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26.2.18

O problema do niilismo: a reação romântica

Como vimos no texto anterior, o racionalismo apostava que o avanço da razão instrumental e o aprimoramento da técnica tornariam a vida humana mais satisfatória. Os primeiros racionalistas acreditavam – e muitos atuais ainda compartilham a crença – que os problemas da humanidade eram apenas uma questão técnica. O progresso tecnológico e o avanço do conhecimento científico seriam cada vez mais capazes de resolver os problemas humanos, conduzindo-nos a uma vida plena e feliz.

O que vemos na realidade é justamente o contrário. O mundo da razão, embora tenha nos trazido maiores facilidades, conforto e segurança, não foi capaz de solucionar os problemas existenciais da humanidade.  Ao invés disso, o problema do niilismo se tornou mais evidente. Índices de depressão, ansiedade e outras questões de saúde mental são cada vez mais alarmantes na modernidade.

Se, por um lado, o racionalismo avançou na instrumentalidade e no domínio da natureza, por outro apartou o ser humano das condições que dotavam sua vida de sentido. O espírito racionalista desfez-se das antigas tradições, e com elas, o senso de comunidade e o pertencimento do homem a uma história cultural, racial e familiar.

A mudança da vida rural para a urbana também implicou numa profunda transformação na vida social e subjetiva. Primeiramente, pelo contato com as grandes aglomerações. Diferente da vida rural em que o homem vivia em pequenas comunidades cujos membros pensavam mais ou menos de maneira igual, nas grandes cidades o homem passou a estar em contato com uma maior diversidade quanto aos modos de existir. No entanto, nosso funcionamento é mais tribal do que gostaríamos de admitir. Temos o desejo de formar pequenas comunidades de pessoas afins, que pensam como nós e com quem temos alguma identificação. Nossos amigos. O que faz com que nos grandes aglomerados urbanos, grande parte das pessoas seja na realidade indiferente para nós, e que nós sejamos indiferentes para elas.

O fenômeno da solidão urbana tornou-se cada vez mais sensível. Diante de muitas pessoas, o homem passou a se sentir cada vez mais sozinho, já que a presença de muitas pessoas, antes de representar reais companhias, recorda que a maioria delas pouco tem a ver com ele. O homem se sente sozinho numa multidão. Consequentemente, cresce a sensação de indiferença entre as pessoas. Se no mundo rural todos são conhecidos e próximos, na vida urbana cada um deve seguir sua vida sem muita proximidade, pois a aproximação repentina logo é desconfiável quanto às intenções.

A mudança do modo de vida rural para o urbano também alterou a relação do homem com a natureza. Se antes o homem possuía uma conexão com a terra em que nasceu, terra em que trabalhava, com os animais daquela região, a natureza se tornou cada vez mais estranha ao espírito urbano. O homem perdeu o senso de pertencimento a terra, que antes representava o lar histórico para si e seus familiares, e que agora lhe pertence apenas enquanto paga o aluguel. Isto quando não precisa mudar de território em busca de oportunidades de estudo e trabalho. Já aos animais resta viverem confinados a pequenos espaços ou condenados a serem pragas urbanas a ser exterminadas.

Essas transformações criaram no homem a sensação de alienação em relação à natureza, esta que fora tão importante nas sociedades tradicionais. A natureza – em sua magnanimidade – relembra o homem de uma transcendência maior do que si mesmo. Tal é o sentimento de reverência e profundidade que temos ao admirar uma grande montanha, uma bela paisagem litorânea ou uma floresta cheia de vida. Todo o contato do homem com a natureza dá-se hoje, de modo controlado, reduzindo os riscos que a natureza pode representar, lembrando-nos muito pouco de sua magnanimidade.

Assim como a instrumentalidade dominou a relação do homem com a natureza, ela também tem se apoderado das relações entre pessoas. É cada vez maior a queixa de que as relações modernas são excessivamente utilitárias, marcadas por investimentos pessoais pragmáticos e que pouco atendem as necessidades emocionais mais profundas do ser humano.

O homem moderno, alienado do contato humano e da natureza, encontrou no mundo da razão – o mesmo que prometia através do avanço da técnica o fim de tudo que representava dor e sofrimento: doenças, conflitos, mortes desnecessárias – uma angústia tal qual nunca antes havia experimentado.

No mundo tradicional, o homem lidava com a angústia através de uma crença metafísica reconfortante. Os mitos, lendas e narrativas religiosas estabeleciam uma ordem no mundo, um sentido para os acontecimentos, e assim o homem se sentia amparado pelos seus símbolos. O racionalismo científico demonstrou que os mitos não eram reais, e a fé parecia primitiva em relação à potência da razão. O Universo se tornou explicável cientificamente, mas ausente de qualquer sentido ou ordem. O mundo e a vida existem por alguma aleatoriedade, e nada possui um sentido maior do que aquele que nos iludimos em imaginar. No entanto, confrontar-se com este niilismo pode ser muito angustiante.

Se os conservadores condenam o niilismo, fonte do sentimento de angústia e desamparo, buscando retornar a um modelo de vida tradicional, os racionalistas acreditam no uso da razão instrumental para suplantar os problemas da existência. Para um racionalista, em algum momento a ciência alcançará o progresso tecnológico que solucionará as dores humanas. Testemunhamos isso quando as neurociências prometem a cura para os problemas existenciais através da manipulação das transmissões bioquímicas do cérebro. Como se, ironicamente, dissessem: se a vida não pode ser vivida com sentido, ela pode ser dopada com medicamentos psiquiátricos que vão nos anestesiar e provocar uma sensação de felicidade produzida.

Para muitos racionalistas parece uma solução perfeita. No entanto, para a maioria das pessoas isso soa como uma distopia digna de ser retratada num episódio da série Black Mirror. Um mundo desprovido de experiências autênticas, cuja única saída é anestesiarmos nossas angústias.

A ciência foi impotente para resolver os problemas existenciais. E por conta da sua indiferença às questões de valor, ela pouco pode nos auxiliar com questões éticas. Sabemos, por exemplo, que existiu uma intensa atividade científica no regime nazista, e a própria ciência já foi utilizada para justificar as maiores atrocidades. A técnica e a razão instrumental são armas cegas nas mãos de grupos que detém o poder e podem agir a despeito de qualquer compromisso ético.

É como uma reação a esse mundo triste fundado pelo racionalismo que surgiu o movimento artístico-filosófico do romantismo.

Os problemas existenciais, diriam os românticos, são patológicos – isto é, da lógica do pathos, das paixões. Lidar com o ser humano, e todas suas questões existenciais, é lidar com as paixões humanas. Campo no qual a ciência e a razão instrumental são inférteis.

O romantismo questionou a centralidade da razão. O homem moderno criou a ideia de si mesmo como um ser extremamente racional, mas tal racionalidade raramente é encontrada na maioria dos seus comportamentos. Filósofos como Schopenhauer e Nietzsche entendiam que o ser humano é governado por forças, vontades e instintos mais profundos. O homem é movido pela paixão, não pela razão. Os racionalistas, ao promoverem um mundo instrumental, destituíram o lugar das paixões, que foram reprimidas em nome de ideais supostamente racionais.

Segundo os românticos, os racionalistas estavam iludidos por suas crenças supostamente racionais. A razão, embora importante ao homem, não é o principal norteador do comportamento humano, mas está subordinada às paixões. Um racionalista é assim alguém que se crê racional, mas em seu íntimo está motivado por um afeto que o cega de sua própria irracionalidade.

O espírito romântico representou a rebeldia e o inconformismo com a incapacidade do racionalismo em oferecer o progresso que havia prometido. Foi também uma tentativa de entender e aceitar a natureza humana como ela realmente era, sem as idealizações da razão e da fé.

Se os racionalistas estavam, pela ciência, excessivamente interessados na realidade externa, os românticos voltaram para si mesmos. O palco da investigação romântica era o próprio espírito humano, capaz das maiores realizações da sociedade, mas também dos atos mais mesquinhos. Através da arte, demonstrava-se a criatividade, o grotesco e o sublime. A literatura representava o drama humano, seus ideais utópicos e seus desejos paradoxais. O sonho e a fantasia foram valorizados como forças criativas. Os autores românticos foram assim os grandes fomentadores da vida subjetiva, de uma existência de grande profundidade interior.

Num mundo indiferente e solitário, utilitarista e burocrático, os românticos se dedicaram a buscar uma vida autêntica como forma de superação das angústias modernas. Mas o que seria a autenticidade? Para os românticos, somos autênticos quando agimos a partir de nossas verdadeiras paixões, para além das convenções sociais ou ideais racionalistas.

A paixão é um afeto irracional. Ela não pode ser explicada, e pouco se submete a moral ou às tradições. Os desejos humanos podem ser contraditórios e contrários – mas isso não significa que sempre sejam – às demandas que o mundo coloca sobre nós. Encontrar uma vida autêntica pode muitas vezes significar entrar em conflito com a sociedade, pensamentos moralistas e desejos de outras pessoas. Ousar enfrentá-los é visto pelo romantismo como o preço para o homem encontrar a sua felicidade.

Importante situar que paixão assume um significado para além de um relacionamento amoroso-romântico entre duas pessoas. A paixão é todo tipo de afeto que liga o homem a alguma coisa, fazendo-o lutar por ela. Sua paixão pode ser um trabalho, uma ideologia, uma filosofia, uma ética de vida, e por aí vai.

Sabemos da força que o homem adquire quando está apaixonado. Se apaixonado por um homem ou uma mulher, ele desafia as impossibilidades e impedimentos para conquistar seu amor. Se ama sua pátria, ele se atira contra o exercício inimigo, sacrificando sua própria vida em nome da bandeira que carrega. Quando ama uma tarefa, realiza-a por paixão, mesmo quando suas forças lhe esgotam.

Os românticos encontraram na paixão a possibilidade de dotar a vida de sentido e valor, sem necessariamente apelar para explicações metafísicas, como faziam as tradições religiosas. O romantismo encontrou no amor – a possibilidade de encontrarmos uma paixão que nos faça desejar a vida mesmo com suas dificuldades e fracassos – a superação do niilismo.

Nietzsche falava do amor fati, amar a vida que possuímos mesmo com suas imperfeições. Camus dissertou sobre um Sísifo feliz que, mesmo diante do absurdo de uma existência sem sentido, estava satisfeito pela possibilidade de estar vivo realizando alguma coisa. Os românticos desvelaram assim um outro aspecto do niilismo.

Se o niilismo negativo é conhecido pela destruição dos antigos valores, pela falta de sentido para a vida, o niilismo positivo é justamente a criação de novos sentidos para a existência. É porque o sentido da vida não está dado, imposto pelas tradições e os laços simbólicos do passado, que o homem é livre para se apropriar de sua história e criar seu próprio sentido.

Superar o niilismo converte-se assim numa tarefa existencial. No mundo moderno, como nos faltam os referenciais simbólicos do mundo antigo – que, se por um lado eram amparadores, por outro podiam ser grilhões ao devir humano – somos livres para encontrar nossos próprios referenciais e criarmos a nossa vida a partir de nosso desejo. Nasce a ideia de que a vida não está dada, ela precisa ser conquistada. É preciso que o homem enfrente suas angústias, percorra um caminho próprio e autêntico, adquira maturidade, e assim encontre a profundidade do seu ser.

Realizar essa tarefa é o que diferenciaria aqueles que vivem uma vida autêntica daqueles que não tiveram a coragem de dar esses passos. Ainda assim, o sentido é sempre singular. Não se trata mais de um sentido da comunidade, mas cada sujeito deve encontrar os seus próprios valores. E se não há mais uma moral imposta para nos guiar, diria Nietzsche, como encontrar valores autênticos? Segundo o romantismo, através dos sentimentos.

O romantismo entende que os sentimentos são os indicadores da nossa autenticidade. Para o homem ser feliz, ele deve se guiar pelos seus reais sentimentos. O romantismo assume assim uma valorização do mundo interno, da subjetividade e das emoções humanas, colocadas em primeiro plano na questão existencial.

Para nós modernos, profundamente influenciados por essa ideia, parece óbvio pensar assim. Mas é preciso dar um passo atrás e perceber que antes do romantismo essa ideia não fazia tanto sentido como nos parece hoje. Por exemplo, se na Idade Média um homem procurava um padre para saber se deveria se casar ou não com uma mulher, o padre iria orientá-lo a partir das escrituras sagradas. Hoje, se você procurar um psicólogo ou um psicanalista com a mesma questão, ele lhe fará perceber como seus sentimentos lhe orientam em relação a essa pergunta.

Não é mais na tradição que o homem deve encontrar as respostas para sua vida, mas no seu íntimo, em seus desejos, como um verdadeiro romântico. Tal visão se tornou tão popular que é possível que até mesmo um padre mais moderno respondesse como um psicólogo se lhe fosse feita essa pergunta. O romantismo subjetivista da modernidade substituiu a moral das sociedades tradicionais como norteador ético.

Se um homem está insatisfeito com seu casamento, num mundo tradicional ele seria obrigado a se responsabilizar pelos votos simbólicos assumidos. Hoje entendemos que o sentimento deve se sobrepor à moral. Não nos espanta que alguém insatisfeito peça divórcio se o casamento não lhe vai bem. Afinal, o sentimento é mais importante que o código social. Os próprios códigos sociais se tornaram mais flexíveis, refletindo que sim, os sentimentos são mais importantes que as leis simbólicas dos homens, da sociedade e dos deuses.

O romantismo deslocou assim o problema do niilismo para uma questão sentimental, uma questão de amor. Não o amor sexual – embora na maioria das vezes seja dele que se trata – mas do amor enquanto paixão por algo que eleve o homem acima de si mesmo, sendo capaz de dotar sua vida de sentido. O mote de um romântico moderno bem poderia ser “faça o que você ama e sua vida terá sentido”.

Finalmente, a modernidade pode ser definida como o conflito entre racionalistas e românticos, em que ambas vertentes filosóficas coexistem numa complexa síntese. Vivemos numa sociedade cada vez mais técnico-instrumental, apoiada no desenvolvimento tecnológico, ao mesmo tempo em que ansiamos por um refúgio para as angústias do mundo tecnocrata na busca pelo amor, na esperança de uma vida mais autêntica, ideais evidentemente românticos.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Oleg Oprisco

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26.1.18

O problema do niilismo: o mundo da razão

Desde que o Ocidente começou a questionar os valores e concepções do mundo antigo e tradicional, seja através da ciência, da literatura ou da filosofia, alguns tem anunciado o niilismo como a destruição da moral e a ruína do homem. Depressão, indiferença, suicídio. Mas o que representa verdadeiramente o niilismo?

Para compreender o niilismo, antes precisamos nos remeter ao contexto de sua origem, percebendo como ele se relaciona com dois movimentos filosóficos modernos: o racionalismo e o romantismo. Como o assunto é extenso, dividirei o ensaio em duas partes, cada uma destinada a situar uma visão filosófica.

Sabemos que o ser humano é o único animal que necessita não apenas de abrigo e alimento para viver, como também de sentido. Sentir a sensação de propósito para nossas atividades cotidianas, conexão com algum contexto maior e que nossa existência não seja indiferente ao mundo. Até alguns séculos atrás, as tradições culturais da comunidade em que o homem se inseria compunham narrativas que forneciam o sentido que podíamos ansiar.

O mundo antigo era um mundo regido por tradições. Toda sociedade possui seus costumes, crenças, relações, que, mais do que particularidades culturais, são as ancoragens subjetivas dos membros daquela comunidade. Sabemos quem nós somos – da onde eu vim, para onde eu vou, o que eu devo fazer – a partir das crenças e experiências que compartilhamos com os outros.

As tradições locais e culturais constituem o laço simbólico ao qual nos filiamos para constituir a nossa existência, definindo nossa raça, nossa classe social, nossas expectativas quanto ao mundo. Ser camponês ou nobre representavam perspectivas existenciais muito distintas, assim como ser grego ou chinês, homem ou mulher. Diferentes filiações implicam em diferentes obrigações, ritos e responsabilidades em cada sociedade.

A religião tinha um papel fundamental no mundo antigo. Através dos códigos morais, a religião estabelecia quais comportamentos deviam ser encorajados ou punidos, explicavam a razão da existência dos seres humanos no mundo, e oferecia às pessoas – geralmente através de uma explicação metafísica – um sentido para viverem e realizarem algo durante a vida.

Tomemos a Idade Média como exemplo. Ser homem ou mulher representavam diferentes obrigações sociais. Assim como se nobre ou camponês. A religião cristã afirmava que a nobreza era uma missão divina, de modo que o nobre deveria defender e expandir os valores cristãos, uma tarefa pela qual era valoroso inclusive morrer. Já um camponês deveria saber que Jesus amava os humildes, e que sua vida de dificuldades seria recompensada após a morte, caso obedecesse a moral cristã. A religião oferecia um lugar e um sentido à vida, mantendo também a sociedade em funcionamento na medida do possível.

Para nós ocidentais, talvez seja mais fácil imaginar a sociedade medieval por conta da proximidade cultural, mas toda sociedade tradicional – chinesa, indígena, africana, romana etc. – funcionou do mesmo modo. Através de mitos, lendas e narrativas, símbolos sociais funcionaram como norteadores de sentido para cada ser humano que viveu neste mundo.

Cada ser humano acreditou fielmente na tradição de sua comunidade, e morreu acreditando nela. Muitas vezes, morreu em nome dela, defendendo-a até que uma espada cruzasse sua garganta. As crenças não apenas nos dão um sentido para viver, mas um sentido para morrer. O homem que vive com sentido alcança também uma “boa morte”, seja ao morrer em nome de sua pátria, comunidade ou mesmo de sua filosofia.

As crenças das sociedades tradicionais também ofereciam algum reconforto nas dificuldades. Quando se perdia um ente querido ou a terra era assolada por uma alguma peste, os homens encontravam nas narrativas metafísicas um sentido, e a esperança de que os deuses um dia recompensassem os homens que permanecessem fortes.

Porém, tudo isso começou a mudar quando surgiu a ciência moderna no Ocidente. Transformações culturais ocorridas no fim da Idade Média fizeram surgir um particular modo de pensar, conhecido como racionalismo.

O racionalismo não é exclusividade da modernidade ocidental. Na Grécia Antiga já existiam filósofos que defendiam uma visão racional de mundo. Também na China Antiga e em outras civilizações existiram pensadores igualmente racionais, se podemos dizer assim. Mas, em nenhuma dessas sociedades, este modo de pensar foi capaz de suplantar o modelo tradicional. Existiram apenas enquanto pensadores marginais. Somente na sociedade ocidental que o racionalismo difundiu-se ao ponto de transformar a própria forma como existimos em sociedade.

O racionalismo – também conhecido por movimento iluminista, embora não seja indicado usar este termo por nos dar a falsa noção de que a Idade Média foi um período de obscurantismo, sem nenhum valor filosófico – representou um período em que ideias centradas na razão começaram a se difundir. A ciência questionava os conceitos e valores difundidos pela Igreja e pela fé. O interesse científico era a realidade. Entender como as coisas funcionavam: os astros, o corpo humano, o pensamento.

A ciência se difere da religião na medida em que enquanto a primeira se preocupa com os fatos, a partir de uma ideia de realismo, a religião é uma ferramenta de valor. A ciência busca entender como o mundo funciona, enquanto a religião tenta explicar o porquê de existir um mundo, e qual valor podemos atribuir aos acontecimentos dele.

O método científico não é mais do que um método de investigação da realidade. A ciência pode dizer como os planetas giram ao redor do Sol, qual solo é mais produtivo para determinado plantio ou que forma de energia é mais rentável. Mas não pode dizer por que os planetas giram, por que devemos plantar um alimento e não outro, e qual o objetivo em se acumular mais energia.

Certamente poderíamos responder, através da ciência, que o movimento astronômico tornou a vida humana possível, que precisamos do alimento para viver, e que energia é necessária para as atividades humanas. Mas isso é mera questão técnica. Pragmática. Nada disso diz respeito ao sentido da existência, apenas às necessidades da manutenção da existência em si. A religião pode fornecer um sentido para a existência, e por isso religião é mais do que uma mera estrutura institucional. A própria etimologia da palavra (religare) está relacionada com “religação”, a conexão do homem com um propósito maior.

A emergência da ciência teve um efeito corrosivo ao modo de vida tradicional. A ciência, interessada pela verdade dos fenômenos, entrou em choque com o modelo tradicional de pensamento. O método científico, apoiado no ceticismo, questionou as verdades estabelecidas pela fé e a autoridade. Os valores e sentidos atribuídos pela religião e o pensamento tradicional.

Num mundo marcado pela ordem tradicional, em que ser homem ou mulher, nobre ou camponês, cristão ou judeu, representavam perspectivas existenciais muito bem definidas do seu nascimento à morte, o racionalismo começou a difundir valores como liberdade individual e tolerância à diferença. O liberalismo entendia o indivíduo como livre e responsável pelo seu destino, destituindo assim os laços simbólicos e tradicionais que o situavam enquanto raça, classe ou mesmo gênero.

O mundo racional dependia também da liberdade de expressão e da diversidade de pensamento. As ideias deveriam se mostrar verdadeiras através da demonstração científica e do debate, não pela autoridade. Isto, por exemplo, destitui o lugar de um velho pajé ou xamã de uma aldeia indígena. Numa sociedade racionalista, o saber do pajé não possui valor por ele ser o pajé, mas apenas se este saber puder ser verificável num método confiável.

A ciência questionava os valores tradicionais, concebidos como verdadeiros, para adotar uma verdade meramente pragmática, sempre parcial. O único critério que importa à ciência é a capacidade de um fenômeno ser explicado, previsto e, portanto, controlável.

O racionalismo deu assim início à era da técnica, em que os problemas humanos são vistos como questões operacionais. Cabe à ciência entendê-los adequadamente para encontrar sua solução. Doenças podem ser curadas se a medicina descobrir qual a sua causa. A fome pode ser reduzida se empregarmos sistemas mais eficazes de agricultura e pecuária. A miséria pode acabar se a política adotar sistemas econômicos eficientes em distribuir a riqueza. Distâncias podem ser encurtadas com a melhoria dos meios de transportes e comunicação.

Vivemos tempos de uma grande corrida tecno-lógica. Na crença de que o desenvolvimento técnico-científico poderá resolver nossos problemas, estamos sempre atrás de novos computadores, carros, ferramentas, aplicativos que facilitem nossas vidas. A corrida, porém, parece interminável. A cada ano surgem novidades sem precedentes.

O mundo antigo era um mundo de estabilidade. As pessoas nasciam, cresciam e morriam num mundo muito parecido. Ideias, costumes e ferramentas permaneciam praticamente intactos no transcorrer desse tempo. Já o mundo moderno assumiu um ritmo de transformações cada vez mais crescente. Não sabemos se nos próximos meses surgirá uma nova tecnologia que revolucionará novamente nosso modo de viver. Diante de tamanha imprevisibilidade, não há espaço para a transmissão de qualquer tradição. O homem deve estar sempre se adaptando ao novo, seja em seu trabalho, nas suas relações, ou em suas crenças.

Se os primeiros racionalistas tinham a ilusão de que a ciência iria um dia desvelar o funcionamento do Universo, prescindindo completamente da religião, alcançando um saber absoluto da realidade, essa posição hoje parece infundada. Como método, a ciência não alcança verdades definitivas, mas entendimentos parciais da realidade. A possibilidade de descobrir algo novo está sempre aí, não apenas porque a realidade pode ser mais profunda do que julgamos previamente, mas a própria ciência é sempre limitada pelo seu meio de investigação. Teorias científicas não simplesmente descrevem a realidade, como também as criam na medida em que selecionam evidências a favor, descartam índices contrários e dão privilégio a determinado modo de conceber o mundo. Não há uma teoria absoluta, mas diferentes teorias podem coexistir por tratarem do mesmo fenômeno por perspectivas diferentes, sem que um precise ser reduzido ao outro. O mundo em si permanece como absurdo e muito mais incompreensível do que nossas técnicas antropocêntricas poderiam alcançar.

A ciência também pode se tornar um pensamento religioso quando se acredita que ela é mais do que apenas um método para entender o funcionamento da realidade. Chamamos de cientificismo a crença de que a ciência, assim como a religião, pode dotar de sentido e valor a realidade que investiga. Um cientificista é alguém que acredita que a ciência – ou seu determinado modo de conceber a ciência – é uma visão de mundo onipotente para explicar todos os fenômenos, mesmo àqueles que extrapolam seu escopo, e qualquer outra forma de pensamento seja irrelevante. A mais alta demonstração da arrogância racionalista.

Porém, se levarmos a ciência e o pensamento racional a sério, não são às certezas que eles podem nos levar. A ciência questiona aquilo que pensamos ser verdadeiro – demonstrando que crenças religiosas sobre o céu e o inferno transmitidas por séculos parecem pouco prováveis, ou que classe social, casta ou gênero não definem quem eu realmente sou, pois não há qualquer destino divino para o que eu posso ser. Em resumo, a ciência libertou o homem dos grilhões do pensamento tradicional. No entanto, ela descartou algo junto com isso.

Mitos e lendas não são formas primitivas de explicar o mundo e transmitir conhecimento. As narrativas tradicionais compunham os alicerces simbólicos de uma comunidade. Através delas, os indivíduos identificavam-se com seus deuses, heróis ou antepassados, encontrando sentido para suas existências, dando continuidade a uma tradição maior do que eles mesmos.

O mundo da razão desprivilegiou as narrativas em favor das explicações lógico-matemáticas, fisicalistas e bioquímicas sobre o homem, esvaziando a vida humana de um sentido simbólico. Se o mundo moderno se tornou um lugar mais seguro e confortável para viver, amparado pelo avanço tecnológico crescente, parece ter se tornando também um mundo menos empolgante. Os altos níveis de depressão e suicídio dos países desenvolvidos indicam isso.

O niilismo, o sentimento de ausência de sentido para a vida, surgiu quando a razão moderna dissolveu a tradição como princípio norteador para a vida humana. A ciência destruiu as certezas do mundo antigo, mas foi incapaz de afirmar qualquer novo valor, já que isso não é de seu escopo.

A relação do homem moderno como o mundo foi precisamente descrita pelo personagem Morty num episódio da série Rick e Morty: “ninguém existe por um motivo, ninguém pertence a algum lugar, todos vamos morrer”.

Se a frase lhe parece desanimadora, essa foi exatamente a crítica dos conservadores ao mundo moderno. Tristeza, banalidade e indiferença. Os conservadores defendem que precisamos retomar as antigas tradições, inibir a razão, além de incentivar experiências simbólicas de transcendência através da fé.

Porém, o relógio da História não anda para trás. Não há retorno para as mudanças operadas pela ciência. Não por acaso, geralmente tratamos os conservadores como fundamentalistas loucos, que devem ser ridicularizados ou temidos. Ao mundo moderno, parece que há algo mesmo de loucura em se ter uma grande certeza sobre alguma coisa.

Coube ao movimento romântico dar uma resposta muito mais interessante ao problema do niilismo do que puderam fazer o conservadorismo e o racionalismo. Trataremos disso no próximo texto.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Rick and Morty

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22.11.17

A filosofia para viver bem (parte final)

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4. Como viver bem na modernidade

É curioso como alguns locais se tornaram centros irradiadores de conhecimento, cultura e transformações para a civilização. Durante alguns séculos, condições sociais e a reunião de figuras notáveis fizeram algumas regiões serem eternas no imaginário da humanidade.

É o caso da China Antiga, que poderemos discutir num outro momento, através de suas três grandes tradições: taoismo, confucionismo e budismo.

Em nossa série, abordamos outras duas regiões. A Grécia Antiga, terra de Sócrates, Platão e Aristóteles, mas também dos epicuristas, estoicos e céticos. E a França Moderna, pátria de Montaigne, Descartes, e, finalmente, os filósofos existencialistas.

Vimos anteriormente como a ausência de Deus defendida pelos céticos – a inexistência de uma verdade absoluta que sustente o Universo para além de um Vazio por detrás das aparências – criou um mundo ausente de um sentido maior. Se nada é verdadeiro, por que viver na falsidade?

Ansiamos em nosso íntimo por um propósito maior. Os homens buscam uma verdade pela qual viver, lutar e até mesmo morrer. No mundo antigo, talvez não fosse difícil encontrar isso: as pessoas tinham a sua cultura, os seus deuses, o seu povo. No mundo moderno, no entanto, o homem se depara com o vazio que tais categorias representam.

Minha cultura é apenas uma dentre muitas, todas bastante interessantes. Meus deuses são crenças que me ensinaram a acreditar desde a infância, e não os sinto necessariamente como verdadeiros. Meu povo são apenas algumas pessoas, e posso me sentir mais conectado com um irlandês ou um chinês do que com um outro brasileiro, meu vizinho.

A modernidade – a tecnologia, a globalização, o aumento dos horizontes – bagunçou bastante nosso senso de pertencimento, que sempre fora fundamental para definir nosso sentido de vida.

Mas o niilismo que aportou em terras francesas não teve outro destino senão a sua superação.

Ao invés de apostarem numa virada conservadora, filósofos como Albert Camus e Jean-Paul Sartre disseram que a ausência de sentido, antes de ser um problema, é uma esperança. O mundo não está já definido e escrito nas pedras como pensavam os antigos, mas somos livres para descobrir o nosso próprio sentido pessoal. Escrever a nossa própria história.

A impossibilidade de nos identificarmos absolutamente com uma identidade única ou uma determinada cultura fez de nós andarilhos. Sentimo-nos estrangeiros em nosso próprio mundo, abertos a diversas influências. Não nos sentimos tão presos à terra da qual nascemos, como eram nossos pais e avós, que apenas com muita dor se tornavam imigrantes, na falta de outra opção.

Podemos sentir a nostalgia de um antigo lar perdido, mas nosso desejo errático nunca o reencontra. Afinal, nosso desejo não se identifica com nada, e ao mesmo tempo se reconhece em tudo. O único lugar que certamente sabemos habitar são as redes sociais, que para além de simples dados compartilhados numa rede virtual de computadores, é um espaço de comunhão entre interesses e pessoas, ultrapassando língua ou geografia.

Temos que pensar assim numa nova perspectiva de eudaimonia. Como viver bem na modernidade?

Não há resposta inequívoca para essa pergunta. Mas depois desta longa trajetória filosófica, podemos dizer que recolhemos algumas pistas, que colocarei sob a forma de conselhos:

A. Não se leve tão a sério
O mundo vai para além de estar certo ou errado. No medo de cometer enganos ou parecer fracassados, abrimos mão de oportunidades de aprendizado, crescimento e surpresas positivas.

Não se cobre tanto. Muito daquilo que você exige de si mesmo são coisas da qual você não tem tanta certeza ainda, ou tampouco sabe se serão definitivas.

Não se preocupe se você parecer contraditório. No fundo, somos habitados mesmo por paradoxos. Faça sua mágica com eles.

B. Aceite suas limitações
Todo corpo eventualmente adoece. A beleza e a jovialidade tem um fim. Tem coisas que estão para além do nosso controle. Lutar contra o tempo é uma batalha perdida. Portanto, poupe sua energia para desfrutar dela.

Não tenha medo de morrer, de perder algumas coisas, ou do fim. É quando as coisas são limitadas – possuem um tempo – que elas são valiosas. Já imaginou quão insuportável seria se nossos dias fossem sempre iguais? São as coisas transitórias que tornam a vida especial.

E não tente evitar o sofrimento neste processo. Ele faz parte de tudo, tanto quanto as alegrias.

C. Entenda que, às vezes, você não sabe a resposta. E está tudo bem
Curiosidade e conhecimento são fundamentais. É muito melhor viver com sabedoria.

Mas entenda que nem sempre é possível ter todas as respostas. Existem coisas que estão para além do nossa compreensão do momento.

Existe uma coisa curiosa sobre a sabedoria: quanto mais você a descobre, mais você percebe que menos a tem. Quanto mais sabemos, vemos que as coisas são mais complexas e desconhecidas.

Aprenda a conviver com sua douta ignorância.

D. Tenha um ou mais amores
Não há outro remédio para a vida senão o amor. Seja o amor romântico por uma mulher ou um homem, o amor pelo seu trabalho ou pela sua obra, pela sua família, seus amigos, ou mesmo por uma causa. Não precisa ter todos na vida (e nem sempre dá).

Possuir um sentido de vida depende de como você ama.

Quando a gente perde uma pessoa amada – digamos, porque um relacionamento terminou – é como se a nossa vida perdesse o sentido, e nos deparamos com o tal vazio. De fato, você encontrou o que os niilistas avisavam. Mas isto não quer dizer que você não encontrará outros e novos amores.

Superar o niilismo é encontrar e mergulhar na sua paixão.

E. Seja simples
Simplicidade não significa abrir mão das coisas para ser como um eremita. Talvez algumas delas sejam muito importantes para você. Simplicidade é descobrir o que é fundamental para você, e aprender a viver com isso.

Uma tarde com os amigos na praia ou nas montanhas pode ser mais recompensante que aquela sonhada fortuna. Ver o seu trabalho ajudando outras pessoas é mais interessante do que causar inveja nos seus competidores. Ter uma casa tranquila e modesta para repousar em paz é mais fácil e econômico, além de menos estressante, do que sustentar uma mansão na região mais cara da cidade.

Quanto mais você precisa para se satisfazer, mais trabalho você terá para conquistar e manter a sua posição. O que pode se revelar bem estressante. Se você deseja uma vida mais tranquila – praticando a ataraxia – os filósofos sempre recomendaram encontrar a alegria na simplicidade.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Andrew Neel/unsplash

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