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2.8.14

Racismo é a mais pura ignorância

Em 12/05/2009 publiquei aqui no blog um post despretensioso, que basicamente explica como a ciência já comprovou que o que antes chamávamos de "raça humana" é basicamente somente uma diferenciação mínima entre algumas características físicas dos homo sapiens que vagaram por todo o globo, provavelmente vindos da África. A conclusão do post era a de que racismo é ignorância, principalmente no sentido do conhecimento científico.

Este post, entretanto, se tornou com o tempo um dos mais acessados do blog, certamente devido aos resultados de pesquisas no Google. Em homenagem a este fato, achei por bem trazer este complemento que nos demonstra, num vídeo de cerca de 5 minutos, como o racismo é, além de ignorância científica, também uma ignorância sociocultural. Em suma, a mais pura ignorância:

A apresentadora

Mo Asumang é filha de pai ganês de pele escura, e mãe alemã de pele clara. Como uma reconhecida apresentadora da TV germânica, ela se tornou o alvo de neonazistas e outros partidários de extrema direita anti-imigrantes, que basearam seus ataques no fato de Asumang não ter uma "descendência puramente ariana".

Hoje ela está filmando um documentário onde vai a redutos neonazis na Alemanha e do Ku Klux Klan na América para perguntar o que eles têm contra os negros e quais os seus planos. Os 5 minutos acima são uma breve apresentação do que tem ocorrido nestas tentativas de diálogo; uma produção da BBC News.

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Crédito da foto: Divulgação/BBC (Mo Asamung ao lado de um membro da Ku Klux Klan)

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10.7.14

669 razões

Sir Nicholas Winton

Há muitas histórias de homens e mulheres que se tornaram celebridades por seus feitos heroicos, mas casos como o de Sir Nicholas Winton não são tão fáceis de se encontrar. Hoje Winton tem mais de um século de idade, mas o que ele realizou pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial, segundo ele próprio, "não foi nada de heroico". Winton apenas tentou salvar o máximo de crianças judias que fosse possível da então Tchecoslováquia, evitando sua morte certa nos campos de concentração nazistas, porque "existia alguma chance de ser possível".

Winton acabou conseguindo trazer 669 crianças para a Inglaterra, com a ajuda do governo inglês e sueco (muitos outros governos europeus da época se recusaram a receber as crianças, e alguns até fecharam as fronteiras, impedindo que elas atravessassem seus territórios), mas depois não achou relevante contar para ninguém sobre o seu feito - nem mesmo para sua mulher. Ao arrumar o sótão de casa, ela descobriu por acaso, num velho álbum coberto de poeira, fotos de crianças, cartas e telegramas, e uma lista com nomes e datas de viagens de trens. Foi ela quem revelou ao mundo o feito do marido.

As 669 crianças tchecas salvas jamais viram novamente seus pais - todos, sem exceção, foram mortos pelos nazistas. Mas muitas delas seguiram suas vidas, adotadas por famílias ou vivendo em abrigos e orfanatos ingleses. Tais crianças se tornaram escritoras, jornalistas, engenheiros, biólogos, construtores, guias turísticos e até mesmo cineastas... Muitas, sabendo da história de como foram salvas, também se tornaram adultos generosos, adotando outras crianças e se dedicando ativamente a caridade.

Winton só lamenta que o último trem, que traria mais 250 crianças para a Inglaterra, não tenha conseguido sair da Tchecoslováquia - a guerra havia iniciado, e as fronteiras já se encontravam fechadas. Nenhuma das crianças que não conseguiram embarcar sobreviveu, morreram nos campos de extermínio junto com suas famílias.

Difícil imaginar o que se passa no coração e na alma de um homem como Winton. Difícil imaginar a alegria de haver salvo 669, e a tristeza de haver perdido as 250 do último trem. Há muita gente que acha a vida tediosa e monótona, e outros um grande sofrimento, há muita gente que não consegue encontrar uma razão para continuar tocando a vida, para viver com esperança e alegria duradouras - Sir Nicholas Winton encontrou 669 razões.

Um dia um programa de TV inglês encheu um auditório com boa parte das crianças que Winton havia salvo, naquela época já bem adultas - sem que ele soubesse. O que se seguiu, quando foram apresentadas, demonstra o quão maravilhosa pode ser a resposta da Vida a quem, um dia, fez o possível para a preservar (ver a partir de 6:25, no vídeo abaixo):

"Quem, na plateia, teve a vida salva por Nicholas Winton, fique de pé, por favor."

Trecho do programa Fantástico, da Rede Globo, exibido em 23/12/2007.

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Crédito das fotos: Arquivo de Nicholas Winton (fotos da época em que recebeu as crianças na Inglaterra, e de dias mais atuais)

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12.4.10

Reflexões sobre o mal, parte 2

continuando da parte 1...

Escuridão (substantivo): 1. Ausência de luz; 2. Breu.

Os mestres da escuridão

Era abril de 65 d.C., em uma villa aos arredores de Roma. Um centurião romano havia chegado à casa de um dos grandes filósofos do estoicismo com instruções do imperador: Sêneca deveria dar cabo de sua vida imediatamente. Aos 28 e portador de distúrbios mentais, Nero havia sido informado de que havia uma conspiração para afastá-lo do trono. Fora de si, procurava vingar-se indiscriminadamente. Embora não houvesse provas do envolvimento de Sêneca no conluio e apesar do fato de ele ter sido preceptor de Nero por cinco anos e ter atuado como seu leal ministro durante uma década, Nero o havia sentenciado à morte por medidas acautelatórias. Àquela altura ele já havia promovido o assassinato de seu meio-irmão, de sua mãe e de sua esposa; havia também se livrado de um grande número de senadores e cavaleiros, atirando-os aos crocodilos e leões, e incendiado Roma – Exaltado, comemorou ao vê-la consumida pelas chamas [1].

Ao tomarem conhecimento da ordem de Nero, seus amigos empalideceram e começaram a chorar. Mas Sêneca permaneceu impassível:

“Onde está sua filosofia, perguntou ele, e o que foi feito da decisão de jamais se deixarem abater diante da iminência de qualquer desgraça que, durante tantos anos, todos vêm incentivando uns aos outros a manter? Certamente ninguém ignorava que Nero era cruel – acrescentou – Depois de matar a mãe e o irmão, só lhe restava matar seu conselheiro e preceptor.”

Impassível até o fim, aquele que sempre esteve pronto para a sorte e o revés da Fortuna, despediu-se deste mundo com a tranqüilidade daqueles sábios que estavam em paz com a própria consciência: “Devo minha vida a filosofia” – afirmava, e realmente seguiu-a até o fim.

Eis que há muitos que consideram Nero um dos “mestres da escuridão”, um dos seres mais malévolos que já habitaram o planeta. Mas em que exatamente Nero era mestre? Perseguiu, torturou e matou qualquer um que fosse contra sua opinião, e mesmo aqueles que nunca foram, mas que em sua paranóia achou que fossem... Colocou fogo na própria cidade e tocou alegremente sua lira enquanto ela ardia em chamas... Condenou a morte uma das pessoas mais sábias de sua época, que inclusive foi seu mentor em filosofia durante anos...

Que tipo de “mestre” é esse? Um ser que não aceita frustrações? Que sente-se perseguido aonde quer que vá? Que apesar do imenso poder, apesar de todo seu império, nunca chegou nem perto de conquistar a si mesmo? Ora, isso mais me parece com um bebê mimado, que não aceitava um “não” da realidade (a deusa Fortuna a que Sêneca gostava de se referir)... Mas então, muitos podem afirmar que se tratava apenas de um doente mental.

Passemos adiante então: Século XX... Adolf Hitler, o grande “anticristo” responsável direto pela morte de milhões nas grandes guerras mundiais. Documentos apresentados durante o Julgamento de Nuremberg indicam que, no período em que Adolf Hitler esteve no poder, grupos minoritários considerados indesejados - tais como Testemunhas de Jeová, eslavos, poloneses, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais, e judeus - foram perseguidos no que se convencionou chamar de Holocausto. O grande líder carismático do Nazismo, que conseguiu convencer quase toda a Alemanha a acompanhá-lo em uma “marcha de purificação”, na tentativa de fazer uma “seleção natural forçada” que deixasse na face do planeta apenas sua adorada raça ariana.

Onde foi parar aquele jovem que desejava tornar-se um pintor em Viena? De onde vieram tais delírios de grandeza? Tamanha ignorância perante a natureza? Será mesmo que – apesar de todo seu conhecimento oculto – achou mesmo que poderia “bancar o Deus”, o “administrador supremo” das etnias da Terra? Aonde queria chegar ó grande “mestre da escuridão”?

Há quem acredite até os dias atuais que ele foi um grande líder do mal, um digno representante do mítico Satanás em nosso plano físico. Quanta inteligência, quanta força, quanto conhecimento usado para o mal!

Será mesmo? Será que aquele homem de origem humilde (fazia questão de esconder de onde veio), que inicialmente inclinou-se para as artes (de onde nunca deveria ter saído), era mesmo este homem impassível, este “senhor das trevas”?

Os fatos históricos falam por si mesmos: Adolf Hitler cometeu suicídio no seu quartel-general (o Führerbunker), em Berlim, a 30 de abril de 1945, enquanto o exército soviético combatia já as duas tropas que defendiam o Führerbunker (a francesa Charlemagne e a norueguesa Nordland). Segundo testemunhas, Adolf Hitler já teria admitido que havia perdido a guerra desde o dia 22 de abril, e desde já passavam por sua cabeça os pensamentos suicidas.

Um tiro na cabeça. Ó grande “mestre do mal”, é este o seu legado, é esta a sua força e sua determinação? Quando as coisas desandam e a realidade intervém, quando o poder esvai das mãos como óleo, é essa a sua demonstração de coragem? Meu caro artista frustrado, antes tivesse aproveitado sua vida para estudar as cores e o claro-escuro, a música e a filosofia, até mesmo na literatura oculta teria tido um melhor proveito... Ó grande conquistador, tudo o que conquistou foram sangue e ossos, que todos que o amaram seguiram uma ilusão – uma “nuvem de vontade” que se desfez na primeira brisa da Fortuna. Teria sido melhor conquistar a si próprio, e ter conquistado algo de real nessa existência!

Eis que todos esses “mestres da escuridão” apenas nos demonstraram o quão ignorantes, fracos e mimados, foram em suas patéticas existências. Afinal quem é mais forte, àquele que açoita por se achar no direito de julgar quem é bom e quem é mal, ou aquele que, mesmo em sendo açoitado, mesmo diante da morte, permanece impassível em sua confiança em si mesmo e na grandeza de seus ideais? – sejam eles vindos de sua religião ou filosofia ou ciência, ou de qualquer combinação entre elas...

O grande Sêneca tinha um conselho para aqueles que, em tendo seus desejos diminuídos ou extinguidos pela realidade, se tornavam raivosos e descontrolados – parecendo antes com animais do que com “senhores das trevas”:

“Não existe caminho mais rápido para a insanidade. Muitas pessoas irritadas atraem a morte para seus filhos, a pobreza para si e a ruína para seus lares, negando que estão encolerizadas, da mesma forma que os loucos negam a própria insanidade. Inimigos de seus amigos mais chegados... indiferentes às leis... agem pela força... O maior de todos os males apodera-se deles, o mal que supera todos os vícios.”

Raiva e irracionalidade, delírios de grandeza, ignorância plena das leis naturais que ditam em qualquer pedra e qualquer galho partido, e em cada uma das estrelas do céu: estamos todos conectados.

Oh! O mal, o “grande mal” – é só a ilusão dos fracos, o beco sem saída dos desesperados... Desistam dessas promessas feitas pelo mais medíocre dos mitos, venham para o outro lado, venham para onde há música! Há que se conquistar a si mesmo, esta sim é a verdadeira força [2], a verdadeira virtude:

Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? (Cristianismo)

Melhor é o que demora a irar-se do que o poderoso; e o que controla o seu ânimo do que aquele que toma uma cidade. (Judaísmo)

O maior guerreiro não é aquele que vence em batalhas milhares de homens, mas aquele que vence a si mesmo. (Budismo)

A mais excelente jihad é a da conquista do ego. (Islamismo)

Aquele que vence os outros é forte; aquele que vence a si mesmo é poderoso. (Taoísmo) [3]


A seguir, será que nossa consciência conhece nosso mal?...

***

[1] O primeiro parágrafo foi retirado do texto de Alain de Botton em "As consolações da filosofia" (editora Rocco). Também utilizei ao longo do artigo algumas citações de Sêneca e Tácito (interpretado por David) conforme constam no mesmo livro. A tradução é de Eneida Santos.

[2] Uns acreditam que toda força está somente na ação, mas outros compreendem quanta força pode haver na inação. Gandhi nos ensinou a reconquistar um império utilizando outra espécie de força, infelizmente ainda desconhecida da maioria de nós.

[3] Citações de trechos das respectivas doutrinas religiosas de acordo com o livro “Unidade”, de Jeffrey Moses (editora Sextante). Obviamente que o conceito de cada palavra deve ser analisado dentro do contexto, o “poderoso” do Judaísmo não é o mesmo do Taoísmo.

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Crédito da imagem: Wilhelm von Gloeden/Alinari Archives/CORBIS (homem vestido como o imperador Nero)

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