no fluxo do tempo.

Se há um lugar em que Sidarta passou boa parte da vida, não foi na sombra de uma árvore, mas na própria eternidade.

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Crédito das imagens: Raph/Google Image Search

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28.8.15

Memes para reflexão, parte 2

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Sócrates
No início eu estava sem muitas ideias, e achei por bem pesquisar por “memes filosóficos” no Google. Encontrei pouca coisa que me interessou, mas este sobre Sócrates, que achei originalmente em inglês, me pareceu um meme digno para iniciar a série.

Há mesmo muitas formas de se analisar a afirmação que o grande sábio de Atenas não se cansava de repetir: “Tudo o que sei é que nada sei”. Muitos talvez a achem incompreensível, afinal se você sabe que não sabe, é porque já sabe alguma coisa. Outros provavelmente a consideram alguma espécie de “falsa modéstia”, já que Sócrates vencia praticamente todas as suas discussões “mesmo sem saber de nada” (também existem memes sobre isso online).

Na verdade, eu creio ser exatamente o oposto da “falsa modéstia”, e daí o meme ter me interessado... Talvez seja mais fácil me fazer entender através de um pequeno experimento mental:

Imaginemos que tudo o que sabíamos antes de entrarmos no colégio formasse um círculo de raio “x” em torno de nós mesmos. A “borda” desse círculo seria o nosso contato com “o desconhecido”, e na medida em que vamos aprendendo, dia após dia, aula após aula, pensamento após pensamento, este círculo vai crescendo junto como nosso novo conhecimento adquirido...

Ora, no dia em que nos formamos no colégio este círculo pode ter crescido enormemente, para um raio de “20x” ou “100x” ou “1000x”, não importa, o que importa é que na medida em que a “borda” do círculo vai crescendo, a nossa fronteira com “o desconhecido” vai se tornando cada vez mais extensa.

É como a física de partículas, que descobriu o átomo, depois os prótons, nêutrons e elétrons, e finalmente os quarks. Ou a cosmologia, que descobriu que na verdade cada estrela era um sol, e depois que havia algumas galáxias além da Via Láctea, e finalmente que há incontáveis galáxias viajando pelo espaço em grandes aglomerados. Ou seja: cada vez que aprofundamos nosso conhecimento da natureza, surgem mais questões, e mais vias a serem trilhadas.

E, se o conhecimento do que há lá fora é tão vasto, nada indica que o conhecimento do que há dentro de nós mesmos, ainda que nem sempre puramente objetivo, fique atrás.

Assim sendo, faz muito sentido encarar esta existência de maneira mais socrática, mais humilde, e considerar que o que sabemos é uma gota d’água perto do oceano do que ainda falta conhecer. Não nos adianta muita coisa, portanto, amar a Sócrates e ignorar solenemente o seu exemplo de vida.


Lúcifer
Embora Isaías muito provavelmente estivesse se referindo a um antigo rei da Babilônia, através de metáforas, quando relatou a sua “queda do céu” no Antigo Testamento, fato é que o mito do Anjo Caído se tornou extremante popular nos últimos milênios. Bem, é sobre este mito que quis me referir ao trazer o primeiro meme da série de minha autoria (como, aliás, o são todos os demais a partir daqui).

A despeito dos inúmeros problemas lógicos em se crer numa entidade que é “oposta ao Criador” mesmo tendo sido criada por ele (como tudo o mais), o que sempre me interessou na ideia do Anjo Caído é a questão incômoda acerca da sua insistência milenar na ignorância.

Pois, pensem bem, ainda que você tenha se rebelado contra o Criador, ainda que tenha atraído um enorme exército de seguidores para “combater a sua luz”, como você esperaria ganhar tal batalha?

Ora, se todos somos filhos do Criador, se todos nós somos formados por sua substância, como seria possível vencer? Antes de montar um exército para tentar assassinar Deus, deveríamos obviamente começar por nós mesmos, já que também somos formados por Deus... Seria muito mais lógico nos matar. E, de fato, qualquer suicida provavelmente causa mais dor a Deus do que todas as tentativas de “invasão do céu” pelas hordas infernais, pois a simples ideia de “invadir o céu a força e, sei lá, humilhar a Deus (?)” é absurda.

Outros podem argumentar que Lúcifer, sabendo muito bem que não tem como vencer, se dedica apenas a “roubar almas” de Deus, as corrompendo. Mas, ainda que ele aumentasse enormemente o seu exército usando deste expediente, no fim das contas do que adiantaria tudo isso? Fato é que a sua batalha continuaria sendo invencível.

Assim sendo, se esse tal Anjo Caído de fato ainda não se arrependeu e abandonou a ignorância após tanto tempo, ou ele é apenas uma espécie de fantoche, ou autômato, “programado” pelo Criador para exercer a sua função de “rei das trevas”, ou ele é simplesmente o maior bode expiatório que já existiu!

» Em breve, + memes!

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Crédito das imagens: Raph/Google Image Search

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27.8.15

Memes para reflexão, parte 1

Muita gente passou a conhecer os memes após o advento das redes sociais online. O que pouca gente sabe, no entanto, é que os memes da internet nada mais são do que uma espécie de “subgrupo” de um conceito muito mais abrangente, poderoso, e até mesmo místico:

Um meme – conforme proposto pelo biólogo britânico Richard Dawkins – é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro, ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros) e outros locais de armazenamento ou cérebros. No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma se autopropagar. Os memes podem ser ideias, línguas, sons, desenhos, doutrinas religiosas, valores estéticos e morais etc. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação é conhecido como memética.

Apesar de ser um conceito puramente metafísico, ele tem sido capaz de explicar muita coisa que ocorre dentro da mente humana, particularmente no que tange a troca de informações sociais e culturais. Assim, se é verdade que muitos memes da internet não passam de pequenas peças de humor, não é verdade que todos eles possam ser considerados somente isso.

Conforme um dia nos explicou Ralph Waldo Emerson, “A chave de todo ser humano é seu pensamento. Resistente e desafiante aos olhares, tem oculto um estandarte que obedece, que é a ideia ante a qual todos os seus fatos são interpretados. O ser humano pode somente ser reformado mostrando-lhe uma ideia nova que supere a antiga e traga comandos próprios”.

É levando isto em consideração que eu pensei comigo mesmo, “Ora, se há tantos memes bobos que alcançaram tamanho sucesso em se replicar pelas mentes alheias, por que não usar do mesmo expediente para tentar refletir adiante ideias um pouco mais profundas?”.

Foi assim que me senti inspirado para criar alguns “memes para reflexão” e publicá-los em nossa página no Facebook. A minha ideia, é claro, não é criar memes “acadêmicos” ou “muito sérios”, mas me aproveitar do bom humor e do grande alcance deste tipo de linguagem online para, como sempre tento fazer, levar as pessoas a refletirem um pouco mais sobre algumas ideias que talvez estejam já velhas demais, solidificadas demais, dogmáticas demais.

Com isso não quero denegrir ou reduzir tais ideias, que são memes muito mais antigos e duradouros do que qualquer meme de internet, mas pelo contrário: mostrar outros pontos de vista para, quem sabe, trazer tais ideias ancestrais para o meio do século 21, onde há um verdadeiro Dilúvio de informação irrelevante; de modo que as ideias relevantes talvez precisem ser guardadas com carinho, na segurança de nossa Arca de Noé, esta que sempre navegou em nossa própria alma.

Na sequência, trarei alguns dos memes publicados em nossa galeria no Facebook, com uma pequena explicação sobre o que exatamente quis passar com cada um, assim como uma rápida descrição das discussões geradas por aqueles que foram mais compartilhados.

» Em breve, os memes!

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Crédito da imagem: Raph/Google Image Search

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18.4.12

Comentário: os memes existem?

Comentário das respostas da pergunta “os memes existem?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Muito já foi dito em meu blog sobre os memes de Dawkins (ver, por exemplo, a série Onde estarão os memes?), e, do ponto de vista espiritualista, eu tenho sempre me indagado se os memes diferem tanto assim dos muwakkals dos sufis, ou das teorias ocultistas acerca do “nascimento, vida e morte dos pensamentos”, ou seja: seriam os memes os genes místicos ou metafísicos?

Para não me repetir sobre assuntos já abordados no blog, eu gostaria aqui de falar exatamente sobre a natureza do pensamento. Sabemos que o pensamento sem dúvida passa pela mente, independentemente de ter se originado apenas no cérebro, ou de ter vindo de algum outro centro oculto, de alguma usina espiritual. Isto pois, com os eletroencéfalogramas (EEGs) e outras tecnologias de observação objetiva das fagulhas elétricas a navegar pelo espaço neuronal do cérebro, tudo o que vemos é o resultado da vontade de agir, dos comandos cerebrais; Ou pelo menos nada que temos visto na neurociência de ponta indica que tal fagulha se originou apenas no cérebro, e não está somente trafegando por ele, ativando as teclas do piano que controla nosso corpo. Observamos, portanto, luzes a passar por extensos e intrincados postes de luz, que iluminam toda a metrópole cerebral, e fazem a cidade funcionar – porém, jamais encontramos algo no cérebro que possamos indicar, com boa convicção, como sendo a usina elétrica dessas luzes, o centro da vontade.

Portanto, ainda que hoje saibamos que a consciência é um processo que simula e elabora realidades para que nosso eu possa decidir o que fazer a seguir; E ainda que a atividade consciente na verdade seja apenas reflexo de inputs de informação sensorial e decisões muitas vezes inconscientes que ocorreram a até meio segundo atrás, antes de terem sido percebidas conscientemente [1]; Ainda assim, a despeito de todo o ceticismo envolvido com as questões espirituais, podemos dizer pelo menos isto aqui: enquanto vivos, encarnados, todos nós concordamos que somos um ser que tem uma mente e é capaz de elaborar e interagir com pensamentos, ainda que tão somente dentro de nossa própria mente [2].

Ora, se postulamos que memes são as unidades fundamentais do registro de informações de nossas ideias e pensamentos, e que da interação entre pensamentos, eles podem se desenvolver e replicar, conforme os mecanismos de evolução e seleção natural da teoria da Darwin-Wallace, ainda que eles jamais tenham sido detectados em experimentos, podemos os considerar também como uma teoria puramente lógica e filosófica de eventos observados na natureza. Dessa forma, conforme os antigos filósofos naturalistas, que não estavam tão distantes dos sufis (que conceberam os muwakkals), poderemos examinar de que forma, exatamente, tais memes adentram em nossa mente, e se desenvolvem, até que se repliquem para outras mentes, geralmente através da linguagem [3].

Conforme vínhamos dizendo no comentário da segunda pergunta (que é, afinal, a vida?), John Wheeler e outras físicos postulam que as unidades fundamentais da realidade, tanto quanto ocorre com os memes, também são puramente informação. Bits de informação: “0s” ou “1s” que, repetidos ad infinitum, estruturam tudo o que há no Cosmos, do neutrino aos maiores agrupamentos de galáxias. Crendo ou não nessa teoria científica, muitos neurocientistas, ainda assim, creem que o registro de informações no cérebro é computacional e que, em essência, somos mais como uma máquina celular. Ainda que fosse este o caso, não sabemos exatamente como o cérebro gera a subjetividade, como nos permite interpretar – e não apenas computar – informações, de modo que falamos em “vermelhidão” do vermelho, e podemos apreciar as mais belas metáforas poéticas.

Sir Charles Scott Sherrington, neurofisiologista britânico, talvez tenha sido um dos pensadores que mais profundamente adentrou neste problema do registro de informações subjetivas em nossa mente, ao compará-la, metaforicamente [4], a um tear encantado, sempre tecendo padrões de sentido, através da simbologia: “Esses padrões de sentido transcenderiam programas ou padrões puramente formais ou computistas e dariam margem à qualidade essencialmente pessoal que é inerente a reminiscência, inerente a toda mnesis, gnosis e práxis. [...] Padrões pessoais, padrões para o indivíduo, teriam de possuir a forma de scripts ou partituras – assim como padrões abstratos, padrões para computador, têm de estar na forma de esquemas ou programas. Portanto, acima do nível de programas cerebrais, precisamos conceber um nível de scripts e partituras cerebrais. [...] A experiência não é possível antes de ser organizada iconicamente; a ação não é possível se não for organizada iconicamente. ‘O registro cerebral’ de tudo – tudo o que é vivo tem de ser icônico. Essa é a forma final do registro cerebral, muito embora o feitio preliminar possa ser moldado como cômputo ou programa. A forma final de representação cerebral tem de ser, ou admitir, a ‘arte’ – o cenário e a melodia artística da experiência e da ação [5]”.

Dessa forma, surpreendentemente, quando falamos em pensamento, embora o conceito de “informação” ainda faça sentido (pois no fundo tudo é informação, até mesmo o próprio pensamento [4]), provavelmente o conceito de “símbolo” traga um sentido mais prático se queremos abordar a questão de forma lógica. Ora, apesar de mesmo os símbolos não serem de todo capazes de encerrar o que se dá na experiência subjetiva, na sensação, na intuição, no sentimento, eles pelo menos são as melhores cascas de sentimento que encontramos até hoje, as melhores palavras e imagens capazes de indicar o que é exatamente um pensamento: não somente um conjunto “frio” de “0s” e “1s”, mas toda uma rede intrincada de sentidos que, efetivamente, podem ter seu nascimento, sua vida, e sua morte. E, mais do que isso: podem se replicar, se desenvolver, tal qual a teia da vida.

Portanto, se pensamentos nada mais são do que informações vivas a trafegar pelas mentes, ainda que antigamente fosse difícil crer que alguém poderia influenciar o pensamento de outro alguém a distância, através de algum plano mental, hoje nem é preciso considerarmos se isto é ou não uma possibilidade real. Pois que hoje a transmissão de pensamentos se dá também quase a velocidade da luz, através do hipertexto da internet, das redes sociais, e de um mundo cada vez mais globalizado. Estamos sim, cada vez mais, formando uma teia de pensamento através do mundo todo. Cuidado, portanto, como a informação, com os símbolos que saem, e também com os que entram: eles serão a sua realidade.

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[1] Exceto em ações puramente reflexivas, como proteger os olhos com as mãos de algum objeto arremessado em sua direção, que não passam por esse intervalo de meio segundo, e são efetivamente “automáticas”, ou pelo menos na grande maioria dos casos não teremos escolha entre proteger os olhos ou não: nós os protegeremos.

[2] Bem, os materialistas eliminativos (dentre os quais, ironicamente talvez pudéssemos incluir o próprio Dawkins) não creem que exista uma mente, pois eles tampouco creem que exista uma subjetividade, ou a liberdade, mesmo uma liberdade parcial e limitada, da vontade. A subjetividade seria uma ilusão persistente do cérebro, e todas as nossas escolhas (veja bem: todas) na verdade se reduziriam ao tilintar neuronal de partículas já descobertas pela ciência (veja bem: apenas 4% da matéria e energia do universo, segundo a teoria da Matéria Escura).

[3] Ou seja, da interação humana, também conhecida como fofoca, notícia, moda, etc. Muitos espiritualistas postulam que o pensamento pode, por si só, se projetar e habitar um plano mental, um inconsciente coletivo, etc., mas nem será preciso considerarmos esta hipótese aqui.

[4] Ah, a ironia...

[5] Trecho de Man on his nature, conforme citado num dos livros de Oliver Sacks.


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Crédito das imagens: [topo] Mario Martinez (representando uma tulpa, a forma-pensamento para os budistas tibetanos); [ao longo] neurosupply.com (na verdade isto é apenas um EEG, apesar de trazer o mesmo título que o neurocientista Miguel Nicolelis deu para o que ele acredita ser a internet do futuro, onde os cérebros estarão conectados entre si: a Brainet)

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27.1.12

Os memes existem?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Os sufis dizem que assim como muitos germes nascem e se desenvolvem como seres vivos, de forma análoga, existem também muitos seres no plano mental, chamados ‘muwakkals’ ou elementais [1]. Estes são entidades ainda mais etéreas nascidas do pensamento humano, e assim como os germes vivem no corpo humano, tais elementais sobrevivem de seus pensamentos. Segundo os místicos do Islã, os pensamentos também passam por nascimento, juventude, velhice e morte. Eles trabalham contra ou a favor dos homens de acordo com sua natureza. Os sufis afirmam que os criam, elaboram e controlam.

Um meme – conceito proposto pelo biólogo britânico Richard Dawkins – é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro, ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros) e outros locais de armazenamento ou cérebros. No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma se autopropagar. Os memes podem ser ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, etc. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação é conhecido como memética.

Há uma clara correspondência, no mínimo conceitual, entre os ‘muwakkals’ e os memes. Porém, afinal: os memes existem mesmo?

[Mori] Para Dawkins, o ser humano é originalmente um autômato, uma máquina servindo cegamente aos desmandos dos genes egoístas, interessados unicamente em replicar-se. O que transmitimos aos nossos descendentes não é nosso suor, não são nossas cicatrizes, e sim nossos genes. Do ponto de vista dos genes, toda a evolução serve a seus propósitos – nós, os organismos, somos apenas veículos para sua replicação e quando há um conflito entre o bem do organismo e o bem dos genes que carregamos, os genes sempre ganham, porque afinal, são apenas eles que permanecem na evolução, enquanto organismos vêm e vão.

É nesse contexto que ele introduz também a ideia de meme. Seu conceito-chave não é apenas o de um ser vivo de pensamentos, que nasça, cresça e morra, em um ciclo de vida completo. Essa é uma ideia fascinante, mas uma que de fato não é nova. A ideia chave dos memes é a de um pensamento que se *reproduz* e como tal apresentará os mesmos aspectos que os genes egoístas: seu subtrato serve como mero autômato para sua replicação. Pouco importa se o hit “Ai se eu te quero” é uma melodia sofisticada ou uma letra tocante que beneficiará o ouvinte, o que importa é que é uma melodia grudenta que se fixa em sua mente, ecoa e se replica.

Tanto o gene egoísta quanto o meme são conceitos derivados diretamente da Teoria da Evolução de Charles Darwin, e o crédito pela sacada genial de que *toda* unidade de informação que se replica com variação em um ambiente de recursos limitados irá evoluir e se sofisticar em seu “egoísmo”, encontrando formas cada vez mais eficientes e surpreendentes de se replicar, é todo de Darwin. Os muwakkals são criados pelos sufi, as egrégoras são criadas por grupos de pessoas; já os memes são unidades que foram criadas em algum ponto por uma mente, mas a partir daí, se reproduzem e evoluem por si mesmas e sua ideia central é justamente a de que não são controladas pelas mentes, mas as controlam para replicar-se. Antes de Darwin, nenhum pensador havia entendido a importância da auto-replicação e o poder da evolução que emerge inevitavelmente a partir dela. Depois de Darwin, Dawkins tomou a replicação como conceito central para interpretar a evolução, não só na biologia, com os genes, como na própria cultura, com os memes.

Dito isso, Dawkins está certo? Os memes existem, os genes são “egoístas”, seríamos meros autômatos à mercê de genes e memes? Isso me lembra o meme do cachorro que, ao receber todo dia comida e abrigo do ser humano, conclui que ele deve ser um deus muito generoso. Já o gato, ao receber todo dia comida e abrigo do ser humano, conclui que deve ser um deus para receber tanta reverência da criatura de duas pernas.

Ultimamente, e mesmo cientificamente, os conceitos do gene egoísta e dos memes e memeplexos de Dawkins são apenas metáforas e mesmo, por que não, mitologias que buscam interpretar a evolução de seres vivos e da cultura. Não estão propriamente corretos ou errados, são apenas interpretações. Eles têm sua utilidade, mas não devem ser encarados como algo tão rigoroso, estabelecido ou mesmo relevante quanto a ideia da própria evolução através da seleção natural. Genes e memes são unidades de replicação, mas o genótipo em verdade não é o único determinante do fenótipo, nem a única informação que é transmitida no tortuoso caminho evolutivo. Quanto aos memes, é ainda mais complicado isolar unidades de cultura em replicação. Sem dúvida existem modas, existem músicas grudentas, existem piadas na internet que até a Luíza, que está no Canadá, deve conhecer como memes. O conceito é uma ideia poderosa, mas vaga [2].

Dawkins promoveu os conceitos dos genes egoístas e dos memes, e de nós como meros veículos autômatos para sua replicação, justamente para que pudéssemos, ao nos tornarmos conscientes destes programas cegos, tomar as rédeas da situação e buscar valores maiores. Aqui, sim, os memes se reencontram com os muwakkals e as egrégoras, à medida em que Dawkins defende que sejamos nós a criar e controlar os memeplexos, atentos ao seu poder e tendência de que adquiram vida própria, repliquem-se e transformem-se em criaturas além e maiores que seus criadores.

O paradoxo é que se apegar demais a essa ideia é se apegar a um meme dominante.

[Del Debbio] William S. Burroughs nos alertou, em 1959, em seu livro Naked Lunch, que a “Linguagem é um Vírus”.

Para os Cabalistas e Hermetistas, existem quatro Mundos ou Planos de Existência, correspondentes simbólicos aos quatro elementos tradicionais. São eles o Plano Material (Terra), o Plano Mental (Ar), o Plano Emocional (Água) e o Plano Espiritual ou Filosófico (Fogo ou Luz).

Todos os objetos existentes no Plano Material um dia existiram no Plano Mental e Emocional. Uma pintura, antes de se tornar uma imagem, existiu como uma idéia na mente do pintor. Uma dança, um jantar, uma casa, uma cerimônia de casamento, um produto manufaturado... todas as ações e objetos físicos possuem sua  origem em algum ponto do Plano Mental, onde existem em uma realidade própria.

Estas idéias nascem, crescem, reproduzem, sofrem mutações e eventualmente morrem, seguindo os mesmos passos de toda a Teoria da Evolução. A única diferença é que não possuem corpos físicos, sendo percebidos e armazenados em invólucros materiais (cérebros, livros, filmes, áudios, textos, imagens...) onde podem saltar de uma mente para outra e interagir com outras idéias que tenham contato com aquele invólucro.

Estes pensamentos podem formar grupos semelhantes, chamados pelos cientistas de Memeplexes e pelos ocultistas de Egrégoras. Pelo ponto de vista filosófico, eles não apenas existem, mas possuem um poder tremendo de realização no Plano Material.

Uma idéia, por si só, não é capaz de realizar nada no mundo físico mas, através de seus portadores, consegue se materializar em grandes escalas e com grandes alcances. Toda marca, símbolo ou logo é uma presença física de um objeto mental. Pessoas que defendem uma determinada idéia tornam-se veículos de propagação desta Egrégora e, portanto, definem o poder de alcance desta entidade. Vemos isso em religiões (ou ateísmo), em posições políticas, sociais, times de futebol, hobbies e até na escolha de marcas de produtos que levaremos para casa. Sua mente é uma selva onde uma fauna gigantesca de idéias batalham pela sobrevivência do mais adaptado!

Na Árvore da Vida, estas esferas de consciência estão representadas por Chesed (A Misericórdia) e Geburah (o Rigor). Chesed representa a expansão e o avanço de uma idéia, tomando tudo e todos ao redor até que ela seja onipresente; nas mitologias, é representada pelos deuses-pais e conselheiros, como Zeus, Odin, Wotan, Poseidon ou Oxossi; na literatura são representados pelos conselheiros como Merlin, Gandalf, Yoda e Dumbledore. Chesed representa o rei; a proteção da tradição, a biblioteca do castelo e todas as folhas da floresta de idéias.

Geburah, por sua vez, representa o fogo que destruirá qualquer idéia que não se adapte ao processo de evolução daquela entidade mental. Representa o exército, os deuses da guerra como Ares, Marte, Kali, Thor ou Ogun; responsáveis pela destruição do ego e considerados os defensores do Reino. Podemos ver esta energia se manifestando todas as vezes que alguém defender seu ponto de vista (intelectualmente, logicamente, passionalmente ou mesmo através da violência, truculência ou medo... são apenas escalas de manifestação).

Do equilíbrio entre Chesed e Geburah surge a Força (cuja representação pictográfica é o Arcano 8 do Tarot), as condições ideais para que os mais adaptados sobrevivam e prosperem, sabendo quando expandir e quando restringir seus passos. A defesa e o ataque; recrutar e selecionar; expandir e proteger...

Embora a ciência e o método científico estejam atualmente restritos ao Plano Material e alguns filósofos, como John N Gray e Luis Benitez-Bribiesca, considerem as teorias de memes como sendo pseudo-ciência, os memes foram o maior avanço fora da filosofia para se tentar estudar o conceito de Egrégora até agora.


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[1] Saiba mais sobre o muwakkals neste texto em inglês: “The mysticism of sound” (O misticismo do som).

[2] Nota do Mori: O episódio final da série mais recente de documentários de Adam Curtis, na BBC, é uma crítica severa ao gene egoísta e tangencialmente aos memes.

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Crédito da imagem: Rafael Arrais (ali temos o Richard Dawkins a esquerda, e Rumi - grande sábio sufi - a direita [pintura antiga]; também temos uma ilustração de Sam Spratt no centro [meme face])

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29.12.11

Vírus e memes

Nesta palestra sensacional do TED, apresentada apenas alguns meses após os atentados de 11/9/2001, o filósofo Daniel Dennett explica de forma incrivelmente simples e didática o conceito dos memes - que não são geralmente tão simples de serem entendidos, pelo menos não neste contexto "mais amplo" em que Dennett os coloca. Essencialmente, Dennett associa os memes a ideias, a informação, e exatamente por isso o fato de nunca terem sido detectados em laboratório perca um pouco a importância - afinal, como ele diz a certa altura: "palavras são memes que podem ser pronunciados, mas a maior parte dos memes não pode".

Como os leitores mais antigos do meu blog devem saber, o Dennett representa ramos da filosofia que são diametralmente opostos aqueles aos quais eu simpatizo (por exemplo, o fato de associar a consciência a uma "ilusão de subjetividade"). Mas a beleza da filosofia é que podemos discordar de um pensador e, ainda assim, admirar sua capacidade de pensar:

Daniel Dennet - O fantástico poder dos memes (parte 1)

Daniel Dennet - O fantástico poder dos memes (parte 2)

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Veja também: Onde estarão os memes?


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23.9.11

Rock, Memes e Egrégoras

Em homenagem ao Rock in Rio (ou Pop in Rio), trago a vocês dois excelentes podcasts sobre rock, ciência, religião, ocultismo, memética e egrégoras. Se tiver pouco mais de 2h para ouvir isso tudo com alguma atenção, tenho a certeza que passará a encarar a vida, e seus próprios pensamentos, por uma ótica inteiramente nova...

Se não tiver paciência para escutar a apresentação dos programas, assim como as músicas e trechos de filmes, recomendo fazer o download dos arquivos, para que possa ouvir localmenete e pular os trechos indesejados:

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Podcast Rock com Ciência: Memética [ver no site original]
Meme, termo derivado da palavra gene, foi cunhado por Richard Dawkins, em seu livro O gene egoísta em 1976. Qual a música (rock, claro) mais grudenta que você conhece? Aquela música que você escuta uma vez e não sai mais da cabeça? Existe até uma expressão para isso, Brainworm...

» Fazer download do podcast acima

Programa do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde Laboratório de Genética Ecológica e Evolutiva UFV - Campus de Rio Paranaíba

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Podcast Descontrole: Marcelo Del Debbio [ver no site original]
Prepare-se! Pois você vai se sentir esquisito... Vamos falar hoje sobre o que está oculto sobre o véu da realidade, vamos nos olhar no no espelho e escolher entre a pílula azul ou a vermelha! Podcast com o ocultista Marcelo Del Debbio, onde falam sobre símbolos, mitologia, origem das religiões, memes e... egrégoras.

» Fazer download do podcast acima

Programa de um bando de "loucos"...

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Gostou da memética e suas relações com o ocultismo e a espiritualidade em geral? Então não perca nossa série de reflexões sobre o assunto: Onde estarão os memes?

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Crédito da imagem: moodboard/Corbis

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16.12.09

Onde estarão os memes, parte 4

Continuando da parte 3...

A natureza não nos deixará relaxar

O geneticista norte-americano Dean Hamer parece ter uma predisposição inata à polêmica. Em 1993, afirmou ter descoberto um trecho do DNA, que batizou Xq28, supostamente responsável pela homossexualidade masculina. A descoberta lançou à fama e depois ao escárnio (quando outros cientistas falharam em replicá-la, já em 1999) o campo da genética comportamental, do qual é pioneiro.

Ultimamente Hamer voltou à carga, metendo a mão numa área literalmente sagrada. Em seu livro "O Gene de Deus" (Ed. Mercuryo), Hamer tenta sustentar que a crença em um criador também é geneticamente determinada. Antecipando as críticas, Hamer disse logo que não se trata de "o" gene, mas de "um gene entre vários". E, ah, não é exatamente Deus, mas uma predisposição à crença, que ele chama de "espiritualidade". Em todo caso, segundo ele, “O Gene de Deus” é um título que vende muito mais...

O tal gene, isolado por Hamer e sua equipe no Instituto Nacional do Câncer, nos EUA, é identificado pela sigla vmat2. Ele estaria envolvido no transporte de uma classe de mensageiros químicos do cérebro conhecidos como monoaminas, do qual o mais famoso é a serotonina, a molécula do bem-estar. Algumas drogas como o ecstasy e o prozac também influenciam o humor alterando os níveis de serotonina no sistema nervoso. Será que a fé se resume a isso?

É precisamente esse tipo de tratamento ultra-superficial do assunto que permitiu que a ciência moderna chegasse a uma visão mecanicista do homem, e do funcionamento da mente. Mas nosso atual estudo se resume a questão da possibilidade de que características psicológicas e comportamentais possam ser passadas de geração a geração, e evoluir de forma darwinista, precisamente como os genes. Portanto, se gente como Dean Hamer tivesse comprovado que algum gene, seja ele qual for, pode ser o responsável pela transmissão desse tipo de característica – no caso, a homossexualidade ou a espiritualidade – teríamos uma grande comprovação de que os genes, afinal, não transmitem apenas características físicas adiante, e que os memes nada mais seriam do que características ocultas dos genes, sendo passadas adiante pela reprodução humana.

Esse dia, porém, ainda não chegou; E, pelo que temos visto dos “grandes estudos” de gente como Hamer, a tendência é que nunca chegue: os genes, como qualquer geneticista aprendeu na faculdade, transmitem mesmo apenas características físicas. Caberá aos memes, ou a outras teorias, solucionar o problema da transmissão de características não-físicas pelas gerações humanas.

O psiquiatra suíço Carl G. Jung desenvolveu o conceito de inconsciente coletivo – uma parte da mente, compartilhada por todos, como produto da ancestralidade. Para ele, esse inconsciente inclui os arquétipos (conceitos universais inatos), como mãe, Deus, herói, etc., detectáveis na forma de mitos, símbolos e instinto. Presume-se que ele via o inconsciente coletivo como um tipo de memória popular, corporificado na estrutura do cérebro. Ora, que o cérebro de um recém-nascido obtenha registros em seu hipocampo, trazendo memórias armazenadas por seus ancestrais, nem seria um grande problema científico, contanto que fossem detectadas as partículas responsáveis por tal transmissão. Nesse caso, a grande diferença da teoria de Jung para a teoria de Dawkins é que o inconsciente coletivo pode mesmo abrigar memórias e costumes de toda a espécie, e não apenas dos memes que foram passados adiante na reprodução.

E temos aí uma enorme quantidade de informação “mitológica” a “flutuar pelo ar” e influenciar diretamente os costumes e a cultura dos seres humanos. Continua inexplicado, continua oculto, continua profundamente místico – exatamente como os memes.

Nesse ponto o bom observador deve ter percebido o grande dilema: por um lado, cientistas, psicólogos e antropólogos têm percebido e reconhecido que, sem dúvida, certas características não-físicas são transmitidas adiante ao longo da evolução humana; por outro lado, as únicas unidades materiais detectadas, os genes, não explicam o mecanismo de tal processo. Portanto, qual a grande diferença entre os que acreditam em memes e no inconsciente coletivo, e os reencarnacionistas e espiritualistas em geral?

Muitos dos que se dizem “materialistas” imaginam que a máxima da teoria do materialismo – “tudo o que existe é matéria” – coloca esta maneira de ver o mundo automaticamente acima das demais, que crêem no “imaterial”. Mal sabem que existem muitos espiritualistas que crêem piamente que “tudo o que existe é matéria”, da mesma forma que os materialistas. A única diferença é que certos espiritualistas crêem que os 96% de matéria não detectada no universo (porque não interage com a luz, segundo a teoria da Matéria Escura) podem explicar muito do que é desconhecido do materialismo, que por seu lado, crê piamente que o mecanismo de tudo o que existe, incluindo a mente humana, já pode ser compreendido apenas analisando-se os 4% da matéria já detectada.

A grande diferença entre esse tipo de espiritualista (alguns diriam, moderno) e o materialista, é que o último já se dá por satisfeito com o que já foi detectado pela ciência, enquanto o primeiro dedica a vida a desvendar os segredos da matéria fluida, não-detectada. É nesse sentido que se diz que a consciência, ou o que quer que forme seu processo, pode perfeitamente sobreviver após o fim da vida corpórea, assim como decerto já vivia anteriormente ao nascimento – dessa forma se explicariam fenômenos como experiências de quase morte, crianças que se lembram de “vidas passadas”, e outros ramos mais próximos da parapsicologia do que da auto-proclamada “ciência oficial”.

Obviamente que o fato de tais teorias espiritualistas virem sempre envoltas em questões teológicas e, segundo muitos céticos, “pseudo-científicas”, afasta muitos cientistas de seu estudo, temerosos com a possibilidade de serem conhecidos como “cientistas espiritualistas” – algo que a comunidade científica aparentemente condena, apesar de ficar por vezes igualmente aparente que muitos deles ignoram completamente o que exatamente significa ser um espiritualista.

Porém, como já foi dito por mim em outros artigos, a natureza nunca se comportou da maneira que “achávamos que iria se comportar”. Segundo Richard Feynman, “a imaginação da natureza é muito maior que a do homem, ela nunca nos deixará relaxar”. É provável que tanto os adeptos da memética quanto os reencarnacionistas vejam o mundo através de uma lente ainda desfocada, talvez o futuro da ciência e do espiritualismo ainda nos esconda mecanismos naturais tão belos e extravagantes, tão simples e transcendentes, que nossa imaginação não seja capaz de vislumbrá-los, e nossa racionalidade não seja capaz de compreendê-los.

Que as lentes se interponham. Que venha o futuro!

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Crédito da foto: [topo] Divulgação (Richard Feynman), [ao longo] Hikabu (arquétipos)

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14.12.09

Onde estarão os memes, parte 3

Continuando da parte 2...

Idéias inatas

Dawkins costuma dizer que o darwinismo é uma teoria boa demais para ficar restrita apenas à biologia. A idéia foi levada a sério pelo psicólogo evolucionista Steven Pinker, da prestigiosa Universidade Harvard. Seu livro “Tábula Rasa” (Cia. das Letras) é um extenso apanhado das contribuições da biologia darwinista a campos como a antropologia, a sociologia, a ciência política e até a crítica de arte.

O objetivo declarado de “Tábula Rasa” é nada mais nada menos do que propor uma nova idéia de natureza humana. A palavra "natureza" deve ser entendida literalmente. Diz respeito à nossa biologia, às determinações inescapáveis que a seleção natural depositou em nosso código genético. Impressas em nosso DNA estariam não apenas as instruções para fazer cinco dedos em cada mão e um nariz no meio dos olhos. Todos nascemos com uma programação básica que nos habilita à condição humana, da capacidade de aprender uma língua ao senso de justiça em trocas comerciais. O apêndice do livro traz uma lista de "universais humanos" compilada pelo antropólogo Donald Brown. Seriam características comuns a todas as culturas do planeta – uma lista de cinco páginas com itens que vão do óbvio ao curioso: medo de cobras, poesia, sorriso, linguagem, etc.

O estudo dessas características comuns do comportamento humano faz parte do programa da psicologia evolucionista, ramo científico relativamente novo, que ganhou força no final do século XX. Para esses psicólogos, se o homem trai mais do que a mulher, é porque ainda guarda muitas características da Idade da Pedra em sua mente – precisa disseminar seus genes, se reproduzindo com o maior número possível de mulheres, visto que para sua mente “ancestral”, ele ainda vive num mundo inóspito e selvagem, e não têm grandes perspectivas de sobrevivência à longo prazo. Já as mulheres seriam, ao contrário, muito mais seletivas – a gestação é um período de perigo iminente a sua sobrevivência, e a de seus filhos, e ao invés de se “arriscar” com qualquer homem que apareça, as mulheres tendem a preferir aqueles com aparência mais saudável, e que tenham maior tendência a permanecer para protegê-las durante a gestação e alguns anos depois.

Tais idéias de comportamento masculino e feminino entre as espécies não são novas. A novidade está em atribuir tamanha influência do instinto animal as decisões do homem moderno. Não se trata nem de se considerar o homem moderno como uma espécie de sub-produto da mente “ancestral”, mas por vezes quase que considerá-lo praticamente um animal irracional, a mercê dos instintos – ainda que viva com a convicção de que têm toda a liberdade do mundo em suas decisões.

As teorias da psicologia evolutiva sofrem pesadas críticas de outros cientistas mais céticos. A maior parte delas se resume a questão da falta de evidências. Nesse caso, o ceticismo não poderia estar mais bem fundamentado: a ciência simplesmente não sabe como diabos essas idéias inatas, esses comportamentos ancestrais, são passados adiante de geração a geração (se é que o são), visto que genes transmitem apenas características físicas, e não características psicológicas ou tendências comportamentais.

Entretanto, Dawkins não podia negar o que percebia claramente a sua frente – idéias inatas, sejam o que forem exatamente, certamente existem – e criou a teoria dos memes para abarcar esse problema. Acredito, no entanto, que as alegações da psicologia evolutiva caiam por terra quando analisamos algumas características mais exóticas do comportamento humano. Por exemplo: a homossexualidade...

Kim Petras nasceu menino, mas antes mesmo de completar 18 anos conseguiu se transformar em uma menina sensação da música pop alemã e britânica. Como não poderia deixar de ser, ela passou a ser um alvo dos tablóides europeus. Kim, que nasceu Tim, disse que passou a tomar hormônios em 2005, consultou dezenas de psiquiatras e sempre se viu como uma garota. Os pais deram o apoio para a transformação, relata. O último passo para o tratamento foi realizado em outubro de 2008.

Ora, muitos homossexuais e/ou bissexuais manifestam suas tendências sexuais “heterodoxas” geralmente em algum momento da adolescência – nesses casos, podemos atribuir a causa à influência da cultura e das relações sociais em suas tendências. Mas, e quanto à gente como Kim? E quanto às crianças que, desde muito cedo, dizem se sentir “presas em um corpo errado”?

A equipe chefiada pela cientista Ivanka Savic, do Instituto Karolinska, mostrou, com a ajuda da ressonância magnética, que o tamanho e a forma do cérebro variam de acordo com a orientação sexual. O cérebro de um homem gay parece o de uma mulher hétero – com os dois hemisférios mais ou menos do mesmo tamanho. O de uma lésbica, no entanto, parece o de um homem hétero – pois os dois têm o lado direito um pouco maior que o esquerdo. O cérebro de um homem gay é mais parecido com o de uma mulher do que com o de um homem heterossexual. É o que mostra seu estudo feito na Suécia, que revelou as provas mais sólidas até hoje de que a sexualidade não é uma opção, mas uma característica biológica.

“Excelente”, você pode estar pensando – a ciência parece estar comprovando que essas características não-físicas, essas idéias inatas de comportamento sexual, são realmente passadas de geração a geração... Ora, independentemente de tais estudos estarem comprovando que a homossexualidade certamente não é uma doença, eles levantam um problema enorme para os psicólogos evolutivos: afinal de contas, como a homossexualidade pode estar sendo transmitida adiante, seja por memes ou por algum outro mecanismo desconhecido, se homossexuais não têm filhos – ou seja, se não transmitem seus genes adiante?

É nesse ponto que a mente do cientista materialista deve estar se fundindo. Não há muitas opções senão ignorar totalmente o assunto, e tratar o estudo de pessoas que nascem com cérebros característicos do gênero oposto de forma separada aos estudos da memética e da psicologia evolutiva. Pois, a outra opção seria admitir que certas características psicológicas e comportamentais humanas não são passadas adiante de geração a geração, através da reprodução e da disseminação de genes ou memes, mas sim através de um mecanismo ainda oculto a ciência.

Tal mecanismo é conhecido dos reencarnacionistas a centenas de anos. A seguir, chegaremos às alternativas espiritualistas para a questão...

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Veja também:

» Entrevista com Kim Petras na CBS (em inglês)

» Documentário "Meu Eu Secreto", da ABC, sobre crianças transsexuais (legendado)

Crédito da foto: Divulgação (Kim Petras)

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