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28.3.19

As Canções de Kabir

Rabindranath Tagore foi o primeiro não ocidental a vencer o Prêmio Nobel de Literatura, em 1913, e também o único ser humano responsável pela composição do hino nacional de duas nações: Índia e Bangladesh. Tagore foi um dos maiores poetas do Oriente, e aquele que conferiu o título de “Mahatma” (grande alma) a Gandhi. Mas este artigo não quer tratar de Tagore ou de sua poesia, e sim da sua grande fonte de inspiração: um homem, um poeta, uma lenda conhecida simplesmente como Kabir (“Grande”, em árabe).

Pouco se sabe da sua história com exatidão além de que viveu a maior parte da vida na cidade de Varanasi, no nordeste da Índia, durante o século XV (e início do XVI). Varanasi, às margens do Ganges, é uma das principais cidades do hinduísmo, e uma das cidades continuamente habitadas mais antigas da humanidade, com pelo menos 3 mil anos.

Tendo nascido aproximadamente em 1440 nos arredores de Varanasi, e morrido aproximadamente em 1518 na cidade próxima de Mughar, Kabir passou toda a vida sob o domínio islâmico do Sultanato de Delhi (1206-1526), que no entanto era consideravelmente tolerante para com as práticas hindus. Apesar de possuir um nome árabe, Kabir sempre desdenhou dos rótulos religiosos e das castas sociais, tanto que é até hoje considerado islâmico e hindu ao mesmo tempo (o que, mesmo naquela época, já era algo incomum).

Muito bem, a partir deste ponto, a realidade se confunde com a lenda... Segundo a tradição, Kabir nasceu numa família que professava o hinduísmo, pertencente à casta dos brâmanes (a mais “elevada” delas, reservada aos sábios e sacerdotes). Porém, seu pai morreu cedo e a sua mãe, sem ter condições de educá-lo, o ofereceu em adoção. Kabir foi adotado e educado por um casal de muçulmanos relativamente pobres, o tecelão Niru e sua esposa Nima. Naquele tempo, como ainda hoje, a comunidade islâmica de Varanasi dominava a produção e o comércio de tecidos finos. Assim sendo, Kabir alcançou cedo a maestria na arte da tecelagem, e durante o restante da vida trabalhou com ela.

Quando seu pai adotivo morreu, Kabir assumiu o seu posto como tecelão e vendedor de tecidos, de onde tirava o pálido sustento dele e da mãe. Durante o trabalho, no entanto, entrava frequentemente em êxtase místico e, assim absorto noutros mundos, tecia peças fora da medida ou era facilmente roubado por ladrões quando as expunha no mercado. Era necessário que ele disciplinasse tal vocação espiritual, e foi assim que procurou ajuda no ashram de Ramananda, um dos maiores expoentes da bhakti yoga no hinduísmo da época.

Felizmente, Ramananda também foi um dos primeiros grandes mestres daquele tempo a aceitar discípulos de todas as castas e credos. Tomando contato com aquele jovem tecelão, não se importou que fosse pobre e vindo de família islâmica: viu, em seus olhos, toda a sua potência espiritual, e logo o acolheu.

Sob a generosa tutela deste grandioso mestre, Kabir em poucos anos veio a alcançar ele mesmo o status de santo e sábio, reconhecido por muitos discípulos e inúmeros admiradores (inclusive advindos do islamismo). Mas a lenda de Kabir vai além: mantida em sigilo por séculos, a informação de que ele também teria sido instruído por outro mestre foi revelada por Paramahansa Yogananda (1893-1953) em sua célebre autobiografia. Segundo nos revelou Yogananda já no século XX, Kabir também teria sido instruído por Bábaji, um lendário iogue de sua época (considerado por muitos hindus como “o maior dos iogues perfeitos”).

A conexão de Kabir com grandes místicos do seu século não termina aí. No siquismo se diz que Kabir também foi uma das inspirações do próprio guru Nanak (1469-1539). A poesia de Kabir também encontra paralelos evidentes tanto com o misticismo hindu (sobretudo a bhakti yoga) quanto com o sufismo, o misticismo islâmico.

Assim sendo, não surpreende que Tagore, não mais do que dois anos após alcançar o reconhecimento ocidental com o seu Nobel, tenha se dedicado a selecionar e traduzir poemas de Kabir para o inglês. Através desta obra, Songs of Kabir (As Canções de Kabir), o grande poeta de Varanasi foi finalmente conhecido no Ocidente.

Antes de lhes apresentar trechos deste livro, resta-nos ainda uma última lenda (ou anedota) por contar:

Quando Kabir morreu, tanto os hindus quanto os muçulmanos o reivindicaram como deles e houve uma disputa para cremar ou enterrar seu cadáver. Os hindus queriam cremá-lo conforme a sua tradição e os muçulmanos queriam enterrá-lo, seguindo seus costumes. Há uma história popular a respeito de sua morte, que é ensinada como evento histórico em muitas escolas indianas: ela conta que quando abriram o caixão para disputar o corpo, lá encontraram um livreto sobre sua filosofia desdenhando tanto as crenças hindus quanto as islâmicas, e um buquê com suas flores favoritas! O corpo do santo havia desaparecido e nunca jamais foi encontrado.

Agora sim, para encerrar, algumas canções de Kabir (na tradução de Rafael Arrais):

IV.

Não vá até o bosque!
Ó meu amigo, não vá!

Em seu corpo
existe o bosque, cheio de flores...
Tome o seu lugar
numa das milhares de pétalas da lótus,
e então contemple
a Beleza Infinita.


XIV.

O rio e suas ondas
fluem como um só:
qual a diferença entre eles?

Quando se eleva a onda,
ela é a água;
e quando ela rebenta,
ainda é a mesma água...
Diga-me, ó senhor,
onde está a diferença?

Se acaso a chamaram "onda",
não pode mais ser chamada "água"?

Nas mãos de Brama,
os mundos estão sendo contados
um a um, como as contas de um rosário:
contemple-o com os olhos da sabedoria.


XVI.

Entre os polos da consciência e da inconsciência,
lá a mente fez a sua oscilação:
neste movimento se sustentam todos os seres e todos os mundos,
e este pêndulo jamais deixa de oscilar.

Milhões de seres estão lá;
o sol e a lua e os seus cursos estão lá.
Passam-se milhões de anos,
e seu movimento persiste...

Tudo em fluxo!
O céu e a terra e o ar e a água,
e o próprio Lorde tomando forma:
foi esta a visão que fez de Kabir um servo.


raph

***

Bibliografia
The Songs of Kabir, trad. Rabindranath Tagore (diversas editoras); Kabir: 100 Poemas, trad. José Tadeu Arantes (Attar Editorial); Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Joel L.

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12.11.18

O mistério

Há muitos poemas aqui
passando a minha frente,
dentre meus dedos,
sobre meus olhos,
através da minha alma;
todos eles escorrem
aqui:
no córrego
que flui da fonte.

No rio de todos nós,
fundador de cidades,
semeador de civilizações,
pai do Nilo e do Ganges;
e, no entanto, o rio
que já não é o mesmo rio:
um rio cujas águas
se renovam e renovam
sempre.

Como nossas vidas
e nossas relações vividas,
que se encenam e reencenam
nesta dança eterna
do tempo do amor
de um pelo outro...

Entre eu e você
não há “eu”
nem “você”:
há corredeira,
há rio desembocando em mar,
e o grande mistério,
eterno e inefável,
do que vem a ser poema,
do que vem a ser amar.


raph'18'S.G.

***

Crédito da imagem: Oleg Oprisco

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29.10.18

Blade Runner 2049 e o Gnosticismo (Reflexões no YouTube)

Com mais uma edição primorosa do Colossi Estúdio Gráfico, inauguramos nossas análises de filmes em grande estilo! Blade Runner 2049 é não somente um grandioso espetáculo visual, como um dos filmes com mais camadas ocultas de interpretação que já chegaram ao "mainstream". Pode não parecer, mas Philip K. Dick, autor do livro que inspirou o primeiro Blade Runner, foi um profundo conhecedor e divulgador do gnosticismo. Assim, venham conosco criar olhos para ver o que possivelmente passou desapercebido da maior parte dos espectadores desta grande obra.

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9.10.18

Pedras preciosas

Irfan já não aguentava mais tanto calor. Secretamente, rezava para que Allah fizesse com que a noite se derramasse logo no Saara. Sempre ouvira falar daquela distinta linha de trem que cruzava o maior deserto do planeta, mas nunca achou que um dia poria os pés na Mauritânia. Mas trabalho é trabalho, e ele precisava representar a empresa de peças de mineração francesa, que tinha enorme interesse no desenvolvimento da colônia.

Pelo menos aquele país quase que inteiramente plano possibilitava que a linha férrea fosse reta, tão reta que o trem quase não chacolejava. Além da praga e da súplica contra o calor que ele ouvia em sua própria mente, dizendo para si mesmo, tudo o que havia a volta eram pequenas e breves conversas em árabe e berbere; quase nenhum francês podia ser ouvido – o que o convenceu a se resignar com a solidão da viagem. Recostou a cabeça na janela e, contemplando a linha do horizonte que separava o amarelo e o azul semi-infinitos, dormiu.

O que ele se lembrou, em seguida, foi de ter ouvido uma voz doce e suave, reverberando em sua cabeça: “Irfan, venha! Há pedras preciosas no deserto, venha pegá-las!”

Acordou de um pulo, e pôde ver que já era noite, e o calor havia arrefecido e cedido lugar a um friozinho até mesmo agradável. Mas estava escuro, muito escuro dentro do trem. Nenhuma luz funcionava. Viu que os outros passageiros estavam tão assustados quanto ele. Tentou ligar sua lanterna, sem sucesso. Parecia que toda a luz do mundo havia sido retirada, o que restava era um breu noturno, com a parca luminosidade de uma lua crescente.

Irfan, venha! Há pedras preciosas no deserto, venha pegá-las!”

Desta vez ouviu acordado, e poderia jurar que todos os demais passageiros no trem ouviam exatamente a mesma coisa, quiçá cada um em seu próprio idioma. Colocou de novo a cara no vidro da janela: lá fora era tão escuro que, houvesse mesmo pedras preciosas em meio a tanta areia, seria impossível saber de longe. Teria de sair do trem.

“Irfan, venha! Há pedras preciosas no deserto, venha pegá-las!”

O trem, inexplicavelmente, foi parando lentamente no meio do Saara. Não havia cidade alguma nas imediações, e o sistema de som tampouco funcionava. Parecia uma pane geral. Mas, por que tudo estava tão estranhamente escuro? E aquela voz, de onde teria vindo? Seria Allah?

Irfan foi interrompido pelo som da abertura da porta do vagão. Havia uma pessoa se aventurando no deserto! Ele observou que ela encheu os bolsos de areia e logo retornou... Que maluquice!

Logo, outros passageiros resolveram fazer o mesmo. Eram minoria no vagão, mas observando as silhuetas humanas contra a luz do luar, parecia óbvio que pessoas dos demais vagões também resolveram descer e apanhar areia. Irfan observou que no seu próprio vagão menos da metade havia descido. “Descer para pegar areia?” – pensou consigo mesmo – “E se o trem partir? Mas e se... e se não for somente areia?”

Resolveu descer. Afinal, não se cruza o deserto de trem toda hora. Pegou um punhado de areia nas mãos, mas estava escuro demais para perceber qualquer pedra preciosa ali. O jeito seria guardar nos bolsos para analisar na manhã seguinte...

Enquanto enchia os bolsos de areia, percebeu que havia um casal que trouxe suas próprias malas para fora do vagão, e estavam jogando a roupa toda fora. Achou aquilo tudo tão inusitado que foi falar com eles, tentando ver se entendiam francês.

“Sim meu senhor, eu e minha amada já viajamos pela Europa, conhecemos francês, inglês e até mesmo um pouco de alemão. Me chamo Asik, e esta é a bela Duniazade.”

“Mas por que estão se desfazendo das suas roupas?”

“Ora, você não escutou a voz? Se esta areia estiver cheia de pedras preciosas, o que seria toda a nossa bagagem perto de tamanha preciosidade? E, se tudo o que houver for somente areia, compramos roupas novas na próxima parada!”

Aquele homem pareceu tão louco que Irfan ficou por um momento atônito. Resolveu se despedir e retornar para seu assento no vagão. “Devo eu mesmo ser um pouco louco, afinal estou com os bolsos cheios de areia” – pensou, e logo dormiu novamente, quando o trem retornou ao movimento. Estava um clima agradável, e por isso dormiu com um sorriso, pois Allah havia atendido sua prece contra o calor.

Na manhã seguinte, acordou com gritos efusivos de comemoração.

“Ricos, estamos ricos!” – foi o que Irfan pôde compreender do árabe.

Logo, retirou o punhado de areia de um dos bolsos. Sob o brilho do sol, pôde ver esmeraldas verdejantes e grandiosos rubis. Allah é grande.


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***

Comentário
Ouvi este conto, de maneira bem mais resumida, da boca de um sheikh sufi da Ordem Naqshbandi.

A vida é como uma viagem de trem. Entre uma e outra parada, temos a oportunidade de colher pedras preciosas. Disse Isa (Jesus) no Evangelho de Tomé que “o Reino está espalhado pela Terra, mas os homens não o veem” – isto é, tudo o que um místico faz é desenvolver olhos para contemplar o Reino. As pedras preciosas não são esmeraldas e rubis reais, mais metáforas para o conhecimento de Allah, o autoconhecimento, a gnose do Amor.

Quando o trem para em meio ao deserto, e está estranhamente escuro, nem todos têm coragem de descer e seguir a voz em sua mente (ou coração). Já aqueles que estão dispostos a trocar as quinquilharias de suas bagagens por tais pedras espirituais, estes são ainda bem mais raros. Eles não somente contemplaram o Reino espiritual, como verdadeiramente se desapegaram do mundo.

O Reino espiritual e o mundo também podem ser uma coisa só. Tudo o que se modifica é a nossa maneira de enxergar. Ou, como bem resumiu Jalal ud-Din Rumi:

A alma é a fonte,
e as coisas criadas, os rios.
Enquanto a fonte jorra, correm os rios.
Tira da cabeça todo o pesar
e sorve aos borbotões a água deste rio.
Que a água não seca, ela não tem fim.

***

Conheça a Ordem Naqshbandi no Brasil

Crédito da imagem: Google Image Search

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3.9.18

Chá com Abramelin

Quando a Wanju Duli aceitou meu convite para ser colunista deste blog, ela já estava bem no meio do chamado Ritual da Sagrada Magia de Abramelin, uma das práticas místicas mais minuciosas e demandantes do ocultismo (principalmente da maneira que está sendo conduzida). O texto que trago aqui é a introdução de um de seus blogs (e, acreditem, ela já teve muitos!), chamado Chá com Abramelin, onde ela vem nos trazendo resumos diários do Ritual. Eu raramente trago textos tão longos neste blog sem separá-los em várias partes, mas neste caso abrirei uma exceção. O texto foi originalmente publicado na Páscoa de 2018:


Enfim, o grande dia!

Nessa auspiciosa ocasião, dia da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. A gloriosa Páscoa!

Eis que Abraão, o Judeu, recomenda que se inicie a Sagrada Magia de Abramelin no primeiro dia após a Páscoa cristã ou judaica. Optei por iniciá-la após a Páscoa cristã, uma vez que estou mais conectada ao cristianismo.

Mas o que é a Magia de Abramelin? Por que resolvi iniciá-la? E quem sou eu, afinal?

São perguntas que merecem respostas consideravelmente longas, mas irei me esforçar para ir direto ao ponto. Raramente consigo fazer isso, uma vez que sou mais conhecida por minhas digressões. Ainda assim, me proponho a tentar.

Sempre gostei de religiões. Talvez meu problema seja amá-las demais. Na adolescência li muitos livros religiosos, como a Bíblia, Alcorão, Bhagavad Gita, Dhammapada, Tao Te Ching, dentre outros.

Por que eu precisava ter apenas uma religião? Eu amava todas, queria mergulhar em todas, até me afogar.

Aparentemente meu tempo aqui nesse mundo (meu Kronos), nesse plano, seria finito, teria um limite. Poderia ser uma boa coisa optar por uma direção de acordo com minhas inclinações.

Acabei me envolvendo mais com o budismo Theravada e com o catolicismo. Isso não me impediu de continuar admirando todas as outras religiões. Particularmente o hinduísmo e o judaísmo, que seria como uma mãe dessas outras duas.

Aos 13 anos me envolvi com leituras e práticas de ocultismo. Li e reli muitas das obras de Eliphas Levi. Foi ele que me ensinou a admirar o cristianismo, já que ele foi seminarista e teve muito contato com a teologia e a filosofia dessa religião.

Eventualmente ouvi falar da Operação de Abramelin e dos rumores do quanto ela era perigosa e difícil de realizar.

O que uma adolescente de 14 ou 15 anos faria com essa informação? Na época eu já havia lido algumas dezenas de famosos livros de filosofia, literatura, ocultismo e religião. Já havia testado algumas práticas e estava ansiosa por algo mais profundo, que não tocasse apenas a mente ou a carne, mas o espírito.

A perspectiva de essa magia ser árdua e um desafio à sanidade era imensamente atraente. Era um bônus que me tentava e me convidava.

Mais informações »

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15.8.18

Lançamento: Luz no Caminho

As Edições Textos para Reflexão desta vez trazem a você a obra-prima da teosofista Mabel Collins, Luz no Caminho.

Não foi por acaso, quem sabe, que o grande poeta português Fernando Pessoa escolheu a dedo esta preciosa obra para realizar sua primorosa tradução do inglês. Muitos devem saber que Pessoa foi um místico relutante, e a carta que trazemos na Introdução, endereçada ao seu amigo Sá-Carneiro, nos dá uma bela ideia de como os textos teosóficos o impactaram; e este, talvez mais do que todos os outros. Somente quem já deu seus primeiros passos no Caminho, quem anda devagar porque já teve pressa, quem traz um sorriso porque já chorou demais, poderá aproveitar completamente o teor deste pequeno mistério em forma de palavras.

Disponível em e-book na Amazon e na Saraiva:

Comprar eBook (Amazon Kindle) Comprar eBook (Saraiva Lev)

***

À seguir, trazemos os vídeos do canal Nova Acrópole no YouTube, onde a professora Lúcia Helena Galvão faz uma análise minuciosa desta obra inefável (até onde é possível explicá-la por palavras, é claro):

» Comentários dos degraus exotéricos, 1 a 7

» Comentários dos degraus exotéricos, 8 a 16

» Comentários dos degraus exotéricos, 17 a 21 + esotéricos 1 a 3

» Comentários dos degraus esotéricos, 4 a 12

» Comentários dos degraus esotéricos, 13 a 21 (FINAL)


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7.8.18

O Mito da Caverna no século 21 (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo trago uma breve porém detalhada descrição de todos os passos da famosa alegoria da caverna de Platão. Vamos analisar como este antigo mito não só pode, como deve ser transportado para o nosso tempo, o nosso século, e reinterpretado por cada um de nós: pois é somente você quem poderá sair da caverna e ver o mundo lá fora por si mesmo, ninguém poderá fazer esta travessia em seu lugar.

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2.7.18

Gibran, a luz do Líbano

Gibran Khalil Gibran, mais conhecido no Brasil como Khalil Gibran ou apenas Gibran, foi o maior poeta do Líbano e um dos maiores poetas de todos os tempos, pelo menos no que tange a poesia mística. Além de poeta, foi filósofo e pintor de relativo destaque. Mas sem dúvida é hoje mais conhecido pela sua literatura, sobretudo por sua obra-prima, O Profeta.

Ele nasceu em 6 de dezembro de 1883, de família pobre. Cresceu em zona montanhosa próxima a uma floresta de cedros milenares, num dos berços mais antigos da própria civilização humana.

Em 1894 emigra para os EUA com a mãe, o irmão e duas irmãs. Apenas seu pai fica no Líbano. Gibran passa cerca de 4 anos em Boston com sua família, mas em 1898 retorna a sua terra natal para completar seus estudos árabes no Colégio da Sabedoria, na capital Beirute. Passados menos de 2 anos, retorna a Boston e passa a se dedicar a pintura e a literatura, sendo sustentado pela família.

Entre abril de 1902 e junho de 1903, Gibran perde uma irmã e um irmão para a tuberculose, e vê a mãe morrer de câncer. Resta apenas sua irmã Mariana, o que obriga Gibran a correr atrás de algum retorno financeiro para sua pintura (algo que já era difícil naquela época). Felizmente, numa de suas primeiras exposições conhece Mary Haskell, diretora de uma escola em Boston, que se torna uma mecenas e confidente durante boa parte de sua vida.

Com a ajuda de Haskell, em 1908 vai estudar arte em Paris e chega a conhecer e ter algumas aulas com o escultor Auguste Rodin. Voltando aos EUA em 1910, já tem sua carreira artística inicialmente consolidada, e decide se mudar para um estúdio em Nova York. Lá ele passará o resto da vida.

Em sua terra natal, seus livros em árabe já o tinham tornado um escritor muito reconhecido. Entretanto, após decidir traduzir alguns de seus livros do árabe para o inglês, ele acaba alcançando certo sucesso editorial também nos EUA; para tal, contou com a ajuda do seu editor, Alfred Knopf, e com as revisões e o aconselhamento de sua amiga, Mary, que nessa altura já não tinha mais necessidade de lhe manter financeiramente.

É a partir do sucesso de O Profeta, lançado em 1923, que Gibran passa a ser reconhecido como grande escritor, além de pintor. Com o passar das décadas, ele será lembrado em todo o Ocidente e no Oriente Médio como o grande poeta do Líbano. No entanto, Gibran mal participa desta fama internacional, uma vez que falece já em 10 de abril de 1931, em decorrência de uma crise pulmonar (a sua saúde sempre fora frágil).

A filosofia do coração
Segundo Mansour Challita, diplomata libanês que ajudou a traduzir boa parte de sua obra para o português, “Gibran não era um filósofo no sentido transcendental da palavra. Não trouxe uma nova doutrina, uma nova interpretação do universo. Ele era um filósofo no sentido humano da palavra, um pensador, um guia.

Gibran nos trouxe o que talvez mais falte a nossa época, tão rica e tão pobre ao mesmo tempo: uma nova fé no homem, uma nova fé na vida. Ele redescobriu o papel do coração. Pregou a ternura no meio das máquinas e da concorrência impiedosa dos nossos tempos.”

Como tão bem descrito em O Profeta, Gibran não veio nos ensinar nada novo, mas simplesmente nos ajudar a florescer. A sua filosofia era mais coração que razão, mais poesia que lógica:

Homem algum poderá lhes revelar nada além do que já se encontra meio adormecido na aurora do que vocês já conhecem. O mestre que caminha à sombra do templo, junto aos seus alunos, não doa da sua sabedoria, mas antes da sua fé e da sua compaixão. Se ele é realmente sábio, não lhes convidará a adentrar na mansão da sua sabedoria, mas antes deverá lhes guiar até o limiar de suas próprias mentes.

O astrônomo poderá lhes falar de sua compreensão do espaço, mas não poderá lhes doar esta compreensão. O músico poderá cantar para vocês seguindo ao ritmo que existe em todos os espaços, mas não poderá lhes conferir o ouvido que capta a melodia, nem a voz que a ecoa. E aquele que é versado na ciência dos números poderá lhes falar do mundo dos pesos e medidas, mas não poderá lhes encaminhar até ele.

Pois a visão de um homem não empresta suas asas ao outro. E assim como cada um de vocês se encontra isolado na consciência de Deus, da mesma forma cada um de vocês deve ter o seu próprio conhecimento de Deus e a sua própria compreensão do que jaz na terra.

Os filhos
Gibran acreditava no porvir, na lenta e gradual evolução espiritual da humanidade. Isso se refletia na forma com que tratava as crianças. Apesar de nunca ter tido filhos, Gibran parecia saber muito bem de onde eles vêm:

Seus filhos não são seus filhos. Eles são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Eles vêm através de vocês, mas não de vocês, e embora eles vivam ao seu lado, eles não pertencem a vocês.

Vocês podem lhes dar seu amor, mas não podem formar seus pensamentos, pois eles possuem seus próprios pensamentos. Vocês podem abrigar seus corpos, mas jamais suas almas, pois suas almas residem na Mansão do Amanhã, que vocês não podem visitar nem mesmo em sonhos.

Vocês podem lutar para ser como eles, mas não procurem fazê-los como vocês. Pois a vida não anda para trás e nem se demora com o ontem.

Não a paz, mas a espada
Gibran sempre foi muito intenso, seja na poesia, seja na pintura, seja em sua vida pessoal (o que pode ser conferido nas cartas que trocou com Mary). Ele parece ter vivido com o coração aberto, mas isto não significa que achava que o amor era algo “tranquilo e pacífico”. Assim como o Cristo, Gibran via no amor uma verdadeira guerra, uma guerra interna:

Quando o amor lhes acenar, sigam-no, embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados. E quando suas asas lhe envolverem, aceitem-nas, embora a espada oculta em suas plumas possa lhes ferir. E quando ele lhes falar, acreditem no que diz, embora sua voz possa despedaçar os seus sonhos como o vento do norte devasta ao jardim.

Pois assim como o amor os coroa, ele também os crucifica. E da mesma forma que auxilia em seu crescimento, trabalha também para a sua poda. E assim como ascende a sua altura e acaricia os seus ramos mais tenros que se agitam ao sol, também desce até suas raízes e as sacode em seu apego à terra.

Como feixes de trigo, ele os aperta junto a si. Ele os debulha para expor-lhes a nudez. Ele os peneira para livrar-lhes das suas cascas. Ele os mói até a extrema brancura. Ele os amassa até que se tornem maleáveis. Então ele os encaminha ao fogo sagrado, para que possam se tornar o pão místico do banquete divino.

Todas essas coisas o amor irá operar em seu interior para que conheçam aos segredos de seus próprios corações, e através deste conhecimento se tornem um fragmento do coração da Vida.

Entretanto, acaso em seu medo vocês buscarem apenas a paz e o prazer do amor, então será melhor que cubram a sua nudez e abandonem ao açoite do amor, para que deem risadas num mundo sem estações, mas nem todos os seus risos; e chorem, mas nem todas as suas lágrimas.

O amor nada oferece além de si mesmo e nada recebe além de si mesmo. O amor não possui, e tampouco pode ser possuído; pois o amor se basta em si mesmo.

Quando você ama não deveria dizer, “Deus está em meu coração”, mas sim, “Eu estou no coração de Deus”.

Na floresta
Se em O Profeta Gibran chegou ao limite da linguagem, em alguns de seus poemas isolados ele chega naquela zona mística onde as palavras já não dão conta de cobrir todo o entendimento. Assim, encerro aqui meu breve translado pela vida e a obra da luz do Líbano com Na floresta, talvez o seu poema mais inefável:

Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor.
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera.
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão,
se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor.

Na floresta não existe ignorante ou sábio.
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam.
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos,
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber,
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas.

Na floresta só existe lembrança dos amorosos.
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram,
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos.
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar...
Dá-me a flauta e canta!
E esquece a injustiça do opressor,
pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue.

Na floresta não há crítico nem censor.
Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: “Que estranho”.
Sábio entre nós é aquele que julga estranho apenas o que é estranho...
Ah, dá-me a flauta e canta!
O canto é a melhor loucura,
e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais.

Na floresta não existem homens livres ou escravos.
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água.
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: “Ele é desprezível e eu sou um grande senhor”...
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica,
e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil.

Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade.
Quando o leão ruge não dizem: “Ele é temível”.
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço do pensamento,
e o direito dos homens fenece como folhas de outono...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é a força do espírito,
e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis.

Na floresta não há morte nem apuros.
A alegria não morre quando se vai a primavera.
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração,
pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o segredo da vida eterna,
e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência.

***
 
Bibliografia
O Profeta, Khalil Gibran (a tradução de Rafael Arrais pode ser encontrada em e-book na Amazon); O Grande Amor do Profeta, com as cartas de Khalil Gibran e Mary Haskell (livro fora de tiragem, mas pode ser achado em sebos); Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Arte para o filme O Profeta; Pintura do próprio Khalil Gibran.

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10.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo II)

« continuando do tomo I

No caminho da mão esquerda nós tomamos a rota direta, que é muito mais extenuante, muito mais perigosa, e onde há maiores chances de uma queda (Zeena Schreck)


Bem, se eu já havia me metido numa enrascada ao tentar definir o que diabos é ocultismo, talvez neste momento tenha me colocado num problema ainda maior: o que são o caminho da mão esquerda e da mão direita, afinal de contas?

Se formos buscar nos canais tradicionais de informação – onde boa parte do ocultismo é entendida de forma tão superficial quanto um super-herói como Hércules (da Marvel), se comparado ao seu mito antigo – temos algo não muito diverso do maniqueísmo raso: “O caminho da mão esquerda é equiparado às maliciosas práticas da magia negra, enquanto o caminho da mão direita refere-se às práticas benéficas da magia branca”. Sim, isto se encontra na Wikipédia; não é a toa que tão poucos sabem o que é ocultismo...

Um dos problemas de se tentar definir o que é o chamado caminho da mão esquerda (Left Hand Path: LHP) e a sua “contraparte”, o caminho da mão direita (Right Hand Path: RHP), é que muitas vertentes ocultistas formaram opiniões diversas sobre eles. Há quem creia que só devemos falar em LHP; há quem diga que podemos falar em ambos, mas que não são exatamente opostos; há quem atribua características tão díspares para LHP e RHP, que fica quase impossível uma definição única. No entanto, há pelo menos uma espécie de “consenso geral”: o de que LHP vem de práticas espirituais heterodoxas, por vezes individuais; e o RHP, por sua vez, favorece as práticas ortodoxas, geralmente baseadas nos ensinamentos de uma coletividade eclesiástica.

Tudo teve início na Índia...
Talvez surpreenda a muitos ocultistas ocidentais, mas os termos LHP e RHP surgiram inicialmente na Índia, mais precisamente dentre os praticantes do tantra, que pode ser aqui brevemente resumido como o “ocultismo hindu” (na verdade ele é muito mais que isso; apenas não terei tempo para entrar no tema nesta série). No Oriente, o RHP, ou Dakshinachara, se refere a doutrinas e/ou grupos que seguem princípios éticos, morais e filosóficos mais rígidos e conservadores, com forte tendência ortodoxa; por sua vez, o LHP, ou Vamachara, se refere a doutrinas e/ou grupos com práticas heterodoxas em sua maioria, que reforçam e induzem o questionamento e a oposição moral, não adotando estruturas éticas e filosóficas complexas. É preciso lembrar, no entanto, que isso já é muito distante da dualidade infantil de “bem” e “mal”; ou de “magia branca” e “magia negra”.

Porém, se no ocultismo ocidental contemporâneo um praticante LHP pode dividir um mesmo auditório com um praticante RHP sem que necessariamente eles sejam facilmente identificados por sua aparência, vestimenta, acessórios, ou até pela forma de se expressar, na Índia, particularmente na Índia antiga, alguns seguidores do LHP eram instantaneamente percebidos por onde passavam (e ainda são, embora estejam praticamente extintos):

Os aghori são devotos de Kala Bhairava, uma manifestação do deus Shiva associada à aniquilação… do mal! Eles se submetem em sua rotina ritualística à necrofagia, caminham entre cadáveres e fazem utensílios com ossos humanos, justificando tal comportamento como uma prática não-dual, o contato com o verdadeiro Eu, transcendendo todos os tabus sociais. Apesar de não serem considerados “hindus” pelos indianos em geral, os aghori têm curandeiros reconhecidos por seus poderes ditos milagrosos. Devemos pensar na prática aghori como uma vacina, em que você se contamina com o que quer evitar, sendo que a diferença entre a imunização e a infecção está simplesmente na dose e na manipulação do agente. Os aghori provavelmente seriam percebidos por um turista ocidental desapercebido como mendigos imundos que se misturam com mortos... mas, é preciso lembrar que mesmo Jesus Cristo já abriu uma tumba, e fez um cadáver voltar à vida: “Lázaro, levanta-te e anda!”. Não sei se o Rabi da Galileia foi lá muito ortodoxo em suas práticas...

Outra possível compreensão da relação entre o ortodoxo e o heterodoxo que definem os caminhos é a relação entre a disciplina e a abstenção. Um praticante RHP vai preferir abster-se de alguns desejos tipicamente mundanos, como o sexo dito promíscuo ou o consumo excessivo de bebida alcoólica; já alguém da via LHP pode, justamente, buscar ativamente tais práticas, para colocar a sua própria disciplina em xeque. Ou seja: ao invés de evitar o “perigo”, ele irá buscá-lo conscientemente, como alguém que se vê maduro o suficiente para ser testado, para testar a si mesmo, em seus apegos e excessos mundanos. É por isso que alguns dizem que o LHP é um caminho mais direto, porém bem mais perigoso.

Por muito tempo o ocultismo ocidental não esteve muito distante dessa antiga definição hindu para os dois caminhos. Ainda no tempo de Éliphas Lévi, que muitos consideram o maior ocultista do séc. XIX, a chamada “Alta Magia”, que lida com os seres do Alto, com os espíritos etéreos e com o intelecto, esteve associada à ortodoxia cristã e ao RHP. Assim, ainda que nem sempre tenha estado tão claro, se pressupunha que havia uma “Baixa Magia”, para lidar com os seres da Terra, com os espíritos densos e com a intuição – esta, portanto, estaria ligada ao LHP. Até hoje, de fato, podemos encontrar classificações parecidas nos cultos e religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda.

No entanto, com a abertura e divulgação de parte do chamado conhecimento oculto para a população leiga e os não-iniciados em geral, um movimento que atravessou o séc. XX (com grande auxílio de Aleister Crowley) e culminou na era da internet, muitas tradições se intercruzaram e, de uma imensa salada mista de conceitos e interpretações, se acabou chegando, ironicamente, a uma ideia um tanto simples para se compreender os caminhos: expansão e restrição.

Desde o yin e yang oriental já se fala nisso: uma parte da natureza que é ativa e expansiva (yang), e a sua contraparte, passiva e restritiva (yin). Na Árvore da Vida da kabbalah, há o pilar direito, expansivo, e o pilar esquerdo, restritivo. Neste caso, a associação dos lados aos caminhos é natural: o RHP seria o pilar expansivo (direito), enquanto o LHP ficaria do lado restritivo (esquerdo). Tal visão “natural” dos caminhos parece ter agradado muita gente, e em geral se tornou quase que um consenso adicional à antiga interpretação que, como já vimos, veio desde o tantra hindu. É preciso atentar para um detalhe, no entanto: todo yang traz em si um pouco de yin, e todo yin traz um pouco de yang. Com isto em mente, penso que podemos aplicar o LHP e o RHP ao caminho espiritual de cada um de nós (um caminho que, invariavelmente, perpassa muitas vidas)...

Ovelhas pastoreadas e ovelhas desgarradas
A imensa maioria das crianças não guarda senão uma vaga intuição acerca das vidas anteriores. Muitas podem carregar traumas relacionados às inúmeras guerras religiosas de nossa história, mas eles não costumam vir à tona até que chegue a adolescência com sua rebeldia. Assim, a suposta “tábula rasa” de nossa mente precisa ser preenchida com conhecimento, e na maior parte do mundo o lado espiritual é contemplado pela ortodoxia eclesiástica em voga na região em que nascemos. Nos tornamos, enfim, ovelhas pastoreadas pelo ensinamento religioso tradicional, e por seus representantes.

Isto se dá por um imenso movimento de expansão em nossa mente, que passa boa parte da infância sendo inundada, martelada por todo tipo de conhecimento religioso, mais ou menos dogmático, a depender da sorte que tivemos, isto é: do país e da família em que nascemos. Quando iniciamos a formação de nossa personalidade adulta, entretanto, muitas vezes antigos traumas, ou antigas preferências pela heterodoxia, costumam vir à tona. É assim que muitas ovelhas se desgarram de seus rebanhos, se tornando “a ovelha negra da família”.

Esta sempre foi à essência do ateísmo: não necessariamente descrer em Deus, mas ser avesso às tradições, se recusar a praticar a religião estabelecida, não seguir o rumo da multidão, por vezes se isolar não somente em seu próprio pensamento, mas abdicar da sociedade como um todo. Claro que nos dias atuais, numa era hiperconectada, tal isolamento é cada vez mais raro – mas, estranho de se pensar: todo livre-pensador, todo fundador de novas doutrinas e religiões, necessariamente teve o seu momento de eremita, o seu tempo no LHP. Foi necessário restringir a expansão para encontrar as suas próprias ideias.

O próprio cristianismo surgiu de um homem assim. Cristo jamais teria se dignado a perambular pela Galileia com seu punhado de ovelhas desgarradas, falando tanto a homens quanto a mulheres, tanto a nobres quanto humildes, praticando os “milagres” mais estranhos (ao ponto de precisar ser “calado” pela tradição), se não fosse ele mesmo um fiel seguidor do LHP.

No entanto, a partir da consolidação e da imensa vitória do cristianismo enquanto doutrina, todas as discussões da Igreja primitiva foram sendo decididas, todos os dogmas foram sendo estabelecidos sobre as heresias, e de um ensinamento simples e profundo, “Amai ao próximo como a ti mesmo, e a Deus acima de todas as coisas”, toda uma construção se ergueu, com suas virtudes e seus vícios, para se consolidar em uma nova tradição. É desta forma que a maior parte dos santos católicos seguiram o RHP, evangelizando os ensinamentos de um andarilho exótico, maltrapilho, que fazia os mortos se levantarem e afirmava que podia ser consumido, ele próprio, através do pão e do vinho. Não há nada mais heterodoxo que isso.

O mago e o místico
Numa visão geral, todo mago está geralmente ligado a uma via não tradicional, não eclesiástica, enquanto todo místico surge do próprio seio das comunidades religiosas... mas, será que é sempre assim? No ocultismo, não é possível nos atermos a visões binárias, ao “bem” e ao “mal”, ao “branco” e ao “negro”. Assim como todo yin traz sua parcela de yang, e vice versa, o mesmo pode ocorrer aqui.

Por exemplo, em seu aspecto de “realização da vontade”, o mago é muito mais ativo, muito mais expansivo, muito mais associado à coluna direita da Árvore, e não à esquerda. Da mesma forma, em sua “contemplação de Deus”, o místico é muito mais passivo, estando ligado à coluna esquerda, e não à direita.

Por outro lado, quando “expande seu coração” para abarcar a tudo e a todos, o místico se porta de forma incomparavelmente mais expansiva que o mago, que em geral “se restringe ao seu próprio grimório”, ao seu próprio vocabulário, a sua própria linguagem mágica, abdicando de maiores explorações pelas egrégoras alheias.

Quanto à ortodoxia e à heterodoxia, podem ocorrer inversões ainda mais curiosas: o já citado Éliphas Lévi foi um mago grandioso que, em geral, esteve muito ligado à tradição católica; já em pleno século XIII, em meio ao islamismo tradicional, surgiu um místico sufi, Jalal ud-Din Rumi, que passou boa parte de seus dias simplesmente rodopiando e recitando poemas aos seus discípulos. Perto de Lévi, Rumi seria considerado um lunático.

É assim que todo mago e todo místico têm sua fase LHP e sua fase RHP, e por vezes eles conseguem seguir precisamente pelo meio, tomando o rumo direto, o rumo que salta um Abismo ainda mais infernal do que qualquer noite negra da alma. Há que se perguntar, após tantas elucubrações, por que afinal tanta gente se arrisca por tantos e tantos perigos? Por que seguem pelo RHP ou pelo LHP? Aonde se quer chegar com tudo isso?

Creio eu que todos nós, os ocultistas, buscamos por um campo...


Além das ideias de certo e errado,
há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama,
o mundo está preenchido demais para que falemos dele.
Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um”
não fazem mais nenhum sentido.

(Rumi)

» No tomo III: a Verdadeira Vontade.

***

Fontes consultadas
O tema deste tomo é bastante complexo e certamente vai muito além dos meus parcos conhecimentos na área; tal texto jamais teria sido possível sem o inestimável auxílio do artigo O Caminho Sinistro (por XLR), do episódio 19 do Vortex Caoscast – Mão Esquerda para Destros, e das contribuições de Gabriel Leite Bueno, Maes Hughes e Dan Cruz (dentre outros) no grupo do Vortex no Facebook.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search/Geoglyphiks.com [ao longo] Reuters (Aghori de Varanasi, Índia); a1samurai @ DeviantArt.

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8.4.18

A noite negra da alma

Noite Negra .:.

"Não se engane, crescer é um processo doloroso! Observe a semente lançada no ventre da terra, o esforço da borboleta e a cadeia alimentar: o curso da vida nada possui de pacato e fleumático.

Apenas olhares superficiais enxergam paz; a perpetuação e o avanço na natureza acontece mediante força, atrito, luta e batalhas.

Olhos desatentos veem na natureza uma mãe romântica, inocente e meiga que acaricia placidamente sua prole. Ingenuidade. A 'Mater Natura' é uma sábia senhora que exigirá - da semente e de ti - energia, fibra e tenacidade para vencer as cascas, renascer e transmutar-se.

O ponto mais escuro da noite é o que antecede a beleza do alvorecer.

As mesmas leis de luz e trevas que regem a mecânica biológica guiam a marcha espiritual. Eis uma realidade retratada na ritualística Rosacruz, Maçônica e n'outras mil tradições religiosas/iniciáticas.

Antes da ressurreição, o Iniciado deve não apenas morrer mas também 'descer aos infernos' para reencontrar-se, depurar-se e sublimar-se.

O termo 'Noite Negra da Alma' foi cunhado primeiramente por {São} João da Cruz no século XVI. Parceiro espiritual de Tereza d'Avila, ele foi não apenas um taumaturgo e místico de primeiríssima linha mas, igualmente, um fino poeta.

'La Noche Oscura del Alma', descreve a ascensão da consciência divina e, per si, configura as dificuldades entre deixar o onde se está para germinar, florescer e frutificar o que se é.

Graças aos longos e profícuos artigos de Blavatsky para a revista da Sociedade Teosófica e estudos perpetuados em 'Pelas Grutas e Selvas do Hindustão', 'A Voz do Silêncio' e 'A Doutrina Secreta' (livros que recomendo enfaticamente!) é que a expressão ganha 'mapas' marcadamente esotéricos, retratando com exatidão a jornada espiritual: o árido deserto interno precede o oásis da Iluminação.

A 'Noite Negra da Alma' é mais que um período trevoso de dificuldades corriqueiras, trata-se de um ponto de mutação na história individual de quem se propõe ou vê-se 'obrigado' a caminhar, amadurecer e evoluir."

Caciano Camilo Compostela, Monge Rosacruz – Contato: facebook.com/ mongerosacruzcacianocompostela

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Crédito da imagem: Google Image Search

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25.3.18

Lançamento: Cartas a um jovem poeta

As Edições Textos para Reflexão desta vez trazem a você o livro mais conhedio de um dos maiores poetas de língua alemã, Rainer Maria Rilke .

Tudo começou com uma carta despretensiosa de um jovem poeta, "iniciante de tudo", a um Rilke já em pleno domínio do seu mundo poético. Ao costumeiro pedido de avaliação, algo como, "Seriam bons os meus poemas?", o poeta respondeu simplesmente que não poderia avaliar, pois que "nada está mais afastado de uma obra de arte do que as palavras de uma crítica: elas sempre terminam em desentendimentos mais ou menos desafortunados". Foi assim que Franz Xavier Kappus, o jovem poeta, não ganhou nenhuma crítica literária exclusiva, mas sim conselhos de uma sabedoria avassaladora, tão intensos e profundos que são capazes, até hoje, de abalar nossas vidas em seus alicerces mais profundos... Assim nasceu Cartas a um jovem poeta.

Disponível em e-book na Amazon e na Saraiva:

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À seguir, trazemos a primeira carta de Rilke, na íntegra (tradução de Rafael Arrais):

Paris
17 de fevereiro de 1903


Caro Senhor,

Sua carta me encontrou apenas alguns dias atrás. Eu quero lhe agradecer pela grande confiança que depositou em mim. Isto é tudo o que eu posso fazer. Eu não posso debater acerca dos seus versos; pois que qualquer tentativa de crítica à poesia alheia seria algo estranho para mim. Nada está mais afastado de uma obra de arte do que as palavras de uma crítica: elas sempre terminam em desentendimentos mais ou menos desafortunados. As coisas não são todas tão tangíveis e exprimíveis em palavras quanto às pessoas usualmente nos fazem crer; muitas experiências estão além das descrições, elas se passam num espaço onde nenhuma palavra jamais adentrou, e não há nada que esteja mais distante das descrições do que as obras de arte, tais existências misteriosas cujas vidas perduram ao lado da nossa própria vida, pequenina e transitória.

Tendo esta nota como prefácio, devo lhe dizer que os seus versos não têm ainda um estilo próprio, ainda que possuam sementes ocultas e silenciosas de algo mais pessoal. Eu senti isso de forma mais clara no último poema, “Minha Alma”. É lá que alguma coisa de sua essência está buscando se tornar palavra e melodia. E no amável poema, “Para Leopardi”, uma espécie de parentesco com esta grande e solitária figura também parece se manifestar. Em todo caso, os poemas ainda não são nada em si mesmos, ainda não alcançaram sua independência, até mesmo estes dois que citei. Sua amável carta, essa que acompanhou seus poemas, permitiu que se tornassem mais claras para mim várias faltas que senti ao ler os seus versos, ainda que não me seja possível nomeá-las em específico.
Ora, você me pergunta se os seus versos têm alguma qualidade. Você me pergunta... Você também perguntou a outros antes de mim. Você enviou seus poemas para revistas. Você os comparou com a poesia de outros autores, e não se perturbou quando certos editores rejeitaram seu trabalho. Agora, já que você pediu o meu conselho, eu lhe imploro que pare de fazer esse tipo de coisa. Você está olhando para fora, e isso é o que mais deveria evitar nesse momento. Ninguém pode lhe aconselhar ou lhe ajudar neste caso – absolutamente ninguém. Há apenas uma coisa que você deveria fazer: adentrar fundo em si mesmo. Descubra a razão que lhe comanda a escrever, veja se ela já espalhou suas raízes pelas profundezas do seu coração, confesse a si mesmo se você preferiria morrer caso lhe fosse proibida a escrita. E, acima de tudo, pergunte a si mesmo na hora mais escura da sua noite: eu devo escrever?
Cave em seu próprio ser por uma resposta profunda, e caso essa resposta ressoe positiva, caso você solucione tal questão solene com um vigoroso e simples “eu devo”, então construa sua vida de acordo com tal necessidade. Toda a sua vida, até mesmo em suas horas mais humildes e indiferentes, deve ser como um signo e um testemunho desse impulso.
Então vá para junto da Natureza. Daí, como se nunca ninguém houvesse tentado isso antes, tente falar sobre o que vê e sente e ama e perde. Não escreva poemas de amor; se afaste desses formatos que são muito dóceis e ordinários: eles são os mais difíceis de se trabalhar, e será preciso um grandioso poder, totalmente florescido, para que consiga criar algo individual onde boas, até mesmo gloriosas tradições já existem em abundância. Assim, salve a si mesmo de tais temas gerais e escreva sobre o que o dia a dia lhe oferece; descreva suas tristezas e desejos, os pensamentos que flutuam por sua mente e a sua crença nalguma espécie de beleza. Descreva tudo isso com o sentimento que passou de fato pelo seu coração, fale de forma silenciosa, humilde e sincera.
E, quando for se expressar, faça pleno uso das coisas a sua volta, das imagens em seus sonhos e dos objetos que estão em sua memória. Acaso o seu dia a dia lhe pareça pobre, não o culpe; culpe a si mesmo. Admita que você ainda não é um poeta hábil o suficiente para perceber suas riquezas; pois que para o criador não há nem pobreza nem lugares pobres, indiferentes. Assim, mesmo que se encontre numa prisão cujas paredes isolem todos os sons do mundo lá fora, você ainda não teria contigo toda a sua infância, essa tal joia além de qualquer preço, essa casa do tesouro de memórias? Foque a sua atenção nela. Tente trazer à tona os sentimentos submersos desse imenso passado; sua personalidade se fortalecerá; sua solidão irá se expandir e se tornar um lugar onde você poderá viver no crepúsculo, onde o barulho das demais pessoas passa bem longe, à distância.
E se deste voltar-se para dentro, desta imersão em seu próprio mundo, surgirem poemas, então você jamais pensará em perguntar a qualquer um se eles são bons ou não. Tampouco tentará fazer com que as revistas se interessem por eles: pois você os verá como uma valiosa posse pessoal, como um pedaço de sua própria vida, como se ela mesma lhe falasse por palavras.

Uma obra de arte é boa se ela surgiu de uma necessidade íntima. Esta é a única forma que alguém poderá julgá-la. Assim sendo, caro Senhor, eu não posso lhe dar qualquer outro conselho além deste: que mergulhe em si mesmo e veja quão profundo é o lugar de onde flui a sua vida; é lá na sua fonte que encontrará a resposta para o que quer que deva criar. Aceite tal resposta, do modo como lhe foi dada, sem tentar interpretá-la. Talvez você descubra que foi chamado a ser um artista. Se for este o caso, então aceite tal destino, suporte o seu fardo e a sua grandiosidade, sem jamais se questionar acerca de qual prêmio deverá aparecer lá fora. Pois que o criador deve ser um mundo para si mesmo, e deve encontrar tudo em si mesmo e na Natureza, para a qual toda a sua vida é devotada.
No entanto, após haver descido em si mesmo, e em sua solidão, talvez você deva renunciar o ofício de poeta (como já disse, se alguém sente que pode viver sem escrever, então não deveria escrever jamais). Em todo caso, ainda assim, esta busca interna que eu lhe recomendei não terá sido realizada em vão. Sua vida poderá encontrar os seus próprios caminhos desta experiência, e que eles possam ser bons, ricos e largos é o que eu lhe desejo, mais do que possa colocar em palavras.
O que mais eu poderia lhe dizer? Me parece que tudo o que havia por ser abordado já o foi. Finalmente, gostaria de adicionar mais um pequeno conselho: para que continue a crescer, de forma silenciosa e fervorosa, ao longo de todo o seu caminho de desenvolvimento. Afinal, você não poderia perturbar tal caminho de forma mais violenta do que buscar lá fora pelas respostas que só podem ser encontradas em seus sentimentos mais íntimos, nas suas horas mais silenciosas.
Foi uma alegria encontrar na sua carta o nome do professor Horacek; eu tenho grande reverência por este homem tão doce e culto, e uma gratidão que resistiu ao passar dos anos. Por favor, diga a ele como me sinto; fico muito feliz em saber que ele ainda se lembra de mim, feliz e lisonjeado.
O poema que deixou aos meus cuidados, eu estou lhe enviando de volta. E eu lhe agradeço mais uma vez por suas questões e sua confiança sincera, da qual, respondendo da forma mais honesta que me foi possível responder, eu tentei fazer de mim alguém um pouco mais digno do que realmente sou.

Atenciosamente,
Rainer Maria Rilke


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22.3.18

A Nona Elegia de Duíno

Por que, se poderia iniciar como coroação, e assim ser gasto,
este espaço do Ser, pouco mais negro do que todo
o verde à volta, com pequeninas ondas nas pontas
de cada folha (como uma brisa sorridente): por que, então,
tem de ser humano – e um destino fugidio
ansiando por outro destino?...

Oh, não porque a felicidade existe,
este lucro tão precipitado de uma perda iminente;
não pela curiosidade, ou por se exercitar o coração
que lá poderia estar, na coroação...

Mas porque estar aqui já é muito, e porque tudo
o que se encontra à nossa volta parece clamar por nós,
essas coisas efêmeras que, estranhamente, nos inquietam.
Nós: o que há de mais efêmero. Uma vez
tocamos cada coisa, só uma vez. Uma única vez, e nunca mais.
E nós também, uma só vez. E nunca mais.
No entanto, esta única vez, este ter sido, ainda que só uma vez,
uma coisa da terra – isto parece irrevogável.

E assim, nós seguimos adiante, querendo conquistá-la,
tentando segurá-la em nossas mãos acanhadas,
no olhar que nos transborda, e no coração que se cala.

Tentamos nela nos tornar. Mas a quem ofertá-la?
Nós a seguraríamos para sempre... Ah, que será, aliás,
que nós carregamos à outra dimensão? Não a contemplação
que aprendemos por aqui, lentamente, e nada
do que já se passou. Nada.

O sofrimento então. Acima de tudo, então, o que é difícil,
a longa experiência do amor, que seja – aquilo que é
completamente indizível. Mas, mais tarde,
espalhado nas estrelas, de que ele nos serve:
ainda é melhor se calar.

Uma vez que o andarilho não traz nenhum punhado de terra
da encosta da montanha para o vale, nada que possa ser dito,
mas somente uma palavra conquistada, uma flor de genciana,
pura, azul e amarela.
Estaríamos nós aqui, quem sabe, para dizer: casa,
ponte, fonte, portão, jarro, árvore, janela –
e acima de tudo: coluna, torre...
Mas para recitar, compreenda, oh, para recitar as coisas
como elas mesmas jamais falariam de si mesmas,
jamais assim, tão profundamente.
Não é esta a intenção secreta da Terra discreta?
Atrair os amantes uns aos outros,
até que cada uma das coisas da natureza
se delicie com o que sentem?

Soleira: o que é isso para dois amantes
que igualmente desgastam as próprias soleiras
de seus antigos portões?
Sim, eles também as desgastam pouco a pouco,
após tantos e tantos dos que aqui já passaram,
e antes dos que ainda virão... simples assim.

Eis aqui a era do que pode ser dito: aqui está a sua casa.
Fale, e seja testemunho. Mais do que nunca
as coisas que podem ser tocadas estão desvanecendo,
e o que as destituí e substituí é um Ato sem Imagem.

Um ato, sob uma casca que se romperá, tão cedo
quanto a sua ação interna a transborde,
e estabeleça um novo limite para si mesma.
Entre as marteladas, sobrevive nosso coração,
assim como a língua entre nossos dentes
que, apesar do que fazem,
continua exaltando a existência.

Cante ao Anjo o louvor do mundo, não o que não pode ser dito:
você não pode impressioná-lo com as glórias do seu sentimento:
no seu universo, onde tudo é mais profundamente sentido,
você é mero aprendiz.
Então, mostre a ele uma coisa simples, talhada em era após era,
que vive sempre perto das mãos e sob a sua vista.

Diga a ele as coisas. Ele ficará mais maravilhado: assim como você,
quando visitou o cordoeiro de Roma, ou o ceramista do Nilo.
Mostre a ele quão alegres podem ser as coisas,
quão suas e sem culpa; mostre como uma lágrima de tristeza
escorre tão pura, e serve como coisa, ou morre como coisa:
tais coisas efêmeras, elas olham para nós em busca da salvação;
logo nós, que somos os mais efêmeros.

Torça para que as transmutemos, completamente,
lá em nossos corações invisíveis, torça para que as vertamos
em nós, oh, em nós, infinitamente! Em o que quer
que nós sejamos, no fim das contas.
Terra, não é isto o que deseja: elevar-se em nós
de forma oculta? – não é este o seu sonho,
ser algum dia invisível? – Oh Terra! Invisível!

Qual seria o seu comando urgente que não a transmutação?
Oh amada Terra, eu lhe atenderei. Oh, creia em mim,
não serão mais necessárias tantas Primaveras
para me convencer: apenas uma,
ah, uma Primavera… já seria mais do que o meu sangue
pode suportar.

Sem lhe dar nomes, eu fui verdadeiramente seu, desde os primórdios de mim.
Você sempre esteve certa, e a sua inspiração mais sagrada
é esta morte, a morte mais íntima.

Veja, ainda vivo. Sobre o quê? Em mim
nem infância nem futuro diminuem...
Uma vida, uma vida caudalosa
transborda em meu coração.


(A Nona Elegia de Duíno, por Rainer Maria Rilke, e tradução de Rafael Arrais).

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15.2.18

O que fica

Nenhum animal no Jardim do Éden poderia desejar o conhecimento, seja do bem ou do mal. “Bem” e “mal” são conceitos que eles ignoram completamente, somente Adão e Eva poderiam desejar buscar algo mais do que já tinham, somente os primeiros humanos poderiam abandonar a paz do puro instinto animal, que sempre simplesmente segue sua própria natureza, para se aventurar no reino da consciência de si mesmo, e do outro. E não deveria nos admirar a sua expulsão do Paraíso, o seu pecado capital, pois que tal caminho nunca foi fácil, e continua não sendo. Há muitos espinhos nas rosas vermelhas entre o Éden e o dia de hoje, e nosso sangue foi deixado lá: todo o rastro da dor humana é ainda bem visível. O que estaríamos buscando, afinal?

Eu confesso que falharei na explicação. De fato, tenho tentado usar das palavras durante toda a minha vida para explicar o que não pode ser explicado, pois que reside além delas. Como cascas de um fruto inefável, elas são a sombra invisível da chama de uma vela, o perfume que se perdeu com o vento que passou, a ave mítica que é vista de relance, e que muitos caçadores místicos afirmam ter encontrado, mas nenhum trouxe sequer uma pena! Eu confesso que tenho falhado todo o tempo, em cada texto, em cada poema, em cada parágrafo, em cada palavra: eu falo sobre o que não pode ser cientificamente comprovado, e jamais poderá. Eu falo sobre o único deus que não admite ateus, muito embora possa ser também profundamente odiado. Eu falo sobre aquilo que dói e não se sente, que arde e não se vê, que sempre andou solitário entre a gente. Enfim, eu confesso que falharei na explicação, mas falharei com dignidade.

Se é verdade que nosso primeiro contato com tal conhecimento foi através do instinto, nada nos leva a crer que seja somente através dele que podemos nos relacionar. Afinal, ainda que as palavras sejam de fato cascas de um sentimento indescritível, elas ainda podem tentar abordar tal sentimento de forma indireta, como quem apanha ar dentro de uma bexiga, e mostra algo invisível. As bexigas são as metáforas, mas o ar em si se refere a algo além delas, além de todas as metáforas do mundo, além de toda a linguagem humana.

Um explorador busca encontrar uma pérola preciosa no fundo do mar. Ele não pode retirá-la do local, então a única forma de mostrá-la a seus irmãos em terra firme é esvaziar o mar inteiro. Suponhamos que ele consiga tal façanha: ainda assim, tudo o que poderá fazer é apontar para uma joia na superfície, sem o brilho perolado que ela tem nas profundezas. Ninguém se comoverá com isso. São somente os mergulhadores eles mesmos que podem ir ao fundo e apreciar a beleza desta pérola a refletir os raios de sol vindos do alto, se refratando pelo mar inteiro, como se as estrelas da noite pudessem mandar sinais umas para as outras.

Quem se encontra em terra firme, entretanto, tem medo de morrer afogado. De fato, há acadêmicos por lá que dizem que o mar é perigoso e que, em todo caso, tal pérola jamais existiu. É apenas a fantasia dos loucos poetas que cantam sobre ela nas noites de lua cheia. O ego está acostumado com a terra firme, e quando se arrisca no mar é tão somente na beirada, longe das ondas mais afastadas. Mas eu estou falando de um naufrágio terrível, de um afogamento, de uma tragédia em alto mar. Eu falo do mar profundo, não do raso. Eu falo de onde o ego sabe que não poderá mais subsistir, e por isso sou perigoso.

Há um mundo onde os tolos, os loucos, os andarilhos, os poetas e os místicos são considerados seres incômodos e desimportantes, sem utilidade alguma para a sociedade. Afinal, o que exatamente eles constroem? Apenas castelos de areia que se perdem com a menor ventania. A sua obra não é sólida como a Ciência nem perene como a Igreja.

No entanto, há um outro mundo onde são eles justamente os reis e os sábios, e este mundo jaz além do alcance do ego, além do alcance dos seres da terra firme. Somente quem foi e mergulhou no abismo o encontrou. E, ainda que possa ter retornado, como Prometeu, o seu fogo divino será para os seres de casa como um fogo qualquer, como um poema qualquer, como uma arte qualquer, inútil.

É preciso uma guerra para que um mundo se comunique com o outro. Por isso já vieram andarilhos proféticos nos falar que chegaram em nossa terra para trazer a espada, e não a paz. Não há nada mais conflituoso do que ter de lidar com isto que fica, isto que é eterno, no mundo das coisas fugidias e mutáveis. É preciso mesmo uma espada para cortar todas as ervas daninhas da árvore do ser. É preciso muito sangue e muita dor neste processo. Mas é somente através da ferida que a luz lhe adentra.

É somente por muito bater em seu portão por dentro, que ele se abre. É somente por muito gritar de solidão em seu próprio casulo, que ele se rompe, e lhe transforma num ser alado. É somente queimando completamente no fogo deste conhecimento que você poderá se renovar inteiramente.

E assim, recém-nascido na Criação, você finalmente perceberá que o Éden sempre esteve por toda a parte, que a luz sempre foi eterna, e que todas as suas experiências em seu baile com ela, todas as reflexões e encadeamentos, todos os toques na pele alheia, foram como acariciar o próprio universo. É só isto o que conta, é só isto a essência da realidade, é só isto o que fica.

Mas se você quer um nome, falhará em compreender, assim como eu aqui falho em me fazer compreendido.

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Crédito da imagem: Bruno Walpoth

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17.11.17

Rumi e o misticismo islâmico

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje prosseguimos com a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

Neste segundo roteiro, me vali da minha experiência com o estudo e a tradução dos poemas de Rumi para traçar uma espécie de apresentação poética da sua vida e obra. Não é de forma alguma um mergulho profundo na sua poesia oceânica, mas antes um breve passeio de barco por um riacho que, para aqueles que se sentirem tocados no coração, pode de fato levar até o mar da Alma:

» Veja também nosso livro com traduções dos seus poemas: Rumi – A dança da alma

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30.10.17

Um papo com Laudo Ferreira, autor de Yeshuah

Veio como uma criança indefesa, outros dizem que é lenda.

Há dois mil anos falamos dele. Ele mudou o mundo e cada um de nós, mesmo que não tenhamos consciência disso.

É a figura histórica a respeito de quem mais se escreveu, mais se inquiriu. As divergências na compreensão de seus ensinamentos já existiam entre os próprios apóstolos, antes mesmo de sua partida. Embora suas palavras, registradas por seus seguidores conforme se lembravam delas no mínimo trinta anos depois de sua morte, sejam simples, transmitindo conceitos básicos repetidos de diversas formas, o entendimento não é fácil, pois supõe uma mudança interior.

[...] Onde encontrá-lo?

Cada um que procura o seu Jesus o encontra dentro de si mesmo.

E nessa multiplicidade de seres ele se esparrama como chuva de estrelas, cada uma com seu brilho próprio, feitas, no entanto, todas da mesma essência de luz. Qual é mais verdadeira que as outras? Na obra aberta, como é a obra de Jesus, a maravilha é que todas são verdadeiras.


O texto acima é parte do prefácio de Júlia Bárány Yaari para a HQ Yeshuah (Salvação), de Laudo Ferreira (com arte-final de Omar Vinõle; Ed. Devir), e que considero uma das 5 melhores da história.

Não é que eu não entenda de quadrinhos, já li Promethea de Alan Moore, Nausicaä de Hayao Miyazaki, Dreadstar de Jim Starlin, e até mesmo Calvin e Haroldo de Bill Watterson. Portanto, não é a toa que a coloco entre tais obras.

Se ainda não a conhece, recomendo ouça o belo depoimento que seu autor, Laudo Ferreira, deu para o podcast Papo na Encruza, de um pessoal muito gente boa e entendido dos paranauês [1] (vão reparar que eu sou um dos caras que mais enviou perguntas durante o programa):

Gostou do que ouviu? Você pode encontrar Yeshuah Absoluto na Amazon, e comprando por este link ainda estará ajudando o blog.

***

[1] Um dos apresentadores, Roe Mesquita, é o incrível ilustrador do nosso Tarot da Reflexão. Também recomendamos o episódio onde Leo Lousada, do canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, fala sobre a Kabbalah.

Crédito das imagens: Laudo Ferreira (Yeshuah)

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16.10.17

Reencontro

Onde fica o ponto de encontro
comigo mesmo?

“Nas montanhas!”, diz o ser das planícies;
“Na floresta!”, diz o ser dos desertos;
“No fundo do mar!”, diz o ser celestial...

Mas em que tempo é isso?
Como pode haver tanta guerra,
tanto ódio e escuridão?

“É aqui e agora”, diz o sábio;
e então, ele continua:
“Sabemos da luz porque há sombra no mundo;
buscamos amor porque já odiamos demais,
e estamos cansados desta guerra
na qual jamais nos alistamos.

No fim do caminho,
no fim de todos os tempos, do tempo em si,
o amor já venceu,
o ser já respira a plenitude
do sentido de todas as coisas.
Ele observa este grande escoamento
e percebe a sua direção:
aqui e agora, na eternidade
desta breve iluminação,
tudo que há
é amor e canção.”

(ouçamos...
a música se inicia com os versos
mais belos e antigos da Criação...)

Embriagado em tais cascas de conhecimento
do ser em si,
eu retiro todas as barreiras que me impediam
de estar aqui, neste momento:

Quando minha alma se deita nesta grama
nem eu já me interesso mais de mim;
dissolvido, me deixo levar pelo vento...

(os trovadores continuam dedilhando
suas violas mágicas...
tudo ressoa o eco da canção...)

Ó, Jalal ud-Din, eu vejo as faces
tristes e risonhas de todos os seres,
de todos os bêbados cambaleantes,
de todos os poetas e cancioneiros,
de todos os anjos e forasteiros;
e é nelas que me reencontro,
nelas que sinto:
eu sou você.


raph'17

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Crédito da imagem: Lucas SankeyUnsplash

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27.7.17

O campo além das ideias

Caminhando junto ao poente numa das regiões mais inóspitas do planeta, as margens do grande Kalahari, deserto ao sul da África, Pedro se impressiona com os hábitos de seus companheiros (além do guia turístico, é claro): os bushmen, ou povo san, caçadores-coletores que vivem em torno dos poucos poços d’água subterrânea na região há dezenas, quiçá centenas de milhares de anos.

“É interessante como a gente anda neste lugar e é incapaz de observar o que eles observam. Eles veem cada planta, fruta, cada detalhe da paisagem com outro olhar, pois isso tudo faz parte da sua sobrevivência” – conclui Pedro, ou Pedro Andrade, jornalista apresentador do programa Pedro Pelo Mundo, do canal de TV a cabo GNT. Neste episódio ele decidiu retornar a Botswana, antigo protetorado britânico que, após adquirir sua independência em 1966, multiplicou seu PIB per capta em dezenas de vezes e se encaminha para a prosperidade sem ter passado por guerra civil ou períodos ditatoriais, algo extremamente incomum para um país africano.

Mas a grande característica de Botswana é precisamente estar tão isolado do resto do mundo que, por algum milagre, o povo san pôde viver relativamente intocado até os dias atuais, preservando uma cultura e estilo de vida arcaicos, o que também pôde ser comprovado pela ciência. Segundo estudos modernos, os san possuem um dos mais elevados graus de diversidade do DNA mitocondrial dentre todas as populações humanas, o que indica que eles são uma das mais antigas comunidades do globo. O seu cromossomo Y também sugere que, do ponto de vista evolucionário, os san se encontram muito perto da “raiz” da espécie humana (homo sapiens).

No fim da noite, Pedro participa como observador dos rituais e cânticos dos san. Em torno de uma pequena fogueira, as mulheres cantam e batem palmas sentadas, e os homens dançam enfileirados em círculo. Mas não é só isso: após entrarem em transe, alguns dos xamãs [1] san incorporam seus próprios antepassados e entidades da natureza. Até mesmo o guia turístico, um branco ocidental que se apaixonou pela região e pelos san, pratica a incorporação para virar ele mesmo um xamã entre o povo ancestral. Afinal, os san são antigos o suficiente para saber que, sejamos brancos ou negros, todos somos um mesmo povo, todos saímos dali, ou de bem perto dali, há centenas de milhares de anos, para povoar o resto do planeta.

Alguma coisa antiga e profunda tocou Pedro nesta viagem, e principalmente neste breve contato com os san. É isto pelo menos que ele próprio confessa ao fim do episódio, muito embora “não saiba explicar ao certo o que é exatamente”. Decerto, o mesmo deve ocorrer com muitos ditos civilizados que têm a oportunidade de realizar este tipo de contato. Seria inútil perguntar ao próprio guia turístico e aprendiz de xamã o que é que o fez trocar a vida ocidental pela vida como guia turístico no Kalahari. Há alguma coisa de transcendente nos san, alguma alma ancestral que, de muitas formas, é também a nossa alma.

E decerto de nada adiantaria escrever um tratado sobre o assunto. Ainda que os san aprendessem inglês ou português, jamais seriam capazes de colocar em palavras as experiências místicas que, de tão constantes, quase diárias, são praticamente o seu dia a dia. Os san vivem até hoje noutro mundo, o mesmo mundo que toda a nossa espécie viveu um dia, mas que vem sendo gradativamente esquecido. Neste mundo, não faz sentido se falar em mundo material e espiritual, em vivos e mortos, em coisas sagradas: no dia a dia dos san, o material e o espiritual são basicamente uma coisa só, os vivos e os mortos jamais deixaram de se comunicar, e não há nada, absolutamente nada, que não seja sagrado.

E, como as palavras por si só são inúteis, precisamos recorrer à poesia. Como bem resumiu o poeta persa Jalal ud-Din Rumi: “Além das ideias de certo e errado há um campo, eu lhe encontrarei lá. Quando a alma se deixa naquela grama, o mundo está preenchido demais para que falemos dele. Ideias, linguagem, e mesmo a frase cada um já não fazem mais nenhum sentido”.

Para boa parte do planeta, os san são um povo selvagem que permaneceu atrasado e perdido nalgum deserto africano. Para os san, ou para os seus espíritos ancestrais, o restante do planeta é nada mais do que a família que resolveu ir caminhar para as regiões mais afastadas, até que se esqueceu de retornar. E, segundo a ciência moderna, são os san quem estão com a razão [2]. Dá o que pensar.

É costume do Ocidente avaliar a “evolução” de um povo ou civilização pela sua capacidade filosófica e científica, em suma, pela sua racionalidade. No campo espiritual, porém, as coisas são um tanto mais complexas de se julgar. O povo san, por exemplo, não pratica canibalismo, não faz sacrifícios de sangue aos deuses, não devasta o seu meio ambiente de forma predatória. Um teólogo de certo renome poderá dizer: “Ok, tudo bem, mas eles são incapazes de reconhecer um Deus único”... Mas, será que isso é algum parâmetro razoável para determinar sua “evolução espiritual”?

Há muitos reinados milenares do continente africano que veneravam os chamados orixás, que são basicamente os correspondentes dos deuses das mitologias gregas ou egípcias, e possivelmente até mais antigos. No entanto, entre diversos mitos de Criação africanos, temos um “Ser Supremo quem criou os orixás e os homens”, e seu nome é Olorum. Ao contrário dos demais orixás, Olorum não possui nem culto direto nem templo individual, além é claro de não receber oferendas, sejam de animais ou frutas ou o que for, já que Olorum “já é tudo”. Ora, muito embora seja complexo associar Olorum diretamente com Javé ou Allah, fica muito claro que, no fundo, a religião dos orixás também é, e sempre foi, monoteísta. Portanto, os africanos antigos já conheciam um Deus Criador único, e isso não foi invenção exclusiva dos povos do Oriente Médio.

Claro que nem todos os povos africanos ao longo dos últimos milênios chegaram à mesma profundidade de compreensão espiritual. Mas nós ocidentais não podemos nos gabar de estarmos muito na frente deles. Até pouco tempo atrás, nossas doutrinas mais elaboradas ainda aceitavam, na prática, que escravos não tinham alma, e que precisavam ser batizados para conseguirem sua entrada no Céu. Foi assim que muitos ditos cristãos arrancaram milhões de africanos a força de suas casas e, através de grilhões e açoites, os trouxeram para trabalhar na América. Trabalho não assalariado, evidentemente.

Nem mesmo seus nomes eles puderam trazer na bagagem. Chegando ao Novo Mundo, eram batizados com nomes como Joaquim de Jesus ou Maria de Fátima. Mas, ainda que os nomes tenham se perdido, seus espíritos ancestrais jamais lhe abandonaram. Foi assim que, no Brasil, o maior país negro do mundo, surgiu o samba, o Candomblé, a Umbanda etc. Os sobrinhos dos san perderam suas casas e seus nomes, mas os orixás persistiram, afinal aqui eles também estavam dentro de Olorum. Não há nada “lá fora”.

E, apesar dos grilhões, dos açoites e do preconceito que surge da ignorância persistente dos ditos civilizados, lá naquele campo onde vivem os poetas e os místicos, lá, além das ideias de certo e errado, lá, onde habitam os deuses e dançam os xamãs, eles nos perdoaram, eles nos aceitaram de volta, de braços abertos, de alma aberta.

E, aqueles que, como Pedro, estiveram por lá, ainda que por pouco tempo, ainda que por uma noitinha só, compreenderam: a África é todo o mundo!

***

[1] O termo “xamã” se originou do estudo dos povos indígenas da Sibéria, mas na realidade se aplica para povos ancestrais em todo o mundo. No Brasil, por exemplo, um xamã pode ser conhecido como pajé.

[2] Há diversas teorias para as origens da humanidade, mas o mais aceito atualmente é que nossa espécie surgiu na África e depois migrou para o resto do globo. Em todo caso, ainda que tenha surgido no mesmo período na Europa, teria a pele tão negra quanto à dos africanos, visto que a mutação que possibilitou a pele branca é relativamente recente, de cerca de 8.000 anos atrás (portanto mais nova que o próprio povo san).

Crédito da imagem: Google Image Search/Latinstock (povo san)

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